O Livro dos Feitos do rei D. Jaime (c. 1252-1274)
Jaime I (1208-1276)
Trad. e notas: Prof. Luciano Vianna e Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)

Capítulos 51-70

51. Então se levantou Dom Nuno Sanchez, que foi filho do conde de Barcelona, e disse: “Senhor, as palavras que Dom Guilherme de Montcada vos mostrou são muito boas, e ele fala bem por si e por sua linhagem, mas eu vos responderei pela minha. Nosso Senhor, que vos fez, quis que vós fôsseis nosso senhor e nosso rei, e como a Ele agradou, de todas as maneiras bem deve agradar a nós e a mim, tanto pelo parentesco que temos convosco quanto pela senhoria que vós tendes sobre mim. Pois, si vós tiverdes honraria e exaltação, eu terei uma parte disso, pois Deus quis que eu fosse de vossa linhagem. Por essa razão, a obra é boa, pois é obra de Deus, e quem com Deus faz suas tarefas, não pode fazê-las mal. As pazes e as tréguas vos outorgo, por mim e pela terra que vosso pai me deu, isto é, Rosellón, Conflent e Sardenha, terras que possuo enquanto viver. E dar-vos-ei para que possais fazer o bovatge. Além disso, irei convosco com cem cavaleiros armados às minhas custas, e que vós me deis parte da terra e dos bens móveis, para aqueles que eu conduzir a cavalo e a pé e também para as embarcações armadas e para as galés armadas por mim. E servir-vos-ei naquela terra até que Deus a vos tenha dado”.

Quando Dom Nuno terminou suas palavras, levantou-se o conde de Ampúrias e disse: “Senhor, eu não tenho palavras para destacar este feito que vós desejais iniciar, porque ele já mostra sua bondade por si, já que pode trazer um bem. Prometo-vos que irei com sessenta cavaleiros armados e com cavalos. Mesmo que Deus me tenha feito conde de Ampúrias, Dom Guilherme de Montcada é o melhor homem de nossa linhagem, e o mais nobre, porque ele é senhor de Bearn e de Montcada, que tem por vós, e de Castellvi, que é sua propriedade alodial. [163] Eu outorgo as palavras que ele disse. Naquele cálculo dos quatrocentos cavaleiros, acrescento sessenta meus, pois toda a nossa linhagem ali vos levará, e daquela parte que está prometida a ele e aos outros, dais a mim pelos homens a cavalo e a pé que eu conduzirei, porque todos os cavaleiros que nós e os outros ali tivermos irão com cavalos armados”.

52. A seguir, levantou-se o bispo de Tarragona e disse:

“Viderunt occuli mei salutare tuum”. [164] Esta é a palavra de Simeão quando recebeu Nosso Senhor em seus braços e disse: “Os meus olhos viram a tua salvação”. Portanto, eu também afirmo isso, apesar de a Escritura não dizer que ao vermos a vossa, vemos a nossa. Porque ela é a vossa salvação, quando vós subirdes em estima, em honra e em valor. Pois, se o vosso valor e a vossa exaltação são obras de Deus, tomaremo-nas por nossas, e este pensamento que vós e estes nobres que estão convosco tendes e quereis iniciar é em honra de Deus e de toda a corte celestial, e é o proveito que vós e vossos homens recebem e receberão neste mundo e no outro que não tem fim. Assim, agrada a Nosso Senhor que esta corte esteja reunida e que esteja a Seu serviço e em proveito de vós e de todos os nobres que aqui estão reunidos. Que cada um dos vossos nobres façam tal oferta, que vós deveis muito agradecer. Quando Deus vos der aquele reino que tens a intenção e haveis de conquistar, e eles convosco, que vós façais bem e repartais as terras e os bens móveis com aqueles que quiserem vos ajudar e servir. E dir-vos-ei, tanto por mim quanto pela Igreja de Tarragona, que eu nunca estive em feito de armas e sou tão velho que poderia lutar mal. Mas, sobre meus bens e meus homens, vos dou poder para que vós vos sirvais como faríeis se fossem vossos. E, se algum bispo ou abade quiser ir e vos servir pessoalmente, o que nos agradará muito, lhes damos liberdade da parte de Deus e de nós, porque todos devem ajudar, tanto na palavra quanto na obra, em tão boa e ousada ação. E Deus, que veio a terra para nos salvar, vos permitiu fazer este feito e os outros à vontade vossa e nossa”.

53. Em seguida, levantou-se o bispo de Barcelona, de nome Dom Berenguer de Palou [165], e disse: “De vós os homens podem dizer como o Pai que enviou Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, que tinha o nome excelsis. [166] Ali estavam Nosso Senhor, Filho de Deus, e Moisés, Elias e São Pedro. E disse São Pedro: “Seria bem conveniente que fizéssemos aqui três locais de tabernáculo: o primeiro para Nosso Senhor Jesus Cristo, o outro a Moisés, e o outro a Elias”. Nesse momento, surgiu um grande trovão do céu, e todos caíram na terra. E após terem caído, levantaram-se assustadoramente. Em seguida, chegou uma nuvem do céu, baixou contra eles e disse: Ecce Filius meus dilectus, qui in corde meo placuit. [167] E tal semelhança os homens podem fazer de vós, que sois filho de Nosso Senhor, e que desejais perseguir os inimigos da fé e da cruz. Assim, por este bom propósito, eu tenho confiança n’Ele que vós obtereis o reino celestial. Eu vos prometo, por mim e pela Igreja de Barcelona, cem cavaleiros ou mais, às minhas custas, até que Deus vos permita conquistar aquelas ilhas de Maiorca. E que vós deis minha parte pelos homens que eu conduzirei, tanto os marinheiros quanto os cavaleiros”.

A esse respeito disse o bispo de Girona [168]:

“Eu agradeço a boa vontade que Nosso Senhor Deus deu a vós e à vossa corte, e poderia dizer muitas coisas em louvor dessa boa obra, se desejasse, mas nosso arcebispo, o bispo de Barcelona, Dom Guilherme de Montcada, Dom Nuno e o conde de Ampúrias vos disseram tanto que foram perfeitos e disseram o que eu queria dizer. Mas vos prometo, por mim e pela Igreja de Girona, que irei convosco com trinta cavaleiros. E que vós me cedeis aquela parte conforme o que dareis aos outros”.

E levantou-se o abade de São Feliz de Guíxols.

54. O abade de São Feliz de Guíxols levantou-se e disse que iria conosco com cinco cavaleiros bem armados. Depois, levantou-se o preboste de Tarragona [169] e disse:

“Eu não tenho tantos cavaleiros como eles, mas seguir-vos-ei com meus quatro cavaleiros e uma galera armada”.

E, terminadas estas palavras, levantou-se Dom Pedro Grony e disse:

“Senhor, toda a cidade de Barcelona agradece a Deus a boa vontade que Ele vos destes, e temos confiança em Nosso Senhor que vós concluireis a vossa vontade. Oferecemos primeiramente os nossos corpos, as naus e os barcos que estão em Barcelona, para servir-vos nesta hoste honrada em honra de Deus. [170] E faremos isso de tal maneira que reteremos vossa gratidão por todos os tempos pelo serviço que agora faremos.”

Por isso, não quisemos colocar mais cidades, a não ser Barcelona. E Tarragona e Tortosa concordaram com as palavras que os bons-homens de Barcelona disseram.

55. Assim, ouvidas as palavras, disseram que fizéssemos uma carta segundo a partilha das terras e dos móveis que nós ganharíamos com eles. A forma da carta foi assim: segundo os cavaleiros, os homens armados, as naus, as galeras, os barcos e os armamentos que iriam, nós, quando Nosso Senhor nos tivesse dado aquela vitória, daríamos uma parte àqueles que fossem conosco a cavalo e a pé, e também pelas guarnições que nos trouxessem. Esta parte seria dada dos ganhos de todas as coisas obtidas na viagem até que a hoste se dispersasse.

