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A meditatio mortis
no Livro do Homem (1300) de Ramon Llull (1)
Ricardo da Costa (2)
Conferência proferida no Gabinete de Filosofia Medieval da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal) no dia 20 de maio de 2005. * “Considera freqüentemente
as condições de sua morte e serás humilde.”
* As filosofias clássica e medieval tinham como
um de seus principais fundamentos a meditação da morte.
Platão (c. 428-347 a. C.) foi um dos primeiros a expressar esse
pilar reflexivo: “...aqueles que filosofam, no reto sentido da
palavra, se exercitam em morrer”. (3) Cícero
(106-43 a.C.), mantendo essa mesma linha de pensamento, disse que toda
a vida filosófica é um comentário sobre a morte.
(4) * A morte esteve presente tanto nos escritos quanto
no sentido da vida de Ramon Llull. Por um lado, ele sempre refletiu
sobre seu significado; por outro, desde sua conversão, ele desejou
o martírio. Em sua Vida coetânia (1311), o beato
nos informa que, após sucessivas visões do Cristo crucificado,
enquanto compunha uma canção para uma dama que “amava
com um amor feiticeiro”, concebeu primeiramente “...dar
sua vida e alma por Seu amor e honra, convertendo a Seu culto e serviço
os sarracenos que, por seu grande número, rodeavam os cristãos
por toda parte.” (I,5) (12) Isso ocorreu por
volta de 1263.
Nesse momento de extrema depressão e melancolia (24) – um dos muitos de sua longa vida – Ramon Llull escreveu o Livro do Homem. (25) E logo em seu Prólogo, o autor define o objetivo de sua obra:
A primeira coisa que salta aos olhos é a bela cadência rítmica do texto (que curiosamente não se perde ao ser vertido para o português): nosso filósofo é conhecido por sua capacidade de criar imagens surpreendentes, o que nos sugere uma pessoa com uma grande vivacidade sensorial. (28) E além do já conhecido gosto de Llull pelo ritmo frasístico para se chegar à beleza do entendimento (29) (com a repetição das palavras “homem”, “saber” e “amar e conhecer”), nessa passagem o maiorquino segue o preceito socrático “conhece-te a ti mesmo” (30) como fundamento para se chegar ao amor à humanidade e, a seguir, a Deus. Sua obra destina-se a que todos conheçam e amem a Deus, pois conhecendo a si mesmo, o homem chega a Deus, fórmula insistentemente repetida na antropologia medieval (31), ou melhor dizendo, no humanismo cristão. (32) O Livro do Homem é dividido em três partes. Seu segundo livro trata exclusivamente da morte, tanto da corporal quanto da espiritual, e corresponde a exatamente 50% do total da obra – observem que no pensamento luliano o homem é o cume da criação divina. (33) Assim, neste segundo livro Ramon divide os conteúdos da seguinte maneira: O
Livro do Homem (1300) – Livro II – “Da morte
do homem” Mas não só o orgulhoso se humilhará, ele nos diz. Também o avaro, o acidioso, o glutão, o invejoso, o irado, e “qualquer um que tenha os outros vícios e pecados”. (36) Em suma, a meditatio mortis luliana é dirigida sobretudo aos pecadores de qualquer camada social, “rei, conde, duque, marquês, prelado, religioso, burguês ou camponês”. Pois a morte tem uma virtude: ela é comum a todos, todos perdem seu corpo e os bens dessa vida. E a reflexão luliana se dirige em primeiro lugar ao orgulhoso, porque no setenário medieval dos pecados o orgulho, a soberba, é a mãe de todos os pecados. (37) Assim, Ramon principia com o que a morte toma daqueles que morrem. Em primeiro lugar, ela toma o que o homem mais tem nesse mundo, seu ser, isto é, seu corpo. Essa é a maior perda que se poderia sofrer e “muito horrível de considerar e de lembrar”, pois faz com que o homem fique muito “temeroso, triste e pensativo”. Ela também toma a vida, pois o morto apodrece e se torna pó sob a terra, e se apodera com tal força e intensidade que de nada valem as preces, o poder e a riqueza, os parentes ou qualquer artimanha, pois “a morte é verdadeiramente desconhecida e