
Àngel de Luna, Barcinone 1934.
Deus, com a ajuda de Tua graça
e amor, começa a Arte Breve, que é imagem da
Arte Geral, assim intitulada: “Deus, com a ajuda de Tua
suprema perfeição, começa a Arte Geral”.
Prólogo
A razão pela qual fazemos esta
Arte Breve é para que a Arte Magna seja mais
facilmente conhecida, pois se se conhece esta, tanto a Arte
supracitada como as outras artes podem ser conhecidas e aprendidas com
facilidade.
A finalidade dessa Arte é
responder a todas as questões, sempre que se saiba o significado
de cada termo.
Este livro se divide em treze partes,
à similitude da Arte Magna. A primeira parte trata do
alfabeto; a segunda das figuras; a terceira das definições;
a quarta das regras; a quinta da tábula; a sexta da evacuação
da terceira figura; a sétima da multiplicação da
quarta figura; a oitava da mescla dos princípios e das regras;
a nona dos nove sujeitos; a décima da aplicação;
a décima-primeira das questões; a décima-segunda
do hábito; a décima-terceira da maneira de se ensinar
esta Arte.
Assim, começaremos pela primeira
parte.
Da Primeira Parte, que trata
do alfabeto dessa Arte
Colocamos um alfabeto nessa Arte para com
ele poder fazer figuras e mesclar princípios e regras para investigar
a verdade, já que por meio de uma letra que possui muitos significados,
o intelecto é mais geral para receber muitos significados
e fazer ciência. Convém saber de memória este alfabeto,
já que de outro modo o artista dessa Arte não
poderá aplicá-la bem.
O Alfabeto
B significa
bondade, diferença, se?, Deus, justiça e avareza.
C significa magnitude, concordância, que?, anjo,
prudência e gula.
D significa eternidade ou duração, contrariedade,
de que?, céu, fortaleza e luxúria.
E significa poder, princípio, por que?, homem,
temperança e soberba.
F significa sabedoria, meio, quanto?, imaginativa, fé
e acídia.
G significa vontade, fim, qual?, sensitiva, esperança
e inveja.
H significa virtude, maioridade, quando?, vegetativa,
caridade e ira.
I significa verdade, igualdade, onde?, elementativa,
paciência e mentira.
K significa glória, minoridade, como e com que?,
instrumentativa, piedade e inconstância.
Da Segunda Parte, que
trata das quatro figuras
1. Da primeira figura, significada por A
Figura A

Esta parte se divide em quatro partes, ou seja, em
quatro figuras. A primeira figura é a A. Esta
figura contém em si nove princípios, a saber, bondade,
magnitude, etc., e nove letras, ou seja, B, C,
D, E, etc. Esta figura é circular,
já que o sujeito se transforma em predicado e vice-versa, como
quando se diz: “a bondade é magna”, “a magnitude
é boa”, etc. Nessa figura o artista da Arte inquire
a conjunção natural entre o sujeito e o predicado, sua
disposição e proporção, para que possa encontrar
o meio termo que lhe permita chegar à conclusão.
Qualquer princípio tomado em si mesmo é
absolutamente geral, como quando se diz “bondade” ou “magnitude”.
Mas quando um princípio se refere a outro, é subalterno,
como quando se diz “bondade magna”, etc. E quando algum
princípio se refere a algo singular, então é um
princípio especialíssimo, como quando se diz “a
bondade de Pedro é grande”, etc. E assim, o intelecto
dispõe de uma escala ascendente e descendente, de um princípio
absolutamente geral até um não absolutamente geral nem
absolutamente especial, e de um não absolutamente geral nem absolutamente
especial a um absolutamente especial. O mesmo se pode dizer do ascenso
dessa escala.
Nos princípios dessa figura se encontra incluído
tudo o que existe, pois tudo o que existe ou é bom, ou é
grande, etc., como Deus e o anjo, que são bons e grandes, etc.
Por isso, tudo o que é se pode reduzir aos supracitados princípios.
2. Da segunda figura,
significada por T
Figura T

A segunda figura se chama T, e contém
em si três triângulos, e qualquer deles é geral a
respeito de tudo o que existe.
1. O primeiro triângulo é
de diferença, concordância e contrariedade. Nele, à
sua maneira, entra tudo o que existe, pois tudo o que existe ou existe
em diferença, ou em concordância ou em contrariedade, e
não se pode encontrar nada fora desses princípios.
Convém saber que cada ângulo desse triângulo
tem três espécies, pois há diferença entre
o sensual e o sensual, como, por exemplo, entre a pedra e a árvore,
e também entre o sensual e o intelectual, como, por exemplo,
entre o corpo e a alma, e ainda, entre o intelectual e o intelectual,
como entre a alma e Deus, ou entre a alma e o anjo, ou ainda entre um
anjo e outro anjo, ou entre Deus e o anjo. O mesmo se pode dizer, à
sua maneira, da concordância e da contrariedade, e esta diferença
que há em qualquer ângulo desse triângulo é
uma escala do intelecto pela qual este ascende e descende para poder
encontrar um meio-termo natural entre o sujeito e o predicado e com
ele poder chegar a uma conclusão. O mesmo se pode dizer, a sua
maneira, da escala da concordância e da contrariedade.
2. Outro triângulo é
de princípio, meio e fim, e nele entra tudo o que existe, pois
o que existe ou existe no princípio, ou no meio, ou no fim, e
nada pode ser encontrado fora desses princípios.
No ângulo de “princípio”,
a causa significa causa eficiente, material, formal e final, enquanto
que por quantidade e tempo são significados os outros predicados
e tudo aquilo que se pode reduzir a eles.
No ângulo de “meio”, há três
espécies de meio, como, por exemplo, meio de conjunção,
que existe entre o sujeito e o predicado, como quando se diz “o
homem é um animal”, pois entre o homem e o animal há
meios-termos. Por exemplo, a vida e seu corpo, sem os quais o homem
não pode ser animal. Do mesmo modo, há um meio-termo mensurável,
que existe pelo ato que há entre o agente e o agível,
como o amar se encontra entre o amante e o amável. Todavia, há
um meio de extremidades, como a linha que há entre dois pontos,
e esse ângulo de meio é uma escala geral do intelecto.
Três são as espécies do ângulo
de “fim”. A primeira é do fim da privação,
que significa hábito privativo, e as coisas que estão
no tempo pretérito. A segunda espécie é a do fim
do término, que significa os limites, como os dois pontos nos
quais acaba uma linha, ou como o amar no amante e o amado. A terceira
espécie é a do fim da perfeição, que é
o fim último, como o caso do homem que existe para multiplicar
sua espécie e para entender, amar e recordar Deus, e para outras
coisas do mesmo tipo. Este ângulo é uma escala geral do
intelecto.
3. O terceiro triângulo é
de maioridade, igualdade e minoridade, e é geral a todas as coisas
conforme sua maneira, pois tudo o que existe ou existe em maioridade,
ou em igualdade, ou em menoridade. A maioridade tem três espécies.
A primeira é quando há maioridade entre substância
e substância, como, por exemplo, a substância do céu,
que é maior que a substância ígnea. A segunda espécie
é quando há maioridade entre substância e acidente,
como a substância, que é maior que sua quantidade, já
que a substância existe por si mesma, mas não ocorre o
mesmo com o acidente. A terceira espécie é quando há
maioridade entre acidente e acidente, como o entender, que é
maior que o ver, e o ver é maior que o correr. O mesmo que se
disse da maioridade se pode dizer da minoridade, pois ambas guardam
relação.
O ângulo de “igualdade” tem três
espécies. A primeira é quando as coisas são substancialmente
iguais, como Pedro e Guilherme, que são iguais em substância.
A segunda é quando a substância e o acidente se igualam,
como a substância e sua quantidade. A terceira é quando
existe igualdade entre o acidente e o acidente, como entender e amar,
que são iguais em seu objeto. Este ângulo é escala
do intelecto, pelo qual se ascende e descende, como já se
disse dos outros triângulos. E quando o intelecto ascende aos
objetos gerais, é geral, mas quando descende aos particulares,
é particular.
Esta figura T serve à primeira
figura, pois mediante a diferença se distingue bondade de bondade,
bondade de grandeza, etc. E por esta figura, unida à primeira,
o intelecto adquire a ciência, e ao ser geral esta figura,
o intelecto é geral.
3. Da terceira figura
Terceira figura

A terceira figura é composta a partir da primeira
e da segunda, pois a B que lhe é própria
equivale à B que está na primeira e na
segunda figuras. O mesmo ocorre com as outras letras.
Esta figura tem trinta e seis câmaras, como se
pode ver. Qualquer de suas câmaras possui muitos e diversos significados,
de acordo com as duas letras que contêm. Assim, a câmara
BC tem muitos e diversos significados em virtude das letras B
e C. Igualmente a câmara BD
tem muitos e diversos significados, em virtude das letras B
e D, etc. Isso já se percebe no alfabeto anteriormente
apresentado.
