Desconsolo (1295)
Desconort (texto original em catalão)
Ramon Llull (1232-1316)
Trad. e notas: Tatyana Nunes Lemos e Ricardo da Costa
Revisão: Tatyana Nunes Lemos
Revisão final: Ricardo da Costa (Ufes)

I


Deus, com Vossa virtude começa este Desconsolo, [1]
o qual faço em canto, para que me console
e com ele narre a falta e o dano
que o homem faz contra Vós, que nos julgastes na morte.
E quanto mais me consolo, menos o coração está forte,
05
pois de ira e dor meu coração é porto,
por isso, o consolo retorna como um grave desconsolo.
Por isso, estou em trabalho e distração, [2]
e não há nenhum amigo que alguma alegria me traga,

mas tão somente Vós, para que eu O torne um porto

10
na queda e na ascensão. E estou assim em tal sorte
que nada vejo ou escuto que me traga conforto.

II


Quando cresci e senti a vaidade do mundo,
comecei a fazer mal e entrei em pecado,
esquecendo o Deus glorioso [3] e seguindo o que é carnal.
15
Mas agradou a Jesus Cristo, por Sua grande piedade,
apresentar-se a mim cinco vezes crucificado,
para que O relembrasse e me enamorasse,
e fizesse que Ele fosse predicado
por todo o mundo, e que fosse dita a verdade
20
de Sua Trindade, e como encarnou.
Porque fui inspirado em tão grande vontade,
que nada amei mais do que Ele fosse honrado
e, então, comecei a servi-Lo de bom grado.

III


Quando me pus a considerar do mundo o seu estado,
25
quão poucos são os cristãos e como muitos Lhe descrêem,
então, em meu coração tive tal concepção
que fosse a prelados e a reis, igualmente,
e a religiosos, com tal ordenamento,
para que ocorresse a Passagem [4], e com tal pregação,
30
que com ferro e fogo, e verdadeira argumentação,
se desse à nossa fé tão grande exaltação
que os infiéis viessem à conversão.
E isso tenho tratado, verdadeiramente, há trinta anos
mas não obtive nada, pelo que estou doente [5],
tanto, que choro freqüentemente, e estou em languidez.
35

IV


Enquanto estava assim, em tristeza,
considerando freqüentemente a grande desonra
que Deus recebe do mundo por falta de amor,
como um homem irado, que foge do mal senhor,
40
fui a um bosque, onde estive em pranto,
tão fortemente desconsolado, que o coração estava em dor.
Mas como chorava, então sentia doçura, [6]
e a Deus falava fazendo-Lhe clamor,
como tão pouco escuta o justo e o pecador,
45
quando Lhe adoram e crêem tratar Sua honra,
pois se lhes desse mais ajuda e fervor,
todos converteriam o mundo ao Seu valor.

V


Assim, enquanto estava em melancolia,
ao longe observei e vi que vinha um homem,
50
Tinha um bastão em sua mão e uma grande barba,
em seu dorso cilício trazia, e pouco vestia. [7]
Parecia eremita, segundo seu comportamento.
E quando chegou a mim, perguntou-me o que tinha,
e de onde vinha a dor que eu trazia,
55
e se ele de alguma forma poderia me ajudar.
E eu respondi, ai, que tal ira sentia [8]
que nem por ele, nem por outro, consolar-me-ia,
pois, conforme o que o homem perde, cresce a felonia,
E o que eu havia perdido, dizê-lo quem poderia?
60

VI


– Ramon, disse o eremita, o que haveis perdido? [9]
Por que não vos consolais no Rei da salvação,
que basta a tudo o que Dele vem?
Mas aquele que O perde não pode ter virtude
para ser consolado, pois está muito abatido.
65
E se vós não tendes nenhum amigo que vos ajude
dizei-me vosso coração, e o que houve,
pois se tiverdes coração fraco, ou se estiverdes decepcionado,
bem poderia ser que fôsseis socorrido
pela minha doutrina, tanto, que se estiverdes vencido,

70

mostrar-vos-ei como vencer vosso coração combalido
de ira e dor, para que Deus vos ajude.

