O Livro dos Feitos do rei D. Jaime (c. 1252-1274)
Jaime I (1208-1276)
Trad. e notas: Prof. Luciano Vianna e Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)

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Iluminura do Livro dos Feitos que representa uma festa palaciana em que o rico armador Pere Martell (de joelhos, à direita) incentiva Jaime I (sentado) a conquistar o reino de Maiorca.

Capítulos 31-50

31. Quando fomos deitar, nós e todos aqueles que dormiam diante de nós, chegou um porteiro nosso e disse que havia cerca de cem homens armados na porta. Então lhe dissemos: “Que isso! Nós já deixamos as armas, e tu queres que retornemos! Talvez somente estejam guardando a vila”.

Ele disse: “Senhor, dai-nos um escudeiro vosso, e nós lhe mostraremos”. E nós lhe dissemos: “Deixa-nos dormir, que só acontece o que Deus deseja”. E quando chegou a manhã, nós levantamos, ouvimos a missa e depois fizemos chamar o Conselho para que fossem àquele curral que há diante de nossas casas e as de Montearagón.

Nós cavalgamos, eles diante de nós. Fizemos então um grande Conselho e dissemos: “Barões [120], cremos que sabeis e deveis saber que nós somos de longo tempo vosso senhor natural; que conosco Aragão teve quatorze reis [121], e quanto mais distante é a natureza entre nós e vós, mais aproximação deve existir, pois ao se estender o parentesco, por essa extensão a natureza se estreita. [122] Nunca lhes fizemos mal, nem falamos mal, pelo contrário, temos em nosso coração a intenção de amá-los e honrá-los, e lhes faremos ter todos os bons costumes que temos tido de nossa linhagem, e lhes daremos ainda melhores, se não tiveres aqueles que são bons. Por isso, maravilhamo-nos muito em ter que nos proteger de vós, que não possamos entrar nas cidades que Deus nos deu e que nosso pai nos deixou, e nos pesa muito que haja guerra entre nós e vós. Assim, rogamos e ordenamos que isso não aconteça, pois nos pesa muito, e podeis perceber isso, pois vim só para estar entre vós, pois confio em vós e em vosso amor, e vos tenho guardados com amor no coração”. [123]

E assim terminamos nossa palavra. Eles responderam e disseram que agradeciam muito o que nós dissemos, que o Conselho teria seu acordo e nos responderia. Então, eles foram acordar as casas de Montearagón, e este acordo durou muito tempo.

32. Enquanto nós os esperávamos, chegou uma mensagem ao Conselho dizendo que Dom Ramon Folch e as companhias estavam do lado de fora e que cercaram a vila. E nós, vendo que o Conselho se exaltava, lhes dissemos: “Estais seguros, ouvis isso que vos dissemos”. Então chamamos aqueles que tinham ido deliberar, e chegou uma partida, mas não responderam o que nós lhes havíamos perguntado. E lhes dissemos: “Barões, maravilhamo-nos muito por que, por qualquer motivo vós precipitadamente pegais em armas. Isso não pode acontecer, pois eu, estando entre vós, nenhum homem ousaria fazer nada. Por um dinheiro que vós perdeis, o que não pode ser, nós vos ressarciríamos com dez”. [124]

Eles disseram: “Dissestes bem, mandaremos impedir”.

Nós dissemos: “Isso já está proibido”.

Assim, imediatamente enviamos gente para ver o que se passava e vimos que não era nada.

No entanto, eles não nos deram nenhuma resposta e ficaram todos de pé. Nós entramos em nossa casa e entraram conosco Dom Rodrigo Lizana, Dom Blasco Maça e os de nossa mesnada, Dom Assalit e Dom Rabaza, nosso notário. Eles nos disseram que colocariam cadeados e fechariam as portas da vila. [125]

Nós dissemos a Dom Rabaza: “Haverá alguma lei que valha para nós e para vós?”

Ele respondeu: “Senhor, não me parece haver aí lei ou direito”.

E nós dissemo-lo: “Sabeis algo?”

Ele disse: “Não, mas pedis conselho àqueles ricos homens”.

Nós pedimos ao Conselho, e eles disseram que grande traição nos faziam, mas não deram nenhuma sugestão. A esse respeito, nós dissemos que daríamos o seguinte conselho: “O melhor a ser feito é comprar cordeiro no açougue e eles pensarão que estamos preparando a comida, e vós fazei-os colocar as selas nos cavalos e ide-vos; e que isso seja feito rapidamente. Eu mandarei buscarem meu cavalo, minha loriga meu perponte e minhas armas, e estejais aparelhados na praça”.

Isso foi feito assim. E chegaram Dom Rodrigo Lizana e Dom Blasco Maza, e fomos apenas com cinco cavaleiros. E desceram por aquela porta por onde se sai na Isola e o caminho de Bolea, mas encontrei a porta fechada. Perguntei quem a havia fechado, e encontrei uma mulher que disse que os jurados a tinham fechado. [126]

Nós perguntamos a um escudeiro: “Onde está o porteiro?”

Ele disse: “Costuma estar lá encima”.

Eu então enviei dois escudeiros meus o chamarem. Ele chegou pálido, e nós lhe perguntamos: “Onde está a chave dessa porta?”

Ele nos disse: “Os jurados a têm”.

Nós lhe dissemos: “Dai-nos agora ou vós vos daremos a espada na testa que receberás a morte”.

E fizemos subir aqueles com ele, e trouxeram a chave. Retornaram outra vez com ele, mas agora preso e com a chave, e fizeram-no abrir a porta com meus homens, e nós ficamos na porta até que viessem os cavaleiros. Quando chegaram, saímos, e nos disseram que as bestas de carga e os escudeiros tinham ficado dentro. Nós dissemos que vinte ou trinta homens de Huesca que estavam conosco do lado de fora deveriam enviar um homem à vila para que nos dissesse tudo o que nós tínhamos dentro da vila.

Nós fomos por Isola abaixo até que encontramos Dom Ramon Folch, Dom Guilherme de Cardona com todos os outros cavaleiros, nossa mesnada, e Dom Ato, todos chorando, pois pensavam que tivéssemos sido retidos, pois os homens de Huesca já tinham enviado Dom Fernando aos de Zaragoza para que viessem, pois que eles nos tinham em Huesca.

33. Passado isso, fomos para Pertusa. Quando estávamos ali, Dom Fernando, Dom Guilherme de Montcada e Dom Pedro Cornel vieram a Huesca e ali fizeram um pacto entre si que viriam até nós e diriam que se sentiam estúpidos pelo que fizeram. Nós e nosso Conselho tivemos muito prazer com as palavras que eles nos enviaram, e perguntamos de que maneira desejavam fazer esse pacto conosco. Eles disseram que sairiam para aquela serra que está sobre o Alcalá [127] e que nós fôssemos com nossa companhia a Alcalá, que saíssemos com sete de nosso Conselho e eles viriam com seis ou sete e deixariam a outra companhia. Eles ainda disseram que viriam a Pertusa, mas tinham pavor que algum vil homem lhes desse batalha, mas que desejavam falar conosco assim como vassalos devem falar com seu senhor natural, e que antes que partissem de nós fariam isso de tal guisa que nós ficaríamos satisfeitos com eles.

