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Pedro Abelardo (1079-1142) - um intelectual
gramsciano?
Abelardo
e Heloísa

Manuscrito do séc. XIV do Roman de la Rose
Este ensaio visa primeiramente um breve levantamento
da vida de Abelardo, baseado principalmente em sua Historia Calamitatum
(1132?), supostamente escrita nos tempos em que passou na abadia de São
Gildas, na Bretanha (1125?), quando aceitou convite para ser seu abade
(Correspondência de Abelardo e Heloísa: 1989).
Abri um parêntese importante para Heloísa,
paradigma feminino nos moldes sociais da época e ponto de debate
para a atual "História das Mulheres" , além de outro para
a questão da Unidade e Trindade divinas, problema central para
a filosofia escolástica de Abelardo em sua obra Da Trindade.
A partir daí, fiz um questionamento sobre a posição
de Jacques Le Goff a respeito do "intelectual" do século XII e
sua utilização do conceito gramsciano de intelectual
orgânico para as estruturas mentais do medievo. Baseei-me principalmente
no livro Correspondência de Abelardo e Heloísa, apresentado
por Paul Zumthor.
Para facilitar a leitura, via de regra, todas as citações
sem referência são deste texto. Assim, evitei um sem número
de notas desnecessárias. O livro contém a tradução
para língua portuguesa de vários manuscritos pertencentes
à biblioteca de Troyes sob o número 802, copiados em fins
do século XII, portanto, cento e cinqüenta anos após
os acontecimentos que relata. A tradução ateve-se nos cinco
primeiros desses documentos, a saber:
1) uma autobiografia de Abelardo, a Historia calamitatum,
escrita em forma de carta fictícia a um amigo, e cujo conteúdo
implicaria que fosse datada de 1132, quando o autor tinha cinqüenta
e três anos (sua datação, portanto, não é
precisa);
2) uma Consolatio, carta enviada a Abelardo por
Heloísa, depois que esta tomou conhecimento da Historia;
3) três cartas (Abelardo a Heloísa, Heloísa
a Abelardo, Abelardo a Heloísa) onde o casal retorna a seu passado,
exprimindo seus sentimentos a respeito do futuro.
Comentei apenas a primeira parte do livro, que contêm
a Historia Calamitatum. O restante da publicação,
as cartas entre Abelardo e Heloísa, não será aqui
tratado.
Na apresentação, segundo Zumthor, a maioria
dos medievalistas está de acordo quanto à autenticidade
dos documentos, sendo o próprio Paracleto, capela fundada por Abelardo
(dedicada à Santíssima Trindade), perto de Provins, no Champagne,
o primeiro local a possuí-los. Esta "obra", retocada no século
seguinte, é admitida pela crítica histórica atual
como um fim último visado pelo seu compilador, que o tenha redigido
por tradição oral ou de posse do documento original.
Zumthor ainda faz um breve comentário sobre as
adaptações posteriores da Historia Calamitatum, desde
Jean de Meung (Roman de la rose, uma tradução do
latim para o francês, 1280) até fins do século XIX.
Mas pouco importa; para ele, os textos trazem em seu próprio sentido
os ecos de um mundo real, o dos séculos XII e XIII. E hoje, quando
a História se auto-questiona a respeito de suas reais possibilidades
quanto a uma "verdade" dos fatos, podemos olhar esses manuscritos, verídicos
de uma situação ou não, com nossos próprios
olhos, céticos na virada do segundo milênio quanto aos nossos
futuros rumos, mas sempre otimistas quanto às possibilidades do
amor.
A imaginação histórica,
servindo aqui como base para a discussão sobre o (este) homem e
a (esta) mulher "intelectuais" plenos do século XII mostra
que, verdadeiro ou não, a Historia calamitatum é
o eco do real, a pista mais direta para compreendermos as estruturas mentais
e emocionais deste mundo distante (no tempo) e próximo (na dimensão
humana).
Abelardo (1079-1142)
nihil credendum, nisi prius intellectum.
Nada deve ser crido antes de ser entendido
Pedro Abelardo, nas palavras de Jacques Le Goff "o primeiro
intelectual da Idade Média (LE GOFF: 1983, vol. II, 51), nasceu
no burgo de Le Pallet, cerca de oito milhas de Nantes, na Petit-Bretagne
(Bretanha). Filho de um cavaleiro amante das letras que mais tarde faria
votos monásticos , Abelardo foi iniciado no estudo das Artes
Liberais pelo próprio pai, onde seu ardor e desenvoltura, principalmente
na dialética (a terceira arte do Trivium), levou-o a abandonar
suas prerrogativas de primogênito, a carreira militar: "Troquei,
assim, por essas armas aquelas da guerra e sacrifiquei os triunfos do
combate aos da disputa".
