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Ramon Llull (1232-1316)
Tradução: Profa. Dra. Adriana Zierer (Uema) Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) e Grupo de Pesquisas Medievais da UFES IV (Danielle Werneck Nunes e Kassandra Alvarenga) Da Primeira Parte deste
Livro e primeiramente
1. Da sua Primeira Espécie Perguntam se alma racional existe ou não. Desejo provar que alma racional existe por dez razões entre outras, das quais esta é a primeira: 1. Deus é objetivável pela criatura tão somente de três maneiras - à imagem da Santa Divina Trindade -, isto é, ao lembrar, entender e amar a Deus, pois não se pode ver nem tocar a Deus, por ser substância invisível e infinita, nem por nenhuma criatura Deus pode ser bonificado, eternizado, tornado poderoso, e assim das Suas outras Dignidades e Propriedades. E porque Deus é lembrável, criou uma criatura com a capacidade de lembrar; e porque Deus é inteligível, criou uma criatura intelectiva; e porque Deus é amado, criou uma criatura amorosa. E convém existirem estas três potências ativas criadas para que a memorabilidade, inteligibilidade e amabilidade de Deus não se frustrem, pois se frustrariam se não houvesse criado as três potências ativas que havemos dito, pois então fora de Sua Essência não haveria quem O objetivasse, isto é, nenhuma criatura (poderia fazê-lo). Portanto, as três potências ativas existem, e são as da alma racional, a existência da qual é assim provada pela necessidade delas, as quais são necessárias segundo o que provamos. E se alguém dissesse que os anjos já possuem aquelas três potências ativas acima ditas, e portanto não seria necessário que alma racional fosse criada, nós respondemos a isso dizendo que convém que a alma racional seja criada e tenha aquelas potências, para que elas sejam meio e instrumento pelos quais as criaturas corporais possam atingir seu fim em Deus e Nele repousar, uma vez que Deus as criou principalmente para Si mesmo, para que Seu fim seja mais nobre. E como a alma racional está em conjunção com o corpo humano, o qual participa de todas as criaturas, atingindo a alma seu fim em Deus - por lembrá-Lo, entendê-Lo e amá-Lo - o corpo também atinge sua finalidade em Deus também o corpo. E no corpo daquele homem que pela bem-aventurança atinge a sua finalidade em Deus, atingem seu fim em Deus as outras criaturas corporais por aquele corpo humano bem-aventurado e glorificado; assim também como os corpos celestiais e as quatro substâncias do mundo, isto é, os quatro elementos e suas qualidades, os metais, as plantas e os animais irracionais. Portanto, convém que exista uma substância espiritual conjunta com o corpo humano, a qual chamamos alma racional, para que as criaturas corporais tenham o fim no qual possam ter seu repouso. 2. Por experiência, sabemos que existem substâncias corporais, porque nós as sentimos pela vista, tato e os outros sentidos; como a pedra, que é visível e tangível, e o mesmo como as outras substâncias. Nestas substâncias corporais Deus colocou semelhanças de Suas razões, assim como no corpo do homem, que é bom por natureza, e no fogo, e no cavalo e na planta, e assim nos outros. E porque Deus é bom, a bondade do corpo é semelhante em espécie à bondade de Deus; e o mesmo com as outras semelhanças. Daí que, como Deus é substância espiritual, se Ele colocou Suas semelhanças nas substâncias corporais, quanto mais, segundo o Seu ordenamento e a Sua razão, convirá que as suas semelhanças sejam possuídas pelas substâncias espirituais, que podem receber melhor as Suas semelhanças que as substâncias corporais! Portanto, está provado que existem substâncias espirituais, as quais chamamos almas racionais. 3. Tudo o que Deus criou, criou ordenadamente sem existir nenhum vazio nesta ordem. E porque Ele é grande por Sua grandeza e bom por Sua bondade, e em Si não há nenhuma pequenez nem maldade, melhor Lhe pertence produzir grandes bens do que pequenos. E porque Ele produziu as substâncias corporais por criação, e os anjos - que são substâncias espirituais -, se não tivesse produzido a substância composta e ajustada de essência corporal e espiritual que é o homem, haveria um vazio na ordem da produção e existiriam duas extremidades sem meio, isto é, as substâncias corporais e as substâncias angelicais, e não existiria no meio a substância composta de substância espiritual e corporal. Assim sendo, seria mais próprio de Deus produzir poucas substâncias em bondade, que grandes, a qual coisa é impossível e iria contra a grande obra que pela sua bondade produziu por geração e inspiração das Pessoas divinas. 