O Livro da Alma Racional (1296)

Da Segunda Parte deste Livro e primeiramente
4. De sua Primeira Espécie

Questão: O que é a alma racional em si mesma?
Solução: A alma racional é aquela parte do homem pela qual (ele) lembra, entende e ama (a Deus). Porque assim como o fogo esquenta com o calor, o homem lembra, entende e ama (a Deus) com a alma e pela alma.

2. A alma é uma substância espiritual conjunta com a substância corporal, com a qual constitui o homem. Porque assim como na pimenta, ou em outra medicina que seja mais quente do que seca, o fogo constitui as outras qualidades de aquecimento. Assim, a alma dá humanidade ao corpo, e por isso existe (a) dita forma do corpo e convém que seja substância, já que é a forma do corpo.

3. A alma é a substância que informa o corpo a (capacidade de) vegetar e sentir, porque ela move a vegetativa a vegetar e a sensitiva a sentir. Assim como o calor do fogo que move e esquenta a água quente na panela, a vontade move o homem a amar, e por isso, a alma é naturalmente dona do corpo.

4. A alma é a substância que possui o órgão necessário com o qual atinge a ciência dos objetos corporais. Assim (como) quando atinge a cor, com a qual dá necessidade aos olhos e à potência de sentir. É por isso que a imaginativa fixa o sujeito da cor, e que, na ausência daquele sujeito, a imaginativa traga as semelhanças daquele sujeito, dando corpo ao seu lembrar, entender e amar. E isso mesmo (acontece com) as outras potências do senso comum.

5. A alma é a substância espiritual que atinge os objetos que toma por espécie. Assim como a mãe, que lembra o filho que não vê, e do qual faz semelhança em sua memória pela razão de lembrar, e no entendimento pela razão de entender, e na vontade pela razão de amar.

6. A alma é substância espiritual que é parte do homem, e por isso é potência do homem, assim como a parte que é de seu todo.

7. A alma é o instrumento espiritual como o qual as substâncias corporais atingem seu fim em Deus, segundo o que já havemos dito.

8. A alma, estando conjunta com o corpo humano, é a substância que participa em mais criaturas do que nenhuma outra substância. Porque aquele corpo participa com o firmamento enquanto não recebe influência (dele) e existe com ele em uma espécie, que é o corpo; e participa com os quatro elementos, porque ele é de todos os quatro; e participa com as plantas, porque ele existe da vegetativa; e participa com a sensitiva enquanto existe dela; e isso mesmo na imaginativa.

9. A alma é a substância que ganha virtudes morais ou vícios a si mesma e ao corpo, assim como a castidade ou a luxúria. Porque se a alma espiritual não existisse no homem, não existiriam moralidades de virtudes nem de vícios.

10. A alma é aquela substância que ganha méritos de bem com virtudes morais, e com vícios morais méritos de mal. E porque ela é parte do homem, movendo a si mesma e o corpo, ela procura, naquele movimento, a maneira com a qual o homem possa ter glória ou tormento.

1. Questão: A alma é substância ou acidente?
Solução: A alma é substância, e é por isso que a substância existe de partes substanciais, isto é, de memória, entendimento e vontade, as quais convêm existir por razão da finalidade às partes substanciais, porque a nobreza de seu fim o requer, o qual fim é lembrar, entender e amar a Deus.

E porque o acidente não pode ter tão nobre fim como a substância, a substância é a mais nobre criatura e tem mais de entidade do que o acidente. E se a alma existisse de partes acidentais e não substanciais, seu poder seria diminuído àquele fim, por razão da qual ela existe, e não cabe de tanta glória, pois a substância tem mais de entidade do que de acidente. E ainda, morto o corpo, morreria a alma, porque o acidente não pode sustentar-se sem a substância, e nós já havemos provado que a alma é imortal.

2. Questão: A alma é formada por si mesma ou é formada (somente) enquanto dá forma ao corpo?
Solução: Havemos provado que a alma é substância, e que a principal finalidade de sua existência, é lembrar, conhecer e amar a Deus. Por isso, segundo a sua finalidade, convém que ela seja forma por si mesma simplesmente, como a ação, que pertence à forma, e (ela) é forma enquanto dá forma ao corpo por acidente, isto é, porque participa com ele, assim como a vontade do homem, que move o corpo de um lugar ao outro.

3. Questão: Como a alma é de forma e de matéria, como pode ser forma? Porque se é forma, a parte e seu todo se convertem.
Solução: A alma é a forma do corpo, segundo o que havemos dito, mas não é forma enquanto si mesma, mas existe de forma e de matéria. Existe de forma enquanto é parte substancial bonificativa e magnificativa, e assim dos princípios de suas outras substâncias. E todas aquelas atividades constituem uma atividade comum memorativa, intelectiva e amável, e todas estas três atividades comuns constituem uma atividade comum que é a forma da alma.