Na busca pelo conhecimento, Abelardo chegou a Paris disposto
a freqüentar as aulas de Guillaume de Champeaux (c.1070-1121) na
escola da catedral de Paris. Guillaume, o principal mestre no gênero
da dialética, travou uma scholastica disputatio com o então
estudante Abelardo sobre a questão dos universais (um conceito
mental, natureza intrínseca do significado contido nas palavras
universais homem, mundo, livro, animal).
Guillaume, adepto da proposta realista, que defendia
uma total adequação entre os universais e a realidade
portanto uma proposta de imutabilidade do universo, o "real estático"
foi arrasado por Abelardo em um silogismo em plena aula. Embora não
dispormos da argumentação tecida por Guillaume, temos aqui
a essência da objeção fundamental de Abelardo à
proposta realista de seu mestre, onde o jovem estudante Abelardo teria
então aproximadamente 24 ou 25 anos mostra a contradição
do realismo através da simultaneidade dos contrários:
"Se uma idêntica essência,
embora revestindo-se de formas diversas, existe nos sujeitos singulares,
é necessário que a essência que assumiu essas formas
seja aquela mesma essência que assumiu outras formas, de modo
que o animal que possui a forma racional seja o mesmo animal formado
pela irracionalidade, mas assim o animal racional seria ao mesmo tempo
animal irracional, com a conseqüência de que teríamos
a simultaneidade dos contrários no mesmo sujeito." (citado em
REALE: 1990, vol. I, 521)
Guillaume, após novos debates com Abelardo, foi
obrigado a reformular seus conceitos a respeito dos universais, caindo
assim em descrédito junto aos estudantes, atraídos pelos
argumentos de Abelardo. A disciplina de Guillaume foi então retirada
do ensino oficial, o que obrigou a saída do mestre (1108). Abelardo,
tomado de súbita notoriedade, abriu uma escola em Melun (40 milhas
de Paris), na época cidade da residência real; foi obrigado
a transferi-la para Corbeil (25 milhas de Paris) devido à perseguição
movida por Guillaume.
O sucessor de Guillaume na escola episcopal de Paris
ofereceu sua cátedra a Abelardo. Após uma breve interrupção
Abelardo afastou-se de volta para Melun devido às intrigas movidas
por seu inimigo o novo ídolo estudantil instalou-se sobre o monte
Sainte-Geneviève. Este período (1114-1118) foi o mais brilhante
de seu magistério; considerado o primeiro núcleo de universidade
livre na França, tornou-se "o maior centro de cultura sagrada e
profana, para o qual acorria a mais seleta juventude estudiosa de toda
a Europa" (REALE: 1990, vol. I, 511). Sua fama corria fora dos limites
franceses; suas aulas eram concorridas, todos queriam ouvir o homem que
derrubou Guillaume de Champeaux. Uma carta do abade Foulques a Abelardo
mostra o quanto seu sucesso era disputado:
"...a distância, as montanhas,
os vales e as estradas infestadas de bandidos não impediram que
a mocidade vos fosse procurar. Jovens ingleses atravessaram mar perigoso
para ingressarem em vossos cursos; todas as regiões da Espanha,
Flandres e Alemanha vos enviaram alunos, e eles jamais cessam de elogiar
o vigor de vosso espírito..." (GILSON: 1922, vol I, 89).
Ao seus algozes, cheios de inveja de sua fama repentina
("Em pouco tempo eu reinava sozinho no domínio da dialética"),
Abelardo dedicou estas palavras em defesa de sua dialética, para
ele, ao contrário do que seus inimigos apregoavam, aliada da fé
cristã:
"Ùltimamente os meus rivais inventaram
uma nova calúnia contra mim, pelo facto de eu escrever sobre
a arte da dialéctica, afirmando que não é permitido
a um cristão tratar de coisas que não digam respeito à
fé. Dizem que esta ciência não só não
nos prepara para a fé como a destrói, pelas implicações
dos seus argumentos. Mas muito eu me maravilho por não dever
discutir o que a eles lhes é permitido ler. Se admitem que a
arte milita contra a fé, decerto pensam não ser ela uma
ciência. Porque a ciência da verdade é a compreensão
das coisas cuja espécie é a sabedoria na qual a fé
consiste.
A verdade não se opõe à verdade.
Porque, assim como a falsidade não se opõe ao que é
falso, nem a maldade ao que é mau, também a verdade se não
opõe ao que é verdadeiro ou a bondade ao que é bom;
mas, pelo contrário, todas as coisas boas estão de acordo.
Todo o conhecimento é bom, mesmo o que diz respeito à maldade,
porque um homem recto o pode possuir. Mesmo que ele se queira defender
da maldade, é necessário conhecê-la antecipadamente:
de outra maneira não a poderia evitar. Embora um acto seja mau,
o conhecimento que lhe diz respeito é bom; embora seja mau pecar,
é bom conhecer o pecado, a que de outra forma não poderemos
fugir.
