A cavalaria perfeita e as virtudes do bom cavaleiro no Livro da Ordem de Cavalaria (1275), de Ramon Llull. Primeira Parte
Ricardo da Costa (Ufes)
In: FIDORA, A. e HIGUERA, J. G. (eds.) Ramon Llull caballero de la fe. Cuadernos de Anuário Filosófico – Série de Pensamiento Español. Pamplona: Universidad de Navarra, 2001, p. 13-40 (o texto foi traduzido para o espanhol).

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Se a nobreza de coragem elegeu o cavaleiro sobre os homens que lhe estão embaixo em servidão, nobreza de costumes e de bons ensinamentos convém ao cavaleiro, pois nobreza de coragem não poderia subir na alta honra de cavalaria sem eleição de virtudes e de bons costumes. Ramon Llull. Livro da Ordem de Cavalaria, VI, 1 (a partir de agora como LOC).

Quando Ramon Llull escreveu essas linhas, por volta de 1280, a cavalaria já era uma ordem firmemente estabelecida no seio da sociedade do ocidente medieval europeu. Depois da religião, ela encarnava, para os espíritos da época, os valores mestres da cultura (DUBY, 1989, 23), sua mais forte concepção de vida (HUIZINGA, s/d, 58).

Com sua obra, Llull pretendia iluminar com valores morais e éticos os novos pretendentes à cavalaria, registrando por escrito os códigos cavaleirescos, a sacralização do rito de passagem (adoubament), a simbologia das armas do cavaleiro e principalmente as virtudes que o cavaleiro deveria conhecer e os vícios que deveria evitar para honrar a ordem de cavalaria e se tornar um cavaleiro de “bons costumes e bons ensinamentos” (LOC, VI, 1, 89).

Destes vários temas tratados por Ramon, gostaria de analisar mais detalhadamente aqui o último ponto: a questão das virtudes e vícios, um dos temas mais freqüentes na literatura e filosofia medieval e presente em quase todas as obras de Llull, como veremos adiante. Para isso, farei antes uma breve análise da cavalaria medieval, seus códigos, preceitos para, a seguir, tratar dos ideais cavaleirescos lulianos, especialmente as virtudes cristãs tratadas no Livro da Ordem de Cavalaria.

I. O cavaleiro (miles)

No tempo de Ramon, a palavra miles era utilizada para definir o indivíduo pertencente à cavalaria. A origem destes milites é de difícil precisão e delimitação. Inicialmente, isto é, no final do século IX, após a dissolução do império carolíngio, os historiadores perceberam que este grupo social encontrava-se bastante próximo da aristocracia rural originária da nobreza carolíngia (os nobiles ou nobiliores). Trabalhavam a seu serviço — em determinadas regiões não existiam sequer milites livres (PACAUT, s/d, 374). Mas com o passar do tempo este grupo nobilitou-se, ascendeu socialmente e passou a ser confundido com a própria nobreza.

Este processo de fusão foi brilhantemente analisado por Georges Duby: deixando de lado as obras literárias — neste caso mais propensas a distorções — e analisando uma documentação jurídica proveniente da Borgonha, dos cartulários da abadia de Cluny — um tipo de material muito mais afeito à identificação dos estatutos sociais dos envolvidos em discussões de bens e negociatas — Duby reconstituiu a evolução do sentido da palavra miles, desde o seu surgimento, em 971, até o século XIII.

Segundo Duby, inicialmente, miles designava apenas a superioridade social do vassalo. Mas de 1032 até 1100 o vocábulo substituiu gradativamente as outras formas que exprimiam a distinção social, passando a designar toda a aristocracia laica (DUBY, 1989, 24-26). Este processo, precoce na Borgonha, difundiu-se para as outras regiões da Europa, de modo que, no tempo em que Llull escreveu seu tratado, a cavalaria estava estreitamente associada à nobreza hereditária detentora de terras.

No entanto, é preciso advertir que esta assimilação nunca foi completa e, em alguns lugares, como no Sacro Império, a cavalaria manteve-se sempre como um estrato social dependente e distinto da nobreza (PACAUT, s/d, 375). Outro exemplo desta diversidade medieval é o reino de Portugal: até meados do século XIII, seus cavaleiros (milites nobiles) constituíam a camada mais baixa da nobreza, utilizando este termo apenas para diferenciá-los dos camponeses e cavaleiros-vilãos - homens livres, não-nobres e grandes proprietários (MATTOSO, s/d, 548; COSTA, 1998, 104-108).