Isso nós prometemos, na fé de Deus e na nossa, que lhe atenderíamos sem engano. E eles, que nos serviriam bem e lealmente, e não colocariam ali mais homens que aqueles que ali passassem. Assim, iniciamos a travessia para Maiorca. Estabelecemos o dia em que, em meados de maio, fôssemos todos a Salou. Em seguida, a corte partiu, cada um pensou em se armar, e foi tomado o sacramento de todos os nobres que, ao primeiro dia de maio, fossem a Salou, todos com suas armas, para passar a Maiorca, e que não faltassem.

Naquele dia, fomos para lá, e estivemos até o início de setembro para orientar a passagem. [171] Esperamos as naus, os barcos e as galeras que viriam até nós, e esperamos muito, até que a esquadra estivesse completa. Houve a partida de uma esquadra em Cambrils, e a maior partida, onde nós estávamos, ocorreu no porto e na praia de Salou. As outras aconteceram em Tarragona, porque eram daquele lugar. A quantidade de esquadras foi tamanha, que havia vinte e cinco naus cheias, dezoito barcos [172], doze galeras e, entre barcos de carga e galeões, cerca de cem. Assim, foram cento e cinqüenta barcos principais, exceto os barcos menores. [173]

56. Antes de sairmos, ordenamos a forma na qual a esquadra iria: primeiramente, que a nau de Dom Bovet [174], na qual estava Dom Guilherme de Montcada, guiasse e levasse um farol de lanterna, e que a de Dom Carros [175] estivesse na retaguarda e levasse outro farol de lanterna. As galeras iriam ao redor da esquadra, para que, se alguma outra galera abordasse a esquadra, encontraria as nossas galeras. Saímos quarta-feira pela manhã de Salou com a brisa da terra [176], porque, pela longa estância que tínhamos feito, todos os ventos eram bons, desde que nos movessem da terra. Quando os de Tarragona e os de Cambrils viram que a esquadra se movia de Salou, fizeram vela. E fazia-nos bem ver aqueles que permaneceram em terra, pois todo o mar parecia branco por causa das velas, tão grande era a esquadra.

Nós saímos na traseira da esquadra, na galera de Montpellier, e fizemos recuar cerca de mil homens que queriam embarcar conosco, pois nenhum passou. Quando nós estávamos cerca de vinte milhas do mar, o vento mudou para lebeg. [177] Vieram a nós os comissários da nossa galera, com o acordo dos pilotos, e disseram:

“Senhor, somos vossos naturais e temos que proteger vossos membros e vosso corpo, além de dar a vós bom conselho com todo o nosso saber”.

Eles ainda disseram:

“Este tempo de lebeg que nós temos agora não é nosso, nem de vossa esquadra, antes vos é tão contrário que não podereis tomar a terra em toda a ilha de Maiorca. Por nosso conselho, vós faríeis a volta e retornaríeis à terra, pois Deus logo vos dará tempo para que possais passar”.

Quando nós ouvimos suas palavras e seu conselho, dissemo-los que não faríamos isso por nada, porque havia muitos de suas naus que, pelo mal ocorrido no mar, haviam fugido, pois não tiveram coragem de ir conosco. E se nós retornássemos a terra, eles nos desamparariam, pois não eram homens de valor. Nós fomos nessa viagem na fé de Deus e por aqueles que não crêem n’Ele. E fomos lutar contra eles por duas coisas: ou para convertê-los, ou para destruí-los, para que devolvessem aquele reino à fé de Nosso Senhor. E como fomos em Seu nome, tínhamos confiança n’Ele, pois Ele nos guiaria. A esse respeito, quando os comissários das galeras viram que aquela era a nossa vontade, disseram-nos que fariam tudo com seu poder, e que aquela fé que nós ali tínhamos nos guiaria.

Quando chegou a hora das vésperas, alcançamos a nau, perto da de Dom Guilherme de Montcada, o qual tinha a guia. Nós saímos em direção à lanterna, saudamo-los e perguntamo-los qual era a nau, e eles a nós qual era a galera. Como responderam os da nossa galera que era a galera do rei, eles disseram que fôssemos cem mil vezes bem vindos, e que a sua era a nau de Dom Guilherme de Montcada. E todos seguiram a viagem ao sabor das velas.

Embora tivéssemos sido os últimos a sair de Salou, logo éramos os primeiros de todos, e fomos toda aquela noite com o vento lebeg. Nós navegamos com o vento de proa [178] tanto quanto pudemos, nós e todos os outros. [179] E assim como fomos à noite diante da esquadra, não mudamos nem arriamos as velas, e deixamos ir a galera tanto quanto podíamos. Quando estávamos entre a nona hora e as vésperas, o mar fortaleceu-se pelo crescimento do vento, e fez tanta força que a água das grandes ondas que vinham do mar passavam por cima da terça parte de nossa galera, pela proa. Quando vimos que percorremos este mar, perto das vésperas e antes que o Sol se pusesse, cessou o vento. Ao cessar o vento, vimos a ilha de Maiorca e avistamos a Palomera, Sollér e Almerug. [180]

57. Em seguida, disseram que logo que víssemos a ilha, seria bom que, se desejássemos, baixássemos as velas, pois, caso contrário, nos veriam da terra. Nós dissemos que concordávamos e fizemos baixar as velas. Após termos feito isso, o mar se acalmou, e nos disseram que acenderiam uma lanterna, mas tinham pavor que os guardas de Maiorca nos vissem. Nós então demos um conselho que poderiam adotar: que colocassem uma tela de lã e a lanterna na popa na parte voltada para a ilha, pois o pano cobriria a lanterna da parte da montanha e a esquadra poderia vê-la. Disseram-nos que isto parecia bem, e o fizeram. Estávamos assim quando vimos lanternas nas naus e em algumas galeras, e deduzimos que nos viram e que vinha a esquadra. Quando estávamos próximos do primeiro sono, vieram duas galeras, e perguntamos as novidades da esquadra. Disseram-nos que todos vinham como podiam. Quando chegou a meia-noite, vimos entre trinta e quarenta naus, galeras e barcos. [181] Fazia uma bela Lua, com uma brisa de vento da parte de garbí, e dissemos que com aquele vento poderíamos ir a Polença, como estava acordado que a esquadra fosse.

Fizemos vela e, assim quando viram isso, aqueles que estavam no mesmo mar em que estávamos e puderam ver nossa vela, fizeram o mesmo. Nós íamos com aquela bonança e com aquele doce tempo que havia, quando chegou uma nuvem contra o vento de Provença, e um marinheiro da galera, que tinha o nome Dom Berenguer Grayan e era comissário, disse:

“Não me agrada aquela nuvem que vem com o vento de Provença”.

Ele então ordenou que os marinheiros se preparassem, uns nas amuras [182], outros na bolina da popa, e outros na bolina da proa. [183] Quando a galera estava organizada e todos preparados, o vento atingiu as velas, e quando chegou o vento, o comissário gritou:

“Recolham, recolham!”.

As naus e os barcos que estavam ao nosso redor ficaram em grande dificuldade e em grande preocupação. Havia muitos gritos entre eles, porque o vento os empurrou subitamente, já que a nuvem era grande e bela. [184] Nós e todos os outros arriamos as velas, fez-se um mar ruim, pois o vento de Provença interferiu no vento de lebeg. Todas as naus, galeras e barcos que estavam na esquadra e ao nosso redor tinham os mastros vazios. Aquele vento de Provença fez um mar ruim, e nenhum homem da galera em que estávamos falava; estavam todos quietos, e os barcos navegavam em círculos.

