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Jaime I (1208-1276)
Trad. e notas: Prof. Luciano Vianna e Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) Capítulos 71-100 71. Depois disso, um sarraceno da ilha, de nome Dom Aabet, enviou-nos uma mensagem através de outro sarraceno, que trouxe sua carta. Ele disse que viria a nós e nos faria tanto que traria para nossa hoste uma partida da ilha, das doze que ali havia [222], ela e o que tinha. Ele nos assegurou que, se nós o tratássemos bem, os outros fariam o mesmo conosco. Nós expusemos isso aos nobres da hoste, e todos disseram que era bom que isso ocorresse. Depois, o sarraceno nos disse para enviarmos cavaleiros a um lugar seguro, a aproximadamente uma légua da hoste, que ele sairia dali sob a nossa confiança, para fazer seu pacto conosco e nos servir de boa fé e sem engano, pois assim nós reconheceríamos o grande serviço que ele nos faria. Assim, enviamos vinte cavaleiros e o encontramos naquele lugar. Ele chegou com seu presente, e nos ofereceu cerca de vinte bestas carregadas de cevada, cabritos, galinhas e uvas. As uvas que ele nos trouxe eram de tal qualidade que mesmo nos sacos não se partiram nem se estragaram. Nós dividimos aquele presente que ele nos ofereceu com os nobres da hoste. Isso fez aquele anjo que Deus nos enviou, e quando digo anjo refiro-me ao sarraceno, pois nos fez tanto bem que o tomamos por um anjo, já que se parecia com um. Ele nos pediu um pendão para que, se seus mensageiros viessem à hoste, os nossos não lhes fizessem mal, e concedemos isso de bom grado. Em seguida, enviou-nos mensagens informando que duas ou três partidas queriam seguir seu caminho, e não demoraria uma semana para enviarem à hoste provisões de cevada e de farinha, com galinhas, cabritos e uvas, pois assim refrescaria e reconfortaria nossa hoste. Isso aconteceu de tal modo que, em quinze dias, todas as partidas de Maiorca que estavam na cidade, até as partes que estão contra a partida de Minorca, ficaram a nosso serviço – e nos serviram obedientemente. Nós confiamos nele, porque nele encontramos toda a verdade. Depois disso, ele veio a nós, e nos pediu que dois bailios cristãos tivessem aquelas partidas por nós. Assim, por seu conselho, nomeamos dois bailios para aquelas partidas que ele fez vir ao nosso ordenamento, e tornamos bailios Dom Berenguer Dufort, de Barcelona, e Dom Jacques Sanz, ambos homens de nossa casa e que sabiam o que fazer. 72. Que aqueles que virem este livro saibam que são quinze as partidas em Maiorca. A primeira é Andraig, depois Santa Ponsa, Bunyola, Soller, Almerug e Polença. Estas são as maiores montanhas de Maiorca, voltadas para a Catalunha. E estas são as partidas que estão na planície: Montueri, Canarossa, Incha, Petra, Muro, Felenig – onde está o castelo de São Tueri – Manacor e Artá. [223] No limite da cidade estão quinze mercados que, no tempo dos sarracenos, eram doze. Eles se apressaram em fazer as escavações em três partes, uma acima e as outras abaixo, até entrarem no vale. Eles foram às escavações, enquanto os outros as defendiam, uns que saíam das escavações, outros acima, até que os expulsaram do vale, e isso mais de uma vez. Os cavadores passaram com picaretas e, guarnecidos até as torres, começaram a escavar, apesar dos sarracenos, que não podiam impedi-los. Primeiramente colocaram escoras em uma torre e, quando aquela torre foi ancorada, puseram fogo nas escoras até que a torre rachou. Quando os sarracenos viram o mal que acontecia, desceram da torre e, da mesma forma, derrubaram três com um golpe. Assim, antes que tivessem derrubado a primeira, disse o preboste de Tarragona: “Senhor, quereis que façamos um bom jogo?”. [224] “Sim”, nós dissemos. “Eu farei”, disse ele, “colocarem uma corda grossa ao pé da torre e a tirarem da parte da escavação abaixo; quando a torre estiver escavada, as escoras falharão e ela cairá”. E assim como foi falado, foi feito. Ao ver o que nós fizemos, três sarracenos saíram das escavações e nós os prendemos. 