4. Se a alma racional não existisse, tudo o que existe no homem seria corporal ou acidente do corpo. Ora, a aquela potência que está mais perto da espiritualidade é a grande imaginação do homem, pois ela é mais alta que a elementativa, vegetativa e sensitiva . Pois bem, um homem, que com as forças da imaginação imaginasse os antípodas, julgaria que os antípodas deveriam cair para abaixo. Porém, o homem sábio considera que aquela queda seria uma subida e que seus corpos pesados subiriam contra a natureza. Portanto, convém que no homem exista alguma potência espiritual com a qual sobrepuje a imaginação que julga falsamente, e que esta potência espiritual julgue segundo a verdade. Portanto, existe aquela potência, a alma racional, com a qual o homem entende transcendentalmente a verdade por cima dos falsos juízos da imaginação. 5. Só o homem faz contra a natureza, porque nenhum animal irracional mata a si mesmo, e alguns homens matam a si mesmos, e só o homem é sodomita, e só o homem jejua, e só o homem tem vergonha de urinar diante de outro e vergonha de entrar na fêmea, e assim das outras coisas semelhantes a estas. Portanto, convém que no homem exista alguma substância mais alta que a substância dos irracionais, e que não seja de essência corporal, porque se não existisse, seguiria a natureza e a maneira dos irracionais; e esta substância chamamos alma racional, com a qual o homem tolhe as naturezas dos corpos segundo o que havemos dito. 6. Só o homem possui a liberdade de fazer o bem e fazer o mal, e esta liberdade principal radica primeiramente na vontade e não no corpo. Se no homem não existisse a alma racional, a vontade - e em conseqüência também a sua liberdade - seria da essência e da natureza do corpo. E posto que tudo o que existe no corpo é natural, como a liberdade existe de um modo superior à natureza corporal, seguir-se-ia que a liberdade seria natural e não natural; e isto é uma contradição que não pode existir. Portanto, a alma racional existe e é substância espiritual, da qual é a vontade, que é livre por cima da natureza corporal. 7. Só o homem considera gênero e espécie, e faz ciência raciocinando, conforme a nossa experiência. O homem não poderia fazer isto sem a alma racional, que considera as substâncias em abstrato e destes universais considerados obtém os particulares, e faz isso com a ajuda do entendimento. Os irracionais não podem fazer isto, e por isso nenhum deles faz livros, nem nomeia as coisas, nem constróem martelos, agulhas, panelas, nem escudelas, nem tudo o que pertence às outras artes mecânicas. Portanto, a alma racional existe no homem, com a qual sobrepuja os irracionais, segundo o que havemos dito. 8. Só o homem possui virtudes morais e vícios, e pelas virtudes é digno de bem e pelos vícios de mal, e assim está sujeito à justiça de Deus. Isso não o faz nenhum irracional, nem o homem poderia fazer sem a alma racional. Portanto, a alma racional existe, por razão da qual o homem ganha virtudes ou faz hábitos de vícios e está sujeito ao juízo de Deus. 9. Se no homem não existisse a alma racional, não teria sido criado para fim espiritual, mas corporal, e tudo isso que se considera fim espiritual seria falso, pela qual falsidade ganharia virtudes e fugiria dos vícios, e pela verdade real ganharia vícios e fugiria das virtudes; a qual coisa é impossível e contra a inteligibilidade. Portanto, a alma racional existe no homem, com a qual se atinge o fim espiritual. 10. Se no homem não houvesse a alma racional, o seu entendimento seria de natureza corporal. Seguir-se-ia que o homem entenderia por natureza, assim como vê e ouve por natureza; a qual coisa é impossível e contra a experiência que temos, porque muitos homens vêem e ouvem mas não entendem naturalmente muitas coisas, porém entendem as coisas sobrenaturais, como os milagres, a criação e a ressurreição, e outras coisas semelhantes a estas. E o homem que tem os olhos fechados e não ouve nada, entende ou pouco entender. Portanto, o entender é de outra natureza mais alta que aquela do corpo, e àquela natureza chamamos alma racional. Qualquer pergunta que façamos a respeito da alma entendemos fazê-la da alma racional 1. Questão: A alma racional, que existe,
pode não existir? 2. Questão: A alma racional existe mais
por sua finalidade ou pela finalidade de outrem? 3. Questão: É necessário
a Deus que a alma exista? 4. Questão: Deus pode criar substâncias
corporais e não criar almas racionais? 5. Questão: Do ser da alma segue-se maior
fim que do ser do anjo? 6. Questão: A alma existe mais por sua
essência ou por sua finalidade? 7. Questão: A alma pode ser eterna, isto
é, estar em duração e não ter começo
nem fim? 8. Questão: Se segue algum inconveniente
da existência da alma racional? 9. Questão: Da presença da alma
segue-se maior perfeição que a imperfeição
devido à sua ausência, supondo-se que estivesse em privação?