Nem, por isso, a ciência matemática deve
ser considerada má porque a sua prática (a astrologia) é
má. Nem é um crime saber com que práticas e imolações
os demónios podem ser compelidos a fazer a nossa vontade, mas sim
usar este conhecimento. Porque se fosse mau saber isto, como poderia Deus,
que conhece os desejos e pensamentos de todas as suas criaturas, ser absolvido
e como obter a concorrência dos demónios?
Se, portanto, não é errado conhecer, mas
fazer, a maldade deve ser referida ao acto, e não ao conhecimento.
Como tal estamos convencidos de que todo o conhecimento, o qual na realidade
provém apenas de Deus e da sua bondade, é bom. Por conseguinte,
tem de considerar-se bom o estudo de todas as ciências, visto ser
bom o que dele deriva; e especialmente deve insistir-se no estudo da doutrina
pela qual se conhece a maior verdade. Assim é a dialéctica,
cuja função consiste em distinguir entre a verdade e a falsidade:
como condutora de todo o conhecimento, detém a primazia e direcção
da filosofia. Revela-se igualmente necessária à fé
católica, que sem a sua ajuda não pode resistir aos sofismas
dos cismáticos" (citado em ESPINOSA: 1981, 259-260).
Neste exercício dialético, Abelardo mostra
toda sua capacidade de raciocínio, condizente com a ordem lógica
do pensamento do intelectual do século XII. Sua arma de combate
a dialética está a serviço da fé, é
o instrumento necessário para bem defendê-la. Assim, Abelardo
é o paradigma deste intelectual que surge, de acordo com sua "filosofia
divina".
Abelardo tinha a intenção de estudar teologia,
aprofundar seus conhecimentos sobre os dogmas cristãos, sua relação
com a lógica e a dialética que o levou tão longe.
Estudou então com Anselmo de Laon (c. 1050-1117), "realista" e
antigo professor de Guillaume de Champeaux. Suas palavras a respeito de
Anselmo são mordazes:
"O fogo que ele acendia enchia sua casa
de fumaça sem dar qualquer luz. Era uma árvore frondosa
que se impunha; mas quem olhasse com atenção não
acharia nela fruto algum. Aproximei-me para colher seus frutos, mas
nela reconheci a figueira maldita pelo Senhor."
Após um vitorioso debate proposto por seus colegas
acerca de uma profecia obscura de Ezequiel, Abelardo encheu-se de soberba.
"Acreditei ser então o único filósofo sobre a Terra,
nenhum ataque parecia digno de temor". O filósofo credita a esse
pecado capital orgulho unido a outro a luxúria os verdadeiros
motivos de sua queda. É nesse momento de sua vida que surge Heloísa.
Heloísa
Órfã, sobrinha de "um certo cônego
Fulbert", Heloísa descobriu o estudo e a leitura num convento em
Argenteuil. Aos dezesseis anos Abelardo afirma que até então,
aos trinta e nove anos, tinha levado uma vida casta ("...eu, que até
então havia vivido numa estrita continência").
Para o universo mental de Abelardo, Heloísa é
a personificação feminina da lascívia. Abelardo ressalta
sua beleza e atração:
"Ela era bastante bonita e a extensão
de sua cultura tornava-a uma mulher excepcional (...) eu a via assim
ornada de todos os encantos que atraem os amantes".
O filósofo conseguiu um meio de aproximar-se de
Fulbert, oferecendo seus préstimos intelectuais à sua sobrinha.
O cônego, "dos mais cúpidos" segundo Abelardo, ansioso pelo
desenvolvimento de Heloísa nas belas-artes, consentiu. Abelardo
é bem franco nessa passagem de sua vida:
"A ingenuidade do ancião deixou-me
estupefato. Eu não me recobrava do meu espanto: confiar assim
uma terna ovelha a um lobo esfaimado! Encarregou-me não apenas
de instruí-la, mas de castigá-la sem reservas (...) Que
mais teria a acrescentar? Um mesmo teto nos reuniu, depois um mesmo
coração. Sob o pretexto de estudar, entregávamo-nos
inteiramente ao amor. (...) trocávamos mais beijos do que proposições
sábias. Minhas mãos voltavam com mais freqüência
a seus seios do que a nossos livros (...) Para melhor afastar as suspeitas,
o amor me levava às vezes a bater nela (...)".
Essa nova e inebriante experiência alterou seu
cotidiano. Esqueceu-se da filosofia. Seus alunos lamentaram sua atitude.
"Dificilmente se imaginaria a tristeza que meus alunos sentiram, sua dor,
suas queixas". Os professores, também chamados mestres, ou proclamadores,
eram clérigos tonsurados, que até o século XV perdiam
suas posições se casassem. A prática do magistério
era literalmente um sacerdócio. Uma geração antes,
as reformas de Leão IX (1049-1054) e principalmente Gregório
VIII (1073-1085) proibiram o ingresso no sacerdócio a todos os
homens que fossem casados, a menos que a esposa se tornasse freira.