E isso mesmo das potências passivas, isto é, uma bonificabilidade, magnificabilidade, e os outros princípios naturais e substanciais que constituem as três paixões comuns, as quais são: memorabilidade, inteligilibilidade e amabilidade. Todas estas três paixões constituem uma paixão comum que é matéria espiritual, e havemos dito que a alma existe dela e da forma.

4. Questão: A potência da alma existe?
Solução: Nenhuma alma pode existir sem potência, porque assim como a parte não pode existir sem o todo, o todo não pode existir sem a parte. Porque convém que exista uma diferença entre o todo e a sua parte para que o todo seja de muitas partes.

5. Questão: A alma é anjo?
Solução: Alma não é anjo, porque é conjunta com o corpo e é parte do homem, e o anjo é substância espiritual separada do corpo, o qual nenhuma espécie de anjo existe aqui embaixo, e a alma existe aqui embaixo, e é espécie do homem enquanto é parte daquele. E ainda: daqui embaixo, o anjo não tem necessidade de órgão para entender.

6. Questão: A alma é a impressão do anjo no corpo humano, assim como letras de cera são impressão das letras do selo?
Solução: Havemos provado que a alma é imortal, que é substância, e que existe de forma e de matéria espiritual. Isso não poderia ser se (a alma) fosse impressão do anjo, porque morto o corpo morreria a alma, e a impressão seria acidental, pois não seria da essência do anjo. E se fosse da essência do anjo, (a alma) seria gerada, e nós havemos provado que (ela) não é gerada, mas criada. E ainda, a substância espiritual não é divisível, e não pode ser tocada porque é espiritual, nem é corrompível porque não existe de contrários.

7. Questão: A alma é a imagem de Deus?
Solução: A alma é a imagem de Deus, pois é uma substância espiritual que entende Deus. Porque assim como o espelho é a imagem do corpo pois toma a semelhança daquele em si mesmo, a alma é a imagem de Deus pois atinge Deus lembrando-O, entendendo-O e amando-O em si mesma.

8. Questão: Quando é separada do corpo a alma permanece com o mesmo nome quando estava junto do corpo?
Solução: Assim como o dinheiro — que é de ouro e de cobre — é ouro quando é separado do cobre e permance com aquele mesmo nome quando estava junto com o cobre, a alma permanece com o seu nome quando é separada do corpo.

9. Questão: A alma justa, quando se perverte em pecado, é a mesma quando era justa?
Solução: Segundo o que havemos provado, a alma é substância, e a substância não muda o seu nome por acidente. Assim como a água fria, que não muda seu nome quando é aquecida, nem o ferro do cutelo, que não muda sua espécie quando daquele cutelo é feita a clave, a alma não muda de nome por moralidades, mas muda por qualidade, assim como de bem em mal ou de mal em bem.

10. Questão: A alma é vida?
Solução: Existem três espécies de vida: vegetativa, sensitiva e intelectiva. A alma não é vida vegetativa nem sensitiva, pois é substância espiritual, nem é vida espiritual, pois a vida é uma de suas partes pela qual todas as suas outras partes estão vivas; assim como a sua bondade substancial, pela qual todas as suas partes naturais são boas naturalmente.

V. Da segunda espécie da segunda parte

1. Questão: O que possui a alma em si mesma?
Solução: A alma possui em si mesma seus próprios e naturais princípios, isto é: bondade, grandeza, duração, poder, sabedoria e vontade, virtude, verdade, deleitação, diferença, concordância, princípio, meio e fim, maioridade, igualdade e menoridade. E por estes princípios substanciais dos quais é constituída existem (suas) razões, assim como a bondade possui a razão para produzir o bem, isto é, (ela) produz bem moral, e a grandeza possui a razão para produzir (um) grande bem, e assim das outras razões.

2. A alma possui ainda em si, por razão de sua bondade, os essenciais bonificante, bonificável e bonificar, e por razão de sua grandeza tem em si os essenciais magnificante, magnificável e magnificar, e assim dos outros, e por estas partes concretas as suas razões possuem sujeitos naturais e essenciais nos quais são sustentados, assim como a sua bondade, que é sustentada no seu essencial bonificado, e assim do seu bonificado e bonificar.

3. A alma possui em si acidentes espirituais próprios e essenciais, que são: quantidade, qualidade, relação, e os outros nove predicados deles. E por quantidade é quanta, e por qualidade é qual, segundo o que diremos, e assim dos outros. E por quantidade sua bondade é quanta, por (uma) grande grandeza. E por diferença são diferentes sua bondade e sua quantidade.

E sua bondade é gênero substancial diferente do gênero de bom acidente, e assim entra em distinção de gênero substancial e acidental; e isso mesmo da distinção de espécie e de espécie, estando a bondade por espécie distinta da grandeza, (e) isso mesmo da distinção de substâncias individuais, assim como a alma de Martinho é diferente da alma de Ramon.

