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Comissão Brasileira de Filosofia Medieval

O surgimento do grupo. O mandato de José Antonio de C. R. de Souza

 

        Corria o mês de agosto de 1981. Manhã de sexta-feira. O Núcleo de Filosofia do Departamento de História da Universidade de Brasília, então, sob a coordenação do Prof. Dr. Nelson Gonçalves Gomes, como fazia habitualmente, seja para ler e discutir um pensador, seja para tratar de questões relacionadas com o ensino e a pesquisa em Filosofia no âmbito da Universidade de Brasília, (UnB), estava reunido.

        Era a altura de começar a pensar e a planejar a X Semana de Filosofia a ocorrer dentro de um ano. Depois de algumas idéias terem sido apresentadas, o Prof. Nelson Gomes propôs ao grupo dedicar a próxima Semana ao Pensamento Medieval, a qual foi bem acolhida por todos os presentes. Não éramos mais de 8 pessoas. Em seguida, ele e os colegas incumbiram-me de organizá-la e prepará-la.

        Nos meses seguintes escrevi cartas para vários colegas brasileiros que, ou se dedicavam à Filosofia Medieval ou que, antes, tinham feito isso, e eram bem poucos. Alguns deles sequer responderam, outros, porém, logo aderiram ao chamamento.

        Os colegas do Núcleo também apresentaram sugestões de nomes. Foi assim, por exemplo que, através do Prof. Dr. Estêvão Martins, convidamos a participar do evento D. Luciano Mendes de Almeida SJ, que havia feito sua tese de doutoramento em Filosofia, na Gregoriana, sobre a Teoria do Conhecimento em Santo Tomás de Aquino, bem como o Prof. Dr. Luís Alberto De Boni, que lecionava História da Filosofia Medieval na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O Prof. Dr. Celestino Pires sugeriu-nos que escrevêssemos para alguns colegas portugueses e que fossemos procurar o Prof. Dr. João Ferreira, renomado medievalista lusitano dos anos cinqüenta/sessenta que, já há dez anos trabalhava no Departamento de Letras  de UnB.

        Ao convidarmos os colegas para tomar parte neste Evento, de um lado, considerando o número irrisório de textos de autores medievais traduzidos para o vernáculo, e de outro, a extirpação do ensino do latim nos antigo ginásio e colegial, através da LDB de 1961, o que impedia o conhecimento direto das fontes da parte dos estudantes e prováveis interessados, fatores esses que tolhiam o avanço científico desta sub-área do conhecimento filosófico no país, pedimos-lhes que, ao tratar do tema elegido por eles, quando fosse o caso, lhe juntassem a tradução da respectiva fonte.

        Finalmente, em junho de 1982, já tínhamos as datas para a realização do Evento e a  programação fechadas. Faltava pleitear um apoio financeiro para cobrir as despesas com passagens, estada completa e pro laboribus para os participantes. Recorremos, então, à Coordenação da Área de Ciências Humanas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), dirigida pelo Pe. Getúlio Alencar, e à sub-área de Filosofia, sob responsabilidade da Sra. Maria Sucupira Montandon. A resposta, embora, favorável custou a chegar, mas pudemos realizar a X Semana de Filosofia Medieval.

        A seu respeito, preferimos transcrever o testemunho ocular do Prof. Dr. Ruy Afonso da Costa Nunes (Publicado em sua coluna semanal de O Estado de São Paulo, pág. 2, em 15 de outubro de 1982):

“Do dia 13 ao dia 17 do mês de setembro passado, a Universidade de Brasília, através do seu Núcleo de Filosofia do Departamento de Geografia e História, promoveu a X Semana de Filosofia consagrada desta feita ao Pensamento Medieval. O organizador da Semana foi o jovem e dinâmico medievalista da Universidade de Brasília, prof. Dr. José Antônio de Camargo Rodrigues de Souza.