avara”. No instante da morte, o homem perde a lembrança, o entendimento e a vontade. Llull adota a tríade agostiniana da alma (38) que reflete a impressão dos vestígios da Santíssima Trindade no homem. (39) O tema da morte lhe causa espanto, estupefação: Llull se maravilha. (40) E por que? Porque há muitos homens sãos que acreditam conseguir o perdão divino apenas se arrependendo no momento da morte. Pelo contrário, o filósofo afirma que a justiça de Deus não pode se contradizer e requer vingança dos homens que, na plenitude de seu vigor e saúde, não se prepararam devidamente para fugir das penas infernais. Assim, no momento da morte, não adianta se arrepender, pois esse é um arrependimento tardio, já que inclusive a memória é levada pela morte. Portanto, os homens doentes estão loucos se pensam poder imaginar os pecados que cometeram e se arrepender deles! (41) A morte toma ainda duas coisas muito importantes e estimadas por todos: o sentimento – a capacidade de sentir as sensações oriundas dos sentidos – e os bens desse mundo, que são os ornamentos e a beleza. E é uma grande maravilha os homens e mulheres se esforçarem tanto para serem belos, pois “a morte toma mais das mais belas e dos mais belos que dos menos belos e das menos belas”. (42) A dualidade belo/feio proporciona a Llull criar uma passagem para descrever o lento e gradual avanço da morte pelo corpo, da feiúra, do antes jovem e belo, e agora velho (e logo) decomposto corpo humano:
Por fim, a morte arrebata dos homens os deleites, os sentidos corporais, prazeres que são tão amados nesse século, como, por exemplo, o deleite de ver “belas fêmeas, belas vestes, belo filho ou belo castelo”, e o deleite de ouvir prazerosas palavras, de cheirar o âmbar ou a flor. Nessa passagem, não posso deixar de comentar o duplo sentido da palavra catalã delit: deleite, um vivo prazer da alma ou dos sentidos, mas também delito, infração da lei, no caso, da lei divina. (44) Ou seja, quando o homem se deleita, comete delito, deleite/delito contra Deus. (45) Um dos possíveis métodos de leitura dos textos medievais para se obter uma plena compreensão de seus conteúdos é a leitura invertida, isto é, valorizar positivamente o que o texto declara negativamente. (46) Assim, essas passagens, se lidas inversamente, mostram toda a capacidade estética de Ramon Llull (47) e como sua sensibilidade percebia muito bem as vaidades desse século. (48) Por fim, de todas essas violentas e súbitas apropriações, a morte toma o maior bem de todos: a alma racional, que é a captura que dá o maior sofrimento, maior inclusive que todos os prazeres que o homem teve desde que nasceu: “E como isso é assim, quem pode dizer, considerar ou escrever o tanto que a morte toma do homem ou a pena que lhe dá tomando o que toma? Eu não sei. E é uma grande maravilha como a morte tem tanto poder de tomar e de dar ao homem.” (49) A seguir, Ramon Llull trata das coisas que a morte dá ao homem. E o filósofo inicia com o pavor (o medo, o bom temor), aquele sentimento necessário que existe junto do amor para que os homens se abstenham de matar, de roubar e de se empanturrar de comida. (50) A morte proporciona humildade às pessoas, pois quando os orgulhosos se lembram dela e da justiça de Deus se humilham. Mas, sobretudo, a visão da morte (os ossos nos túmulos e o pó dos homens mortos) proporciona ao filósofo criar um belo e dramático monólogo fantástico e imaginário entre o homem pecador, suas mãos e sua boca:
Prosseguindo, em uma passagem tipicamente franciscana Llull afirma que a morte distribui riqueza, pois mata os homens ricos e malvados, gente mesquinha que impede os pobres de terem acesso às riquezas comuns a todos. Além disso, por medo da morte, esses mesmos ricos ainda distribuem esmolas, pensando que assim terão suas almas salvas! A morte também impede a preguiça, pois sem ela o homem não se esforçaria para viver e ter as coisas necessárias à sua existência; e por causa da doença, que é o princípio do fim da vida, os homens recorrem a Deus, que é o “senhor da morte” – mais uma interessante definição do mestre medieval das definições. (52) Contra essa senhora “boa e cortês” que tanta coisa dá, de nada valem as lágrimas, as riquezas, a nobreza, os parentes, a sabedoria ou o conhecimento, pois “a morte dá sempre seu golpe.” (53) Assim, a morte é boa, porque faz os homens terem paciência e menosprezarem as riquezas. Ademais, ela é instrumento comum da natureza, pois a ninguém perdoa e ninguém pode dela se defender, nem prelados, nem príncipes. Por fim, após essa sucessão de definições da morte, Llull termina esse item com uma bela metáfora: a morte é uma casa de duas portas:
A seguir, Ramon Llull trata dos males que a morte dá, e oferece um quadro muito interessante da medicina de então, pois principia com a decomposição física e comenta sobre os quatro elementos (fogo, ar, água e terra) que se acreditava existir no homem: desses elementos “são feitos os ossos, os nervos, a carne, os miolos e o sangue dos homens” (55), e como esses fundamentos se desfazem com a morte. Então ele explica a seu leitor as naturezas existentes no homem, suas potencialidades: a vegetativa (a capacidade de comer, de beber, de desejar calor ou frio), a nutritiva (o ato de digerir e transformar a comida em carne e sangue), a retentiva (que faz com que retenhamos a comida e a bebida para que seja feita a digestão) e a expulsiva (potência que expele do corpo as superfluidades das comidas). A morte destrói todas essas capacidades físicas do homem. (56) Formado pelos quatro elementos e daquelas quatro naturezas, o homem ainda tem três coisas das quais é constituído: os seis sentidos (Llull acrescenta um sexto sentido que chama de afato, que é a capacidade de falar [57]) a imaginação e a alma racional, a “mais soberana e mais nobre parte do homem” (58), substância espiritual e única parte imortal. Mas de todos os itens desse capítulo sobre a morte no Livro do Homem, o mais interessante a nosso ver são os dois últimos, os sinais e os perigos da morte. Nessas passagens, Ramon Llull nos mostra toda a sua capacidade de observação da realidade, aliada a um profundo senso metafísico e transcendental da existência. Os sinais da morte são muitos e verdadeiros, ele nos diz. A filosofia deve tratar deles para que os homens estejam preparados para quando ela chegar – e que eles só morram uma vez. Os homens que morrem são sinais aos vivos que para a morte não há qualquer defesa; os ossos dos mortos, as construções antigas, as crianças órfãs, as viúvas e os médicos são sinais da morte. A velhice e a juventude também são dolorosos sinais, e a doença é a mensageira macabra que anuncia a chegada da morte. A morte dos animais e das plantas também são tristes sinais, além das mortíferas armas dos homens. Por fim, a pobreza, a fome, a ira e a tristeza nos mostram a morte e a debilidade de nossa existência nesse mundo. (59) A morte é perigosa porque chega de muitas maneiras e todos os dias. E ninguém sabe onde morrerá, nem em qual momento: Portanto, como a morte pode vir assim subitamente e o homem não pode saber ao certo quanto viverá nem quando morrerá, é uma grande maravilha que os homens se deleitem em construir casas, hortos, vinhas e juntar riquezas, pois aquele que faz a casa não sabe se lá estará, quando a conclui não sabe quando lá habitará, e quando ganha o dinheiro, não sabe quando o possuirá. (60) Em um jogo literário de contrastes, Ramon demonstra, como se estivesse fazendo uma pregação, a fragilidade da existência humana, e o objetivo de sua pregação:
O homem pode morrer de diversas maneiras, ainda nos diz o filósofo. Por comer muito ou pouco, por beber muito ou pouco. Pode morrer de morte acidental ou natural, e ninguém sabe quando, como ou por que. Assim, Ramon conclui sua meditatio mortis com uma admoestação ao homem orgulhoso: Assim, quem é aquele que deve ser orgulhoso e estimar algo de si mesmo e sua vida, já que sabe tão pouco de si próprio e o que irá acontecer? Há somente um conselho: amar, servir, honrar e louvar a Deus, a Ele pedir perdão e ter grande esperança, pois Ele toma e liga a morte, e não a deixa vir sem Sua licença e Sua vontade. (62) * A filosofia nasceu sob o signo da morte. E a reflexão sobre a morte e o significado da vida talvez tenham sido a contribuição mais notável da filosofia cristã medieval ao pensamento humano. Tema perene porque eterno, a morte é a única certeza da existência. Todos morreremos, todos viraremos pó. Ramon Llull defende que a morte está na vida e se manifesta em todos os seus momentos. A natureza da reflexão luliana sobre a morte é elevada e busca a transcendência contemplativa. Assim, para se compreender profundamente o ato meditativo fúnebre luliano, deve-se contemplar o mais profundo do ser, a alma em seu estado puro, em sua natureza divina. A alma que toca a si própria medita para si, pois fora de si não pode encontrar o que busca. Essa prática da morte nada mais é que uma preparação para a vida, o exercício por excelência do ato de filosofar, como disse anteriormente. E em certo sentido, toda a produção filosófica luliana foi uma preparação para a morte, pois o tema das virtudes, suas combinações e oposições aos vícios foi fundamental na arte luliana. O tema da morte é um dos pontos que diferencia profundamente a filosofia antiga e medieval da moderna. (63) Quando Espinosa (1632-1677) afirmou que o homem livre é aquele que menos pensa na morte, pois sua sabedoria não é uma meditação sobre a morte, mas sobre a vida (64), expressava assim o fim da tradição antiga e medieval e o ingresso da filosofia em novos tempos. Tempos mais altivos, decididamente mais soberbos. (65)
– Dedico este artigo à memória do saudoso e querido amigo Rui Vieira da Cunha –
* Notas (1) A escolha do tema surgiu de cinco reflexões pessoais, todas coincidentemente quase na mesma época. A primeira, a morte de um querido amigo, o genealogista e heraldicista Dr. Rui Vieira da Cunha, a quem dedico este artigo; a segunda, a leitura do Livro do Homem, belíssimo texto que apresentamos um extrato ao público português; a terceira, duas instigantes conversas sobre a morte que tive em Sant Cugat del Vallès (Barcelona) com meu estimado amigo, Prof. Dr. Pere Villalba Varneda (Universitat Autònoma de Barcelona); a quarta, meu ingresso na meia-idade, e a quinta, meu filho Ricardo. Curiosamente, neste ano de 2005 ele chorou três vezes, e perguntou o que acontecerá depois de sua morte, se estará ao lado de Deus – e isso com apenas nove anos! (2) Professor de História Medieval da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Brasil. Bolsista pós-doutoral BBC 2005 (Beques per a joves membres dels casals catalans) de la Generalidad de Cataluña. (3) PLATÃO, Fédon, Parte II. (4) CÍCERO, Disputas Tusculanas, I, XXX, 74. (5) Eclesiastes 8,8 e 9,5-6; Jó 10, 21-22; Salmos 115, 17; João 3, 16 e 11, 25. (6) 2Cor 4, 11-18 (7) F. COPLESTON, Historia de la Filosofía, Barcelona, Ariel, 1969, vol. II, p. 17-19. (8) Institutiones, 2, 3, 5. (9) Etimologiae, 2, 24, 9. (10) J.-I. SARANYANA, La Filosofía medieval, Pamplona, EUNSA, 2003, p. 109-111. (11) HUGO DE SÃO VÍTOR, Didascálicon. Da arte de ler, Petrópolis, Editora Vozes, 2001, Livro II, cap. 1, p. 85. (12) RAMON LLULL, “Vida Coetânia”. In: A. BONNER, Obres Selectes de Ramon Llull (1232-1316), Volum I, Mallorca, Editorial Selecta, 1989, p. 14. (13) RAMON LLULL, “Vida Coetânia”, op. cit., p. 31. (14) A. VEGA, Ramon Llull y el secreto de la vida, Barcelona, Ediciones Siruela, 2002, p. 42. (15) Para a viagem de Ramon a Tunis, ver R. DA COSTA, “Muçulmanos e Cristãos no diálogo luliano”. In: Anales del Seminario de Historia de la Filosofía (UCM), vol. 19 (2002) p. 67-96. (16) Ver A. VAUCHEZ, A Espiritualidade na Idade Média Ocidental (séculos VIII a