Resumo:
O presente artigo analisa uma iluminura de 1047 de uma obra intitulada
Comentário ao Apocalipse de São João, elaborada originalmente
em 776 por Beato (Beatus), monge asturiano de Liébana. Utilizei
a proposta de análise do crítico de arte Erwin Panofsky em sua obra Significado nas Artes Visuais. Seu equipamento para a interpretação
foi a experiência prática das condições históricas relativas ao momento
da criação artística, compreendendo a forma que o objeto analisado foi
expresso pelas formas do estilo então em voga. Esta corrente de pensamento
liga-se ao método hermenêutico.
Palavras-chave: História Medieval - Península Ibérica - Beato de Liébana - Apocalipse
- Cavalaria - São João - Iconografia.
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A idealização da cavalaria cristã,
como muitas outras imagens baseadas nas revelações bíblicas,
possui uma dualidade. Neste artigo analisaremos o lado maléfico
do imaginário medieval atribuído a ela. Se por um lado
— teoricamente — ela era portadora de boas novas, defensora
dos oprimidos e da verdadeira fé, também era anunciadora
do final dos tempos, aquela que trazia toda sorte de desgraças
para os homens.
Trabalharemos com uma das imagens mais terríveis
que a cristandade construiu a respeito da cavalaria: os quatro cavaleiros
do Apocalipse. Mais especificamente, analisaremos uma iluminura pertencente
a uma cópia feita em 1047 e baseada num Comentário ao
Apocalipse de São João. A obra original foi elaborada
em 776 por Beato (Beatus), monge asturiano de ordens menores de Liébana,
atual província de Santander, na Cantábria (MATTOSO, s/d:
521).
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Na tradição bíblica do Velho Testamento, o cavalo e o cavaleiro são
inspetores celestes que Deus manda à Terra para se certificarem de
que tudo corre bem. Como na primeira visão do profeta Zacarias:
Eu tive uma visão durante a noite.
Eis: um homem montado num cavalo vermelho estava parado entre as murtas
que havia num vale profundo; atrás dele estavam cavalos vermelhos,
alazões e brancos.
E eu disse: “Quem são eles, meu Senhor?”
Disse-me
o anjo que falava comigo: “Vou mostrar-te quem são eles”.
E o homem
que estava entre as murtas respondeu: “Estes são os que Iahweh enviou
para percorrerem a terra”.
Então eles se dirigiram ao Anjo de Iahweh,
que estava entre as murtas e lhe disseram: “Acabamos de percorrer
a terra e eis que toda a terra repousa e está tranqüila! (Zc, 1, 8-11)
O anjo divino comanda cavalos sagrados, que correm
para levar a Deus notícias deste mundo. Elemento de ligação entre dois
universos distintos, em sua correria a cavalaria vê o que acontece entre
os homens. Ela é a visão de Deus. Emissários divinos, esses enviados
vêem à Terra também como sinal do espírito do anjo; são ventos que se
espalham para disseminar a aura de Deus:
Levantei novamente os olhos e vi: Eis
quatro carros que saíam dentre duas montanhas; e as montanhas eram
montanhas de bronze. No primeiro carro havia cavalos vermelhos, no
segundo carro cavalos pretos, no terceiro carro, cavalos brancos e
no quarto carro cavalos malhados vigorosos.
E eu perguntei ao anjo
que falava comigo: “Que são eles, meu Senhor?” E o anjo respondeu-me:
“Estes são os quatro ventos do céu, que saem, depois de terem estado
diante do Senhor de toda a terra (…)”. Ele disse: “Ide percorrer a
terra”. E eles percorreram a terra. Ele (Iahweh) me chamou e disse-me:
“Vê! Aqueles que saem para a terra do Norte farão descer o meu espírito
na terra do Norte. (Zc, 6, 1, 8)
A cavalaria de bigas é o espírito de Deus. Em forma
de vendavais, ela percorre o mundo. Mas essa imagem é acompanhada de
outra: Deus Iahweh é um deus-guerreiro, deus dos exércitos que segue
a cavalo para o combate libertador. “Quando Iahweh dos Exércitos visitar
o seu rebanho, a casa de Judá, ele os fará como o seu cavalo de glória
no combate” (Zc, 10, 3).
