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Neste terceiro
período da trajetória da Comissão destacam-se algumas tendências que já
vinham se acentuando em anos anteriores:
1) Uma moderada institucionalização da Comissão, pela existência de três fatores: a) um comitê de consulta e decisão, pequeno e informal, constituído pelos anteriores presidentes, que assessoram o atual; b) a edição de um boletim de notícias, ainda que irregular e virtual e c) a parceria, cada vez mais estreita, com entidades maiores e mais formalmente organizadas: a Associação Internacional para o Estudo da Filosofia Medieval (SIEPM) e mais de perto com a Associação Brasileira de Estudos Medievais (ABREM) – esta tem como candidato à presidência a partir de julho o nosso Luís De Boni. 2) A ampliação do interesse pela Filosofia Medieval, manifestada não só pelo apoio da Comissão à organização de encontros no Nordeste e no Extremo sul, mas também pelo surgimento de muitos estudiosos, que sem serem professores ou pesquisadores dedicados à filosofia medieval vêm cada vez mais apresentando comunicações em encontros e reuniões. 3) A presença constante de colegas sul-americanos, sobretudo argentinos, nas nossas reuniões, e a criação de uma rede continental de Filosofia Medieval a partir do Congresso de San Antonio; deve ainda acrescentar-se um relacionamento cada vez maior com portugueses, espanhóis e italianos, cujos grupos visitantes se ampliam de congresso em congresso. 4) A especialização em núcleos regionais, e em assuntos determinados: árabe, Raimundo Lúlio, seminário da PUC/RS; e a par com essa diversificação veio uma maior profissionalização, patente no crescente número de dissertações e teses defendidas: do Oscar Bauchwitz em Salamanca, do Noeli Rossatto em Barcelona, e do Ricardo Strefling e do Marcos Nunes da Costa em Porto Alegre – para citar apenas algumas mais recentes. 5) O aumento quase exponencial da publicação de traduções de textos de Filosofia medieval, devidas sobretudo à organização de coleções a ela dedicadas. Aqui podemos repetir a menção, feita no capítulo anterior desta trajetória, à Editora da PUC/RS e à Revista Veritas, bem como à sua associada Universidade de São Francisco na Coleção Pensamento Franciscano; Luís De Boni e Carlos Arthur estão no Conselho Editorial, junto com Frei Orlando Bernardi e Alberto Moreira; outros membros da nossa Comissão fazem parte do Conselho Consultivo, e José Antônio participou da iniciativa desta cooperação. Assim a Comissão Brasileira de Filosofia Medieval faz-se presente em todos e setores e atividades que no País precisam de seu apoio. 6) Finalmente estão em preparação dois eventos, promovidos pela própria Comissão, em comemoração de seus vinte anos: o Congresso Internacional de Filosofia Medieval a realizar em Recife, e o Colóquio de Estética Medieval que terá lugar em Florianópolis. Haverá assim que distinguir a realização de iniciativas da Comissão, dos eventos nos quais participamos como convidados, ou em parceria; estes são significativos da penetração que a Filosofia Medieval, como área de estudos, está tendo em todos os meios, quer os que se dedicam à Idade Média e onde nossos pesquisadores de Filosofia têm entrada, quer os que tratam de Filosofia e que aceitam os medievalistas; em ambos os casos nossa atuação tem sido relevante e cada vez mais apreciada, e representa o esforço de vinte anos para tornar a Filosofia Medieval respeitada e aceita no meio intelectual e cultural do Brasil. Nesta ordem de idéias, uma das características dos últimos anos foi a crescente presença da Filosofia medieval nos encontros da ABREM, a Associação Brasileira de Estudos Medievais, que entretanto se consolidava de forma marcante na atividade intelectual nacional. A ABREM passou a ser um amplo palco onde se abrigaram , e se relacionam entre si, estudos de muitos setores, desde a Literatura e a Filologia à História e Música. A Filosofia no seio da ABREM ficou bem visível no Terceiro Encontro Internacional de Estudos Medievais, que teve lugar no Rio de Janeiro (UERJ) de 7 a 9 de julho de 1999; estavam presentes Luís De Boni (palestra sobre João Duns Scotus), Daniel Ribeiro, Scot Randal, José Silva, José Jivaldo Lima, Flávio Ferreira Paes Filho, João Lupi. Também no Rio (UFRJ) se realizou de 23 a 27 de agosto desse ano, o Primeiro Colóquio Luso Brasileiro de pesquisa