XIII), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1995, p. 125-158, e B. BOLTON, A Reforma na Idade Média, Lisboa, Edições 70, 1986. (17) Por exemplo, na Doctrina pueril (c. 1274-1278), obra dedicada a seu filho Domingos, Llull trata da morte especificamente em um capítulo, para que seu filho medite sobre ela e busque a vida cristã, preparando-se já nesse mundo para a vida eterna. Veja, por exemplo, essa interessante passagem: “Filho, cada dia morres, pois a morte se aproxima de ti todos os dias, e os mortos que vês soterrar e apodrecer sob a terra te significam que és e serás como eles, e assim como eles são esquecidos e desobedecidos por seus filhos e parentes, serás esquecido e desobedecido.” – RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. LXXXVIII, 4 (edição de Gret Schib, Barcelona, Editorial Barcino, 1957). (18) No Catálogo Cronológico das Obras de Ramon Llull, Anthony Bonner indica as edições do Livro do Homem: “III.47. Libre de home; Liber de homine. Nov. 1300 - Maiorca. E 28, Sa 112, HLF 45, Lo iii/23, Gl cm, Av 86, Ca 37, Pla 105, Per 58, ROL 94. Catalão. 4 Mss. 2 eds.: (1) ORL XXI (1950), 1-159; (2) fragm. em M. Batllori, Antología filosòfica (Barcelona, 1984), p. 199-210, 423-9. Latim. 14 Mss. Ed. MOG Vl (1737), 475-536 = Int. viii.” – OS, vol. II, p. 563. (19) J. N. HILLGARTH, El problema d’un imperi mediterrani català, 1229-1327, Palma de Mallorca, Editorial Moll, 1984, p. 121. (20) F. DOMÍNGUEZ REBOIRAS, “El Dictat de Ramon y el Coment del Dictat. Texto y contexto”. In: SL, 1996, vol. XXXVI, p. 50. (21) Començaments de filosofia (Principia philosophiae complexa), Cant de Ramon, Medicina de pecat, Libre de l'és de Déu (Liber de est Dei), Libre de coneixença de Deu (Liber de cognitione Dei), Libre de home (Liber de homine), Libre de Déu (Liber de Deo et Jesu Christo) e Aplicació de l'Art general. (22) F. DOMÍNGUEZ REBOIRAS, “Introducción General. La vida de Ramon Llull alrededor del año 1300”. In: ROL (ed. F. DOMÍNGUEZ REBOIRAS), Turnhout, Typographi Brepols Editores Pontificii, 1993, tomo XIX, p. IX-XLIX. (23) RAMON LLULL, Obres Essencials, Barcelona, Editorial Selecta, 1957, p. 1302. Há uma excelente e recente edição do Cant de Ramon: RAMON LLULL, Lo Desconhort – Cant de Ramon (edició a cura de Josep Batalla), Barcelona, Tona, 2004. (24) J. BATALLA, “Introducció”. In: RAMON LLULL, Lo Desconhort – Cant de Ramon, op. cit., p. 16. Contudo, Josep Batalla é prudente e hesita ao taxar Llull de depressivo: “Diagnosis psiquiàtriques han pretés que Llull hauria patit una malencolia ansiosa o una psicosi maníaco-depressiva (...) És possible. Tanmateix cal tenir en compte que els psiquiatres que han emès aquests dictàmens sobre Llull no han explorat cap pacient actual que poguessin interrogar i observar clínicament, sinó un medieval –les malalties psíquiques tenen un fort component social– que ha expressat el seu patiment seguint cànons retòrics medievals.” – op. cit., p. 16, nota 28. (25) A edição que nos basearemos será a de RAMON LLULL, “Libre de Home”. In: Obres de Ramon Llull, edició original, Palma, 1950, vol. XXI, p. 1-159. Citaremos a partir de agora somente como ORL XXI (e todas as traduções das passagens são minhas). (26) “...Déu, qui és home en quant és home”. Passagem de interpretação especialmente difícil. (27) “Con sia covinent cosa que home sàpia què és home, pus que és home, volem encercar e mostrar que és home; car en ço que home sap què és home, sab home si mateix, e en saber home si mateix sap amar si mateix e altre home, e encara, conèxer e amar Déu, qui és home en quant és home; e aquelles coses que pertanyen a home hom sap amar e conèxer, e squivar aquelles coses qui són contra home. E per aço és covinent cosa que fassam aquest LIBRE DE HOME, lo qual fem abreujadament e tant declarativament que pusque ésser entès bonament per tot home.” (28) J. BATALLA, “Introducció”. In: RAMON LLULL, Lo Desconhort – Cant de Ramon, op. cit., p. 14. (29) Ver