Quando vimos este perigo, tivemos um grande desconsolo, voltamo-nos para Nosso Senhor e para Sua Mãe, e fizemos a seguinte oração:

“Senhor Deus, bem sabemos que nos tem feito rei da terra e dos bens que nosso pai tinha por Sua graça, e não começamos nenhum grande ou perigoso feito até esse momento sem que a Vossa ajuda seja sentida, do nosso nascimento até agora, pois haveis nos honrado contra nossos maus homens que desejavam se opor a nós. Agora, Senhor, meu Criador, ajudai-me, se a Vós aprouver, neste tão grande perigo, para que eu não perca tão bom feito que comecei, pois não o perderia só, já que Vós o perderíeis maiormente, porque vou nesta viagem para exaltar a fé que Vós nos haveis dado, e humilhar e destruir aqueles que não crêem em Vós. Portanto, verdadeiro e poderoso Deus, Vós podeis me preservar deste perigo e fazer cumprir a vontade que tenho para servir-Vos. Deveis lembrar de nós, pois nunca Vos clamamos misericórdia sem a encontrar em Vós, e maiormente aqueles que Vos têm servido de coração e recebido o mal por Vós. Eu sou um destes. Senhor, lembro-Vos ainda de tantas gentes que vão comigo para servir-Vos. E vós, Mãe de Deus, que sois ponte e passagem para os pecadores, peço-Vos, pelas sete alegrias [185] e pelas sete dores que Vós tivestes por Vosso Filho, que lembrais de mim ao rogar ao Vosso Filho, para que Ele me salve desta pena e deste perigo no qual estou, eu e aqueles que vão comigo”.

58. Feita esta oração, veio-nos um pensamento: que assim como estava acordado pelos nobres barões e por aqueles que conheciam o mar que chegássemos a Polença, que nós perguntássemos naquela galera aonde íamos se havia algum homem que tivesse estado em Maiorca ou na ilha. Quando fizemos esta pergunta, Dom Berenguer Gayran, comissário da galera, respondeu-nos que ele havia estado na terra. Perguntamos-lhes quantos portos havia próximos da cidade, na parte voltada para a Catalunha. Ele nos disse que havia um monte distante da cidade três léguas por terra e vinte milhas por mar, e aquele monte tinha o nome de Dragonera, mas não tinha terra firme com Maiorca, e que ali havia um pouco de água doce, pois quando esteve ali uma vez, seus marinheiros trouxeram água. Próximo da terra havia um pequeno monte que também não tinha terra com Maiorca, de nome Pantaleu [186], e da terra até aquele pequeno monte a distância era de um grande tiro de balestra.

Dragonera e Pantaleu, pequenas ilhas do arquipélado das Baleares (próximas a Maiorca)

Nós dissemos-lhes: “Então, porque procurar outro lugar para ancorarmos, a não ser aquele, onde há água doce e um bom porto para podermos refrescar os cavalos, apesar dos sarracenos? Aqui virá toda a nossa esquadra, e ali poderemos traçar a boa estratégia que desejamos”.

E dissemo-los que içassem vela com o vento de Provença, pois com aquele vento ali poderíamos entrar. Içamos vela e dissemos à galera que dissessem às naus para também içarem vela, pois éramos aqueles que içaram, e que todos nos seguissem ao porto de Palomera. Todos içaram suas velas quando nos viram fazer isso. Assim, vejais qual é a virtude de Deus: com aquele vento que íamos a Maiorca, não poderíamos tomar Polença como estava acordado. E o que pensávamos que nos fosse contrário, nos ajudou, pois aqueles barcos que estavam com as bolinas desorientadas, retornaram para Palomera com aquele vento, onde estávamos, de modo que nunca barco ou barca se perdeu ou faltou. E assim entramos na primeira sexta-feira de setembro no porto de Palomera e, até o sábado à noite, tivemos todos os nossos barcos recuperados.

59. Quando chegou o sábado, buscamos nossos nobres, Dom Nuno, conde de Ampúrias, Dom Guilherme de Montcada e os que estavam na hoste, bem como os comissários das naus que tinham maior autoridade. E foi feito tal conselho: que enviássemos Dom Nuno em uma galera que era sua e Dom Ramon de Montcada na galera de Tortosa, para que fossem mar acima como quem vai contra Maiorca, e que chegássemos onde eles avaliassem que fosse bom para a esquadra chegar.

Eles encontraram um lugar que tinha o nome de Santa Ponsa [187], e avaliaram que era um bom local para se chegar, pois havia um monte próximo do mar e, se quinhentos homens pudessem subir ali, não teríamos pavor de nos perdermos e toda a esquadra chegaria bem. E foi decidido que em um domingo descansaríamos naquele monte de Pantaleu.

Naquele domingo, na hora do meio-dia, chegou a nado um sarraceno que tinha o nome de Ali da Palomera. Ele nos contou as novidades da ilha, do rei e da cidade. [188] Assim, nós ordenamos que, assim que chegasse a meia-noite, as galeras levantassem âncoras, e que ninguém gritasse “ayoç”. [189] Ao invés disso, que golpeassem com um bastão na proa dos barcos e das galeras no levantar da ancora, porque ali havia bom porto e não havia mais necessidade de uma âncora. Isso foi feito porque diante de nós estavam cinco mil sarracenos, duzentos cavaleiros e suas tendas montadas. Quando chegou a meia-noite se dizia que em toda nossa esquadra nenhum homem falava. E cada galera, das doze que ali havia, rebocava um barco e assim, fácil e suavemente trouxeram os barcos ao porto.

Mas os sarracenos perceberam isso e se exaltaram. E os nossos, que traziam os barcos, deixaram de remar e ficaram quietos e silenciosos, apenas escutando, trazendo os barcos ainda mais suavemente. Após um momento, os sarracenos gritaram fortemente, e vimos que haviam percebido tudo. Com seus gritos, nós gritamos: “Boa sorte!”.

Os sarracenos foram por terra, a pé e a cavalo, olhando onde iríamos desembarcar. Mas nossas doze galeras e doze barcos se apressaram tanto que chegaram a terra antes que eles.

60. Estes foram os que saíram em terra: Dom Nuno, Dom Ramon de Montcada, o Templo [190], Dom Bernard de Santa Eugenia e Dom Guilabert de Cruyles. E antes que eles fossem àquele monte perto do mar com setecentos peões cristãos e cerca de cento e cinqüenta a cavalo, os sarracenos se alinharam diante deles com cerca de cinco mil homens a pé e duzentos a cavalo. Dom Ramon de Montcada veio e disse que os avaliaria. Foi-se só e disse: “Que ninguém venha comigo”. Quando estava perto deles, solicitou os nossos, e quando eles chegaram, disse: “Vamos atacá-los, pois eles não valem nada!” Ele foi o primeiro a feri-los. Quando os cristãos estavam muito perto dos mouros, como se estivessem a quatro hastes de lança de distância, os mouros deram a volta e fugiram, e eles decidiram persegui-los. Morreram mais de mil e quinhentos sarracenos, pois ninguém queria reter prisioneiros. Após fazerem isso, retornaram para a costa.

Nós saímos do mar e encontramos nosso cavalo selado e os cavaleiros de Aragão, que haviam saído de um barco nosso, e dissemos: “Faz nos mal que esteja vencida a primeira batalha de Maiorca e nós não estejamos lá. Há aqui cavaleiros que queiram ir conosco?” Aqueles que estavam preparados foram conosco, e fomos em vinte e cinco. Saímos trotando desordenadamente até onde ocorrera a batalha. E vimos, em cima de uma serra, de trezentos a quatrocentos peões sarracenos. Mas assim que eles nos viram, desceram aquela serra na qual estavam, pois desejavam subir outra serra que ali havia. Disse um cavaleiro dos de Ahé, que são naturais de Tauste [191]: “Senhor, se desejais atingi-los, apressamo-nos”. E nós aceleramos o passo apressamo-nos. E ao fazermos isso, conseguimos matar quatro ou cinco.

