Comissão Brasileira de Filosofia Medieval
O surgimento do grupo. O mandato de José Antonio
de C. R. de Souza
Corria o
mês de agosto de 1981. Manhã de sexta-feira. O Núcleo de Filosofia do
Departamento de História da Universidade de Brasília, então, sob a coordenação
do Prof. Dr. Nelson Gonçalves Gomes, como fazia habitualmente, seja
para ler e discutir um pensador, seja para tratar de questões relacionadas
com o ensino e a pesquisa em Filosofia no âmbito da Universidade de
Brasília, (UnB), estava reunido.
Era a altura
de começar a pensar e a planejar a X Semana de Filosofia a ocorrer
dentro de um ano. Depois de algumas idéias terem sido apresentadas,
o Prof. Nelson Gomes propôs ao grupo dedicar a próxima Semana ao Pensamento
Medieval, a qual foi bem acolhida por todos os presentes. Não éramos
mais de 8 pessoas. Em seguida, ele e os colegas incumbiram-me de organizá-la
e prepará-la.
Nos meses
seguintes escrevi cartas para vários colegas brasileiros que, ou se
dedicavam à Filosofia Medieval ou que, antes, tinham feito isso, e eram
bem poucos. Alguns deles sequer responderam, outros, porém, logo aderiram
ao chamamento.
Os colegas
do Núcleo também apresentaram sugestões de nomes. Foi assim, por exemplo
que, através do Prof. Dr. Estêvão Martins, convidamos a participar do
evento D. Luciano Mendes de Almeida SJ, que havia feito sua tese de
doutoramento em Filosofia, na Gregoriana, sobre a Teoria do Conhecimento
em Santo Tomás de Aquino, bem como o Prof. Dr. Luís Alberto De Boni,
que lecionava História da Filosofia Medieval na Universidade Federal
do Rio Grande do Sul. O Prof. Dr. Celestino Pires sugeriu-nos que escrevêssemos
para alguns colegas portugueses e que fossemos procurar o Prof. Dr.
João Ferreira, renomado medievalista lusitano dos anos cinqüenta/sessenta
que, já há dez anos trabalhava no Departamento de Letras de UnB.
Ao convidarmos
os colegas para tomar parte neste Evento, de um lado, considerando o
número irrisório de textos de autores medievais traduzidos para o vernáculo,
e de outro, a extirpação do ensino do latim nos antigo ginásio e colegial,
através da LDB de 1961, o que impedia o conhecimento direto das fontes
da parte dos estudantes e prováveis interessados, fatores esses que
tolhiam o avanço científico desta sub-área do conhecimento filosófico
no país, pedimos-lhes que, ao tratar do tema elegido por eles, quando
fosse o caso, lhe juntassem a tradução da respectiva fonte.
Finalmente,
em junho de 1982, já tínhamos as datas para a realização do Evento e
a programação fechadas. Faltava pleitear um apoio financeiro para
cobrir as despesas com passagens, estada completa e pro laboribus para
os participantes. Recorremos, então, à Coordenação da Área de Ciências
Humanas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), dirigida pelo Pe. Getúlio Alencar, e à sub-área de Filosofia,
sob responsabilidade da Sra. Maria Sucupira Montandon. A resposta, embora,
favorável custou a chegar, mas pudemos realizar a X Semana de Filosofia
Medieval.
A seu respeito,
preferimos transcrever o testemunho ocular do Prof. Dr. Ruy Afonso da
Costa Nunes (Publicado em sua coluna semanal de O Estado de São Paulo,
pág. 2, em 15 de outubro de 1982):
“Do dia 13 ao dia 17 do mês de setembro passado, a
Universidade de Brasília, através do seu Núcleo de Filosofia do Departamento
de Geografia e História, promoveu a X Semana de Filosofia consagrada
desta feita ao Pensamento Medieval. O organizador da Semana foi o jovem
e dinâmico medievalista da Universidade de Brasília, prof. Dr. José
Antônio de Camargo Rodrigues de Souza.