10. Questão: Alguma alma pode desejar
privação de seu ser? II. Da Segunda Espécie da Primeira Parte Questão: Pergunta-se se a alma racional surge por criação ou geração. Por dez razões desejamos provar que a alma racional provém de uma criação e não de geração; isto é, que é criada e não engendrada, dentre as dez razões é esta a primeira: 1. A alma é livre segundo a sua natureza,
e isto se vê na vontade de Martinho ou de qualquer outro, porque
nenhum homem pode obrigar a vontade de Martinho a não amar o
que deseja amar, nem pode obrigar o seu entendimento a não entender
o que a sua vontade deseja entender. O mesmo ocorre com a memória:
nenhum homem pode obrigar Martinho a esquecer o que a sua vontade deseja
lembrar. 2. Se a alma fosse engendrada, nasceria de corrupção e envelheceria, porque nenhuma coisa engendrada aqui embaixo pode nascer ou ser sem a corrupção daqueles outros a partir dos quais é. Mas a alma racional não envelhece, nem se torna velha pela velhice do corpo, e isso se verifica no homem sábio e velho, que possui mais ciência do que quando era jovem. Portanto, a alma daquele homem sábio não é engendrada, é criada. 3. Se a alma fosse engendrada e não criada,
teria o seu fim neste mundo: assim como a (potência) sensitiva,
que tem como fim o sentir, e a (potência) vegetativa, que o tem
no vegetar. Mas a alma racional não tem seu fim neste mundo porque
este mundo não a pode satisfazer, porque constantemente deseja
querer, entender e lembrar mais o que ama, entende, lembra, ou qualquer
outra coisa; o que não ocorre com a potência sensitiva
e o objeto simples que sente. Assim como o homem que está saciado
de tanto comer e não deseja mais comer naquela hora, e o mesmo
ocorre com a voz, da qual o homem se sacia e não deseja mais
ouvir. E isso é assim porque a potência sensitiva tem pais
que lhe deram certos limites para o sentir e poderes determinados. 4. Se a alma fosse engendrada e não criada, todas as suas obras seriam naturais e não poderia haver nenhuma obra moral, isto é, justiça, prudência, e assim das outras virtudes, as quais não se obtém segundo o corpo natural, porque se se obtivessem segundo o corpo natural, o pai transmitiria justiça e prudência ao filho, tal como lhe transmite a cor e a boca; e todos os homens seriam sábios e justos, a qual coisa é impossível, segundo o que temos experiência; porque muitos são os homens que não são justos nem sábios. Portanto, a alma racional não é gerada, mas criada. 5. Se a alma fosse (gerada) por geração e não por criação, seria (criada) com sucessão e movimento, e seria substância corporal, pois convém que seja corporal toda substância onde há sucessão e movimento, e nós temos provado que a alma racional existe e é substância espiritual. Portanto, a alma é por criação e não por geração. 6. Se a alma fosse engendrada, seria engendrada mediante divisão de partes e pela transmutação de partes das espécies velhas nas novas: assim como o pão, de onde se engendra a carne, deixando as partes do pão a espécie do pão e tomando sustentação em outra espécie, e a espécie do pão fica sem sujeito no qual possa permanecer. Segundo isso, seguir-se-ia que partes espirituais da alma poderiam deixar umas espécies e tomar outras pela divisão de parte em partes, a qual coisa é impossível. Portanto, a alma racional existe por criação. 7. Se a alma racional existisse por geração, teria pais, e não desamaria por natureza nenhum de seus pais, nem amaria mais a outro que a seus pais; e vemos que acontece o contrário, pois muitos homens desamam seus pais e amam mais a outro que a seu pai ou seu irmão. Portanto, a alma não é engendrada, mas criada. 8. Se alma fosse engendrada, amaria constantemente mais as suas perfeições que as perfeições do corpo: assim como a potência sensitiva, que possui maior apetite em sentir do que em vegetar. Ora, muitas almas amam mais a perfeição do corpo, com o qual estão conjuntas, do que a sua própria perfeição, e existem homens que mais amam comer e beber e ver figuras prazerosas do que o justo lembrar, entender e amar. Portanto, a alma não é engendrada. 9. Se a alma fosse engendrada, não poderia
viver por suas perfeições interiores sem que lhe viesse
nutrição de fora das outras partes não unidas a
ela. Assim como ocorre com a potência sensitiva humana, que não
pode viver sem que o homem beba ou coma coisas que lhe vêm de
fora e as coloque dentro, tomando delas alimento e sustentação.