E aconteceu assim como foi falado. Nós saímos às vistas de todos, vestidos com nossos perpontes e as espadas cingidas, e vieram conosco Dom Ramon Folch, Dom Guilherme de Cardona, Dom Ato de Foces, Dom Rodrigo Lizana e Dom Ladrão, filho de Dom Ladrão, que era nobre de grande linhagem, Dom Assalit de Gudar e um cavaleiro nosso, e Dom Pelegrín de Bolas. Da parte deles chegaram Dom Fernando, que era nosso tio, Dom Guilherme de Montcada, pai de Dom Gastão, Dom Pedro Cornel, Fernando Perez de Pina, e outros que eram de sua parte que nós não lembramos.

Dom Fernando começou dando seus motivos, e disse assim: “Senhor, nós viemos aqui diante de vós, pois pesa-nos muito essa guerra que existe entre nós e vós, e viemos para deixá-la. Rogamos que nos perdoe, pois temos o coração para servir-vos, eu, Dom Guilherme de Montcada, Dom Pedro Cornel e quantos somos de nossa partida, pois recebemos mal de vós, mas também fizemos, o que nos pesa muito. E se esses males tivessem que ser retificados, nós não poderíamos indenizar-vos, pois para vós seria uma grande reparação, já que seu ofício o requer. Além disso, ainda desejamos pedir de vós que, caso vos sirvamos bem, que nos façais bem. Quanto a mim, estou obrigado pelo parentesco que tenho convosco e com Dom Guilherme de Montcada, porque o rei da Espanha não tem vassalo tão honrado como vós tendes com ele, nem quem tanto vos possa servir”.

Assim ele terminou suas palavras. Depois dele, Dom Guilherme de Montcada disse: “Senhor, nenhum homem do mundo sabe melhor que vós a dívida que tenho convosco, porque vossa linhagem, que tem o nome do conde de Barcelona, fez a nossa linhagem. [128] E eu, à mercê de Deus, possuo mais que os outros, pois tenho a riqueza de Bearn, na Gasconha, o que nenhum dos outros têm; e tudo o que tenho e posso ter, colocaria ao vosso serviço. O que eu fazia, Deus o sabe, pois sabe todas as coisas, o fazia pensando em vosso proveito e vossa honra. Mas pude ver que a vós não satisfez, a mim não satisfez, e assim penso que errei com o que fiz, e por isso suplico que nos perdoe, a mim e aos outros que estavam nisso comigo. Assim, faço-vos saber que nunca mais guerrearei contra vós, porque vos tenho de tal maneira que acredito que não cometereis erro nem a mim, nem a meus amigos, nem a meus parentes, e se o fizésseis, rogando-vos com amor, vos vencereis com o bom serviço que eu vos fizer, e isso me deve valer diante de vós”.

E deu fim às suas palavras. A esse respeito, nós lhe dissemos que nos reuniríamos. Então eles partiram de nós, e aqueles ricos-homens que estavam conosco, disseram que eles tão bem, tão gentilmente e com tão grande devoção nos mostraram que aceitavam. Assim, fizemo-los retornar e dissemo-los: “Nós aceitamos o que vós nos haveis mostrado com tão grande devoção, estamos agradecidos e recebemos com boa vontade a correção e desejamos manter-vos em nosso amor e em nossa graça”.

Então vieram os cavaleiros de cada uma das partes e que estavam distantes e souberam o que foi colocado e a composição que havíamos feito. Todos ficaram alegres e satisfeitos. E depois disso, fomo-nos para Lérida.

34. Um ano e meio depois, quando nós estávamos em Lérida, veio a condessa de Urgel, filha do conde Ermengol e da condessa de Subirats e que havia sido mulher de Dom Alvar Pérez, mas se separou dele por causa de seu parentesco, sem ter tido nenhum filho dele. Ela se chamava Dona Aurembiaix. [129] Nós a recebemos bem, e após dois dias, fomos vê-la. Dom Guilherme de Cervera, senhor de Juneda, era seu conselheiro, e ela fazia por ele mais que por qualquer outro homem do mundo. Ele a aconselhava em seus trabalhos, pois tivera a mãe dela como mulher, e como era um homem velho e dos mais sábios da Espanha, ela seguia seu conselho e mostrava isso para nós e para os outros, enquanto ele cuidava de seus negócios e tudo o que ela necessitava. [130]

Ela pediu a Dom Guilherme de Cervera que nos mostrasse sua razão. E disse Dom Guilherme de Cervera:

“Senhora, mostrai vós, que melhor sabeis mostrar e dizer que eu”. E fizeram mostrar isso a ela, e ela nos disse como viera a nosso pedido, porque sabia, e assim diziam as gentes, que em nós encontraria justiça e mercê. Assim, ela veio a nós porque estava recebendo injúria em nossa terra, e que toda a terra sabia que ela era filha do conde de Urgel, Dom Ermengol, e que aquele condado pertencia mais a ela que a qualquer outro, porque ela era sua filha e ele não tivera mais nenhum filho ou filha a não ser ela. E assim, ela nos clamava amor e misericórdia para que nós devolvêssemos seu direito, pois se não fosse por nós, ela não poderia tê-lo de nenhum outro homem do mundo. [131]

Dom Guilherme de Cervera e Dom Ramon de Peralta apoiaram sua razão, por concordar com ela. Mas Dom Ramon de Peralta não quis lhe oferecer Montmagastre até a condessa vir. E quando ela veio, ele lhe deu Montmagastre e o direito que o conde tinha ali, retendo o poder sobre quatro castelos. [132]

Eles então retornaram a nós e disseram: “Senhor, isso é o ofício de rei: dar o direito aos que não podem ter, pois Deus vos colocou em seu lugar para ter justiça [133], e esta senhora que veio diante de vós é de grande linhagem, de pai e de mãe, como vós sabeis, e ao ser deserdada dos bens de seu pai em vosso reino e em vosso poder, veio clamar mercê para receber de volta o que é seu e que seu pai lhe deixou. E ela tem tantos bons costumes em si, que deve valer convosco. Por isso, clamamos mercê juntamente com ela, que o disse melhor que todos nós”.

Dom Ramon de Peralta disse ainda mais. Nós lhe dissemos que seus pedidos eram justos, que tomaríamos nossa decisão e que faríamos o que deveria ser feito. E pedimos conselho ao bispo, de nome Dom Berenguer de Erill, e a Dom Guilherme de Montcada, a Dom Ramon e a Dom Guilherme Ramon, irmão de Dom Ramon de Montcada e pai de Dom Pedro [134], a Dom Assalit, a Dom Garcia Pérez de Meitats e aos bons-homens da cidade de Lérida. [135] Eles nos rogaram que lhes déssemos Dom Guilherme Sasala como defensor. E então ela doou, por sua vida, o direito de caldeira de Lérida, que naquele momento não valia mais que duzentos soldos de renda, e que depois subiu para três mil. [136]

35. E foi acordado entre o bispo e os ricos homens que convocassem o conde de Urgel, de nome Dom Guerau de Cabrera, para que viesse à nossa corte fazer direito à condessa, e que fossem feitas todas as notificações, todas as três, assim como se deveria fazer. Na primeira notificação que lhe fizemos, ele não veio. E antes que déssemos sentença contra ele e avançássemos, pois isso era uma forma de direito, voltamos a ela e lhe dissemos que não poderíamos fazer isso, a não ser de acordo com a ordem de direito, e assim ela e seu Conselho deveriam desejar. E acordamos que convocássemos Dom Guerau de Cabrera, que então tinha o condado de Urgel. [137] Mas quando o convocamos, veio no dia, como procurador de Dom Guerau, Dom Guilherme de Cardona, que tinha o condado de Urgel e era irmão de Dom Ramon Folch, que foi mestre do Templo.