A abertura
dos trabalhos foi feita no dia 13 [segunda-feira, às 9: 30 horas] pelo
magnífico reitor prof. dr. José Carlos de Almeida Azevedo, e a semana
decorreu frutuosa com a apresentação de comunicações e a realização
de debates a cargo de ilustres estudiosos do pensamento medieval (Segue-se
a nominata dos conferencistas, com a respectiva conferência, o que omitimos
por razão de brevidade, remetendo o leitor para o texto Publicações
1983/2000, infra. No caso, são as publicações sob o número 1)"
"Os trabalhos
foram encerrados pelo vice-reitor da Universidade de Brasília [às 21:30
do dia 17, sexta-feira] prof. Luís Otávio Morais de Sousa Carmo”.
Devemos
acrescentar que o próprio Dr. Ruy Afonso, igualmente prof. da Feusp,
brindou-nos com a 4a conferência intitulada Reflexões sobre a Crônica
ou A História das Duas Cidades.
Também julgamos
oportuno acrescentar, resumidamente, as impressões do mencionado professor
sobre a relevância deste Evento, bem como suas palavras de alerta:
“...Em primeiro lugar, ela surge como um oásis de serenidade
e reflexão no ambiente agitado por graves preocupações de ordem econômica
e política, e num mundo convulsionado por inúmeras crises. A Universidade
de Brasília mostra à Nação inteira que o papel essencial da universidade
é preservar os valores do espírito e aprimorar a cultura, formar a mente
através do exame e da discussão das grandes questões, objetivos que
pairam acima das preocupações rotineiras da vida nacional e internacional.
Se com a desculpa dessas preocupações se viesse a postergar o trabalho
essencial das escolas, a Nação seria atingida frontalmente na sua reserva
mais viva e rica de energia e os prejuízos para a vida comum seriam
incalculáveis."
"Quem descura das atividades acadêmicas com a desculpa
esfiapada da enormidade dos problemas quotidianos, nada mais faz que
lhes adicionar o peso e o imenso gravame de um problema ainda mais sério
e relevante. O mundo precisa sempre do pugilo de bravos estudiosos que
se debruçam tranqüilos sobre os livros, pesquisam e estudam, enquanto
a loucura dos ditadores, dos usurários e dos violentos, se espalha através
do mundo atormentado e sofredor...”.
“Enfim. um terceiro e ponderável motivo de regozijo
pela realização desta X Semana de Filosofia é o fato de ter sido
consagrada ao Pensamento Medieval. As pessoas cultas, sem se falar dos
especialistas, sabem como se têm multiplicado e intensificado no mundo
inteiro os estudos e as investigações sobre a Idade Média. Livros, revistas,
congressos, simpósios e semanas, são constantemente dedicados aos estudos
medievais em vários países como [...] É confortador, portanto, verificar
que o Brasil já se inscreve nessa corte de nações cultas que dão ênfase
às pesquisas sobre o pensamento medieval...”.
“... Hoje em dia, nos meios cultos, esses preconceitos
sebosos, sobre a Idade Média já foram varridos pela deslumbrante luz
da ciência histórica, esse período de mil anos em que nasceu a Europa,
em que se plasmaram as nações modernas de que provieram as Américas,
é estudado e investigado por legiões de acadêmicos e sábios que
tornam, a cada dia que passa, mais completo e extenso o nosso conhecimento
sobre a idade Média dos trovadores, das catedrais, das universidades
e das cavalarias”.
Realizado
o Evento, como havia ocorrido com as outras Semanas de Filosofia da
UnB, desejávamos que as conferências fossem publicadas pela editora
da Instituição. Isso, porém, infelizmente não aconteceu.
Entretanto,
logo, o Prof. Nelson Gomes se pôs em contato com o diretor da Faculdade
de Filosofia das Faculdades Católicas de Santos, Estado de São Paulo,
Pe. Dr. Waldemar Valle Martins, e com o Prof. José de Sá Porto, membro
do Conselho Editorial do periódico Leopoldianum da mesma Instituição,
propondo-lhes a publicação dos textos sob a forma de livro, idéia essa
acolhida prontamente pelos dois mencionados professores que a apresentaram
às Edições Loyola, na pessoa de seu, então, diretor Pe. Gabriel Galache
SJ, o qual também a encampou. Assim, no ano seguinte, 1983, veio a lume
o 1o volume da série, atualmente esgotado, intitulado Pensamento
Medieval X Semana de Filosofia da Universidade de Brasília.