        A abertura dos trabalhos foi feita no dia 13 [segunda-feira, às 9: 30 horas] pelo magnífico reitor prof. dr. José Carlos de Almeida Azevedo, e a semana decorreu frutuosa com a apresentação de comunicações e a realização de debates a cargo de ilustres estudiosos do pensamento medieval (Segue-se a nominata dos conferencistas, com a respectiva conferência, o que omitimos por razão de brevidade, remetendo o leitor para o texto Publicações 1983/2000, infra. No caso, são as publicações sob o número 1)"

        "Os trabalhos foram encerrados pelo vice-reitor da Universidade de Brasília [às 21:30 do dia 17, sexta-feira] prof. Luís Otávio Morais de Sousa Carmo”.

        Devemos acrescentar que o próprio Dr. Ruy Afonso, igualmente prof. da Feusp, brindou-nos com a 4a conferência intitulada Reflexões sobre a Crônica ou A História das Duas Cidades.

        Também julgamos oportuno acrescentar, resumidamente, as impressões do mencionado professor sobre a relevância deste Evento, bem como suas palavras de alerta:

“...Em primeiro lugar, ela surge como um oásis de serenidade e reflexão no ambiente agitado por graves preocupações de ordem econômica e política, e num mundo convulsionado por inúmeras crises. A Universidade de Brasília mostra à Nação inteira que o papel essencial da universidade é preservar os valores do espírito e aprimorar a cultura, formar a mente através do exame e da discussão das grandes questões, objetivos que pairam acima das preocupações rotineiras da vida nacional e internacional. Se com a desculpa dessas preocupações se viesse a postergar o trabalho essencial das escolas, a Nação seria atingida frontalmente na sua reserva mais viva e rica de energia e os prejuízos para a vida comum seriam incalculáveis."

"Quem descura das atividades acadêmicas com a desculpa esfiapada da enormidade dos problemas quotidianos, nada mais faz que lhes adicionar o peso e o imenso gravame de um problema ainda mais sério e relevante. O mundo precisa sempre do pugilo de bravos estudiosos que se debruçam tranqüilos sobre os livros, pesquisam e estudam, enquanto a loucura dos ditadores, dos usurários e dos violentos, se espalha através do mundo atormentado e sofredor...”.

“Enfim. um terceiro e ponderável motivo de regozijo pela realização desta X Semana de Filosofia é o fato de ter sido consagrada ao Pensamento Medieval. As pessoas cultas, sem se falar dos especialistas, sabem como se têm multiplicado e intensificado no mundo inteiro os estudos e as investigações sobre a Idade Média. Livros, revistas, congressos, simpósios e semanas, são constantemente dedicados aos estudos medievais em vários países como [...] É confortador, portanto, verificar que o Brasil já se inscreve nessa corte de nações cultas que dão ênfase às pesquisas sobre o pensamento medieval...”.

“... Hoje em dia, nos meios cultos, esses preconceitos sebosos, sobre a Idade Média já foram varridos pela deslumbrante luz da ciência histórica, esse período de mil anos em que nasceu a Europa, em que se plasmaram as nações modernas de que provieram as Américas, é  estudado e investigado por legiões de acadêmicos e sábios que tornam, a cada dia que passa, mais completo e extenso o nosso conhecimento sobre a idade Média dos trovadores, das catedrais, das universidades e das cavalarias”.

        Realizado o Evento, como havia ocorrido com as outras Semanas de Filosofia da UnB, desejávamos que as conferências fossem publicadas pela editora da Instituição. Isso, porém, infelizmente não aconteceu.

        Entretanto, logo, o Prof. Nelson Gomes se pôs em contato com o diretor da Faculdade de Filosofia das Faculdades Católicas de Santos, Estado de São Paulo, Pe. Dr. Waldemar Valle Martins, e com o Prof. José de Sá Porto, membro do Conselho Editorial do periódico Leopoldianum da mesma Instituição, propondo-lhes a publicação dos textos sob a forma de livro, idéia essa acolhida prontamente pelos dois mencionados professores que a apresentaram às Edições Loyola, na pessoa de seu, então, diretor Pe. Gabriel Galache SJ, o qual também a encampou. Assim, no ano seguinte, 1983, veio a lume o 1o volume da série, atualmente esgotado, intitulado Pensamento Medieval X Semana de Filosofia da Universidade de Brasília.