4. Existe ainda na alma três potências, isto é, a memória, o entendimento e a vontade, segundo o que já havemos dito. E com estas três potências (a alma) faz tudo quanto faz, e são de sua essência, e ela existe deles, e são assim diferentes por diferença como bom por bondade, e grande por grandeza, e concordante por concordância, e assim dos outros.

5. A alma possui em si espécies ignatas e impressas pela aquisição das suas três potências constituídas dos primeiros princípios, segundo o que já havemos dito. São ignatas enquanto as pode produzir; são impressas pelos atos das razões e são ganhas quando são produtos da potência em ato; assim como em Martinho, que entende seu filho branco ou negro, bom ou mal, grande ou pequeno, e assim dos outros, e o entender é ignato e concreto com o ato de dentro que é da essência do entendimento.

E o inteligível não é da essência daquele entender, porque é de outra substância, e aquele inteligível, que é filho de Martinho convertido em ser entendido, é sujeito no qual é feita a impressão que coloca o entender dentro dele: assim como o selo que coloca na cera semelhança de suas letras. E isso que o entender aí coloca é a espécie ignata produto da potência em ato, e o inteligível convertido em entendimento é a espécie obtida, e a  espécie existe de todos os três sentidos que as potências de dentro colocam nela coisa de sua essência, e que possuem aquela espécie em si mesma.

6. A alma possui em si partes ativas e passivas. Ativas enquanto as potências são agentes em tomar os objetos que tomam; assim como o entendimento que toma as semelhanças das substâncias que entende, e aquele entendimento é agente, isto é produtor.

A alma possui potências passivas enquanto nelas pode colocar semelhanças e impressões das outras substâncias, assim como na sua inteligibilidade, a qual tem dentro e que é da sua essência sob a razão de matéria, segundo o que já havemos dito, em que tem possibilidade de receber as semelhanças das substâncias de fora. Aquele entendimento inteligível é possível, e o agente e o possível são de uma essência, e são diferentes por diferença de forma  e de matéria, de ação e de paixão.

7. A alma possui em si os objetos que toma, assim como em Martinho, que entende seu filho ou outro (estando) ausente o seu. Por isso, as potências da alma não existem fora da substância e (elas) atingem os objetos, mas as substâncias de fora os recolhem dentro, tomando das substâncias de fora suas semelhanças e convertendo-as em substâncias de dentro; assim como a vegetativa de Martinho que come o pão que não existe na espécie do pão, mas que converte aquela espécie em vegetante em espécie de carne sem que a espécie do pão entre na espécie da carne. De maneira semelhante, o entendimento de Martinho entende seu filho, converte a inteligibilidade de seu filho em inteligibilidade de espécie, segundo o que já havemos dito.

8. A alma possui e contém em si toda a sua espécie, assim como a alma de Martinho, que é toda a sua mesma espécie. Por isso, (a alma) possui toda si mesma em si mesma. Isso não acontece segundo a espécie do homem especial, assim como em Martinho, que não tem toda a espécie humana em si mesmo porque na espécie do homem e nos outros homens existe o Pai. Por isso a alma se converte com sua espécie e não o faz a espécie de Martinho, nem do cavalo, nem da maçã. Por isso, a alma de Martinho se converte com a sua espécie porque seus princípios são de si mesma.

9. A alma é substância simples, e possui aquela simplicidade em si mesma, porque é princípio simples, com a simples bondade, a simples grandeza, e os outros. Por isso, a sua bondade é simples, porque não é produto de outra bondade e é uma parte substancial distinta, por diferença, de todas as outras partes; porque não é, segundo a sua espécie, nenhuma daquelas.

Assim, é distinta delas por essência, como é distinta uma espécie de outra. E a bondade retém sua simplicidade, ainda que entre em combinação com as outras partes da alma simples, por aquela bondade simples que é a sua parte simples. E isso também ocorre com a sua grandeza, e com os outros princípios substanciais e acidentais.

10. A alma é composta, e tem a sua composição em si mesma, e a sua composição começa em cada um dos princípios simples concretos, assim como nos concretos da bondade, grandeza, e os outros, porque uns concretos se mesclam com os outros segundo mescla espiritual, comunicando-se uns princípios com os outros sob as razões das formas abstratas, assim como o bonificante, que se comunica com a magnificabilidade, e aquele em bonificante, porque é bom.

Por isso, a bondade entra na grandeza para que a grandeza seja boa através dela, e o mesmo faz a grandeza à bondade, para que ela seja grande através da bondade. E segundo tal comunicação e difusão, faz-se a composição da substância e a sua congregação, e o mesmo das suas potências. Por isso, a alma é simples de uma maneira e composta por outra, e tem a sua simplicidade e composição em si mesma e de si mesma.

