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Ricardo da Costa (Ufes)
In: Revista Mediaevalia. Textos e Estudos 11-12 (1997), pp. 231-252 (ISSN 0872-0991). Publicação do Gabinete de Filosofia Medieval da Faculdade de Letras do Porto e da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. * O pensamento e a obra de Ramon Llull nos permite analisar a visão cristã da cavalaria peninsular diretamente envolvida no contato direto com o “outro”: o muçulmano. Ao inserir-se numa proposta missionária de conversão — e portanto muito mais próximo do “inimigo” — Llull trouxe importantes contribuições à visão cristã da cavalaria. Sua obra Libro del Orden de Caballería (1279-1283?) foi fruto desse envolvimento. Embora contra as cruzadas desde o começo — era considerado um pacifista (SUGRANYES, 1986) — Ramon Llull no fim de sua vida aceitou a luta armada contra o infiel como uma forma de impor o diálogo. Em 1311, Llull ditou aos monges cartuxos de Vauvert a história de sua vida — a Ordem Cartuxa foi fundada em 1084 por São Bruno de Colônia, no vale de La Chartreuse, ao norte de Grenoble (a palavra Cartuxa é uma latinização do topônimo Chartreuse). Seu modo de vida traduzia-se num eremitismo monacal mesmo no seio de uma comunidade religiosa. Por esse modo de vida muito austero a ordem nunca foi popular: em 1521 existiam apenas 195 mosteiros cartuxos; em Portugal duas casas (Évora e Caxias, próximo de Lisboa) (LOYN, 1990, 76-77). No século XIV o mosteiro cartuxo de Vauvert se encontrava nas proximidades de Paris, hoje palácio e parque de Luxemburgo. Por sua vez, Vauvert era um dos três depósitos de livros criados por Llull em vida, com o objetivo de transmitir sua obra às futuras gerações (os outros depósitos eram em Gênova, financiado pelo patrício Perseval Spínola, e em Palma de Maiorca, com o apoio financeiro de seu genro). Estes três depósitos de livros determinaram a futura tradição manuscrita luliana: uma linha francesa, uma italiana e uma catalã (DOMÍNGUEZ REBOIRAS, 1998). A obra, intitulada Vita coaetania, é a base autobiográfica de que se valem os historiadores para precisar sua biografia. Embora seja muito fragmentária, e em certa medida uma justificação de sua vida e obra para ser apresentada no Concílio de Vienne, no Delphinado (DOMÍNGUEZ REBOIRAS, 1987), nos valeremos principalmente dela para este brevíssimo resumo sobre sua vida, além de passagens autobiográficas em outras obras suas. Para uma figura medieval como Llull, a Vita coaetania nos proporciona detalhes importantes. Pouquíssimos personagens medievais possuem uma biografia em que se pode construir com relativa precisão a história de uma vida. Além disso, os especialistas lulianos são unânimes em afirmar que o pensamento de Ramon possui certas peculiaridades que só são possíveis de “compreender compreensivamente” (BONNER, 1989) se levarmos em conta as circunstâncias biográficas do maiorquino, situando-o dentro do ambiente espiritual da época (CARRERAS Y ARTAU, 1939, 235). Existem duas versões da Vita coaetania, uma em latim e outra em catalão. A primeira é considerada mais autêntica, a segunda possui detalhes adicionais e provavelmente foi traduzida do latim no século XIV. Utilizaremos passagens de nossa tradução (da versão catalã, cotejada com uma tradução da latina). Ramon Llull nasceu entre os anos 1232-1235 na cidade de Maiorca. Seu pai, nobre, participou da conquista da ilha de Maiorca (no arquipélago das Baleares, no Mediterrâneo) aos muçulmanos, em 1229, pelo rei Jaime I, o Conquistador (1213-1276), de Aragão (REILLY, s/d). Por esse motivo, foi recompensado com propriedades na ilha — já por volta de 1232 sua família possuía cerca de 159 hectares (SOTO I COMPANY, 1985). Assim, Llull passou sua infância e juventude em torno da corte real. Sua educação foi direcionada para a carreira das armas (LLINARÈS, 1987, 60), fato que influenciou consideravelmente sua produção posterior (CARRERAS Y ARTAU, 1968, 72), imprimindo ao seu estilo um tom elegante e gracioso, por vezes cerimonioso (CARRERAS Y ARTAU, 1939, 264). Segundo Llull nos conta, sua vida era fútil e frívola. Vivia da “...arte de trovar e compor canções e ditados das loucuras deste mundo”:
Antes de 1257, casou-se com Blanca Picany, tendo dois filhos, Domingos e Madalena. Mas após sua conversão, sua opinião sobre este período de sua vida foi sempre a mesma: “...apesar da ajuda que recebi dos anjos e das pregações dos religiosos (...) cheguei a ser o pior homem e o maior pecador de toda esta cidade e de todas as demais encontradas.:
Por esse motivo, dedica tão pouco espaço a esta parte de sua vida na biografia que ditou aos monges de Vauvert. Mais ou menos nesta mesma época, foi nomeado administrador da casa real do futuro Jaime II de Maiorca (as datas sugeridas para essa nomeação são 1256 e 1262). Por volta de 1265, aos trinta anos de idade aproximadamente, Llull compunha uma canção para uma dama “...a quem nesse momento amava com um amor vil e feiticeiro...” (“...per una sua enamorada, la qual lavors d’amor vil e fada amava...” — Vida Coetânia, 2), quando teve a visão de Jesus crucificado. Durante dias a aparição se repetiu e, na quinta vez, Llull aceitou a conversão e convenceu-se que Deus queria que mudasse de vida:
A conversão veio acompanhada de três desejos: 1) dedicar sua vida ao serviço de Deus, convertendo os infiéis ao catolicismo, 2) criar escolas onde se estudasse as línguas dos infiéis e 3) preparar-se para o martírio. Para estas finalidades seria necessário, por inspiração divinal, compor um livro, “o melhor livro do mundo, contra os erros dos infiéis” (VERVM dum ipse mente lugubri hoc deuolueret, ecce — nesciebat ipse quomodo, sed scit Deus, — intrauit cor eius uehemens ac implens quoddam dictament mentis, quod ipse facturus esset postea unum librum, meliorem de mundo, contra errores infidelium — ROL, tom. VIII, 1980, 275). Cito a versão latina porque exatamente nesta passagem o copista e tradutor catalão alterou o conteúdo, colocando no plural (“...doravante ele faria livros, uns bons e outros melhores, sucessivamente, contra os erros dos infiéis” - Vida Coetânia, 6). Dedicou-se então durante nove anos (1265-1274) a aprender a língua árabe com um escravo - que mais tarde tentou matá-lo (Vida Coetânia, 11-13), e estudar latim, filosofia (cristã, árabe e judaica) e teologia, e buscar uma síntese com a escolástica do século XIII. Além disso, vendeu seus bens, deixando apenas o suficiente para o provento de sua mulher e filhos e partiu em peregrinação a diversos lugares sagrados na Península Ibérica (Igreja de São Jaime, Igreja de Nossa Senhora de Rocamador) para rogar ao Senhor que lhe iluminasse naqueles três propósitos. Transformou-se então num missionário laico, embora seu pensamento seja fortemente vinculado à espiritualidade franciscana. Ao contrário do que se costuma pensar, não existe nenhuma prova documental que Llull tenha aderido a qualquer ordem religiosa. Durante um período de sua vida esteve propenso a ingressar numa ordem, franciscana ou dominicana, mas foi dissuadido (Vida Coetânia, 21-23). Na verdade, Llull foi um pensador leigo e a iconografia posterior o franciscanizou. Dedicou-se então à reflexão filosófica dirigida a cristãos, judeus e muçulmanos em viagens a Chipre, Túnis, Armênia e Sicília. Percorreu também diversas universidades na Europa (Paris, Nápoles, Roma, Bolonha, Montpellier e Barcelona) (SARANYANA). Seus esforços resultaram na fundação de um colégio em Miramar, em 1276 (Vida Coetânia, 17), onde os missionários cristãos podiam estudar a língua árabe, que, no entanto, teve curta existência (PONTES, 1979, 261-277). Após estes nove anos de estudo com o escravo muçulmano, aos quarenta anos aproximadamente (por volta de 1274), Llull retirou-se para um monte de nome Randa, em suas propriedades em Maiorca, para se dedicar à contemplação:
Para Llull, a inspiração criadora tem sua fonte no contato direto com Deus. Seu misticismo não exclui o caminho da busca racional (como para São Bernardo de Clairvaux, 1090-1154) (LECLERQ, 1984, XI-LXIV); o maiorquino coloca o que chama de ilustração (illustració) como a fonte divina que o homem recebe de Deus para o entendimento racional das coisas. A partir desse momento (1274), com quarenta anos aproximadamente, Llull passou a compor seus livros (cerca de 280 obras chegaram até os dias de hoje), compondo incessantemente e divulgando sua Arte nas universidades, entre papas e reis, além de pregar a fé cristã no norte da África muçulmana. Llull viveu mais de oitenta anos. Foi uma figura complexa e multifacetada, pois embora tenha escrito incessantemente, não possuía formação universitária; viveu como um secular, mas esteve sempre ligado às ordens mendicantes (dominicanos e especialmente franciscanos). Faleceu provavelmente no início de 1316. Sua autópsia indicou que ele tinha cerca de 1,61 cm de altura, 57 kg e, ao morrer, cerca de 83 anos (NADAL MONCADAS, 1987). Embora tenha pertencido a uma cultura hoje em dia considerada minoritária, desenvolveu um sistema de pensamento universalista. No prólogo da obra Disputatio Petri clerici et Raymundi phantastici, seu Phantasticus, já com cerca de oitenta anos, Ramon resumiu sua vida em belas palavras:
Assim, devemos ter em conta as circunstâncias históricas de sua produção, isto é, com a perspectiva compreensiva do século XIII (BONNER: OS, vol. I, 03-04), para podermos brevemente analisar o Libro del Orden de Caballería. * Ramon Llull foi um escritor prolífico. Sobreviveram quase trezentas de suas obras; poesia, misticismo, filosofia e teologia. Boa parte de seus escritos do final de sua vida inserem-se dentro da perspectiva da ideologia cruzadística cristã (Liber de fine, 1305 e Liber de acquisitione terrae sanctae, 1309) e suas conexões com o maravilhoso (Libre des meravelles — ca. 1288) (LE GOFF, 1994, 56). No entanto, a filosofia luliana num todo é realista, não-aristotélica (por esse motivo aproveitada no Renascimento) e progressista — por exemplo, Llull foi um pioneiro na tentativa de organizar um sistema de arbitragem nas discussões internacionais (JAULENT, Esteve. Entrevista concedida em 18.01.1998). De acordo com o desenvolvimento de sua Arte, a produção de Ramon Llull é dividida em quatro etapas: 1) Fase pré-artística (1271-1274) 3) Fase ternária (1290-1308) e 4) Fase pós-artística (1308-1315). As duas últimas fases são as mais produtivas. É importante frisar que a Arte luliana é um sistema de pensamento aplicável a qualquer tema ou problema específico, uma tentativa de unificar todo o pensamento da cultura medieval e um instrumento para investigar a verdade das criaturas tendo como pressuposto apriorístico a verdade de Deus, Arte assim criada com o objetivo de converter os infiéis (PRING-MILL, 1962, 31-32). Ela era, mais que uma doutrina, uma técnica, um sistema, um modo de exposição técnico de uma ciência (BONNER, OS, vol. I, 64). É também a maneira pela qual Ramon enfoca a filosofia ou a teologia: ele quase não discute um conceito isoladamente (como faziam os contemporâneos Tomás de Aquino e o franciscano Duns Scotus – c. 1265-1308). Em lugar disso, Llull apresenta um grupo de conceitos, onde o que interessa é o lugar que eles ocupam e a sua relação com os outros conceitos limítrofes (BONNER, OS, vol. I, 64). Por fim, a aplicação da Arte luliana possuía cinco usos segundo seu criador: 1-) Conhecer e amar a Deus (Amar a Deus era um preceito cristão [Mc 12,30 e Lc 10, 27]. Porém, amar e conhecer a Deus era uma característica da teologia muçulmana (GAYÀ ESTELRICH, 1974, vol. XVIII, 47-51). 2-) Unir-se às virtudes e odiar os vícios (processo que refreia as paixões com a virtude da temperança) 3-) Confrontar as opiniões errôneas dos infiéis por meio das razões convincentes (ou necessárias) 4-) Formular e resolver questões e 5-) Poder adquirir outras ciências em um breve espaço de tempo e tirar as conclusões necessárias segundo as exigências da matéria (o que fazia da Arte uma ciência das ciências, proporcionando o critério para um ordenamento preciso e racional de todo o conhecimento) (ROSSI, 1960, 44-45 e BONNER, OS, vol. I, 69-71). Por outro lado, podemos dividir seu pensamento na questão da cruzada em basicamente duas fases. Na