        O êxito do Evento, a rápida difusão e aceitação do mencionado livro e o apoio de muitos colegas, no transcurso de 1984, nos estimularam a planejar e a organizar um outro volume com os mesmos propósitos. Nessa época, embora, já estivéssemos a trabalhar na Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá, tornamos a escrever para vários colegas, lhes solicitando sua valiosa colaboração. Alguns colegas brasileiros mantiveram sua atitude de reserva perante a nova iniciativa, uma vez mais, não respondendo ao convite. Outros, imediatamente aderiram e, indiscutivelmente, expressiva foi a colaboração dos colegas portugueses.

        Sem sombra de dúvida, para que o novo pudesse vir a lume, foi decisivo o apoio do Pe. Dr. Waldemar Valle Martins, do Prof. José de Sá Porto, representando a Sociedade Visconde de São Leopoldo, o periódico Leopoldianum e das Edições Loyola.

        Destarte, em dezembro de 1984, sob o número 32 de Leopoldianum, que comemorava o seu 10o aniversário de publicação, (o qual também está esgotado), foram estampados mais 10 textos (Cf. relação dos textos em Publicações 1983/2001, n. 2).

        Desde meados de 1985, pensamos em realizar um segundo Congresso de Filosofia Medieval, quando houvesse transcorrido quatro anos do primeiro. Entretanto, havia dois enormes obstáculos: onde efetivá-lo, pois, sequer, naquela época, a Universidade Federal de Mato Grosso tinha o curso de graduação em Filosofia, e quem iria publicar os textos apresentados durante o Evento, se viesse a acontecer?

        Após retomar, por carta, os contatos com os colegas que estavam engajados no projeto de estimular e desenvolver a pesquisa em filosofia medieval no Brasil, e com outros mais, e ouvir suas sugestões, decidimos apresentar a proposta ao, então, reitor da Universidade Católica de Santos, Pe. Dr. Waldemar Valle Martins que a acolheu favoravelmente, respondendo-a em 17 de janeiro de 1986, dizendo que  Instituição nos daria todo apoio e que as conferências, uma vez mais, seriam publicados em número especial de Leopoldianum em co-edição com Edições Loyola.

        Resolvidas essas questões, escrevemos aos colegas e a outros interessados, convidando-os a tomar parte no Evento, a ocorrer entre 16 e 19 de setembro de 1986, nas dependências da Faculdade de Filosofia da UniSantos. Desta vez, a adesão dos colegas brasileiros foi bem mais expressiva, de modo que, de posse das respostas de todos que aceitaram o convite, em 16 de abril de 1986, encaminhamos ao CNPq um pedido de auxílio para realizá-lo, como de praxe, discriminando todas as despesas com hospedagem e estada completa, passagens e pro laboribus destinados a remunerar os conferencistas.

        Infelizmente, dado que a resposta, ainda que favorável, tardou a chegar (30 de julho daquele ano), alguns colegas estrangeiros, na incerteza quanto se obteríamos os recursos solicitados ou não, igualmente, levados por outros compromissos, a ocorrer um pouco antes ou depois do Congresso de Filosofia Medieval, acabaram por desistir de tomar parte do mesmo, fatos esses que nos levaram a alterar a programação original.

        Nessa altura, o saudoso Prof. Dr. José de Sá Porto, para além de já ter assumido a função de Secretário do Congresso, juntamente conosco, enviávamos cartas circulares para todos os eventuais participantes do Congresso, informando-os, por exemplo, que a hospedagem deles seria no Hotel Praiano, que o Evento ia transcorrer nas dependências da Faculdade de Filosofia (FAFI), Campus Pompéia situado à rua Euclides da Cunha, 267. Por outro lado, deles íamos recebendo os textos de suas conferências, porque nossa intenção era lançar o volume especial do Periódico, durante a realização do mesmo.