VII


– Eremita, se eu pudesse levar a cumprimento
a honra que por Deus tratei por tanto tempo,
não haveria nada perdido, nem faria clamor,
75
e sim ganharia tanto que à conversão
viriam os errados, e o Santo Sepulcro
teriam os cristãos. Mas por falta
daqueles a quem Deus tem dado mais honramento,
que não desejam ouvir, e não consideram
80
nem a mim, nem minhas palavras, como homem que loucamente
fala, e nada faz segundo o entendimento;
para que eu perca por eles toda a procuração [10]
que faço para honrar a Deus e ter dos homens a salvação.

VIII


Ainda vos digo que trago uma Arte Geral,
85
que me foi dada recentemente por dom espiritual,
para que o homem possa saber toda coisa natural,
conforme o entendimento atinge o sensual.
Vale para o Direito, para a Medicina e todo o saber,
e para a Teologia, a qual me é mais cara,
90
nenhuma arte vale tanto para resolver questões,
e para destruir os erros através da razão natural.
E a tenho por perdida, porque ao homem quase não interessa.
Por isso, estou em pranto, em lágrimas e em ira mortal,
pois nenhum homem que perdesse tão precioso cabedal
95
poderia ter novamente gozo de coisa terrenal.

IX


– Ramon, se vós fazeis o que vos convém,
procurar honra para Deus e fazer grande bem,
e não sois escutado, nem a ajuda vos vem
daqueles que têm poder, por tudo isso não convém
100
que estejais descontente, pois Deus, que tudo vê,
vos é tão grato como se cumprísseis imediatamente
tudo o que pedistes, pois o homem que bem conseguir
tratar Sua honra, conseguirá, para si
mérito, correção e dom, piedade e mercê.
105
Por isso, comete grande pecado quem em seu coração retém
ira e desconsolo, fazendo Deus a ele bem
que concorda com gozo, esperança e fé.

X


– Ramon, com vossa Arte não fiqueis preocupado,
e sim estejais alegre e estejais jubiloso,
110
pois já que Deus deu-a a vós, justiça e valores
multiplicá-la-ão em leais amantes.
E se vós sentirdes amargor nestes tempos,
em outro tempo tereis melhores ajudantes
que lentamente a aprenderão e vencerão os erros

115

deste mundo, e farão muitos bons feitos importantes.
Por isso, vos rogo, meu amigo, que o consolo esteja convosco
e de agora em diante não choreis por feitos virtuosos,
mas alegrai-vos contra feitos viciosos, [11]
e de Deus esperais graça e socorro.
120

XI


– Ramon, por que chorais e não fazeis belo semblante?
E como não vos consolais de vosso mal talante?
Por essa razão, fazeis-me duvidar
que estejais em tão grave pecado mortal
que sois indigno de fazer algo bom,

125

pois Deus não deseja ser servido por nenhum homem pecador.
E se não chegais ao fim que tanto desejais
não é por culpa daqueles a quem fostes clamar,
pois Deus não deseja que vosso feito vá adiante,
se estais em pecado, pois de nenhum tipo de bem
130
o homem pecador pode ser princípio,
pois o bem e o pecado em nada são semelhantes.

XII


– Eremita, não me escuso de ter pecado
mortalmente muitas vezes, do que sou confesso,

mas, depois que Jesus Cristo a mim foi revelado

135
na cruz, conforme o que antes vos contei,
e tive em Seu amor meu desejo confirmado,
não pequei ciente em nenhum mortal pecado.
Mas poderia ser que no passado,

quando era servo do mundo, amando sua vaidade,

140

não estava bem ajudado por Cristo em fazer o bem.
Contudo, se não o fosse, faria dano e pecado
se Ele não me ajudasse depois de tê-Lo amado
e, por Seu amor, o mundo desamparado.