especialmente L. BADIA, Teoria i pràctica de la Literatura en Ramon Llull, Barcelona, Quaderns Crema, 1992. (30) “Os que se conhecem sabem o que lhes é útil e distinguem o que podem fazer daquilo que não podem: ora, fazendo aquilo de que são capazes, adquirem o necessário e vivem felizes; abstendo-se daquilo que está acima de suas forças não cometem faltas e evitam o mau êxito; enfim, como são mais capazes de julgar os outros homens, podem, graças ao partido que daí tiram, conquistar grandes bens e livrar-se de grandes males (...) Contrariamente, caem nas desgraças.” – XENOFONTE, Memoráveis, IV, II, 26. São Paulo, Nova Cultural, 1987. (31) Para a antropologia medieval, ver J. CORCÓ, A. FIDORA, J. OLIVES PUIG, J. PARDO PASTOR (coord.), Què és l’Home? Reflexions antropològiques a la Corona d’Aragó durant l’ Edat Mitjana, Barcelona, Prohom Edicions, 2004. (32) M. BALLANO, “A su imagen y semejanza. Aproximación a la antropología de San Bernardo”. In: Obras completas de San Bernardo II. Biblioteca de autores cristianos (BAC), Madrid, MCMXCIV, p. 04. (33) De maneira semelhante, o Livro VIII do Livro das Maravilhas (1288-1289), que se intitula “Do Homem”, é um imenso tratado sobre o homem. Este capítulo ocupa quase 60% de toda a obra, além de ser quase duas vezes maior que o Livro do Homem. Este tema também é tratado nos capítulos 103-226 do Libre de contemplació (Liber contemplationis magnus, escrito por volta de 1272-1273) e nos capítulos 85-93 da Doctrina Pueril (1274-1276). O homem também é um dos Nove Sujeitos da Etapa Ternária de sua Arte (ver Art breu [Ars brevis], escrita em janeiro de 1308 em Pisa, parte IX, subj. 4). (34) ORL XXI, p. 68-124. (35) ORL XXI, p. 48. (36) ORL XXI, p. 48. Acídia em lugar de preguiça: “A acídia é aquela tristeza modorrenta do coração que não se julga capaz de realizar aquilo para que Deus criou o homem. Essa modorra mostra sempre sua face fúnebre, onde quer que o homem tente sacudir a ontológica e essencial nobreza de seu ser como pessoa e suas obrigações e sobretudo a nobreza de sua filiação divina: isto é, quando repudia seu verdadeiro ser!” – J. LAUAND, “S. Tomás de Aquino e os Pecados Capitais”. In: Notandum 10. (37) “Os vícios capitais na enumeração de Tomás são: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Hoje, em lugar da vaidade, a Igreja coloca a soberba e em lugar da acídia é mais freqüente encontrarmos a preguiça na lista dos vícios capitais. Isto se deve a que a soberba é considerada por Tomás como um pecado, por assim dizer, mega-capital, fora da série e, portanto, prefere falar em vaidade (inanis gloria, vanglória).” – J. LAUAND, “S. Tomás de Aquino e os Pecados Capitais”, op. cit. Para os sete pecados capitais em Ramon Llull, ver COSTA, Ricardo. “A noção de pecado e os sete pecados capitais no Livro das Maravilhas (1288-1289) de Ramon Llull”. In: FILHO, Ruy de Oliveira Andrade (org.). Relações de poder, educação e cultura na Antigüidade e Idade Média. Estudos em Homenagem ao Professor Daniel Valle Ribeiro - I CIEAM - VII CEAM. Santana de Parnaíba, SP: Editora Solis, 2005, p. 425-432. (38) AGOSTINHO, De trinitate, X, 11-18. (39) F. DOMÍNGUES REBOIRAS, “Introducción”. In: Raimvndi Lvlli Opera Latina 92-96. In civitate maioricensi anno MCCC composita, Turnhout, Brepols Publishers, 2000, p. 123. Para as potências da alma na filosofia luliana, ver R. DA COSTA, “O que é, de que é feita e porque existe? Definições lulianas no Livro da Alma Racional (1296)”, Palestra proferida no II Colóquio Internacional de Filosofia Medieval – Antropologia: Raimundo Lúlio e Tomás de Aquino, evento ocorrido no dia 21 de agosto de 2004 na UniLaSalle-RJ (Institutos Superiores La Salle) e promovido pela Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, pela Universidade Federal Fluminense (Uff) e pelo Seminário Arquidiocesano São José. (40) ORL XXI, p. 51. O maravilhoso em Ramon Llull é, sobretudo, a pura admiração, um ato de experimentar