Nestas passagens bíblicas do profeta Zacarias estão
presentes todos os ingredientes que influenciaram as visões proféticas
dos cavaleiros apocalípticos: as revelações visionárias, o número quatro,
os anjos enviados e a vinda de Deus como um castigo aos que não pertencem
à Sua casa. Zacarias anuncia uma verdadeira teocracia guerreira. Todos
esses elementos estão contidos no Apocalipse, que possui um
contexto histórico bastante distinto.
O autor do Apocalipse, provavelmente alguém
do círculo de discípulos do apóstolo João, redigiu o cânone entre os
anos 70-95 da era cristã, época de perturbações e violências do Império
contra a Igreja. Estes tempos de crise serão um forte elo mental de
ligação com os clérigos peninsulares dos violentos séculos que se seguiram
à invasão muçulmana de 711.
Para os cristãos do norte peninsular do século VIII
acantonados pela pressão muçulmana que se seguiu à invasão, tudo que
dizia respeito ao sagrado afetava diretamente suas vidas. Disseminava-se
um imenso terror no imaginário desses povos rudes, arraigados a uma
concepção de mundo próxima das forças da natureza. Era um terror
sagrado (MATTOSO, s/d: 520). Se não, como explicar as mudanças do
tempo, as terríveis derrotas ou grandes vitórias sobre os inimigos,
“da pulsão para o pecado ou do abandono de tudo pela consagração a Deus”?
(MATTOSO, s/d: 521).
Só neste contexto violento e inconstante dos séculos
que precederam a Reconquista propriamente dita é que podemos explicar
a grande preferência dos clérigos pelo Comentário ao Apocalipse, como
uma espécie de súplica dramática para aplacar as forças do mal — entendemos
como Reconquista um processo de expansão territorial ibero-cristã de
clara motivação religiosa, propulsor ideológico do alargamento das fronteiras
da cristandade ocidental. A idéia de missão está claramente incorporada
à ação guerreira.
A idéia de recuperar algo perdido começa efetivamente
com as campanhas de Fernando I, de Castela — portanto, em pleno século
XI (ao contrário, por exemplo, da definição de Pierre Bonnassie: “A
designação de Reconquista pode aplicar-se a qualquer campanha de recuperação
pela cristandade de territórios perdidos durante a Alta Idade Média”)
(BONNASSIE, 1985: 179).
A iluminura analisada neste trabalho faz parte de um
Comentário ao Apocalipse encomendado especialmente por Fernando
I (1037-1065) de Castela e sua rainha Sancha (RUCQUOI, 1995: 161) no
ano de 1047. Este texto é uma das várias cópias posteriores de um original
elaborado por volta do ano 776 pelo Beato de Liébana. Os escritos do
abade exprimiam a angústia do sentimento do final dos tempos (FRANCO
JR., 1992: 58), além de ter sido uma das grandes expressões ortodoxas
da Igreja cristã que aos poucos ressurgiu no reino asturiano após a
invasão muçulmana (CÓRTAZAR, 1981: 131).
O monge interveio na controvérsia adocionista
com um zelo doutrinal — o adocionismo foi uma doutrina surgida desde
780 na Península com o bispo Elipando de Toledo. Segundo ela, “o Logos
no Cristo é, sim, Deus, mas o homem Cristo nele teria sido adotado por
Deus”. Um sínodo romano (sob Leão III, 795-816) condenou o adocionismo
como herege (FRÖHLICH, 1987: 63). Acusou de hereges bispos e autores
moçárabes de Toledo e Urgel (MATTOSO: s/d). Isto porque provavelmente
eles permaneceram em território muçulmano, em vez de buscar as terras
ao norte, onde muitos cristãos se refugiaram.
O monge acreditava que o fim do mundo estava próximo.
Segundo suas contas, deveria ocorrer no ano 6.000 da criação do mundo,
800 depois de Cristo. Dessa forma, debruçou-se sobre o Apocalipse, redigindo
um Comentário ao Apocalipse que provocou grande alarde nos meios letrados
até meados do século XI. Beato de Liébana inspirou-se em obras precedentes
para elaborar seu Comentário ao Apocalipse, entre elas, as
dos autores Ticônio (africano, séc. IV) e Apringio de Beja (séc. VI)
(LOIZAGA, 1991: 142-143).