Entrementes, vinham os nossos e matavam e abatiam os mouros onde os encontravam. E nós, com três cavaleiros que iam conosco, encontramos um cavaleiro a pé. Tinha seu escudo agarrado, a lança em sua mão, sua espada cingida, seu elmo zaragonês [192], seu chapéu e um perponte vestido. Dissemos que se rendesse. Ele virou-se com sua lança em riste e não quis falar.

Nós dissemos: “Barões, os cavalos valem muito nesta terra, e cada um não tem senão um. Vale mais um cavalo que vinte sarracenos. Eu mostrar-vos-ei como matar: coloquemo-nos em volta dele e, quando ele levantar a lança, que venha um e fira-o nas costas, derrube-o na terra e assim ele não poderá fazer mal a ninguém”.

Nós nos preparamos para fazer isso quando veio Dom Pedro Lobera e deixamos o sarraceno fugir. Mas quando o sarraceno o viu chegar, investiu com sua lança de tal maneira no peito do cavalo que o atravessou aproximadamente meia braça [193] e o derrubou. Ele quis levar sua mão à espada. No entanto, nós fomos até ele, mas ele não quis se render até que morreu, pois quando alguém lhe dizia “rende-te”, ele respondia “le”, que quer dizer “não”. Assim, morreram cerca de oitenta, e nós retornamos à hoste.

61. Pode ter sido próximo do pôr-do-sol quando voltamos à hoste, e Dom Guilherme de Montcada e Dom Ramon de Montcada, com os cavaleiros que estavam com eles, saíram para nos acolher. Nós desmontamos e fomos na direção deles a pé. Dom Guilherme de Montcada sorriu e nós ficamos alegres, pois tínhamos pavor que nos repreendêssemos. Assim, pensamos não ter ido tão mal como achávamos.

Dom Ramon de Montcada nos disse: “O que haveis feito? Quereis matar a nós e vós? Pois, se vós por má ventura vos perdêsseis, como quase aconteceu agora, a hoste e todos estariam perdidos, e este feito tão bom não seria realizado por nenhum homem do mundo”.

Disse Dom Guilherme de Montcada: “Dom Ramon, o rei cometeu uma loucura, mas ele realizou feitos de armas e bons feitos, e só se irritou assim por não ter ido à batalha. E senhor”, disse ele a nós, “castigai-vos, pois de vós depende nossa vida e nossa morte. E confortai-vos de uma coisa: ao pordes os pés em terra, já éreis rei de Maiorca; e se morrêreis, morrereis como o melhor homem do mundo, e se falecerdes paralítico no leito, esta terra será vossa, pois vossa já o é”

Disse Dom Ramon de Montcada: “Senhor, agora é necessário receber conselho para que esta noite vos protejais, pois nesta noite haverá o maior perigo que teremos nesta terra. Pois, se não nos protegermos bem e nos armarmos antes que venham a nós, todo este feito será destruído”.

Nós respondemos: “Vós, que sabeis mais do que eu, o dizeis, pois o que vós disserdes nós faremos”.

Eles disseram: “Então, Senhor, fazeis armar cem cavaleiros esta noite. Que as atalaias estejam longe, para que a hoste possa se armar antes que eles estejam conosco”. Nós dissemos que eles falaram muito bem.

Nós não tínhamos comido ainda, e dissemos que após comermos, que enviaríamos mensagem aos ricos homens para que cada um fizesse armar a terça parte de sua companhia, que enviassem peões como escuta e, que se escutassem ou se sentissem alguma coisa, que nos fizessem saber. Assim, após comermos, enviamos nossos mensageiros, mas não pudemos enviar ninguém, porque eles e os cavalos estavam esgotados – por terem saído do mar e participado da batalha, e porque as companhias estavam muito distantes. Nós pensamos que eles haviam ido, e adormecemos. [194]

Nossas naus, com cerca de trezentos cavaleiros e cavalos dentro, estavam perto de Porrassa [195], e viram a hoste do rei de Maiorca que, às vésperas, tinha saído para a serra do porto de Portopí. [196] Dom Ladrão, um rico-homem de Aragão que estava conosco, concordou, juntamente com os cavaleiros que estavam na nau, que nos enviariam uma barca pelo mar para nos fazer saber que o rei de Maiorca estava na serra de Portopí com sua hoste, e que tinham acampado ali, e assim nós ficaríamos prevenidos. Esta mensagem chegou a nós à meia-noite, noite de quarta-feira, e já devia ser quinta. Ordenamos que avisassem a Dom Guilherme de Montcada, a Dom Nuno e aos ricos-homens da hoste. Por tudo isso, só levantamos ao amanhecer. Quando chegou o amanhecer, levantamo-nos todos e ouvimos a missa em nossa tenda, e o bispo de Barcelona fez o sermão dessa forma:

62. “Barões, agora não é hora de fazer um longo sermão, pois a ocasião não nos permite. Este feito em que nosso senhor rei e vós estais, é obra de Deus, não nossa. Deveis fazer esta conta: aqueles que neste feito receberem a morte, a receberão de Nosso Senhor, e terão o Paraíso, onde terão a glória perdurável por todos os tempos; aqueles que viverem terão honra e valor em suas vidas e bom fim em suas mortes. Barões, confortai-vos com Deus, porque o rei, vosso senhor, nós e vós, desejamos destruir aqueles que renegam o nome de Jesus Cristo. Todos os homens devem pensar, e podem, que Deus e Sua Mãe não se separarão de nós hoje, pelo contrário, nos darão a vitória. Portanto, deveis ter bom coração, pois assim vencerão tudo, já que a batalha deve ser hoje. Confortai-vos e alegrai-vos bem, pois vamos com um senhor bom e natural, e Deus, que está acima dele e de nós, ajudar-nos-á”. [197]

E assim findou suas palavras.

63. Dita a missa, Dom Guilherme de Montcada comungou, pois nós e a maior parte da partida havíamos comungado antes de entrarmos no mar. Com os joelhos dobrados, ele recebeu seu Criador e chorou; lágrimas caíram-lhe pelo rosto. Depois disso, disseram quem tomaria a dianteira.

Disse Dom Guilherme de Montcada: “Tomai-a vós, Dom Nuno”.

Respondeu Dom Nuno: “Não, hoje tomai-a vós”.

Disse Dom Ramon de Montcada: “Dom Nuno, bem sabemos por que o dizeis e o fazeis: por amor de ter más feridas na batalha, já que devemos albergar-nos em Porrasa”. [198]

Disse Dom Guilherme de Montcada: “Que seja, não há nada a fazer”.

Dom Guilherme e Dom Ramon de Montcada já haviam concordado, isto é, que até que se encontrassem com os sarracenos na batalha não parariam. Contudo, chegou um homem nosso e disse: “Vejam todos os peões que se vão e que saem da hoste”.

Eles pensavam em fugir. Então, nós cavalgamos em um rocim. [199] Dom Rocafort foi conosco, encontrou uma égua e cavalgou-a em pêlo, pois seu cavalo ainda estava na nau. Nós ordenamos que desembarcassem nosso cavalo.

Contudo, nos encontramos com nossos serventes, que eram cerca de quatro a cinco mil, e dissemos-lhes: “Maus traidores, como podeis ir lá se não tendes cavaleiros e eles matarão a todos?”

Eles ouviram qual razão dizíamos, detiveram-se e disseram: “O rei diz a verdade, pois íamos de maneira insensata”.

