Do fim do Mundo Antigo à Alta Idade Média (100-600 d.C.)

Resumo: Análise do fim do mundo antigo e a formação das estruturas sociais, culturais e econômicas que deram origem à sociedade medieval.

Abstract: Analysis of the end of the ancient world and the formation of social, cultural and economic conditions that gave rise to the medieval society.

Palavras-chave: Mundo Antigo – Invasões bárbaras – Idade Média.

Keywords: Ancient World – Barbarian invasions – Middle Ages.

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Augusto de Prima Porta (20 d. C., 2,04 m, mármore, com restos de policromia, Museo Chiaramonti, Vaticano, nº 2290). Augusto está representado como o thoracatus comandante supremo do exército romano. A obra deve ter sido parte de um monumento comemorativo das últimas vitórias do imperador.

Acossado pelas tribos bárbaras, o mundo antigo decaiu até quase desaparecer.1 Nos primeiros séculos da era cristã, os hunos do leste e os saxões do norte irromperam através das fronteiras do Império. Seu colapso é normalmente representado como a destruição de uma refinada civilização. No entanto, a verdade é um pouco mais complexa. Os invasores não apenas destruíram: sobre as ruínas do passado, eles construíram uma nova e duradoura sociedade. Algumas estruturas, como a Igreja Romana, eram tradicionais, mas outras eram novas (como mais tarde, por exemplo, o feudalismo, que exaltava os guerreiros e as mútuas obrigações sociais). Mas infelizmente pouco sobreviveu desse período conhecido como Alta Idade Média (100-600) e é muito difícil reconstruir com precisão o fim do mundo antigo.

Há dois mil anos, sociedades com economia avançada e alta cultura formaram um cinturão da metade sul da Europa até a Ásia, do Pacífico ao Atlântico. Ao redor do Mediterrâneo, Augusto (63 a.C- 14 d.C.) consolidou o Império e instituiu a pax romana.

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Extensão do Império Romano no período de Augusto. Em amarelo, a extensão da República romana em 31 a.C.; em verde, os territórios conquistados durante o período de Augusto; em rosa, as zonas sob a tutela de Roma.

Seus sucessores estabeleceram novas fronteiras na Germânia, na Grã-Bretanha, nos Bálcãs e no Oriente Próximo. A expansão romana para o leste foi contida pelo Império Parto. Durante o século II d. C., Roma atacou a Pártia sem êxito. As legiões obtiveram diversas vitórias, mas não consolidaram o novo território.

A Pártia e o Império Kushan (seu vizinho do leste) perduraram. Em 226, esses dois estados se uniram sob a dinastia dos Sassânidas, que governaram as terras da Síria até o Punjab. Eles criaram uma brilhante civilização que durou cerca de quatrocentos anos.

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Cabeça de rei (séc. IV) período sassânida (prata dourada, 40 cm), indício do grau de refinamento técnico e artístico a que chegaram as civilizações sedentarizadas antes das grandes invasões.

Um século após os sassânidas tomarem a Pérsia, um novo império surgiu na Índia, o da Dinastia Gupta, com a capital Punjab às margens do rio Ganges, e seus estados que se estendiam do Punjab a Bengala.

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Máxima extensão do Império Gupta, no iníco do século V.

A autoridade de Chandragupta I (morto em 330) era aceita até os confins oficiais do Império. Nessa época, os dias gloriosos da dinastia Han na China haviam terminado, e suas possessões se dividiram entre alguns reinos mais fracos. A China era originalmente governada por um estado equiparado ao Império Romano em população e extensão territorial. O imperador Han Wu-ti (157-87 a.C.) avançou as fronteiras chinesas até os limites da Pártia.

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A Rainha Kumaradevi e o rei Chandragupta I em uma moeda de seu filho Samudragupta (350-380).

A coexistência desses grandes impérios fez com que extensas áreas do globo desfrutassem de paz e de um governo eficaz. Por isso, o comércio cresceu em uma escala nunca vista. As mercadorias fluíam, especialmente do Leste para o Oeste. Artigos caros e leves, como a seda e as especiarias, eram transportadas de caravana ou barco. Em conseqüência disso, moedas de ouro e prata eram levadas em grande quantidade ao Oriente, entre as fronteiras de Roma e da China.

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O imperador Han Wu-ti (artista anônimo da dinastia Han).