No sínodo de Paris, em 1074, aconteceram as maiores
resistências contra a proibição ao casamento dos clérigos:
"a lei do celibato é insuportável e irracional" (FRÖHLICH:
op. cit., p. 85). Abelardo não menciona isso claramente,
refere-se a seu "caso" com Heloísa como uma "perda de prestígio",
uma "desonra" para ele: "...a própria publicidade do escândalo
nos tornou insensíveis". A reputação do mestre seria
manchada, principalmente nas condições que aconteceu o romance,
dentro da própria casa do cônego, que confiou a educação
de sua sobrinha a um renomado mestre de Notre-Dame.
Logo Heloísa anunciou a ele sua gravidez. Abelardo
raptou-a, à noite, mandando-a para a casa de sua irmã, na
Bretanha. Movido provavelmente pelo medo de uma retaliação,
Abelardo procurou Fulbert, oferecendo casamento em troca de seu silêncio,
para não prejudicar sua reputação. O cônego
aceitou. Selaram com beijos o compromisso.
Só não contaram com a negativa de Heloísa.
Segundo Abelardo, ela recusou o casamento por dois motivos: o perigo que
Abelardo se expunha e a desonra. Alegou ainda um sem número de
filósofos que desaconselhavam o casamento, além de seu cotidiano
incompatível com o trabalho pensante:
"Heloísa me lembrava a passagem
em que São Jerônimo, no primeiro livro Contra Joviniano,
relata que Teofrasto, depois de ter enumerado os tédios intoleráveis
do casamento, os cuidados perpétuos, demonstra que o sábio
não deve se casar (...) Mas deixemos de lado dizia ainda Heloísa
o obstáculo que constitui a filosofia. Pensa na situação
em que uma aliança legítima te meteria: qual a relação
entre os trabalhos da escola e os cuidados de um lar, entre uma escrivaninha
e um berço (...) Quem, então, meditando a Escritura ou
os problemas da filosofia, suportaria os vagidos de um recém-nascido,
as canções da ama que o embala, a multidão barulhenta
dos servos e servas, a sujeira habitual da infância?"
Não é necessário ser um filósofo
escolástico para, após um ataque tão bem perpetrado
contra o matrimônio, concordar com Heloísa. Afinal, essa
instituição não mudou tanto assim, pois podemos reconhecer
nas palavras dela o cotidiano de muitos casamentos hoje em dia. Paulette
L'Hermite Leclercq num memorável artigo (DUBY: p. 273-329), comenta
a mediocridade das fontes para se estudar a história das mulheres
nesse período.
Ainda existem dúvidas quanto à autenticidade
dos textos atribuídos a Heloísa, o que é vital para
a compreensão da representação da consciência
feminina do século XII. Não se trata de uma idealização
do destino da "heroína", e sim a constatação de que
o dado biológico nunca foi neutro em nenhuma sociedade, em qualquer
tempo. Leclercq coloca Heloísa como uma exceção intelectual
em seu tempo.
Tendo apreendido um determinado conhecimento em casa
devido à sua boa condição social, nem por isso Heloísa
se submeteu aos rígidos cânones sociais impostos à
mulher no mundo feudal. Sua atitude em relação ao sacramento
do casamento é o demonstrativo da visão de então
do relacionamento homem-mulher embora ela sempre reconheça a
inferioridade de seu sexo.
Ela propôs a Abelardo tornarem-se amantes: "quanto
a ela, preferia o título de amante ao de esposa, e o considerava
mais honroso para mim". Abelardo, resistindo, manteve a palavra empenhada
com Fulbert. Casaram-se. Para manterem isso em segredo, Abelardo foi morar
em seus aposentos de solteiro, Heloísa na casa do tio.
Passaram a encontrarem-se às escondidas, cada
vez mais raramente. Mas Fulbert, na ânsia de recuperar o prestígio
perdido pelo acontecimento desonroso, passou a divulgar o casamento; Heloísa
negava a todos veementemente. Como o tio passou a maltratá-la,
Abelardo a enviou para Argenteuil, abadia de religiosas reclusas onde
Heloísa recebera instrução elementar e ordenou que
vestisse o hábito próprio do voto monástico, porém
sem fazer os votos, nem receber o véu. Segundo Abelardo, nesse
momento, Fulbert, pensando que essa atitude de Abelardo tinha como intuito
livrar-se de Heloísa, tramou a vingança:
"...cedendo à indignação
e à cólera, formaram um complô contra mim. Certa
noite, um dos meus servidores, comprado a preço de ouro, introduziu-os
no quarto retirado onde eu dormia, e eles me fizeram sofrer a vingança
mais cruel, a mais vergonhosa e que o todo mundo conheceu com estupefação:
amputaram-me as partes do corpo com as quais eu cometera o delito de
que se queixavam. Fugiram. Dois dentre eles puderam ser presos; foram
condenados à perda da visão e à castração.
