A experiência de traduzir Curial e Guelfa

Ricardo da COSTA

1. Minhas parcas impressões do Alvorecer da Modernidade

Um mundo inteiramente novo. Belo. Profano e mundano. Elegante. Cortês, mas muito mais acentuadamente cortesão do que a mais extrema cortesia medieval trecentista. E, sobretudo, refinado. Polido. Essas foram as primeiras impressões que eu tive ao iniciar a leitura (e a tradução) da novela de cavalaria Curial e Guelfa, juntamente com o acesso a uma bibliografia que me permitisse adentrar com a melhor compreensão histórica possível nesse mundo novo.

Mundo novo não. Talvez fosse melhor dizer Mundo da Modernidade. Júlia Butiñá prefere Humanismo. Seja como for, um mundo com um misto de permanência e inovação, de resto, como todo tempo histórico. Contudo, confesso que o século XV particularmente sempre me pareceu um grande enigma, um buraco negro, pois eu não conseguia – e talvez ainda não o consiga inteiramente – fixar uma imagem nítida de seus contornos, de suas ambiguidades, de suas múltiplas manifestações culturais.

Não sei se consegui, repito: em muitos momentos, pensei que o mundo do cavaleiro Curial ainda era o medieval (não é esse o pensamento de Jacques Le Goff e Jérôme Baschet, o da longa Idade Média?), mas, em muitos outros, certos maneirismos e expressões de sentimentos, e, sobretudo, o puro sincretismo entre o mundo mitológico e o cristão, faziam-me hesitar: não, trata-se do Alvorecer da Modernidade, para utilizar uma bela expressão de um livro de História de Portugal coordenado por Joaquim Romero Magalhães. Nesses momentos de convicção de estar adentrando em um mundo não-medieval (ou de uma medievalidade em decadência), vinha-me sempre à mente a original e esquecida ideia de Ricardo Garcia-Villoslada, qual seja, que a Idade Média definitivamente morreu quando da bofetada de Agnani, isto é, no início do século XIV! Afinal, o que foi o século XV?

Para piorar ainda mais a minha hesitação temporal, por outro lado, havia ainda o supremo problema da visão retrospectiva a pairar sobre a mente do autor de Curial e Guelfa, pois essa novela foi escrita na segunda metade do século XV, mas sua narrativa e seus personagens pertencem ao XIII. O anônimo escritor redigiu sua história com um background de duzentos anos! O que de Curial pertence ao século XV e o que ao XIII? Afinal, o que foi o século XV?

Deixarei esse dilema ao leitor desta introdução. Como esse leitor tem, neste volume de Curial e Guelfa em língua portuguesa, uma eruditíssima Introdução do Prof. Antoni Ferrando (Universitat de València), editor do texto original que serviu de base para o meu trabalho de tradução, consolo-me em destacar apenas alguns traços que me foram particularmente marcantes quando lidei com as palavras do século XV, palavras quatrocentistas que contaram histórias de amor e guerra do mundo medieval.

Palavras que procuraram sempre a verossimilhança, tanto de seus personagens quanto de sua narrativa, característica já destacada por Antoni Ferrando em sua Introdução. Curial e Guelfa é uma novela de cavalaria, gênero literário distinto dos livros de cavalaria por seu realismo e sua vinculação a fatos reais da época de seu autor (os livros de cavalaria, pelo contrário, situam suas narrativas em tempos fantásticos e terras maravilhosas, com dragões, magos etc.). Essa notável distinção foi estabelecida por Martí de Riquer, que classificou Curial e Guelfa e o Tirant lo Blanc como as duas únicas novelas de cavalaria!