Cada câmara contém duas letras, que significam
o sujeito e o predicado nos quais o artista da Arte busca o
meio-termo com o qual possa unir o sujeito e o predicado, como no caso
da bondade e da grandeza, que se unem mediante a concordância,
e do mesmo modo as outras dignidades. Com esse meio-termo, o artista
tenta concluir e declarar a proposição.
Nesta figura cada princípio é atribuído
a qualquer outro princípio. Como B, que é
atribuído C, D, etc.; e a C
é atribuído B, D, etc.,
conforme aparece na figura. Isso é assim para que o intelecto
conheça qualquer princípio com todos os princípios,
a fim de que deduza muitas razões para a mesma questão.
Desejamos dar um exemplo disso a respeito da bondade,
que tomamos como sujeito, e o resto dos princípios como predicado:
a bondade é grande, a bondade é durável, a bondade
é poderosa, a bondade é cognoscível, a bondade
é amável, a bondade é virtuosa, a bondade é
verdadeira, a bondade é gloriosa, a bondade é diferente,
a bondade é contrária, a bondade é princípio,
a bondade é média, a bondade é finita, a bondade
é maiorificante, a bondade é igualante, a bondade é
minorificante. E como dizemos sobre a bondade, o mesmo se pode dizer
dos outros princípios, cada um à sua maneira.
Essa figura é muito geral e, com ela, o intelecto
é muito geral para fazer ciências.
A condição dessa figura é que
uma câmara não seja contrária à outra, mas
que concordem mutuamente na conclusão. Por exemplo, que a câmara
BC não seja contrária à câmara
BD, e o mesmo para as outras câmaras. Com essa
condição, o intelecto se condiciona e faz ciência.
4. Da quarta figura
Quarta figura

A quarta figura tem três círculos, dos
quais o superior é imóvel e os dois inferiores móveis,
como aparece na figura.
O círculo do meio gira sob o círculo
superior imóvel, e assim se coloca, por exemplo, C
sob B. O círculo inferior gira sob o círculo
do meio, e assim se coloca D sob C.
Então se formam nove câmaras: BCD é
uma, CDE é outra, etc. Continuando, ponha E
do círculo menor sob C do círculo médio,
e então se formam outras nove câmaras: BCE
é uma câmara, CDF, etc. E quando todas
as letras do círculo menor tenham discorrido com B
do círculo maior e com C do círculo médio,
C estará entre B e D,
já que B e D participam mutuamente
nos significados de C; e o mesmo com as outras câmaras. E assim,
por meio das câmaras, o homem busca as conclusões necessárias
e as encontra.
Novamente façam discorrer as letras com B
do mesmo círculo maior e com D do círculo
do meio, e o mesmo com as outras letras do círculo do meio e
do círculo inferior, mudando enquanto B do círculo
maior permanece imóvel até que chegue com B
do círculo maior, I do círculo do meio
e K do círculo inferior. Assim terá duzentas
e cinqüenta e duas câmaras.
Esta figura é mais geral que a terceira, já
que em qualquer compartimento dessa figura há três letras,
enquanto que em qualquer compartimento da terceira figura há
somente duas letras. Por isso, o intelecto é mais geral pela
quarta figura que pela terceira.
É próprio da condição da
quarta figura que o intelecto aplique a seu propósito as letras
que parecem mais aplicáveis. Uma vez feita a câmara de
três letras, se deve receber os significados das mesmas, considerando
a conveniência que existe entre sujeito e predicado, e evitando
a inconveniência. Com essa condição, o intelecto
faz ciência mediante a quarta figura, e dispõe de muitas
razões para uma mesma conclusão.
Tratamos das quatro figuras que convém saber
de memória, e sem as quais o artista não pode usar nem
praticar bem esta Arte.
Da Terceira Parte, que trata
das definições dos princípios
Nesta Arte se definem seus princípios
para que sejam conhecidos mediante essas definições, e
para que sejam utilizados, afirmando ou negando, mas de tal maneira
que as definições permaneçam invariáveis,
pois com tais condições o intelecto faz ciência,
encontra meios-termos e foge da ignorância, que é sua inimiga.
1. Bondade
é o ser em razão do qual o bom faz o bem.
2. Grandeza é aquilo em
razão do qual a bondade e a duração são
grandes.
3. Eternidade ou duração
é aquilo em razão da qual a bondade e os demais princípios
duram.
4. Poder é o ser em razão
do qual a bondade e os demais princípios podem existir e agir.
5. Sabedoria é aquilo em
razão do qual o sábio entende.
6. Vontade é aquilo em
razão da qual a bondade, a grandeza, etc., são amáveis
ou desejáveis.
7. Virtude é a origem da
união da bondade, da grandeza, etc.
8. Verdade é aquilo que
é verdadeiro de bondade, de grandeza, etc.
9. Glória é o mesmo
deleite no qual a bondade e os demais princípios repousam.
10. Diferença é
aquilo em razão da qual a bondade e os demais princípios
são razões inconfusas ou claras.
11. Concordância é
aquilo em razão do qual a bondade e os demais princípios
concordam em um e em vários.
12. Contrariedade é a mútua
resistência de alguns seres à causa de seus diversos fins.
13. Princípio é
aquilo que guarda relação com tudo em razão de
alguma prioridade.
14. Meio é o sujeito em
que o fim influi no princípio e o princípio reflui no
fim e conhece a natureza de ambos.
15. Fim é aquilo em que
repousa o princípio.
16. Maioridade é a imagem
da imensidão da bondade, da grandeza, etc.
17. Igualdade é o sujeito
em que repousa o fim da concordância da bondade e dos demais princípios.
18. Menoridade é o ser
próximo ao nada.
Tratamos das definições dos princípios
que convém saber de memória, pois se ignoram as definições
não se pode ensinar a Arte.
Da Quarta Parte, que trata
das regras
As regras dessa Arte são as dez questões
gerais que se reduzem a todas as outras questões que podem ser
feitas. E são as seguintes: (B) Se é?
(C) O que é? (D) De que é?
(E) Por que é? (F) Quanto é?
(G) Qual é? (H) Quando é?
(I) Onde é? (K-1) Como é?
(K-2) Com que é?
Cada uma dessas questões tem suas espécies:
B. “Se” tem três
espécies: duvidativa, afirmativa e negativa, para que, no princípio,
o intelecto possa supor que ambas as partes são possíveis
e não se ligue com o “crer”, que não é
seu ato, mas com o “entender”. E assim, receba a parte com
a qual adquira um entender maior, pois esse deve ser o verdadeiro.
C. “Que” tem quatro espécies.
A primeira é definitiva, como quando se pergunta: que é
o intelecto? Deve-se responder que é aquela potência
à que lhe corresponde propriamente entender.
A segunda espécie é quando se pergunta:
o que o intelecto tem em si mesmo co-essencialmente? Deve-se responder
que ele tem seus correlativos, ou seja, o intelectivo, o inteligível
e o entender, sem os quais ele não pode existir. Além
disso, sem eles o intelecto seria ocioso e carente de natureza, de
fim e de repouso.
A terceira espécie é quando se pergunta:
que é um ser em outro?, e como quando se pergunta: que é
o intelecto em outro ser? Deve-se responder que ele é bom
quando entende na bondade, e grande quando entende na grandeza, etc.;
e na gramática é um intelecto gramatical, lógico
na lógica, retórico na retórica, etc.
A quarta espécie é quando se pergunta:
que tem um ser em outro?, e como quando se diz: que tem o intelecto
em outro ser? Deve-se responder que na ciência ele tem o entender,
e na fé o crer.
D. A regra “de que” tem
três espécies. A primeira é primitiva, como quando
se diz: de que é o intelecto? Deve-se responder que ele é
de si mesmo, pois não deriva naturalmente de nada geral.
A segunda espécie é quando se pergunta
particularmente: de que consta o ente?, e como quando se pergunta: de
que consta o intelecto? Deve-se responder que ele consta de sua forma
e de sua matéria específicas e com as quais tem um entender
específico.
A terceira espécie é quando se pergunta:
de quem é o ser?, e como quando se pergunta: de quem é
o intelecto? Deve-se responder que ele é do homem, como a
parte é de seu todo e o cavalo é de seu dono.
E. A quarta parte tem duas espécies:
formal e final. Formal quando se pergunta: Por que existe um ente?,
e como quando se pergunta: por que existe o intelecto? Deve-se responder
que ele existe por sua forma e matéria específicas, com
as quais tem um intelecto específico e com elas obra por sua
espécie.
A segunda espécie se refere ao fim, como quando
se pergunta: por que existe o intelecto? Deve-se responder: para
que existam objetos inteligíveis, ou para que se possa ter ciência
das coisas.
F. A quinta regra pergunta sobre a
quantidade, e tem duas espécies. A primeira é quando se
pergunta pela quantidade contínua, como quando se diz: quão
grande é o intelecto? Deve-se responder que o é tanto
como pode sê-lo por quantidade espiritual, mas não à
maneira dos pontos ou das linhas.