II. A cerimônia de iniciação do cavaleiro (adoubement)

Assim, pelo menos na França, por volta do ano mil, a cavalaria passou a existir como uma instituição social, exclusiva da nobreza. Mas para o processo se tornar completo era necessário estabelecer com precisão as regras que determinariam o ingresso do pretendente. Embora ainda profana e doméstica, a cerimônia de iniciação (adoubement) já estava solidificada neste mesmo período.

Ela acontecia entre os 18 e 20 anos: ser cavaleiro distingüia o adolescente do adulto. O rapaz era introduzido no grupo de cavaleiros do senhor da fortificação, do castelo ou da torre, o castelão (castellanus, ou, em língua vulgar, sire) — o detentor do poder público, aquele que tinha o poder de ban (um poder militar, judicial e econômico) (LE GOFF, 1983, I, 127). O castelão recebia dos camponeses as exações (exactio ou consuetudo), o fornecimento de víveres (DUBY, 1992, 78). Em troca disso, ironicamente, tinha a responsabilidade de conservar a paz (DUBY, 1999, 115).

Convidado a mostrar suas capacidades viris num simulacro de combate, o pretendente, se vitorioso, recebia um golpe curto e seco na nuca ou no rosto (a colée ou paumée), sinal de aceitação por parte do grupo e que foi marcado com o caráter cavaleiresco (BLOCH, 1987, 330). Esta bofetada era um dos sinais comemorativos da época: o contato entre a mão do investidor e o corpo do investido servia como uma espécie de transmissão da energia exclusiva do novo estatuto, exatamente como o tapa que o bispo dava no clérigo que era ordenado padre (BLOCH, 1987, 327).

Então o castelão presenteava o jovem cavaleiro com suas armas, um casaco de couro, a cota de malha (haubert), o elmo, a espada. Elas eram consideradas mágicas, especialmente a espada, pois tornavam-se parte do cavaleiro e de seu modo de vida — Ramon Llull dedica boa parte de seu Livro à simbologia das armas do cavaleiro (COSTA).

A investidura muitas vezes terminava com a quintana: o novo cavaleiro, montado em seu cavalo, atravessava um escudo com um golpe de sua lança, gesto simbólico que indicava a mudança de categoria. A partir daí, até que se casasse e se tornasse chefe de uma linhagem, o jovem seria um sergent, o servidor armado do castelão, e ficaria agregado à manada (maishie), o séquito de guerreiros solteiros que o castelão tinha o dever de alimentar e levar sempre consigo nas cavalgadas, essas aventuras violentas que aconteciam sempre a cada primavera (DUBY, 1999, 119-120).

Entre seus membros havia diferenças notáveis de fortuna. Os historiadores precisaram basicamente duas categorias de cavaleiros. Acima, uns poucos, os que possuíam um castelo. Formavam parte de uma elite, pois tinham o poder de ban. Abaixo, a grande maioria dos cavaleiros, os que pertenciam à categoria de milites gregarii, pois viviam à sombra de um senhor (DUBY, 1992, 75). Levando uma vida relativamente pobre, muitos destes milites gregarii tinham uma existência semi-camponesa, pois dirigiam sozinhos o cultivo de suas pequenas propriedades (PERROY, 1994, vol. VII, 22). Existiam mesmo aqueles que, para não descer ao nível dos camponeses, optavam em sair pelo mundo em busca de aventura. Muitos destes eram secundogênitos.

III. A cavalaria, terror da época: as guerras privadas (fehde)

Este grupo social representava a violência, o espírito de agressão e pilhagem da época, pois qualquer pretexto era motivo para esses homens turbulentos lançarem-se uns contra os outros. Estavam assim, sempre matando, em movimento: nas batalhas, caçando o javali, organizando torneios.