E isto é assim porque a potência sensitiva é. 10. Se a alma, que é substância espiritual, fosse engendrada, seria substância espiritual originada em outra substância espiritual: assim como a substância corporal de Martinho, que é da substância corporal de seu pai, ou a substância do prego, que é da substância do ferro. E, portanto, a alma seria substância engendrável de um gerador corrompível com vontade, assim como a substância do corpo, que é corrompível com as quatro qualidades gerais, isto é, o calor e as outras. Mas é impossível que a vontade do gerador queira que alguma de suas partes esteja em privação de ser, porque desejaria naturalmente contra a sua própria essência, a qual coisa é impossível. 1. Questão: Perguntam se Deus criou a
alma com movimento. 2. Questão: Deus poderia fazer que a
alma racional fosse engendrada? 3. Questão: Poderia o homem engendrar
a alma racional, engendrando outro homem em natureza humana, como Deus
Pai engendra o Deus Filho em natureza divina, o qual Filho é
substância espiritual? 4. Questão: Um entendimento pode engendrar
outro, dado que engendra o entender? 5. Questão: O anjo pode produzir a alma? 6. Questão: A alma pode produzir a si
mesma? 7. Questão: Antes de ser criada, a alma
está em potência e pela criação acontece
em ato? 8. Questão: A criação da
alma pertence a Deus e àquela mesma alma, ou é do primeiro
tão somente? 9. Questão: Deus poderia constranger
o livre-arbítrio da alma? 10. Questão: Deus pode criar a alma de
contrários? III. Da Terceira Espécie da Primeira Parte Por dez razões pretendemos provar que a alma racional é imortal, e não pretendemos falar da mortalidade em que se encontra a alma pecadora, mas da imortalidade essencial. 1. A alma é imortal por sua própria natureza, a qual possui por criação enquanto não é criada de contrários, segundo o que já dissemos. Porque assim como o sol é incorrompível e a sua luz é permanente porque é criado sem partes contrárias, assim a alma é imortal e seus acidentes naturais são permanentes porque não é feita de contrários. 2. A alma é imortal por razão da finalidade para a qual é criada, porque ela é criada para lembrar, entender e amar Deus, e a memorabilidade, inteligibilidade e amabilidade de Deus se convém com a eternidade, segundo o que já dissemos. Por isso, o fim da memoratividade, intelectividade e amatividade se convém com a eviternidade, pela qual conveniência se segue a imortalidade na alma. 3. Se a alma não fosse imortal, as criaturas corporais não poderiam atingir sua finalidade em Deus. Portanto, se seguiria grande inconveniente, segundo o que já dissemos. Portanto, a alma é imortal, para que as criaturas corporais possam atingir, pela alma conjunta com o corpo humano, sua finalidade em Deus. Porque se a alma fosse mortal, seguir-se-ia o inconveniente que havemos dito e as criaturas corporais não seriam criadas com finalidade permanente. 4. A alma é a mais nobre criatura do que qualquer corpo, e isso é porque ela melhor pode reter as semelhanças de Deus, pois Deus, da mesma maneira que a alma, é ente espiritual. Logo, se a alma é imortal para que a finalidade das criaturas corporais seja permanente, bem se segue que ela seja imortal para que sua finalidade seja permanente, pois se fosse mortal, a mais nobre essência não estaria em tão grande concordância com a permanência do que a menos nobre; a qual coisa é impossível. 5. Deus é justo, e a Sua justiça requer que a alma seja imortal a fim de que possa existir um sujeito permanente no qual possa julgar a boa alma para a bem-aventurança eterna, e a má para a pena eterna. E se a alma fosse mortal, em sua mortalidade estaria a justiça de Deus contra si mesma, uma vez que estaria contra o que requer o Seu juízo. E se a justiça de Deus não pode injuriar a Si mesma, convém que a alma seja imortal. 