E disse à nossa corte, diante de todos e de todos aqueles que ouviam aquilo, que Dom Guerau, conde de Urgel, se maravilhava muito, pois ele tinha o condado há vinte ou trinta anos sem nenhuma queixa, e estando ela ainda viva não lhe fora feita nenhuma demanda, e agora estava colocada uma questão e demanda e, por isso, lhe parecia que não deveria responder. Assim, pedia-nos que não lhe fizéssemos aquela demanda, já que era nova, e ele não era homem que devesse atender tão nova e tão sinuosa demanda como aquela. [138]

Dom Guilherme Sasala disse esta razão pela condessa: “Senhor, como Dom Guilherme de Cardona, homem probo [139], de grande linhagem e de honra, se maravilha com essa demanda? Maior maravilha é que um homem diga que não fará direito a tão boa senhora como a condessa; e quando demanda direito em vossa corte e diz que não o fará, o diz contra a razão. E Deus, senhor, vos pusestes em seu lugar, para que vós deis àqueles que não encontram nem direito, nem razão. Por isso, a condessa vos roga que lhe dê seu direito”.

Disse Dom Guilherme de Cardona: “Eu não vim para disputar nem para outra coisa, somente para dizer o que me ordenaram”.

Disse Dom Guilherme de Montcada: “Tendes alguma procuração de Dom Guerau?”

Disse ele: “Não, mas eu vos disse o que me ordenaram, e eu estou aqui para isso, e depois disso irei”.

Disse Dom Ramon de Montcada: “Esperai-vos, que o rei dirá o que decidiu e responderá o que haveis dito”.

E partiram e nós fizemos nosso acordo. Feito isso, pediram que déssemos nossa resposta. E dissemos: “Dom Guilherme de Cardona, vós não haveis trazido nenhuma procuração de Dom Guerau; além disso, vós não desejais responder ao direito. Desejamos saber ainda de vós se quereis responder à demanda que Dom Guilherme de Sasala vos faz”.

Ele disse que não responderia mais nada. Então lhe dissemos: “Assim, nós faremos o que devemos fazer: convocaremos outra vez, e então serão três vezes, e se desejais fazer direito, nós o aceitaremos, caso contrário, faremos o que o direito ordena”.

Assim ele se foi, e nós lhes fizemos outra notificação, e Dom Guilherme de Cardona veio no dia determinado.

36. E fomos para a casa de Dom Ramon, reboster [140], e toda a corte e os ricos homens escutaram quando Dom Guilherme de Casala se levantou e disse:

“Senhor, rogo que vós me escute. Deus quis que neste século estivessem reis e deu-lhes por ofício que eles tivessem direito àqueles que necessitassem, especialmente às viúvas e aos órfãos. [141] E quando a condessa não tinha a quem recorrer, a não ser a nós, por duas razões ela veio diante vós: a primeira, porque a demanda que ela faz diz respeito à vossa terra; a segunda, porque vós sois a única pessoa no mundo que pode lhe dar conselho. Por isso, ela vos clama mercê, como um homem fez ao bom senhor, e assim vós lhe façais responder a Dom Guerau e a Dom Guilherme de Cardona, que vem aqui por ele, que neste feito haveis dado dois dias e, por sua falta, nem vós, nem vossas cortes podem resolver. Agora, este é o derradeiro dia em que a condessa vos roga, exatamente como um senhor do qual se espera o bem e o direito, e que encontra em vós a justiça dessa maneira: que se Dom Guilherme de Cardona não vem preparado para fazer o direito, que vós façais contra Dom Guerau e contra os seus bens, até que a condessa possa vir para cumprir o direito da demanda que lhe fez”.

Disse Dom Guilherme de Cardona: “Se ouvi bem, Dom Guilherme, pensais que por vossa doutrina jurídica que haveis adquirido em Bolonha o conde perderá seu condado?” [142]

Disse Dom Guilherme Casala: “Eu não peço direito para a condessa, mas se temos direito, confiamos que o senhor rei nos dará, e para manter seu direito não me desistiria por vós”.

Disse Dom Guilherme de Cervera: “Assim o será.”

Disse Dom Guilherme de Cardona: “Senhor, guie-me que eu irei”. [143]

“E vós não direis mais nada?”, dissemos nós. Ele disse que não.

Respondeu Dom Guilherme de Cervera: “Por minha fé, sim que falta fazer algo”.

“Agora – disse Dom Guilherme de Cardona –, será o que Deus quiser”.

E confiamos isso a Deus.

37. Nós enviamos sempre uma carta a Tamarite para que eles fossem, um dia determinado, a Albelda com suas armas e com provisões para três dias [144], que nós estaríamos ali. Dissemos então a Dom Guilherme, a Dom Gastão de Montcada, a Dom Ramon e a Dom Guilherme de Cervera que fossem conosco com suas linhagens, que cairíamos sobre Dom Ponç. Enquanto as cartas eram enviadas, estava Dom Pedro Cornel conosco, e com treze cavaleiros fomos Albelda, mas não encontramos os de Tamarite nem os outros, somente Dom Bertrand de Calazans e Dom Ramon de Calazans com sessenta ou setenta homens a pé. Pesou-nos muito o fato de os de Tamarite não terem ido. Os da vila de Albelda estabeleceram a defesa da vila com escudos, balestras e outras armas.

Nós dissemos: “Como permitimos que eles tenham a vila?” E então deixamos os cavalos com os escudeiros e descemos, tomamos nossas armas, fomos combater e nos apossamos da vila. E logo depois de termos tomado toda a vila, vieram alguns de Tamarite e fizeram-nos um pleito, ao pôr-do-sol, para que os defendêssemos, pois assim nos entregariam o castelo, e ele permaneceria em nossa fé. Assim, quando chegou a manhã, nos entregaram o castelo.

38. Então nos movemos dali e dissemos: “Iremos a Menargues [145], pois antes que eles saibam estaremos muito próximos deles”.

E vieram conosco cavaleiros de nossa companhia, cerca de trinta cavaleiros, e fomos todos a Menargues. Dissemos então à companhia: “Parai-vos, que nós iremos adiante com três ou quatro cavaleiros de nossa companhia”. E foi-se Dom Rocaforte com três outros cavaleiros que nós não recordamos. E todos os homens já tinham subido ao castelo com suas armas e com todas as provisões que puderam trazer da vila. Fomos então à porta do castelo e dissemos-lhes: “Barões, bem sabeis que a condessa é vossa senhora natural, e ela não deseja a vossa destruição, nem que morreis aqui, nem que perdeis nada do que é vosso. Desceis de vossas casas e nós assegurar-vos-emos em nosso nome e em nome dela que não vos faremos mal, pelo contrário, vos defenderemos contra todos os homens”.

Um deles disse: “Senhor, que nós faremos com o castelo que nos foi confiado por Dom Pons de Cabrera?”

Nós dissemos: “Bem sabeis vós que mais vale a nossa senhoria que a de qualquer homem do mundo. Nós guardar-vos-emos e não faremos nada contra a fé. Portanto, desceis de boa vontade, e nós tomar-vos-emos sob nossa fé”.

Disse um deles: “Como foi o rei que nos disse isso, assim o façamos”.

Mas antes que abrissem a porta disseram-nos: “Vós dizeis que nós desceremos sob vossa fé, correto?”

“Sim”, nós dissemos.

Eles então desceram com suas armas e suas roupas. E vieram os cavaleiros que nós chamamos.