XIII


– Ramon, o homem negligente não sabe o bem procurar
145
e estando negligente, não deseja muito lembrar
o que tenta acabar. Por isso, faz-me-eis muito duvidar
que o negócio público que desejais acabar,
com os muito grandes senhores que não vos querem escutar,

não se perca, porque muitos não o desejam amar,

150

pois com pouco amor um grande feito não se pode encaminhar.
E se sois preguiçoso, de tudo deveis vos queixar,
e de vossa falta não deveis a outro culpar,
nem tu [12], estando ocioso, deves desconsolar

com outro, mas contigo, que não desejas te esforçar

155

em fazer todo o teu poder para Deus poderes honrar.

XIV


– Eremita, vede vós se estou ocioso
em tratar o bem público, de justos e pecadores,
pois deixei mulher, filhos e possessões,

por trinta anos estive em trabalho e langor.

160

E cinco vezes na corte, com minhas despesas, [13]
estive. E mais: com os Pregadores
em três capítulos gerais, e ainda com os Menores
em outros três capítulos gerais. E se vós,

soubésseis o que falei a reis e a senhores,

165

e como trabalhei, não estaríeis duvidoso
de mim, que fui preguiçoso neste feito,
e sim teríeis piedade, se fôsseis um homem piedoso.

XV


– Ramon, a todo homem que deseja dar cumprimento
a algum feito que seja de grande estamento,

170

convém que saiba tratar discretamente.
Mas se vós [14] não sois um homem discreto, nem entendeis
segundo o que convém ao feito, fazeis recriminação,
amargurando-vos erradamente, se repreendeis
aqueles que são discretos e fazem sabiamente
175
o que convém ao bom feito a à exaltação
da fé cristã. Por isso, vos aconselho brevemente
que fiqueis consolado de vossa falta,
considerando que não sois conveniente ao feito,

estejais assim entre nós humilde e paciente.

180


XVI


– Eremita, se eu não tenho tal discrição
em feito tão importante bastaria minha razão.
E se eu, ignorante, cometo falta contra ele,
por falta de entendimento e de discrição
pelo feito ser grande, desejo companhia.
185
que me ajude a cumpri-lo, mas não me adianta nada
requerer companhia, pelo contrário, estou só e abandonado.
E quando os olho cara-a-cara e desejo lhes dizer minha razão,
eles não querem me escutar. Diz que sou louco
a maioria, porque digo tal sermão,

190

Porém, no Juízo surgirá quem tiver discrição
e quem de seus pecados encontrar o perdão.

XVII


– Ramon, o homem que é avaro e deseja fazer algum feito
não pode cumprir nem terminar o que deseja.
Logo, se vós sois avaro e não desejais dar,

195

do que é vosso, para que a Deus façais honrar,
de vossa cobiça deveríeis se queixar
pois ela vos impede do bom feito procurar.
Ou, se não podeis dar, a pobreza deve estar
contra vosso negócio, e deveríeis pensar
200
que os senhores mais se inclinam a dar que a predicar
aos pedidos que os homens lhes fazem. Por isso, quero vos aconselhar
que, se pudéreis, pensais rapidamente em dar,
pois, ao dar, podereis todo o resto terminar.

XVIII


– Eremita, estejais certo que nunca mais a cobiça
205
de dinheiro ou de honras em mim habitou,
e neste negócio, de meu patrimônio
tenho tantas vezes despendido, e tão largamente,
que todos os meus filhos estão em pobreza.

Logo, de avareza não devo ser acusado,

210

nem posso dar aos homens de bom-grado,
pois não sou um homem rico, nem senhor de cidade.
Por isso, não me culpais, mas me desculpai.
E bem vos digo: se fosse senhor de império ou reino

daria tanto do meu até que acabasse,

215

mas o homem que dá pouco, não é bem escutado.

XIX


– Ramon, a vanglória faz o homem se amar
para que de si faça as gentes falarem,
dizendo dele louvores, para que seja estimado,

e que o amem e honrem-no ao ser nomeado freqüentemente.