Filosófica, sendo o tema central os 400 anos do Ratio Studiorum; houve diversas apresentações de brasileiros e portugueses sobre Filosofia Medieval e Neoescolástica; estavam presentes: Luís De Boni (Duns Scotus e Ockham) André Rios, João Lupi, Carlos Arthur (Tomás de Aquino). Entretanto, em São Paulo, Esteve Jaulent criou o Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, com filiais no Rio e em Salvador; o instituto tem como objetivos o estudo da obra de Raimundo Lúlio, da Filosofia medieval em geral, e da cultura catalã; desde o início vem desenvolvendo na rede (Internet) uma página bem documentada, realizando cursos, e editando publicações. Ao longo do ano de 1999 realizaram-se os Encontros de Filosofia Medieval da PUC de Porto Alegre, orientados pelo Luís De Boni, com a participação de mestrandos e doutorandos. Em outubro de 1999 realizou-se o tão esperado Congresso Internacional de Filosofia Medieval, o VII Latino-Americano, consagrando pelo título a presença constante dos nuestros hermanos nas reuniões, encontros e congressos da Comissão Brasileira de Filosofia Medieval. Organizado pela Profa. Celina Lértora Mendoza – no final ovacionada pela sua eficiência, carinho e onipresença - o Congresso teve lugar no convento de San Antonio de Padua, próximo a Buenos Aires, e contou com a extraordinária e inefável infra-estrutura dos frades franciscanos . Estava presente a Diretoria da SIEPM , que se comportou como o que é: o regaço maternal de todos os medievalistas da Filosofia; Albert Zimmermann (presidente de honra da associação) David Luscombe (presidente) e Mlle. Jaqueline Hamesse (secretária) não só não pouparam elogios ao Congresso e à difusão da Filosofia Medieval na América Latina, como em diversas oportunidades mostraram admiração, incentivaram estudiosos, louvaram competências. Presente também, mas como gente de casa, o membro do Conselho de Assessores da SIEPM, Francisco Bertelloni. Essa grata estranheza pela quantidade e qualidade dos pesquisadores latino-americanos foi compartilhada e anunciada pelos demais visitantes espanhóis, portugueses, e italianos – alguns deles nossos companheiros e conhecidos de anteriores reuniões, como Gregório Piaia. Jaqueline Hamesse ficou tão bem impressionada que propôs diversas ações da SIEPM: oferta de livros, bolsas de pesquisa, maior receptividade da associação às nossas contribuições. Passado algum tempo, a Professora Hamesse pediu para inserir no nosso boletim (o n. 4) uma nota incentivando os jovens investigadores latino-americanos a participarem do curso de introdução à pesquisa documental medieval que a FIDEM organiza em Roma. O público participante foi de cerca de 150 pessoas, predominando argentinos e brasileiros: Luís De Boni, Carlos Arthur, José Antônio, Lênia Márcia Mongelli, José Higuera, Jan teer Regen, João Lupi, Manoel Vasconcellos, Marcos Roberto Nunes da Costa, Alfredo Santiago Culleton e muitos outros, além de alunos de graduação e pós-graduação de Porto Alegre. Notamos porém
que embora contássemos com a presença e companhia de chilenos, venezuelanos,
colombianos e outros, continuava a crônica ausência dos mexicanos. Também
não se efetivou a anunciada e preparada associação latino-americana de
Filosofia medieval, pois as reuniões de trabalho e a avaliação das condições
mostraram que uma página na rede (um site na internet) seria, ao menos
por ora, mais indicado; coube à Celina Lértora dar--lhe início, como de
fato já se pode constatar no endereço Conversamos muito com os portugueses sobre intercâmbio de estudantes, abrindo a possibilidade de jovens brasileiros pesquisarem manuscritos em Portugal, e também sobre colaboração na tradução de obras medievais; estes assuntos já voltaram a ser posteriormente abordados, mas ainda não se encontrou quem se disponha a efetivar esse relacionamento. Os participantes não se cansaram de apreciar o bom ambiente de convivência, amizade e alegria proporcionado pelo convento e pelas gentilezas dos frades, nomeadamente de Frei Jorge Bender e Frei Cláudio Conforti. Foram tão apreciadas as apresentações artísticas (teatro, dança, música) que foi ali que nasceu a idéia de realizar um festival de artes medievais. Quanto à temática das comunicações e palestras predominaram Agostinho e Tomás de Aquino, Nicolau de Cusa, e obviamente os franciscanos, sobretudo Duns Scotus e Ockham. Por todos estes