        Finalmente, chegou o dia 16 de setembro, em que o Congresso foi aberto. De novo e de maneira resumida, recorremos ao relato acerca do mesmo (Publicado em sua coluna em O Estado de São Paulo, em 29 de setembro de 1986, sob o título, Bons Estudos em Santos, e re-estampado em Leopoldianum 39 [1987]: 155-157), feito pelo Prof. Dr. Ruy Afonso da Costa Nunes:

“... Esse evento cultural merece ser assinalado por dois motivos, dignos de relevo e apreciação: o tema da Semana e o ambiente físico e espiritual em que ela decorreu de modo sereno e brilhante [...] folgo em poder hoje atestar que, embora as deficiências do ensino na universidade brasileira – atribuíveis, principalmente, à baixa remuneração dos mestres universitários, especialmente das Instituições particulares, e à falta de bibliotecas especializadas, pois as melhores ainda deixam muito a desejar – já existe no Brasil um pugilo de brasileiros professores e pesquisadores, consagrados ao cultivo do pensamento medieval, à semelhança do que ocorre em todas as grandes universidades do mundo. Aliás, um dos objetivos destas Semanas, realizadas em Brasília e em Santos, é reunir os estudiosos dos assuntos medievais para acertarem e orientarem os cursos em nível nacional, estimular a pesquisa na área, e produzir textos e traduções para a utilização dos alunos...”.

“... Os trabalhos da última Semana em Santos já se acham à disposição dos leitores e interessados no volume Filosofia Medieval Estudos e Textos (Leopoldianum, 38 - set. 1986) [igualmente já esgotado]. O Dr. José Antônio de Camargo Rodrigues de Souza, do Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso, fez a apresentação da Semana e discorreu sobre “Miguel de Cesena. Ação e Pensamento Político” (Cf. relação dos textos em Publicações 1983/2001, n.3).”

“[...] Cada uma das conferências era coordenada por um moderador que, após a sua intervenção abria os debates sobre o tema com a participação dos presentes. As trocas de idéias foram estimulantes, sugestivas e esclarecedoras e decorreram em clima de grande interesse, ordem e afabilidade, ultrapassando, de regra, os prazos estipulados, devido à intensa colaboração dos congressistas."

"No dia 18 de setembro, quinta-feira, após as exposições e os debates, houve o lançamento do livro Filosofia Medieval. Estudos e Textos, presidido por dom José Carlos Castanho de Almeida, vice-presidente da Sociedade Visconde de São Leopoldo. De seguida, na capela do Cefas, o Coral Gregoriano de Santos, sob orientação do regente dr. José de Sá Porto, apresentou uma original sessão “musicológica”. Os componentes do coral [...] entoaram, em amostras de breves peças, cantos típicos de salmodia [...] hinódia [...] missa [...] tropus origem do “trova” e antífonas. Essa apresentação foi muito apreciada, e seguida de um coquetel de confraternização. A Semana de Filosofia Medieval...foi encerrada pelo Reitor da Universidade, dr. Waldemar Valle Martins, após os debates da última sessão, na noite de 19-9-86...”.

        Um ponto alto relacionado com a Semana, que ocorreu no dia 19 de setembro, pouco antes do encerramento dos trabalhos, na sede da Reitoria, foi uma reunião para programar o que iria ser feito, proximamente, daí por diante, ocasião essa em que estiveram presentes o Reitor da UniSantos e vários participantes da “Semana”. Transcrevemos abaixo, as decisões tomadas pelos presentes (O referido texto, extrato da Ata lavrada naquela altura, foi publicado em Leopoldianum 39 [1987]: 154-155):

“[...] 1. Organizar – a partir dos Departamentos ou cursos de Filosofia do País – um cadastro de pessoas que ministram a disciplina História da Filosofia Medieval, e em que circunstâncias pessoais e profissionais o fazem.

2. Obter – junto aos mesmos Departamentos e Professores – informações acerca da bibliografia e das fontes primárias em vernáculo [...] disponíveis [...] referentes à Filosofia Medieval.

3. Organizar um cadastro de estudantes de Filosofia que se interessam pela História da Filosofia Medieval.

4. Ampliar os contactos com docentes ou alunos, brasileiros e de outros países de língua portuguesa, que ministram/estudam a matéria em questão, ou por ela se interessam.