220

Logo, se trabalhais para louvar a vós mesmo,
orgulho e vanglória vos fazem menosprezado
por aqueles com que desejais vosso feito terminar,
e eles nem desejam vos ver, nem vos escutar,

pois nenhum feito tão honrado, um homem vil deve fazer,

225

e todo homem é vil e está em pecado
se deseja se fazer honrar mais do que lhe pertence.
Por isso, de vossos erros desejais alguém culpar.

XX


– Eremita, eu não sei por qual intenção
tendes de mim tão má reputação,

230

pois o homem deve antes ter boa presunção
de quem não conhece, que má opinião.
E por que vós pensais que um feito tão bom
não possa ser dado a um homem que pouco
vale? Pois se em tudo sou mau,
235
segundo o que requer a natureza e a razão,
trataria o contrário. Mas se Deus me perdoou,
nunca mais existiu intenção em meu coração
de obter louvores ao falar tal sermão,

pois no homem pecador nenhum louvor pode ser bom.

240


XXI


– Ramon, porventura vós não sois conhecido,
por isso podeis, no feito, estar decepcionado,
pois a nenhum tesouro que na terra esteja escondido
convém que seja desejado ou apetecido.
Logo, se vosso saber não é percebido,
245
como pensais ser reconhecido?
Mostrais que sabeis, para que vos ajudem
vossa Arte e saber, pois o homem desconhecido
não tem, por ignorar, honramento ou virtude.
E se vós, meu amigo, amais a salvação dos homens,

250

o honramento de Deus, e que não seja perdido
o feito, que vosso saber seja bem conhecido.

XXII


– Eremita, como vós pensastes que tal saber eu ocultaria
com o qual nossa fé tão fortemente se provaria
aos homens errados, pelo qual salvá-los-ia

255

Deus, O qual tanto desejo que todo homem ame?
Estejais bem seguro que estou cansado de demonstrá-lo.
Mas se o homem estudasse fortemente meus livros,
e por outro saber eles não fossem esquecidos,
eu seria conhecido. Mas, como gato que passa
260
rapidamente por brasas, lêem-nos, pois com eles não fazem
quase nada de meu negócio. Mas, se existisse alguém que os lembrasse,
os entendesse bem, e deles não duvidasse,
poderia, por meus livros, colocar o mundo em bom estado.

XXIII


– Ramon, o que digo faço para vos consolar,
265
mas como não desejais abster-vos de chorar,
poderia rapidamente desejar me desgostar.
Mas escutais e vejais se podeis tratar
o que vós pedistes ao Papa, pois não me parece

que seja possível a nossa fé provar,

270

nem que o homem pudesse tais homens encontrar
que dessem a si mesmos para um doloroso martírio
aos malvados sarracenos, para a eles predicar.
Por isso, amigo, não deveis vos maravilhar

se o Papa e os cardeais não desejam vos outorgar

275

o que lhes pedis, posto que não se pode realizar.

XXIV


– Eremita, se a fé o homem não pudesse provar,
então Deus não poderia aos cristãos culpar
se aos infiéis não a desejassem mostrar,

e os infiéis poderiam, por direito, de Deus se queixar,

280

pois a maior verdade não se deixa argumentar.
Porque o entendimento ajuda o nosso amar
quanto mais ame a Trindade e de Deus o Encarnar
e à falsidade mais possa contrastar.

Escrevi a Passagem para com clareza mostrar

285

como o Santo Sepulcro se pode retomar,
e como encontrar homens que irão predicar
a fé, sem pavor da morte, e que saibam atuar.