Mas o maior sofrimento que infligiam às populações — especialmente aos camponeses — eram as guerras particulares, as vinganças, chamadas de faídas (fehde), isto é, o direito da vítima de um prejuízo causar ao seu autor prejuízo igual. Nestas faídas, a principal estratégia cavaleiresca era arruinar o inimigo matando e aleijando o maior número possível de camponeses, além de destruir suas plantações e celeiros. O objetivo era reduzir as fontes de renda do inimigo.

Por exemplo, Thomas de Marle, sire de Coucy a partir de 1116, nas palavras do abade Suger, um “lobo raivoso ajudado pelo Demônio”, além de tomar terras de conventos — provavelmente um dos motivos da censura eclesiástica —, em suas guerras privadas cortava pessoalmente a garganta dos que considerava rebeldes e torturava os prisioneiros pendurando-os pelos testículos até o peso do corpo arrancá-los (TUCHMAN, 1990, 10).

Essas violências aconteciam porque as práticas judiciárias eram lentas e imperfeitas: não existiam tribunais regulares que recebessem a queixa e agissem contra o agressor. Assim, o cavaleiro que sofria um dano por parte de um de seus pares devia fazer justiça com suas próprias mãos. Toda discórdia entre cavaleiros resultava em conflito armado. O caráter do processo estimulava as agressões: os juízes eram apenas conciliadores, não impunham a sentença. Isso encorajava o recurso à violência, e os maiores prejudicados eram os camponeses (PERROY, 1994, 29-30).

Além disso, essa violência era institucionalizada: a cavalaria estava integrada ao sistema feudo-vassálico. Para o vassalo, o senhor era como seu pai, pois deveria protegê-lo, aconselhá-lo e alimentá-lo. Mais do que isso: desde o ano 1000 difundiu-se por todos os lados a idéia que o senhor de uma manada tinha o dever de, além de dar cavalos, armas e outros tantos adornos militares, conceder uma terra, uma tenência (tenure), um benefício que durasse o tempo do devotamento do cavaleiro e que simbolizasse os laços de dependência de homem para homem.

O senhor deveria mostrar-se generoso com seus homens. Até que quebrassem a palavra empenhada, estes vassalos deveriam receber um espaço físico, uma igreja, um dízimo, um campo arrendado a camponeses, enfim, uma renda regular que o sustentasse: era o feudo. Esse gesto de largueza por parte do senhor se tornou tão comum que, pouco a pouco, entre 1030 e 1075, o sentido do ato se inverteu: o feudo passou então a determinar a fidelidade e os serviços do vassalo, e se tornou hereditário. A partir de então, o senhor teve a seu dispor cada vez mais vassalos que desconhecia, e o sistema passou a oferecer cada vez mais fissuras, brechas para a quebra dos votos de fidelidade (DUBY, 1999, 125).

IV. A cristianização da cavalaria de Satã: a Paz de Deus

Desta forma, o tempo da cavalaria foi também, por excelência, o tempo do feudalismo. Nos reinos nascidos da partilha do império carolíngio (França, Alemanha, Borgonha-Provença e Itália), do século X ao XIII, as duas instituições se desenvolveram e se mesclaram num imbricado sistema de relações pessoais. O serviço militar dos cavaleiros (servitium) era, para o senhor, o principal motivo do contrato vassálico.

Com o armamento completo ou apenas uma parte dele, o cavaleiro deveria tomar parte da cavalgada, integrar um simples serviço de escolta ou mesmo servir de guarda num dos castelos do senhor, o chamado stagium - existiam ainda uma série de pequenos serviços obrigatórios para o vassalo, como, por exemplo, segurar a cabeça do rei quando este, no decurso de uma travessia, aliviava o estômago vomitando (GANSHOF, s/d, 122-140).

A paz que o castelão tinha o dever de manter era como um frágil fio ao sabor do vento. Pois o tempo dos feudais foi, sobretudo, o tempo dos saques, dos ódios atrozes entre as linhagens, violências que as crônicas fartamente ilustram. É por esse motivo que, por volta de 1130, São Bernardo, ao enaltecer as virtudes da nova cavalaria dos templários, não se cansa de criticar a militia saeculari, que ele chama de malícia (malitiae), num jogo de palavras (milícia/malícia) que mostra a plena compreensão dos clérigos a respeito da origem social desse tenso estado de coisas:

Vós, milicianos, como haveis se equivocado tão estupendamente? Que fúria os tem arrebatado para verem a necessidade de combaterem até se esgotarem com tanto dispêndio sem outro salário que a morte ou o crime? Cobristes vossos cavalos com sedas, pendurastes telas belíssimas em vossas couraças; pintastes as lanças, os escudos e as selas; recarregastes os arreios e esporas de ouro, prata e pedras preciosas. E com toda essa pompa se lançastes à morte com um furor cego e néscia insensatez. O que são essas coisas, arreios militares ou vaidades de mulher? Ou credes que pelo ouro a espada inimiga se amedronte para respeitar a formosura das pedras e não transpasse seus tecidos de seda?

Por experiência, vós sabeis muito bem que são três as coisas de que mais necessita o soldado em combate: agilidade com reflexos e precaução para defender-se; total liberdade de movimentos em seu corpo para poder movimentar-se continuamente, e decisão para atacar. Mas vós afagastes a cabeça como as damas, deixastes crescer o cabelo até cair sobre os olhos; vestistes vossos próprios pés com amplas e largas camisas; sepultastes vossas covardes e afeminadas mãos dentro de luvas que as cobrem por completo.

E, o que todavia é mais grave — pois isso os leva ao combate com grandes ansiedades de consciência —, é que guerras tão mortíferas se justificam com razões tão enganosas e pouco sérias. Pois, o que é ordinário, o que só induz à guerra até provocar o combate — a não ser em vosso caso — são sempre paixões de iras incontroláveis, o afã de vanglória ou a ambição de conquistar territórios alheios. E estes motivos não são suficientes para poder matar ou expor-se à morte com uma consciência tranqüila. (BERNARDO DE CLARAVAL, 1983, II, 501-503)

Através dos olhos de quem podemos observar esse mundo, os clérigos, a cavalaria era de Satã, não de Deus. Era necessário civilizá-la, ou, em outras palavras, cristianizá-la. Com o binômio cavalaria/feudalismo, a cristianização da cavalaria veio acompanhada da campanha da Paz de Deus. O objetivo desta campanha era pôr fim às violências exercidas pelos homens da guerra e proteger todo o restante da sociedade não-beligerante (camponeses, mercadores e religiosos não armados — sim, pois muitos clérigos participavam de batalhas e campanhas militares).

Várias assembléias foram reunidas com esse objetivo: Charroux, no Poitou (989), Le Puy (990), Limoges e Anse, no Mâconnais (994) (BONNASSIE, 1985, 163). A melhor descrição dessas grandes assembléias foi feita pelo monge e cronista Raoul Glaber (†1044), considerado a melhor testemunha da primeira metade do século XI (DUBY, 1986, 23):

Foi então [no milésimo ano da Paixão do Senhor], primeiro nas regiões da Aquitânia, que os abades e os outros homens dedicados à santa religião começaram a reunir todo o povo em assembléias, para as quais se trouxe numerosos corpos de santos e inumeráveis relicários cheios de santas relíquias. A partir daí irradiaram, pela província de Arles, depois pela de Lyon; e assim, por toda a Borgonha e até nas regiões mais recuadas da França, foi anunciado em todas as dioceses que em determinados lugares, os prelados e os grandes de todo o país iam reunir assembléias para o restabelecimento da paz e para a instituição da santa fé.

Quando a notícia destas assembléias foi conhecida de toda a população, os grandes, os médios e os pequenos para elas se dirigiram, cheios de alegria, unanimemente dispostos a executar tudo o que fosse prescrito pelos pastores da Igreja: uma voz vinda do Céu e falando aos homens sobre a terra não teria feito melhor. Porque todos estavam sob o efeito do terror das calamidades da época precedente, e atazanados pelo receio de se verem retirar no futuro as doçuras da abundância.

Um documento dividido em capítulos, continha ao mesmo tempo o que era proibido fazer e os compromissos sagrados que se tinha decidido tomar para com o Deus todo poderoso. A mais importante destas promessas era a de observar uma paz inviolável; os homens de todas as condições, qualquer que fosse a má ação de que fossem culpados, deviam a partir daí poder andar sem receio e sem armas. O ladrão ou aquele que tinha invadido o domínio de outrem estava submetido ao rigor de uma pena corporal.