Assim, retivemo-los até que chegaram Dom Guilherme de Montcada, Dom Ramon, o conde de Ampúrias e aqueles de sua linhagem, e dissemo-los: “Vês aqui os serventes que contivemos e que não se foram”.

Eles disseram: “Haveis feito muito bem”.

Entregamo-nos e se foram com eles. Após terem ido, escutamos um grande barulho e dissemos a um mensageiro que fosse a Dom Nuno e o advertisse, pois havíamos escutado um grande barulho e tínhamos grande temor que os nossos já tivessem se encontrado com os sarracenos. O mensageiro não retornava, e como se passou muito tempo, dissemos: “Dom Rocafort, ide-vos, adverti-los e dizeis a Dom Nuno que sua demora hoje foi má, pois tal ventura poderia causar dano e não valeria sua comida. Ademais, não é conveniente que a dianteira esteja tão distante da retaguarda a ponto de não vê-la, e a retaguarda também não ver a dianteira”.

Ele disse: “Estais sós aqui, e por nada partiria de vós”.

E falamos com ele, dizendo: “Santa Maria! Por que demoram tanto Dom Nuno e os cavaleiros? Com certeza mal o fazem”.

Após dizermos essas palavras, ouvimos os golpes e os gritos, e dissemos: “Ah, Santa Maria, ajudais aos nossos, pois parece que o encontro já começou”.

Nesse momento, chegou Dom Nuno, Bertrand de Naya com ele, Lope Ximenes de Lusia, Dom Pedro Pomar e toda a sua companhia, e Dom Gisbert de Barberá.

Eles disseram-nos: “Como estais aqui?”

Nós respondemos: “Estamos aqui por causa dos peões que tive que deter. Agora, me parece que já houve o encontro. Pelo amor de Deus, corramos!”

Disse Dom Bertrand de Naya: “Tens loriga de corpo?”

Nós respondemos: “Não”.

“Senhor – disse ele – então tomais esta”.

Assim, desmontamos, vestimos a sua sob o nosso perponte, colocamos nosso elmo na cabeça e enviamos uma mensagem a Dom Pedro Cornel, a Dom Jimeno de Urrea e a Dom Olivier [200], para que se apressassem, pois a batalha já havia começado.

64. No local do encontro vimos um cavaleiro e dissemos-lhes: “Como está a batalha e o que os nossos têm feito?”

Ele disse: “O conde de Ampúrias e os do Templo foram ferir aos das tendas, e Dom Guilherme de Montcada e Dom Ramon de Montcada foram ferir os do lado esquerdo”.

Nós dissemos: “Sabeis outra coisa?”

“Sim, que três vezes os cristãos venceram os sarracenos e os sarracenos três vezes os cristãos”.

Depois lhe dissemos: “Onde estão?”

Ele respondeu: “Nesta serra”.

E encontramos Guilherme de Mediona, que diziam que submetia um homem como nenhum outro em toda a Catalunha, e que também era um bom cavaleiro. Ele se retirava da batalha e saía sangue do lábio inferior.

E dissemos-lhes: “Dom Guilherme de Mediona, por que saístes da batalha?”

Ele respondeu: “Porque estou ferido”.

Pensamos que ele estivesse ferido de golpe mortal no corpo. E dissemos: “E como estais ferido?”

“De uma pedrada que me deram acima da boca”.

E pegamo-lo pelas rédeas e dissemos-lhes: “Retornais para a batalha, pois com tal golpe um bom cavaleiro deve se irritar, não sair da batalha”.

Após um momento, não o vimos mais. Quando estávamos subindo serra acima, estavam conosco não mais que doze cavaleiros, além do estandarte de Dom Nuno que estava com Roldão Lain, e o sire Guilherme, filho do rei de Navarra. [201] Podiam ser cerca de setenta cavaleiros os que passaram diante de nós.

No alto da serra onde estavam os sarracenos, havia uma grande companhia de homens a pé, e um estandarte, metade vermelho, metade branco, e em um ferro uma cabeça de homem ou de madeira. [202]

Dissemos a Dom Nuno: “Dom Nuno, juntamo-nos com esta companhia que agora vai, já que não estão vencidos e todos vão ordenados, pois uma companhia que vai ordenada para a batalha não é acometida. Se lhe acometem, bem vencidos serão”.

E tomaram as rédeas ele, Dom Pedro Pomar e Ruy Ximenes de Lusia, e disseram: “Hoje todos nós morreremos, e a vossa precipitação nos matará!” E asperamente davam-nos grandes reprimendas. Nós dissemos a eles: “Não é necessário, pois não sou leão nem leopardo! [203] E já que tanto o quereis, conter-me-ei. Mas queira Deus que não nos sobrevenha mal desta contenção!”

65. Então, chegou Dom Gisbert de Barberá e disse a Dom Nuno que seguisse adiante. Ele disse: “Assim o farei”.

Nós dissemos: “Se Dom Gisbert vai, eu também irei”.

“Como vós?” – disse Dom Nuno – “Já se tornou aqui um homem de armas como um leão? Bem podeis ver que tão bons, ou melhores, encontrareis convosco?”

Antes que Dom Gisbert fosse com aqueles setenta cavaleiros, os mouros gritaram, atiraram pedras e formaram-se um pouco adiante. O estandarte de Dom Nuno e aqueles que estavam com ele voltaram e recuaram cerca de uma pedrada contra nós. [204] Alguns gritaram: “Vergonha!” [205] Os sarracenos não os seguiram e os nossos detiveram-se.

No entanto, chegou o nosso estandarte e a nossa mesnada, protegida por cerca de cem cavaleiros ou mais, e disseram: “Vejam aqui o estandarte do rei”. Nós descemos o monte, nos juntamos ao grupo do estandarte e subimos, todos de uma só vez. Os sarracenos fugiram. Encontramos cerca de dois mil sarracenos que iam diante de nós a pé, fugindo, mas não podíamos alcançá-los, nem eu, nem os outros cavaleiros, tão cansado estava o nosso cavalo!

Quando a batalha estava vencida e estávamos em cima, aproximou-se Dom Nuno de nós e disse: “Um bom dia veio para nós e para vós, pois tudo é nosso, já que haveis vencido esta batalha”.

66. Então, dissemos a Dom Nuno: “Vamos à vila, pois o rei de Maiorca está na montanha e não chegará tão rápido quanto nós. Podeis vê-lo naquele monte, pois está vestido de branco. Nós o isolaremos da vila”.

Quando começávamos a descer monte abaixo e ir à planície onde estava a vila, chegou a nós Dom Ramon Alamano e disse: “Senhor, que desejais fazer?”

Nós dissemos: “Desejamos ir à vila e isolar o rei para que ele não possa entrar com sua hoste”.

“Ah, senhor, fareis o que nunca nenhum rei fez: vencer uma batalha e, ali onde conseguiu vencê-la, passar a noite para saber o que perdeu e o que ganhou!”

Nós respondemos: “Saibas, Dom Ramon Alamano, que isso vale mais!”.

Assim, descemos costa abaixo e fomos passo a passo no caminho que vai à vila. No entanto, quando tínhamos cavalgado uma milha, chegou-nos o bispo de Barcelona e disse: “Senhor, pelo amor de Deus, não corrais tanto”. “Por que não, bispo, já que isso é o melhor?”.

Ele respondeu: “Falarei convosco”.

Saímos do caminho e ele disse: “Ah, senhor, haveis perdido mais do que pensais, pois Dom Guilherme de Montcada e Dom Ramon estão mortos”.

“Como mortos?”, dissemos nós. E começamos a chorar. Depois, dissemos ao bispo: “Não choremos, pois agora não é hora de chorar, mas levemo-los do campo, já que estão mortos”.

