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Ramon Llull (1232-1316)
Tradução: Profa. Dra. Adriana Zierer (Uema) Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) e Grupo de Pesquisas Medievais da UFES IV (Danielle Werneck Nunes e Kassandra Alvarenga) Da Segunda Parte deste
Livro e primeiramente
4. De sua Primeira Espécie Questão: O que é a alma racional
em si mesma? 2. A alma é uma substância espiritual conjunta com a substância corporal, com a qual constitui o homem. Porque assim como na pimenta, ou em outra medicina que seja mais quente do que seca, o fogo constitui as outras qualidades de aquecimento. Assim, a alma dá humanidade ao corpo, e por isso existe (a) dita forma do corpo e convém que seja substância, já que é a forma do corpo. 3. A alma é a substância que informa o corpo a (capacidade de) vegetar e sentir, porque ela move a vegetativa a vegetar e a sensitiva a sentir. Assim como o calor do fogo que move e esquenta a água quente na panela, a vontade move o homem a amar, e por isso, a alma é naturalmente dona do corpo. 4. A alma é a substância que possui o órgão necessário com o qual atinge a ciência dos objetos corporais. Assim (como) quando atinge a cor, com a qual dá necessidade aos olhos e à potência de sentir. É por isso que a imaginativa fixa o sujeito da cor, e que, na ausência daquele sujeito, a imaginativa traga as semelhanças daquele sujeito, dando corpo ao seu lembrar, entender e amar. E isso mesmo (acontece com) as outras potências do senso comum. 5. A alma é a substância espiritual que atinge os objetos que toma por espécie. Assim como a mãe, que lembra o filho que não vê, e do qual faz semelhança em sua memória pela razão de lembrar, e no entendimento pela razão de entender, e na vontade pela razão de amar. 6. A alma é substância espiritual que é parte do homem, e por isso é potência do homem, assim como a parte que é de seu todo. 7. A alma é o instrumento espiritual como o qual as substâncias corporais atingem seu fim em Deus, segundo o que já havemos dito. 8. A alma, estando conjunta com o corpo humano, é a substância que participa em mais criaturas do que nenhuma outra substância. Porque aquele corpo participa com o firmamento enquanto não recebe influência (dele) e existe com ele em uma espécie, que é o corpo; e participa com os quatro elementos, porque ele é de todos os quatro; e participa com as plantas, porque ele existe da vegetativa; e participa com a sensitiva enquanto existe dela; e isso mesmo na imaginativa. 9. A alma é a substância que ganha virtudes morais ou vícios a si mesma e ao corpo, assim como a castidade ou a luxúria. Porque se a alma espiritual não existisse no homem, não existiriam moralidades de virtudes nem de vícios. 10. A alma é aquela substância que ganha méritos de bem com virtudes morais, e com vícios morais méritos de mal. E porque ela é parte do homem, movendo a si mesma e o corpo, ela procura, naquele movimento, a maneira com a qual o homem possa ter glória ou tormento. 1. Questão: A alma é substância
ou acidente? 2. Questão: A alma é formada
por si mesma ou é formada (somente) enquanto dá forma
ao corpo? 3. Questão: Como a alma é
de forma e de matéria, como pode ser forma? Porque se é
forma, a parte e seu todo se convertem. E isso mesmo das potências passivas, isto é, uma bonificabilidade, magnificabilidade, e os outros princípios naturais e substanciais que constituem as três paixões comuns, as quais são: memorabilidade, inteligilibilidade e amabilidade. Todas estas três paixões constituem uma paixão comum que é matéria espiritual, e havemos dito que a alma existe dela e da forma. 4. Questão: A potência da
alma existe? 5. Questão: A alma é anjo? 6. Questão: A alma é a
impressão do anjo no corpo humano, assim como letras de cera
são impressão das letras do selo? 7. Questão: A alma é a
imagem de Deus? 8. Questão: Quando é separada
do corpo a alma permanece com o mesmo nome quando estava junto do corpo? 9. Questão: A alma justa, quando
se perverte em pecado, é a mesma quando era justa? 10. Questão: A alma é vida? V. Da segunda espécie da segunda parte 1. Questão: O que possui a alma
em si mesma? 2. A alma possui ainda em si, por razão de sua bondade, os essenciais bonificante, bonificável e bonificar, e por razão de sua grandeza tem em si os essenciais magnificante, magnificável e magnificar, e assim dos outros, e por estas partes concretas as suas razões possuem sujeitos naturais e essenciais nos quais são sustentados, assim como a sua bondade, que é sustentada no seu essencial bonificado, e assim do seu bonificado e bonificar. 3. A alma possui em si acidentes espirituais