73. Depois disso, vieram dois homens de Lérida, Dom Proet, Dom João Rixo, e outro companheiro seu. E disseram: “Senhor, se vós nos oferecerdes ajuda, nivelaremos o vale para que possam entrar cavalos armados”. Nós dissemos: “Estais bem seguros que podereis fazer isso?”. “Sim”, eles disseram, “com a vontade de Deus, e com a proteção que vós nos fizerdes”. Nós dissemos que isso nos agradava muito, que a eles agradecíamos, e que, quando começassem a obra, nós dar-lhes-íamos vigilância. Começaram então a nivelar o vale da seguinte maneira: colocaram uma porção de lenha e outra de terra no vale. Quando os sarracenos viram que essa nivelação do vale já durava quinze dias, perceberam que não podiam impedi-los, pois os da hoste estavam muito perto deles. Em um domingo, vestimo-nos bem, nos compomos bem e, enquanto fazíamos bem nossos trabalhos, comemos nossa comida e olhamos como os engenhos atiravam. Estavam perto de nós o bispo de Barcelona, Dom Carros e outros cavaleiros, quando vimos queimar o fosso justamente onde estavam os engenhos, por causa de um buraco que os sarracenos tinham feito. Quando vimos isso, tivemos um profundo pesar, pois todo o tempo e os gastos que tínhamos feito estavam perdidos. E como tínhamos fé que ganharíamos a vila com aquele feito, quando vimos que tudo poderia se perder em pouco tempo, sentimos um grande pesar. [225] Todos se calaram e ficaram um tempo pensativos. E Deus deu-nos um pensamento: que fizéssemos retornar a água ao vale, aparelhando e armando cem homens com escudos, lanças, que fossem com enxadas, e que os sarracenos não os vissem, para que, na parte mais elevada, onde estava o armamento, jogassem água onde estavam as provisões, que elas se encharcariam e o fogo se apagaria. E assim como foi pensado, foi feito. Os mouros não voltaram ali, mas foram às escavações que deixamos debaixo da terra, e fizeram outra em direção contrária à que nós fazíamos; e fizeram-na tão baixa, que eles se encontraram com os nossos na escavação. Os sarracenos expulsaram os nossos da escavação. Depois, chegou-nos uma mensagem que os sarracenos tinham expulsado os nossos da escavação e que eles a tinham. Enviamos uma balestra de torno [226] que acometeu de tal modo a dois sarracenos com escudos, os primeiros na escavação, que os matou com um só golpe, partindo seus escudos. Quando os de dentro viram este golpe, abandonaram a escavação. Desta maneira, os nossos fizeram as escavações sob a terra, ao nível do vale. 74. Os sarracenos viram que não podiam se defender, e enviaram-nos mensagens dizendo que queriam falar com mensageiros de nossa confiança, e que nós os enviássemos. Recebemos conselho dos bispos e dos nobres que estavam na hoste que, como eles queriam falar conosco, não deveríamos impedir, pelo contrário, era bom que fossem. Assim, enviamos Dom Nuno, com dez cavaleiros seus, além de um judeu de Zaragoza como intérprete, pois sabia árabe, de nome Dom Bahiel. [227] Quando eles chegaram, os sarracenos pediram a Dom Nuno que lhes dissesse o que tinha para dizer. Disse Dom Nuno: “Eu não vim aqui para isso, pois vós enviastes mensagem ao meu senhor, o rei, para que ele enviasse a vós um mensageiro em que confiasse muito, e escolheu a mim para isso, porque, ademais, sou seu parente. Por isso, e por honra a vós, enviou-me aqui, para ouvir o que vós quereis dizer.” O rei de Maiorca respondeu, e disse-lhe para que retornasse, pois não queria dizer nada. Dom Nuno regressou a nós, e imediatamente enviamos ordem para que se reunisse todo o nosso Conselho, bispos e nobres. Antes de começar a dar suas razões, Dom Nuno pôs-se a rir. Nós lhe perguntamos por que ria. Ele respondeu que tinha uma boa razão, pois o rei de Maiorca não lhe dissera nada, somente lhe perguntara o que queria: “Eu lhe respondi que me maravilhava muito, pois, por ser um homem tão sábio, como podia enviar mensagem a vós para que lhe mandasse um homem de vossa estrita confiança, e perguntar a mim o que eu lhe queria dizer? Respondemos que ele não deveria nos ouvir, pois como havia nos chamado, não lhe diríamos nada, caso ele não dissesse por que nos chamou.” Todo o nosso Conselho disse: “Virá o tempo em que ele falará voluntariamente”. Em seguida partimos. 