“Sim, nós faremos”, disse ele. “E vós, ide-vos, que o faremos”, dissemos nós.

67. Fomos pouco a pouco até a serra de Portopí e vimos Maiorca, que nos pareceu a mais bela vila que já tínhamos visto, eu e aqueles que estavam conosco. No entanto, encontramos Dom Pelegrín de Atrosillo e lhe perguntamos se ali havia água onde pudéssemos albergar à noite. Ele disse que sim, que havia visto entrar o xeque com cerca de vinte homens a cavalo, e bebiam. [206] Como eles eram quatro, não se atreveram atacar. Fomos adiante e encontramos aquela água e ali albergamos à noite.

Dissemos a Dom Nuno: “Pela fé que tenho em Deus, grande fome tenho, pois hoje não comi”.

Ele respondeu: “Senhor, Dom Oliver armou sua tenda e preparou uma comida; lá podereis comer”.

“Vamos onde vós desejais”, dissemos.

E fomos lá e comemos. Após termos comido, vimos as estrelas e o céu. Disse Dom Nuno: “Senhor, bom seria, se tiverdes terminado de comer, que fôsseis a Dom Guilherme de Montcada e a Dom Ramon”.

Nós respondemos que ele aconselhava muito bem. Fomos ali, com tochas e velas, e o encontramos deitado em um colchão e um cobertor por cima. [207] Estivemos ali por um momento, choramos e depois fizemos o mesmo com Dom Ramon. Após termos feito isso, retornamos para a tenda de Dom Oliver e dormimos toda a noite até o dia seguinte.

Quando chegou a manhã, disseram: “Mudemo-nos”. Nós dissemos que provaríamos o acampamento. Vestimos nossa malha de ferro e nosso perponte e colocamos os aragoneses de um lado e os catalães de outro, e a acéquia no meio. [208] Fizemos o acampamento tão estreito, que não parecia que ali, adiante, acamparíamos cerca de cem cavaleiros. As cordas estavam tão entrelaçadas uma à outra de modo que durou cerca de oito dias que os homens não podiam correr na hoste.

68. Quando chegou a manhã e o acampamento já estava assentado, reuniram-se os bispos e os nobres e vieram à nossa tenda. Disse o bispo de Barcelona, que tinha por nome Dom Berenguer de Palou: “Senhor, seria necessário enterrar estes corpos que estão mortos”.

Nós respondemos: “Muito bem. Quando desejais enterrá-los?”

Eles disseram: “Ou agora, ou pela manhã, ou após termos comido”.

Nós dissemos: “É melhor pela manhã, quando ninguém poderá nos ver, nem mesmo os sarracenos”.

Os nobres disseram que falamos bem. Quando chegou o pôr-do-sol, pedimos roupas amplas e largas, e fizemos colocarem-nas voltadas para a vila, para que não vissem as velas enquanto os homens os enterravam. Quando chegaram os que queriam enterrá-los, eles começaram a chorar, com dor e gritos.

Nós dissemos para se calarem, e que escutassem o que queríamos dizer, e dissemos assim: “Barões, estes ricos-homens morreram a serviço de Deus e ao nosso e, se nós pudéssemos redimi-los, se pudéssemos trocar suas mortes pela vida, se Deus nos desse tamanha graça, daríamos tanto de nossa terra que nos tomariam por louco aqueles que ouvissem o que havíamos dado. Mas Deus nos conduziu até aqui, nós e vós, para um tão grande serviço Seu, que não é necessário que ninguém chore ou sinta dor. E mesmo que o pesar seja grande, não externemos isso em nossos semblantes. Assim, ordeno-vos, pela senhoria que tenho sobre vós, que ninguém chore ou sinta dor, porque nós seremos seu senhor, e o lugar que eles vos deviam ter em fazer o bem, nós o faremos. [209] Pois se alguém perder seu cavalo ou qualquer outra coisa, nós o ressarciremos e restituiremos seus bens, de modo que vós não fareis faltar nada a vossos senhores, nem eles estranharão nada. Assim, nós supriremos vossas necessidades, pois a dor que vós sentiríeis seria um desconsolo para a hoste e vós não teríeis nenhum proveito. Portanto, ordeno-vos, sob pena da natureza que temos sobre vós, que ninguém chore. Sabeis para que deve ser vosso pranto? Para que nós convosco e vós conosco vinguemos bem sua morte, para que sirva a Nosso Senhor naquilo para o qual viemos, e para que seu nome seja santificado por todos os tempos”. [210]

Ditas estas palavras, suportaram a dor antes insuportável e os enterraram.

69. Assim, no dia seguinte pela manhã, fizemos nosso Conselho com os bispos e os nobres da hoste, para que fizessem descarregar os barcos que estavam no mar. Enviamos um trabuquete [211] e um almanjanech [212], e os sarracenos, quando viram que conduzíamos o barco a terra, tentaram impedir com dois trabuquetes e algarradas. [213] Ao ver isso, os comissários e os pilotos das naves de Marselha, que eram entre quatro a cinco naves, nos disseram: “Senhor, nós viemos aqui a serviço de Deus e ao vosso, e nos oferecemos, em nome dos homens que aqui estão e são de Marselha, para fazer um trabuquete com nossos meios, das antenas [214] e a madeira das naus, em honra de Deus e de vós”.

Nós fizemos os nossos trabuquetes e o fundíbulo antes que os sarracenos fizessem os seus. Quando os engenhos estavam prontos, os de fora e os de dentro da nau, tínhamos dois trabuquetes nossos, um fundíbulo e um mangano turco. [215] Os sarracenos fizeram dois trabuquetes e catorze algarradas, uma delas a melhor já vista, pois ultrapassava cinco ou seis tendas e adentrava a hoste. Mas o trabuquete que trouxemos do mar atirava mais longe que qualquer um dos deles.

Os nossos começaram a atirar contra os da vila, e eles apressaram os seus tanto quanto puderam. Dom Gisbert de Barberá disse que mostraria como se faz um mantelete que iria até a obra do fosso, apesar dos engenhos de dentro e das balestras. [216] Assim, ele fez um mantelete que andava sobre rodas, e suas casamatas [217] eram de três fileiras duplas e de madeira boa e forte por dentro. O mantelete começou a andar próximo dos trabuquetes e, à medida que avançava, os homens colocavam paus que se quebravam, o que fazia parecer uma casa coberta com uma cerca com folhas por cima e, sobre as folhas, a terra. Assim, se fosse ferida por uma pedra das algarradas, não sofreria dano. [218]

O conde de Ampúrias também fez um mantelete e o aproximou de lá, perto do fosso, e colocou ali uma companhia e cavadores para que entrassem pela terra e saíssem no fundo do fosso. Nós fizemos nossa companhia montar outro, daquela mesma forma. Assim, começamos a fazer as nossas fossas, e quando começaram estas três fossas, a de Dom Gisbert ia sobre a terra, e as outras sob a terra. A hoste ficou muito contente, pois viam que o feito veio em boa hora. Esta foi uma hoste que ninguém no mundo vira outra que fizesse tão bem o que pregava o freire de nome Miguel [219], que estava na hoste e era leitor em Teologia. Ele tinha como companheiro o freire Berenguer de Castellbisbal.

Quando ele lhes dava perdão (pois tinha esse poder dado pelos bispos), tudo o que dizia para que trouxessem, madeira ou pedra, os cavaleiros não esperavam que os homens a pé transportassem, pois faziam tudo [220], inclusive colocando as pedras para as catapultas nas selas dos cavalos. Alguns homens traziam coisas de suas casas para os trabuquetes e, com madeiras presas com cordas, traziam no colo as pedras dos trabuquetes.