6. A divina bondade e eternidade na boa alma estão em concordância, porque assim como a bondade requer um sujeito no qual possa infundir a bem-aventurança, assim a eternidade requer um bom sujeito no qual possa infundir a eviternidade, que é a sua semelhança. E se a eternidade não conservasse a alma em eviternidade, não haveria concordância com a divina bondade, antes lhe seria contrária, a qual contrariedade é impossível. Portanto, a alma é imortal. 7. O corpo do animal é naturalmente mortal porque não pode viver de suas partes essenciais, porque o seu radical úmido não pode viver sem nutrimento úmido, que vem de fora, assim como o cavalo, que não poderia viver sem comer e beber. E como a alma é toda a sua espécie, não tem necessidade de viver das coisas de fora, porque todas as suas partes vivem dentro pela vida, que é uma de suas partes que não vive de nutrimento úmido. Por isso, a alma é imortal, e está assim viva pela vida, que é uma de suas partes, como o sol é redondo pelo o círculo, que é uma de suas partes. 8. O corpo elementar pode ser destruído pelo tocar, assim como a pedra pelo ferir, a planta pelo cortar e o corpo do animal por chagar e jejuar. E como a alma racional é espiritual, não pode ser ferida, cortada, ou chagada, e por isso não existe quem a possa matar com o corpo, nem anjo bom ou mal a pode destruir ou matar, pois nenhuma substância que seja toda ela a sua mesma espécie pode ser destruída por substância semelhante que seja de sua mesma espécie, porque nenhuma espécie destrói outra. Portanto, a alma é imortal, e não existe quem a possa destruir corporal ou espiritualmente. Nem Deus a pode destruir, porque atuaria contra a finalidade para a qual a criou, segundo o que já dissemos. 9. Nenhuma alma pode destruir nem matar a si mesma, porque ela é de vida e não de morte. E a sua vida não pode matar a alma, a menos que em si mesma a morte exista como outra parte substancial, maior e mais forte que a vida. Porém, nós já provamos que a alma não é feita de contrários. Portanto, a alma é imortal, pois ela não pode se matar nem outro a pode matar, segundo o que provamos. 10. A alma existe com partes que se concordam umas com as outras: assim como a sua bondade natural, que tem concordância com a sua grandeza natural, e assim das outras. E nenhuma substância que seja de partes concordantes e sem partes contrárias pode ser morta ou destruída. Portanto, a alma é imortal e permanente, conforme (corresponde) a um corpo natural espiritual. 1. Questão: A alma pode, pelo pecado
mortal, perverter sua imortalidade natural em natureza mortal? 2. Questão: Criada do não-ser,
a alma possui natureza que a possibilite retornar ao não-ser? 3. Questão: O homem pode matar a si mesmo,
e a alma é parte do homem. Portanto, pergunto se o homem pode
matar a sua alma, uma vez que pode matar a si mesmo. 4. Questão: Alguma das partes essenciais
da alma pode morrer? 5. Questão: Pergunto se quando o homem
morre a alma tem pena que deixe nela impressão de mortalidade. 6. Questão: Mortos os órgãos
corporais, morrem os atos das potências da alma? 7. Questão: Quando parte do corpo, a
alma continua tão nobre e tão completa como quando estava
no corpo? 8. Questão: Quando o homem está
morto, a alma pode imaginar o corpo em que estava? 9. Questão: Quando o corpo morre, a alma,
conjunta com o corpo, move o corpo à morte? 10. Questão: Quando a alma parte do corpo
guarda os costumes que tinha no corpo?
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