1. Questão: A alma tem em si todas as suas perfeições naturais?
Solução: A alma vive de si mesma e não de outra, segundo o que havemos dito, e todos os seus princípios se comunicam uns aos outros com concordância e sem nenhuma contrariedade, e todos são concretos e principiados uns nos outros. Por isso, cada um dos elementos animados é diferente (por causa da) sensitiva e a vegetativa, porque todo elemento animado é de outro princípio e contrariedade e principiado nela e dela. Por isso, nenhum deles pode ter todas as suas perfeições e todas as suas operações.

2. Questão: Como a alma tem em si mesma todas as suas perfeições, porque não se completa e não repousa em si mesma? E porque ela não pode se completar nesta vida?
Solução: Segundo o que havemos dito, a alma tem todas as suas perfeições em si mesma segundo sua essência, assim como a substância do cutelo, que é completa na foma e na matéria. Mas se não corta e está ociosa, é defeituosa segundo a finalidade para a qual foi feita, isto é, cortar, e o mesmo acontece com as substâncias naturais. Assim, a alma — enquanto é existência completa mas enquanto finalidade é defeituosa (porque não pode ter toda aquela finalidade, isto é, lembrar, entender e amar Deus) — está ocupada por algum outro fim para o qual não foi criada, assim como a finalidade do deleite corporal ou de honramento, e assim dos outros.

3. Questão: Como na bondade da alma sejam finitos o bonificante, o bonificável e o bonificar, como pode ter o bonificante, o bonificável e o bonificar sob um mesmo nome? Por que se é bonificado não é bonificar, e se é bonificável não é bonificado. Por isso, bonificado e bonificável não podem se converter em um nome, nem bonificante não se pode ter em um nome.
Solução: Na essência da bondade, segundo sua espécie, não existem um bonificável e um bonificar diferentes por diferença, e aquele bonificável é bonificado por bonificável de fora, do qual toma a semelhança, e a espécie daquele bonificável existe dentro, porque multiplica a sua espécie e bonifica as substâncias de fora bonificáveis por ela, estando com o bonificante de dentro na matéria e no sujeito que ela bonifica segundo a maneira da finalidade a qual a move, isto é, a bonificar.

E assim, segundo esta maneira de produzir, transmutando uma semelhança em outra e permanecendo cada uma das semelhanças em sua espécie, e uma espécie comum de muitas semelhanças, permanece bonificável o que existe e é bonificado, e em nome de ambos é um: assim como a grandeza, que segundo (sua) natureza é bonificável por bondade e é bonificada por infusão e bonificada pela razão da bondade.

4. Questão: Como a alma não é corpo nem a natureza do corpo, como pode ter quantidade?
Solução: A alma é uma criatura, e convém que toda criatura seja terminada e finita. E se fosse possível eliminar da alma a quantidade, até o ponto de não ter mais nenhuma, a alma não seria terminada, pois só existe uma substância infinita que é Deus, tal como havemos provado no Livro dos Artigos. Portanto, a alma possui quantidade para que não se siga o inconveniente acima dito, e aquela quantidade é do gênero espiritual, assim como a substância, e não é uma quantidade que se possa imaginar pela extensão, porque o entendimento não capta a quantidade da alma com a imaginação, com a qual capta a quantidade do corpo, antes a toma distintamente em si mesmo, sem que considere qualquer natureza ou condição corporal.

5. Questão: Como a bondade da memória, do entendimento e da vontade são uma por essência, e o mesmo da grandeza e dos outros princípios das potências, como as potências podem ter diferença por essência?
Solução: São diferentes na bondade — por diferença e não por essência — o bonificativo, o bonificável e o bonificar, porque a diferença não diversifica a essência da bondade, mas diversifica um concreto do outro. De maneira semelhante, as três potências da alma não são diferentes por essência, porque todas são de uma (mesma) alma e da essência daquela, e todas são dos mesmos princípios.

Mas porque aí existe diferença, são diferentes por ela e pela sua essência, que tem o ofício de diferenciar, por que em uma substância existem muitas coisas e muitos fins. E por isso, uma é a bondade da memória, outra a bondade do entendimento, e outra a bondade da vontade, mas sem diferença, (pois) as três bondades não são mais (do que) uma bondade por espécie e por essência.

6. Questão: Tem o entendimento agente — ou o entendimento possível — a espécie que o entendimento multiplica e ganha ou tem ambos?
Solução: O ato possui a potência e o objeto, assim como o pai e a mãe: ambos têm o filho. O pai pela maneira da ação e a mãe pela maneira da passividade. E se a mãe o tivesse pela maneira da ação, converteria seu hábito passivo em ativo, a qual coisa é impossível.