A segunda espécie é quando se pergunta
pela quantidade discreta, como quando se diz: quão grande é
o intelecto? Deve-se responder que o é tanto como o são
seus correlativos, que difundem e sustentam sua essência, isto
é, o intelectivo, o inteligível e o entender. Com eles,
ele é teórico e prático, geral e particular.
G. A sexta regra considera a qualidade,
e tem duas espécies. A primeira é quando se pergunta:
qual é a qualidade própria e primária do intelecto?
Deve-se responder que é a inteligibilidade com a qual se reveste.
Mas o entender extrínseco é uma propriedade secundária
e mais remota, mediante a qual o mesmo intelecto conhece o homem,
o leão, etc., e dele o entender intrínseco e substancial
se reveste com o mesmo intelecto. O mesmo ocorre com o inteligível
extrínseco.
A segunda espécie é quando se pergunta
pela qualidade apropriada, como quando se pergunta: qual é a
qualidade apropriada do mesmo intelecto? Deve-se responder que é
o crer, o duvidar ou o supor, pois é o entender, e não
estes atos, que convêm propriamente ao intelecto.
H. A sétima regra pergunta
sobre o tempo, e tem quinze espécies significadas pela regra
C D K, como se mostra na Arte Magna. Mas como
essa Arte é breve, tratamos dessa regra com poucas palavras,
como quando se pergunta: se não é pontual ou linear, de
que maneira o intelecto está no tempo? Deve-se responder que
o intelecto está no tempo porque tem um início e é
criado, e permanece sucessivamente no tempo mediante o movimento do
corpo com o qual se encontra unido.
I. A oitava regra pergunta sobre o
lugar e tem quinze espécies, significadas pela regra C
D K, segundo se mostra na Arte Magna, como quando
se pergunta: onde está o intelecto? Deve-se responder brevemente
que ele está no sujeito no qual se encontra, como a parte está
em seu todo, mas não está encerrado, mas difuso nele,
pois o intelecto não tem uma essência pontual, nem linear,
e tampouco tem superfície.
K contêm duas regras: modal
e instrumental. K-1. A regra modal tem quatro espécies,
como quando se pergunta: como existe o intelecto?, e como a parte
está na parte?, e as partes no todo?, e o todo em suas partes?,
e como ele transmite sua semelhança para fora de si? Deve-se
responder que o intelecto existe subjetivamente, conforme o modo
no qual é deduzido mediante as espécies indicadas, e entende
objetivamente de acordo com seu modo de operar, isto é, encontrando
o meio termo que existe entre o sujeito e o predicado (e que está
indicado nas figuras), multiplicando as espécies novas abstraídas
do sentido e da imaginação, que são caracterizadas
e entendidas em seu próprio inteligível.
K-2. A segunda regra de K
tem quatro espécies, ou seja, quando se pergunta: com o que existe
o intelecto?, e com o que está a parte na parte?, e as partes
no todo?, e o todo em suas partes?, e com o que transmite sua semelhança
ao exterior? Deve-se responder que o intelecto existe com seus correlativos,
sem os quais não pode existir nem entender, e assim entende com
as novas espécies com as quais faz instrumento para entender.
Tratamos das regras. Com elas, o intelecto resolve
questões, deduzindo-as mediante as regras, considerando subjetivamente
o que significa a regra e suas espécies, e contemplando a questão
à luz dos princípios e das regras, de maneira que o intelecto
coloque objeções a toda questão duvidosa mediante
as definições dos princípios, e eleja, entendendo
inteligivelmente a afirmativa ou a negativa. Assim o intelecto se
distancia da dúvida.
Da Quinta Parte, que trata
da Tábula

Este tábula é o sujeito no qual o intelecto
se faz universal, pois entende e abstrai dele muitos particulares de
todas as matérias, discorrendo objetivamente os particulares
à luz dos princípios e subjetivamente à luz da
regras, aplicando a cada questão vinte razões que expliquem
a mesma questão, e de cada câmara de uma mesma coluna se
abstraia uma razão.
A tábula tem sete colunas, como se pode ver,
e nelas se encontram implícitas as oitenta e quatro colunas expostas
na Arte Magna. Neste tábula, a letra T
indica que as letras que estão diante dela são da primeira
figura, e as que estão detrás são da segunda figura.
Mediante este tábula, o intelecto é
ascendente e descendente. É ascendente porque ascende às
coisas primeiras e mais gerais; é descendente porque descende
às últimas e particulares. Além disso, ele une,
pois junta as colunas. Por exemplo, a coluna BCD se
une à coluna CDE, e o mesmo com as restantes.
Da Sexta Parte, que trata
da evacuação da terceira figura
Na terceira figura o intelecto evacua os compartimentos,
já que abstrai deles tudo o que pode, recebendo de qualquer compartimento
os significados das letras para aplicá-los a seu propósito.
Assim, se torna aplicativo, investigativo e inventivo. Ofereceremos
um exemplo em uma câmara, e o modelo nela exposto poderá
ser aplicado igualmente às restantes.
Do compartimento BC o intelecto
extrai doze proposições, dizendo assim: a bondade é
grande, a bondade é diferente, a bondade é concordante;
a grandeza é boa, a grandeza é diferente, a grandeza é
concordante; a diferença é boa, a diferença é
grande, a diferença é concordante; a concordância
é boa, a concordância é grande, a concordância
é diferente. Uma vez feitas essas doze proposições,
substituindo o sujeito pelo predicado, e ao contrário, se pode
dizer que se evacuou o compartimento com estas proposições.
Depois, o intelecto deve evacuá-lo com doze
termos médios. Chamam-se termos médios porque se encontram
entre o sujeito e o predicado, com quem convêm em gênero
e espécie. Com estes termos médios o intelecto se torna
disputativo e determinativo, como quando se diz: “tudo o que é
magnificado pela grandeza é grande. A bondade é magnificada
pela grandeza, logo, a bondade é grande”. O mesmo ocorre
com os demais casos.
Após essa evacuação, o intelecto
deve evacuar o mesmo compartimento com vinte e quatro questões,
já que em cada proposição há duas questões
implícitas, da seguinte maneira:
“A bondade é grande”, “é
a bondade grande?”, “que é a bondade grande?”.
“A bondade é diferente”, “é a bondade
diferente?”, “que é a bondade diferente?”.
“A bondade é concordante”, “é a bondade
concordante?”, “que é a bondade concordante?”.
“A grandeza é boa”, “é a grandeza boa?”,
“que é a grandeza boa?”.
“A grandeza é diferente”, “é a grandeza
diferente?”, “que é a grandeza diferente?”.
“A grandeza é concordante”, “é a grandeza
concordante?”, “que é a grandeza concordante?”.
“A diferença é boa”, “é a diferença
boa?”, “que é a diferença boa?”.
“A diferença é grande”, “é a
diferença grande?”, “que é a diferença
grande?”.
“A diferença é concordante”, “é
a diferença concordante?”, “que é a diferença
concordante?”.
“A concordância é boa”, “é a concordância
boa?”, “que é a concordância boa?”.
“A concordância é grande”, “é
a concordância grande?”, “que é a concordância
grande?”.
“A concordância é diferente”, “é
a concordância diferente?”, “que é a concordância
diferente?”.
Feitas essas evacuações das questões,
o intelecto deve evacuar o compartimento com as definições
de bondade e de grandeza, e com as três espécies de diferença
e de concordância indicadas na segunda figura. Depois, deve evacuar
o compartimento com as três espécies da regra B
e com as quatro espécies da regra C. Uma vez
cumprida essa evacuação, o intelecto resolverá
as questões preditas naquela evacuação seguindo
as condições do compartimento, afirmando ou negando. E
assim, o intelecto expulsa as dúvidas do compartimento, e
nele repousa tranqüila e assertivamente. Além disso, se
reconhece muito geral e com artifícios, e dotado com grande ciência.
Da Sétima Parte,
que trata da multiplicação da quarta figura
A multiplicação da quarta figura consiste
em que o primeiro compartimento BCD na quarta figura
ou tábula significa que B tem uma condição
com C, e outra com D, e C
tem uma condição com B, e outra com D;
D tem uma condição com B
e outra com C. Assim, há neste compartimento
seis condições com as quais o intelecto se condiciona
e se dispõe a investigar e a encontrar, a opor, a provar e a
determinar.
Depois dessas seis condições, o intelecto
adquire outras seis, girando o círculo menor e colocando seu
E sob o C do círculo do meio,
e sob o qual se encontrava D. Assim, ao mudar o compartimento,
mudam as condições, e o intelecto assume doze condições.
O mesmo ocorre com os demais compartimentos quando se multiplicam as
colunas e as faz girar.
As condições que o intelecto multiplica
por este modo são difíceis de enumerar, pois de qualquer
compartimento o intelecto pode evacuar trinta proposições
e noventa questões, como no compartimento BC
da terceira figura há doze proposições e vinte
e quatro questões.