5. Promover novo congresso/semana semelhante aos eventos anteriores, dentro de algum tempo, em local e data a definir.

6. Continuar, p. ex. a cada dois anos, a publicação, através de novos convênios de coedição, de outros volumes similares aos já publicados.

7. Realizar um Curso de Especialização em História da Filosofia Medieval, talvez, a partir de 1989, numa Instituição a ser escolhida, para reciclagem de Professores e graduados, com interesse na mesma.

8. Como principal instrumento para “atacar” os sete itens precedentes – e para estudar a possibilidade de se organizar, a médio prazo, uma Associação de pessoas interessadas em Filosofia Medieval – foi criada uma Comissão de Filosofia Medieval, constante dos professores doutores José Antônio de C. Rodrigues de Souza (UFMT), presidente, Ruy Nunes (SP), Luís Alberto De Boni (RS) e José de Sá Porto (Santos, SP)”.

        Por conseguinte, foi naquela mencionada reunião de 19 de setembro que o grupo de pessoas que vinha se interessando pela Filosofia Medieval em nosso País, tomou o nome de Comissão de Filosofia Medieval. Passariam a pertencer-lhe, sem ônus financeiro algum, todos aqueles que estivessem imbuídos e dispostos a lutar pelo mesmo propósito.

        Imediatamente, ao final de novembro de 1986, o secretário da Comissão, Prof. Dr. José de Sá Porto, depois de haver feito um minucioso levantamento dos Cursos de Filosofia no Brasil, e das Instituições que poderiam vir a se interessar em nossa proposta, acima citada, expediu as circulares CFM 01 e 02 dirigidas, respectivamente, aos Diretores de Faculdades e ou Institutos aos professores da disciplina em questão.

        Logo, muita gente respondeu àqueles ofícios circulares, pondo-nos a par de boa parte das informações que desejávamos obter, inclusive o saudoso Amigo, Prof. Francisco da Gama Caeiro, relatando o que se fazia em plagas lusitanas, e indicando outros colegas com quem poderíamos  vir a ampliar nosso relacionamento.

        Na metade de fevereiro de 1987, o Prof. Dr. Francisco Bertelloni, da Universidade de Buenos Aires, pela 1a vez, escrevia-nos, tentando obter a cópia de um artigo de seu interesse, da autoria de João Morais Barbosa, publicado no volume de Leopoldianum de 1984. A Comissão ampliava seus contatos pela América Latina e ganhava um novo e bravo companheiro.

        Em 3 de outubro de 1987, ainda meio chocado com os falecimentos dos Profs. Raimundo Vier OFM e Nicolas Bôer, que tinham se disposto a colaborar com a Comissão, através do Of. Circular CFM 03, escrevemos a vários colegas, convidando-os a tomar parte em mais um volume de Leopoldianum a ser publicado em dezembro de 1988, consagrado ao Pensamento Político na Alta Idade Média.

        Nesse ínterim, na Revista Latinoamerica de Filosofia, RLF XIII, 3 (1987): 380-382, de Buenos Aires, o Prof. Francisco Bertelloni tecia seus comentários sobre o volume intitulado Filosofia Medieval Estudos e Textos, em que num passo muito significativo, soube muito bem compreender o espírito que animava a Comissão:

“...Entre lãs más destacadas de sus virtudes – además de la ausencia de propósitos desmesurados en un âmbito sudamericano en el que la medievística padece la ausencia de fuentes originales – merecería  ser destacado el carácter atípico de los estúdios que allí se ofrecen. Por ello, ateniéndonos a éste y a anteriores volúmenes de Leopoldianum, ponderamos el echo de que los medievalistas brasileros y portugueses hayan sabido obviar el error de centrar los estudios medievales en torno de un solo autor y que hayan comprendido que el pensamiento medieval es antes la génesis de una historia cultural en permanente movimiento y no un único dixit. En efecto, para los responsables de este volumen, los autores aún no consagrados también debem ser escuchados. Emprender el estudio de nuestro pasado medieval sobre la base de dicho presupuesto es la única manera de hacerlo científicamente, y ello es ya, por sí mismo, um mérito considerable”.