próprios e essenciais, que são: quantidade, qualidade,
relação, e os outros nove predicados deles. E por quantidade
é quanta, e por qualidade é qual, segundo o que diremos,
e assim dos outros. E por quantidade sua bondade é quanta, por
(uma) grande grandeza. E por diferença são diferentes
sua bondade e sua quantidade. 4. Existe ainda na alma três potências, isto é, a memória, o entendimento e a vontade, segundo o que já havemos dito. E com estas três potências (a alma) faz tudo quanto faz, e são de sua essência, e ela existe deles, e são assim diferentes por diferença como bom por bondade, e grande por grandeza, e concordante por concordância, e assim dos outros. 5. A alma possui em si espécies ignatas e impressas pela aquisição das suas três potências constituídas dos primeiros princípios, segundo o que já havemos dito. São ignatas enquanto as pode produzir; são impressas pelos atos das razões e são ganhas quando são produtos da potência em ato; assim como em Martinho, que entende seu filho branco ou negro, bom ou mal, grande ou pequeno, e assim dos outros, e o entender é ignato e concreto com o ato de dentro que é da essência do entendimento. E o inteligível não é da essência daquele entender, porque é de outra substância, e aquele inteligível, que é filho de Martinho convertido em ser entendido, é sujeito no qual é feita a impressão que coloca o entender dentro dele: assim como o selo que coloca na cera semelhança de suas letras. E isso que o entender aí coloca é a espécie ignata produto da potência em ato, e o inteligível convertido em entendimento é a espécie obtida, e a espécie existe de todos os três sentidos que as potências de dentro colocam nela coisa de sua essência, e que possuem aquela espécie em si mesma. 6. A alma possui em si partes ativas e passivas. Ativas enquanto as potências são agentes em tomar os objetos que tomam; assim como o entendimento que toma as semelhanças das substâncias que entende, e aquele entendimento é agente, isto é produtor. A alma possui potências passivas enquanto nelas pode colocar semelhanças e impressões das outras substâncias, assim como na sua inteligibilidade, a qual tem dentro e que é da sua essência sob a razão de matéria, segundo o que já havemos dito, em que tem possibilidade de receber as semelhanças das substâncias de fora. Aquele entendimento inteligível é possível, e o agente e o possível são de uma essência, e são diferentes por diferença de forma e de matéria, de ação e de paixão. 7. A alma possui em si os objetos que toma, assim como em Martinho, que entende seu filho ou outro (estando) ausente o seu. Por isso, as potências da alma não existem fora da substância e (elas) atingem os objetos, mas as substâncias de fora os recolhem dentro, tomando das substâncias de fora suas semelhanças e convertendo-as em substâncias de dentro; assim como a vegetativa de Martinho que come o pão que não existe na espécie do pão, mas que converte aquela espécie em vegetante em espécie de carne sem que a espécie do pão entre na espécie da carne. De maneira semelhante, o entendimento de Martinho entende seu filho, converte a inteligibilidade de seu filho em inteligibilidade de espécie, segundo o que já havemos dito. 8. A alma possui e contém em si toda a sua espécie, assim como a alma de Martinho, que é toda a sua mesma espécie. Por isso, (a alma) possui toda si mesma em si mesma. Isso não acontece segundo a espécie do homem especial, assim como em Martinho, que não tem toda a espécie humana em si mesmo porque na espécie do homem e nos outros homens existe o Pai. Por isso a alma se converte com sua espécie e não o faz a espécie de Martinho, nem do cavalo, nem da maçã. Por isso, a alma de Martinho se converte com a sua espécie porque seus princípios são de si mesma. 9. A alma é substância simples, e possui aquela simplicidade em si mesma, porque é princípio simples, com a simples bondade, a simples grandeza, e os outros. Por isso, a sua bondade é simples, porque não é produto de outra bondade e é uma parte substancial distinta, por diferença, de todas as outras partes; porque não é, segundo a sua espécie, nenhuma daquelas. Assim, é distinta delas por essência, como é distinta uma espécie de outra. E a bondade retém sua simplicidade, ainda que entre em combinação com as outras partes da alma simples, por aquela bondade simples que é a sua parte simples. E isso também ocorre com a sua grandeza, e com os outros princípios substanciais e acidentais. 10. A alma é composta, e tem a sua composição