A partir de então, suas cópias ganharam vida na mão
de freires e monges, que criaram um grande número de iluminuras para
ilustrar o Comentário. Estas imagens são uma representação iconográfica
da mentalidade dos religiosos dos séculos IX — XI. Em Portugal, o Apocalipse
do Beato de Liébana foi copiado no mosteiro de Lorvão em 1189 (SARAIVA,
1991: 209).
Dentre as inúmeras iluminuras dedicadas ao Comentário,
a dos quatro cavaleiros do Apocalipse sobressai-se pela pujança. Mas
antes de fazermos uma breve abordagem analítica, é necessário tratar
da própria cena descrita por São João:
Vi quando o Cordeiro abriu o primeiro
dos sete selos, e ouvi o primeiro dos quatro Seres vivos dizer como
o estrondo dum trovão: “Vem!” Vi então aparecer um cavalo branco,
cujo montador tinha um arco. Deram-lhe uma coroa e ele partiu, vencedor
e para vencer ainda.
Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo Ser vivo dizer: “Vem!”
Apareceu então um outro cavalo, vermelho, e ao seu montador foi concedido
o poder de tirar a paz da terra, para que os homens se matassem entre
si. Entregaram-lhe também uma grande espada.
Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro Ser vivo dizer; “Vem!”
Eis que apareceu um cavalo negro, cujo montador tinha na mão uma balança.
Ouvi então uma voz, vinda do meio dos quatro Seres vivos, que dizia:
“Um litro de trigo por um denário e três litros de cevada por um denário!
Quanto ao óleo e ao vinho, não causes prejuízo”.
Quando abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto Ser vivo que dizia:
“Vem!” Vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu montador chamava-se “a
Morte” e o Hades o acompanhava. Foi-lhe dado poder sobre a quarta
parte da terra, para que exterminasse pela espada, pela fome, pela
peste e pelas feras da terra. (Ap, 6, 1, 8)
O significado simbólico do trecho é impactante.
Na interpretação ortodoxa cristã, o primeiro
cavaleiro, com o cavalo branco, é a própria invasão
da cavalaria. A exegética afirma que esse primeiro ginete que
recebe uma coroa representa o reino dos Partos e, portanto, as invasões
bárbaras (ECO, 1983: 90). Uma corrente da tradição
cristã viu nele o próprio Verbo de Deus, a expansão
do Evangelho. Beato de Liébana associou-o ao Cristo, o “espírito
da pregação”, cujas palavras de ensinamento tocariam
o coração dos descrentes (WILLIAMS, 1977: 102) (por isso,
a tradição dos Beatos o faz ser coroado por um anjo: repare
que na iluminura [abaixo] o anjo o coroa com uma espécie de vaso,
de cor marrom). Ele é o provocador das guerras.
Por sua vez, o segundo cavaleiro,
vermelho, é o símbolo das guerras provocadas pelo primeiro.
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Os dois primeiros cavaleiros: a Invasão
e a Guerra. Ao lado de cada cavaleiro está escrito
um texto. Para o primeiro, Equus / Alvus (por albus) et
qui sedebat / super eum abebat / arcum (trad.:
Quem estava sentado no cavalo branco tinha um arco) ; ao lado do segundo
cavaleiro, Equus roseus et qui / sedebat eum abebat
/ gladium (trad.: Quem estava sentado no cavalo vermelho tinha
uma espada).
O terceiro, negro, é a fome.
O quarto, a peste, do cadáver que se decompõe.
O Hades o acompanha para comer as vítimas. Beato, por sua vez,
viu no quarto ginete a própria encarnação do povo
dos mortos para a Graça e a salvação, o príncipe
da contradição, e o primeiro aviso do Anticristo (ECO,
1983: 90).
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Os dois últimos cavaleiros do apocalipse:
a Fome, de negro, e a Peste, acompanhada
por Hades. O texto do terceiro cavaleiro: Equus niger et qui sedebat
/ super eum abebat stateram (trad.: Quem estava sentado no
cavalo negro tinha uma balança); do quarto, Equus pallidus
et qui sedebat / super eum abebat gladium / Infernus
sequebatur / eum (trad.: Quem estava sentado no cavalo
pálido tinha uma espada. O Inferno o seguirá).