XXV


– Ramon, se pudéssemos demonstrar nossa fé,
perder-se-ia o mérito e, por isso, não convém

290

que se possa demonstrá-la, pois se perderia o bem,
e, ao se perder o bem, o mal imediatamente seria
causa da demonstração contra o mérito
que existe no homem que crê na verdade que não se vê
por força do argumento, somente pela fé.
295
E mais: o entendimento humano não compreende
toda a virtude de Deus, que se mantém infinita,
tanto que ela não tem causa finita.
Por isso, vossa razão não parece valer nada

e como não vos consolais, fazeis o que não convém.

300


XXVI


– Eremita, se o homem tivesse se criado,
o que tentais provar conteria a verdade,
mas como Deus criou o homem para que fosse honrado,
que é um fim mais nobre e mais elevado
que o fim que o homem tem em ser glorificado,
305
não vale vossa razão. E já foi acima provado
que a fé se pode provar, se estais bem recordado.
E se bem se pode provar, não segue que algo criado
contenha e compreenda todo o ente incriado,
mas que entenda tanto quanto a ele é dado,

310

para que o homem tenha de Deus sua vontade,
sua lembrança, entendimento, poder e bondade. [15]

XXVII


– Ramon, como pensais que o homem, por predicar,
pudesse levar os sarracenos a se batizar?
Pois segundo o que Maomé desejou ordenar,

315

aquele que falar mal de sua lei [16] não poderá escapar
e tais razões não desejará disputar. [17]
Por isso, a mim não parece útil viajar. [18]
E mais: o homem não saberia falar,
a língua árabe, e por interpretar
320
não poderia com eles nada avançar,
e se a língua aprendesse, muito poderia demorar.
Por isso, vos aconselho que ide a Deus pregar,
em uma alta montanha comigo Deus contemplar.

XXVIII


– Eremita, os sarracenos estão em tal estamento
325
que aqueles que são sábios, por força do argumento,
não crêem em Maomé, antes desprezam
o Alcorão, porque ele não viveu honestamente.
Assim, eles viriam à conversão rapidamente

se se estivesse com eles em grande disputa,

330

e lhes mostrasse a fé por força do argumento,
e aqueles, convertidos, converteriam as gentes.
Não se precisa muito tempo para aprender sua linguagem,
nem é preciso blasfemar Maomé imediatamente.

E quem faz o que pode, o Espírito Santo

335

faz o que a ele convém, dando o cumprimento.

XXIX


– Ramon, quando Deus desejar que o mundo seja convertido,
dará linguagens pelo Espírito Santo
para converter o mundo, segundo o que haveis ouvido

de Cristo e dos apóstolos, de quem foram feitos muitos escritos,

340

e aquela conversão será sentida pelo mundo,
tanto, que em um rebanho os homens serão unidos,
e este mundo nunca mais estará dividido.
Assim, aquele será nosso e por Deus estabelecido,

e jamais qualquer pecado será consentido.

345

Mas como nestes tempos cada homem tem falhado
tão fortemente, não deseja ser escutado,
para que Deus faça milagres, já que tanto O tem afrontado.

XXX


– Eremita, em todos os tempos Deus ama a verdade,
e deseja ser conhecido e amado pelo homem.

350

Por isso, em todos os tempos, o homem tem liberdade
de fazer o bem, não o mal, e seria forçado
se nos tempos em que estamos, não houvesse poder
em tratar o honramento a Deus, e caridade
a Seu próximo ter. Por isso, eu não estou satisfeito
355
com o que tenho dito, e tendes grande pecado
quando afirmais que o homem está atado,
e nestes tempos não pode converter o errado,
nem por Deus pode ser em sua honra ajudado.

Por isso, em vosso falar estais desconsolado.

360


XXXI


– Ramon, é muito mais sensato reter
o que se ganhou, que ir converter
os malvados sarracenos, pois não desejam ouvir.
Por isso, deve se dizer aos cristãos tão bem
de Deus na prédica, que lhes faça servi-Lo.
365
Além disso, o homem não sabe se algum bem pode conseguir
ao ir aos sarracenos, pois poderia falhar
a tal ponto que desejariam matá-lo,
e mais, não poderiam se tornar
nunca bons cristãos, pois não podem deixar

370

o que estão acostumados. Por isso, vos agradaria deixar
vossa ira e mudar, a partir de agora, vosso desejo.