75. Um pouco depois de partirmos, Dom Pedro Cornel, que estivera no Conselho, nos disse: “Guilherme de Alagó, chamado de Maomé, enviou-me mensagem duas vezes, pois deseja falar comigo. E se vós o quereis, eu falarei, e, talvez, descubramos algo que seja proveitoso.” Nós dissemos que isso nos aprazia. E para lá foi. No outro dia, bem cedo, ele retornou, disse-nos tudo o que Guilherme de Alagó dissera: que primeiramente fora cristão e cavaleiro, e depois tornou-se sarraceno. E disse assim: que acordaria com o rei de Maiorca, com todos os sarracenos e os xeques da vila e da terra [228], pagarem todos os gastos que os ricos-homens tinham feito pela passagem [229], e que nos deixariam embarcar seguros e sem risco, que isso nos asseguraria de tal maneira que nós poderíamos ficar tranqüilos. Ao escutarmos essas palavras, dissemos: “Dom Pedro Cornel, nos maravilhamos fortemente convosco por tal pleito que falastes, porque prometemos a Deus, pela fé que Ele nos deu e confiou que, mesmo que nos dessem tanta prata quanto coubesse daquela montanha até a hoste, nós não a receberíamos; tampouco podem oferecer-nos algum pleito sobre Maiorca antes de tomamos a vila e o reino. Porque nunca retornaríamos à Catalunha sem passarmos antes por Maiorca. E ordenamos, sob a pena de perder o nosso amor, que nunca mais faleis essa razão conosco”. 76. A esse respeito, o rei de Maiorca enviou-nos outra mensagem, para que lhe enviássemos Dom Nuno, pois falaria com ele. Nós o enviamos. O rei de Maiorca saiu pela porta de Portopí, e armou uma tenda em um lugar para que ali estivessem ele e Dom Nuno. Dom Nuno foi até ele, e toda a hoste descansou enquanto aconteciam aqueles encontros, pois os de os de fora não faziam mal aos de dentro, nem os de dentro aos de fora. Após se aproximarem, o rei de Maiorca e Dom Nuno entraram na tenda. O rei falou com dois de seus xeques, além de Dom Nuno e o alfaquí, que atuava como intérprete [230]. Os cavaleiros que estavam com Dom Nuno permaneceram do lado de fora com alguns sarracenos. Dom Nuno perguntou ao rei de Maiorca por que havia sido chamado até ele. O rei respondeu-lhe com esses motivos: “Eu não creio ter errado com vosso rei. Portanto, maravilho-me quão fortemente ele se enfureceu contra mim a ponto de desejar tomar-me o reino que Deus me deu. Rogo a vós que o aconselhais a não desejar tomar a minha terra, e se ele ou vós tivestes algum gasto para vir até aqui, eu e a gente da terra o ressarciremos. Caso ele e todos os que vieram aqui com ele forem embora no bem e na paz, ninguém lhes fará nada, a não ser dar prazer e amor. E que retorne o rei, pois ainda que nós e a gente da terra tivéssemos que pagar uma soma tão elevada, o faríamos em cinco dias, pois graças a Deus temos o suficiente em armas, comida e todo o necessário para defender a cidade. E para que melhor creiais nas palavras que vos dissestes, que vosso senhor o rei envie dois ou três homens de sua confiança, pois, por minha cabeça, vos asseguro que poderão vir e voltar sãos e salvos, pois mostraremos nossas provisões e armas. E se não for assim como dizemos, que ele não atenda o pleito que propomos. Saibais que não nos importa que tenhais derrubado as torres que demoliram, pois não temos pavor que por ali possam entrar na cidade”. [231] 77. Ouvidas essas palavras, D. Nuno respondeu: “Quando dissestes que não haveis