(...) na manhã seguinte,
toda a cidade acorreu à minha casa (...) os clérigos,
sobretudo, e meus alunos mais particularmente, me torturaram: suas recriminações,
seus gemidos me eram intoleráveis (...) Algumas horas antes eu
gozava de uma glória incontestável. Um instante havia
sido suficiente para rebaixá-la, talvez para destruí-la.
O julgamento de Deus me batia com justiça na parte do meu corpo
que havia pecado. Aquele que eu traíra infligia-me, por sua traição,
justas represálias."
A castração, segundo as Sagradas Escrituras,
inferioriza o macho. Torna-o impuro, um "ser fétido", nas palavras
do próprio Abelardo. "O homem com testículos esmagados ou
com o membro viril cortado não poderá entrar na assembléia
de Iahweh" (Deut., 23,2).
O sentido apologético encerra uma preocupação
doutrinaria com o sêmen, líquido criador da vida. Por esse
motivo, até hoje a Igreja condena a masturbação
"um ato intrínseca e gravemente desordenado" e a luxúria
"gozo desregrado do prazer venéreo" ambos uma ofensa à
castidade, pois "...moralmente desordenado quando buscado por si mesmo,
isolado das finalidades de procriação e de união"
(1993: 530). O castrado, privado do legado divino da procriação,
torna-se inferior, indigno de compartilhar a Assembléia de Deus.
No momento mais baixo de sua vida, Abelardo recebeu o
hábito religioso na abadia de Saint-Denys. Heloísa, no monastério
de Argenteuil, o acompanhou. O arquétipo feminino passa então
de Eva, a condutora do pecado, a Santa Maria, mãe de Deus, consagrada
à castidade e à pureza: Heloísa personifica os dois
símbolos medievais (e masculinos) da mulher nas duas grandes fases
de sua vida, cindida pelo amor a um homem.
Logo em seguida, Abelardo se retirou para um priorado,
o convento beneditino de Maisoncelle, onde retomou suas aulas, enfatizando
o estudo da teologia, porém sem abandonar o estudo das Artes
Liberais. Protestos levantaram-se contra seu magistério; ensinar
teologia sem antes ter trilhado o caminho tradicional, "coberto pela autoridade
de um mestre", foi considerado presunção de sua parte. Após
ter escrito um tratado de teologia, Da Unidade e da Trindade divinas,
um concílio foi reunido para julgar as questões levantadas
no livro (Soissons, 1121). É sua única obra citada em sua
Historia Calamitatum. Devemos então ocuparmos dela.
Da Trindade
"Este tratado foi visto, muitas pessoas o leram, e
ele agradou em geral, pois parecia responder a todas as questões
relativas ao assunto." Abelardo
O dogma da Santíssima Trindade, base doutrinaria
da Igreja, talvez seja, dentre todos os dogmas cristãos, o de mais
difícil compreensão para o crente, o homem comum. "É
o mistério central da fé e da vida cristã", o que
encerra significados gnósticos mais profundos. A formulação
do dogma da Trindade utiliza uma terminologia que recorre a noções
filosóficas:
1) "Substância" (traduzido às vezes por
"essência" ou "natureza") para designar o ser divino na sua unidade;
2) "Hispóstase" ou "pessoa" para designar
o Pai, o Filho e o Espírito Santo na sua distinção
real entre si;
3) "Relação" para designar o fato de
a distinção entre eles residir na referência de uns
aos outros (1993: 70).
A Trindade é una; um só Deus em três
pessoas, "Trindade consubstancial", ou seja, união dos três
corpos na mesma substância (definida no II Concílio de Constantinopla,
em 553). Além disso, as pessoas divinas são realmente distintas
entre si pelas suas relações de origem, e relativas umas
às outras por não dividir a unidade divina.
Pois bem. Para Abelardo, em sua obra aqui discutida,
pode-se considerar em um único Deus a Sua força como Primeira
Pessoa, Sua sabedoria como a Segunda Pessoa, e Sua graça como a
Terceira; "...são essas as fases ou modalidades da Essência
Divina, porém todas as obras de Deus sugerem e unem, ao mesmo tempo,
a Sua força, a Sua sabedoria e o Seu amor" (RÉMUSAT: 1845,
vol I, 77).