Os impérios Kushan e Parto apoiaram esse comércio “internacional”, guarnecendo os caminhos, protegendo as caravanas, e assim as tarifas prosperaram. Com isso, não só o comércio foi beneficiado: diferentes culturas entraram em contínuo contato. Milhares de pessoas, desde marinheiros a condutores de camelos, de mercadores e estrangeiros, viajavam pela Ásia, da China ao Mar Cáspio, do sul da Índia até a Síria.

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O Budismo se espalhava da Índia em direção ao Oriente, o Cristianismo no sul da Índia, e, na Ásia Central, a Igreja nestoriana.2 Por volta de 100 d. C., existia uma rede de sociedades avançadas, prósperas e ordenadas, que se estendiam da China através da Índia e da Pérsia, até o Mediterrâneo. Contudo, no século IV, o comércio transcontinental viveu o seu fim. Cada uma dessas brilhantes civilizações estava em ruínas graças, em parte, aos nômades.

Eles habitavam as terras do norte, e viviam a cavalo, tal como seus descendentes, os kiris afegãos. Seguiam suas ovelhas e gado, pelas mesetas e montanhas da Ásia Central. Quando encontravam um pasto adequado, permaneciam ali. Mas caso houvesse animais em excesso para o pasto disponível, ou se o clima piorava, os nômades partiam. Assim, eles moviam-se pelas sociedades agrícolas vizinhas, vivendo entre a subsistência e a inanição. Ademais, invasores da estepe podiam surgir a qualquer momento, saqueando e destruindo o que encontravam pelo caminho, fugindo velozmente, o que fazia com que esses nômades tivessem esse modo de vida.

Depois de 100 a. C., os ataques passaram a ser cada vez mais freqüentes. Para sobreviver, o mundo civilizado precisava de uma nova tática defensiva. No tempo do imperador Han Wu-ti, a China sofreu vários ataques dos invasores do norte. A resposta imperial foi estender e melhorar a Grande Muralha, e defendê-la com milhares de tropas. Enquanto os soldados puderam ser pagos, essa estratégia funcionou.

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Império Han (séc. I).

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Torre (modelo arquitetônico, dinastia Han, c. 25-220), grés (argila misturada com areia fina) com chumbo verde vidrado, 104 cm.

No século III, o Império Romano enfrentou uma pressão semelhante, e respondeu também de forma similar. Por volta de 85 d. C., o imperador Domiciano (81-96) erigiu uma rede de defesas fronteiriças entre o Reno e o Danúbio contra as tribos germânicas.

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Denário de Domiciano (c. 88-96). O filho de Domiciano (à direita) é representado como um jovem Júpiter sentado sob um globo com as mãos levantadas para sete estrelas, que representam a constelação da Ursa Maior (3, 51 g).

Adriano (117-138) fez o mesmo na Bretanha contra os escotos. A Muralha de Adriano, uma impressionante combinação de muros, fossos e caminhos entre o estuário Saue e o rio Tyne, tinha mais de cem quilômetros e 27 grandes fortes.

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Restos da Muralha de Adriano (Vallun Aelium, 122-126) em Greenhead Lough, Northumberland.

Outros imperadores romanos construíram mais fortes no norte da África contra possíveis ataques de tribos do deserto. Ocasionalmente as legiões também atacavam e invadiam novas terras, capturando botins e escravizando prisioneiros. Seus triunfos nos Bálcãs foram orgulhosamente registrados em Roma na Coluna de Trajano (c. 113 d. C.); ali os legionários são representados como bravos defensores do modo de vida romano.

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Coluna de Trajano, Roma, 113 d. C. (e detalhe), 38 m (no interior, uma escada em espiral com quase 200 degraus!).

Contudo, tanto sua função quanto sua imagem logo mudaram. Com tantos soldados, o custo dos soldos fugiu de controle. Mas uma redução das tropas deixaria as defesas fronteiriças imperiais perigosamente desprotegidas. E, no século III, os ataques se tonaram mais freqüentes. Portanto, o exército deveria crescer. Qualquer atraso no pagamento poderia gerar motins. Novos impostos somados aos já existentes mantiveram as tropas em seus postos.