Provavelmente os clérigos iluministas dos séculos VIII-XI
interpretaram literalmente o calvário passado pelos cristãos fugidos
da invasão muçulmana como uma concretização da profecia que narra a
chegada dos cavaleiros:
…os reis da terra, os magnatas, os
capitães, os ricos e os poderosos, todos, escravos homens e livres,
esconderam-se nas cavernas e pelos rochedos das montanhas, dizendo
aos montes e às pedras: “Desmoronai sobre nós e escondei-nos (…),
pois chegou o Grande Dia da sua ira, e quem poderá ficar de pé?” (Ap,
6, 15-17)
A iluminura do Comentário
ao Apocalipse do Beato de Liébana, na qualidade de objeto iconográfico
de interpretação, é um tema primário
(ou natural), dentro da proposição de análise feita
pelo crítico de arte Erwin Panofsky (“...identificação
das formas puras [...] identificação de suas relações
mútuas como acontecimentos [...] o mundo das formas puras assim
reconhecidas como portadoras de significados primários ou naturais
pode ser chamado de mundo dos motivos artísticos”) (PANOFSKY,
1991: 50).
O ato interpretativo aqui utilizado como teoria é
considerado uma “descrição pré-iconográfica
de uma obra de arte”, e seu equipamento para a interpretação
é a experiência prática das condições
históricas relativas ao momento da criação artística,
compreendendo também a forma que o objeto analisado foi expresso
pelas formas do estilo então em voga (PANOFSKY, 1991: 64-65).
Durante a Idade Média, a imagem era tributária
da palavra: necessitava a todo instante uma explicação.
Muitas vezes tomava o lugar da leitura para um público mais amplo,
além de fornecer tema para uma exibição ou comentário
(ZUMTHOR, 1993: 127). Assim, consideramos a produção artística
por seu conteúdo cultural, como um “testemunho do estado
de uma civilização” (BURGUIÈRE, 1993: 589).
O nível pré-iconográfico —
ou “fenomênico” — embora mais elementar e descritivo
segundo a teoria de Panofsky, pressupõe também intrinsecamente
a interpretação (GINZBURG, 1989: 66). Logo, nosso exercício
analítico da iluminura em questão envolve recursos de
compreensão da linguagem. O contexto histórico, já
considerado, antecede uma amostragem minuciosa do trabalho, além
de levar em conta aspectos poéticos tanto da obra quanto de sua
análise (BANN, 1994: 270).
Esta corrente de pensamento está ligada ao processo
hermenêutico (OUTHWAITE, 1996: 350-354). Entendemos que a
observação de uma obra de arte está diretamente
associada a percepções sensoriais — tato, olfato,
e principalmente visão — que são particulares, pessoais.
Certas compreensões fazem-se necessárias, principalmente
relativas ao contexto histórico, além de sentimentos ligados
ao gozo e à fruição (fruitione) da obra.
***
Contemplando um pouco mais a iluminura do Comentário,
é notável o esforço do copista Facundu em reproduzir
fielmente a passagem bíblica, embora ele não siga literalmente
o texto de São João, pois o diabo que segue os cavaleiros
representa o inferno, embora para o Beato o diabo seja o próprio
quarto ginete (ECO, 1983: 90). Esta função “pedagógica
não-estética” era uma das principais características
das obras artísticas da cultura erudita na Idade Média,
que via toda imagem (imago) como uma forma de conhecimento
(ars = saber, conhecimento) (FRANCO JR, 1996: 72).
No caso da iluminura do Comentário, existem
alguns pequenos acréscimos por parte do copista no primeiro e
quarto cavaleiros. Senão vejamos: da mesma forma que a descrição,
as cores dos cavalos seguem a mesma ordem (com o acréscimo de
pintas brancas no primeiro cavalo).
Os acessórios (arco, grande espada, e balança)
também seguem na ordem, apesar do quarto cavaleiro portar espada
e escudo não descritos na passagem apocalíptica. O gesto
de coroação do anjo (sendo a coroa uma espécie
de vaso de barro), numa deferência ao primeiro cavaleiro e a companhia
do demônio ao quarto cavaleiro constam da descrição
joanina. A idéia do poder satânico está bem expressa
na figura do demônio por trás do quarto cavaleiro, que
traz a morte (WILLIAMS, op. cit.).