XXXII


– Eremita, se fossem poucos os pregadores,
os clérigos seculares, e os frades menores,
e, além disso, os monges, tanto abades quanto priores,

375

o que vós dissestes seria o melhor conselho.
Mas como ainda há em nossa fé muitos homens de valor,
que desejam morrer para fazer a Deus honor,
e que podem bastar a todos nós e a eles. [19]
Por isso, tenho desprazer, pois aqueles que são maiores
380
não fazem o que devem para dar a Deus louvor.
E se os padres convertidos não têm fé no coração [20],
tenham-na suas crianças. E dissestes grande loucura,
pois nenhum homem perde se morre pelo Criador.

XXXIII


– Ramon, segundo o que ouvi dizer, muitos homens têm ido
385
predicar aos sarracenos, e poucos têm progredido,
e também aos tártaros. Por isso estou maravilhado
de como estais forte em vossa vontade,
pois de todo o feito do qual se esteja fatigado,

e, principalmente, quando vê que tantos o têm tentado,

390

deve-se abandonar, ainda mais se for sensato,
e se não abandona, faz com que o tenham por louco.
Por isso, vos aconselho, irmão, que tenhais piedade
de vosso próprio coração, que tanto haveis afligido,

e ides para um lugar onde fiqueis repousado,

395

e de vossas danações estejais consolado.

XXXIV


– Eremita, aquele que muito deseja servir e honrar
seu bom Senhor não deve por nada deixar,
nem de servi-Lo bem deve se enfadar.

E como em vosso coração há ausência de amar,

400

não sabeis a vós mesmo nem a outro aconselhar;
pois se um homem em um tempo não pode seu feito acabar
em outro o poderá terminar, se bem o souber guiar;
e quem um bom feito começa, não o consegue principiar. [21]

E se os primeiros fazem pouco, outros poderão muito completar.

405

Por isso, vos peço, por mercê, que me deixeis estar,
pois não me parece que convosco possa algo ganhar,
pelo contrário, quanto mais me dizeis, mais me fazeis contristar.

XXXV


Ramon se enfureceu, e não desejava mais escutar
o eremita, que lhe pregava como deveria deixar

410

a grande dor que trazia, e começou a falar:
“– Senhor Deus glorioso! Há no mundo tal martírio
como este que suporto quando a Ti não posso servir?
Pois não há quem me ajude para que possa continuar
essa Arte que me foi dada, de onde tanto bem se pode seguir,
415
a qual temo que se perderá após meu fim,
pois nenhum homem a sabe bem, segundo meu arbítrio,
nem eu posso forçar ninguém a escutá-la.
Ai de mim! Se ela se perde, o que Te poderia dizer,

que a deu a mim para ela enaltecer?”

420


XXXVI


– Ramon, os filósofos que existiram antigamente,
desta Arte, que tu [22] tens, não tiveram conhecimento;
porque parece que não seja de grande aproveitamento.
E se ela fosse verdadeira, seria no princípio
por eles encontrada [23], pois seu entendimento
425
foi mais elevado que o teu. Contudo, se eu minto,
e tiveste a ajuda de Deus, cometes falta
quando temes que após tua morte ela acabe,
pois tudo o que Deus dá chega a um bom cumprimento.
Além disso, os antigos, enquanto eram vivos,

430

nas artes que fizeram não tiveram exaltação [24],
mas foram exaltados por seus sucessores.