Problemas similares ocorreram em Han. Mas enquanto a China era auto-suficiente, Roma tinha que importar artigos da Índia e da Pérsia, e não só espécies e jóias, mas também animais exóticos para as lutas no Coliseu. Estes custos se elevavam constantemente. Por exemplo, uma medida de trigo que valia 06 dracmas no século I, subiu para 200 dracmas em 276 d. C., 9.000 em 314, 78.000 em 334, e posteriormente para mais de 2.000.000.

Na China, uma inflação semelhante provocou constantes revoltas campesinas. Em 184 d. C., uma insurreição conhecida como a Revolta dos Turbantes Amarelos começou nas províncias do Planalto de Chuan e durou trinta anos. Quando terminou, a China caiu nas mãos de líderes militares regionais, e permaneceu assim por mais de três séculos.

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Ilustração do período da dinastia Qing (c. 184-205) que representa o senhor da guerra Liu Bei (161-223) e os generais Guan Yu (morto em 220) e Zhang Fei (morto em 221) lutando contra os rebeldes dos turbantes amarelos, em 184, na China.

O Império chinês se debilitou ainda mais pela irrupção da peste em 162 d. C., que avançou pouco a pouco pelo Ocidente ao longo das rotas transcontinentais de comércio até que golpeou o mundo mediterrâneo em 165, causando um enorme morticínio.

Contudo, o Império Romano ainda conseguiu sobreviver. Marco Aurélio (161-180) conduziu os seus legionários à vitória além do Danúbio, tal como revela sua coluna em Roma. Com o crescimento das pressões externas, Diocleciano (284-305) reorganizou o governo imperial mais autoritariamente.

Em 330, Constantino (306-324) fundou uma nova cidade no Bósforo, Bizâncio, rebatizada como Constantinopla, logo convertida na capital oriental do Império, agora dividido em dois, com um centro em Roma no Ocidente, e Bizâncio, no Oriente. Esta divisão seria fatal. Só uma capital sobreviveu.

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Moeda de cobre (follis) de Constantino, cunhada em Lugdunum (Gália, c. 310) com o Deus Sol Invictus (à direita), 5,10 g.

Os nômades do século IV aterrorizaram as sociedades e impérios do mundo antigo com um poder destruidor que hoje surpreende, já que originalmente eram pastores que seguiam suas ovelhas no verão e as abrigavam em grandes tendas de peles no inverno. O gado e as tendas eram quase toda a sua riqueza.

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Guerreiro sentado com arco (séc. IV). Paquistão ou Afeganistão, estuque, 45,7 cm.

Braceletes, colares, e outras jóias estavam entre os poucos luxos que se permitiam, já que podiam ser transportados como suas armas. Seus arcos, lanças e sabres, eram muito eficazes em batalha, e sua velocidade era inigualável. Uma boa definição conceitual para eles é a de confederações de cavalaria ambulante. Sua expansão começa em 304, quando os hslung-nu, uma tribo asiática, partiu da Grande Muralha da China e saqueou as duas capitais do norte, Loyang (311) e Chang-an (316). Durante os dois séculos e meio, a China ao norte do rio Yangtzé (Chang) foi dominada e devastada por uma sucessão de invasores da estepe.

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Principais invasões do Império Romano (100-500).

Pouco depois, outra tribo asiática, os hunos, avançou até o Ocidente, atravessando toda a Ásia a cavalo. Em 370 d.C. eles irromperam na Rússia. Amiano Marcelino, principal historiador romano do século IV, assim os descreveu:

Eles têm membros compactos e firmes, pescoços grossos, e são tão prodigiosamente feios que os poderíamos tomar por animais bípedes (...) São rudes no seu modo de vida, de tal maneira que não têm necessidade nem de fogo nem de comida saborosa; comem as raízes das plantas selvagens e a carne semicrua de qualquer espécie de animal (...) Ninguém entre eles lavra a terra ou toca o arado (...) Histórias, Livro XXXI, 2, 1-11.

O avanço dos hunos forçou os visigodos, estabelecidos na Ucrânia, a invadirem o Império Romano à procura de segurança. Em 376, cerca de 80.000 visigodos ocuparam a atual Bulgária. Dois anos depois, combateram, venceram e exterminaram em Adrianópolis várias legiões romanas, partindo a seguir em direção à Itália. As legiões restantes resistiram por um tempo, mas em 410 os visigodos espantaram o mundo ao saquear Roma, como afirma São Jerônimo (c. 347-420), estupefato: “Quem acreditaria que Roma, edificada pelas vitórias sobre todo o universo, viesse a cair?” (Comentário sobre o Profeta Ezequiel, Livro III).