Hoje definiríamos Curial como uma novela histórica. Nela, em primeiríssimo lugar, os ricos eram muito mais ricos – ou nunca foram tão ricos até aquele momento. Um luxo – e um ponto que diferencia bastante o contexto histórico quatrocentista retratado na novela em relação à Idade Média, quando a distância material entre senhores e camponeses era muito menor. No mundo medieval, a nobreza era muito mais rude e bem menos opulenta. Caso pudesse cometer um anacronismo, ao traduzir os deslumbrantes ambientes sociais que nosso protagonista percorre ao longo da narrativa, volta e meia vinha-me à mente o esplendor e o brilho das Escolas de Samba do carnaval carioca. Pois não há pobres em Curial e Guelfa. O mundo cortesão não olhava para baixo. Os homens disputavam um lugar ao Sol ao redor das casas nobiliárquicas, como a do marquesado de Montferrat. Nesse luxo só, todos estavam deslumbrados. Exibicionistas, pavoneavam-se com suas pérolas e pedras preciosas, diamantes e safiras, broches, correntes de ouro e cintos ornamentados. Pois sua honra se traduzia também no brilho de seus ornamentos. Nas tendas. Nos cavalos. Deveria reluzir.

Esse é um traço marcante na novela e, segundo Antoni Ferrando, completamente ausente tanto da literatura castelhana quanto da catalã do século XV. Por esse motivo, Ferrando considera que esse refinamento de Curial é tipicamente italiano – o mesmo da novela Le Petit Jehan de Saintré (1448).

Ele é tão marcante que, para imaginá-lo de um modo mais ideal, regularmente eu recorria às imagens da época registradas na Arte – vali-me então das propostas metodológicas de John Lewis Gaddis e de Peter Burke (o passado como uma paisagem a ser descortinada e o uso das imagens como fontes históricas complementares aos textos) – para assim melhor representar mentalmente as cenas, os personagens e suas vestimentas descritos em Curial, em que pese o notável caráter imaginativo da novela, isto é, sua enorme capacidade de criar imagens em seus leitores, decorrente da fluente prosa de seu autor.

Por isso, Curial tem um brilho tão intenso em sua prosa que quase ofusca seu leitor, embora seja uma beleza vã, estética efêmera, fugaz como o falatório que envolve o protagonista no dia seguinte às suas vitórias cavaleirescas. Beleza transitória como a vida, ela transparece em Curial no tom quase poético com que o autor descreve as luxuosas vestes dos personagens, além de toda a simbologia relacionada à cavalaria.

A estética inconsequente de Curial ressalta aos olhos do leitor quando surge o único momento verdadeiramente transcendente de toda a novela, anticlímax de sua narrativa: a exortação do Javali, cavaleiro convertido monge, que admoesta Curial e lhe roga que abra os olhos para a transitoriedade da vida e a importância das coisas perenes, belíssimo discurso-puro medieval inserido na mundanidade humanista cortesã. Caso seja uma paródia, como pensa Julia Butiñá – ou apenas um contraste à mentalidade moderna que preside a muitas ações dos protagonistas, como afirma Antoni Ferrando – o efeito foi o inverso do pretendido pelo autor da novela, pois, embora o protagonista não tenha dado ouvidos àquela peroração, as palavras proferidas pelo Javali ecoaram em minha mente, principalmente em meu coração. Em Curial, elas foram o canto de cisne literário da filosofia medieval, transcendência per se, que deu lugar à transitoriedade da vida, à beleza pela beleza, à alegria vã e inconsequente de viver.

Nesse fútil burburinho das cortes quatrocentistas em Curial a natureza feminina é elevada à condição suprema de fio condutor das ações masculinas. Na vida, tudo gira ao redor delas. Os homens são joguete em suas mãos. Desde Melchior de Pandó até Curial, do imperador teutônico ao Javali, todos são marionetes – exceto quando estão no testosterônico mundo da guerra. O consolo é perceber que “eles” já não têm medo “delas”, como certa vez afirmou Georges Duby em relação aos feudais (embora eu não tenha tanta certeza disso). Não obstante, “elas” continuam pensando uma coisa e dizendo outra, para o desespero dos desqualificados em compreender as sutilezas da alma feminina.