motivos o congresso de San Antonio foi com certeza uma experiência inesquecível e marcante para todos os que dele participaram, e um momento de glória e realização para os pioneiros da Filosofia Medieval na América do Sul, que nestes dias viram no Congresso um fruto maduro – e porque não dizer? Saboroso – de seus esforços de 18 anos. Como já vem sendo hábito o Luís De Boni e a Editora da PUC/RS brindaram os participantes com um presente: o volume das atas com os textos completos do Congresso, impresso pela Veritas ainda em setembro (os textos encontram-se em Publicações 1983-2000, sob o número 13. As demais comunicações apresentadas durante o Evento, encontram-se listadas infra, sob o número 14). A última atividade de que tivemos notícia neste ano de 1999 foi o Colóquio de História da Filosofia Patrística e Medieval do CEPAME, infelizmente pouco divulgado. O ano de 2000 começou com a notícia da criação de mais um grupo especializado dentro da Filosofia medieval: o da Filosofia em Árabe (Grupo das Arábias) coordenado no CEPAME da USP por Miguel Attie Filho; durante o ano o Grupo divulgou suas atividades, delas constando sobretudo um Seminário mensal. Quase ao mesmo tempo a Comissão viu estender-se sua ação mais para o sul do Brasil, com a realização do Seminário de Filosofia medieval organizado por Manoel Vasconcellos e João Hobhuss na Universidade Federal de Pelotas (29 a 31 de março). Participaram Francisco Bertelloni, Luís De Boni, Reinholdo Ullmann, João Lupi, e ainda Miguel Spinelli (UFSM) e Agemir Bavaresco (UCPel). Poucos dias depois o Luís De Boni e José Antônio estiveram nas Segundas Jornadas de História de Teoria Política Medieval em Buenos Aires. A participação da pesquisa em Filosofia medieval foi notável no II Ciclo de Estudos Medievais que a ABREM realizou junto com a Universidade Estadual de Maringá, em agosto (17-19). Luís De Boni fez uma conferência sobre A Universidade na Idade Média, e coube a Luís Lauand (USP) fazer outra sobre A Prudentia em Tomás de Aquino; estavam presentes ainda o José Ricardo Pierpauli (UFSC) e João Lupi (UFSC) que colaboraram com o tema geral das idéias políticas. Mas houve ainda numerosas comunicações sobre temática de Filosofia, a cargo de estudiosos que não estão ligados à Comissão de Filosofia Medieval: falou-se de teorias hierocráticas, doutrinas políticas acerca dos judeus, astronomia, educação , doutrinas sobre a técnica, e outros assuntos, demonstrando que o interesse pela Filosofia medieval já está indo muito além daqueles que se acolhem nos encontros promovidos pela nossa Comissão. Ali mesmo se decidiu que o III Ciclo da ABREM (intercalado com os encontros internacionais da Associação) se realizará em Florianópolis em 2002; entre as temáticas propostas destacam-se: A Cultura Popular Medieval, e A Festa e o Riso na Idade Média. Mas as atividades alargaram-se também para o Nordeste: Jan teer Regen em Fortaleza marcou presença medieval na Semana de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará, em maio, e com um curso sobre Filosofia Medieval em outubro, em Ilhéus. Também em outubro em Natal o Oscar Federico Bauchwitz organizou um Encontro sobre Neoplatonismo, muito concorrido com a presença de alunos, e de pesquisadores argentinos, além do grupo gaúcho do Luís De Boni; na temática destacou-se a figura de Santo Agostinho, que provocou alguns acesos debates. Oscar e sua equipe não mediram gentilezas para criar um bom ambiente, e de fato não só se conseguiu uma realização inédita entre nós – a de marcar o neoplatonismo como componente fundamental da filosofia na Idade Média – como se viveram dias de amizade verdadeiramente familiar; o clima e o povo de Natal, a arquitetura colonial e o artesanato, que nos cercavam nesses dias, muito contribuíram para uma sensação geral de contentamento. Todos estes fatores se dirigiam para uma conclusão de conversas do último dia: por um lado o crescimento da Filosofia Medieval nas universidades nordestinas (Fortaleza - Natal - Recife) , por outro o acolhimento favorável, e finalmente a presença do Marcos Nunes da Costa, de Recife, que recentemente defendera tese de doutorado em Porto Alegre, conduziram à aceitação da proposta, feita por ele, de que o Congresso Internacional comemorativo dos vinte anos da nossa Comissão se realize em Recife.
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