Breve história da Tapeçaria de Bayeux (c. 1070-1080)

 

Por volta de 1070, Odo, bispo de Bayeux (c. 1030-1097) e meio-irmão do duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador (c. 1028-1087), encomendou a feitura de um bordado em linho para comemorar a vitória e a conquista normanda da Inglaterra em 1066. Esse bordado, que seria utilizado na festa de consagração de sua catedral, em 1077, ficou conhecido como Tapeçaria de Bayeux (c. 1070-1080).

Embora fosse bispo, Odo participou ativamente daquela guerra de conquista. Como a Igreja se opunha a que os padres derramassem sangue com a espada, Odo conduziu seus cento e vinte cavaleiros na batalha protegido por uma resistente cota de malha, e atacou os inimigos anglo-saxões com uma imensa maça, esmagando suas cabeças.

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Cena 32 da Tapeçaria de Bayeux em que Odo, em seu cavalo negro, brande sua imensa maça contra um inimigo.

Com a vitória de seu meio-irmão, Odo se tornou um dos homens mais ricos de seu tempo. Feito conde de Kent, apesar de ter sido brutal e truculento, paradoxalmente foi um grande mecenas das artes. A própria feitura do bordado foi monumental: quase setenta metros de comprimento de tecido de linho, com dezenas de cenas ricamente adornadas em cima e em baixo com imagens de seres fantásticos e momentos da vida cotidiana dos guerreiros e até dos homens comuns.

I. A Normandia

Mas para entender a estória narrada na Tapeçaria de Bayeux é preciso recuar um pouco no tempo, quase duzentos anos antes dela ser bordada. No final do século IX, os vikings partiram da Dinamarca com seus grandes barcos para atacar e saquear as ilhas britânicas. No continente, avançaram pelos rios para chegar às cidades francas: entre centenas de ataques, chegaram até assediar Paris durante um ano (886).

Os francos se defenderam como puderam, mas deixaram o litoral desprotegido. Somente em 911, o rei Carlos, o Simples (r. 898-922) resolveu o problema de uma maneira muito inteligente. Ele cedeu, em um pacto firmado em Saint-Clair-sur-Epte, a região da foz do rio Sena para os vikings (que, na verdade, já estavam instalados ali). Em troca, seu chefe, chamado Rolo (ou Rollon), lhe seria fiel e protegeria aquela terra de outros ataques.

Rolo (†c. 932) cumpriu a promessa, abandonou o paganismo e abraçou o cristianismo. Tornou-se conde de Rouen. Seus vikings se casaram com mulheres do lugar e seus filhos e netos rapidamente se aculturaram e passaram a falar a língua dos francos. Eles ficaram conhecidos como normandos, e sua terra, a Normandia.

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Mapa da Europa ocidental por volta de 923. Nas ilhas britânicas, destaca-se a supremacia de Wessex, e o domínio escandinavo na Escócia e no litoral sul da Irlanda, além da colonização da Normandia. In: McEVEDY, Colin.Atlas da História Medieval. São Paulo: Verbo/EDUSP, 1979, p. 55.

O neto de Rolo, Ricardo I (942-997), já se chamava “marquês dos normandos”, e seu filho, Ricardo II, casado com Ema (irmã do rei franco Hugo Capeto, 987-996), se intitulava “duque e patrício” (997-1027). No fim desse processo de aculturação, no século XI, os normandos já se consideravam francos, embora mantivessem uma distância segura da monarquia franca para manterem sua independência.

Apesar de sua brutalidade e violência (decepavam pés e mãos e arrancavam os olhos de seus inimigos), os normandos tornaram-se cristãos fervorosos, pois ergueram grandes igrejas e abadias (com escolas), e atraíram intelectuais como Lanfranc de Pavia e Anselmo de Aosta. Assim, entre mosteiros e castelos, entre o rude treinamento militar e a devoção a Deus, eles desenvolveram muito a região.

A quinta geração de Rolo teve no duque Roberto I (o Magnífico, 1027-1035) seu representante. Mas de magnífico Roberto não tinha nada: inescrupuloso e implacável, ele subiu ao poder após matar seu irmão mais velho e confinar o sobrinho e herdeiro em um mosteiro. Contudo, Roberto governou com rigor seu ducado, que assim prosperou. Ele se apaixonou por Harlete (ou Hèrleve), filha de um curtidor de peles da cidade de Falésia. Tomou-a como amante favorita, seguindo o costume dinamarquês, e dela teve um filho, Guilherme, o Bastardo (1035-1087, mais tarde conhecido como Guilherme, o Conquistador). Embora não tenha reconhecido o filho, Roberto se casou com aquela camponesa no ritual cristão.