O êxito
do Evento, a rápida difusão e aceitação do mencionado livro e o apoio
de muitos colegas, no transcurso de 1984, nos estimularam a planejar
e a organizar um outro volume com os mesmos propósitos. Nessa época,
embora, já estivéssemos a trabalhar na Universidade Federal de Mato
Grosso, em Cuiabá, tornamos a escrever para vários colegas, lhes solicitando
sua valiosa colaboração. Alguns colegas brasileiros mantiveram sua atitude
de reserva perante a nova iniciativa, uma vez mais, não respondendo
ao convite. Outros, imediatamente aderiram e, indiscutivelmente, expressiva
foi a colaboração dos colegas portugueses.
Sem sombra
de dúvida, para que o novo pudesse vir a lume, foi decisivo o apoio
do Pe. Dr. Waldemar Valle Martins, do Prof. José de Sá Porto, representando
a Sociedade Visconde de São Leopoldo, o periódico Leopoldianum
e das Edições Loyola.
Destarte,
em dezembro de 1984, sob o número 32 de Leopoldianum, que comemorava
o seu 10o aniversário de publicação, (o qual também está esgotado),
foram estampados mais 10 textos (Cf. relação dos textos em Publicações
1983/2001, n. 2).
Desde meados
de 1985, pensamos em realizar um segundo Congresso de Filosofia Medieval,
quando houvesse transcorrido quatro anos do primeiro. Entretanto, havia
dois enormes obstáculos: onde efetivá-lo, pois, sequer, naquela época,
a Universidade Federal de Mato Grosso tinha o curso de graduação em
Filosofia, e quem iria publicar os textos apresentados durante o Evento,
se viesse a acontecer?
Após retomar,
por carta, os contatos com os colegas que estavam engajados no projeto
de estimular e desenvolver a pesquisa em filosofia medieval no Brasil,
e com outros mais, e ouvir suas sugestões, decidimos apresentar a proposta
ao, então, reitor da Universidade Católica de Santos, Pe. Dr. Waldemar
Valle Martins que a acolheu favoravelmente, respondendo-a em 17 de janeiro
de 1986, dizendo que Instituição nos daria todo apoio e que as
conferências, uma vez mais, seriam publicados em número especial de
Leopoldianum em co-edição com Edições Loyola.
Resolvidas
essas questões, escrevemos aos colegas e a outros interessados, convidando-os
a tomar parte no Evento, a ocorrer entre 16 e 19 de setembro de 1986,
nas dependências da Faculdade de Filosofia da UniSantos. Desta vez,
a adesão dos colegas brasileiros foi bem mais expressiva, de modo que,
de posse das respostas de todos que aceitaram o convite, em 16 de abril
de 1986, encaminhamos ao CNPq um pedido de auxílio para realizá-lo,
como de praxe, discriminando todas as despesas com hospedagem e estada
completa, passagens e pro laboribus destinados a remunerar os
conferencistas.
Infelizmente,
dado que a resposta, ainda que favorável, tardou a chegar (30 de julho
daquele ano), alguns colegas estrangeiros, na incerteza quanto se obteríamos
os recursos solicitados ou não, igualmente, levados por outros compromissos,
a ocorrer um pouco antes ou depois do Congresso de Filosofia Medieval,
acabaram por desistir de tomar parte do mesmo, fatos esses que nos levaram
a alterar a programação original.
Nessa altura,
o saudoso Prof. Dr. José de Sá Porto, para além de já ter assumido a
função de Secretário do Congresso, juntamente conosco, enviávamos cartas
circulares para todos os eventuais participantes do Congresso, informando-os,
por exemplo, que a hospedagem deles seria no Hotel Praiano, que o Evento
ia transcorrer nas dependências da Faculdade de Filosofia (FAFI), Campus
Pompéia situado à rua Euclides da Cunha, 267. Por outro lado, deles
íamos recebendo os textos de suas conferências, porque nossa intenção
era lançar o volume especial do Periódico, durante a realização do mesmo.