7. Questão: A espécie que o entendimento deixa quando a memória esquece possui algum sujeito onde se sustente?
Solução: A figura do prego que o ferreiro faz do ferro e com o martelo imprime no prego é a criatura, e é feita do ferro, de potência em ato, com a vontade e o entendimento do ferreiro e com o movimento do martelo e do prego. E como o prego é corrompido ou do ferro é feita a agulha ou outra coisa, (isto) acontece em privação, porque a finalidade para a qual foi criada foi completa, e, por isso, não existe sujeito que a sustente após a corrupção do prego.

8. Questão: Quando o entendimento não é de natureza corporal nem é corpo, como pode, para entender, ter espécie de corpo?
Solução: O homem é feito de alma e de corpo. Portanto, convém que a alma e o corpo sejam partes unidas e conjuntas uma na outra, porque assim como a sensitiva do cavalo move a vegetativa a vegetar, ainda que sejam diferentes por espécie, e aquela pode mover por conjunção de ambas espécies pelo fim de sentir, a qual coisa é necessária — vegetar no cavalo para que viva disso que come e bebe —, assim o entendimento, que é conjunto com o corpo, move o corpo a sentir, e daquele sentimento tira a semelhança do corpo e a depura na imaginação, na qual faz a espécie que é a figura do corpo.

Assim, na imaginação, a espécie do corpo tem o entendimento. Como no espelho, onde as espécies recebem as substâncias de fora com o sentido do olhar, o qual sentido é diferente, como no espelho, pela diferença de animal e não de animado.

9. Questão: A alma que está em pecado, pode ter Deus em si mesma?
Solução: Nesta vida, toda a alma que recebe Deus, o recebe por espécie, e a alma justa O recebe com graça e na finalidade para a qual é criada. A alma injusta O recebe pelo contrário, pela qual contrariedade pode recebê-Lo enquanto pode entendê-Lo e lembrá-Lo por espécie, não por amá-Lo, porque se ela (O) recebesse por amá-Lo não seria injusta, e pode recebê-Lo para lembrá-Lo e entendê-Lo, porque a liberdade se comunica à memória e ao entendimento, pois cada uma é naturalmente potência livre, assim como é boa e grande. Mas, segundo a moralidade da virtude, a liberdade não se comunica com a bondade, a memória e o entendimento com bondade, porque aquela comunicação seria boa, e se boa, virtuosa, e isso é impossível.

VI. Da terceira espécie da segunda parte

Questão: O que a alma tem em outro?
Solução: Existe diferença entre a alma e os costumes, pois a alma é substância e os costumes são acidentes. Existem costumes bons e maus na alma, assim como a alma de Guilherme, que é justa se sua justiça é boa, e injusta se sua injúria é má.

2. A alma existe no corpo que se estende, assim como o corpo do infante que cresce, e neste crescimento do corpo ela se estende, pois está conjunta com todo o corpo; e aquela extensão não é de sua natureza, mas (a alma) a tem por causa do corpo, assim como a água aquecida pelo fogo, que esquenta a carne no óleo, a qual não é própria a esquentar.

E porque a alma não possui extensão em sua natureza, quando o corpo perde algum membro ou vem a declinar por velhice, por tudo isso a alma não é divisível nem menorificável, porque sua natureza permanece e está segundo o que existe em si mesma.

3. A alma está no corpo com o qual é conjunta, vegetando e sentindo nele, porque ela move a vegetativa a vegetar e a sensitiva a sentir, assim como no corpo a vontade é movente, que faz mover o escritor, o falante ou o viajante de um lugar a outro. Por isso, diz o homem que a alma racional incita o corpo ao movimento, e é a forma daquele (corpo) enquanto move as suas partes a seus fins naturais, assim como move os olhos a ver e a língua a gustar, e o mesmo das outras partes do corpo.

4. A alma está conjunta com o corpo na finalidade das substâncias corporais, instrumento para que aquelas substâncias atinjam seu fim, porque não a poderiam atingir sem ela, segundo o que já havemos dito. Por isso, a alma começa antes do corpo nos bons atos do homem que faz o bem, e o mesmo (acontece) se o homem faz mal segundo o pecado atual, não segundo o pecado original, do qual havemos falado nos Artigos, porque, naquele pecado, a alma está em má culpa, segundo o que havemos provado naquele Livro.

5. É a alma, no corpo, movida de um lugar ao outro por aquele corpo, sucessivamente e no tempo, e não no instante. Isso é porque o corpo não é movido num instante e a alma em outro, pois é conjunta nele. Esta imagem aparece no homem que vai e o corpo está cansado de ir, não pela alma, porque a alma deseja que o corpo vá até o lugar que ela deseja; porque ela, movendo o corpo, move a si mesma naquele corpo, e se não fosse pelo corpo com o qual é conjunta, naquele instante em que desejasse estar em algum lugar ela estaria fora do corpo.