Aos lugares sagrados de todas as igrejas devia caber tanta honra e reverência que, se um homem, punível por qualquer falta, aí se refugiasse, não sofreria nenhum dano, salvo se tivesse violado o dito pacto de paz; então era agarrado, retirado do altar e devia sofrer a pena prescrita. Quanto aos clérigos, aos monges e às monjas, aquele que atravessasse uma região na sua companhia não devia sofrer nenhuma violência de ninguém (citado em DUBY, 1986, 164-165).

O movimento, popular e com o firme apoio dos oratores, se espalhou até o norte da França. Era uma exclusividade francesa, o resultado da impotência do rei francês, pois no Sacro Império o soberano ainda era capaz de manter a ordem e a justiça. A violência dos cavaleiros na França era tanta que à Paz de Deus juntou-se, a partir dos anos 1020-1040, outro movimento: a Trégua de Deus, uma imposição de armistício semanal, inicialmente de dois dias, mas que chegou a quatro (da noite de quarta-feira até a manhã de segunda). Era um remédio, uma tentativa dos clérigos de pôr ordem no caos face à debilidade da autoridade régia. Os poderes eclesiásticos assumiram a tarefa, utilizando a principal arma de seu ofício: a excomunhão.

V. O processo civilizador da Igreja: o juramento do cavaleiro

Esta tentativa de conter a pulsão agressiva dos cavaleiros era sacramentada por meio de um juramento, quando o guerreiro colocava suas mãos sobre relíquias sagradas, mágicas, e fazia uma série de promessas de paz. Lendo inversamente uma dessas promessas, registrada pelo bispo Guérin de Beauvais por volta dos anos 1023-1025, pode-se imaginar o insustentável e sombrio cotidiano das populações que viviam junto aos senhores da guerra e o temor que deveria passar pela cabeça de um camponês ou clérigo ao avistar um enxame daqueles milites gregarii:

Não invadirei de forma alguma uma igreja. Em razão da sua salvaguarda também não invadirei as adegas que estão nos termos de uma igreja, salvo no caso de um malfeitor ter infringido esta paz, ou em virtude de um homicídio, ou da captura de um homem ou de um cavalo. Mas se por estes motivos eu invado as ditas adegas, não trarei nada a não ser o malfeitor ou o seu equipamento, com perfeito conhecimento.

Não atacarei o clérigo ou o monge se não trazem as armas do mundo, nem aquele que caminha com eles sem lança nem escudo; não tomarei o seu cavalo, salvo em caso de flagrante delito que me autorize a fazê-lo, ou a não ser que tenham recusado reparar a sua falta num prazo de quinze dias depois do meu aviso.

Não tomarei o boi, a vaca, o porco, o carneiro, o cordeiro, a cabra, o burro, o feixe que traga, a égua e o seu potro não adestrado. Não agarrarei o camponês nem a camponesa, os sargentos ou mercadores, não ficarei com os seus dinheiros; não os arruinarei tomando-lhes os seus haveres sob o pretexto da guerra do seu senhor, e não os chicotearei para lhes retirar a sua substância.

O macho ou a mula, o cavalo ou a égua e o potro que estão na pastagem, não despojarei ninguém deles, desde as calendas de Março até o Dia de Todos os Santos, salvo se os encontro a causarem-me danos.

Não incendiarei nem destruirei as casas, a não ser que aí encontre um cavaleiro inimigo ou um ladrão; a menos também que estejam adjuntas a um castelo que seja mesmo um castelo.

Não cortarei, arrancarei ou vindimarei as vinhas de outrem, sob o pretexto da guerra, a não ser que estejam sobre terra que é e deve ser minha. Não destruirei os moinhos e não roubarei o trigo que aí se encontre, salvo quando estiver em cavalgada ou em expedição militar pública, e se for sobre a minha própria terra.

Com perfeito conhecimento meu não concederei nem apoio nem proteção ao ladrão público e provado, nem a ele nem a seu empreendimento de banditismo. Quanto ao homem que conscientemente infringir esta paz, deixarei de protegê-lo, desde que o saiba; e se agiu inconscientemente e que venha a recorrer à minha proteção ou bem farei uma reparação por ele, ou bem obrigarei a fazê-la no prazo de quinze dias, depois do que estarei autorizado a pedir-lhes contas ou retirar-lhe-ei a minha proteção.