Novamente em movimento, os visigodos criaram o Reino de Toulouse, no sul da França e boa parte da Espanha. Com isso, outras tribos germânicas aproveitaram a oportunidade para cruzar o rio Reno congelado. Vândalos, alanos e suevos invadiram a Gália em 406 e a tomaram três anos antes de fazer o mesmo na Espanha. Em 429, os vândalos invadiram o norte da África romana. Cartago caiu em 439, e, em 455, os vândalos navegaram em direção a Roma e também a saquearam.

A Gália foi novamente invadida, desta vez por burgúndios alemães, que se estabeleceram no noroeste, e francos, que ocuparam boa parte do norte. A Bretanha foi atacada por sucessivas ondas de jutos, anglos e saxões oriundos das terras bálticas. Por volta de 440, esses bárbaros já haviam conseguido um equilíbrio permanente no sudoeste da Inglaterra. Londres deixou de ser uma cidade romana, para o desespero dos bretões romanizados.3 Os romanos foram forçados a fazer concessões e pagar suborno aos invasores para comprar trigo fora de época.

Uma política mais resoluta do Império venceu a última grande invasão de nômades dirigida por Átila, o Huno (406-453). Em 451, os hunos avançaram em direção ao norte da Gália, mas as forças romanas, apoiadas por francos e visigodos, venceram os hunos em uma grande batalha próxima a Châlons (Batalha dos Campos Catalúnicos).

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Broche anglo-saxão do século VI (liga de cobre dourado e esmalte negro (nielo), 13,5 cm. Este broche dourado, provavelmente utilizado para prender um manto, ilustra bem o notável desenvolvimento da metalurgia bárbara – um dos prováveis motivos do sucesso das invasões, sua avançada tecnologia, e a preferência anglo-saxã pela decoração luxuosa, com particular ênfase nas formas de animais fantásticos. Tiras negras incrustadas como moldura enriquecem ainda mais sua superfície multifacetada, animada por cabeças de animais e bicos de aves projetados nas bordas (Levy Hermanos Foundation Inc., e J. William Middendorf II Gifts, 1985).

A seguir, em 451, os hunos aterrorizaram a Itália, mas, sem chegarem a Roma, se retiraram para os Bálcãs, onde Átila morreu em 453. O caos reinou até que os ostrogodos dirigidos por Teodorico, o Grande (454-526), moveram-se em direção ao Ocidente dentro da Itália em 488, e criaram um reino estável e romanizado que durou meio século.

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Os reinos germânicos no final do século V.

Na Ásia, outro ramo dos hunos conhecido como hunos brancos, irrompeu através do Kush indu. Em 480 destruíram o Império Gupta no norte da Índia. Em 484 invadiram parte da Pérsia e assassinaram o governante sassânida em batalha antes de se estabelecerem em Rasputana e converterem-se ao Hinduísmo. No final do século V, grande parte da Ásia Central era um caos, bem como o Império Romano.

O oeste estava fragmentado. Havia francos e burgúndios na Gália, um reino visigodo na Espanha, e um ostrogodo na Itália. Na Bretanha, pequenos estados anglo-saxões se instalaram ao sul e leste da Inglaterra; na África do Norte os vândalos permaneciam uma força desafiante. Em todas as partes, os invasores procuraram compartilhar os benefícios da civilização romana, acolhendo-a como própria.

Contudo, ainda havia imperadores romanos, mas que não governavam do Ocidente, e sim a partir de Constantinopla, capital oriental. Sob o maior dos imperadores bizantinos, Justiniano (483-565), o legado imperial não só foi preservado, mas expandido. Em 527, as possessões bizantinas estavam confinadas ao Mediterrâneo oriental, mas quando Justiniano morreu, Bizâncio havia reconquistado o norte da África, as ilhas do oeste e grande parte da Itália.

Mas a sorte bizantina não durou. Em uma segunda onda, vieram mais bárbaros. Os avaros entraram na Europa nos anos 550, e semearam novamente o terror na Gália, na Itália e nos Bálcãs. Com eles, os eslavos nos Bálcãs e oriente da Europa, os lombardos no norte da Itália, e os búlgaros, que colonizaram o que é hoje a Bulgária.