em si mesma, e a sua composição começa em cada
um dos princípios simples concretos, assim como nos concretos
da bondade, grandeza, e os outros, porque uns concretos se mesclam com
os outros segundo mescla espiritual, comunicando-se uns princípios
com os outros sob as razões das formas abstratas, assim como
o bonificante, que se comunica com a magnificabilidade, e aquele em
bonificante, porque é bom. 1. Questão: A alma tem em si todas
as suas perfeições naturais? 2. Questão: Como a alma tem em
si mesma todas as suas perfeições, porque não se
completa e não repousa em si mesma? E porque ela não pode
se completar nesta vida? 3. Questão: Como na bondade da
alma sejam finitos o bonificante, o bonificável e o bonificar,
como pode ter o bonificante, o bonificável e o bonificar sob
um mesmo nome? Por que se é bonificado não é bonificar,
e se é bonificável não é bonificado. Por
isso, bonificado e bonificável não podem se converter
em um nome, nem bonificante não se pode ter em um nome. E assim, segundo esta maneira de produzir, transmutando uma semelhança em outra e permanecendo cada uma das semelhanças em sua espécie, e uma espécie comum de muitas semelhanças, permanece bonificável o que existe e é bonificado, e em nome de ambos é um: assim como a grandeza, que segundo (sua) natureza é bonificável por bondade e é bonificada por infusão e bonificada pela razão da bondade. 4. Questão: Como a alma não
é corpo nem a natureza do corpo, como pode ter quantidade? 5. Questão: Como a bondade da
memória, do entendimento e da vontade são uma por essência,
e o mesmo da grandeza e dos outros princípios das potências,
como as potências podem ter diferença por essência? Mas porque aí existe diferença, são diferentes por ela e pela sua essência, que tem o ofício de diferenciar, por que em uma substância existem muitas coisas e muitos fins. E por isso, uma é a bondade da memória, outra a bondade do entendimento, e outra a bondade da vontade, mas sem diferença, (pois) as três bondades não são mais (do que) uma bondade por espécie e por essência. 6. Questão: Tem o entendimento
agente — ou o entendimento possível — a espécie que o
entendimento multiplica e ganha ou tem ambos? 7. Questão: A espécie que
o entendimento deixa quando a memória esquece possui algum sujeito
onde se sustente? 8. Questão: Quando o entendimento
não é de natureza corporal nem é corpo, como pode,
para entender, ter espécie de corpo? Assim, na imaginação, a espécie do corpo tem o entendimento. Como no espelho, onde as espécies recebem as substâncias de fora com o sentido do olhar, o qual sentido é diferente, como no espelho, pela diferença de animal e não de animado. 9. Questão: A alma que está
em pecado, pode ter Deus em si mesma? VI. Da terceira espécie da segunda parte Questão: O que a alma tem em outro? 2. A alma existe no corpo que se estende, assim como o corpo do infante que cresce, e neste crescimento do corpo ela se estende, pois está conjunta com todo o corpo; e aquela extensão não é de sua natureza, mas (a alma) a tem por causa do corpo, assim como a água aquecida pelo fogo, que esquenta a carne no óleo, a qual não é própria a esquentar. E porque a alma não possui extensão em sua natureza, quando o corpo perde algum membro ou vem a declinar por velhice, por tudo isso a alma não é divisível nem menorificável, porque sua natureza permanece e está segundo o que existe em si mesma. 3. A alma está no corpo com o qual é conjunta, vegetando e sentindo nele, porque ela move a vegetativa a vegetar e a sensitiva a sentir, assim como no corpo a vontade é movente, que faz mover o escritor, o falante ou o viajante de um lugar a outro. Por isso, diz o homem que a alma racional incita o corpo ao movimento, e é a forma daquele (corpo) enquanto move as suas partes a seus fins naturais, assim como move os olhos a ver e a língua a gustar, e o mesmo das outras partes do corpo. 4. A alma está conjunta com o corpo na finalidade das substâncias corporais, instrumento para que aquelas substâncias atinjam seu fim, porque não a poderiam atingir sem ela, segundo o que já havemos dito. Por isso, a alma começa antes do corpo nos bons atos do homem que faz o bem, e o mesmo (acontece) se o homem faz mal segundo o pecado atual, não segundo o pecado original, do qual havemos falado nos Artigos, porque, naquele pecado, a alma está em má culpa, segundo o que havemos provado naquele Livro. 