sentimentos de admiração, um prolongamento do thaumázein platônico – em Platão, o homem se alegra por conhecer as coisas por reflexo da divindade; no caso de Llull, se “maravilha”. Em português, a palavra maravilha possui ambos os sentidos: é um ato ou fato admirável e assombroso – a “maravilha da natureza”, por exemplo – e também pode ser entendido como um milagre, uma coisa prodigiosa que causa encanto e fascinação. Maravilha em português é também uma coisa bela, o que indica uma reminiscência do pensamento medieval que associava a verdade com a beleza e a bondade [Unum, Verum, Bonum], tudo retroagindo ao uno, isto é, a Deus. Ver E. COLOMER, De la Edad Media al Renacimiento. Ramón Llull – Nicolau de Cusa – Juan Pico della Mirandola, Barcelona, Editorial Herder, 1975, p. 28. (41) ORL XXI, p. 51-52. (42) ORL XXI, p. 53-54. (43) “La mort toll amichs e dóna enamichs, segons que dit havem, e enaxí con toll amichs e dóna enamichs, toll bellesa e dóna legesa; car qui vehia la legesa del cors del home aprés .viij. jorns, o plus o menys, veuria la major legesa que en cors pot ésser vista: legesa de pudor, de inflament, de pudrit qui decorre per los ulls, orelles, bocha e cara, e tot lo ventre ple de pudrit e los braces, les spatles, les anques e les cames e tot lo cors dedins e defores, e per tot aquell pudrit vèrmens e molt horribles a veer a thocar e qui roen en lo cors de l ome. Tolta és, donchs, tota bellesa a aquell cors e donada li es tota legea: no lié s romasa bellesa de cabells, ni de ulls ni de boca, car plens són de vèrmens; no ha color blanca ni vermella. A, Deus! E per què la mort toll tant gran bellesa e dóna tant gran legea?” – ORL XXI, p. 54. (44) GGL, 1983, vol. II, p. 35-36. (45) R. DA COSTA, “A noção de pecado e os sete pecados capitais no Livro das Maravilhas (1288-1289) de Ramon Llull”. In: R. de O. A. FILHO (org.). Relações de poder, educação e cultura na Antigüidade e Idade Média. Estudos em homenagem ao Professor Daniel Valle Ribeiro – I CIEAM – VII CEAM. Santana de Parnaíba, SP: Editora SOLIS, 2005, p. 426. (46) Por exemplo, há algum tempo, em uma classe de mestrado na Ufes, apresentei um sermão de um monge medieval que pregava para as mulheres e insistia que elas não deveriam ir para a missa com seus rostos pintados. Estupefata, uma aluna exclamou: “Coitadas das mulheres medievais, não podiam nem se pintar!” Tive que lhe explicar que o que ocorria na realidade era exatamente o contrário: justamente porque elas se pintavam é que o pregador fazia seu sermão... (47) Ver I. ROVIRÓ I ALEMANY, “De la bellesa sensible a la font de la bellesa: la bellesa en Ramon Llull”, Actes del Simposi Internacional de Filosofia de l'Edat Mitjana. Vic-Girona, 11-16 d'abril de 1993, “Actes, núm 1”, Vic: Patronat d'Estudis Osonencs, 1996, p. 389-395. (48) Um pouco semelhante à proposta de leitura de uma famosa pregação de São Bernardo contra a arte cluniacense. Ver El abad Suger de Saint-Dennis y sus tesoros artísticos (ed., comentarios y notas de Edwin Panofsky), Madrid, Catedra, 2004, e G. J. A C. DIAS, OSB/FLUP. “Bernardo de Claraval. Apologia ad Guillelmum Abbatem - Apologia para Guilherme, abade.” In: MEDIAEVALIA. Textos e Estudos, 11-12 (1997), p. 7-76. Faculdade de Letras do Porto e Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Coord.: J. F. Meirinhos. (49) “Hon, con açò sia enaxí, qui és qui pogués dir, consirar ni scriure tant com és açò que la mort toll a home, ni la pena que dóna en tollent ço que toll? Jo nou sé. E gran maravella és com la mort ha tan gran poder per tolre e per donar sobre home.”, ORL XXI, p. 55. (50) É sempre bom relembrar que, na concepção medieval (e especialmente no pensamento político) amor e temor andam juntos, pois um complementa o outro – só com Maquiavel (1469-1527) é que os dois sentimentos foram opostos. (51) “Alcuns hòmens són que con veen los altres aucire han pietat e floren, e quant vehen en los vases los osses