Quando viram que os cavaleiros eram tão poucos, sentiram-se desgraçados. Nós não tínhamos carne nem desejávamos tomar deles. Assim, enviamos cerca de vinte cavaleiros para fazer uma correria a Balaguer, e eles trouxeram-nos, entre vacas e vitelas, cerca de dezesseis, e assim compramos o pão e o vinho e tivemos carne para até três dias.

39. No entanto, chegaram-nos companhias da Catalunha e de Aragão, e chegamos a ter duzentos cavaleiros e cerca de mil homens a pé. E fomos a Linola ao final do terceiro dia. E quando estávamos em Linola, no outro dia pela manhã chegou Dom Ramon de Montcada, e armou-se com toda a hoste para combater, e eles protegeram toda a vila. Veio então Dom Ramon de Cardona e disse: “Aconselhar-vos-ia, senhor, que não nos combatêsseis, pois há bons servidores aqui, e não valeria aprisionar a vila pelo mal que poderíeis receber, vós e sua hoste. Deixai-me falar com eles, pois verei se posso obter um bom pacto”. Nós não desejamos escutá-lo, e fomo-nos para a vila e combatemo-los. E nós, a pé com aqueles combatentes, tomamos a vila. Os homens se atracaram na fortaleza onde havia uma torre muito segura e uma albacara [146], e naquele mesmo dia eles se renderam. No dia seguinte após sua rendição, estabelecemos nossa guarnição no castelo. [147]

40. Depois disso fomos assediar Balaguer. E passamos pelo rio em um lugar chamado Almata, onde colocamos duas catapultas. [148] Estavam conosco Dom Guilherme de Montcada, Dom Guilherme de Cervera e os ricos-homens de Aragão, com cerca de quatrocentos cavaleiros. Após oito dias naquele lugar, chegou uma mensagem de Dom Menargues e de Dom Pedro Palau, que eram os melhores homens da vila, que dizia que, se nós quiséssemos acabar com o pacto de Balaguer, que trouxéssemos a condessa que estava em Lérida que ela própria pediria, pela natureza que tinha desde seu pai, para que eles entregassem a vila, porque ela era sua senhora. Nós compreendemos que aquelas palavras eram elevadas, mas dissimuladas, e nós não poderíamos enviar mensagem quando eles queriam, pelo pavor que tínhamos de perder aquelas pessoas.

Assim, enviamos uma mensagem, agradecendo muito e dizendo que faríamos bem pelo amor que demonstravam, de forma que recompensaríamos a eles e à sua linhagem. Depois, ao fim de poucos dias retornou um mensageiro que era um jovem estudante de nossa confiança, com as mesmas palavras que inicialmente tinham nos dito. Dissemos-lhes duas coisas: “Eles fazem isso por si mesmos ou por conselho de outros. Isso é tão importante que se têm homens contrários, que não sejam tão poderosos a ponto de não se poder desfazer o que fazem”.

E solicitamos a eles: “Quando desejam que a condessa venha à hoste?” Disse aquele mensageiro: “Enviar-me-ei a eles e dir-lhes-ei isso”. E enviaram-nos uma mensagem para dizer o dia em que ela viria. Naquele dia, a condessa chegou. Ao fim de quatro ou cinco dias, retornaram-nos com a resposta e disseram-nos que preparássemos escudeiros e homens armados para que fossem diante dela e que se aproximassem o mais próximo do muro para que pudessem escutar suas palavras, e assim, pela vontade de Deus, nós cumpriríamos sua palavra dita. Então, nós fizemos daquela forma que havíamos decidido com eles, e o conde entendeu que havia algumas palavras acordadas entre nós e aqueles de dentro.

41. Um dia, entre a hora nona e as vésperas [149], Dom Ramon de Montcada estava de guarda nas catapultas. Assim, estando de guarda, estavam com ele Dom Sancho Perez de Pomar, filho de Dom Pedro de Pomar e Dom Bardoll, que era seu bailio em Castellserá, além de Arnau de Rubió, cavaleiro. Quando os homens de Balaguer e Dom Guilherme de Cardona, que estava dentro, viram que eles eram tão poucos, saíram com cavalos armados [150] pela muralha onde tinham feito uma brecha, e entraram sorrateiramente no fosso com pedaços de lenha seca untadas de graxa. Nós estávamos na tenda de Dom Guilherme de Cervera para ver isso, e quando estávamos falando com ele, gritaram: “Às armas, às armas, pois eles vêm queimar as catapultas com lenhas acesas!” [151] Dom Guilherme de Cardona estava com cerca de vinte e cinco cavaleiros armados e duzentos homens a pé, entre os que levavam as lenhas. Com ele foi sire Guilherme, filho do rei de Navarra com uma senhora. Dom Sancho Perez de Pomar não teve coragem de esperá-los e começou a fugir para a hoste. E assim, permaneceram com Dom Ramon de Montcada somente Arnau de Rubió e Dom Guilherme de Bardoll.

Dom Guilherme de Cardona veio com a lança nas mãos sobre Dom Ramon de Montcada, e lhe disse: “Rendei-vos, Dom Ramon, rendei-vos!”

Disse Dom Ramon: “A quem me renderia, seu porco, a quem me renderia?”

Enquanto isso eles puseram fogo nas paliçadas, pois não podiam se conter, já que nós, com a hoste a pé, fomos acudi-los e chegamos à catapulta.

Dom Blasco de Estada armou seu cavalo para testar suas túnicas; tomou rapidamente suas armas e cavalgou depressa, saindo com os de sua hoste, o elmo na testa e a lança na mão. João Martinez de Eslava saiu a pé com o escudo abraçado e a espada na mão. E logo que fez isso, ele alcançou aqueles que estavam longe, a cavalo, e cortou um cavalo ao se voltar para os que desejavam queimar a catapulta. Dom Blasco de Estada adentrou em um vale e feriu um cavaleiro com um movimento de sua mão que tinha a lança e retornou sem receber nenhum golpe deles, nem mesmo as pedras lançadas do muro.

42. No terceiro dia a condessa chegou e, diante de Dom Guilherme de Cervera, lhe dissemos algumas palavras que nós havíamos tido com aqueles de dentro. Ela disse que voluntariamente diria aquelas palavras e faria tudo o que nós lhe ordenássemos, desde que a protegêssemos das flechas. Nós lhe dissemos que assim o faríamos. E armamos cinqüenta cavaleiros com escudos e perpontes para que fossem com ela e a protegessem. E ela, cavalgando em sua besta, desceu e se aproximou tanto do muro que um homem poderia atirar-lhe uma pequena pedra.

Um deles disse a ela: “Sois os de Balaguer?”

Eles se calaram e não responderam na primeira vez, mas disseram: “A condessa está aqui. Estão aí os bons-homens?”

Um deles respondeu: “Sim, o que quereis e o que quereis dizer-nos?”

Disse um cavaleiro: “A condessa vos roga que a escuteis um pouco, já que é uma senhora e não pode falar alto.”

Ela então disse: “Barões, bem sabeis que vós fôsseis de meu pai, vós e os seus naturais. E assim como fôsseis dele, sois naturais de mim, que sou sua filha. Assim, vos peço e vos ordeno pela senhoria que tenho sobre vós que me entregueis Balaguer, assim como deveis retornar à vossa senhora natural”.

Eles responderam: “Ouvimos suas palavras, faremos o que devemos fazer: nosso acordo, e nada mais”.

Um cavaleiro da parte da condessa respondeu: “Barões, a condessa vos agradece muito por dizer que fareis o que deveis fazer; ela tem essa esperança em vós”.