5. É a alma, no corpo, movida de um lugar ao outro por aquele corpo, sucessivamente e no tempo, e não no instante. Isso é porque o corpo não é movido num instante e a alma em outro, pois é conjunta nele. Esta imagem aparece no homem que vai e o corpo está cansado de ir, não pela alma, porque a alma deseja que o corpo vá até o lugar que ela deseja; porque ela, movendo o corpo, move a si mesma naquele corpo, e se não fosse pelo corpo com o qual é conjunta, naquele instante em que desejasse estar em algum lugar ela estaria fora do corpo. 6. A alma é parte do homem em seu corpo, pois o homem existe de alma e de corpo. Por isso, existe em outro o que não existe em si mesma, porque em si mesma não é parte, mas é toda si mesma, e porque com o corpo constitui o homem, é parte no homem. 7. A alma é serva no homem, pois toda parte é serva de seu todo. Porque assim como a alma move o corpo a andar ou a sentir, a alma move o homem, que é sua parte, a desejar, lembrar e entender. E assim como o homem é branco ou negro pela cor, é livre para desejar, lembrar e entender pela alma. 8. A alma é glorificada por boas obras e por males atormentada, e é a alma apropriada por esta glorificação ou tormento segundo o fim ou segundo a privação. E, por isso, a existência da alma é sujeita àquela apropriação: assim como a substância do ar, que é sujeita ao aquecimento por deleitação natural, e a substância da água pelo contrário. 9. A alma é antiga pelo tempo, porque, pela razão do tempo que multiplica — pelo movimento do firmamento —, momentos, horas, dias, semanas, meses e anos, a alma existe em número de anos, segundo o que é principiada. E aquela antigüidade não é de sua natureza, mas lhe é qualidade apropriada pelo corpo daquela alma que participa com o firmamento sob a espécie do corpo, de natureza ou de movimento. Por isso, a alma é uma coisa em outra, a qual não é em si mesma. 10. Esvaziada, a alma está em privação de sua finalidade, isto é, a alma do pecador está desviada da finalidade para a qual existe. E aquele esvaziamento onde a alma está vazia, existe porque a alma não tem Deus, que é a sua finalidade, e ela é assim esvaziada espiritualmente por hábitos privados de suas potências, como seria o senso comum esvaziado dos hábitos de sentir se os objetos das suas potências particulares estivessem em privação. Assim como a visão é esvaziada sem os sentidos da cor, e a audição sem o ouvir, e assim dos outros. Desta matéria havemos falado muito claramente e em abundância na Árvore da Ciência. Questão: A alma é totalmente boa
ou má por moralidades? 2. Questão: A alma
existe toda em cada uma das partes do corpo? Portanto, convém que (a alma) esteja por todo o corpo, pois se estivesse em uma parte e não em outra, a alma estaria numa parte e não em outra, e se uma parte da bondade natural da alma estivesse na cabeça e outra no corpo, a alma seria naturalmente divisível e possuiria extensão corporal. Portanto, segundo a sua natureza, a alma existe toda em cada parte do corpo, e não toda segundo a natureza do corpo. 3. Questão: A alma conjunta com
o corpo é simples? Por isso, o dinheiro não é ouro, nem prata, nem a espécie de nenhum daqueles, e por isso é simples enquanto nome especial multiplicado de muitos. De maneira semelhante, a alma é simples no corpo por sua simplicidade natural, e é composta naquele enquanto dela e dele multiplica um que é simples, por individualidade e por nome, que é o homem Martinho, o Pai ou outro. 4. Questão: A alma existe pela
geração do corpo criado, isto é, seu princípio
é conseqüência e princípio do corpo antecedente? 5. Questão: A alma é colocada
no corpo? 6. Questão: A alma é criada
no instante ou no tempo? 7. Questão: A alma existe no céu
imperial glorificável? 8. Questão: A alma é atormentada
no fogo infernal? 9. Questão: A alma conjunta é
atormentada no corpo? 10. Questão: A alma é predestinada