Quando nós os ordenávamos para velarem de noite, com os cavalos guarnecidos, ou então de dia, para proteger os cavadores, ou ainda, para fazer algum ofício necessário à hoste, se ordenasse que fossem cinqüenta, iam cem. E para que saibam aqueles que ouvirem este livro quão preciosos foram o feitos de armas ocorridos em Maiorca, dir-vos-emos somente uma coisa: durante três semanas na hoste, nenhum homem a pé, marinheiro ou outro, ousou descansar conosco, somente nós, os cavaleiros e os escudeiros que nos serviam. Os outros homens a pé e os marinheiros vinham muito cedo, pela manhã, dos barcos onde dormiam; o preboste de Tarragona era um desses. Todo o dia estavam conosco e, às vésperas, se recolhiam ao mar.

Assim, circundamos nossa hoste com fossas e vergéis; havia duas portas, e nenhum homem podia sair, a não ser por nossa ordem.

70. Quando estávamos ali, nos aconteceu uma cilada: um sarraceno da ilha, de nome Fátila, reuniu todos os da montanha, que eram cerca de cinco mil, cem a cavalo, e subiu um monte íngreme, sobre a fonte de Maiorca, e ali montou suas tendas, cerca de trinta, trinta e cinco, ou quarenta. Ele fez os sarracenos bloquearem com enxadas a água da fonte que ia para a vila, vertendo-a torrente abaixo para, assim, nós perdermos aquela água, já que não podíamos tê-la. Vimos que a hoste não poderia suportar isso. Então fomos aconselhados a ir com um ou dois, e trezentos cavaleiros, para combatê-los e recuperarmos a água.

Assim, encarregamos a Dom Nuno, e ele se preparou, e fizemo-lo ir como líder da companhia. Entre os seus, e aqueles que o libertaram, foram com ele cerca de trezentos cavaleiros. Os sarracenos defenderam aquele monte, e os nossos foram em direção a eles, os venceram e conquistaram o monte, capturando e matando Fátila, seu chefe. Morreram com ele mais de quinhentos; os outros fugiram para a montanha. Tomamos suas tendas e saqueamos sua hoste. Depois, trouxeram para a nossa hoste a cabeça de Fátila, que colocamos na funda do almanjanech e atiramos dentro da vila [221]. A água voltou para a hoste e, à noite, todos estavam alegres, como era esperado, pela grande adversidade que havíamos superado.

- Continua -

Notas

[163] Alódio = bem familiar recebido dos antepassados e transmitido por herança de geração em geração. Inalienável fora do grupo familiar, o alódio está associado à glória da linhagem. Nos séculos XI e XII designava qualquer tipo de bem fundiário. É importante ressaltar que existiam alódios aristocráticos e camponeses, e que estes últimos estavam isentos de tributação - somente aquela que dizia respeito à justiça. (os chamados direitos banais) Em contrapartida, a longo prazo, o alódio camponês foi engolido pelos progressos da economia monetária, especialmente a partir do século XI. Ver BONNASSIE, Pierre. Dicionário de História Medieval. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985, p. 26-29. As pesquisas mais recentes indicam que os alódios camponeses representavam uma parcela considerável das terras. Ver HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Lisboa: Edições Asa, 1994, p. 209.

[164] Lc 2, 30.

[165] O sepulcro de Dom Berenguer de Palou encontra-se na catedral de Barcelona, e em seu epitáfio se faz referência à a sua atividade em prol da cristandade (Saepicus hic coetum duxit contra Mahometum, “Conduzo frequentemente a tropa contra Maomé”).

[166] Na realidade, excelsis é o nome do monte da cena evangélica, que fica junto ao monte Tabor.

[167] Mt 17,5; Mc 9, 2-8, Lc 9, 28-36, 2Pd 1, 16-18. A passagem bíblica e a citação estão um pouco diferentes.

[168] Entre 1227 e 1245 Guillem de Cabanelles foi bispo de Girona.

[169] Trata-se de Ferrer de Pallarès, que depois foi bispo de Valencia.

[170] O exército da cidade contaria com os efetivos do serviço militar devido ao soberano.

[171] “En la Edad Media, esa palabra (no original passatge) designaba la cruzada. Más precisamente, el pasaje tenía sentidos escatológico-apocalípticos muy profundos y hoy perdidos con el uso de la palabra cruzada, como la noción de paso a una mejor vida, una especie de ofrenda martirial, que es precisamente la idea que Llull abraza” – Ricardo da COSTA, Ramón Llull y la Orden del Temple (Siglos XIII-XIV), trabajo post-doctoral presentado a la Universitat Internacional de Catalunya, bajo la dirección del Prof. Dr. Josep Serrano i Daura (2003).

[172] No original taride, barco típico do Mediterrâneo, apropriado para transportar cavalos e os efetivos militares. Assim, funcionavam como efetivos das galeras. Estas possuíam remos e, por isso, eram mais adequadas para ações de guerra – por sua velocidade de manobra – enquanto que os galeões, com vela, mais largos e curtos que as galeras, eram próprios da marinha mercante.

[173] Os especialistas afirmam que, no total, a expedição contou com cerca de 16.000 homens.

[174] Dom Bovet – Trata-se de Nicolau Bovet, que aparece no Livro do Repartiment de Mallorques.

[175] Dom Carros – cavaleiro alemão de origem nobre, fixado na Catalunha e navegador experiente.

[176] A esquadra saiu no dia 5 de setembro 1229.

[177] Vento lebechvento grego (do nordeste). Ver nota 156.

[178] No original orch, vento de proa.

[179] Para navegar contra o vento, há de se inclinar a proa para a parte de onde vem o vento.

[180] Essas três referências toponímicas de Maiorca se encontram na costa ocidental.

[181] No original taride, barco típico do Mediterrâneo.

[182] Amura - cabo fixo no punho da escota, onde se prendem os papa-figos e as velas para as segurar do lado de onde sopra o vento.

[183] Bolina - cabo que serve para obliquar a vela de modo a que esta receba melhor o vento por banda.

[184] No original, “car era belúmena”. Os especialistas são unânimes em afirmar que o sentido da palavra belúmena é desconhecido. Pode ser traduzido como “grande e bela nuvem”.

[185] “Sete alegrias”, isto é, os sete gozos de Nossa Senhora. O século XIII presenciou o desenvolvimento da Mariologia. Por exemplo, na obra Doutrina para crianças, Ramon Llull trata do tema em capítulos específicos (XLV-XLVI). Para um estudo do culto mariano através da História, ver PELIKAN, Jaroslav. Maria através dos séculos. Seu papel na História da cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[186] Dragonera e Pantaleu – Tratam-se de duas pequenas ilhas próximas a Maiorca.

[187] Santa Ponsa – atualmente Cala, no município de Andraitx.

[188] O episódio de Ali da Palomera também está contado (e bastante ampliado) no capítulo XXXV da Crônica de Desclot. Além de avisar aos seus para se precaverem contra uma invasão, a passagem possui um caráter profético, porque sua mãe, astrônoma, anunciou que aquele invasor seria rei de Maiorca.

[189] A palavra “ayoç” era utilizada para compassar o ritmo dos remos.

[190] “...o Templo”, isto é, os cavaleiros templários.

[191] Tauste foi uma importante vila na Idade Média, com uma próspera comunidade judia.

[192] O elmo zaragonês era um antigo tipo de elmo pontiagudo, também citado na famosa Canção de Rolando.

[193] Medida longitudinal equivalente a 1,67m.

[194] Interessante passagem que mostra a falta de sincronia das partes do exército, característica típica da cavalaria medieval, além da incapacidade do rei de conseguir que suas ordens fossem plenamente cumpridas.

[195] Porrassa, no lado ocidental da baía de Palma de Maiorca.

[196] Região próxima da cidade de Maiorca.