Depois que Harlete deu-lhe uma filha, Roberto casou Harlete com um rico aristocrata (Herlvin de Coteville), e ela teve dois filhos, Odo e Roberto. Esses dois meio-irmãos de Guilherme, futuros bispo de Bayeux e conde de Mortain, participariam da conquista da Inglaterra trinta anos depois.

Arrependido por seus pecados, Roberto decidiu realizar a peregrinação de penitência até Jerusalém, em 1035. Despediu-se dos seus como se despede na hora da morte – e morreu no caminho, na Anatólia. Seu herdeiro era o bastardo Guilherme.

Apesar do apoio de seu senhor, o rei franco Henrique I (1031-1060), parte da nobreza local não aceitou Guilherme como sucessor de Roberto. Foram anos de anarquia e guerras privadas. Guilherme escapou de várias tentativas de assassinato e, aos 16 anos, foi armado cavaleiro pelo rei Henrique. A partir de então, consolidou seu ducado e ampliou suas fronteiras, em guerras contra seus parentes e contra o próprio rei Henrique, agora temeroso de seu poderio. Guilherme conquistou o condado de Maine e se impôs como senhor no ducado da Bretanha.

Além disso, casou-se com Matilde, filha de Balduíno de Flandres, apesar dela ser casada (vivia separada do marido), ter dois filhos e ter dito que “preferia ser uma freira coberta de véus a casar-se com um bastardo”. Parte do clero se opôs. Guilherme depôs o bispo Malger e o abade Lanfranc, e queimou parte da abadia de Bec. Lanfranc então convenceu o papa Nicolau II (1058-1061) a aceitar o casamento.

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Guilherme, duque da Normandia.

Para expiar seus pecados, Guilherme construiu em Caen a famosa Abbaye aux Hommes. Com seu casamento, ele aliou-se ao conde de Flandres. Assim, após ampliar seu ducado, fortalecê-lo e organizá-lo como uma verdadeira monarquia, o governante mais poderoso do norte da França estava preparado para conquistar a Inglaterra.

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Abbaye aux Hommes.

II. Na Inglaterra

Entrementes, a Inglaterra também sofrera com os ataques escandinavos, e a dinastia real tinha muitas ligações com o continente, especialmente com o norte e a Normandia. Seu rei Etelredo II, o Irresoluto (979-1016) passou a pagar um tributo aos invasores que ficou conhecido como Danegeld. Buscou apoio com Ricardo I da Normandia (942-997), e se casou com sua filha, Ema (c. 982-1052). Em 1002 ordenou um massacre de todos os dinamarqueses da ilha e, em represália, o rei Sweyn I da Dinamarca (c. 965-1014) atacou a Inglaterra, em 1003 e 1013.

Abandonado por seus nobres, Etelredo II fugiu para a Normandia. Sweyn tornou-se rei, mas com sua morte (1014) Etelredo atacou novamente, mas morreu em Londres. Seu filho, Edmundo, o Resoluto, lutou contra o filho de Sweyn, Canuto, que o venceu em Assandun (1016), sendo, assim o novo rei.

Após banir os filhos de Edmundo e matar seu irmão, Canuto propôs casamento a Ema, refugiada na Normandia. Ela concordou e, de uma só vez, Canuto selou um acordo com o duque da Normandia. Com a morte de Canuto (1035), a Inglaterra foi governada durante cinco anos por seu filho, Harald Harefoot que, antes de morrer, chamou da Normandia o filho sobrevivente de Etelredo e Ema, Eduardo, seu meio-irmão, para que assumisse o trono. Ele entrou para a História como Eduardo, o Confessor (1042-1066).

Eduardo era um monge de espírito, não um rei. Por ter permanecido quase trinta anos na corte normanda, trouxe consigo vários nobres normandos que ocuparam postos importantes na administração real.