Assim, a condessa retornou para a hoste. E, nas vésperas, enviaram-nos uma mensagem através daquele estudante que andava conosco e com eles, e disseram que havíamos feito bem. Disseram ainda que nós concordássemos com ela que eles encontrariam um rico-homem que tivesse Balaguer por Dom Ponce e pela condessa, que eles não ousariam mudar nada, até porque tinham grande poder, o castelo, e não poderiam acabar com tudo; e somente quando o conde saísse da vila por algum motivo é que eles assegurariam que o castelo e a vila seriam restituídos à condessa.

43. Em uma manhã os bons-homens da vila estavam em um terreno conversando quando Dom Pons fez um besteiro pegar uma balestra e atirar uma flecha onde eles estavam em Conselho, mas ninguém ficou ferido.

Eles disseram: “Como nos atiram flechas enquanto nós destruímos este lugar e fazemos o que não devemos por amor a ele?”

Eles então enviaram dois bons-homens para dizerem que se maravilhavam fortemente com aquilo, pois ele atirava quando eles estavam em perigo de morte por causa do rei, que enquanto isso lhes devastava a horta e caía sobre eles: e que, se ele assim o fizesse, eles fariam outro Conselho. Então Dom Guerau, Dom Guilherme de Cardona e seu Conselho viram que os homens queriam atender à condessa por causa das palavras que ela lhes havia dito, que não se aconselhavam com eles, e que não sabiam nada de seu conselho. Eles fizeram um pleito a nós para que colocássemos o castelo em poder de Dom Ramon Berenguer de Aguer e que o nosso direito decidisse o pleito entre eles e a condessa.

Os homens da vila nos enviaram uma mensagem para que fizéssemos isso, pois conseguiríamos tudo até que o conde saísse. Nós então falamos com Dom Guilherme de Montcada e dissemos que desejávamos fazer aquele pleito, isto é, que cederíamos o castelo nas mãos de Dom Ramon Berenguer de Ager e ele o teria em fidelidade, e aquele que ganhasse o pleito entre Dom Guerau e a condessa reteria o castelo.

Dom Guilherme de Montcada respondeu: “Não penso que vós deveis fazer isso, pois vós estais aqui e é necessário que termineis vosso entendimento e não partais daqui até que o local seja vosso”.

Nós ainda não tínhamos revelado o que conversamos com os de dentro, e respondemos:

“Dom Guilherme, mais vale o engenho que a força [152], embora vós dissésseis o que deveis dizer. Nós desejamos dizer-vos o segredo do que queremos fazer, e vos direi: os melhores homens da vila falaram conosco e nos disseram que nos restituirão a vila e o castelo, motivo da vinda da condessa até aqui. Assim, faço-vos saber que, se este castelo estiver em poder de Dom Ramon Berenguer de Ager, até que Dom Guerau esteja fora teremos como nossos o castelo e a vila, e não teremos que ter precaução com aquela fidelidade que venha para o seu poder, pois logo a perderá”.

Ele disse: “E dissestes assim?”

“Sim – nós dissemos – e logo o vereis”.

44. Logo enviamos um mensageiro a Dom Guerau de Cabrera e aos da vila para dizer que outorgávamos a fidelidade que nós tínhamos a Dom Ramon Berenguer de Ager. Mas Dom Guerau, não tinha a inteligência de Salomão, e teve pavor dos da vila.

Ele tinha um falcão mestiço, muito bom e muito belo. Pegou então seu falcão em sua mão, passou a ponte e em seguida nos enviou uma mensagem através de Dom Berenguer de Finestres, dizendo que estava pronto para entregar o castelo a Dom Ramon Berenguer. Então, os da vila nos enviaram uma mensagem para que levássemos nosso estandarte que eles o colocariam no castelo. E enviamos um cavaleiro e cinco escudeiros que foram com o estandarte coberto e uma lança para que o içassem quando chegassem ao castelo.

Dom Berenguer de Finestres falava conosco e dizia que enviássemos Dom Ramon Berenguer de Ager, que recebêssemos homenagem e tomássemos o castelo em fidelidade. Nós havíamos enviado nosso estandarte ao castelo e mantínhamos palavras com ele, e ele insistia para que nós o liberássemos logo, pois o conde desejava sair. Nós estávamos olhando quando vimos o nosso estandarte no castelo. Ao vê-lo, dissemos-lhes: “Dom Berenguer de Finestres, agora podeis ir, porque Balaguer é nosso”. “Como vosso?”, disse ele. Nós lhe dissemos: “Olhai que verás nosso estandarte no castelo”. Ele teve uma grande vergonha e uma grande dor e foi-se, sem dizer nada. E o conde foi-se para Montmagastre.

45. Tivemos o conselho de enviar Dom Guilherme de Cardona a Agramunt, e o mandamos para lá com quinze cavaleiros. E quando os de Agramunt ouviram dizer que se fazia um pacto entre nós e os de Balaguer, falaram com Dom Ramon Jafa de Agramunt e com outros da vila que, se a condessa viesse a Agramunt, eles se renderiam. Isso foi dito antes que Balaguer fosse tomado.

Dom Ramon de Montcada falou com Dom Berenguer de Peraxens. E Dom Ramon de Montcada disse a nós, à condessa, a Dom Guilherme de Montcada, a Dom Guilherme de Cervera e a nosso conselho que se Balaguer fosse tomado, deveríamos ir a Agramunt, pois Dom Berenguer de Peraxens tinha ido para lá e havia concordado que eles se renderiam. Assim, após entregarmos o castelo de Balaguer à condessa, fomos com ela a Agramunt e nos albergamos na costa da serra de Almenara, de onde se podia ver Agramunt. Quando Dom Guilherme de Cardona viu que nós estávamos albergados naquele local, saiu de noite e passou a noite em vigília. Quando ouvimos dizer que ele havia saído, levantamos pela manhã, os homens da vila saíram e vieram a nós, entramos em Agramunt e colocamos a condessa dentro do castelo.

46. Os de Pons nos enviaram uma mensagem para que a condessa fosse ali, e foi nosso acordo que ela o fizesse. Nós não quisemos ir, pois não tínhamos desafiado Dom Ramon Folch, quem nos possuía, e assim não estávamos livres dele, nem ele de nós. [153] Para ali foi a condessa, e encontrou a vila desabitada. Foram com ela Dom Guilherme de Montcada, Dom Ramon de Montcada e toda a companhia, exceto nós, que permanecemos com cinco cavaleiros. Os homens da vila saíram a cavalo, com cavalos de torneio, e o castelão a cavalo com os que estavam com ele. Os outros que foram com a condessa armaram os cavalos e atacaram, até que os cercaram perto do castelo. Conforme o que nos disseram, Dom Bernardo Desllor, frade do sacristão de Barcelona, esteve ali e realizou o melhor feito de armas. [154]

Naquele mesmo dia, às vésperas, Dom Guilherme de Montcada e Dom Ramon enviaram-nos uma mensagem para que fôssemos para lá de qualquer maneira, pois se fôssemos, a condessa teria o castelo, já que não poderia tê-lo de outra forma.

Nós dissemos: “Como iremos, se não estamos rompidos com Dom Ramon Folch e ele tem o castelo?”.

Eles disseram: “Saibais que, se vós não fordes, a condessa não terá o castelo. E se vós fordes, a condessa terá o castelo”.

Nós dissemos: “O que faríamos quando ali estivéssemos?”