e la pols dels hòmens morts e pensen que ells han a morir e seran axí pudrits com aquells, han pietat de si mateiys e dien a lurs mans: ‘A, mans! No façats mal per ço que siats belles e grasses, pus que havets ésser podrides e ésser leges; ni vos, boca, no mintats per ço que hajats saboroses viandes, car temps serà, e tost esdevendrà, que vos serets menjar de vèrmens.’” – ORL XXI, p. 56. (52) A. BONNER, M. I. RIPOLL PERELLÓ, Diccionari de definicions lul.lianes, Col.lecció Blaquerna, 2, Universitat de Barcelona/Universitat de les Illes Balears, 2002, p. 10. (53) ORL XXI, p. 58. (54) “Per la una porta hixen los hòmens justs d aquesta vida en què som e van viure en la glòria de Déu, en la qual estaran perpetualment sens fi; e aquell portal és bo e molt desirable. Per l altre portal hixen los hòmens mals peccadors daquesta vida en mort perpetual infernal: aquell portal és molt mal e spaventable.” – ORL XXI, p. 59. (55) ORL XXI, p. 60. (56) ORL XXI, p. 60-62. (57) COLOM I MATEU, Miquel. Glossari General Lul.lià, GGL, Mallorca, Editorial Moll, 1983, vol. II, p. 198. Esse “descobrimento” do sexto sentido por Llull em 1294 mostra o quanto ele era receptivo da tradição aristotélica e dos comentadores do Estagirita. Com seu “sexto sentido”, o maiorquino recuperou o valor agostiniano da palavra e sua natureza. (58) “Substância é o que está por si e sob o acidente, como o homem ou a pedra que está por si e sob a cor, a quantidade e as outras.” – A. BONNER, M. I. RIPOLL PERELLÓ. Diccionari de definicions lul.lianes, op. cit., p. 275. (59) ORL XXI, p. 64-65. (60) “Hon, con la mort enaxí soptosament puscha venir, e home no puscha ésser cert quant viurà, ni quant morra, gran maravella és dels hòmens qui sadeliten en fer cases, orts e vinyes, e en ajustar riqueses; car aquell qui fa la casa, no sab si estará, e quan l afeta, no sap quant hi habitarà; e com ha gonyat lo diner, no sap quant lo posseyrà.” – ORL XXI, p. 66-67. (61) “Home entra en la casa e no sap si n exirà; e hix de la casa: no sap si s tornarà. Hom compra l peix: no sap si l menjarà; met del vi en l anap: no sap si l beurà; vol parlar: no sab si parlarà; vol fer luxúria: no sap si la fará. Hon, con açò sia enaxí, qui enaxí sovín considerava en la mort, gran pahor hauria d ella, e en haver pahor de la mort acostumaria si mateix ab bones costumes, e fugiria a les males e menyspresaria la vanitat d aquest món, e hauria desig de Déu e de ésser ab ell en glòria perdurable; e per aytal desig e bona vida, no hauria paor de la mort, lo qual no paor en la mort li seria conort.” – ORL XXI, p. 67. (62) “On, con açò sia enaixí, qui és aquell qui degua ésser orgullós ne presar res si mateix ne sa vida, pus que tan poch sap en si mateix ne en ço en què esdevendrá? No y ha altre consell mas Déu amar, servir, honrar e loar, e a él mercè clamar e gran esperança haver, car ell pren e ligua la mort, que no lexa venir a nos sens sa licència e son voler.” – ORL XXI, p. 68. (63) Como os anjos (angelologia), por exemplo. A filosofia medieval inicia e termina também tendo o tema angélico como referência. Ver P. FAURE. “Anjos”. In: J. LE GOFF, & J.-C. SCHMITT (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval I. Bauru: EDUSC / São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 69-81 e R. DA COSTA e E. VENTORIM, “Entre o real e o imaginado. Prolongamentos apocalípticos angélicos na tradição filosófica medieval: Ramon Llull e o Livro dos Anjos (1274-1283)”. In: Estudos de Religião 23. Revista Semestral de Estudos e Pesquisas em Religião, São Bernardo do Campo, UMESP, 2002, Ano XVI, n. 23, dezembro de 2002. (64) “Homo liber de nulla re minus quam de morte cogitat, et eius sapientia non mortis, sed vitae meditatio est.” – ESPINOSA, Ethica 4. (65) Agradeço ao Prof. Dr. David Lorenzo Izquierdo (Universitat Internacional de Catalunya – UIC) por sua leitura e as sugestões que fez.
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