[197] Típico discurso cruzado. Por exemplo, o discurso do bispo do Porto é muito semelhante. Ver COSTA, Ricardo da. A Guerra na Idade Média – estudo da mentalidade de cruzada na Península Ibérica. Rio de Janeiro: Edições Paratodos, 1998, p. 166-167.

[198] Curiosamente embora no original a palavra seja “amor”, o sentido da frase indica “temor” (assim também está na tradução castelhana).

[199] Rocim (do espanhol rocín) – cavalo pequeno, fraco ou magro.

[200] Cavaleiro francês muito ligado a Simão de Montfort.

[201] Na ocasião o rei de Navarra era Teobaldo I, o Trovador (1201-1253), também conde de Champagne e Brie (como Teobaldo IV), sobrinho de Sancho VI, o Forte, e filho de sua irmão Blanca e do conde Teobaldo III de Champagne. Porém, Teobaldo I não teve nenhum filho chamado Guilherme, e sim Teobaldo II, o Jovem (1238-1270), igualmente rei de Navarra, conde de Champagne e Brie (como Teobaldo V).

[202] Os sarracenos fizeram as insígnias de Dom Guilherme de Montcada – vermelha e branca – para dar a entender que ele havia morrido na batalha. Na Crônica, ao ficar em dúvida se era a cabeça de Guilherme ou um pedaço de madeira, Jaime parece sugerir que ficou em dúvida da morte de seu fiel vassalo.

[203] Nos textos medievais é comum a referência aos animais para encontrar uma explicação aos ímpetos humanos. No caso, o rei utiliza a metáfora do leão e do leopardo para dizer que não tem o temperamento tão impetuoso daquelas feras, como os nobres mais de uma vez o sugerem. Para o tema da analogia com o mundo animal, ver MALEXECHEVERRÍA, Ignacio. Bestiario Medieval. Madrid: Ediciones Siruela, 2000. “Mencionado na Bíblia mais de quarenta vezes enquanto símbolo de força, coragem e majestade – e, às vezes, de crueldade –, o leão personificava Judá, um dos doze filhos de Israel e a tribo de seus descendentes. (...) O leopardo é o fruto do adultério do pardo com a leoa ou, segundo outros, da união do leopardo com a pantera fêmea.” – WOENSEL, Maurice Van. Simbolismo animal na Idade Média. Os bestiários: um safari literário à procura de animais fabulosos. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2001, p. 207.

[204] No original, “... I git de pedra puynal contra nós”, isto é, uma distância muito curta, já que era uma pedrada lançada com uma mão. Sabemos que, na Idade Média, tanto os conceitos de “tempo” quanto de “espaço” são, de todas as formas de pensamento expressas nos textos, as mais diferentes das nossas. Para todos os efeitos, a medida de espaço é sempre tomada tendo o corpo como referência. Para essas questões, ver ZUMTHOR, Paul. La medida del mundo. Representación del espacio en la Edad Media. Madrid: Catedra, 1994.

[205] Uma das características mais expressivas da forma de combate cavaleiresco medieval – e que legitimava a honra nobiliárquica – era justamente a coragem, sempre tomar a iniciativa, nunca recuar em uma batalha. Por esse motivo, o Livro da Ordem da Cavalaria aconselha ao cavaleiro ter prudência, observar antes de atacar, pois o destempero no combate ocasionava muitas mortes.

[206] No original “vell” (velho), com o sentido de xeque (do árabe xekh, “velho”), pois entre os árabes designava o chefe de tribo ou soberano.

[207] No original “almatrach” (do árabe hispânico almatráh), colchão ou almofada.

[208] Acéquia (do árabe assekyah, ribeiro de rega), obra hidráulica destinada conjuntamente a represar e a distribuir as águas de rega. A passagem indica que as forças do rei - antes de descansarem - improvisaram um sistema de canalização da água para todas as tendas. Isso mostra a importância do conhecimento prévio da região a ser atacada, além da organização e assentamento das hostes no terreno conforme a distribuição fluvial.

[209] O discurso ressalta em primeiro lugar a noção de reciprocidade na relação feudal, conceito por vezes um pouco esquecido quando se discute a sociedade feudal, e que o senhor tinha por finalidade fazer o bem de seu vassalo. Por exemplo, na carta de Fulbert, bispo de Chartres a Guilherme V, duque da Aquitânia (1020), o clérigo define bem a natureza da relação feudal: “Aquele que jura fidelidade ao seu senhor deve ter sempre presente na memória seis palavras: são e salvo, seguro, honesto, útil, fácil e possível. São e salvo, para que não cause qualquer prejuízo ao corpo do seu senhor; seguro, para que não prejudique seu senhor divulgando os seus segredos ou os castelos que garantem a sua segurança; honesto, para que não prejudique os direitos de justiça do seu senhor ou outras prerrogativas que interessem à honra a que pode pretender; útil, para que não cause prejuízo aos bens do seu senhor: fácil e possível, para que não torne difícil ao seu senhor o bem que este poderia facilmente fazer e para quer não torne impossível o que teria sido possível a seu senhor. É de justiça que o vassalo se abstenha de prejudicar o seu senhor. Mas não é assim que ele merece o seu feudo, pois não basta abster-se de fazer o mal, é preciso fazer o bem. Portanto, importa que, sob os seis aspectos que acabam de ser indicados, forneça fielmente ao seu senhor conselho e ajuda, se quiser parecer digno do seu benefício e realizar a fidelidade que jurou. O senhor deve igualmente, em todos estes domínios, fazer o mesmo àquele que lhe jurou fidelidade. Se não o fizer, será com razão acusado de má fé; tal como o vassalo que fosse visto faltar aos seus deveres, pela ação ou por simples consentimento, seria ele culpado de perfídia e perjúrio.” Citado em GANSHOF, F. L. Que é o Feudalismo? Lisboa: Publicações Europa-América, 1976, p. 113-114.

[210] Os discursos fúnebre-exortatórios medievais são, muitas vezes, comparados ao discurso clássico de Péricles na Guerra do Peloponeso, como, por exemplo, o discurso de Afonso IV antes da Batalha do Salado. Ver COSTA, Ricardo da. A guerra na Idade Média – um estudo da mentalidade de cruzada na Península Ibérica, op. cit., p. 239 e TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1987, I, 140-144, p. 77-80.

[211] Trabuquete – Pequena catapulta semelhante ao fundíbulo, porém mais possante.

[212] Ver nota 61.

[213] Algarrada (do árabe ‘arradah para o árabe hispânico al‘arráda) – Máquina de guerra usada na época para lançar pedras contra as muralhas das fortalezas.

[214] As antenas eram os mastros das velas.

[215] No original manganel (do latim medieval manganellum, diminutivo de manganum. Os árabes devem ter adotado o nome latino, convertendo-o em almanzaník, de onde provém a forma catalã almanjabec) – Máquina de guerra também utilizada na Idade Média para lançar grandes pedras. Diferenciava-se do trabuquete por ter um contrapeso fixo.

[216] Mantelete – Espécie de casamata móvel que servia como peça de ataque.

[217] No original cledes (do gálico cleta) – Obra de fortificação de devia consistir em uma pequena cerca de madeira e folhas destinada a deter o avanço do inimigo ou mesmo para se proteger.

[218] A minuciosa descrição feita por Jaime da casamata mostra que o rei ficou muito bem impressionado com o trabalho de Dom Gisbert de Barberá.

[219] A Crônica de Marsílio acrescenta que freire Miguel era castelhano, embora em outras fontes seu sobrenome seja Fabre (ou Fabra).

[220] No original, “colocavam a mão em tudo”, certamente uma expressão da época para significar “fazer tudo”.

[221] Segundo a Crônica de Desclot se fez isso com quatrocentas cabeças.