A Tragédia de Caldesa (c. 1458)

Ricardo da COSTA

In: Cortijo Ocaña, Antonio & Vicent Martines (eds.).
Multilingual Joan Roís de Corella. The Relevance of a Fifteenth-Century Classic of the Crown of Aragon
Joan Roís de Corella Multilingüe. La importància d’un clàssic de la Corona d’Aragó del segle XV
.
Santa Barbara: University of California at Santa Barbara (Publications of eHumanista), 2013. 242 páginas
(ISBN 978-607-9557-9-6).

A publicação de Antonio Cortijo Ocaña e Vicent Martines (disponível no link) apresentou vinte traduções do primeiro parágrafo de A Tragédia de Caldesa – inglês, árabe, asturiano, croata, dinamarquês, francês, galego, alemão, grego, húngaro, italiano, japonês, occitano, persa, polonês, português, romeno, russo, espanhol e tagalo. Por esse belíssimo motivo, qual seja, o da amplidão linguística da proposta, não foi possível publicar nossa tradução integral. Assim, para que os leitores de língua portuguesa tenham a oportunidade de apreciar a beleza estilística do texto de Joan Roís de Corella, disponibilizamos abaixo nosso trabalho.

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A Tragédia de Caldesa (c. 1458)

Razões de um imprevisto caso ocorrido com uma dama1

Joan Roís de Corella (1435-1497)2
Trad.: Ricardo da Costa3
Rev.: Ricardo Monteiro4

A tão elevado grau o extremo de minha dor alcança que, no momento, me dói saber que em algum instante possa ser verdade minha tristeza terminar. Supero nisto os infernados: estar triste me deleita, feliz estou por minha dor eternamente cultuar. E se a meu ressentido pensamento alguma hora a morte possa se me apresentar, recuso aceitar, mas só pelo deleite que a perda de minha vida me possa proporcionar. Como, portanto, a causa de tanta dor pode se expressar? Que papel sofrer posso pela mácula de tamanho crime? Consentirá o ar que a voz se adeque para que tamanha culpa claramente se declame? Que se abra o inferno, que espíritos imundos sejam expelidos, que voltem os elementos à confusão primeira, que claramente a culpa dos condenados se revele, pois o mundo, em terror convertido, alegria não pode celebrar, que calados permaneçam os rios, que se apressem os angustiados montes, que os mares ferventes os peixes lancem às ribeiras, que o Sol repouse sob esta terra habitável e nunca mais aos nossos olhos seus dourados cabelos estenda, que não se contem mais dos anos os doze meses, e só uma noite o vindouro compreenda.

Mas por que desejo, com tão generosas palavras, crime tão inestimavelmente torpe apreciar, o qual, devidamente considerado, pavor de tão repulsiva maravilha consigo traz, que é impossível aos ouvintes, sem grande alteração, os ouvidos abandonar a tão profanas palavras?

Na parte do mundo a qual ainda hoje da gentil filha de Agenor nome próprio resta, na feroz e belicosa província da Espanha, no deleitoso e agradabilíssimo reino de Valência, dentro dos muros de sua maior cidade, reinando aquele que ao valoroso troiano sucedeu em igual ânimo, rei Dom João5, uma ínclita donzela, de beleza sem par, em sagacidade superando a todas as outras, com tal graça e extrema singularidade que louco seria quem em sua presença a alguma outra louvasse em estima de tanto valor, deliberou, após a seu serviço muito tempo de meu dolorido viver gasto tinha, que meus fatigados pensamentos, junto com minha pessoa, na desejada bainha de sua saia descansassem.

Longa história seria avaliar o papel que as enamoradas razões, entre nós, como mostra de extrema benevolência, passavam. Dissimulava a bela senhora tanta alegria por meus serviços passados e palavras presentes que seu ser em mim confiava. Tudo o que a sua vontade, pessoa e viver diziam respeito, à própria sorte entregou-se à discrição de meu conhecimento. Mas como a mim não poderia ser possível paraíso neste mundo ter alcançado, pouco após tão tranquila situação, após tocarem à porta da casa, disse-me a prudente senhora que naquela hora esperava uma pessoa, a qual sem tardar facilmente a dispensaria e a mim retornaria porque, mais um pouco de descanso aquele dia e ninguém poderia separar duas pessoas que, com extrema benevolência em tão elevada e deleitosa concórdia, harmonizavam.