6. A alma é parte do homem em seu corpo, pois o homem existe de alma e de corpo. Por isso, existe em outro o que não existe em si mesma, porque em si mesma não é parte, mas é toda si mesma, e porque com o corpo constitui o homem, é parte no homem.

7. A alma é serva no homem, pois toda parte é serva de seu todo. Porque assim como a alma move o corpo a andar ou a sentir, a alma move o homem, que é sua parte, a desejar, lembrar e entender. E assim como o homem é branco ou negro pela cor, é livre para desejar, lembrar e entender pela alma.

8. A alma é glorificada por boas obras e por males atormentada, e é a alma apropriada por esta glorificação ou tormento segundo o fim ou segundo a privação. E, por isso, a existência da alma é sujeita àquela apropriação: assim como a substância do ar, que é sujeita ao aquecimento por deleitação natural, e a substância da água pelo contrário.

9. A alma é antiga pelo tempo, porque, pela razão do tempo que multiplica — pelo movimento do firmamento —, momentos, horas, dias, semanas, meses e anos, a alma existe em número de anos, segundo o que é principiada. E aquela antigüidade não é de sua natureza, mas lhe é qualidade apropriada pelo corpo daquela alma que participa com o firmamento sob a espécie do corpo, de natureza ou de movimento. Por isso, a alma é uma coisa em outra, a qual não é em si mesma.

10. Esvaziada, a alma está em privação de sua finalidade, isto é, a alma do pecador está desviada da finalidade para a qual existe. E aquele esvaziamento onde a alma está vazia, existe porque a alma não tem Deus, que é a sua finalidade, e ela é assim esvaziada espiritualmente por hábitos privados de suas potências, como seria o senso comum esvaziado dos hábitos de sentir se os objetos das suas potências particulares estivessem em privação. Assim como a visão é esvaziada sem os sentidos da cor, e a audição sem o ouvir, e assim dos outros. Desta matéria havemos falado muito claramente e em abundância na Árvore da Ciência.

Questão: A alma é totalmente boa ou má por moralidades?
Solução: A alma é boa de duas maneiras e má somente de uma maneira: é boa por criação — e aquela bondade é natural —, e é boa por bons costumes, e aquela bondade é ganha e existe segundo sua finalidade. E quando tem maus costumes, isto é, costumes de pecado, a alma é má por razão do desvio de sua finalidade pelos maus costumes. Por isso, a alma que é boa por costumes, é toda boa: é boa por bondade natural e por bondade de sua finalidade. E se está em pecado e dela são privados os bons costumes, permanece boa segundo a sua natureza, e é toda má segundo os costumes, pois bondade e maldade, isto é, maldade de culpa, são contrários circularmente.

2. Questão: A alma existe toda em cada uma das partes do corpo?
Solução: A alma, segundo sua qualidade apropriada pelo corpo — assim como extensão e antigüidade, e assim dos outros que havemos dito —, não existe toda em cada uma das partes do corpo, porque se o fosse, estariam nela qualidades próprias e apropriadas, uma mesma coisa em nome e em espécie, a qual coisa é impossível. Mas porque a alma não tem divisibilidade nem quantidade corporal extensa por si mesma, existe toda em cada parte do corpo, porque a sua bondade natural não é uma e é por toda a substância.

Portanto, convém que (a alma) esteja por todo o corpo, pois se estivesse em uma parte e não em outra, a alma estaria numa parte e não em outra, e se uma parte da bondade natural da alma estivesse na cabeça e outra no corpo, a alma seria naturalmente divisível e possuiria extensão corporal. Portanto, segundo a sua natureza, a alma existe toda em cada parte do corpo, e não toda segundo a natureza do corpo.

3. Questão: A alma conjunta com o corpo é simples?
Solução: O dinheiro é de prata e de ouro. É de prata e de ouro em espécie simples de si mesma, e o terço, que é o dinheiro, existe daqueles dois e passa a ter o nome de terço, que é simples, porque é de duas espécies simples.

Por isso, o dinheiro não é ouro, nem prata, nem a espécie de nenhum daqueles, e por isso é simples enquanto nome especial multiplicado de muitos. De maneira semelhante, a alma é simples no corpo por sua simplicidade natural, e é composta naquele enquanto dela e dele multiplica um que é simples, por individualidade e por nome, que é o homem Martinho, o Pai ou outro.

4. Questão: A alma existe pela geração do corpo criado, isto é, seu princípio é conseqüência e princípio do corpo antecedente?
Solução: A alma é mais nobre substância que o corpo, e por isso possui mais nobre fim; porque, por razão de sua finalidade, o princípio da alma é antecedente, e o princípio do corpo conseqüente, ainda que o corpo seja antes que a alma no tempo: assim como a flor que existe na árvore antes que o fruto, mas, segundo seu fim, o fruto existe antes na árvore que a flor, pois é flor para que seja fruto.