Nesse sentido, trata-se de uma novela sentimental, tão sentimental quanto cavaleiresca (influência de Boccacio). Seu título deveria ser Guelfa e Curial, ou Guelfa, Camar e Curial, ou simplesmente Guelfa, pois, de fato, além de as mulheres serem o pano de fundo do palco da vida em que o protagonismo é a inconstância da existência masculina, os homens passam maus bocados por sua causa – Curial que o diga.

Mas por que não Guelfa e Curial? De minha parte, sempre desconfiei dessa história do gênero atualmente em voga, que vitimiza as mulheres do passado. Mesmo a historiografia mais recente, como um texto de Claudia Opitz, apresenta sempre o mesmo quadro: os homens desprezavam as mulheres, que, por sua vez, eram “dominadas” e “submetidas” contra a sua vontade. Na contramão dessa corrente, certa vez, a grande historiadora Barbara Tuchman escreveu: “A tirania dos homens não era tão total quanto as feministas de hoje nos querem fazer crer” (e isso em 1989!). Nada mais verdadeiro em relação a Curial.

A historiografia – ou uma parte dela – já percebeu que o amor cortês medieval operou uma verdadeira revolução nos hábitos masculinos nobiliárquicos. Eles (lentamente, é verdade) aprenderam a aceitar a vontade feminina. Nesse aspecto, a posição jurídica feminina diante da Igreja foi fundamental: ela podia dizer não, e um padre não poderia obrigá-la a se casar! Ademais, como eu mesmo afirmei certa vez, a elevação da condição feminina nos círculos aristocráticos fez com que elas protagonizassem o processo de domesticação dos impulsos e a gradativa transformação do cavaleiro em cavalheiro.

E Curial não é exatamente isso? Cavaleiro e cavalheiro. Mais: cavaleiro-perfeito, rude e gentil, agressivo e doce, ele reúne todas as qualidades necessárias (e exigidas) para ingressar no mundo nobiliárquico moderno. Homem da guerra, Curial sabe ser duro quando necessário, mas também preenche perfeitamente os requisitos exigidos em qualquer corte europeia: não só dança graciosamente, mas também canta, além, é claro, de ser um homem de letras (característica do nascente Humanismo).

***

Outro notável traço de Curial e Guelfa é a forma com que seus atores sociais manifestam seus sentimentos, de modo intenso e profundo. Tem-se a nítida impressão de que nós, no alvorecer do século XXI, ficamos mais insensíveis, embrutecidos tanto pela sociedade de massa surgida no século passado quanto pelas tradições interpretativas histórico-materialistas que atualmente ainda dominam em muitos círculos a compreensão do passado. Seja como for, ao ler Curial é impossível não se lembrar do primeiro capítulo do clássico O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga (“A veemência da vida”): tudo que o homem vivia ainda era revestido de um teor imediato e absoluto que, no mundo atual, só se observa nos arroubos infantis de felicidade e dor.

Em contrapartida, em Curial as pessoas sentem verdadeiramente as coisas: choram e se alegram intensamente – Curial chega a ser advertido por Melchior de Pandó por chorar como uma mulher! O historiador holandês já o sabia: é enorme o contraste entre a sensibilidade do século XV e a de nosso tempo, algo normalmente olvidado por boa parte dos historiadores profissionais, afeitos que estão à análise de fontes “oficiais”, quando já não estão com suas percepções amortecidas a respeito de quão maravilhoso é o debruçar-se sobre a “carne” humana − característica do historiador par excellence, já destacada por Marc Bloch. Mas, para esses espíritos menos sutis, só há um remédio: debruçarem-se sobre as Crônicas. Em nosso caso, sobre as novelas cavaleirescas. Sobre Curial e Guelfa.

Pois são novelas como essa que resgatam em nosso espírito o vigoroso pathos das sociedades pré-industriais como a medieval (e a moderna): as paixões. Foram elas que impulsionaram as pessoas; elas são o traço mais marcante de seus comportamentos. Como tudo na vida era feito com o suor das mãos (e do coração), tudo também era mais valorizado, apreciado, sentido.

