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Os sábios acumulam ciência,
enquanto a boca do estulto está próxima da ruína Ricardo da
Costa (Ufes)
* O ideal mesmo de minha parte seria o silêncio, pois o homem prudente não fala ao ouvido do insensato, principalmente se for um viking de toga. Ademais, não se deve responder ao insensato conforme sua estultícia. Contudo, desde Sócrates, o papel do professor não é só transmitir conhecimento, mas domesticar, cultivar o espírito. Nesse sentido, silenciar face à defesa pública da imbecilidade é prestar um imenso desserviço à educação. E, por isso, eu não posso me calar (e confesso que nunca poderia imaginar que seria obrigado a defender publicamente nossa soberana capacidade de juízo). Pois bem. Completamente despojado das citações de autoridades, o Prof. Langer se revela, se desnuda. E o que resta? Uma pessoa completamente atônita, que faz oito perguntas e não responde nenhuma – nem mesmo se a queima de hereges nas fogueiras da Inquisição foi uma coisa ruim. E o mais interessante é que seu texto tem o título de “Respostas ao Prof. Ricardo”! Mas avançamos um pouco: finalmente, e a muito custo, além de reconhecer que o argumento da autoridade é o mais fraco em um debate (e por isso o abandono das dezenas de citações), Langer concorda que, tanto na escolha do tema, quanto das fontes, da bibliografia e do método, o historiador julga. Ufa! Contudo, no momento mais importante, quando o historiador se faz presente, o da interpretação, Langer recua, e insiste uma vez mais na defesa da falta de juízo. Que falta de juízo, Johnni! Não há espaço nesse curioso debate para responder a todas aquelas angustiadas perguntas que o atônito Prof. Langer faz e não responde – apenas diz que é muito perigoso julgar. Embora ele não as faça diretamente a mim, seria muito interessante respondê-las. Mas registro: são perguntas capciosas, pois as respostas estão sub-repticiamente postas, pois ele induz seu ouvinte. Ater-me-ei uma vez mais ao tema do Julgamento em História nesse debate aberto pela Revista NECULT, já que Langer sequer contra-argumentou as idéias que apresentei, limitando-se, como disse, a fazer perguntas capciosas. O problema de sua argumentação reside na falta de conhecimentos filosóficos, ou seja, em sua falta de argumentação! Em uma seqüência textual inacreditavelmente confusa, Johnni confunde “ausência de juízo” com “neutralidade” (sic), “razão” com “forma de intelectualidade” (sic), e a única argumentação que tem para enaltecer a cultura viking é a qualidade nórdica na construção náutica. Caro Johnni, além dos sacrifícios humanos e a empalação infantil, foi essa a grande contribuição viking à civilização ocidental? Langer pergunta se é possível aplicar o “critério de Costa” (sic) a qualquer época – e, inacreditavelmente, coloca os macabros sacrifícios humanos entre aspas. É, eu já vi de tudo nessa vida. Bem, previno-os novamente, leitores de NECULT, do perigo de adotarem o criterius johnni (“julgar torna-se muito perigoso”), pois se não julgarem, tornar-se-ão estultos. Não. Não façam isso. Não abdiquem de nossa suprema capacidade. Analisem, compreendam e julguem. Comparem diferentes culturas de uma mesma época, seus distintos ritmos civilizacionais, onde e como cada cultura coetânea contribuiu efetivamente para a forja da civilização, da humanidade. Farei novamente o mesmo agora. Mas ao invés de um filósofo muçulmano (Al-Farabi, como fiz em meu direito de resposta) dessa vez seguirei a filosofia de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo católico não muito distante temporalmente dos vikings, mas a anos-luz de distância sapiencial. Tomás afirma que, no mundo, há um número infinito de estultos, conforme diz a própria Bíblia (“stultorum infinitus est numerus”), e de vários tipos (idiotas, asnos, imbecis, estúpidos, obtusos, etc.). Por exemplo, para Tomás o insipiente é como o jumento, pois ABDICA DA RAZÃO; o estúpido é aquele que, paralisado pelo estupor, não decide nada; o fátuo é quem NÃO TEM NENHUM JUÍZO, e pensa que é bom o que não é; os estultos por excelência SÃO OS CELTAS – e aqui ele concorda com Aristóteles (!); o imbecil é o que demora a compreender as coisas, além de outros (são mais de vinte tipos de burros). Não obstante, o estimado Prof. Jean Lauand (USP), autor desse fantástico artigo no qual me baseio (“Tolos e Tolices - o Besteirol na Análise de Tomás de Aquino”), está certíssimo: em outro texto seu, ele afirma que a educação brasileira está cheia de ostrogodos (LAUAND, 1998: 3). Acrescento eu: ostrogodos e vikings! E qual o remédio contra essa eterna e persistente
avalanche imbecilizante que insiste em sempre retornar ao mundo?
Do distante século XIII, Tomás de Aquino afirma que há
três obras de misericórdia para isso. Nós,
educadores, devemos: Como já faço a primeira delas (pois aturo um viking chatíssimo, ughz!), deixo o Johnni Langer para lá e dirijo-me a vocês, leitores de NECULT: não abdiquem da razão, julguem sempre, tudo – e bem. Só assim não serão estultos. E mais: busquem a Sabedoria, pois os néscios são sábios para fazer o mal e não sabem fazer o bem, e palavras calmas de sábios são mais ouvidas do que gritos de quem comanda insensatos. *
* Bibliografia e fontes citadas GOTTFRIED VON STRASSBURG. Tristán
e Isolda (edición de Victor Millet). Madrid: Ediciones Siruela,
2001.
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