5. Questão: A alma é colocada no corpo?
Solução: Assim como não convém à alma lugar corporal segundo a sua natureza, nem a extensão corporal, antigüidade do tempo ou sucessão em movimento de um lugar ao outro, assim lhe convém estas qualidades segundo o corpo e segundo aquela colocação, porque se não estivesse no lugar onde está o corpo, (a alma) não poderia estar conjunta com ele.

6. Questão: A alma é criada no instante ou no tempo?
Solução: Nenhuma criatura pode ser criada sucessivamente, porque se o fosse, o instante não estaria em criação na frente da sucessão, e não seria a criação de não-coisa em coisa criada, a qual coisa é impossível. E porque a alma não possui extensão corporal simplesmente, não pode ser sujeita à sucessão do tempo. Portanto, (a alma) foi criada, no instante, que é o primeiro princípio e término da sucessão temporal.

7. Questão: A alma existe no céu imperial glorificável?
Solução: A alma existe no céu imperial glorificável segundo a nobreza do lugar, e aquela glorificabilidade do lugar lhe é assim apropriada nas boas obras proporcionadas pela espécie de bondade e de nobreza, como lhe é apropriada a sucessão e a antigüidade por tempo e movimento, segundo o que já havemos dito. Mas porque é glorificada propriamente segundo seus bons méritos, pode ser glorificada em todo lugar no qual tenha aqueles bons méritos. Por isso simplesmente, os anjos que caem não possuem menos glória aqui embaixo do que lá em cima no céu imperial.

8. Questão: A alma é atormentada no fogo infernal?
Solução: O fogo infernal é contra a proporção da alma, mas o fogo que está naquele lugar concorda com a alma, o céu imperial e seu esplendor. Isso é porque a alma danada foi primeiramente proporcionada segundo o céu imperial e depois jogada no fogo infernal. Por isso, o fogo infernal e o lugar atingem a proporção e disposição da alma contra a substância e os princípios naturais daquela e aquele tormento, segundo a maneira que havemos dito.

9. Questão: A alma conjunta é atormentada no corpo?
Solução: O homem que tem grande sede, grande calor, dor ou fedor, sente aquela paixão, e enquanto é forma do corpo a alma faz aquela paixão sentir, segundo o que já havemos dito. E porque possui concordância natural com o corpo em constituir o homem, que é a sua finalidade, existe na alma paixão quando move o corpo à paixão, e assim acontece a corrupção do corpo e a separação de ambos. Mas porque a alma não é da natureza do corpo, pela simples paixão daquele ela não é simplesmente atormentada.

10. Questão: A alma é predestinada à justiça?
Solução: A alma é criada tanto para a finalidade da justiça de Deus quanto para a divina bondade. A justiça divina é tão lembrável, inteligível e amável pela alma quanto a divina bondade. Portanto, (a alma) é tão predestinada para a justiça divina como para a divina bondade, e assim como a alma é punível porque faz maldade e está em pecado contra a divina bondade, assim ela (também) é punida quando faz injúria contra a justiça de Deus. Por isso, quando está em pecado, submetida à razão da bondade e justiça divina, a alma é condenável, e, por conseqüência, tormentável.

VII. Da quarta espécie da segunda parte

Questão: Alma, o que existe no outro?
Solução: Alma, se és justa, tens a sua finalidade em Deus, e se és injusta tens privação de sua finalidade na ausência de Deus. Por isso, está completa pela presença de Deus e naquela presença tem repouso, e pela ausência de Deus é esvaziada, e os seus princípios naturais requerem e não podem ter a finalidade para a qual foi criada, e estão esvaziados e em trabalho.

2. A alma justa possui méritos de bem nas boas obras que faz, e se faz más obras, possui méritos de mal. Por isso, as moralidades são sujeitos nos quais a alma possui méritos, e segundo aqueles sujeitos, se são grandes ou pequenos, os seus méritos são quantificados.

3. Naturalmente a alma tem senhorio sobre o corpo, e isso existe porque é mais nobre substância que o corpo. E porque lhe dá forma naturalmente, deve ser dona dos costumes daquele corpo, isto é, ver, ouvir, cheirar, provar, falar e tocar; e se é dona dos seis sentidos acima ditos, possui culpa na privação de seu senhorio, e possui pena naquela culpa.

4. A alma tem os objetos de fora nos objetos de dentro, assim como a qualidade de lembrar que possui o cavalo, os dinheiros ou o castelo, a qual tem pela qualidade de lembrar o que está dentro, e esta qualidade é da essência de sua memória. O mesmo (acontece) com a inteligibilidade do cavalo, que percebe que o entendimento é possível na inteligibilidade de dentro. E o mesmo (acontece) com a amabilidade do cavalo, que tem a amabilidade de dentro, que é a matéria da vontade. Portanto, a alma tem os objetos secundários nos primeiros, e o mesmo dos atos secundários, os quais tem nos primeiros.