        Como era de se esperar, dado o fato de o referido volume ser temático e especializado, as adesões não foram muitas, mas conseguimos prepará-lo e ele foi publicado conforme o programado, sob o número 44 daquele Periódico (Cf. relação dos textos em Publicações 1983/2001, n. 4).

        Esgotado este volume, ganhou nova versão ampliada sob o título O Reino e o Sacerdócio O Pensamento Político na Alta Idade Média, o qual foi estampado na Coleção Filosofia, número 33, da EDIPUCRS, em 1995. Foram-lhe acrescentados os seguintes artigos:

1) “A Igreja nascente em face do Estado Romano”

3) “Leão I: a Cátedra de Pedro e o primado de Roma”

5) “A sacralização do poder temporal: Gregório Magno e Isidoro de Sevilha”,  de autoria do Prof. Dr. Daniel Valle Ribeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais

4) “O pensamento gelasiano a respeito das relações entre a Igreja e o Império Romano-Cristão”

10) “A teocracia imperial no fim da Alta Idade Média” de lavra do Prof. Dr. José Antônio de C. R. De Souza da UFG, igualmente, organizador do livro.

        Desde o início de 1989, começamos a planejar o 3o Encontro de Filosofia Medieval a ocorrer em 1990, enviando cartas circulares para os eventuais interessados. Dadas as respostas que recebemos até ao princípio de agosto, nessa altura, podíamos informar os colegas de que o Congresso e o livro dele decorrente estavam provisoriamente organizados em 4 partes:

1) Teoria do conhecimento e filosofia da linguagem
2) Metafísica
3) Ética
4) Política

        Outrossim, durante o Congresso, tínhamos em mente tratar dos seguintes assuntos:

a) Diagnóstico e perspectivas quanto ao ensino e à investigação em Filosofia Medieval no Brasil, em Portugal e na Argentina

b) Possibilidade de criação de um curso de Pós-graduação em Filosofia Medieval no Brasil

c) Balanço das atividades da Comissão de Filosofia Medieval durante o quadriênio, eleição da nova diretoria (Presidente, Vice, Secretário) da Comissão  e planejamento para o próximo quadriênio (1990-94).

        Em outubro de 1989, uma vez mais, a UniSantos confirmava ser a anfitriã do Congresso que, teria o nome oficial de III Simpósio de Filosofia Medieval, desde que pudéssemos contar com o apoio financeiro da FAPESP e do CNPq. Sua realização foi programada para ocorrer entre 17 e 21 de setembro de 1990. A Editora Leopoldianum e Edições Loyola comprometiam-se a publicar o volume. De seguida, com a sua eficiência habitual, o Prof. Dr. José de Sá Porto divulgou para todos os Departamentos de Filosofia do país a notícia da realização do Evento bem como sua programação provisória.

        Pela metade de dezembro, juntamente com o Reitor, Pe. Dr. Waldemar Martins, encaminhamos pedido de auxílio financeiro à Coordenação de Ciências Humanas do CNPq para a realização do Evento, então, dirigida pela Sra. Maria Cremilda Sucupira Montandon que já conhecia o trabalho da Comissão.

        No princípio de março de 1990, a direção superior da UniSantos foi substituída, mas nem por isso, os compromissos firmados com  a Comissão de Filosofia Medieval pelo reitorado precedente foram rompidos. Nossos contatos ocorriam  através do Prof. Sá Porto e da Profa. Mestre Maria Apparecida Pereira.

        Enfim, no dia 22 de agosto de 1990, o CNPq informava-nos que havia concedido uma parcela razoável do auxílio solicitado para a realização do III Simpósio de Filosofia Medieval, em passagens nacionais e internacionais e em diárias. À mesma altura, tínhamos em mãos todos os textos das conferências a serem proferidas, o que, infelizmente, ia retardar o lançamento do volume e a Reitoria da UniSantos também nos informava que havia conseguido junto ao Comando Militar da P. Militar paulista hospedar todos os participantes do Evento nas dependências do Clube de Oficiais da mesma, localizado à rua José Bonifácio, 224, não muito distante do campus Pompéia.

