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Ricardo
da Costa (Ufes)
Prefácio do livro de Carlile LANZIERI JÚNIOR, A sabedoria de um monge medieval – as relações políticas e sociais nas memórias de Guiberto de Nogent (século XII), Juiz de Fora/MG, Editar, 2007, p. 11-13.
Sem essa grandiloqüente moldura trans-histórica, atemporal, sem esse leitmotiv multicolorido que serve de anteparo às vicissitudes das contínuas mudanças, nós, historiadores, atônitos, seríamos incapazes de absorver a riqueza do drama, a densidade da tragédia, a profundidade das consciências passadas. Sem o vigor dessa proximidade distante, sem a força dessa analogia transbordante de vida humana, seríamos como estranhos no ninho, indiferentes, insensíveis, despreparados para forjar esse elo mental, que nada mais é do que uma mútua convivência imaginária entre vivos e mortos, entre o presente e o passado. Há, portanto, além do preparo técnico, da persistente dedicação e esforço, a necessidade do historiador nascer com um dom: o faro da carne humana, como ensinou Marc Bloch. E, mais que isso: além de farejar o odor pestilento e fétido da carne morta subjugada por séculos de acúmulo de terra, o historiador deve ter a sabedoria de ousar ultrapassar a malícia da milícia carnal para não só perceber os atores e espectadores da comédia humana, mas, acima de tudo, perscrutar a verdadeira realidade que se oculta por trás das aparências: as consciências que um dia vivificaram aquelas carnes. A atitude mental do historiador deve ser um pouco como aquela multidão romana que, segundo Plutarco, presenciou o triste espetáculo da decapitação da fronte e das mãos de Cícero, expostas em frente à tribuna dos oradores do fórum por ordem de Antônio: estupefatos, eles disseram que não viram os olhos e o rosto do grande orador, mas uma imagem da corrompida alma de Antônio. Como eles, o verdadeiro historiador deve tentar ultrapassar as aparências dos vestígios dos artefatos materiais e ousar invadir o âmago do espírito dos escritores, dos poetas e dos literatos que legaram à a posteridade o registro de seu tempo. Somente depois de desvelar o véu dessa ilusão é que, então, ele reflete. E escreve. E considera. O trabalho que tenho a honra de prefaciar para vocês é fruto de uma laboriosa e dedicada investigação de mestrado, feita pelo Professor Carlile Lanzieri Júnior. Tive o prazer de acompanhá-lo e orientá-lo em sua longa viagem através dos séculos para encontrar Guiberto de Nogent (c. 1055-1125), monge, escritor e historiador, pecador e sofredor das agruras de seu tempo, expostas por sua pena em sua conhecida obra Monodies. Quase mil anos separam o historiador Carlile do abade Guiberto. Em muitos aspectos, “milhares de séculos” separam a mentalidade da civilização do ocidente medieval do mundo do século XXI. Ou seja: o trabalho a que se propôs o jovem medievalista foi uma empreitada hercúlea, em que várias estranhezas tiveram que ser ultrapassadas, não, sem antes, terem sido meditadas e discutidas, ponderadas e analisadas, sentidas e, sobretudo, julgadas. Julgadas sim, pois o último degrau ao qual o verdadeiro conhecimento, a verdadeira sabedoria histórica ascende é o juízo. Sem ele, de nada valem a erudição, o estudo, e a compreensão. Sem a razão, o historiador torna-se um ser atônito, perdido em tantos acontecimentos, em tantos fatos, na miríade da vida através do tempo. E Carlile maravilhosamente ousou entender os parâmetros do verdadeiro monacato, o rigor da crítica social do moralista, a franqueza do comentarista de homens, que escreveu com a persuasão daquele que diz com a força de seu caráter moral, que não teme se expor e dialoga com seu leitor para, assim, mais bem admoestar, ensinar, promover o bem. Todo bom medievalista sabe, que ninguém melhor que um moralista medieval para dissecar com plena vivacidade as mazelas de seu corpo social, crua realidade na qual estiveram submersos os homens daquele tempo. Em uma narrativa ágil e suave, sempre com erudição, Carlile apresenta ao público de língua portuguesa uma pérola medieval, uma autobiografia, e faz ressurgir diante de nossos olhos toda a complexa rede de relações sociais que os feudais criaram, todo o drama humano da Idade Média central, toda a magia de um mundo em que a matéria era sempre entendida em uma perspectiva transcendental, e os atos humanos inseridos em um determinado sentido providencial. É com imensa satisfação, portanto, que prefacio o nobre trabalho de Carlile Lanzieri Júnior. Assim como o pedagogo de Guiberto, zelei por ele com grande solicitude, cuidei de seu bem estar com muita atenção, temi as más intenções que alguns lhe direcionavam, e tentei ser, dentro de minhas parcas possibilidades, seu vigia. Todos os erros que esse texto possa ter, são de minha lavra, de minha orientação; todos os méritos e louvores, são do jovem e promissor historiador que nasce. Ricardo da Costa
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