primeira, que compreende quase toda sua vida, Llull defendia a evangelização dos infiéis através do amor e do diálogo. Uma realização da inteligência a partir dos homens cultos de outras religiões. A partir do século XIV, no fim de sua vida, o fracasso do esforço missionário pacífico levou-o a defender o uso da força (RAMON LLULL, Livro do Amigo e do Amado, 30). Esta perspectiva se insere no quadro histórico ibérico da época, de expansão e conquista militar cristã, fase final da Reconquista. Logo, possui um espírito de cruzada ibérica (tardio em relação ao resto da Europa), expansão ultramarina (idéia que precede em quase um século as navegações portuguesas) e sentido civilizacional cristão (que permeia toda sua obra). No tratado Liber de fine (1305), preocupado com possíveis fracassos militares na dispersão das forças cruzadas em várias frentes de batalha, propôs que a cristandade concentrasse seus efetivos na expulsão dos mouros de Granada e num bloqueio econômico e militar ao Egito. No Liber de acquisitione terrae sanctae (1309) retornou à pregação da cruzada, considerando a viabilidade da tomada de Constantinopla simultaneamente a uma operação contra Granada (HOUSLEY, 1995, 29). Em sua estratégia cruzadística, o papel desempenhado pelas ordens militares era fundamental. A grande questão de seu tempo a respeito das ordens foi a supressão do Templo decidida por Clemente V, e o destino dos bens templários espalhados por toda Europa. Llull sugeriu ao papa a fusão das ordens numa só, a exemplo de Pedro Dubois (c. 1250 - c. 1320), jurista e escritor político francês, um eminente panfletista político (seu mais famoso tratado foi De Recuperatione Terre Sanctae [c. 1306], onde expressa a tese da coroa francesa como líder européia para as questões de paz interna e externa. Ver LOYN, op. cit., 122). Na idéia de um controle maior sobre as ordens, também pensou numa espécie de “independência restrita” no mediterrâneo leste, área de maior atrito entre templários e hospitalários, principalmente (FOREY, 1995, 212). De qualquer forma, para Ramón Llull o papel dos monges guerreiros era o de protagonista do teatro da guerra cruzada na Península. Os atributos considerados por Llull essenciais para a consecução da cruzada eram a caridade (caritas) e o poder (potestas) (HOUSLEY, 1995, 261), ambos intrinsecamente ligados à ideologia cruzadística monástico-militar (“Que contradição há entre o amor e a força? Nenhuma. Deus é amor e é todo o poder. Isto está claro em Llull, que considera o poder e o amor dois atributos conversíveis à essência humana” — JAULENT, Esteve. Entrevista concedida em 30.03.1998). Sua obra teve grande repercussão até meados do século XVIII, e o lulismo penetrou também em Portugal, juntamente com outras correntes filosóficas, como o averroísmo e o escotismo (MARQUES, 1987, 427-428). Registramos algumas obras de Llull na biblioteca alcobacense, em letra gótica miúda do século XV, além de referências no Leal Conselheiro de D. Duarte. “Além disso, Gil Vicente está profundamente impregnado pela teoria luliana das dignidades. O seu mais importante vestígio é, porém, constituído por uma obra de apologética e polémica antimuçulmana e antijudaica do século XV: a Corte Imperial.” (SARAIVA, 1988, 140). Todavia, não teve o mesmo eco entre os filósofos: a respeito de Llull, Leibniz (1646-1716) disse que sua maior obra, a Ars magna, “é apenas uma sombra da verdadeira arte combinatória…” (REALE, 1990, 663). O Libro del Orden de Caballería e o simbolismo das armas do cavaleiro: a espada e o escudo Parte integrante da primeira fase literária de Ramón Llull, o Libro del Orden de Caballería é, antes de tudo, uma obra com propósitos artísticos, isto é, uma aplicação prática de sua Arte. Apologética e doutrinária, seu conteúdo é de forte tendência missional. Para este artigo editado para a Internet, utilizaremos nossa própria tradução. O livro pretende ocupar um espaço vazio na formação dos novos pretendentes à qualquer ordem de cavalaria, tentando dar a estes noviços um caminho que os ilumine numa série de preceitos