Não atacarei e nem despojarei o mercador ou o peregrino, salvo se cometerem uma má ação. Não matarei o gado dos camponeses, a não ser para a minha alimentação e da minha escolta.

Não capturarei o camponês e não lhe retirarei a sua subsistência por instigação pérfida do seu senhor.

Não atacarei as mulheres nobres, nem os que circularão com elas, na ausência do seu marido, a não ser que os encontre cometendo alguma má ação contra mim com o seu movimento; observarei a mesma atitude para com as viúvas e as monjas.

Também não despojarei aqueles que transportam o vinho em carroças, e não ficarei com os seus bois. Não prenderei os caçadores, os seus cavalos e cães, exceto no caso de serem nocivos a mim ou a todos aqueles que tomaram o mesmo compromisso e o observam para comigo (...)

Desde o começo da Quaresma até a Páscoa não atacarei o cavaleiro que não use as armas do mundo e não lhe retirarei a subsistência que tiver consigo. Se um camponês fizer mal a um outro camponês ou a um cavaleiro, esperarei quinze dias; depois do que, se não fizer reparação desprender-me-ei dele, mas só tomarei de seus haveres o que está legalmente fixado (citado em DUBY, 1986, 166-167).

Todas essas promessas mostram a virulência cavaleiresca contra a sociedade feudal do século XI. A Paz de Deus, a Trégua de Deus e os juramentos dos cavaleiros sobre as relíquias frearam um pouco as pulsões, os ímpetos agressivos dos guerreiros. Mas ainda faltava cristianizar os rituais cavaleirescos para tornar completo esse processo civilizatório.

Para a consecução deste processo, a partir do século XI elaborou-se o ideal cavaleiresco, sempre baseado nas prescrições da Paz e na Trégua de Deus. Os oratores perceberam que não bastava evitar a brutalidade dos cavaleiros contra os fracos: passaram então a exigir do cavaleiro que protegesse a sociedade não-beligerante com suas armas (PACAUT, s/d, 377).

A sacralização dos gestos pelos quais as armas eram entregues ao cavaleiro recém ingresso na ordem tinha como objetivo estender o reino de Cristo ao mundo dos homens através da espada em forma de cruz  — Ramon Llull não esquecerá essa imagem cristológica da espada:

Ao cavaleiro é dada a espada, que é feita à semelhança da cruz, para significar que assim como nosso Senhor Jesus Cristo venceu a morte na cruz na qual tínhamos caído pelo pecado de nosso pai Adão, assim o cavaleiro deve vencer e destruir os inimigos da cruz com a espada. E porque a espada é cortante em cada parte, e cavalaria existe para manter a justiça, e justiça é dar a cada um o seu direito, por isso a espada do cavaleiro significa que o cavaleiro mantém a cavalaria e a justiça com a espada (LOC, V, 2, 77).

A sacralização do ritual de adoubement pode também ser percebida pela mudança do vocabulário: “...não se arma apenas um cavaleiro. Procede-se à sua ordenação.” (BLOCH, 1987, 329). Os clérigos procuraram assim transformar a entrega das armas num sacramento — então entendido como um ato de consagração.

Em resumidas contas, era este o estado de coisas quando Ramon Llull escreveu o Livro da Ordem de Cavalaria, ou seja, a não ser num curto espaço de tempo e em circunstâncias especiais — como a cruzada, por exemplo (tema que, por sua extensão, propositalmente não tratei aqui) — a ética cavaleiresca forjada pelos religiosos para esse grupo social não vigorou. Talvez o Livro da Ordem de Cavalaria seja, além de uma proposta de entrelaçar a filosofia da Igreja com a prática guerreira das ordens de cavalaria, o registro escrito póstumo de um ideal já há muito abandonado, ou poucas vezes seguido na prática.

De qualquer modo, para compreender o sentido da obra de Ramon e suas propostas utópicas, é necessário vê-la na perspectiva maior do conjunto das obras lulianas, para então tentar precisar o universo de sentidos que Ramon atribui às virtudes e vícios.

- Fim da primeira parte do texto -