Finalmente,
chegou o dia 16 de setembro, em que o Congresso foi aberto. De novo
e de maneira resumida, recorremos ao relato acerca do mesmo (Publicado
em sua coluna em O Estado de São Paulo, em 29 de setembro de
1986, sob o título, Bons Estudos em Santos, e re-estampado em
Leopoldianum 39 [1987]: 155-157), feito pelo Prof. Dr. Ruy Afonso
da Costa Nunes:
“... Esse evento cultural merece ser assinalado por
dois motivos, dignos de relevo e apreciação: o tema da Semana e o ambiente
físico e espiritual em que ela decorreu de modo sereno e brilhante [...]
folgo em poder hoje atestar que, embora as deficiências do ensino na
universidade brasileira – atribuíveis, principalmente, à baixa remuneração
dos mestres universitários, especialmente das Instituições particulares,
e à falta de bibliotecas especializadas, pois as melhores ainda deixam
muito a desejar – já existe no Brasil um pugilo de brasileiros professores
e pesquisadores, consagrados ao cultivo do pensamento medieval, à semelhança
do que ocorre em todas as grandes universidades do mundo. Aliás, um
dos objetivos destas Semanas, realizadas em Brasília e em Santos, é
reunir os estudiosos dos assuntos medievais para acertarem e orientarem
os cursos em nível nacional, estimular a pesquisa na área, e produzir
textos e traduções para a utilização dos alunos...”.
“... Os trabalhos da última Semana em Santos já se
acham à disposição dos leitores e interessados no volume Filosofia
Medieval Estudos e Textos (Leopoldianum, 38 - set. 1986)
[igualmente já esgotado]. O Dr. José Antônio de Camargo Rodrigues de
Souza, do Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso,
fez a apresentação da Semana e discorreu sobre “Miguel de Cesena. Ação
e Pensamento Político” (Cf. relação dos textos em Publicações 1983/2001,
n.3).”
“[...] Cada uma das conferências era coordenada por
um moderador que, após a sua intervenção abria os debates sobre o tema
com a participação dos presentes. As trocas de idéias foram estimulantes,
sugestivas e esclarecedoras e decorreram em clima de grande interesse,
ordem e afabilidade, ultrapassando, de regra, os prazos estipulados,
devido à intensa colaboração dos congressistas."
"No dia 18 de setembro, quinta-feira, após as exposições
e os debates, houve o lançamento do livro Filosofia Medieval. Estudos
e Textos, presidido por dom José Carlos Castanho de Almeida, vice-presidente
da Sociedade Visconde de São Leopoldo. De seguida, na capela do Cefas,
o Coral Gregoriano de Santos, sob orientação do regente dr. José de
Sá Porto, apresentou uma original sessão “musicológica”. Os componentes
do coral [...] entoaram, em amostras de breves peças, cantos típicos
de salmodia [...] hinódia [...] missa [...] tropus origem do “trova”
e antífonas. Essa apresentação foi muito apreciada, e seguida de um
coquetel de confraternização. A Semana de Filosofia Medieval...foi encerrada
pelo Reitor da Universidade, dr. Waldemar Valle Martins, após os debates
da última sessão, na noite de 19-9-86...”.
Um ponto
alto relacionado com a Semana, que ocorreu no dia 19 de setembro, pouco
antes do encerramento dos trabalhos, na sede da Reitoria, foi uma reunião
para programar o que iria ser feito, proximamente, daí por diante, ocasião
essa em que estiveram presentes o Reitor da UniSantos e vários participantes
da “Semana”. Transcrevemos abaixo, as decisões tomadas pelos presentes
(O referido texto, extrato da Ata lavrada naquela altura, foi publicado
em Leopoldianum 39 [1987]: 154-155):
“[...] 1. Organizar – a partir dos Departamentos
ou cursos de Filosofia do País – um cadastro de pessoas que ministram
a disciplina História da Filosofia Medieval, e em que circunstâncias
pessoais e profissionais o fazem.
2. Obter – junto aos mesmos Departamentos e
Professores – informações acerca da bibliografia e das fontes primárias
em vernáculo [...] disponíveis [...] referentes à Filosofia Medieval.
3. Organizar um cadastro de estudantes de Filosofia
que se interessam pela História da Filosofia Medieval.
4. Ampliar os contactos com docentes ou alunos,
brasileiros e de outros países de língua portuguesa, que ministram/estudam
a matéria em questão, ou por ela se interessam.