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Mosaico de Justiniano (Basílica de Sant Vitale, Ravena, c. 540), detalhe que ilustra bem as profundas mudanças estéticas já visíveis no século IV e que simbolizam o lento nascimento de novas civilizações, tanto no Ocidente quanto no Oriente europeu.

Na Ásia, os efeitos das invasões não foram tão prolongados como na Europa. É surpreendente ver o quanto da civilização clássica chinesa sobreviveu, quando por fim foi restaurado o império depois de 581 pelos Sui e os Tang. Contudo, o norte da China sofreu terrivelmente. O dinheiro desapareceu e surgiu um sistema de trocas. Mas o sul foi preservado dessa decadência, e acolheu muitos chineses. Os invasores do norte utilizaram métodos chineses de governo e cooperaram com a aristocracia local e os administradores. O sistema chinês os absorveu, e eles adotaram seus costumes e cultura.

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No ano 600, o mundo havia mudado quase completamente. Os antigos impérios caíram e suas civilizações foram parcialmente esquecidas. Na Europa Ocidental, os escritores clássicos gregos e romanos (filósofos, poetas, historiadores, geógrafos, etc.) só sobreviveram em documentos pacientemente copiados à mão nos mosteiros: a Igreja Católica foi o principal – senão o único – veículo institucional que transmitiu a alta cultura romana para a Idade Média. Ela foi o alicerce cultural para o renascimento carolíngio dos séculos VIII-IX e o arranque civilizacional da Idade Média Central (séculos X-XIII), com a criação das universidades e a difusão do ensino.

Além disso, houve o desenvolvimento das técnicas agrícolas que proporcionaram à Europa Medieval a notável explosão demográfica do século XIV (antes da Peste Negra) e o aumento da expectativa de vida de 20 anos – no mundo antigo – para 35 anos!

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Em contrapartida, as linhas de comunicação e os antigos laços comerciais foram suspensos. Já não viajavam carros nem legionários pelas rotas romanas. As grandes cidades, símbolos da civilização clássica, estavam em ruínas. Roma estava desolada: 1/3 dela estava praticamente coberta pelo mato, seu grande Fórum jazia em silêncio, e seus aquedutos, destruídos.

Enquanto a Europa entrava em um período de estagnação social que durou até cerca do ano mil, o resto do mundo antigo se via sacudido por uma nova força: o Islã, que derrotou os impérios sassânida e bizantino, avançou até a fronteira chinesa e conquistou o norte da África e quase toda a Península Ibérica. O Islã desafiou o equilíbrio mundial e converteu-se na civilização mais dinâmica desse período. Os seguidores do profeta Maomé (c. 570-632) rechaçaram os nômades e criaram uma confederação de “estados” muçulmanos.

A Europa foi obrigada a depender de seus próprios recursos e defender-se só com suas forças. Até as Cruzadas (1096-1272), a força motriz da História esteve basicamente no Oriente e no Islã. Depois, com o Ocidente Medieval cristão – até o século XX.

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Astrolábio de 'Umar ibn Yusuf ibn 'Umar ibn 'Ali ibn Rasul al-Muzaffari (latão fundido, martelado e perfurado, incrustado com prata; 19,4 x 15,6 cm), período Rasúlida (dinastia sunita do Yêmen, 1228-1454).

Notas

  • 1. O tema é velho conhecido da historiografia internacional. Assim, para desenvolvê-lo, tomei como base a abordagem teórica empiricista conhecida como Institucionalismo Neoclássico e propugnada na produção do eminente historiador e medievalista britânico Geoffrey Barraclough (1908-1984), além da obra O Milagre Europeu, de Eric L. Jones (Lisboa: Gradiva, 1987). Ambos os autores relacionam os acontecimentos no Ocidente com o processo semelhante ao que ocorria no mesmo período na Ásia (China, Índia e Oriente Próximo).
  • 2. Nestório (c. 386-451) defendeu que Cristo tinha duas naturezas, uma humana e outra divina. Por isso, se opunha que Maria fosse chamada “Mãe de Deus”. O nestorianismo foi declarado herético no Concílio de Éfeso (431).
  • 3. Ver COSTA, Ricardo da, e OLIVEIRA, Bruno. “Visões do apocalipse anglo-saxão na Destruição Britânica e sua Conquista (c. 540), de S. Gildas”. In: Brathair, 1 (2), 2001: p. 19-41.

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