cometido um grande erro com nosso rei, sim que cometestes, pois tomastes uma embarcação de seu reino com grandes haveres de mercadoria que levavam os mercadores; o rei vos enviou uma mensagem e vos rogou muito amorosamente através de um homem de sua casa de nome Jacques, mas vós respondestes-lhe muito brava e duramente, perguntando quem era aquele rei que reclamava aquela embarcação. Ele vos respondeu que aquele rei era filho do que venceu a hoste na batalha de Úbeda [232], mas vós vos esquivastes e ficastes contra ele, e lhe dissestes que, se não fosse por ser mensageiro, ele teria dito mal aquelas palavras”. [233] “Ele [234] vos respondeu que veio em vossa fé, e que poderíeis fazer dele o que lhe aprouvesse, mas que deveríeis bem saber o nome de seu senhor, pois todos os homens do mundo o sabiam e sabem o quanto ele é poderoso e elevado entre os cristãos, e que não devíeis desdenhar e não saber seu nome”. “Por isso, ele disse estas palavras pela má resposta que vós destes. A esse respeito, ele respondeu que nosso senhor, o rei, é jovem, pois não tem mais que vinte e um anos, e esta é a primeira grande coisa que começou. [235] Assim, saibais que é de seu coração e de sua vontade que por nada no mundo partirá daqui até que tenha o reino e a terra de Maiorca. E mesmo que o aconselhássemos, sabemos por certo que ele [236] não faria nada. A esse respeito, vós podeis falar, e falai, mas não será nada, já que ele não o fará, nem nós o aconselharemos”. 78. A esse respeito respondeu o rei de Maiorca: “Por essas palavras, não desejais seguir o que dissemos. Assim, eu farei o seguinte: dar-lhe-ei cinco besantes por cada cabeça de homem, de mulher e de crianças, e desampararei a vila enquanto ele nos dá essas naves e barcos que tem, com os quais nós passaremos para a Berbéria, e aqueles que desejarem permanecer, que permaneçam”. [237] Assim, Dom Nuno, após ouvir as palavras que o rei lhe disse, veio a nós muito alegre. Ele sussurrou ao nosso ouvido que diria boas novas que ninguém mais sabia, a não ser ele e o alfaquí. Nós respondemos que chamaríamos os bispos e os nobres para que estivessem presentes quando ele dissesse aquelas palavras, pois como tinha que revelá-las, mais valia que as dissesse diante de todos. A ele pareceu bem, e nós chamamos a todos. Enquanto chegavam, ele nos disse todos os fatos. Quando todos chegaram, ele contou como havia falado com o rei de Maiorca, e como ele havia respondido, e este é o resumo de suas palavras: que restituiria a vila e daria, por cada pessoa, cinco besantes por cabeça, e a entregaria em cinco dias, e que nós o fizéssemos passar para a Berbéria, ele, sua linhagem e toda a sua casa, com os homens e as mulheres; e aquelas naves ou barcos nos quais passariam, deveriam deixá-los em terra, e que assim eles estimariam muito que aquilo fosse feito. O conde de Ampúrias, que era da hoste, não quis estar em nenhum Conselho que fizéssemos com os ricos-homens, pois estava na escavação e disse que nunca sairia dali até que a vila fosse tomada. Por isso, não pudemos contar com ele naquele Conselho. Assim, estiveram presentes no Conselho, dos parentes de Dom Guilherme de Montcada, Dom Ramon Alamano e Dom Guerau de Cervelió, filho de Dom Guilherme de Cervelió e sobrinho de Dom Ramon Alamano, e Dom Guilherme de Clarmunt e o bispo de Barcelona, além do bispo de Girona, o preboste de Tarragona e o abade de São Feliz de Guíxols. Todos disseram ao bispo de Barcelona que desse seu conselho. O bispo respondeu que grande dano nós havíamos recebido naquela ilha pelos tão nobres e tão bons que morreram, e que podiam se vingar servindo a Deus, pois essa vingança seria boa, mas os ricos-homens e os cavaleiros sabiam mais de armas que ele, pois as usavam, e que então eles que o dissessem, e também que dissessem a Dom Nuno que respondesse. Dom Nuno respondeu dessa maneira: “Barões, viemos aqui para servir a Deus e a nosso senhor o rei, que aqui está; e ele veio, nós com ele, para tomar Maiorca. Parece-me que, se nosso senhor o rei fizer tal pleito que lhe ofereceu o rei de Maiorca, cumprirá aquilo para qual veio. E eu não desejo dizer mais, falador que sou das novidades; que sede vós os que dêem vosso conselho”. A esse respeito falou Dom Ramon Alamano: “Vós, senhor, passais aqui, e nós convosco, para servir a Deus. [238] E haveis perdido aqui, pois morreram em vosso serviço tais vassalos que nenhum rei teve melhores. Já que Deus tem nos dado tempo para que os podeis vingar, vingai-os, e tereis toda a terra. Pois o rei de Maiorca tem tão grande senso e conhece a terra de Maiorca que, se passar para a Berbéria com o que sabe dizer e com o conhecimento que tem, atrairá tantos sarracenos para esta terra que, assim como vós ganhastes com a ajuda de Deus e de nós, vós não poderíeis impedir tudo o que ele poderia tomar. Assim, como tendes tempo, vingai-vos deles e tomai a terra, pois não tereis que temer a Berbéria”. Dom Guerau de Cervelió e Dom Guilherme de Claramunt disseram, todos de uma só vez: “Senhor, por Deus vos suplicamos que vos recorde de Dom Guilherme de Montcada, que tanto vos amava e vos servia, de Dom Ramon e dos outros ricos-homens que estão mortos com ele no campo”. 79. Após escutar seu conselho, dissemos-lhe: “Nós, com a morte dos ricos-homens, não podemos dar nenhum conselho, pois Deus deseja ordenar que isso seja feito até que seja cumprido, mas de acordo com a nossa maneira de vir a esta terra para servir a Deus, para conquistá-la, e para que Nosso Senhor cumpra a nossa vontade. Aquele pleito se fazia para que nós viéssemos ganhar a terra e, por outro lado, ter grandes haveres, pois parecia agradável que nós devêssemos tomá-la. Os que estão mortos têm mais a terra que nós, pois têm a glória de Deus. Contudo, o conselho que dou, vos dou para garantir o conselho que vós me dais”. Então, toda aquela linhagem e os bispos, a uma só voz, disseram que mais valia tomarmos a vila pela força do que realizar aquele pleito. Assim, enviamos uma mensagem ao rei de Maiorca para que ele fizesse o que pudesse, pois nós faríamos o que podíamos. Quando aquelas palavras foram enviadas e os sarracenos souberam o pleito de guerra que nós mandamos, ficaram apavorados. Assim que o rei de Maiorca os viu apavorados, fez um Conselho geral e disse a eles, em árabe: “Barões, bem sabeis que essa terra foi conquistada por Miramamolim há mais de cem anos, e ele quis que eu fosse senhor de vós, e a conquistou, apesar dos cristãos, que nunca tiveram o atrevimento de atacar essa terra até agora. [239] Aqui temos nossas mulheres, nossos filhos e nossos parentes. E agora dizem-nos que devemos deixar a terra, de tal maneira que sejamos seus cativos. E ainda dizem mais, além do cativeiro, que protegerão nossas mulheres se não dermos nada e, depois que estivermos em seu poder, forçá-las-ão a fazer qualquer coisa. E eu, que estou aqui entre vós, que tanto sofri contra a nossa lei [240], preferiria ter perdido a cabeça, e agora desejo saber de vós o que pensais a esse respeito, e me digais qual é vosso juízo.” Todo o povo gritou a uma só voz, e disse que mais valia desejar morrer que sofrer tamanha afronta como essa. E respondeu o rei: “Então, como os vejo em tão boa vontade, pensemos uma maneira de nos defendermos, de tal forma que um homem valha por dois”. Depois disso, eles partiram e retornaram ao muro. A partir de então, um sarraceno valia mais que dois. 80. Poucos dias depois [241], dissemos a Dom Nuno: “Dom Nuno, parece-me que nossos ricos-homens não desejavam ter dado o conselho que deram outro dia, já que agora desejam o pleito e inicialmente não o desejavam”. E dissemos àqueles que haviam aconselhado o pleito: “O que vos parece? Não valeria mais tomarmos aquele pleito que falamos e não agora que eles se defendem bem?”