Apesar de ter-se casado com Edith, irmã do poderoso conde Godwin de Essex, Eduardo viveu de fato o ideal monástico da castidade e não consumou o casamento. Construiu a abadia de Westminster e, com sua morte, a sucessão foi disputada. Ainda em vida Eduardo nomeou Haroldo, filho do conde Godwin, como seu sucessor e o Witan (assembléia dos poderosos do reino – condes, cavaleiros e bispos) confirmou essa escolha. Haroldo foi coroado em 1066, mesmo ano em que perderia a coroa e morreria na batalha de Hastings.

Foram duas as questões que originaram a pretensão de Guilherme ao trono inglês e sua conseqüente invasão. Alguns anos antes de morrer, o rei Eduardo recebera-o, e teria lhe prometido a sucessão do trono. Por sua vez, em uma de suas viagens à Inglaterra, Haroldo teve sua embarcação lançada por uma tormenta no litoral de Ponthieu (norte da Normandia). O conde dessa região, Guy, aprisionou-o e entregou-o a Guilherme, que só o libertou com a promessa dele render-lhe homenagem e jurar defender suas pretensões ao trono quando Eduardo falecesse.

III. As cenas da Tapeçaria de Bayeux

Como o bordado conta a estória da conquista normanda na perspectiva dos vencedores, é natural que inicie sua narrativa com a viagem e a prisão de Haroldo pelo conde Guy de Ponthieu (cenas 1-6). Haroldo é levado à presença do duque Guilherme e ainda o acompanha a um ataque contra o duque Conan, da Bretanha (cenas 7-11).

Após essa batalha, Haroldo faz-se vassalo de Guilherme, e a Tapeçaria mostra ricamente a cerimônia feudal, com Haroldo tocando suas mãos em duas caixas, contendo relíquias sagradas, um gesto para sacramentar sua palavra (cena 12).

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Haroldo (à direita) faz seu juramento, e o duque Guilherme (sentado em seu trono, à esquerda) assiste.

Após fazer o juramento de fidelidade a Guilherme, Haroldo retorna para a Inglaterra e, logo a seguir, o rei Eduardo falece (cenas 13-15). Haroldo é coroado e a passagem do cometa de Halley assusta a todos: é um mau presságio para a nova monarquia (cenas 15-16). Guilherme recebe a informação da morte de Eduardo e a coroação de Haroldo e ordena a construção dos navios para o ataque à ilha (cenas 17-18), embarca com seu exército e chega à Pevensey (cenas 19-21).

Guilherme realiza um banquete para comemorar a chegada à ilha (cenas 22-23) e depois de alguns ataques eles saem para lutar contra o rei Haroldo em Hastings, no Sussex (cenas 24-26). A Tapeçarianão mostra, mas o rei Haroldo acabara de vencer outro ataque invasor, o dos noruegueses, na batalha de Stamford Bridge. Essas duas invasões aconteceram no outono, tempo preferido para a guerra naquela época.

Haroldo é informado da posição de Guilherme, e começa a batalha de Hastings (cenas 27-28). De um lado, normandos a cavalo com escudos e longas lanças, auxiliados por arqueiros; do outro, os anglo-saxões a pé, com machados, espadas e escudos. No total, cerca de 7.000 homens lutaram naquele dia (14 de outubro de 1066).

A cavalaria normanda ataca a infantaria saxã, e os irmãos do rei Haroldo são mortos (cenas 29-30). Há muitos mortos, e os anglo-saxões se defendem no topo da colina do ataque normando. O bispo Odo incentiva seus cavaleiros, e o conde Eustace carrega a flâmula do papa – que apoiou as pretensões de Guilherme – para incentivar a todos (cenas 31-32). A infantaria anglo-saxã começa a se render, o rei Haroldo recebe uma flechada fatal no olho, e morre (cenas 33-34). Com a morte do rei o exército inglês se dissolve e começa então o botim, enquanto alguns cavaleiros ainda perseguem anglo-saxões em fuga (cenas 34-35).

IV. Conclusão

O bordado conhecido como A Tapeçaria de Bayeux é um dos maiores documentos imagéticos da Idade Média. Suas cenas são repletas de realismo e, através dela, podemos ter uma excelente noção de como se fazia a guerra no século XI e qual era o tipo de vida dos nobres e guerreiros, suas roupas, armas, comida, castelos, etc.

A vitória normanda em Hastings mudou a história da Inglaterra para sempre – e a forma de se fazer a guerra na Idade Média. Começava a época da cavalaria.

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Bibliografia

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