e valores espirituais, morais e éticos. Aproximando-se da arte da astronomia, Llull divide sua obra em sete partes, Por significação dos VII planetas, que são corpos celestiais e governam e ordenam os corpos terrenais, dividimos este Livro de cavalaria em VII partes, para demonstrar que os cavaleiros tem honra e senhorio sobre o povo para o ordenar e defender (Livro da Ordem de Cavalaria). Para explicar o surgimento e o propósito da obra, Llull fez um pequeno prólogo, no qual conta uma história. Nela, um velho cavaleiro escolheu a vida eremita da floresta e um dia encontrou um escudeiro desejoso de ser feito cavaleiro. Este viajava para cortes reunidas por um grande rei. Eles então conversaram, maravilhados um com o outro:
Quando o escudeiro disse não conhecer as regras da cavalaria, o velho eremita repreendeu-o e deu-lhe um livro escrito para restaurar a honra, a lealdade e a ordem que o cavaleiro deveria ter. O jovem, agradecido, disse:
Quando chegou à corte do prestigioso rei, o escudeiro presenteou-o com o livro dado pelo eremita, para que todos pudessem lê-lo com freqüência e tivessem sempre presente em suas almas os ideais da cavalaria. O Libro del Orden de Caballería Capítulos:
Neste Prólogo encontramos os propósitos da obra. Como a cavalaria e o povo cristão se perderam, cabe à Igreja trazer seu rebanho de volta, iluminando o caminho com os beatos letrados como Llull. O autor chega a enumerar os pecados nos quais a cristandade caiu:
Os pecados do povo cristão são expiados com a praga de Deus. Se não, como explicar a permanência do Islã por tanto tempo na Península? A obra possui, portanto, um sentimento de nostalgia de tempos gloriosos. Para trazer esse tempo de volta, segundo Llull, seria necessário fazer-se o soerguimento da instituição da cavalaria. Quais seriam os sentimentos que preencheriam este retorno? Primeiro, a volta da justiça através do temor. Com ele, o cavaleiro exerceria sua autoridade, para que fosse amado e temido pelas gentes e com isso, desse verdade e justiça.
Para que exercesse a justiça, o cavaleiro deveria possuir sete virtudes que o destacassem dentre os demais: 1-) amabilidade Estas qualidades mostram a visão do clérigo catalão acerca da cavalaria. Roubo, destruição, violência contra pobres, estupro de viúvas, tudo isso está presente nas críticas de Ramon Llull. O quadro é absolutamente decadente: cavaleiros que cometiam perjúrio, luxúria — o vício mais abominável —, ladrões e traidores de sua causa, reis e príncipes malvados:
Na verdade, para Llull, as duas maiores missões do cavaleiro são: pacificar os homens (leia-se cristãos), manter e defender o cristianismo, vencendo os infiéis que a cada dia pugnam em destruir a Santa Igreja:
Portanto, sua perspectiva é cruzadística, expansionista e guerreira. A cavalaria deveria estar a serviço da fé cristã, para se impor perante o Islã. Para isso, o cavaleiro deveria estar imbuído dos mais nobres ideais, pois esta era uma missão divina, e só os puros de coração deveriam ter acesso a ela. Assim, para que a cavalaria tivesse a elite dos homens, de onde ela deveria tirar seus combatentes? Ramon Llull é bastante claro: entre os nobres. O autor chega a propor uma hierarquia idealizada para a cristandade: A hierarquia social luliana
Na primeira linha, e acima de todos, o imperador. Este título povoou o imaginário nobiliárquico ibérico praticamente desde que Afonso X, o Sábio, de Leão e Castela, pleiteou-o para si (Sacro Império Romano Germânico), nos anos 1256-1275, sem sucesso (LOYN, 1990, 06). Colocando o imperador acima dos reis, Llull estabelece para toda a cristandade européia uma conexão com o distante passado de Carlos Magno (742-814), paradigma e mito do monarca guerreiro, unificador. Mais uma vez, a glória de tempos idos é idealizada como um lugar-em-si cavaleiresco. Para auxiliar o imperador luliano, que o ajudassem reis-cavaleiros a manter a ordem de cavalaria, base de seu poder. Esta é uma concepção tipicamente feudal de divisão administrativa-governamental. Abaixo do imperador e dos reis, todo o corpo da nobreza, auxiliado por seus cavaleiros e diversas ordens de cavalaria. Provavelmente pela ascensão das camadas não nobres da população ibérica aos postos da cavalaria (em Portugal, os chamados cavaleiros-vilãos), Ramon Llull afirma ser necessário converter todos os cavaleiros em senhores de gentes (nobres), que devem trabalhar (arar, limar e cavar a terra) para que o cavaleiro possa guardar os caminhos, defender os lavradores e “reger as gentes”:
O autor limita o número de cavaleiros e afirma que os pretendentes devem ser ricos, para poderem possuir todo o armamento necessário ao seu ofício. Isto fica ainda mais claro quando da festa que acontece após a sagração do cavaleiro: o nobre que irá armar o cavaleiro noviço deve dar presentes aos convidados, e o novo cavaleiro também:
Na concepção cavaleiresca luliana, estas obrigações materiais restringem consideravelmente os nobres que desejam ingressar na cavalaria, tornando-a quase que um corpo de elite. A Igreja deve cercar a cavalaria com seus ideais para que não se perca nos pecados mundanos. Isto está bem claro quando Llull afirma que a maior amizade existente deve se dar entre clérigos e cavaleiros:
Isso é um forte elo de ligação entre a filosofia luliana e a concepção das ordens militares da guerra como missão. Na filosofia luliana, o monge guerreiro pode ser visto como um trio unitário, que abrange os três ideais em uma só pessoa - a consolidação do ideal cristão das três ordens como representante dos desígnios da Providência, foi anunciada numa declaração, em 1335, de Filipe Vitry, secretário de Filipe VI de Valois: “...o povo, para melhor evitar os males que vê aproximarem-se, fez de si a terceira parte. Uma fez-se para rezar a Deus; para comerciar e trabalhar fez-se a segunda; e depois, para proteger ambas de prejuízos e vilanias, foram postos no mundo os cavaleiros.” (FOURQUIN, 1987, 220). O monge cavaleiro reza, trabalha em seus senhorios e combate o inimigo de sua fé. Assim, a trifuncionalidade é projetada idealmente nas instituições monástico-militares, transportando a simbologia católica do número três (Pai, Filho e Espírito Santo — começo, meio e fim), e compactando o triângulo para harmonizar a irracionalidade do mundo carnal — os que rezam, os que combatem e os que trabalham — como um microcosmo da sociedade feudal em forma de combate ao infiel: “Triângulo: uma base, um vértice e, sobretudo, essa ternaridade que, misteriosamente, procura o sentido de equilíbrio (...) o importante é determinar, entre o emaranhado, entre a desordem do universo sublunar, quais os eixos de uma construção harmoniosa e racional que pareça corresponder aos desígnios do Criador.” (DUBY, 1982, 13). Este é um ponto crucial para se entender a concepção cruzadística e sua difusão na Península realizada pelas ordens militares. O cerimonial antecedente à sagração do noviço é outro ponto que une as duas instituições. A confissão e a data para a entronização (qualquer festa honrada do ano cristão) do cavaleiro indicam que se trata de uma cerimônia de ordem religiosa. O jejum em honra do santo do dia, a observância de não participar da festa em si (o cavaleiro não deve ouvir jograis, considerados transmissores do pecado), são sinais do sagrado totalmente inserido neste universo bélico:
As ordens militares seriam a perfeita conjugação desta concepção guerreira-cristã. O ideal cavaleiresco luliano, que une Igreja e Cavalaria num só corpo, também estava claro na concepção litúrgica que envolve o noviço. Após a missa solene, este deveria então estar em afinidade com catorze artigos proferidos pelo padre num sermão que fundamenta a fé que o cavaleiro levaria consigo para os campos de batalha. Divididos em dois grupos (sete artigos para a deidade e sete para a humanidade que Jesus tomou em Nossa Senhora), são eles: Artigos para a Deidade:
Artigos para a Humanidade:
Com os dez mandamentos e os sete sacramentos da Igreja, todos eles jurados pelo cavaleiro na missa solene da sagração, a Igreja reveste o cerimonial militar de uma auréola sagrada indissolúvel. O ideal cavaleiresco luliano — quase sempre quebrado na prática — tinha assim um propósito firme de entrelaçar a filosofia da Igreja com a prática guerreira das ordens de cavalaria. Tal meta visava, como vimos, ao restabelecimento de um passado mítico glorioso, ligado diretamente aos maiores reis guerreiros “alargadores do espaço cristão” (FRANCO JR., 1990, 155). Para nossa perspectiva da mentalidade de cruzada presente na cavalaria ibérica, os artigos do Libro de Ramon Llull que mais nos interessam dizem respeito ao significado das armas do cavaleiro. Portanto, descreveremos e analisaremos sua simbologia ligada às armas. Consideramos este o melhor exemplo da mentalidade cruzadística inserida no pensamento do autor catalão, que à sua época traduzia a ortodoxia da Igreja neste terreno filosófico. A corrente mais conservadora liga-se diretamente à concepção belicista e dicotômica das ordens militares, entendidas como o braço armado da Igreja. Como nos outros artigos lulianos, o elo de ligação que estabelece a simbologia das armas procede da relação direta entre clérigos e cavaleiros. Ramon Llull trata de dezoito objetos materiais que nas mãos do cavaleiro cristão se tornam símbolos da cruzada contra o inimigo. São eles, em ordem: Simbologia cristã-cruzada luliana das armas do cavaleiro Espada = Feita à semelhança da cruz,
para manter a justiça e a cavalaria Esta lista idealizada pelo autor inclui uma série de acessórios que até meados do século XIV eram inacessíveis economicamente para boa parte dos cavaleiros nobres portugueses (por exemplo as calças de ferro e a proteção para o cavalo), mais pobres do que seus colegas armados de além-Pireneus (MARQUES, 1980, 99-107). Conjeturamos, portanto, que sua preocupação foi a de acrescentar todo o conjunto de armas já inventado até então, independentemente de sua acessibilidade material. De nosso especial interesse é o grupo de armas que mais significado tiveram para a cavalaria portuguesa: a espada e o escudo. Desde a segunda metade do século XI, a função guerreira era atributo e fundamento da realeza peninsular. Ao falarem da nobreza real, os cronistas ressaltavam sua strenuitas (valentia, sucessos guerreiros) (MATTOSO, 1987, 219). Especificamente no caso português, a espada e o escudo revestiram-se da mesma importância que a coroa em outras regiões da Europa. * A espada é o símbolo da força e do sol (HEINZ-MOHR, 1994, 148). Na tradição cristã, representa o momento da decisão. Quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, Deus colocou em sua entrada querubins com uma espada flamejante: “Ele baniu o homem e colocou, diante do jardim do Éden, os querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida.” (Gn, 3, 24). No ideal cavaleiresco luliano, ela é o símbolo da luta contra os inimigos da cruz. Neste imaginário, ela é forjada à semelhança da cruz, e significa que
A concepção simbólica luliana da espada, como um paradigma da luta contra as forças inimigas da cruz, apóia-se numa antiga tradição medieval que remonta à La Chanson de Roland. Nele, um anjo do Senhor presenteia Carlos Magno com uma espada. O rei então a entrega a Rolando, para combater os muçulmanos. Portanto, o cavaleiro portava um símbolo cruzado de força e decisão. A imagem da cruz estava dimensionada na forma da espada. Segundo os próprios cruzados, ela é um fragmento da Cruz de Luz (CHEVALIER, 1995, 392). Para Ramon Llull seu duplo fio corresponde à justiça e à cavalaria:
No caso real ibérico, estas duas concepções estão bem definidas. Na realeza ibérica, a espada real representa a justiça régia (Iustitia Regis) e o Propugnator Ecclesiae, a missão de proteger a Igreja e a humanidade — leia-se cristandade — ameaçada pelas forças do mal — leia-se islamismo. Além da justiça e pugna, a espada real ainda tem a missão da paz, na filosofia luliana também uma missão do cavaleiro (SORIA, 1993, 188). Em Portugal, a espada revestiu-se de um caráter mágico e simbólico enquanto insígnia régia desde Afonso Henriques. Isto indica que a monarquia borgonhesa recebeu o direito real através da “guerra contra os inimigos da fé” (MATTOSO, 1987, 226). Fica claro que a espada na Península teve papel fundamental no imaginário cavaleiresco e real, como símbolo da Reconquista, sinal de que seu portador era dotado de um conceito de missão divina. O escudo possui caráter distinto da espada (não analisaremos os aspectos honoríficos do escudo medieval, o brasão e as normas da heráldica). Ele é colocado entre o cavaleiro e seu inimigo, entre o rei e seu povo:
Sua utilização como símbolo de proteção e defesa é atributo sobretudo dos santos soldados, por exemplo, S. Adriano, S. Floriano, S. Jorge, S. Longino e S. Teodoro (HEINZ-MOHR, 1994, 147). Neste aspecto, associa-se ao passivo, defensivo, protetor, embora também mortal. Numa perspectiva universal, o escudo é uma representação do universo; o guerreiro portador dele opõe forças cósmicas ao adversário (CHEVALIER, 1995, 387). Este sentido não deixa de ser um complemento da idéia de cruzada, que é em si dicotômica. A tradição cristã pauliniana associa o escudo à própria fé; ele deve ser usado contra as tentações da heresia (outra associação com a cruzada). “A fé (escudo) extinguirá os dardos inflamados do Maligno” (CHEVALIER, 1995, 388). Em contrapartida, a cultura medieval européia igualmente associou o escudo às forças maléficas. Em La Chanson de Roland, um anjo do Senhor presenteia Carlos Magno com uma espada; em contrapartida, um demônio dá ao emir muçulmano um escudo ornado de pedras preciosas (FRANCO JR., 1996, 169). Também na realeza ibérica, o escudo possui valor semântico diferente da espada, representa o monarca em sua dimensão mais humana, contrapondo a figura real à instituição monárquica, simbolizada pelos pendões. O escudo tem reduzida utilização cerimonial, e em Castela está presente nas exéquias reais, como manifestação do rei-morto, passageiro e transitório (SORIA, 1993, 191). Em Portugal, o escudo real identifica-se com os feitos guerreiros e a glória do combate, além de possuir origem divina (MATTOSO, 1987, 226). Desde a década de 1190, o uso das armas régias esteve presente nos sinais de validação (selos e moedas). Os motivos que ilustram a representação do escudo português (Cinco escudetes azuis em cruz em fundo branco, cada um carregados de cinco besantes brancos, e circundados por sete castelos em fundo vermelho). Provavelmente sugerem motivos militares, tais como a formação do exército e a participação dos chefes e cavaleiros, “ao mesmo tempo que apontavam o motivo religioso impulsionador da luta contra os Mouros” (MATTOSO, 1986, vol. II, 200). A importância do escudo em Portugal remonta também ao primeiro rei, Afonso Henriques. Seu epitáfio (hoje desaparecido) dizia que “Quod crucis hic tutor fuerit, necnon cruce tutus. Ipsi clipeo crux clipeata docet. (bem mostra que foi defensor da cruz de Cristo defendida por ele o seu escudo real, no qual se vê a mesma cruz repartida em escudos menores — ML, III, f. 267)” (MATTOSO, 1987, 219). Como em Castela, também em Portugal encontramos vestígios da associação entre o escudo e a manifestação de luto. Além disso, existe a hipótese de a veneração ao escudo de Afonso Henriques estar ligada a uma cerimônia de aclamação, “de pé sobre o pavês, levantado aos ombros de seus homens.” (MATTOSO, 1987, 219). Através da obra Libro del Orden de Caballería, procuramos estabelecer os vínculos mentais existentes entre o modelo cruzadístico propagado pelas ordens militares e a simbologia cavaleiresca contida na obra de Ramon Llull. O imaginário cavaleiresco descrito no ritual iniciático do noviço pretendente e na sociedade idealizada por Llull moldaram as articulações mentais entre mundo real e imaginário. Ajudaram a definir mais claramente as relações sociais medievais peninsulares, isto é, como e por que as “gentes” submetiam-se a uma ordem militar cavaleiresca preestabelecida. Portanto, fazem parte da ideologia cavaleiresca e cruzada difundida na Península pelas ordens militares e apoiada por Ramon Llull no final de sua vida. * Fontes Bibliografia citada
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