Além de sua afirmação quanto às
três essências distintas entre as pessoas divinas, havia uma
estupefação quanto ao fato de Abelardo ter negado que Deus
tivesse se engendrado a Si mesmo. Abelardo, questionado em que autoridade
eclesiástica se baseava para fazer tal afirmativa "herética",
cita então a obra Santo Agostinho, no primeiro livro Da Trindade:
"Aquele que atribui a Deus a potência
de se ter engendrado a si mesmo comete um grave erro. Tal proposição
é falsa não apenas com relação a Deus mas
também a todo ser espiritual ou corporal, pois nada se engendra
a si mesmo".
Essa era a busca de uma explicação racional
para a fé; era a defesa da razão na teologia. No Concílio
de Soissons (1121), suas teses foram condenadas. Foi obrigado a lançar
seu livro à fogueira com suas próprias mãos, sem
ter tido a chance de poder defendê-lo. O bispo de Chartres, Geoffroy,
o único a sair em sua defesa, solicitou ao concílio que
Abelardo tivesse o direito de ser ouvido; Albéric e Lotulphe, mestres
da escola de Reims, se opuseram, sob a alegação de que não
se poderia resistir à força de sua oratória. Em sua
Historia Calamitatum, Abelardo coloca esse novo infortúnio
de sua vida como seu pior momento:
"Eu me julgava o mais miserável
dos homens. O atentado cometido por Fulbert parecia-me pouca coisa em
relação a essa nova injustiça, e eu lamentava mais
o estigma do meu nome que o do meu corpo. Este não era senão
a conseqüência merecida de uma falta; aquele não tinha
por causa, em sua violência revoltante, senão a sinceridade
e o amor da fé que me haviam levado a escrever."
Neste pequeno trecho, onde Abelardo compara suas duas
tragédias pessoais e afirma seu maior sofrimento com a segunda,
observo a profunda força mental do pensamento cristão no
intelectual do século XII; suas angústias e anseios reflexivos
giram quase que exclusivamente nos assuntos da fé.
Após um breve período em Saint-Denys
onde se envolveu em mais problemas com os monges por ter descoberto em
uma obra de Beda, o Venerável (672-735), que Dionísio, o
Aeropagita (viveu entre os séculos V e VI), patrono do mosteiro
que se encontrava, não era bispo de Atenas, e sim de Corinto (isso
punha em dúvida o patronato da abadia) Abelardo fugiu do mosteiro
e se refugiou nas terras de um certo conde Thibaut, mais precisamente,
no burgo de Provins.
Conseguiu então permissão (1122?) do novo
abade de Saint-Denys, Suger (c.1085-1151) para construir um pequeno oratório,
a meio caminho entre Fontaineblau e Troyes. Consagrou-o à Santíssima
Trindade. Os estudantes
"...começaram a acorrer de todas
as partes. Abandonando cidades e castelos, eles se embrenharam no deserto;
deixando suas casas confortáveis, vinham construir para si pequenas
cabanas onde as ervas dos campos e o pão grosseiro tomavam o
lugar de iguarias mais delicadas..."
Sua fama e prestígio entre os estudantes europeus
continuava crescendo. Para pagar suas preleções, os estudantes
lavraram os campos e construíram uma capela; foi batizada de Paracleto
(designativo aplicado a Cristo e especialmente ao Espírito Santo).
Ali passou três anos de sua vida, sem ser esquecido por seus inimigos.
Pensou em abandonar a cristandade, passando a viver entre
os muçulmanos; talvez ali encontrasse a paz. Mas um convite o levou
à Bretanha, para se tornar abade do mosteiro de São Gildas.
Abelardo faz um terrível retrato da Bretanha nesse período
(1125?): seus monges viviam com concubinas e filhos; a língua era-lhe
desconhecida; a região, selvagem; a população "brutal
e grosseira".
Tentou realizar algumas reformas, mas os monges tentaram
envenená-lo, prepararam várias emboscadas; em uma delas
Abelardo quebrou as vértebras do pescoço. É bem verdade
que todas essas informações provêm do próprio
Abelardo. Não possuímos outra fonte para uma comparação.
Tomando seu depoimento como verídico, Abelardo ali permaneceu,
solitário, por cerca de onze anos. É provavelmente nesse
período que passou na Bretanha que escreveu a Historia Calamitatum.
Nesse meio tempo, Suger, o abade de Saint-Denys que concedera
a permissão para Abelardo construir seu oratório, reclamou
para sua jurisdição o convento de Argenteuil, onde se encontrava
Heloísa, que era a priora. As religiosas foram expulsas. Abelardo
então doou perpetuamente o Paracleto a elas, ato assentido pelo
bispo e confirmado pelo papa Inocêncio II (romano, 1130-1143). As
injúrias de seus inimigos continuaram a atingi-lo; as acusações
agora diziam respeito à ajuda que passou a dar a Heloísa:
"Levantou-se, bem entendido, a esse respeito,
um murmúrio malevolente, e aquilo que uma caridade sincera me
levava a fazer, a habitual malícia de meus inimigos interpretou
ignominiosamente. Eu estava agora dominado, diziam eles, pela concupiscência
da carne, pois que não podia suportar de maneira alguma a ausência
de minha antiga amante (...) Como então subsiste a suspeita,
quando o meio de realizar as torpezas da carne me foi retirado? O que
significa essa última e impudente acusação?"
