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JOSÉ ANTÔNIO DE CAMARGO RODRIGUES DE SOUZA. O Pensamento Social de Santo Antônio. Dissertação de Doutoramento apresentado à Universidade Nova de Lisboa, Abril de 2001. José Antônio de Camargo Rodrigues de Souza concluiu as suas provas de doutoramento em Filosofia (especialidade História da Filosofia e da Cultura Portuguesa), pela Universidade Nova de Lisboa, em 26 de Abril de 2001, tendo sido aprovado com a classificação máxima, nos termos usados nas Universidades portuguesas (Muito Bom, com Distinção e Louvor). São 380 páginas distribuídas por 5 Capítulos, Introdução, Considerações Finais e Bibliografia: I Cap. A obra Sermonária de Santo António e a
sua Formação Intelectual A obra literária de Santo António de Lisboa, Sermões, entrou na Universidade Portuguesa (Faculdade de Letras de Lisboa), com honras de doutoramento, em Filosofia, na década de 60, pelas mãos de Francisco da Gama Caeiro. Assim culminavam, em pólo cientificamente prestigiado, os estudos que iam desenhando, sobretudo em Itália, a figura intelectual do Santo português. Essa obra regressa à Universidade portuguesa, agora em outra instituição (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa), pela mão de um professor universitário brasileiro, José Antônio de Camargo Rodrigues de Souza. Tal como se continua a discutir a natureza da Filosofia, assim também, e por conseqüência, se polemiza sobre se este ou aquele texto deve ou não ser incluído na biblioteca filosófica. A via apriorística pouco mais adianta do que perpetuar a controvérsia, representando caminho mais fecundo mostrar o valor e a natureza das obras, deixando aos leitores a colagem das etiquetas. Enquanto a obra de Francisco da Gama Caeiro (Santo António de Lisboa, 2 vols, 2ª ed. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1995) aborda a especulação antoniana, pelo horizonte da ética, J. A.C. R. Souza faz a sua leitura pelas malhas sociais. Trata-se de duas categorias filosóficas importantes, o ética e o social, que ora se tocam, ora se subordinam reciprocamente. Nos dois casos presentes, o que se pretende é abrir o horizonte da Filosofia antoniana, pelo percurso do ético e do social. Em termos históricos, o social tem sido menos explorado do que o ético. Desde já se começa a vislumbrar a vantagem de ele constituir a opção de J. A. C. R. Souza. Aliás, tal escolha obedeceu à idéia de que a perspectiva do social poderia desfrutar de maior capacidade de universalização epistemológica do que a do ético. Por outro lado, o autor, já doutorado em História Social pela USP em 1980, com a tese A Contribuição Filosófico-política de Guilherme de Ockham ao conceito de poder civil, estava em condições ímpares para desenvolver a investigação de tal âmbito, fundamentalmente ainda inédito. O social, talvez inesperadamente, para muitos, é escada mais adequada para nos aproximar da obra antoniana, a sermonária, do que a ética, já que, nas acções pastorais, o conhecimento da natureza do destinatário da mensagem é referência essencial. À complexidade da sociedade medieval têm correspondido abundantes e profundos estudos, mas estes são quase sempre conduzidos pela metodologia da análise social, sem atingirem os pressupostos teóricos, muitas vezes de nível metafísico, dos fenômenos sociais. Por outro lado, esse lastro metafísico, que une todos os outros aspectos, ainda o religioso, é geralmente omitido, devido sobretudo a distinções e especializações que artificializam e deformam a complexa vida da realidade social. J. A. C. R. Souza penetra na sociedade a que se dirigia a pregação de Santo António, encarando-a nessa inconsútil unidade de vida, em que o factor religioso, sendo decisivo, é apenas um elemento, entre outros, logrando vantagem não ser deles dissociado. Atinge valor exemplar a comunidade franciscana, a que António Martins assumidamente aderiu, tornando-se ela entidade privilegiada para seguir os cruzamentos, as tendências e a evolução da sociedade medieval. A Ordem Franciscana aglutina, por um lado, os novos valores da sua época, designadamente os de uma progressiva laicidade, mas, por outro, compensa, até pela determinação agostiniana, desde cedo aí presente, precisamente pela mão de António de Lisboa, o declive da tentação de imanência, em que as dimensões religiosas, sobrenaturais e hierárquicas corriam sério risco de se diluírem. Neste processo, constituem torrentes impetuosas, ora subterrâneas ora visíveis, os esquemas metafísicos neoplatônicos e os movimentos neomaniqueístas dos cátaros e albigenses. Estas comunidades, nelas também presentes os cristãos, cultivavam uma ansiosa exigência de perfeição, onde não faltava o ideal de uma pobreza estrita, mas num registro oposto ao dos valores evangélicos, onde a graça é fonte de insubstituível inspiração. É neste contexto – daí a vantagem da incidência social – que se situa a mensagem ética antoniana que, abraçando o tradicional esquema das virtudes – cardeais – e dos vícios, mostra, evangélica e agostinianamente, a insuficiência dele, apelando para o sobrenatural, desenvolvendo as virtudes teologais. Assim se compreende também a veemência do martelo verbal de Santo António, atingindo todos os cristãos, com particular ênfase, para não dizer violência, os responsáveis das diversas comunidades cristãs, explicitamente os clérigos, bem como os leigos. A severidade para com aqueles, sobretudo no que respeita à denúncia de alguns vícios, era tanto mais necessária quanto se conhece o rigor da vida dos grupos neomaniqueístas. Este estudo de J. A. C. R. Souza vale pelos resultados atingidos, mas também pelas pistas indiciadas, pressagiando uma investigação inesgotável. Assim se vai enriquecendo o perfil do Santo de todo o Mundo, que bem merece a vivificação de traços a que a fervorosa piedade tradicional, portuguesa e brasileira, não foi suficientemente sensível. Joaquim Cerqueira Gonçalves OFM, Prof. Catedrático de Filosofia Medieval da Universidade de Lisboa.
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