5. Promover novo congresso/semana semelhante
aos eventos anteriores, dentro de algum tempo, em local e data a definir.
6. Continuar, p. ex. a cada dois anos, a publicação,
através de novos convênios de coedição, de outros volumes similares
aos já publicados.
7. Realizar um Curso de Especialização em
História da Filosofia Medieval, talvez, a partir de 1989, numa Instituição
a ser escolhida, para reciclagem de Professores e graduados, com interesse
na mesma.
8. Como principal instrumento para “atacar”
os sete itens precedentes – e para estudar a possibilidade de se organizar,
a médio prazo, uma Associação de pessoas interessadas em Filosofia Medieval
– foi criada uma Comissão de Filosofia Medieval, constante dos professores
doutores José Antônio de C. Rodrigues de Souza (UFMT), presidente, Ruy
Nunes (SP), Luís Alberto De Boni (RS) e José de Sá Porto (Santos, SP)”.
Por conseguinte,
foi naquela mencionada reunião de 19 de setembro que o grupo de pessoas
que vinha se interessando pela Filosofia Medieval em nosso País, tomou
o nome de Comissão de Filosofia Medieval. Passariam a pertencer-lhe,
sem ônus financeiro algum, todos aqueles que estivessem imbuídos e dispostos
a lutar pelo mesmo propósito.
Imediatamente,
ao final de novembro de 1986, o secretário da Comissão, Prof. Dr. José
de Sá Porto, depois de haver feito um minucioso levantamento dos Cursos
de Filosofia no Brasil, e das Instituições que poderiam vir a se interessar
em nossa proposta, acima citada, expediu as circulares CFM 01 e 02 dirigidas,
respectivamente, aos Diretores de Faculdades e ou Institutos aos professores
da disciplina em questão.
Logo, muita
gente respondeu àqueles ofícios circulares, pondo-nos a par de boa parte
das informações que desejávamos obter, inclusive o saudoso Amigo, Prof.
Francisco da Gama Caeiro, relatando o que se fazia em plagas lusitanas,
e indicando outros colegas com quem poderíamos vir a ampliar nosso
relacionamento.
Na metade
de fevereiro de 1987, o Prof. Dr. Francisco Bertelloni, da Universidade
de Buenos Aires, pela 1a vez, escrevia-nos, tentando obter a cópia de
um artigo de seu interesse, da autoria de João Morais Barbosa, publicado
no volume de Leopoldianum de 1984. A Comissão ampliava seus contatos
pela América Latina e ganhava um novo e bravo companheiro.
Em 3 de
outubro de 1987, ainda meio chocado com os falecimentos dos Profs. Raimundo
Vier OFM e Nicolas Bôer, que tinham se disposto a colaborar com a Comissão,
através do Of. Circular CFM 03, escrevemos a vários colegas, convidando-os
a tomar parte em mais um volume de Leopoldianum a ser publicado
em dezembro de 1988, consagrado ao Pensamento Político na Alta Idade
Média.
Nesse ínterim,
na Revista Latinoamerica de Filosofia, RLF XIII, 3 (1987): 380-382,
de Buenos Aires, o Prof. Francisco Bertelloni tecia seus comentários
sobre o volume intitulado Filosofia Medieval Estudos e Textos,
em que num passo muito significativo, soube muito bem compreender o
espírito que animava a Comissão:
“...Entre lãs más destacadas de sus virtudes – además
de la ausencia de propósitos desmesurados en un âmbito sudamericano
en el que la medievística padece la ausencia de fuentes originales –
merecería ser destacado el carácter atípico de los estúdios que
allí se ofrecen. Por ello, ateniéndonos a éste y a anteriores volúmenes
de Leopoldianum, ponderamos el echo de que los medievalistas brasileros
y portugueses hayan sabido obviar el error de centrar los estudios medievales
en torno de un solo autor y que hayan comprendido que el pensamiento
medieval es antes la génesis de una historia cultural en permanente
movimiento y no un único dixit. En efecto, para los responsables de
este volumen, los autores aún no consagrados también debem ser escuchados.
Emprender el estudio de nuestro pasado medieval sobre la base de dicho
presupuesto es la única manera de hacerlo científicamente, y ello es
ya, por sí mismo, um mérito considerable”.