5. A alma possui na imaginativa as semelhanças ou espécies dos objetos secundários, assim como a alma que imagina a planta pela cor e figura, o fruto pelo sabor, e assim dos outros. E a imaginativa tem aquele imaginar e o coloca dentro com a sua semelhança através do entender, quando entende em abstrato a espécie da planta, cor ou sabor. Porém, o imaginar permanece fora, mas quando recebe a semelhança que entende — porque nenhuma alma pode imaginar a cor se não imagina o sujeito dela (e imagina o sujeito assim como imagina um cavalo branco) — o imaginar entra dentro do entender quando entende.

6. A alma possui no corpo os órgãos e instrumentos com os quais move as suas potências, assim como o coração, que é o órgão da vontade, e o cérebro, frente do entendimento e o que recebe a memória. No meio de ambos, a alma move a imaginativa a imaginar os objetos imagináveis.

7. Na sensitiva, a alma possui com a imaginativa os delitos ou as paixões do corpo, assim como o corpo que se sacia pelo falar, que é o quinto sentido, segundo o que havemos provado no Livro que havemos feito. E a alma tem aquele deleite em sua memória com o deleite de amar e entender. E se o corpo tem dor, grande fome, sede, calor ou frio, tem aquela dor ou tristeza em sua recordação, com a qual tristeza de ira deseja a alma os ossos daquele corpo.

8. Quando se parte do corpo, a alma tem tristeza com essa morte, pois é parte do corpo. Nessa separação, ela é a parte mais nobre para a finalidade do todo do que para a finalidade de si mesma, porque se não o fosse, a alma não teria tristeza em sua separação do corpo.

9. A alma possui prática nas artes liberais mecânicas, segundo o temos experiência, porque através delas move o corpo a praticar, como a vontade que move a mão a escrever. Por isso, (a alma) deu ao homem o entendimento prático, que tem espécies a praticar, e com aquelas espécies o corpo tem a prática enquanto se move aos instrumentos daquela prática.

10. A alma possui inclinação aos pais do corpo com o qual é conjunta, assim como a alma de Martinho, que possui diligência na utilidade do filho de Martinho ou de seu amigo. E se o filho de Martinho possui paixão, a alma de Martinho tem paixão na paixão do filho de Martinho.

Questão: A alma possui movimento no corpo, no instante ou no tempo?
Solução: Nenhuma alma conjunta tem movimento sucessivo em si mesma. Mas enquanto se move no corpo, movendo o corpo de um lugar ao outro, tem através do corpo movimento sucessivo e em tempo, e que não pode ser movido em um instante sucessivamente. Por isso, a alma separada, que se move de um lugar ao outro, move-se em um instante sem sucessão, e tem aquele movimento em um instante pela vontade, que em um instante deseja ser movida de um lugar ao outro.

2. Questão: Quando é movida de um lugar ao outro, por si mesma ou por outro, a alma possui partes que vão na frente e outras que vão atrás?
Solução: Enquanto si mesma, a alma simplesmente não possui partes que sigam na frente nem atrás, porque se as tivesse seria (um) corpo. Mas, segundo sua razão, os corpos possuem partes que vão na frente e outras atrás, segundo o que temos experiência, e a alma tem aquelas partes enquanto lhes dá forma e as ordena ao fim para os quais existem.

Assim como na vida do homem, em que as partes da vegetativa estão antes da sensitiva, porque existe antes o vegetar que a sensação, e o aquecer que o ver; e isto é o contrário no ato de praticar o entendimento prático, porque (o homem) atinge antes o imaginar pela sensação do que pelo vegetar, e isso é porque o entendimento não pode atingir o vegetar sem sentir, e atingir o sentir sem vegetar, assim como Martinho, que vê a pedra ou outra substância não vegetada.

3. Questão: Existe diferença que seja ente positivo entre a alma e o anjo?
Solução: Entre a alma e o anjo existe (uma) diferença real: enquanto a alma é parte do homem e o homem é a finalidade pela qual existe a alma, o anjo não é parte do homem, nem o homem é a finalidade do anjo. Esta diferença real e positiva é uma parte da alma sustentada no homem; outra parte é sustentada no anjo. E aquela que é sustentada no homem é parte do homem, e a sustentada no anjo é parte do anjo, e cada parte é ente positivo e real.

Mas a diferença que o homem diz que existe entre o anjo e a alma, não é ente positivo real, mas espécie fantástica que faz o entendimento de ambas as partes positivas acima ditas, consideradas por aquela espécie comum. E se aquela espécie comum fosse ente positivo real, seria composta de ambas as partes, e o anjo e a alma estariam sob uma mesma espécie, assim como estariam sob uma diferença, a qual coisa é impossível.