Eles disseram: “Dizeis e aconselheis a eles para entregarem o castelo à condessa, e eles assim o farão”.

Nós dissemos: “Assim o faremos, guardando o direito de Dom Ramon Folch, caso ele tenham algum”.

E assim fomos, e fizemos todos aqueles que estavam conosco deixarem os cavalos e as armas. Naquela mesma manhã, desceram a nós cerca de vinte homens da vila, o castelão com eles. Perguntamos a eles porque tinham vindo até nós, e eles disseram: “Pedimos vosso conselho sobre o castelo, pois assim o faremos”.

Nós dissemos: “Aconselhamos-vos desta maneira: eu e a condessa prometemos ao castelão e a vós que o direito que Dom Ramon Folch tem sobre esse castelo lhe será salvo, e que vós bem assegureis isso a nós, já que ela recuperou o condado por juízo de nossa corte, por direito e por razão; que os outros também atendam isso, que vós o atendais e assim restituais a ela seu castelo”.

A partir de então, eles atenderam isso. Assim, enviamos uma mensagem a Oliana e, quando souberam que o castelo de Pons estava restituído, se entregaram sempre à condessa. E não queríamos pedir nada em nosso nome, pelo direito que ela ali tinha.

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Vila de Oliana, localizada na parte sul da comarca Alt Urgel, e se estende à esquerda do rio Segre, entre a serra de Turp e o desfiladeiro de Espluvins.
A denominação de Oliana, nome de origem romana, está documentada na ata de consagração da catedral de Urgel. A origem da população é o antigo castelo de Oliana (na foto acima, no alto), local que pertenceu aos condes de Urgel. Em 1126, o conde Ermengol VI fez uma doação dos bens de Oliana à catedral de Urgel. Jaime I, pelo pacto de Lérida, resgatou Oliana dos Cabrerà, para Aurembiaix de Urgel, entregando-lhe o poder sobre a vila. Em 1259, o conde Álvaro de Urgel protestou que, tendo entregue o domínio do castelo de Oliana e de outros a Jaime I, o rei não lhes tinha restituído.

47. Passado meio ano, fomos à Tarragona. Nosso Senhor quis que, antes das cortes, a maior partida dos nobres da Catalunha fosse conosco, pois nós não a havíamos ordenado ainda. Eram Dom Nuno Sanchez, filho do conde Dom Sancho, Dom Guilherme de Montcada, o conde de Ampúrias, Dom Ramon de Montcada, Dom Guerau de Cervelló, Dom Ramon Alamano, Dom Guilherme de Claramunt, Dom Bernardo de Santa Eugenia, senhor de Torroella. [155]

Dom Pedro Martel, cidadão de Barcelona que sabia muito sobre o mar, convidou a nós e a todos aqueles nobres que estavam conosco. Quando estávamos no fim da comida, levantaram-se palavras entre eles. Perguntaram a Dom Pedro Martel, capitão de galés, que terra era Maiorca e quanto tinha de extensão aquele reino. Dom Pedro Martel disse-lhes que poderia dizer novidades, pois já havia estado lá uma ou duas vezes. Ele calculava que a ilha de Maiorca tinha cerca de trezentas milhas de diâmetro, que Minorca era oposta à Sardenha, ilha que recebia o vento grego, que Ibiza recebia o vento garbí, e que Maiorca era a principal dessas ilhas e todos faziam o que o senhor de Maiorca ordenava. [156] Havia ali outra ilha próxima à Ibiza de nome Formentera, habitada por sarracenos. Havia ainda um estreito de mar de uma milha entre Ibiza e Formentera. [157]

Quando terminaram de comer, vieram diante de nós e disseram: “Senhor, nós perguntamos a Dom Pedro Martel algo que cremos que a vós agradará: uma ilha que tem o nome de Maiorca. Nessa ilha há um rei, e sob esse reino há outras ilhas subjugadas ao rei de Maiorca, chamadas Minorca e Ibiza. O que Deus deseja ninguém pode desviar ou tomar. Deve vos agradar – e nós consideramos por bem – que vós conquisteis aquela ilha por duas razões: a primeira, que vós e nós valeremos mais; a outra, que será coisa maravilhosa as gentes ouvirem sobre esta conquista, pois vós tomareis uma terra e um reino dentro do mar, onde Deus o quis formar”.

Nós ouvimos suas palavras, tivemos um grande prazer e respondemos: “Estamos muito agradecidos com esse pensamento que vimos fazer a nós. Por isso, o que nós fizermos ali não ficará incompleto”.

Assim, naquele lugar tivemos acordo e conselho que fizéssemos nossa corte geral em Barcelona, que fosse uma corte geral com o arcebispo de Tarragona, todos os bispos, abades e ricos-homens que dissemos acima, além dos cidadãos de Catalunha. Que todos naquele dia estivessem conosco em Barcelona. [158]

48. Naquele dia em que nossa corte havia sido convocada, fomos à Barcelona, nós, o arcebispo, os bispos e os ricos-homens. Quando chegou o outro dia em que a corte foi reunida, estavam todos em nosso antigo palácio que o conde de Barcelona construiu. [159] Assim, quando estavam todos diante de nós, principiamos nossas palavras da seguinte maneira: “Illumina cor meun, Domine, et verba mea de Spiritu Sancto. Nós rogamos a Nosso Senhor Deus e à Virgem Santa, Sua Mãe, para que possamos dizer algumas palavras em honra de nós e de vós, as quais escutareis, e que elas sejam prazerosas a Deus e à Sua Mãe, Nossa Senhora Santa Maria. Nós queremos falar de boas obras, pois as boas obras vêm Dele e são Suas. E aquelas palavras que nós dissermos, assim serão. E queira Deus que nós possamos chegar a um bom termo”.

“É certo que nosso nascimento se fez por virtude de Deus, porque nosso pai e nossa mãe não se queriam bem, e foi vontade de Deus que nascêssemos neste mundo. E se nós disséssemos as condições e as maravilhas que aconteceram no dia de nosso nascimento, seriam grandes, mas deixaremos de lado, pois isso já foi demonstrado no princípio desse livro. Certamente vós sabeis que somente nós somos vosso senhor natural, sem irmãos nem irmãs, pois nosso pai não teve mais ninguém de nossa mãe, e que viemos a vós muito cedo, pois éramos um jovem de seis anos e meio, e encontramos Aragão e Catalunha conturbadas, pois uns estavam contra os outros, e não se acordava nada, pois o que uns queriam, os outros não queriam. E havia má fama pelo mundo por causa dessas coisas que tinham acontecido”. [160]

“Este mal nós não podemos reparar a não ser de duas maneiras, isto é, pela vontade de Deus, que nos endereça em nossos assuntos para que façamos tais coisas, e se vós e nós fizermos isso com prazer, e que a coisa seja tão grande e boa que a má fama que está entre vós termine, porque a claridade das boas obras desfaz a escuridão”.

“Assim, nós vos rogamos encarecidamente por duas razões: a primeira por Deus. A segunda, pela natureza que temos convosco, que vós nos aconselhais e ajudais em três coisas: a primeira, que nós possamos colocar nossa terra em paz; a segunda, que possamos servir a Nosso Senhor nesta viagem que desejamos fazer ao reino de Maiorca e às outras ilhas que pertencem a ele; e a terceira, que deis conselho, de maneira que possamos cumprir a honra de Deus.”