São novelas como essa que expressam as paixões e, assim, atenuam a terrível sombra que a historiografia projetou sobre esse período: desde a notável Barbara Tuchman e seu Um Espelho Distante – o terrível século XIV, até Henry Pirenne e Luis Suárez Fernández, mas principalmente pela opressiva tradição marxista, que só viu crise após crise (como, por exemplo, nas obras de A. H. de Oliveira Marques e Guy Bois). A imagem tenebrosa da vida dos séculos XIV-XV exposta por essa tradição historiográfica não poderia ser mais contrastante com a leveza e a delicadeza de Curial. Aqui não há crise, só fartura, opulência, esbanjamento. Seria isso uma fuga literária do mundo? Ou será que os homens de então não perceberam que viviam em uma depressão? Ou ainda: será que existia realmente uma depressão?

Atualmente os historiadores econômicos, como Philippe Contamine, consideram o período de 1460 a 1492 como o de uma fase de reconstrução, uma pós-crise, mas isso ainda é muito pouco para explicar a fulgurante vida social que brota das páginas de Curial, mesmo que seja apenas na (pequena) camada superior daquela sociedade. Ao ler Curial, percebe-se que era a vida uma obra de arte, e não o Estado, como pensava Jacob Burckhardt. E embora a novela seja muito mais fruto de suas influências de além-Pireneus (francesa, italiana e occitana) do que propriamente castelhana – não nos esqueçamos que a construção da Espanha foi um processo pluralíssimo! – ela é hispânica, uma de suas mais originais e diversificadas vertentes, mas hispânica. Não é à toa que esse período é considerado o Grande Século da História da Espanha, o centro do tempo histórico de sua cultura, a essência do resplendor de sua amplitude cósmica, como frisou o grande historiador José Enrique Ruiz-Domènec. Curial e Guelfa expressa muito bem esse extraordinário sentido poético da vida percebido pelos homens (e mulheres) de então, naquele cadinho tão cosmopolita e europeu no sentido mais generoso da palavra como o é a Catalunha.

2. A nossa tradução

Esse trabalho nasceu após dois generosos convites do gentilíssimo Prof. Vicent Martines Peres (Universitat d’Alacant – UA): o primeiro, para integrar o Projeto IVITRA de tradução; o segundo, para traduzir essa belíssima novela de cavalaria. Para isso, recebi todo o apoio da maravilhosa equipe de IVITRA, nas pessoas dos professores Antoni Ferrando (Universitat de València – UV), Julia Butiñá (Universidad Nacional de Educación a Distancia – UNED), Maria Ángeles Fuster Ortuño (UA) e Elena Sánchez López (UA), que me forneceram as duas traduções de Curial e Guelfa para o espanhol, revistas, livros, teses de doutorado, além, é claro, da edição filológica realizada por Antoni Ferrando. Ademais, eles acompanharam muito atentamente o meu trabalho, sugerindo, corrigindo, acrescentando. Sua generosidade e entusiasmo são ímpares.

Ao deparar-me com o texto da novela, percebi que teria que dar um passo a mais em relação aos meus trabalhos anteriores com a riquíssima cultura medieval catalã. Um desafio. O nível da prosa de Curial é alto, sua linguagem é culta, sua narrativa fluida e simultaneamente erudita, resultado de um estudo profundo do catalão por parte de seu poliglota autor (que certamente sabia italiano, castelhano e francês). Só assim ele poderia criar tão bem sua refinada linguagem e mesclá-la com os recursos da língua “popular” (falada pelo povo). Por isso, as duas traduções feitas pelas professoras Fuster Ortuño e Julia Butiñá foram fundamentais durante o processo de tradução, embora, confesso, em vários momentos deparei-me com passagens e palavras que, mesmo com a confrontação das duas traduções, foram verdadeiras encruzilhadas.