Abelardo termina sua Historia com uma série
de citações de São Jerônimo (c. 341-420) como
uma forma de amenizar seu sofrimento, e faz uma ressalva à Divina
Providência:
"Nada acontece por acaso sem a permissão
da Bondade Todo-Poderosa".
Abelardo:
um intelectual orgânico?
Tracei até aqui a trajetória de Abelardo
e Heloísa, levantando as questões pensadas pelos intelectuais
no século XII. Agora, proponho-me a discutir o conceito de intelectual
para o homem medieval, conforme colocado por Jacques Le Goff, em seu livro
Os intelectuais na Idade Média.
Este autor utiliza o termo gramsciano intelectual
orgânico para definir e situar o conceito de intelectual em
qualquer época. Dessa forma, Le Goff traz a questão do papel
desempenhado pelos intelectuais na História, tema tão caro
ao marxismo. Desde a divisão colocada por Marx e Engels intelectuais
conservadores e progressistas , a polêmica do último com
Dühring, a posição de Plekhanov ("os marxistas deveriam
orgulhar-se de servir como intelectuais para os trabalhadores revolucionários")
(KIENAN: 1988, 194), sem contar as diatribes de Lênin, a questão
do intelectual sempre esteve na pauta dos pensadores marxistas, até
desembocar em Gramsci.
Este último classificou os intelectuais em orgânicos
todos aqueles que têm "uma função organizacional
no sentido amplo" e tradicionais "comprometidos com uma tradição
que remonta a um período histórico mais antigo" (SASSOON:
op. cit., p. 165). Tal definição, que colocava os
intelectuais como "edificadores práticos da sociedade, e não
simplesmente oradores" (KIERNAN: op. cit., p. 195), atribuía
ao operário do pensar uma outra dimensão: a da práxis.
Sem ela, motivo maior do letrado, seus esforços cumulativos seriam
vãos. O trabalho do intelectual passava agora por sua atuação
em seu tempo, em seu meio social, em sua participação política
agora atestado e comprovante de sua capacidade reflexiva.
A grande pergunta então é: sem essa práxis,
o intelectual continua intelectual? Suas qualidades de apreensão
do real, sensibilidade, argúcia, percepção, perspicácia,
devem ser condicionadas e abonadas por suas atividades práticas?
Esta é a questão que proponho-me debater.
A utilização do conceito gramsciano por parte de Jacques
Le Goff traz dois problemas: Abelardo é um intelectual gramsciano-leggofiano?
Os pensadores anteriores a ele não são intelectuais?
Quanto à primeira questão, se o historiador
utiliza tal arcabouço teórico, penso que sim; Abelardo,
por sua práxis, trabalhou para reorientar a filosofia e
a dialética nos novos moldes de pensamento dos séculos XII-XIII,
mais próximos de concepções racionalistas. Embora
sua filosofia unisse razão e fé o que ameniza uma imagem
sua, criada posteriormente com o intuito de apresentá-lo como revolucionário
Abelardo se insere na vaga escolástica que varreu a Alta Idade
Média, trazendo novo alento para a construção mental
do homem medieval.
Quanto à segunda questão, entendo que é
um grande erro desconsiderar toda uma gama de pensadores da Baixa Idade
Média, a partir de Agostinho, e categorizá-los como "não-intelectuais".
A história cultural da Alta Idade Média, mesmo com todos
os problemas relativos à desestruturação do Império
Romano frente às invasões bárbaras (além da
mentalidade "entesouradora" tantas vezes enfatizada), é muito mais
rica e diversificada do que essa visão simplista.
A abordagem gramsciana utilizada por Le Goff deve ser
revista. A categorização do "intelectual" como "político,
dirigente orgânico de partido" não cabe no universo mental
do homem medieval, seja da Alta ou Baixa Idade Média.
A própria definição gramsciana de
"intelectual" - como um pensador que deve elaborar e difundir a doutrina
do socialismo, organizar as massas em exército compacto e fortemente
disciplinado, dirigir o movimento revolucionário, tanto na fase
que precede a conquista da hegemonia como na fase da gestão direta
do poder, pois o verdadeiro intelectual não é um desinteressado
pesquisador: ele se configura como agente do partido" (REALE: op. cit.,
vol. III, 834) - está totalmente fora de qualquer referência
que o aproxime ao mundo medieval.
Portanto, a base conceitual de Le Goff está a-historicizada,
ou seja, o paradigma deste "intelectual" parte de pressupostos apriorísticos
que não levam em conta nem a realidade material nem as estruturas
mentais do medievo.