E dito isto, demos fim às nossas palavras. [161]

49. O arcebispo de Tarragona, de nome Dom Espárech, levantou-se, pelos pedidos que os ricos-homens lhe faziam, pois queriam que ele falasse primeiro. Ele respondeu dessa maneira: “Senhor, bem sabemos que vós vindes muito jovem entre nós e que tendes grande necessidade de conselho com tão grandes palavras como as que vós haveis proposto aqui. Nós acordamos responder-vos de tal maneira que será em honra de Deus, de vós e de nós”.

Dom Guilherme de Montcada respondeu pelos nobres e por ele, e disse que muito agradecia a Nosso Senhor pelo bom propósito que ele nos tinha dado e, como a coisa era grande e muito nobre, não podia responder antes de um grande conselho: “Mas isso diremos diante de todos: que o conselho será tal, que vós o devereis receber, e nós, dar”.

Então falaram os homens das cidades. Dom Berenguer Girart, que era de Barcelona e que respondeu por eles, levantou-se e disse: “Nosso Senhor, que é Senhor de vós e de nós, desejou vos colocar nessas boas palavras que vós dissestes. E agrada a Ele que nós possamos responder de tal maneira que vós possais cumprir vossa vontade em honra de Deus e de vós. Então, que façamos simultaneamente nosso acordo com eles e respondeis-vos”.

Disse o arcebispo: “O clero se reunirá de um lado, os ricos-homens de outro e os cidadãos farão seu acordo entre si”.

E todos concordaram. Assim, naquele dia se dissolveu a corte, e eles acordaram que, ao terceiro dia, nos responderiam. De nossa parte, nos reunimos secretamente, e ali estiveram os ricos-homens, e falaram conosco antes do arcebispo e dos bispos. Então se levantou o conde de Ampúrias e disse: “Eu vos direi isso antes da resposta que dareis vossos nobres: se há homens no mundo com má fama, nós temos boa fama, pois costumávamos tê-la. Vós estais entre nós como nosso senhor natural, e é necessário que façais tais obras com a nossa ajuda, para que possamos recuperar a honra que perdemos. Dessa maneira, a recuperaremos, se vós, com nossa ajuda, tomardes o reino dos sarracenos que está no mar. E assim tiraremos toda a nossa má fama, e será o melhor feito que os cristãos farão em cem anos. Pois mais vale morrer e recuperar a boa honra que costumávamos ter e o bem que nós e nossa linhagem costumávamos ter, que viver na má fama em que estamos. Por isso, vos digo que, de todas as maneiras do mundo, por meu conselho, se faria este feito”.

Todos concordaram com as palavras que o conde de Ampúrias disse. Assim, cada um disse boas palavras como podiam para incitar o feito. Naquele entardecer, acordamos que ao amanhecer fizéssemos cortes gerais, e que eles responderiam primeiro para instigar o clero e os cidadãos. Enviamos então pelos ricos homens uma mensagem ao arcebispo, aos abades e aos bispos, para que eles estivessem diante de nós ao amanhecer para nos dar a resposta.

50. Quando chegou a manhã, celebradas as missas matinais, todos vieram à corte e deram a palavra a Dom Guilherme de Montcada, para que a mostrasse segundo o que eles tinham acordado.

Ele se levantou e disse: “Senhor, é coisa verdadeira que Deus vos fez para nos reger, e nos fez para que vos servíssemos bem e lealmente. Mas não poderemos vos servir bem nem lealmente se vossa fama e vossa honra não forem elevadas a todo o nosso poder, pois vossa exaltação é a nossa exaltação, e o vosso bem nos atinge. Portanto, a razão diz que, quando estes dois motivos concordam, nós também devemos querer. E semelhantemente àquele feito que vós haveis falado, o de conquistar o reino de Maiorca, que está dentro do mar, ele nos seria um maior honraria que se conquistássemos três reinos em terra. E por vossa honra, senhor, devemos nos esforçar acima de todas as coisas do mundo. Assim, nós vos dizemos os três conselhos que vós nos haveis pedido, que pacifiqueis vossa terra e que vos ajudemos de maneira que aquele feito se possa cumprir em honra de vós e de nós. Primeiramente, que façais paz e trégua por toda a Catalunha, e que coloque em seus escritos todos aqueles que a aceitarem. E Dom Nuno, que está aqui e é neto do conde de Barcelona, estará nesta paz conosco por duas razões: pelo bom parentesco que tem conosco, e pelas boas obras que vós quereis fazer. E caso alguém na Catalunha não quiser aceitar isso, nós o obrigaremos, por bem ou por mal. Além disso, queremos que recebais o bovatje de nossos homens [162], mas oferecemos-vos em doação, porque já o haveis tomado por vosso direito, como é costume que os reis o recebam uma vez. Mas este vos damos por graça e por amor, para que vós façais bem a vossa obrigação. E ofereço-vos, eu e minha linhagem, servir-vos com quatrocentos cavalos armados e cavaleiros, até que Deus vos tenha dado a ilha de Maiorca com as senhorias das outras ilhas que estão em volta, de Minorca e de Ibiza. Nós não partiremos de vós até que a conquista esteja cumprida. E Dom Nuno e os outros dirão por si a ajuda que cada um vos fará. Assim, rogamos-vos que, depois que nós fizermos estas três coisas por vós, que nos concedeis parte da conquista que vós fareis conosco, as coisas móveis e imóveis, porque vos serviremos, e desejamos fazer parte, para que, por todos os tempos, esteja a memória do serviço que nós vos faremos”.

E assim findou suas palavras.

*

Notas

[120] Na Idade Média, “barão” genericamente indicava o homem nobre, não exatamente o título nobiliárquico. Na Catalunha, o título de barão estava no último lugar da hierarquia feudal (barão, marquês, duque e conde).

[121] Na verdade eram nove reis, mas Jaime incluiu os condes.

[122] “...ao se estender o parentesco, por essa extensão a natureza se estreita”, isto é, quanto mais longeva é a relação de parentesco e soberania entre pares, mais estreitos devem ser os laços entre os homens.

[123] Trata-se do primeiro discurso de Jaime I em público. Embora o texto tenha sido escrito a posteriori, isto é, um bom tempo depois de ter sido proferido, ele nos sugere que o rei já havia amadurecido e demonstrava sua famosa capacidade de liderança.

[124] Mais uma demonstração da largueza do rei.

[125] Na Idade Média, a maior parte das cidades possuía muralhas (algumas até do período romano tardio – séculos III-V); estas tinham portas em determinados pontos da muralha. Ver LE GOFF, Jacques. “Cidade”. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, J.-C. (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval I. Bauru, São Paulo / EDUSC, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 219-236.

[126] Os jurats eram conselheiros municipais (também conhecidos como consellers, cònsols o paers).

[127] Alcalá – Alcalá del Obispo.

[128] Os de Montcada haviam entroncado duplamente com a casa de Barcelona.

[129] O conde de Urgel, Ermengol VIII, morreu em 1208. O rei Pedro, o Católico, amparou os direitos da condessa Dona Elvira como herdeira vitalícia. Ela faleceu por volta de 1220.

[130] Dom Guilherme de Cervera foi o segundo marido da condessa Dona Elvira, mãe de Aurembiaix.

[131] É a primeira vez que uma mulher discursa na Crônica. Repare que, ao contrário dos discursos masculinos, é o rei que descreve as palavras dela, sem dar-lhe o mesmo espaço proporcionado aos homens. Apesar desse filtro, a postura da condessa, defendendo seus direitos perante o rei, mostra que na Idade Média as mulheres nobres – especialmente as de alta condição, como as condessas – eram ouvidas e tinham seu espaço de reivindicação.