Para conseguir encontrar o melhor tom prosístico neste trabalho, consultei regularmente algumas importantes traduções: a de Italo Eugenio Mauro para a Divina Comédia, Jorge Wanderley para o Inferno; Claudio Giordano para o Tirant lo Blanc; Carlos Nougué e José Luis Sánchez para o Dom Quixote, além de duas edições de Os Lusíadas (uma brasileira, outra portuguesa, online) e a bela edição da Real Academia Española do IV Centenário de Don Quijote de la Mancha. Como em nosso país ainda não há uma cultura de tradução dos clássicos, tampouco de valorização dos tradutores, pesquisar o trabalho dos melhores torna-se imprescindível para que não se cometam muitos erros.

Se a grande Barbara Heliodora está certa em sua apreciação da dramaturgia elisabetana, que “aproveita o melhor de dois mundos, o medieval e o renascentista” – e está, como sempre – Curial e Guelfa expressa, mesmo que ironicamente, como defende Julia Butiñá, o melhor do mundo laico medieval, além dos primeiros pólens germinais do Humanismo, no que todos estão de acordo. Por isso, e espero que a minha leitura não tenha sido excessiva, Curial tem os dois pés na fértil terra medieval, o coração no Humanismo, e os olhos voltados para o Renascimento. Essa abertura no tempo que a novela oferece exige um razoável trânsito existencial de, no mínimo, trezentos anos, entre os séculos XII-XV. Talvez por esse motivo haja um bom número de notas explicativas (colocadas no final da tradução), além do fato de Curial fazer muitas citações mitológicas.

Essa última característica da obra impediu-me de realizar a tradução ideal que defendem Carlos Nougué e José Luis Sánchez: a pura transparência, o puro deixar ver a obra traduzida, e, portanto, o puro desaparecer do tradutor para o leitor. Isso porque a erudição do autor de Curial obriga necessariamente que seu leitor do século XXI procure essa mesma altura. No entanto, na medida do possível, procurei ser o mais fiel ao texto original, acrescentando palavras somente quando a frase para o português assim o exigia, como, por exemplo, nas muitas cenas cavaleirescas – a movimentação dos cavaleiros fazia com que fosse necessário colocar mais palavras do que as constantes no original. Mas isso foi sempre feito na estrita medida para que a tradução fluísse com a mesma naturalidade do texto traduzido. Essa opção foi mantida até nas passagens em que a rudeza medieval expressava suas grosserias (como, por exemplo, as palavras “puta” e putaria” – cap. III.23). Aliás, essa é uma das características interessantes da obra: a mescla de erudição e de linguagem coloquial, como já foi destacado pelos especialistas.

Em um belo artigo, o historiador português José Mattoso afirmou que a ridicularização do cavaleiro andante por parte de Cervantes fez com que o mundo ocidental perdesse um dos seus mais belos ideais. Em contrapartida, Mario Vargas Llosa considera que Dom Quixote não assassinou o romance de cavalaria, mas lhe tributou soberba homenagem. Seja como for – e não quero nem devo entrar nesse debate interminável – o fato é que, caso fosse conhecida por Cervantes, a novela de cavalaria Curial e Guelfa certamente teria sido incluída no Quixote, como o foi o Tirant (exatamente por ser realista, e não fantasiosa como os livros de cavalaria!). O passar do tempo não lhe retirou a leveza: além de belíssimo, ainda é um texto de leitura muito agradável, mesmo já sendo um senhor de mais de quinhentos e cinquenta anos!

Mas para que minha tentativa de transposição desse clássico catalão para a nossa língua chegasse a razoável bom termo, não posso deixar de tornar pública a minha gratidão com a equipe internacional que eu tive a honra e o privilégio de prestar contas durante um ano. Agradeço sobremaneira a Julia Butiñá Jiménez, a Antoni Ferrando, a Vicent Martínez e a Maria Ángeles Fuster Ortuño, pelo envio de material bibliográfico, pelas revisões e correções de meu trabalho.