Com a esperança de tão discretas notícias, permaneci só nos aposentos, cuja porta ela não se esqueceu, como fiel zeladora que era, de fechar. Não sei se faltava janela àquela casa tenebrosa, pois a mim pareceu, duas horas depois do meio-dia, a noite com suas escuras asas ocupar a terra, ou Apolo ocultar sua luminosa face, imaginando, algo desarrazoado, que aquela casa fosse por ele iluminada no momento de tão desonesto crime ser cometido.

Assim, só, passei a maior parte daquele amargo dia, acompanhado somente por muitos e incertos pensamentos. O corpo, oprimido pelo pesado fardo daqueles incertos pesares, prostrado sobre o leito, aguardava o fim de tão incômoda tarde. Contudo, meus atribulados pensamentos, não consentindo em minha pessoa estar inerte, impeliu-me a passear e a seguir a variedade de minhas tristes e diligentes reflexões. Assim, dirigi os olhos a uma pequena janela que para o pátio da casa se descortinava, quando vi um homem que, comedido, à espera de alguém, suavemente caminhava, respondendo, aos que da bela senhora se perguntavam, em quais secretas e tão importantes ocupações estava.

Oh, piedosos ouvintes! Transportai vossos misericordiosos pensamentos a mim e respondam se alguém já sofreu semelhante dor! Com dolorosa meditação mirai a melancolia que naquele momento suportavam meus tristes pensamentos para esperar o fim de tão doloroso abismo! Mas porque postergo o tempo com palavras tão adequadas a tanto sofrimento, já que é impossível tão grande tristeza ponderar?

Ao fim, restando tão pouco do dia que os cavalos de Febo após as colunas de Hércules o Ocidente pisavam6, meus lacrimosos olhos mereceram testemunhar a tão estimada donzela partir dos aposentos e, com gestos e palavras, abraçar, além de outras mostras de amor extremo, porém inimigo da honestidade, a um enamorado, e assim exibir sua imagem: experiente, hábil, graciosa e gentil continência que da escrita abandono, porque o fim da presente só tende a manifestar o quanto a magnitude de minha desventura as demais supera. E como desenlace de minha adversa fortuna, o derradeiro desfecho como despedida ao meus ouvidos chegou, ao modo de semelhantes palavras: “Adeus, idiota!”, encerrando assim a derradeira sílaba com um beijo desonesto, cujo som meus ouvidos ofendeu, não de menor ofensa que os do lado esquerdo do desolador vale sentirão, quando Nosso Senhor disser: “Ide, malditos, ao fogo eterno”7, quando, com justa sentença, neste mundo formará suas últimas palavras.

Após partir da casa o tão estimado enamorado, apossou-se da senhora tamanha prontidão e humilde reverência que somente sua saia salvou seus joelhos de tocarem o áspero chão, além de transparecer em sua bela face não pouca tristeza por sua ausência. Acompanhou seu afastamento com um piedoso e enamorado olhar, para só então aproximar-se de um poço, que pouco espaço dela distava. Com aquela fria água tentou ela amenizar de seu delicado rosto o calor e a cor que, na não sangrenta, porém prazerosa e deleitável batalha de Vênus havia contraído. Ao aproximar-se do cárcere de minha triste prisão, ou aposento, tão logo abriu a porta, dissimulou alegria ao ver-me, tanto quanto havia demonstrado verdadeira dor com a partida daquele que tanto amava.

Contudo, estava sua delicada pessoa maculada, como rosas mescladas com lírios brancos manuseadas por sujas mãos; pois a pessoa do galante que com ela repousado havia era o oposto, tão inconforme que era, à delicadeza de tão tenra donzela.

Oh, Deus imortal, que o mundo rege com número, peso e medida8, e administrais as criaturas com a ordem devida, não rechaceis outra vez colocar as Vossas inestimáveis e amadas costas no estreito palo para, por fim, redimir tão profana culpa! Ao questionar-me se sua tardança me havia sido raivosa, e se os tratos que eu deveria me desvencilhar sem a sua presença seria possível de serem encerrados, com grande sofrimento, no limite de minha dor, os olhos cravados na terra, me despedi, com uma trêmula língua que formou, em duas estrofes, razões de semelhante modo:

Rapidamente mover-se-á a Estrela do Norte9,

e todos os céus simultaneamente cairão em pedaços;

tornar-se-á frio o fogo alto na esfera,

e do mais fundo do mundo verão o centro;

mostrar-se-á a Lua banhada de sangue                                                  05

e, inteiramente enegrecido, o Sol perderá sua forma

antes que eu novamente coloque os olhos em vós.