        O III Simpósio foi aberto na data programada pelo Magnífico Reitor da UniSantos, Prof. Dr. Francisco Prado de Oliveira Ribeiro que, diga-se de passagem, juntamente com sua equipe, como já havia ocorrido anteriormente, nos proporcionaram uma excelente estada na Instituição.

        As conferências e o livro contendo-as, intitulado Temas de Filosofia Medieval (estampado em Leopoldianum 48 (1990), contendo 290 páginas. Cf. relação dos textos em Publicações 1983/2001, n. 5), conforme havia sido planejado e anunciado, foram agrupadas em conjuntos distintos, porém, articulados entre si, observando-se, ainda, o critério cronológico relativo ao medievo, à semelhança do que ocorrera nos outros Simpósios e volumes.

        Presenças marcantes neste III Simpósio, para além dos conferencistas, foram alguns professores que, então, ensinavam História da Filosofia Medieval, tais como, Dr. João Lupi, da Universidade Federal de Santa Maria, RS, Dr. Sebastião Trogo, da Universidade Federal de Minas Gerais, Dr. Mário Cella, da Universidade Federal do Maranhão, bem como simpatizantes da sub-área de conhecimento, tais como o Prof. Dr. Estêvão Martins da UnB e a Profa. Silvana Romancini Silva do CEUB, e pela 1a vez, alunos de outras instituições e não apenas da FAFI, interessados na mesma, designadamente, Ricardo José Ramos de Arruda e Cláudia Lemes/UFG.

        Igualmente, conforme estava programado, no dia 18 de setembro, à tarde, os presentes ao Simpósio se reuniram na sala 109 da FAFI da UniSantos, para deliberar acerca da conveniência ou não de se transformar a Comissão numa Sociedade e, posteriormente, filiá-la à SIEPM. A Ata da reunião registra que, após os debates, não se chegou a uma  conclusão  definitiva sobre o assunto, devendo ser retomando na reunião do dia seguinte. A sugestão de todos, individualmente, a se filiarem à SIEPM e a comparecerem ao próximo Congresso da Sociedade a ocorrer em agosto de 1992 em Ottawa; de serem estreitados e ampliados os contatos com os colegas lusitanos, argentinos e de outros países, foram aprovadas por todos os presentes.

        Na reunião do dia seguinte, 19 de setembro, no mesmo local, a Ata da mesma registra que o Secretário da Comissão, Dr. José de Sá Porto, apresentou a todos um relatório das atividades desenvolvidas pela mesma, o qual foi aprovado. Em seguida, se tratou da escolha dos novos dirigentes da Comissão. Dado que na véspera a Reitoria da UniSantos havia informado que continuaria a dar apoio e a abrigar a Comissão, achou-se por bem escolher como secretária da mesma, a Profa. Maria Apparecida Franco Pereira, por causa de seu vínculo profissional com  a Instituição, a qual recebeu anuência de todos.

        Voltando-se a deliberar sobre quem seria o presidente, a escolha recaiu na pessoa do Prof. Dr. Luís Alberto De Boni. Igualmente, a Ata registra que foram indicados, um vice-presidente na pessoa do Prof. Nachman Falbel, responsável pela Comissão em São Paulo, e coordenadores regionais, a saber, para o Norte-Nordeste, Prof. Mário Cella; Rio de Janeiro, Prof. Danilo Marcondes;  Minas e Distrito Federal, Prof. Sebastião Trogo; Argentina, Prof. Francisco Bertelloni e Portugal (apenas elo de ligação), Frei Dr. Joaquim Cerqueira Gonçalves OFM.

        Empossado na presidência, o Prof. De Boni se propôs a organizar o IV Simpósio em dois anos, em lugar a ser definido posteriormente.

        O III Simpósio foi concluído com a última conferência, à noite, conforme acima indicado, seguida das palavras de encerramento proferidas pelo Magnífico Reitor da UniSantos. Logo depois, todos os congressistas e outros participantes, como não podia ser de outra forma, se dirigiram a uma peixaria (restaurante) para saborear os excelentes peixes à moda de Santos.