XXXVII


Ramon desejou consolar-se, mas se irritou
quando viu que o eremita tinha opinião
que os filósofos antigos, nos quais a fé não existia,

435

tinham sido o princípio de tudo que é bom
e foram conhecedores da Trindade e da Encarnação. [25]
Estes filósofos antigos não tinham opinião
que Deus fosse Trindade, nem com o homem união,
nem a obra que Deus tem em Si por produção [26]
440
amavam ou conheciam. Então, por qual razão
os filósofos antigos tiveram mais visão
em seu entendimento que aqueles que vieram depois,
que têm lei e crença na ressurreição? [27]

XXXVIII


– Ramon, nada posso dizer para que fiqueis [28] consolado. [29]
445
Entende esta razão e não fiqueis irado:
em que Deus é afetado se o mundo não está em bom estado? [30]
Pois nada do que foi criado O eleva ou O rebaixa,
já que Ele é em Si completo, e não tem necessidade

de nenhuma criatura. Logo, deveis ser grato

450

do cumprimento que Deus tem em Si por Sua bondade;
e tu [31], louco, estás triste, quase como se Deus fosse diminuído
pelo mal estado em que o mundo se encontra. [32]
Louco! Como não te alegras com a plenitude da deidade?

Despreocupa-te com tudo que foi criado,

455

para que a teu coração baste Deus completo, não minguado.

XXXIX


– Eremita, mal me faz o vosso consolo.
Quão forte foi o momento em que vos encontrei!
E se não temesse a vergonha e o mal estar,

de hoje em diante não desejaria mais convosco falar.

460

Então, como podeis dizer que possa me consolar
ao ver Deus ultrajado, não servido, nem lembrado,
nem conhecido, nem amado? E se bem pode bastar
Deus por Si mesmo, ao meu coração, por amar,

não basta, pois não O vejo muito fortemente honrado;

465

e como por tão vis coisas O vejo tão menosprezado,
estou em desconsolo, e não posso me alegrar,
mas, no que Deus é, estou confortado.

XL


– Ramon, tudo o que Deus faz, fá-lo justamente,
e se coloca no Inferno o malvado descrente,

470

não deveis [33] por isso ter desolamento;
mas como estais irado com o que Deus faz justamente,
vossa ira é pecado, e falhais mortalmente
contra Deus, e amais aqueles que falsamente
crêem contra o verdadeiro Deus, e são desobedientes.
475
E se vós fôsseis bom e leal amante,
seríeis grato, pois Deus dá tormento
àqueles que todos os dias fazem faltas;
pois o homem que bem ama não cria rancor

do que faz o Amado, porque Ele o faz retamente.

480


XLI


– Eremita, não me queixo do que faz o Senhor,
mas em tudo o que Ele faz, O louvo e O adoro;
e por isso, desejaria que o homem Lhe honrasse,
e acima de tudo, que Lhe amasse.
Assim, dói-me muito, me lamento e estou em tristeza;
485
e como vós não sabeis de onde vem minha grave dor,
não sabeis consolar-me nem dar-me qualquer socorro.
Por isso, é bom que me deixeis estar em ira e choro,
e aprendais a ser melhor consolador,
pois muito pouco sabeis, e os pecadores

490

por vós não valerão, já que não tereis sua
caridade, pois Deus é deles grande redentor.

XLII


– Ramon, como amo que estejais em gozo,
e que ira e dor nunca tenhais,
desejo consolar-vos bem e peço-vos que escuteis:

495

Deus suporta que o mundo esteja assim malvado
para que Ele melhor possa perdoar por todos os lados,
pois quanto mais Ele perdoa, mais existe piedade,
e mais Lhe convém gratidão. Por isso, estejais seguro
que Deus tem tão alta caridade por Seu povo,
500
que quase todos os homens do mundo serão salvos;
pois se não fossem mais os salvos que os danados,
existiria Sua mercê sem grande caridade:
Por isso, consolai-vos na grande mercê de Deus.

XLIII


– Eremita, conversastes comigo todo o dia
505
e não me deixastes lembrar meu angustioso tormento,
e o fizestes para que lançasse ao esquecimento
a ira e o desconsolo de onde me vem o abatimento;
mas não acabastes nada, e fizestes defesa

mais da grande piedade que do grande julgamento.