à justiça? VII. Da quarta espécie da segunda parte Questão: Alma, o que existe no outro? 2. A alma justa possui méritos de bem nas boas obras que faz, e se faz más obras, possui méritos de mal. Por isso, as moralidades são sujeitos nos quais a alma possui méritos, e segundo aqueles sujeitos, se são grandes ou pequenos, os seus méritos são quantificados. 3. Naturalmente a alma tem senhorio sobre o corpo, e isso existe porque é mais nobre substância que o corpo. E porque lhe dá forma naturalmente, deve ser dona dos costumes daquele corpo, isto é, ver, ouvir, cheirar, provar, falar e tocar; e se é dona dos seis sentidos acima ditos, possui culpa na privação de seu senhorio, e possui pena naquela culpa. 4. A alma tem os objetos de fora nos objetos de dentro, assim como a qualidade de lembrar que possui o cavalo, os dinheiros ou o castelo, a qual tem pela qualidade de lembrar o que está dentro, e esta qualidade é da essência de sua memória. O mesmo (acontece) com a inteligibilidade do cavalo, que percebe que o entendimento é possível na inteligibilidade de dentro. E o mesmo (acontece) com a amabilidade do cavalo, que tem a amabilidade de dentro, que é a matéria da vontade. Portanto, a alma tem os objetos secundários nos primeiros, e o mesmo dos atos secundários, os quais tem nos primeiros. 5. A alma possui na imaginativa as semelhanças ou espécies dos objetos secundários, assim como a alma que imagina a planta pela cor e figura, o fruto pelo sabor, e assim dos outros. E a imaginativa tem aquele imaginar e o coloca dentro com a sua semelhança através do entender, quando entende em abstrato a espécie da planta, cor ou sabor. Porém, o imaginar permanece fora, mas quando recebe a semelhança que entende — porque nenhuma alma pode imaginar a cor se não imagina o sujeito dela (e imagina o sujeito assim como imagina um cavalo branco) — o imaginar entra dentro do entender quando entende. 6. A alma possui no corpo os órgãos e instrumentos com os quais move as suas potências, assim como o coração, que é o órgão da vontade, e o cérebro, frente do entendimento e o que recebe a memória. No meio de ambos, a alma move a imaginativa a imaginar os objetos imagináveis. 7. Na sensitiva, a alma possui com a imaginativa os delitos ou as paixões do corpo, assim como o corpo que se sacia pelo falar, que é o quinto sentido, segundo o que havemos provado no Livro que havemos feito. E a alma tem aquele deleite em sua memória com o deleite de amar e entender. E se o corpo tem dor, grande fome, sede, calor ou frio, tem aquela dor ou tristeza em sua recordação, com a qual tristeza de ira deseja a alma os ossos daquele corpo. 8. Quando se parte do corpo, a alma tem tristeza com essa morte, pois é parte do corpo. Nessa separação, ela é a parte mais nobre para a finalidade do todo do que para a finalidade de si mesma, porque se não o fosse, a alma não teria tristeza em sua separação do corpo. 9. A alma possui prática nas artes liberais mecânicas, segundo o temos experiência, porque através delas move o corpo a praticar, como a vontade que move a mão a escrever. Por isso, (a alma) deu ao homem o entendimento prático, que tem espécies a praticar, e com aquelas espécies o corpo tem a prática enquanto se move aos instrumentos daquela prática. 10. A alma possui inclinação aos pais do corpo com o qual é conjunta, assim como a alma de Martinho, que possui diligência na utilidade do filho de Martinho ou de seu amigo. E se o filho de Martinho possui paixão, a alma de Martinho tem paixão na paixão do filho de Martinho. Questão: A alma possui movimento no corpo,
no instante ou no tempo? 2. Questão: Quando é movida
de um lugar ao outro, por si mesma ou por outro, a alma possui partes
que vão na frente e outras que vão atrás? Assim como na vida do homem, em que as partes da vegetativa estão antes da sensitiva, porque existe antes o vegetar que a sensação, e o aquecer que o ver; e isto é o contrário no ato de praticar o entendimento prático, porque (o homem) atinge antes o imaginar pela sensação do que pelo vegetar, e isso é porque o entendimento não pode atingir o vegetar sem sentir, e atingir o sentir sem vegetar, assim como Martinho, que vê a pedra ou outra substância não vegetada. 3. Questão: Existe diferença
que seja ente positivo entre a alma e o anjo? Mas a diferença que o homem diz que existe entre o anjo e a alma, não é ente positivo real, mas espécie fantástica que faz o entendimento de ambas as partes positivas acima ditas, consideradas por aquela espécie comum. E se aquela espécie comum fosse ente positivo real, seria composta de ambas as partes, e o anjo e a alma estariam sob uma mesma espécie, assim como estariam sob uma diferença, a qual coisa é impossível.
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