Desse modo, o intelecto conhece a si mesmo como
muito geral e artificial, e acima de qualquer outro intelecto que
ignore essa Arte que, por isso, é levado a muitos inconvenientes
e impossibilidades. Assim, o sofista não pode resistir diante
de um intelecto como esse, pois tal intelecto que é próprio
do estudante dessa Arte usa as condições primitivas
e naturais, enquanto o sofista usa as secundárias e consideradas
fora da natureza, como se mostra na Arte Magna.
Da Oitava Parte, que trata
da mescla dos princípios e das regras
Nessa parte, o intelecto mescla um princípio
com outro, discorrendo qualquer princípio a partir das definições
de todos os outros princípios, e a partir de todas as espécies
das regras. E graças a esse discurso, o intelecto adquire
conhecimento de qualquer princípio, e adquire um conhecimento
diferente do mesmo princípio tantas vezes quanto o mescla de
maneiras diferentes. E quem poderia enumerar tantos termos médios
como o intelecto encontra para chegar a uma conclusão, ao
evacuar esta mescla como evacuou o compartimento BC
conforme foi exposto anteriormente?
Esta mescla é o centro e o fundamento para encontrar
muitas proposições, questões e termos médios,
condições e soluções, e também objeções.
Mas prescindimos de exemplificá-la ao intelecto que intui
bem, por causa da brevidade e porque na Arte Magna se declara
e exemplifica a maneira dessa mescla.
Além disso, essa mescla é o sujeito e
o refúgio do artista dessa Arte, para que encontre nela
tudo o que queira conforme seu desejo. Pois, se necessita algo que seja
do gênero da bondade, deve fazer discorrer essa bondade por todos
os princípios e regras, e encontrará o que quiser entender
sobre ela. O mesmo que dissemos da bondade pode ser dito dos outros
princípios. Essa mescla é condicionada e ordenada, do
mesmo modo que uma coisa é distinta da outra. Pois se discorremos
sobre a divina bondade por princípios e regras, esse discurso
da divina bondade requer definições e espécies
de regras mais elevadas que o discurso da bondade do anjo, e o discurso
sobre a bondade do anjo requer uma elevação maior que
o discurso da bondade do homem; já o discurso da bondade do homem
requer uma elevação maior que o discurso da bondade do
leão, e o mesmo do resto, conforme seu próprio modo.
Da Nona
Parte, que trata dos nove sujeitos
Nessa parte se retomam os nove sujeitos indicados no
alfabeto e que englobam tudo o que existe, pois fora deles não
há nada. O primeiro sujeito é Deus, significado na letra
B. O segundo sujeito é o anjo, significado na
letra C. O terceiro sujeito é o céu,
significado na letra D. O quarto sujeito é o
homem, significado na letra E. O quinto sujeito é
imaginação, significado na letra F. O
sexto sujeito é a sensitiva, significado na letra G.
O sétimo é a vegetativa, significado na letra H.
O oitavo é a elementativa, significado na letra I.
E o nono e último é a instrumentativa, significado na
letra K.
Já que na Arte Magna cada sujeito foi
deduzido a partir dos princípios e das regras, evitaremos aqui,
aplicar-lhes novamente esse estudo, pois queremos fazer esta Arte
mais breve que aquela. Além disso, aquele estudo está
implícito nesta Arte. Por isso, deixamos ao intelecto
que intui bem, além do fato de o exemplo oferecido na terceira
figura ser suficiente, já que aplicamos todos os princípios
à bondade. E também aplicamos ao intelecto todas as
regras desta Arte.
Pensamos considerar estes sujeitos de acordo com quatro
condições, para que, graças a elas, o intelecto
seja condicionado a discorrer condicionalmente aos ditos sujeitos os
princípios e as regras, conforme a maneira em que cada sujeito
é condicionado por sua natureza e essência. Pois a divina
bondade tem uma condição em Deus, e a bondade angélica
outra no mesmo anjo, e assim sucessivamente, cada uma à sua maneira.
O mesmo ocorre com as regras.
A primeira condição é que cada
sujeito possua sua própria definição, condição
que é diferente de qualquer outro sujeito. E se é formulada
alguma questão sobre aquele sujeito, há de se responder
afirmando ou negando de tal maneira que as definições
dos princípios convenham com a definição do sujeito.
O mesmo com as regras, sem que ocorra algum prejuízo nos princípios
ou nas regras.
A segunda condição é que se conserve
a diferença entre os sujeitos tanto no juízo como na prática.
Por exemplo, como a divina bondade, que difere da bondade angélica
em infinidade e em eternidade, já que aquela bondade é
a razão pela qual Deus produz um bem infinito e eterno, enquanto
que a bondade angélica não é assim, pois é
finita e criada.
A terceira condição é que não
se destrua a concordância que existe entre dois sujeitos. Por
exemplo, como a concordância da espiritualidade que há
entre Deus e o anjo. O mesmo se pode dizer, à sua maneira, dos
outros sujeitos.
A quarta condição é que quanto
mais nobre e elevado seja um sujeito, deve-se-lhe atribuir princípios
e regras mais nobres e elevadas que a outro. Por exemplo, como Deus,
que é mais elevado e nobre que o anjo, etc., e o anjo mais que
o homem, e assim sucessivamente, cada um à sua maneira.
Do primeiro sujeito,
que trata de Deus, considerado a partir dos princípios
Deus pode ser considerado a partir dos princípios
e das regras, pois Deus é bom, grande, etc. Pode-se-Lhe aplicar
muitas definições, definindo-O de maneira ampla, mas aqui
Lhe aplicaremos uma: Deus é o ente que não necessita de
nada fora de Si mesmo, pois n’Ele todas as perfeições
se dão de maneira total.
Com essa definição, Deus se diferencia
de qualquer outro ente, pois o resto dos entes necessita de algo exterior
a eles.
Em Deus não existe nenhuma contrariedade nem
minoridade, pois estes são princípios privativos e defectivos.
Pelo contrário, em Deus existe maioridade se comparado aos outros
entes, e também existe igualdade em Si mesmo, pois possui princípios
iguais, como a bondade, a grandeza, etc., e iguais atos e relações.
Em Deus existe diferença de correlativos, já
que sem esta diferença os correlativos não podem existir,
e sem eles, Deus não pode ter ação intrínseca,
infinita e eterna. E mais: sem eles todas as suas razões seriam
ociosas, o que é absolutamente impossível.
Em Deus existe a concordância para, mediante
ela, distanciar-se infinita e eternamente da contrariedade, e para que
seus correlativos convenham infinita e eternamente em uma mesma essência
e natureza, e o mesmo se pode dizer de suas razões.
Em Deus não existe quantidade, tempo e nenhum
acidente, razão pela qual Sua substância está separada
e despojada de todo acidente, pois é infinita e eterna.
Uma vez condicionado Deus mediante as quatro condições
ditas acima, não há dúvida que o intelecto entende
a si mesmo condicionado para entender a Deus e o que d’Ele se
pode dizer pelos princípios e as regras apropriadas a Deus, e
também conhece e entende que se o anjo tem um poder natural em
si (e o mesmo dos outros sujeitos), muito mais o tem Deus, pois é
um sujeito mais elevado, como se depreende da prova “do menor
ao maior”.
Do segundo sujeito,
que trata do anjo
O anjo é deduzido a partir dos princípios
e das regras. Possui natural bondade, grandeza, duração,
etc., e se define assim: o anjo é espírito não
unido a um corpo.
Nele não existe contrariedade natural, pois
é incorruptível. Há nele matéria de –ble,
ou seja, de bonificável, magnificável, etc., conforme
está significado pela segunda espécie de D.
No anjo há maioridade, pois ele é mais
similar a Deus que o homem, já que possui princípios e
regras mais elevadas que este. E assim, o intelecto conhece que,
se o homem não pode relacionar-se com as coisas sensíveis
sem a mediação de seus órgãos, não
quer dizer que o anjo não possa fazê-lo sem órgãos,
já que a natureza do anjo é superior. Dessa maneira, o
intelecto conhece que os anjos podem falar entre si e atuar sobre
nós sem órgãos, e transitar de um lugar ao outro
sem meio, etc., como se faz evidente graças ao intelecto que
investiga mediante as regras.
No anjo há diferença, pois seu intelecto,
sua vontade e sua memória são diferentes entre si.
No anjo há igualdade de entender, de amar e
de recordar, graças a seu objeto supremo, pois Deus é
por igual inteligível, amável e recordável.
No anjo há minoridade, pois foi criado do nada.
Do terceiro sujeito,
que trata do céu
O céu possui bondade natural, grandeza e duração,
etc. E define-se assim: o céu é a primeira substância
móvel.
Nele não existe contrariedade, pois não
está composto de princípios contrários. Possui
instinto e apetite naturais e, em conseqüência, movimento,
sem o qual não poderia ter natureza, nem instinto, nem apetite.
Mas nele há princípio, pois atua sobre
as coisas inferiores. Também está constituído por
sua forma e sua matéria específicas, para que atue por
sua espécie.
Seu movimento é seu fim e seu repouso.
O céu está em seu lugar, como o corpo
em sua superfície.
Também está no tempo, pois é criado,
e está no tempo também como o eficiente em seu efeito,
e o mesmo com seus outros acidentes, cada um à sua maneira.