510

Por isso, errastes, pois em Deus igualmente
estão o julgar e o perdoar, segundo o ordenamento
de Suas virtudes, pois Ele nunca consente
que em Sua justiça haja alguma diminuição.
Assim, o pecador deve ter grande horror,

por isso, o pecador deve ter grande horror,

515

e é por isso que eu choro, pois não há em Deus honramento. [34]

XLIV


– Ramon, àqueles homens que são predestinados
convém, por grande força [35], que sejam salvos,
pois, se não o fossem, poderia ser alterado,

contrariamente o saber que Deus tem,

520

e tal mudança não é possível,
pois, se assim fosse, não seria perfeito
o saber que Deus tem, mas diminuído.
Mas como ele é perfeito, estejais, então, consolado,

em Sua completude, contra a qual cometeis pecado

525

quando não vos confortais no que já foi julgado,
e, pela vontade de Deus, assim outorgado,
como o sabe Seu saber, e o faz a verdadeira verdade. [36]

XLV


– Eremita, se fôsseis um homem muito bem letrado,
saberíeis falar melhor sobre o homem predestinado,

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nem esqueceríeis a liberdade de Deus,
a qual tem em Si mesmo e no que criou.
Essa liberdade Ele deu ao homem
para que desejasse servi-Lo sem que fosse forçado,
pois Deus é tão bom que deve ser servido de bom grado,
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o qual servir não pode existir por necessidade,
nem Deus ser servido e amado pelo homem predestinado,
pois o homem seria salvo sem ser julgado,
e não pode existir juízo sem liberdade,

nem a liberdade constranger precitos [37] ou predestinados. [38]

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XLVI


– Ramon, se em vós a esperança fosse muito grande,
e se todo o mundo está num grave desequilíbrio,
do seu mal estado, não teríeis desventura;
pois Deus, que é pleno de grande piedade,
em breve trará ao mundo uma bonança
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tão grande, que cada homem terá alegria.
E para que isso seja verdade, tenhais confiança,
porque Deus deu ao homem princípio
com mercê e bondade que tem em Sua semelhança. [39]
E se vós, por isso, não deixardes a tristeza,

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não tereis bondade, mercê nem confiança,
e sereis contra Deus e a Sua amizade.

XLVII


– Eremita, antes que o mundo esteja em bom estado
será feito grande vitupério ao verdadeiro Deus.
E mais: não vejo fazerem nenhum ordenamento

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para que os tempos sejam próprios, pois o que apresento na Corte,
ao Papa e os cardeais, eles não o fazem rapidamente,
pelo contrário, o vão protelando. Por isso, tenho grande langor,
tanto que não posso ter nenhum consolo,
pois o que os apresento mostra tão claramente
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o ordenamento do mundo, que se poderia fazer brevemente,
e não o consideram, e fazem escárnio
como se eu fosse um homem louco que falasse loucamente,
por isso, de tais homens tenho desespero.

XLVIII


O eremita considerou se de algum modo poderia
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consolar Ramon, que tão forte lamentava;
e disse a Ramon que Santa Maria,
e juntamente com ela cada hierarquia
dos anjos e dos santos [40], pedia noite e dia

a Jesus Cristo, Seu filho, que por Sua mercê

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desse ao mundo, em breve, ordenamento e caminho
para honrá-Lo e servi-Lo. Por isso, vós deveríeis
consolar-vos, Ramon, pois Cristo sempre
faz o que é pedido por Sua piedosa mãe,

pelos anjos e santos; pelo que vos peço que tenhais

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vosso consolo, e que o gozo esteja convosco.

XLIX


– Eremita, quando considero que a Senhora do amor
e Senhora do valor, do justo e do pecador,
e cada um dos santos pedem a Nosso Senhor

para que todo o mundo faça a Jesus Cristo honor,

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e vejo que o mundo Lhe faz tanta desonra,
então penso em morrer de ira e dor,
pois são tão indignos os malvados pecadores,
que Deus quase não suporta que o homem peça por ele,