Meu corpo, do mais fino cabelo até a unha,

mirando a vós, partir-se-á em pedaços,

e tornado pó, não receberá sepultura,                                                     10

nem o mundo tão celerada cinza,

nem poder-se-á fazer retornar a língua

para dizer: “Que descanse em paz, alma maldita!”,

caso Deus permita que meus olhos voltem a vê-la.

E se é verdade que já vos disse “nunca” senhora,                                15

que não se encontre no ano o dia de meu nascimento,

somente meu nome, a todos abominável,

e que não haja no mundo pessoa que o cite,

pelo contrário, apagado das mentes humanas,

que meu ser passe como um vento,                                                          20

que considerem falso o que pertenceu a meu viver,

e nada de mim, no mundo, permaneça.

E ainda, se por acaso, de meu corpo algo restar,

que seja comida para os animais selvagens,

e que cada um tome a parte de uma centelha,                                      25

para que em inúmeros lugares esteja meu sepulcro

e que o finito mundo não encontre carne minha,

para que não se permita que eu jamais ressuscite.

 

Entendeu a ínclita senhora, pelo doloroso estilo de minhas palavras, que a grandeza de sua culpa fora claramente manifesta. Assim, com muitas lágrimas, suspiros e soluços, com uma voz tão conforme, gentil e delicada que não é possível recitá-la de modo semelhante, respondeu em rimas estrambotas10 a seguinte estrofe, acompanhada de um gesto não estranho ao significado de suas palavras:

Claramente vejo que, na mundana orla,

Deus não criou pessoa tão culpável;

e eu cometi tão abominável culpa

que no Inferno não encontro pena igual.

É-me a morte mais doce que o açúcar.

Se fazê-la podeis, que em vossos braços eu morra.

Cabe a vós tomar vingança em mim,

se vos parece suficiente que eu expire por suas mãos,

ou, se desejais, coberta por um cilício,

irei pelo mundo, peregrina romeira.

Deus não permitirá que o passado seja feito,

mas caso espere a correção de meu viver,

eu assim o farei, como Madalena,

e vossos pés lavarei com semelhante água.

Se loucura é principiar fim impossível de atingir, louca coisa seria tentar escrever os contrastes que meus dolorosos pensamentos combatiam, após ter escutado resposta com tão humildes palavras. Gostaria, ao preço de minha vida, que seu tão grande erro pudesse ser remido. Oh, como preferiria beber a água do rio Lete11 porque, o passado ausente da memória só no presente chegasse meu entendimento ao fim! Estaria mais alegre esta bela senhora, em singulares partes dividida, e sua gentil pessoa com tão sutil entendimento seria minha parte, e que sua falta e inconstante vontade, por uma falsa estima guiada, procurasse um corpo feio e disforme, em parte por aquele que indignamente a havia tratado.

Com pensamentos tão diversos, parti daqueles aposentos, ou sepulcro, onde tanto padecimento havia sofrido. A pena, que frequentemente em graves males descansa, aceitou a presente, com meu próprio sangue como tinta, para que tal cor com a dor que raciocina se conforme.