Do quarto sujeito, que é
o homem
O homem é composto de corpo e alma. Por isso,
pode ser deduzido de duas maneiras mediante os princípios e as
regras: de maneira espiritual e de maneira corporal. E se define assim:
o homem é um animal homificante. No homem, todos os princípios
e regras são duplos, por causa da duplicidade da natureza (espiritual
e corporal) da qual está constituído. E, por isso, é
mais geral que qualquer outro ente criado, e assim se pode dizer, sem
nenhuma dúvida, que o homem é a parte maior do mundo.
Do quinto sujeito, que é
a imaginativa
Na imaginativa há princípios e regras
específicas para imaginar as coisas imagináveis, como
há no imã para atrair o ferro. E se define assim: a imaginativa
é aquela potência a que compete propriamente imaginar e,
por isso, a imaginativa é deduzida mediante os princípios
e as regras que lhe são convenientes. Assim, o intelecto adquire
um maior conhecimento da imaginativa e daquilo que lhe é conveniente.
A imaginativa abstrai a espécie dos seres percebidos
mediante os sentidos particulares, e o faz com seus correlativos, representados
pela segunda espécie de C. Com a bondade faz
boas aquelas espécies, e com a grandeza as magnifica, como quando
se imagina uma grande montanha de ouro. E com a menoridade as minorifica,
como quando alguém imagina um ponto indivisível.
A imaginativa possui instinto, da mesma forma que os
animais irracionais têm habilidade para viver, e como a cabra
o tem para evitar o lobo. A imaginativa tem o apetite de imaginar o
imaginável, e para repousar nele, imaginando-o.
Os sentidos particulares, ao aplicarem-se às
coisas sensíveis, impedem à imaginativa seu ato, e ela
não pode exercê-lo. Por exemplo: quando se vê com
os olhos um objeto colorido, a imaginativa não pode, ao mesmo
tempo, exercer seu ato. Ou seja, não se pode imaginar o imaginável
ausente até que se fechem os olhos, e então a imaginativa
exerce seu ato, ou pode exercê-lo.
Quem vê, atinge mais o objeto colorido vendo
que imaginando, pois o objeto sensível se encontra mais próximo
ao próprio sentido, enquanto que a imaginativa alcança
o imaginável mediante o sentido. A imaginativa não é
uma potência tão geral nas coisas sensíveis como
a sensitiva. Isso se manifesta no tato, graças ao qual o homem
que sustenta uma pedra sente ao mesmo tempo muitas e diversas coisas,
como o peso da pedra, o frio, a aspereza e a dureza. Mas não
é assim no caso da imaginativa, pois esta imagina as sensações
sucessivamente. O mesmo ocorre com as coisas similares a esta. E basta
isto, por razão da brevidade.
Do sexto sujeito,
que é a sensitiva
Há princípios e regras de maneira específica
na sensitiva, pois ela tem um poder pela vista, outro pelo ouvido, etc.
Isso é provocado maximamente por duas propriedades: o instinto
e o apetite, e se define assim: a sensitiva é a potência
a que propriamente compete sentir. A sensitiva causa as impressões
sensoriais com seus princípios e suas regras específicas.
É geral pelo sentido comum, e particular pelos sentidos particulares.
Pelo sentido comum, tem correlativos comuns; pelos
sentidos particulares, tem correlativos particulares. A vida radical
da sensitiva vive da vida vegetal, como a que está unida e na
que está plantada, assim como a vegetativa está na elementativa.
A sensitiva percebe os objetos mediante todos os sentidos. Assim, através
da visão, ela percebe o objeto colorido, e através do
ouvido, a voz, e mediante o afato, dá significado a essa voz.
Assim, sem o afato o ouvido não pode perceber a voz e, desse
modo, o intelecto conhece que o afato é um sentido.
Do sétimo
sujeito, que é a vegetativa
À vegetativa correspondem princípios
e regras específicas, com as quais as plantas atuam conforme
as espécies as quais pertencem. Assim, a pimenta atua de acordo
com sua espécie, a rosa segundo a sua, o lírio segundo
a sua, etc. Os princípios da vegetativa são mais condensados
que os da sensitiva, e os da sensitiva mais que os da imaginativa. E
se definem assim: a vegetativa é a potência a que compete
propriamente vegetar.
Assim, ela dota, à sua maneira, os corpos elementados
de natureza vegetativa, como a sensitiva que percebe sensivelmente os
corpos vegetados e os elementados. A vegetativa transubstancia a elementativa
em sua própria espécie mediante a geração,
e dela vive, cresce e se alimenta. A vegetativa morre quando lhe falta
a elementativa, da mesma forma que a luz morre na lamparina quando lhe
falta o azeite.
Do oitavo
sujeito, que é a elementativa
Na elementativa há princípios e regras
específicas que dispõem de muitas espécies, como
o ouro, a prata, etc. E se define assim: a elementativa é a potência
que compete propriamente elementar. Possui correlativos comuns, como
a sensitiva. O mesmo se pode dizer de seus particulares (como o fogo,
o ar, a água e a terra), pois tem seus correlativos, sem os quais
estes elementos não podem existir, assim como os correlativos
tampouco podem existir sem os elementos que constituem os últimos
fundamentos da elementativa. Graças a estes, a elementativa tem
pontos, linhas e figuras, largura, amplitude e profundidade, corpo pleno,
qualidades e complexões, dureza, aspereza, ligeireza, peso, etc.
E assim o intelecto conhece que os elementos se
encontram em ato nos elementados, mesmo que de maneira solta, pois,
de outro modo, os elementados não teriam do que existir, não
seriam do gênero da substância, nem teriam forma, matéria,
movimento, instinto, largura, amplitude, plenitude, nem apetite, o que
é totalmente impossível e absurdo de dizer.
Do nono sujeito, que
é a instrumentativa
Este sujeito é da instrumentalidade, e o considera
de dois modos: naturalmente, como é o caso do olho, que é
o instrumento para ver, e moralmente, como é o caso da justiça
para julgar, e do martelo para fabricar.
Pode-se conhecer o instrumento natural deduzindo-o
de maneira específica mediante os princípios e as regras
desta Arte. O mesmo ocorre com o instrumento moral, mediante
os mesmos princípios e regras, conforme sua maneira específica.
Assim, os instrumentos naturais e morais diferem entre si. Mas deixemos
esta dedução dos instrumentos ao intelecto capacitado
para realizá-la. E se o intelecto do artista falha em tal
dedução, deve-se recorrer à Arte Magna,
onde tratamos largamente da moral. Mas já que os mencionamos
no alfabeto, desejamos definir os instrumentos morais, a fim de que
o artista tenha conhecimento deles através das definições,
princípios e regras da moral.
1. Instrumentativa
é a potência que moralmente age em quem é moral.
2. Justiça
é o hábito com o qual o justo age justamente.
3. Prudência
é o hábito com o qual o prudente atua prudentemente.
4. Fortaleza é o hábito
com o qual o forte de coração age virilmente.
5. Temperança é
o hábito com o qual o temperado atua com temperança.
6. Fé é o hábito
com o qual se crê verdadeiro o que não é sentido
nem entendido.
7. Esperança é o
hábito com o qual se espera vir de Deus perdão e glória,
e se confia no amigo bom e potente.
8. Caridade é a virtude
com a qual aquele que possui bens próprios os torna comuns.
9. Paciência é o
hábito com o qual o paciente vence, e não é vencido.
10. Piedade é o hábito
com o qual o piedoso se condói com a dor de seu próximo.
11. Avareza é o hábito
com o qual o rico é pobre e mendiga.
12. Gula é o hábito
com o qual o guloso, com o tempo, acaba encarcerado na enfermidade e
na pobreza.
13. Luxúria é o
hábito com o qual o homem usa suas potências indevidamente
e contra o matrimônio.
14. Soberba é o hábito
com o qual o homem soberbo tenta ser superior aos outros homens, e é
contra a humildade.
15. Acídia é o hábito
com o qual o acidioso se condói com o bem alheio e se alegra
com o mal.
16. Inveja é o hábito
com o qual o invejoso deseja injustamente os bens alheios.
17. Ira é o hábito
com o qual o irado ata sua capacidade de juízo e sua liberdade.
18. Mentira é o hábito
com o qual o mentiroso fala ou testemunha contra a verdade.
19. Inconstância é
o hábito com o qual o inconstante é volúvel de
muitas maneiras.
Dissemos dos nove sujeitos que o artista pode ter conhecimento
contemplando-os e discorrendo através dos princípios e
regras desta Arte.
Da décima parte,
que trata da aplicação
A aplicação se divide em três partes.
Na primeira, o implícito se aplica ao explícito; na segunda,
o abstrato se aplica ao concreto, e na terceira, a questão se
aplica aos lugares desta Arte. E da primeira e da segunda parte
assim decidimos:
1. Se os termos em questão
são implícitos, há de se explicar os termos explícitos
desta Arte; como quando se pergunta: “existe Deus?”, ou
“existem os anjos?”, etc., há que se aplicarem os
termos à bondade, grandeza, etc.; ou seja: “É bom,
grande, etc. que existe em Deus e que existe no anjo?”.
