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A crítica da crítica: algumas considerações sobre a resenha “Os nórdicos e a academia”, do Prof. Johnni Langer Direito de resposta concedido pelos editores da Revista NECULT
O Prof. Langer divide a sua resenha em duas grandes partes. Na primeira, desqualifica totalmente meu trabalho com o argumento que o historiador não pode julgar o que estuda – e vale-se especialmente de dois grandes nomes nacionais, os professores Ciro Cardoso (de quem tive a honra de ser aluno, em meu mestrado) e Hilário Franco Jr., o maior medievalista brasileiro vivo (de quem sou, confessadamente, fã). Na segunda parte, entre outras questões, Langer discute a condição feminina (e o tema da virgindade), a questão da escrita, as grafias erradas (Oseberg), simplificações de conceitos (boendr), e dedica especial atenção às ilustrações (único tema que não irei comentar aqui, já que diz respeito exclusivamente ao prezado autor Orlando Paes). Em meus comentários, inverterei a ordem acima, pois entendo que nossas diferenças teóricas a respeito do interessante tema do julgamento histórico foram o Leitmotiv da resenha. Em primeiro lugar, o problema da simplificação dos conceitos e dos erros de grafia. Agradeço sobremaneira as correções do Prof. Langer. Possivelmente, esses pequenos problemas não teriam ocorrido se o professor não tivesse desistido de sua participação naquela coleção DUAS SEMANAS ANTES do prazo final para envio do texto aos editores – o que fez com que tivéssemos de realizar um verdadeiro tour de force para cumprir o acordo contratual firmado meses antes. Quanto ao tema em voga do gênero (história das mulheres), há alguns pontos em sua argumentação que merecem uma reflexão. Para o contrapor à prática viking de assassinato de crianças, Langer critica o fato de o cristianismo condenar somente o adultério feminino. Além de ser uma comparação inexata (assassinato de crianças versus adultério), isso mostra um profundo desconhecimento do autor em relação aos cânones eclesiásticos medievais – e da Bíblia (documento-mor da Idade Média e de todo medievalista). Já em Mateus há prescrições contra o adultério MASCULINO (Mt 19, 9). Ademais, não só, como numa carta do papa ao bispo de Tiberíades (de 1201), há clara crítica à prática pagã da poligamia (um homem ter muitas mulheres), e do costume do repúdio masculino, e a Igreja claramente DEFENDE A IGUALDADE DE JULGAMENTO PARA OS DOIS SEXOS, nos seguintes termos: “Se abandonada a mulher, não se pode, em direito, ter outra, muito menos quando é retida, e é evidente que a pluralidade de um e outro sexo não deve ser julgada de modo díspar” (DENZINGER, 1963: 120-121). O macabro assassinato de crianças persistiu na Escandinávia viking após a instalação do cristianismo não por culpa deste, mas do próprio paganismo, isto é, de sua relutância em mudar alguns de seus costumes. Pelo contrário, o cristianismo trouxe notável melhora da condição infantil em comparação com o período anterior, pois é sabido que, no mundo antigo (tanto romano quanto bárbaro), a criança estava indefesa nas mãos do poder paterno – um poder de vida e de morte em que o pai não levava em consideração o desejo materno. Com o advento do cristianismo, e a idéia que só uma alma infantil poderia entrar no reino dos céus (Mt 18, 1-4), a condição das crianças nas sociedades ocidentais, a longo prazo, mudou – e para melhor. Em uma insólita passagem a respeito do ataque viking ao mosteiro de Lindisfarne (793), o Prof. Langer se “esqueceu” de dizer que o acontecimento FOI narrado no livro (p. 07). Isso me sugere que ou o professor não leu com a devida atenção o livro, ou omitiu o dado apenas para contradizer minha apresentação (p. 6), quando afirmei que os vikings “...entraram na História no século IX” – isto é, entraram EFETIVAMENTE na História, DEFINITIVAMENTE na História (pois os ataques de 793, 794, 795, 799 foram o prelúdio de uma onda muito mais vigorosa). Como logo na página seguinte comentamos fartamente a atrocidade do massacre ao mosteiro de Lindisfarne, creio que houve, de fato, má fé na leitura do Prof. Langer. A respeito da idéia da superioridade viking no que diz respeito à virgindade (o cristianismo defendia a virgindade como um valor e a cultura viking não), trata-se de um JUÍZO DE VALOR por parte do professor, o que me leva ao tema do julgamento do historiador, questão de que a resenha se ocupou em toda a sua primeira metade. Como disse anteriormente, o Prof. Langer se vale de algumas idéias de Ciro Cardoso e Hilário Franco Jr. (além de E. Carr), mesclando-as para defender a idéia que “o historiador não pode julgar”. Ultimamente tenho escutado esta proposição autofágica e contraditória em muitos lugares, e as pessoas não se dão conta de que ela é um juízo de valor. Além do mais, o Prof. Langer não precisava se ancorar nas citações daquelas autoridades, pois desde o séc. XIII é sabido (pelo menos nos círculos intelectuais universitários) que o argumento da autoridade é o mais fraco de todos: não se deve levar em conta QUEM diz, mas a validade DO QUE se diz. Claro, não farei o mesmo aqui. Poderia, mas não preciso elencar citações de autoridades nacionais e estrangeiras para “provar” que minha idéia é a correta, pois me bastará a razão, a capacidade argumentativa. Aprendi isso com os medievais. Só assim ascendemos da mera opinião para o consenso científico – e todos os leitores podem criar seu próprio juízo, sem receio de desconhecer a bibliografia citada. A razão não necessita de suporte bibliográfico. Assim, caro leitor da NECULT, quando alguém disser “você não pode julgar”, saiba que ISSO É UM JULGAMENTO: ele está julgando que você não pode julgar! Esse contra-senso é o mesmo que dizer “não existe verdade”. É verdade que não existe verdade? Vejam a contradição intrínseca da afirmativa. Bem, tantos os antigos quanto os medievais sabiam que afirmativas não podem ser simultaneamente negadas. Da mesma forma, é uma contradição dizer “isso não existe”: negativas não podem ser provadas. De fato, se levarmos essa parlapatice às últimas conseqüências, a pessoa que disser isso não poderá sequer abrir a boca, e limitar-se-á a narrar os acontecimentos do passado. Insisto: se não podemos julgar, não podemos emitir nenhuma idéia. E, de fato, em sua resenha, embora diga que “o historiador não é um juiz”, o Prof. Langer julga O TEMPO TODO. Senão vejamos: 1) “...muitas pesquisas ainda
conservam o tradicional anacronismo de historiadores...”; Bem, se não podemos julgar, como diz o Prof. Langer, ele também NÃO PODE JULGAR O MEU LIVRO (nem, muito menos, esta crítica da crítica)! Além disso, sua afirmação também contradiz a própria essência do que é uma resenha, qual seja, um julgamento, para que o público tenha uma idéia de se uma obra é boa ou não! Mas por que o Prof. Langer afirma uma coisa e faz exatamente o contrário logo em seguida? Simples. O juízo faz parte do raciocínio. Mesmo que diga que não, o Prof. Langer não pode recusar a reflexão, pois ela integra sua intelectualidade. Aliás, a própria palavra razão (do latim ratione) significa isso: capacidade do ser humano de avaliar, julgar, ponderar idéias universais... Sim, julgamos tudo, o tempo todo, mesmo quando nos abstemos – e somos julgados pelo que somos e julgamos. Isso é razão, isso é civilização. A própria Idade Média dos católicos, muçulmanos e judeus, já sabia bem isso. Desde a Antigüidade, os pensadores perceberam que é característica do próprio intelecto a faculdade de julgar. Vou dar apenas um belíssimo exemplo a esse respeito (não de uma bibliografia contemporânea, mas de um autor do próprio período em questão: o filósofo muçulmano Al-Farabi [c. 870-950]). Na obra O caminho da felicidade – em que analisa o pensamento político de Aristóteles – Al-Farabi afirma que o homem só é livre quando consegue discernir o que é dado pela reflexão (exatamente como disse acima), e é UMA BESTA quando não reflete e não decide nada:
Vejam como a própria época em que os guerreiros nórdicos surgiram (devastando bibliotecas e atacando cidades) já tinha culturas muito mais desenvolvidas intelectualmente! Portanto, duvide de pessoas que tentam retirar esse aspecto intrínseco de sua natureza intelectiva, caro leitor do NECULT. Ou, seguindo a lógica de al-Farabi, não deixe que reflitam por você, não seja uma besta, um escravo, seja um homem livre! Julgue com seus olhos e sua mente o que vê e o que lê, do presente ou do passado. Por fim, convido você a um pequeno exercício judicativo sobre o tema em questão. Na saga Landnámabók (séc. X), há uma interessante e mórbida informação sobre a cultura nórdica de então: um islandês tinha o carinhoso apelido de “homem das crianças”, porque não as empalava na ponta de sua lança como era hábito entre seus companheiros! (Para quem não sabe, a prática da empalação consistia em cravar um talo de madeira no ânus de um infeliz e perfurar seus intestinos, deixando-o morrer lentamente, dependurado.) Bem, você acha boa ou má uma cultura que pratica a empalação? E a empalação em crianças? Empalar alguém é bom ou mau? De minha parte, não posso deixar de exclamar – e julgo: esses vikings eram realmente uma notável civilização! Para concluir, penso que o problema não é se devemos julgar ou não, pois isso é inevitável, e sim COMO julgar, com que parâmetros. Para o historiador, uma boa forma é comparar diferentes culturas da época analisada (como fiz brevemente ao citar o muçulmano Al-Farabi, contemporâneo dos vikings), e esclarecer ao leitor quais suas balizas comparativas. Naquele período das migrações e ataques vikings, os cristãos erguiam maravilhosas catedrais românicas e criavam filosofia e cultura; os monges dedicavam-se ao estudo e à meditação (além de recopilarem os textos dos antigos aos pósteros, preservando-os da destruição e do esquecimento). Já os vikings... Definitivamente não há comparação! Ricardo da Costa é medievalista e professor efetivo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) |
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