Notas

  • 1. Tradução feita a partir da edição ROÍS DE CORELLA, Joan. Obra profana (edició a cura de Jordi Carbonell). Valencia: 34, 1973, págs. 66-70, confrontada com MARTINES, Vicent (ed.). Obra profana de Joan Roís de Corella (trad. filológica, estudio introdutorio, notas e índices de Vicent Martines). Madrid: Gredos (col. “Clásicos Medievales”, 22), 2001, págs. 76-83.
  • 2. Joan Roís de Corella (Gandia, 1435 - Valência, 1497) foi escritor e professor de Teologia, além de autor de poemas e obras mitológicas e religiosas que compõem uma obra ampla e variada, reflexo de uma personalidade literária multifacetada, mas coerente. Contemporâneo de Joanot Martorell, Roís de Corella esteve envolvido na vida social valenciana do século XV e foi como um catalisador da vida cultural e intelectual da época. Muito cedo começou a escrever prosa e poemas inspirados em obras clássicas de Ovídio e Sêneca, entre outros, mas também influenciado por autores vernaculares europeus. Seu corpus tem peças que passaram à posteridade literária, como A Tragédia de Caldesa ou O Triunfo das Mulheres. Ordenado teólogo em 1473, Roís de Corella dedicou os últimos anos de sua vida a traduzir os salmos bíblicos e a Vita Christi (Speculum vitae Christi, 1374) de Ludolfo da Saxônia (c. 1275-1378). Embora desconsiderado por boa parte da crítica literária catalã, é certamente um dos principais autores do período de transição da literatura medieval para a renascentista, dotado de um estilo pessoal e um universo literário muito próprio e complexo na prosa valenciana. Ver http://www.escriptors.cat/autors/roisj/index.php.
  • 3. Professor efetivo (Associado III) do Departamento de Teoria da Arte e Música da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), do Programa de Doctorado Internacional à distância do Institut Superior d'Investigació Cooperativa IVITRA [ISIC-2012-022] Transferencias Interculturales e Históricas en la Europa Medieval Mediterránea (UA) e dos Programas de Mestrado em Artes (PPGA) e em Filosofia (PPGFIL) da UFES; acadèmic corresponent a l’estranger da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona.
  • 4. Professor efetivo do Departamento de Educação Global, Construção da Cidadania e Inteligências Humanas da Universidade do Futuro (Site: www.unifuturo.net), do Programa de Doutorado Internacional em Educação e Interculturalidade da Florida Christian University, (EUA), Membro da APS (Association for Psychological Science), EUA.
  • 5. Trata-se de João II de Aragão (1397-1479), Sem Fé (ou ainda O Grande), rei de Aragão, de Valência, de Maiorca, da Sicília e de Navarra; Duque de Montblanc e de Gandia (em duas etapas: 1433-1439 e 1461-1479, quando Gandia passou ao poder dos Bórgia), Conde de Barcelona e de Ribagorça.
  • 6. Phoebus, epíteto atribuído a Apolo (do grego Phoîbos, “o radiante”). Como outros deuses gregos, Apolo tinha uma série de epítetos que refletiam aspectos atribuídos a ele. Esse, Phoebus, o principal da literatura latina, foi muito usado ​tanto por gregos quanto romanos.
  • 7. “Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”, Mt 25, 41-46.
  • 8. “Tudo dispuseste com medida, número e peso. Teu grande poder está sempre ao Teu serviço, e quem pode resistir à força de Teu braço?”, Sb 11, 20.
  • 9. O primeiro verso da seção lírica de A Tragédia de Caldesa (“Mourà’s corrent la tramuntana ferma”) é um problema para os tradutores. A composição inclui uma série típica de adynata ou impossibilia. A primeira impossibilidade consiste em um par de opostos: o que implica movimento/ausência de. No segundo verso da composição, o que é corrigido e claramente se move é o Céu (o que é fisicamente impossível!); no primeiro verso o que é corrigido e se move é o”Tramontana”. Essa ideia é reforçada com o adjetivo “ferma” (“fixo”) do primeiro verso, que qualifica “Tramontana”. Por sua própria natureza, o vento (“tramuntana”), não pode ser passivo, imóvel, “fixo”. Portanto, não se pode traduzir “Tramontana” como “Vento norte”, porque não faz sentido. Em uma distinta e inusual acepção do termo, “Tramontana” refere-se ao Norte/Estrela do Norte (Vênus). Este é, então, o significado do verso: “A Estrela do Norte – fixa – passará antes que eu coloque os olhos novamente em você”, ou seja, ele nunca mais dignar-se-á a olhá-la, a menos que a Estrela do Norte se mova de lugar – Antonio Cortijo Ocaña.
  • 10. No original “rims estramps”. Do latim strambus, para o italiano strambotto (breve composição poética satírica ou amorosa de oito versos hendecassílabos com rima alternada).
  • 11. A localização do Rio LeteO Rio do Esquecimento – varia conforme as diferentes versões da Mitologia. Para alguns, ele fluía por um vale dos Campos Elíseos até os infernos; para outros, estava em um melancólico campo no Hades. Seja como for, suas águas faziam os mortos esquecerem seu passado e deixava-os prontos para a metempsicose, pensamento muito influenciado por Platão (c. 428-348 a. C.) (“Enquanto se bebe, esquece-se tudo”, A República, 621a). Dante recolheu e mesclou essa tradição: na Divina Comédia, ao atravessar o rio no barco de Caronte, o poeta desmaia (Inferno, Canto III, 136); no Purgatório, o rio Lete nasce na parte mais elevada de sua montanha: os que purgaram seus pecados bebem de suas águas, além das do Rio Eunoé (Rio da Boa Compreensão), para assim, purificados, poderem ascender puros e disposto, às estrelas do Paraíso (XXXIII, 145).

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