2. Da segunda parte, há que
se dizer que se os termos da questão são abstratos, aplicar-se-ão
aos seus termos concretos; como “bondade” ao “bom”,
“grandeza” ao “grande”, “cor” ao
“colorido”, etc. E há que se fixar de que modo se
relacionam o termo abstrato e o termo concreto, através dos princípios
e das regras.
3. A terceira parte trata da aplicação
dos lugares, e se divide em treze partes, que são as seguintes:
(1) primeira figura, (2) segunda, (3) terceira, (4) quarta figura, (5)
definições, (6) regras, (7) tábula, (8) evacuação
da terceira figura, (9) multiplicação da quarta figura,
(10) mescla dos princípios e das regras, (11) nove sujeitos,
(12) cem formas e (13) questões.
1-11. As matérias das questões
vão se aplicar às onze primeiras partes segundo lhes correspondam.
Pois se a matéria da questão compete à primeira
figura, se aplicará a primeira figura, solucionando a questão
extraindo-se do texto da mesma figura, afirmando ou negando de tal modo
que o texto permaneça invariável. E o que dissemos da
primeira figura, pode ser dito para as outras partes, cada uma ao seu
modo.
Isto é o suficiente no que diz respeito à
aplicação, por causa da brevidade desta Arte.
E se o intelecto do artista falha na aplicação dos
termos, ele deve recorrer à Arte Magna, pois ali se
trata com mais amplitude.
Das
cem formas
Nesta parte se consideram cem formas com suas definições,
para que o sujeito seja assimilado pelo intelecto. Pois, mediante
as definições das formas, o intelecto assumirá
condições para discorrê-las através dos princípios
e das regras; e graças a este estudo, adquirirá conhecimento
das formas que aparecem nas questões e nas definições.
Assim, estas são as formas, com suas definições.
1. Entidade
é a causa em razão da qual um ente causa outro ente.
2. Essência é a forma
abstraída do ser e sustentada por ele.
3. Unidade é a forma a
qual compete propriamente unir.
4. Pluralidade é a forma
agregada com plural que difere em número.
5. Natureza é a forma que
propriamente compete naturar.
6. Gênero é um ente
muito geral e muito confuso que se predica de muitas coisas de diferentes
em espécie.
7. Espécie é o ente
que se predica de muitas coisas que diferem em número.
8. Individualidade é o
termo que dista mais do gênero que qualquer outro ente.
9. Propriedade é a forma
com a qual o agente especificamente age.
10. Simplicidade é a forma
que se encontra mais distante da composição que qualquer
outro ente.
11. Composição é
a forma agregada de essências plurais.
12. Forma é a essência
com a qual o agente age na matéria.
13. Matéria é a
essência simplesmente passiva.
14. Substância é
o ente existente por si.
15. Acidente é forma, não existente
por si, e que não guarda relação, principalmente
com seu fim.
16. Quantidade é ente em
razão da qual o sujeito é quantificado, e com ela age
quantitativamente.
17. Qualidade é o ente
em razão do qual os princípios são qualificados.
18. Relação é
forma respectiva à muitas coisas diversas, sem as quais não
podem existir.
19. Ação é
a forma inerente ao passivo.
20. Passividade é o ente
que subsistente e inerente à ação.
21. Hábito é a forma
que reveste o sujeito.
22. Situação é
a posição das partes, retas e devidamente ordenadas no
sujeito.
23. Tempo é ente no qual
os entes criados têm início e origem. Ou: tempo é
o ente constituído no presente por uma multiplicidade conforme
o antes e o depois.
24. Lugar é o acidente
no qual o ente é colocado. Ou lugar é a superfície
que ambienta e contêm de maneira imediata as partes interiores
de um corpo.
25. Movimento é o instrumento
com o qual o motor move o movido. Ou: movimento é aquilo que
conhece a natureza do princípio, do meio e do fim.
26. Imobilidade é o ente
que não tem nenhum apetite de mover-se.
27. Instinto é figura e
semelhança do intelecto.
28. Apetite é forma e similitude
da vontade.
29. Atração é
a forma com a qual o atraente atrai o atraído. Ou: atração
é uma forma que tem instinto e apetite de atrair algo no sujeito.
30. Recepção é
a forma com a qual o receptor recebe o recebido. Ou: recepção
é uma forma que tem forma e apetite de receber algo no sujeito.
31. Fantasia é a semelhança
abstraída das coisas por meio da imaginação.
32. Plenitude é a forma
distanciada da vacuidade.
33. Difusão é a
forma com a qual o difusor difunde o difundível.
34. Digestão é a
forma pela qual o digestor digere o digerível.
35. Expulsão é a
forma com a qual a natureza expele o que não convêm ao
sujeito.
36. Significação
é a revelação dos segredos demonstrados através
de um signo.
37. Beleza é uma bela forma
recebida pela visão, pela audição, pela imaginação,
pelo conceito e pela deleitação.
38. Novidade é a forma
em razão da qual o sujeito se habitua com novos hábitos.
39. Idéia, em Deus, é
Deus; na criação, idéia é criatura.
40. Matemática é
a forma com a qual o intelecto humano despoja a substância
de seus acidentes.
41. Ente, em potência, é
a forma que existe no sujeito sem movimento, quantidade, qualidade,
etc.
42. Pontuidade
é a essência do ponto natural, e a menor parte que existe
no corpo.
43. Linha é
a longitude constituída por muitos pontos contínuos, cujas
extremidades são dois pontos.
44. Triângulo
é a figura que tem três ângulos agudos contidos em
três linhas.
45. Quadrângulo
é a figura que tem quatro ângulos retos.
46. Círculo
é a figura contida em uma linha circular.
47. Corpo é
a substância plena de pontos, linhas e ângulos.
48. Figura é
o acidente constituído pela situação e pelo hábito.
49. As direções
gerais são seis, pelas quais todo corpo se encontra
no centro de linhas diametrais.
50. Monstruosidade
é o desvio do curso da natureza.
51. Derivação
é o sujeito material através do qual o particular descende
ao universal.
52. Sombra é
o hábito da privação.
53. Espelho é
um corpo diáfano, disposto a receber todas as figuras representadas.
54. Cor é
o hábito contido pela figura.
55. Proporção
é a forma cuja propriedade compete proporcionar.
56. Disposição
é a forma cuja propriedade compete dispor.
57. Criação
é a idéia na eternidade; o tempo é uma criatura.
58. Predestinação
é uma idéia na sabedoria de Deus, mas na criação
é uma criatura.
59. Misericórdia
é uma idéia na eternidade; no predestinado é uma
criatura.
60. Necessidade
é a forma que não pode dar-se de outra maneira, e o necessitado
é o ente que a contêm.
61. Fortuna é
um acidente inerente ao sujeito, e o afortunado é o homem disposto
a ela.
62. Ordenação
é a forma cuja propriedade corresponde ordenar; o ordenado é
seu próprio sujeito.
63. Conselho
é uma proposição duvidativa; o aconselhado é
seu repouso.
64. Graça
é uma forma primitiva posta no agraciado sem mérito seu.
65. Perfeição
é a forma cuja propriedade compete perfeccionar um sujeito perfeito.
66. Declaração
é a forma na qual o intelecto repousa distinguindo. Declarado
é seu sujeito, no qual a declaração é um
hábito.
67. Transubstanciação
é o ato da natureza no transubstanciado, que se desnuda da forma
antiga e se reveste em uma nova.
68. Alteração
é a forma nascida no alterado.
69. Infinidade
é a forma que tem o ato infinito, alheia de qualquer coisa finita.
70. Decepção
é o hábito positivo de quem decepciona, e é um
hábito privativo de quem é decepcionado.
71. Honra
é um hábito ativo no que honra, e passivo no que é
honrado.
72. Capacidade
é a forma com a qual o capaz pode conter e receber tudo o que
pode vir.
73. Existência
é a forma com a qual o existente existe como é. Agência
é a forma que move o existente ao término ao qual se dirige.
74. Compreensão
é uma semelhança de infinitude, e apreensão de
finitude.
75. Invenção
é a forma com a qual o intelecto encontra o encontrado.
76. Semelhança
é a forma com a qual o semelhante se assemelha a seu semelhado.
77. Antecedente
é a forma que causa o conseqüente. Conseqüente
é o sujeito no qual repousa o antecedente.
78. Potência
é a forma com a qual o intelecto alcança o objeto. Objeto
é o sujeito no qual o intelecto repousa. Ato
é a conexão entre a potência e o objeto.
79. Geração,
nas criaturas, é a forma com a que o agente causa formas novas.
Corrupção
é a forma com a qual o que corrompe elimina as formas antigas.
Privação
é o que existe no meio de ambas.
80. Teologia
é a ciência que fala de Deus.
81. Filosofia
é o sujeito pelo qual o intelecto entra se relaciona com todas
as ciências.