De um modo geral, notamos forte influência muçulmana
no traço do copista. Por exemplo, os trajes usados pelos cavaleiros
envolvem todo o corpo, com predominância de tecidos leves e sem
qualquer tipo de metal, uma característica bélica tipicamente
muçulmana. Os cavalos, com seus apetrechos em forma de meia-lua
invertida, são tipicamente árabes. O grande arco do primeiro
cavaleiro também possui um talhe mourisco. O tipo de sela desenhado
era usada por berberes e tuaregues, com uma elevação na
parte posterior — tinha sido introduzida durante o califado omíada
de Córdova. O estribo de um só aguilhão (acicate)
é também uma contribuição árabe.
Circundando a iluminura, afrescos avermelhados de motivos
muçulmanos nas extremidades — à semelhança
dos desenhos geométricos não-figurativos da arquitetura
mourisca — formam o quadro completo, dando um “calor”
à imagem. Talvez os copistas pretendessem relacionar as incursões
árabes (ghazwa) ocorridas em territórios mais
ao norte da Península à própria chegada das desgraças
anunciadas pelos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
Além disso, a invasão de 711 não
estava tão distante para que as populações desalojadas
pelos berberes pudessem esquecer o sofrimento e o terror causados a
seus pais e avós.
Mas voltemos à iluminura. As cores berrantes,
associadas à estilização dos gestos e à
firmeza do desenho dão um traço marcante e personalizado
ao conjunto (MATTOSO, s/d: 521). O copista escolheu quatro tons de cores
“quentes” como pano de fundo para os cavaleiros: azul escuro,
mostarda, laranja e creme, dando um maior impacto visual. Esse sistema
colorido de bandas, como uma forma estilística de gradação
atmosférica também foi utilizado em várias páginas
do manuscrito original de Beato (WILLIAMS, op. cit.).
O centro da tela, com as cores mostarda e laranja,
talvez pretenda dar a impressão da cultura muçulmana do
deserto. Para relacionar céu e inferno, o artista optou pelo
azul escuro, cor do demônio, ao lado do quarto cavaleiro e pano
de fundo para o anjo do Senhor. A escolha das cores reflete o simbolismo
de um sistema de valores que se alterava constantemente.
A darmos crédito ao medievalista Jacques Le
Goff, as sensibilidades medievais viam cada cor dentro de uma associação
simbólica valorativa. Por exemplo, a preferência do copista
pelos tons dourados (amarelo, mostarda) indicava a presença do
mal, cor da falsidade e dos personagens maldosos (LE GOFF, 1989: 28).
A iluminura dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse é
uma representação iconográfica da ameaça
constante infligida pelos cavaleiros muçulmanos às populações
cristãs ibéricas-asturianas dos séculos VIII-IX.
O medo da morte coletiva, como um castigo divino, esconde-se por trás
da agressividade do estilo. As iluminuras dos monges medievais são
de grande importância para a compreensão das mentalidades
agressivas que se encontram por trás de cada razzia, e o pavor
que tanto padeciam as populações cristãs. Isto
ganha transparência se lembrarmos que se esperava o fim dos tempos.
Daí o sucesso do Comentário ao Apocalipse
do Beato de Liébana. Como afirma José Mattoso, “Os
iluministas imaginavam a perturbação e o medo de quem
trabalhava ou dormia tranqüilamente e era surpreendido pela vinda
repentina do inimigo. O terror espreitava o homem em qualquer situação.”
(MATTOSO, op. cit.) Este era um estado de guerra ininterrupta.
A cavalaria era a portadora da má-fé. Ela trazia a morte
e as desgraças da guerra. Como nos “Versos da Morte”,
do monge-poeta Hélinand de Froidmont: “Morte, faze selar
teus cavalos..” (HÉLINAND DE FROIDMONT, 1996: 29).
Mas foi através dos infiéis que sua representação
imaginária ganhou outra dimensão. Acompanhados pelo Hades,
os muçulmanos eram vistos como um flagelo enviado por Deus contra
a cristandade. Tratava-se do outro lado do imaginário cristão
que envolvia a cavalaria medieval.
***
Fontes
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