Agradeço também aos estudantes do Projeto de Pesquisa “O Alvorecer do Humanismo: a novela de cavalaria Curial e Guelfa (séc. XV)” (Grupo de Pesquisa do CNPq: Humanismo, Literatura e Filosofia) que esteve ao meu lado durante toda a empreitada: Dionne Miranda Azevedo, Ana Maria de Almeida Brito e Ana Gláucia Oliveira Motta, com seus olhares argutos (e femininos!) para cada erro meu, e também Francis Rasseli dos Santos, o primeiro a se interessar pelo tema, Braulino Antonio dos Reis Neto, Fhylipe Menezes de Faria, Alyne Maioli, e Felipe Lube de Bragança. Espero que Curial frutifique em seus corações.

Last but not least, a presença do Prof. Armando Alexandre dos Santos na revisão final do texto traduzido encheu-me de alegria, não só pela enorme erudição do amigo, mas também pelo rigor de sua correção da língua pátria, o que proporcionou ao texto final uma elegância que, sozinho, certamente eu não conseguiria impor. Ter meu nome ao lado do seu em uma publicação desse porte é um luxo que eu devo à Divina Providência (e não à Fortuna!).

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Nas notas ao fim do livro, aproveitei as que foram feitas pelas professoras Maria Ángeles Fuster Ortuño e Julia Butiñá Jiménez em suas respectivas traduções de Curial e Guelfa para o espanhol, mas acrescentei muitas outras para o público de língua portuguesa. Ademais, à medida que realizava a tradução, a novela sugeria cada vez mais imagens à minha mente, como flashes de pinturas (particularmente as cenas em que havia personagens mitológicos). Por isso, aproveitei as excelentes ideias do grande erudito e amigo Pere Villalba i Varneda em sua obra Roma a través dels historiadors clàssics, e de Umberto Eco (História da Beleza, História da Feiúra e A Vertigem das Listas) e relacionei nas notas explicativas informações de quadros e afrescos de pintores que se inspiraram nos personagens mitológicos citados em Curial. Acredito que vislumbrar a Arte em seu momento mais sublime ajudará o leitor a imaginar o que o autor anônimo de Curial sonhou ao redigir sua obra.

***

Após quatro anos de trabalho, quando terminei a tradução do Livro das Maravilhas de Ramon Llull, fui tomado por tamanha felicidade que, por um momento, ousei desejar ser lembrado, caso um dia o fosse, por aquele trabalho. Depois, com o Livro dos Feitos do rei Jaime I, instado que fui mais quatro anos pelo então estudante Luciano José Vianna, senti que havia contribuído em algo para o estudo da Idade Média em meu país. Quanta pretensão!

Agora, com Curial e Guelfa, não mais creio ter conseguido nada, só uma tênue esperança: a concretização do próprio ato de traduzir, de pensar o passado com as palavras que foram pensadas naquele tempo histórico. Creio que a tradução, além de ser o momento de maior concentração da mente do historiador, momento em que ele, de fato, é um historiador, como bem o afirma Richard Fletcher, é também, e sobretudo, um gesto social. Essa bela afirmação pertence a José Enrique Ruiz-Domènec. Para ele, a tradução é um gesto social porque o “novo” livro é apresentado a uma “nova” sociedade, para pessoas que necessitam entendê-lo e que, por algum motivo, não podem fazê-lo na língua original.

Não ouso dizer, como Ruiz-Domènec, que a tradução “põe fim ao castigo de Deus para com a humanidade por ter construído a Torre de Babel”, mas tenho a consciência, sim, de, com meu trabalho, oferecer ao público de língua portuguesa essa que é considerada uma das joias do século XV. Se eu consegui polir esse diamante da cultura catalã à altura da língua de Camões só você, leitor, poderá dizer.

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Fontes consultadas

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