82. Geometria
é a arte inventada para medir linhas, ângulos e figuras.
83. Astronomia
é a arte com a qual o astrônomo conhece as virtudes e os
movimentos que o céu tem efetivamente nas coisas inferiores.
84. Aritmética
é a arte inventada para numerar muitas unidades.
85. Música
é a arte inventada para ordenar muitas vozes concordantes em
um canto.
86. Retórica
é a arte inventada com a que o retórico orna e colore
suas palavras.
87. Lógica
é a arte com a qual o lógico encontra a conjunção
natural entre o sujeito e o predicado.
88. Gramática
é a arte de encontrar a maneira correta de falar e escrever.
89. Moralidade
é a arte de fazer o bem e o mal.
90. Política
é a arte com a qual os burgueses procuram a utilidade pública
das cidades.
91. Direito
é o ato regulado no homem habituado à justiça.
92. Medicina
é o hábito com o qual o médico procura a saúde
do paciente.
93. Regimento
é a forma com a qual o príncipe rege seu povo.
94. Cavalaria
é o hábito com o qual o cavaleiro ajuda o príncipe
a manter a justiça.
95. Mercadoria
é o hábito com o qual o mercador sabe comprar e vender.
96. Navegação
é a arte com a qual os marinheiros sabem navegar pelo mar.
97. Consciência
é a forma com a qual o intelecto aflige a alma pela faltas cometidas.
98. Pregação
é a forma com a qual o pregador instrui o povo para que adquira
bons costumes e evite os maus.
99. Oração
é a forma com a qual aquele que ora fala santamente com Deus.
100. Memória
é o ente com o qual os entes são recordáveis.
Da décima-primeira
parte, que é das questões
Esta parte se divide em doze partes ou lugares, dispostos e proporcionados às questões conforme a diversidade da matéria que tratam. Em um lugar ou parte ela significa a solução de uma questão, e em outro lugar a solução de outra questão. Por isso, aplicaremos as questões aos ditos lugares de diversos modos.
Faremos isso de dois modos, já que resolveremos algumas questões e outras não, pois estas serão deixadas ao artista bom e observador, para que ele extraia bem a solução daquela parte ou lugar para onde remitiremos as questões, e onde está significada a solução. Assim, proporemos e resolveremos poucas questões, por causa da brevidade, já que esta Arte abstrata provém da Arte Magna, para tratá-la mais brevemente, e o intelecto aprenda muito a partir de poucas palavras. Assim, ele será mais universal.
Mediante as soluções a estas questões aqui indicadas ou propostas, poder-se-á solucionar outras questões ao seu modo.
Os lugares ou partes às quais remeteremos as questões são doze, como já foi indicado, a saber: (1) a primeira figura, (2) a segunda figura, (3) a terceira figura, (4) a quarta figura, (5) as definições, (6) as regras, (7) a tábula, (8) a evacuação da terceira figura, (9) a multiplicação da quarta figura, (10) a mescla dos princípios e das regras, (11) os nove sujeitos e (12) as cem formas.
Assim, trataremos primeiramente da primeira parte ou lugar.
1. Das questões da primeira figura
Questão 1: Existe algum ente no qual o sujeito e o predicado se convertem em uma identidade essencial, de natureza e de número por toda a primeira figura? Há de se responder que sim, pois, de outro modo, tanto a conversão do sujeito e do predicado como sua igualdade seriam absolutamente destruídas, a eternidade seria superior por infinidade de duração, e sua bondade, grandeza, poder, etc., seriam inferiores por finitude, o que é impossível.
2. Perguntam: Qual é aquele ente no qual o sujeito e o predicado se convertem? Há de se responder que aquele ente é Deus, pois tal conversão não pode ter lugar a não ser em um ente infinito e eterno.
3. Perguntam: A bondade divina tem em si tão magna bonificação como o intelecto divino intelecção?
4. Perguntam: Por que Deus tem em Si tão magna agência como existência?
5. Perguntam: De onde procede que o poder de Deus seja tão grande quanto Ele?
6. Perguntam: Por que o homem e o animal não se convertem? Há de se responder que: a causa é que a conversão não pode dar-se entre o maior e o menor, somente entre iguais.
7. Perguntam: São convertíveis no anjo seu poder, intelecto e vontade? A resposta é não, pois, do contrário, ele poderia ter um ato tão infinito e eterno quanto Deus.
2. Das questões da segunda figura
As questões da segunda figura podem ser feitas de três modos, como o exemplo do homem e do leão, que, por diferença, diferem em espécie, por concordância, coincidem em gênero, e por contrariedade, são contrários, ou seja, por corruptibilidade e incorruptibilidade, e o mesmo nos outros casos, cada um ao seu modo.
8. Perguntam: É a diferença mais geral que a concordância e a contrariedade? Deve-se responder que sim, já que onde há concordância e contrariedade, há diferença; mas nem sempre há o inverso, pois em muitas coisas há diferença e concordância, e não há nelas contrariedade natural, como é o caso dos entes espirituais.
9. Perguntam: Qual é o maior princípio, a concordância ou a contrariedade? Dizemos que é a concordância, pois da concordância descendem os princípios positivos, e da contrariedade os privativos.
10. Perguntam: A definição “o homem é um animal homificante” – ou “o homem é o ente ao qual corresponde propriamente homificar” – é mais clara que “o homem é um animal racional mortal”? Há de se responder que sim, pois o ato de homificar corresponde somente ao homem, e a racionalidade e a mortalidade a muitos seres.
Através do triângulo princípio-meio-fim podem ser feitas questões de três modos. O primeiro deles é quando se pergunta:
11. Porque existe uma causa primeira e não muitas? Devemos responder que isso é assim para que exista um fim infinito.
O segundo modo é quando se pergunta:
12. O termo médio que existe entre o sujeito e o predicado tem quantidade contínua ou discreta? Há de se responder que tem quantidade contínua a respeito do meio de extremidades, mas discreta a respeito do meio de conjunção e de medida.
O terceiro modo é quando se pergunta:
13. Qual fim é o último no sujeito? Há de se responder que é o fim próprio, não o apropriado.
Através do triângulo maioridade-igualdade-menoridade podem ser feitas questões de três modos. Por maioridade, como quando se pergunta:
14. Porque Deus é superior ao anjo e o anjo superior ao homem? Há de se responder que Deus é superior ao anjo porque a Bondade, a Grandeza, etc., divinas distanciam-se de quantidade por infinidade, e de tempo por eternidade, e não ocorre assim com a bondade, a grandeza, etc., do anjo, que são superiores à bondade, grandeza, etc., do homem, pois no sujeito no qual se encontram, distanciam-se de divisão e de sucessão, e não ocorre assim com a bondade, grandeza, etc., do corpo do homem.
O segundo modo é quando se pergunta:
15. Porque o intelecto, a vontade
e a memória são iguais na alma por essência? Há
de se responder que a causa primeira é igualmente inteligível,
recordável e amável pela igualdade de sua bondade, grandeza,
etc. Assim, o intelecto conhece que a demonstração se
pode fazer de três modos: a partir da causa, do efeito, e por
igualdade ou equiparação.
O terceiro modo é quando se pergunta:
16. Porque o pecado está mais
próximo ao nada que a qualquer outro ente? E há que se
dizer que é mais incompatível com o fim do ser.
17. Perguntam: A
diferença que existe entre o sensual e o sensual é maior
que a que existe entre o sensual e o intelectual, e a que existe entre
o intelectual e o intelectual?
18. E também: A diferença
que existe entre princípio e meio é maior que a que existe
entre meio e fim?
19. Igualmente se pode perguntar sobre
a diferença que existe entre substância e substância,
etc. E há que se responder pelo que foi significado nos triângulos
supracitados, subjetivas e objetivamente, mediante a regra B.
3. Das
questões da terceira figura
Ao tratar da terceira figura se disse que qualquer
princípio se aplicava a outro. E por isso se pergunta:
20. A contrariedade é tão
aplicável à bondade, grandeza, etc., como à concordância?
E há que se dizer que não, pois a contrariedade se aplica
aos princípios privando e contrariando, e a concordância
pondo e concordando.
Diz-se na terceira figura: “A bondade é
magna”. E por isso se pergunta:
21. Que é a bondade magna?
E há que se responder que a bondade magna é aquela que,
sem contrariedade nem menoridade, convém com todos os princípios
e seus correlativos.
22. Perguntam: Onde está a
bondade? Veja a câmara BI e extraia seus significados.
23. Perguntam: De que é feita
a bondade?
24. Perguntam: Como é a bondade?
Vá às câmaras BD e BK
e extraia seus significados, e faça o mesmo com as outras regras.
25. E também perguntam: quando
o intelecto é universal e particular?
4. Das
questões da quarta figura
26. Perguntam pela câmara BCD:
alguma bondade é infinitamente grande como a eternidade? E há
que se responder que sim, pois, do contrário, toda a grandeza
da eternidade não seria boa.
27. Pela câmara BEF
se pergunta: Deus é tão potente por sua bondade como por
seu intelecto? Vá àquela câmara e extraia os significados
de seus correlativos e suas definições.