Além disso, desconsiderar o pensador da Alta Idade
Média como "intelectual" só contribui para estigmatizar
o período como uma "Idade das Trevas", um título hoje "morto",
mas que sempre deve ser vigiado de perto. Qualquer momento histórico
possuiu suas preocupações filosóficas: a Alta Idade
Média não fugiu à regra. A existência é
inerente do sujeito que filosofa, e o único que o faz é
o homem.
Finalmente, o trabalho pensante não pode ser obrigatoriamente
atrelado a atitudes políticas. Se o intelectual age, bem o faz.
Se não, mal não necessariamente. Condicionantes são
sempre, em última instância, camisas-de-força onde
a realidade é comprimida para ajeitar-se a visões históricas
particulares. Deve-se ter a liberdade de opção, sem com
isso perder a especificidade mental, reflexiva, analítica e sobretudo
"intelectual", alcançada através de um processo cumulativo
que é interminável e que sempre foi tão difícil
de trilhar.
Ressonância de seu período, Abelardo inscreve-se
como um dos grandes de seu tempo ao defender categoricamente a capacidade
da razão humana, a ratio, para explicar de maneira racional todos
os mistérios da fé. Um segundo Concílio, o de Sens,
em 1140, condenou suas teses relativas à lógica e ao papel
da ratio como instrumento de investigação dos dogmas cristãos.
Teve ali como principal adversário São Bernardo de Clairvaux
(1090-1154), cisterciense pregador da Segunda Cruzada e grande líder
popular. São Bernardo escreveu sobre Abelardo:
"Pedro Abelardo está procurando
diminuir o mérito da fé cristã ao julgar-se capaz
de compreender Deus pela razão humana (...) não se contenta
em ver as coisas através de um vidro escuro, ainda deseja vê-las
face a face (...) Esse homem não tem vontade alguma de acreditar
em uma matéria da qual sua razão não o tenha primeiramente
convencido..." (In: TAYLOR: 1927, vol. I, p. 417 e vol. II, 385).
No temor de São Bernardo a esse avanço
racionalista em pleno século XII, não poderia encontrar
maior elogio a esse homem, que ousou inquietar seu tempo com suas proposições
e sua vida atormentada, sem receio de abrir-se para a dúvida, para
o questionamento dialético. Segundo A. Crocco, Abelardo é
uma outra vertente da Idade Média, "uma Idade Média em parte
inexplorada, inovadora e contestadora, percorrida por fermentos humanistas"
(REALE: op. cit., 510).
Silenciado por seus contemporâneos o papa Inocêncio
II expediu um decreto baseado na decisão em Sens que impunha silêncio
perpétuo a Abelardo, e ordenando que fosse encerrado em um mosteiro
o "cavaleiro da dialética" morreu a 21 de abril de 1142, aos
sessenta e três anos, no convento de São Marcelo, nas proximidades
de Châlons. Heloísa o acompanhou em 1164. Foram sepultados
no Paracleto, barbaramente destruído durante a Revolução
Francesa, quando suas sepulturas foram então violadas.
O que se julga serem seus restos mortais estão,
desde 1817, no cemitério de Père Lachaise, em Paris. Mas
sua dialética e sua forma de racionalizar a fé estão
como marca indelével de seu tempo, os ecos utópicos de um
mundo, o do século XII.
Mausouléu
de Abelardo e Heloísa

Cemitério do Père-Lachaise, Divisão 07. Artista anônimo.
Fontes
Catecismo da Igreja Católica. São
Paulo: Ed. Paulinas, 1993.
Correspondência de Abelardo e
Heloísa. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
A Bíblia de Jerusalém.
São Paulo: Ed. Paulinas, 1991.
ESPINOSA, Fernanda. Antologia de textos
históricos medievais. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1981.
Bibliografia
DUBY, Georges e PERROT, Michela. História
das Mulheres A Idade Média. Porto, s/d.
FRÖLICH, Roland. Curso básico
de História da Igreja. São Paulo: Edições
Paulinas, 1987.
GILSON, E. La Philosophie au moyen age.
Paris, 1922, vol. I.
KIERNAN, V. G. Verbete "intelectuais".
In: BOTTOMORE, Tom (ed.). Dicionário do Pensamento Marxista.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p. 194-195.
LE GOFF, Jacques. A civilização
do Ocidente Medieval. Lisboa: Ed. Estampa, 1983, vol. II.
REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História
da Filosofia. São Paulo: Ed. Paulinas, 1990, vol. I.
RÉMUSAT, C. de. Abélard.
Paris, 1845, vol. I.
SASSOON, Anne Showstack. Verbete "Gramsci,
Antonio". In: BOTTOMORE, Tom (ed.). Dicionário do Pensamento
Marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p.165-168.
TAYLOR, H. O. The Medieval mind.
London, 1927, vol. I.
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