[132] Montmagarte fica localizado na província de Lérida. “Castillo y término son documentados en 1003 en razón aun asalto del general Wadih. Una vez reconquistado el conde Ramón Borrell hizo instalar una guarnición. En 1041 era posesión de Arnau Mir de Tost, en 1131 lo era de los vizcondes de Cabrera. Al final del siglo XV Gaspar de Llordat estaba de señor de Montmagastre. Situado en la cima de una colina conserva solamente los cimientos de algunos muros y restos de lo que fuera la cisterna”, Internet.

[133] A justiça era um dos pilares da monarquia medieval. O outro era a paz.

[134] Dom Guilherme Ramon era o filho mais velho de Dom Guilherme Ramon, e sucedeu a seu pai no cargo de senescal. Após a sua morte, o cargo passou para o seu irmão Ramón, também citado aqui.

[135] “...e aos bons-homens da cidade”, no original “prohòmens”, isto é, “homens respeitáveis, que merecem uma consideração especial”.

[136] O direito de caldeira era um imposto recebido pelas caldeiras das tinturarias.

[137] Na verdade, o condado estava em posse de Ponce de Cabrera, seu filho.

[138] Interessante passagem que demonstra que a tradição consuetudinária também era utilizada quando eram feitos pleitos novos. O fato de Dom Guilherme defender Dom Guerau com o argumento da tradição se explica: como se sabe, a “novidade” era sempre algo estranho e indesejado à mentalidade medieval, e o fato de o conde ter mantido suas posses durante tantos anos sem qualquer queixa, o tornava detentor de uma qualidade governamental que o fazia um homem digno de não receber qualquer acusação.

[139] No original “prohom”, isto é, probo (do latim probu), de caráter íntegro, honesto, reto, justo, um adjetivo muito utilizado na época para elogiar um nobre.

[140] De acordo com F. Soldevila (Les quatre grans cròniques, Barcelona, Ed. Selecta, 1983), a partir de sua assinatura como testemunho do convênio entre o rei e a condessa (onde aparece como “Raymundus reposter”), se conclui que se trata do nome, não do ofício; se fosse um cargo, teria constado em latim (repositarius, na Idade Média, “tesoureiro”). No texto original, a citação é: “E fom em casa d’em Ramon, raboster, e tota la cort...” (p. 46).

[141] A teoria política medieval defendia que o ofício monárquico deveria estar baseado em dois pilares: a paz e a justiça. No caso em questão, por se tratar de um rei-guerreiro, Jaime I associa mais intimamente a monarquia à justiça, e à virtude de proteger os pobres e os indefesos (no caso, viúvas e órfãos).

[142] Dom Guilherme de Cardona se refere aqui aos famosos estudos de direito da Universidade de Bolonha, onde Dom Guilherme de Casala parece ter estudado, o que demonstra o lento e progressivo desenvolvimento da cultura escrita, especialmente a universitária, entre a nobreza, fato inédito um século atrás da redação desse documento.

[143] Dom Guilherme de Cardona se refere aqui a um salvo conduto real que o permitiria viajar com segurança.

[144] Albelda – Povoado do condado de Urgel. Alguns manuscritos dão o nome de Albesa.

[145] Povoado no condado de Urgel, comarca de La Noguera.

[146] Albacara – denominação da parte entre a torre e o muro exterior do castelo.

[147] No original “...establim nostre castel.” (“estabelecemos nosso castelo”). Adaptamos.

[148] Almata – lugar adequado porque dali se tinha o controle de toda a vila de Balaguer, capital do condado, onde precisamente se instalará mais tarde Dom Fernando de Antequera em 1413, para assediar a Dom Jaime II, último conde de Urgel.

[149] Horas das orações: matinas (meia-noite), laudes (três da manhã), primas (primeiras horas do dia, ao nascer do Sol ou cerca de seis da manhã), vésperas (seis da tarde) e completas (hora de dormir).

[150] Os “cavalos armados” eram protegidos com cotas de malhas.

[151] Devido à sua construção em madeira, as catapultas eram facilmente combustíveis.

[152] “En Guillem, més val giny que força”, passagem que mostra um provérbio da época.

[153] “...não estávamos livres dele, nem ele de nós”, isto é, ambos ainda tinham o amor da amizade unindo-os.

[154] Dom Bernardo Desllor (no original, Dom Bernat dez Lor), sacristão, isto é, uma pessoa que tinha o gozo do benefício da sacristia (não necessariamente por ser sacristão e ter uma sacristia a seus cuidados).

[155] Torroella – Atualmente um município na Província de Girona.

[156] Vento grego – vento do Nordeste; vento garbí (ou lebech) – vento do Sudoeste. Por sua notável posição estratégica no Mediterrâneo, os catalães desde cedo desenvolveram atividades marítimas e, consequentemente, conhecimentos a respeito dos ventos. Por volta da mesma época, na obra Árvore da Ciência, o filósofo catalão Ramon Llull (1232-1316) definiu alguns dos ventos conhecidos: “Questão 192: Ramon, como os marinheiros medem as milhas no mar? Solução: Os marinheiros consideram quatro ventos gerais, isto é, o levante, o poente, o meio-dia e o tramontana, e considera outros quatro ventos que nascem daqueles primeiros, isto é, o grego, o sudeste, o sudoeste e o mestre. Além disso, eles também consideram o centro do círculo no qual os ventos fazem ângulos e o vento de levante por onde vai a nau distante cem milhas do centro, quantas milhas tem até o vento sudeste, dobrando as milhas até duzentas. Assim, conhecem por quanto são multiplicadas as milhas que são 200 do vento do levante até o vento de sudeste pela multiplicação das milhas do fim centenário do levante até o fim do sudeste. Para isso, eles têm instrumento, carta, compasso, agulha e ímã.” In: COSTA, Ricardo da. Las Definiciones de las Siete Artes Liberales y Mecánicas en la Obra de Ramón Llull. São Paulo / Porto: CEMOrOc-USP IJI - Editora Mandruvá - Univ. do Porto - Faculdade de Direito (Instituto Jurídico Interdisciplinar). Série Especial de Livros da Revista Notandum, 2005, p. 110. Ver também M. COMES, “La cartografia a Mallorca i a Barcelona”. In: J. VERNET i R. PARÉS (dirs.), La Ciència en la Història dels Països Catalans I. Dels àrabs al Renaixement. Institut d’Estudis Catalans, Universitat de València, 2004, p. 515-573.

[157] Na verdade, a distância entre Ibiza e Formentera é maior: quase 10 quilômetros.

[158] Nessa passagem, Jaime I cita nominalmente as três ordens feudais: o clero (arcebispo de Tarragona, bispos e abades), a nobreza (os “ricos-homens”) e o povo (os “cidadãos da Catalunha”).

[159] O palácio condal ou Palácio Maior foi edificado sobre a muralha romana. Seus restos se conservam atualmente entre as ruas Condes de Barcelona e Tapinería.

[160] As revoltas contra o senhor natural e as lutas intestinas aludidas aqui eram rechaçadas na Idade Média como uma transgressão da ordem natural das coisas.

[161] Este discurso já contém elementos características das proposições reais que formarão um capítulo importante não só da História, mas também da literatura catalã.

[162] Bovatge – Tributo que se pagava aos reis de Aragão por cabeças de gado e por bens móveis (doze dinheiros por parelha de bois). Ao rei Jaime se havia outorgado pouco antes de sua saída de Monzón, em 1217, de acordo com o Segundo Livro de Zurita (cap. LXXIX).