28. Perguntam: O anjo produz outro
anjo, sendo superior, como o homem produz outro homem, sendo inferior?
Há que se responder que não, já que o anjo não
recebe nenhum aumento externo, pois se esvaziaria de sua essência;
mas o homem sim, por causa de seu corpo.
5. Das questões
pelas definições dos princípios
29. Perguntam: Deus é um ente
necessário?
30. Perguntam: Pode a unidade ser
infinita sem um ato infinito?
31. Perguntam: Existe um só
Deus?
32. Perguntam: Pode Deus ser mau?
Vá às definições de bondade, de grandeza
e de eternidade, e retenha o que significam. Pois se a bondade é
grande e eterna, é necessário que a bondade seja a razão
do bem grande e eterno que produza um bem grande eterno. E o mesmo com
as outras questões que se podem fazer a partir das definições
dos princípios.
33. Perguntam: Crer antecede o entender?
34. Perguntam: Que definição
é maior e mais clara, a que se dá pela potência
e seu ato específico, ou a que se dá pelo gênero
e pela diferença? E há que se responder que é a
que se dá pela potência e por seu ato específico,
pois por ela se adquire conhecimento do sujeito e do ato que lhe é
específico, enquanto que pela outra só se adquire o conhecimento
das partes.
35. Perguntam: A potência tem
um ato externo à sua essência?
36. Perguntam: O intelecto é
agente na memória e paciente na vontade?
37. Pode o intelecto apreender um
objeto sem nenhum sentido?
38. O poder divino pode ter um ato
infinito?
39. Pode existir um ato sem diferença?
40. O ato é possuído
pela potência, pelo objeto ou por ambos?
41. Pode existir por si mesma a substância
sem suas causas?
42. A vontade tem poder sobre o intelecto
por meio do crer, e o intelecto sobre a vontade por meio do entender?
43. A vontade e a memória são
desiguais na alma?
44. Pode o intelecto se universal
ou particular sem seus correlativos?
45. Quando o intelecto faz ciência,
a faz pela propriedade e pela diferença?
46. O intelecto predispõe a
amar e a recordar, e ao contrário?
47. Pode o intelecto crer e entender
ao mesmo tempo?
48. O intelecto faz ciência
em si mesmo?
49. Perguntam: Como o intelecto faz
a espécie?
50. O intelecto, com sua espécie,
ordena a vontade e a memória que se apresentem na dita espécie?
Como aplicamos as questões das regras ao intelecto,
se podem aplicar as outras potências ao seu modo.
7. Das
questões feitas pela tábula
51. Perguntam: O mundo é eterno?
Vá à coluna BCD e tenha a resposta negativa.
E encontrarás na câmara BCTB que, caso
seja eterno, então existem muitas eternidades diferentes em espécie,
e que são concordantes pela câmara BCTC
contra a câmara BCTD, o que é impossível.
De onde se segue que há que se responder negativamente à
questão, e assim o prova a regra B.
52. Perguntam: Deus pode ser tão
infinito por sua grandeza como por sua eternidade? Vá à
coluna CDE e a câmara CDTC,
respondendo afirmativamente contra a câmara CDTD.
53. Pode Deus tanto por eternidade
como por intelecto? Vá à coluna DEF e
à câmara DETD.
54. Deus é tão poderoso
por Seu poder quanto por Seu entender e amar? Vá à coluna
EFG. E responda afirmativamente pela câmara EFTE,
pela câmara EFTF, e pela câmara EFTG,
até completar toda a coluna.
55. Seu intelecto e sua vontade são
maiores que sua virtude? Vá à coluna FGH
e responda negativamente por todas as suas câmaras, esgotando
o significado destas.
56. A verdade divina é tão
virtuosa, pela igualdade dos correlativos como a vontade divina? Vá
à coluna GHI, e responda afirmativamente por
todas as suas câmaras.
57. Há na virtude, glória
e verdade de Deus algo que seja igual e distante no tempo, lugar e menoridade?
Vá à coluna HIK e responda afirmativamente
por todas as câmaras.
8. Das
questões feitas a partir da evacuação da terceira
figura
Na câmara BC foi dito que a
bondade é magna, e se pergunta:
58. A bondade é grande?
59. Qual é sua magnitude?
60. Em que concordam a bondade e a
grandeza?
61. Elas podem concordar sem diferença?
E há que responder que a bondade é magna,
segundo se depreende da definição de magnitude; e sua
magnitude consiste em ter seus correlativos, segundo se depreende da
segunda espécie da regra C. E elas concordam, pois a bondade
é grande pela grandeza, e o inverso, e não podem concordar
de nenhuma maneira sem a diferença de seus correlativos.
Basta o exposto sobre a evacuação da
terceira figura, por causa da brevidade. Pois, a partir do que dela
temos dito, o artista pode fazer e resolver questões pelas outras
câmaras.
9. Das questões feitas
pela multiplicação da quarta figura
62. Se pergunta: de que maneira o
intelecto se condiciona ao geral por meio do entender geral? Veja a
multiplicação da quarta figura, e observe como o intelecto
multiplica as condições, como as que multiplicam os objetos
e seu entender, a fim de ser geral e adotar muitos hábitos por
muitas e grandes ciências. E isso é o suficiente sobre
a multiplicação da quarta figura, por causa da brevidade.
10. Das questões feitas
a partir da mescla dos princípios e das regras
63. Se pergunta: a bondade pode ser
estudada mediante a grandeza e a duração, mas e o inverso?
E há que responder que sim, como foi demonstrado na terceira
figura, ao converter o sujeito em predicado.
64. Se pergunta: O que é a
bondade na grandeza, na duração, etc.? E há que
responder que na grandeza é grande, e na duração
duradoura.
65. Se pergunta: O que tem a bondade
na grandeza, na duração, etc.? E há que dizer que
tem grandes correlativos na grandeza, e duradouros na duração.
E conforme exemplificamos com a bondade, se pode exemplificar com os
outros princípios à sua maneira. E basta o dito sobre
a mescla, por causa da brevidade.
11. Das questões dos
nove sujeitos
Das questões do primeiro
sujeito, que é Deus
66. Se pergunta: Existe Deus? Há
que responder que sim, como foi provado nas questões da primeira
figura.
67. Se pergunta: O que é Deus?
Há que responder que Deus é o ente que atua em Si mesmo
na mesma medida em que existe.
68. Pela segunda espécie de
regra C se pergunta: O que tem Deus em Si co-essencialmente?
Há que responder que tem seus correlativos, sem os quais não
poderia ter imensas e eternas razões.
69. Pela terceira espécie se
pergunta: O que é Deus em outro? Há que responder que
é criador, governante, etc.
70. Pela quarta espécie da
regra C se pergunta: O que tem Deus no outro? Há
que responder que no mundo Ele tem poder e domínio, e nos homens
juízo e ato de graça, de misericórdia e de humildade,
de paciência e de piedade. E basta o dito sobre Deus, por causa
da brevidade.
Das questões do segundo
sujeito, que é o anjo
71. Se pergunta: Os anjos existem?
Há que responder que sim; pois se existe aquilo que parece ser
menos semelhante a Deus, com muito mais motivo existe o que parece ser
mais semelhante a Deus.
E mais: se existe um ser composto de corporalidade
e intelectualidade, com muito mais motivo existe um ser composto de
intelectual e intelectual.
E mais ainda: se não existissem os anjos, a
escala de diferença e de concordância ficaria vazia, e
conseqüentemente também o mundo, o que é impossível.
72. Se pergunta: De que e de quem
é o anjo? Há que responder pela regra D que ele é
de si mesmo, pois sua essência não pode ser pontual nem
linear; e pela segunda espécie da mesma regra se responde que
ele é de seus correlativos espirituais, isto é, de seus
-tivos, -áveis e -ar,
que o compõe. Pelos -tivos é ativo, pelos
-áveis é receptivo, e pelo -ar
é o ato que existe entre os -ivos e os -áveis.
Pela terceira espécie, há que dizer que o anjo é
de Deus. E basta o dito sobre os anjos, por causa da brevidade.
Das questões do terceiro
sujeito, que é o céu
73. O céu move a si mesmo?
Há que responder que sim, para que seus princípios tenham
correlativos substanciais e próprios por suas constelações.
74. O céu se move para algum
lugar? Há que responder que sim. Ele se move circularmente em
si mesmo e em relação ao mundo inferior; mas não
fora de si. A razão disto é porque ele não tem
nem pode ter nenhuma ação fora de si mesmo.
75. Um anjo move o céu? Há
que responder que não, pois, se o movesse, os -tivos
e seus correlativos estariam por baixo, e os -áveis
por cima. Portanto, ele não moveria os elementos nem os elementados
por sua forma, e sim por sua matéria, o que é impossível.
76. Se pergunta: O céu tem
uma alma motriz? E há que responder que sim, pois, caso contrário,
nem a vegetativa nem a sensitiva teriam almas motrizes, nem os elementos
teriam movimento.
77. Se pergunt