Como era
de se esperar, dado o fato de o referido volume ser temático e especializado,
as adesões não foram muitas, mas conseguimos prepará-lo e ele foi publicado
conforme o programado, sob o número 44 daquele Periódico (Cf. relação
dos textos em Publicações 1983/2001, n. 4).
Esgotado
este volume, ganhou nova versão ampliada sob o título O Reino e o
Sacerdócio O Pensamento Político na Alta Idade Média, o qual foi
estampado na Coleção Filosofia, número 33, da EDIPUCRS, em 1995. Foram-lhe
acrescentados os seguintes artigos:
1) “A Igreja nascente em face do Estado Romano”
3) “Leão I: a Cátedra de Pedro e o primado de Roma”
5) “A sacralização do poder temporal: Gregório Magno
e Isidoro de Sevilha”, de autoria do Prof. Dr. Daniel Valle Ribeiro,
da Universidade Federal de Minas Gerais
4) “O pensamento gelasiano a respeito das relações
entre a Igreja e o Império Romano-Cristão”
10) “A teocracia imperial no fim da Alta Idade Média”
de lavra do Prof. Dr. José Antônio de C. R. De Souza da UFG, igualmente,
organizador do livro.
Desde o
início de 1989, começamos a planejar o 3o Encontro de Filosofia Medieval
a ocorrer em 1990, enviando cartas circulares para os eventuais interessados.
Dadas as respostas que recebemos até ao princípio de agosto, nessa altura,
podíamos informar os colegas de que o Congresso e o livro dele decorrente
estavam provisoriamente organizados em 4 partes:
1) Teoria do conhecimento e filosofia da linguagem
2) Metafísica
3) Ética
4) Política
Outrossim,
durante o Congresso, tínhamos em mente tratar dos seguintes assuntos:
a) Diagnóstico e perspectivas quanto ao ensino e à
investigação em Filosofia Medieval no Brasil, em Portugal e na Argentina
b) Possibilidade de criação de um curso de Pós-graduação
em Filosofia Medieval no Brasil
c) Balanço das atividades da Comissão de Filosofia
Medieval durante o quadriênio, eleição da nova diretoria (Presidente,
Vice, Secretário) da Comissão e planejamento para o próximo quadriênio
(1990-94).
Em outubro
de 1989, uma vez mais, a UniSantos confirmava ser a anfitriã do Congresso
que, teria o nome oficial de III Simpósio de Filosofia Medieval,
desde que pudéssemos contar com o apoio financeiro da FAPESP e do CNPq.
Sua realização foi programada para ocorrer entre 17 e 21 de setembro
de 1990. A Editora Leopoldianum e Edições Loyola comprometiam-se a publicar
o volume. De seguida, com a sua eficiência habitual, o Prof. Dr. José
de Sá Porto divulgou para todos os Departamentos de Filosofia do país
a notícia da realização do Evento bem como sua programação provisória.
Pela metade
de dezembro, juntamente com o Reitor, Pe. Dr. Waldemar Martins, encaminhamos
pedido de auxílio financeiro à Coordenação de Ciências Humanas do CNPq
para a realização do Evento, então, dirigida pela Sra. Maria Cremilda
Sucupira Montandon que já conhecia o trabalho da Comissão.
No princípio
de março de 1990, a direção superior da UniSantos foi substituída, mas
nem por isso, os compromissos firmados com a Comissão de Filosofia
Medieval pelo reitorado precedente foram rompidos. Nossos contatos ocorriam
através do Prof. Sá Porto e da Profa. Mestre Maria Apparecida Pereira.
Enfim, no
dia 22 de agosto de 1990, o CNPq informava-nos que havia concedido uma
parcela razoável do auxílio solicitado para a realização do III Simpósio
de Filosofia Medieval, em passagens nacionais e internacionais e
em diárias. À mesma altura, tínhamos em mãos todos os textos das conferências
a serem proferidas, o que, infelizmente, ia retardar o lançamento do
volume e a Reitoria da UniSantos também nos informava que havia conseguido
junto ao Comando Militar da P. Militar paulista hospedar todos os participantes
do Evento nas dependências do Clube de Oficiais da mesma, localizado
à rua José Bonifácio, 224, não muito distante do campus Pompéia.
O III Simpósio
foi aberto na data programada pelo Magnífico Reitor da UniSantos, Prof.
Dr. Francisco Prado de Oliveira Ribeiro que, diga-se de passagem, juntamente
com sua equipe, como já havia ocorrido anteriormente, nos proporcionaram
uma excelente estada na Instituição.
As conferências
e o livro contendo-as, intitulado Temas de Filosofia Medieval (estampado
em Leopoldianum 48 (1990), contendo 290 páginas. Cf. relação
dos textos em Publicações 1983/2001, n. 5), conforme havia sido planejado
e anunciado, foram agrupadas em conjuntos distintos, porém, articulados
entre si, observando-se, ainda, o critério cronológico relativo ao medievo,
à semelhança do que ocorrera nos outros Simpósios e volumes.
Presenças
marcantes neste III Simpósio, para além dos conferencistas, foram alguns
professores que, então, ensinavam História da Filosofia Medieval, tais
como, Dr. João Lupi, da Universidade Federal de Santa Maria, RS, Dr.
Sebastião Trogo, da Universidade Federal de Minas Gerais, Dr. Mário
Cella, da Universidade Federal do Maranhão, bem como simpatizantes da
sub-área de conhecimento, tais como o Prof. Dr. Estêvão Martins da UnB
e a Profa. Silvana Romancini Silva do CEUB, e pela 1a vez, alunos de
outras instituições e não apenas da FAFI, interessados na mesma, designadamente,
Ricardo José Ramos de Arruda e Cláudia Lemes/UFG.
Igualmente,
conforme estava programado, no dia 18 de setembro, à tarde, os presentes
ao Simpósio se reuniram na sala 109 da FAFI da UniSantos, para deliberar
acerca da conveniência ou não de se transformar a Comissão numa Sociedade
e, posteriormente, filiá-la à SIEPM. A Ata da reunião registra que,
após os debates, não se chegou a uma conclusão definitiva
sobre o assunto, devendo ser retomando na reunião do dia seguinte. A
sugestão de todos, individualmente, a se filiarem à SIEPM e a comparecerem
ao próximo Congresso da Sociedade a ocorrer em agosto de 1992 em Ottawa;
de serem estreitados e ampliados os contatos com os colegas lusitanos,
argentinos e de outros países, foram aprovadas por todos os presentes.
Na reunião
do dia seguinte, 19 de setembro, no mesmo local, a Ata da mesma registra
que o Secretário da Comissão, Dr. José de Sá Porto, apresentou a todos
um relatório das atividades desenvolvidas pela mesma, o qual foi aprovado.
Em seguida, se tratou da escolha dos novos dirigentes da Comissão. Dado
que na véspera a Reitoria da UniSantos havia informado que continuaria
a dar apoio e a abrigar a Comissão, achou-se por bem escolher como secretária
da mesma, a Profa. Maria Apparecida Franco Pereira, por causa de seu
vínculo profissional com a Instituição, a qual recebeu anuência
de todos.
Voltando-se
a deliberar sobre quem seria o presidente, a escolha recaiu na pessoa
do Prof. Dr. Luís Alberto De Boni. Igualmente, a Ata registra que foram
indicados, um vice-presidente na pessoa do Prof. Nachman Falbel, responsável
pela Comissão em São Paulo, e coordenadores regionais, a saber, para
o Norte-Nordeste, Prof. Mário Cella; Rio de Janeiro, Prof. Danilo Marcondes;
Minas e Distrito Federal, Prof. Sebastião Trogo; Argentina, Prof. Francisco
Bertelloni e Portugal (apenas elo de ligação), Frei Dr. Joaquim Cerqueira
Gonçalves OFM.
Empossado
na presidência, o Prof. De Boni se propôs a organizar o IV Simpósio
em dois anos, em lugar a ser definido posteriormente.
O III Simpósio
foi concluído com a última conferência, à noite, conforme acima indicado,
seguida das palavras de encerramento proferidas pelo Magnífico Reitor
da UniSantos. Logo depois, todos os congressistas e outros participantes,
como não podia ser de outra forma, se dirigiram a uma peixaria (restaurante)
para saborear os excelentes peixes à moda de Santos.