. Eles se calaram e tiveram vergonha do que haviam dito. Quando chegaram as vésperas, vieram a nós dois daqueles que deram aquele conselho, o bispo de Barcelona e Dom Ramon Alemão. E disseram-nos: “Por que não fizestes retornar o pleito que outro dia falavam?”. Respondemos: “Não valeria outorgá-lo mais que agora. E por que agora pedis que eu o faça? Digo-vos que não me pareceria bem feito, pois se nós o fizéssemos agora, seria uma grande fraqueza. E se eles nos falassem o pleito que outra vez nos propuseram, teríeis por bem que o fizéssemos?”. Eles responderam que seria bom e que nos faria outorgar àqueles que não desejavam. E respondemos: “Agora, se eles nos enviarem uma mensagem dizendo que consideram isso bom, nós o faremos, e faremos tudo com o conselho de vós”. A seguir, nós partimos, e nosso Senhor, que é o encaminhador daqueles que seguem os Seus caminhos, não quis que aquilo se fizesse da maneira que os sarracenos nos falavam, e deu-nos um melhor remédio. O conselho foi o seguinte: que assim como os sarracenos foram fortalecidos pela palavra do rei de Maiorca, quis Deus que os cristãos se fortificassem e os sarracenos se enfraquecessem. E fizeram-se as minas, mas, no fim, todos as desampararam, exceto aquela que estava no nível da terra, onde nos esforçamos tanto que, apesar deles, nós conseguimos. 81. Contudo, no quarto dia, antes que se fizesse a invasão da cidade, foi acordado entre nós, os nobres e os bispos, que fizéssemos um Conselho geral, e que naquele Conselho todos jurássemos sobre os santos Evangelhos e sobre a cruz de Deus que, ao entrar em Maiorca, quando a invadíssemos, nenhum rico-homem, nem cavaleiro, nem homem a pé, voltasse atrás, pois já teria sido movido a entrar na cidade, e que ninguém se detivesse enquanto não tivesse recebido um golpe mortal; e que se houvesse recebido um golpe mortal e tivesse por perto algum parente ou algum homem da hoste, que este o deixasse em alguma parte ou em algum lugar para que descansasse, mas que todos fossem adiante e entrassem na vila pela força, sem girar a cabeça nem o corpo para trás; e quem fizesse de outra maneira, que fosse considerado traidor, da mesma forma que aqueles que matam seu senhor. Nós também desejamos jurar aquele juramento assim como eles o juravam, mas os nobres nos defenderam e disseram que nós não o jurássemos, mas lhes dissemos que faríamos daquela maneira como se o tivéssemos jurado. Após este sacramento ter sido feito [242], os bispos e os nobres nos chamaram, e um homem de nossa companhia, que nós não nos lembramos o nome, disse estas palavras: “Senhores, se não fazemos uma coisa, não fazemos nada. Se os sarracenos da ilha desejassem retirar a conveniência que fizeram a nosso senhor, o rei, e, se porventura, entrassem na cidade, mil, dois mil, três, ou quatro, ou cinco mil, não seria tão fácil tomar Maiorca, já que eles têm muito do que comer e, ademais, caso aumentassem em número [243], defenderiam bem a cidade. Por isso, eu aconselharia que fôssemos rápido, para que ninguém pudesse se proteger dentro da cidade.” Todos disseram a uma só voz que ele dizia um bom conselho, e que nós acreditássemos. 82. No dia seguinte, os bailios que nós havíamos enviado pelas partidas de Maiorca, Dom Jacques e Dom Berenguer Dufort, vieram de lá, pois não se atreviam a parar por pavor que os sarracenos se comportassem mal com eles. Quando os vimos chegar, um disse ao outro: “Agora é melhor o conselho que acordamos que o anterior”. Assim, nós colocamos três vigias: um vigia estava nas máquinas e nas paliçadas, o outro na porta de Barbelec, que fica próxima do castelo que nós damos ao Templo, e o terceiro na porta de Portopí. Cada um estava com cem cavalos armados. Naquele tempo, estávamos entre o Natal e o Ano Novo, e fazia tanto frio que quando estavam fora e tinham caminhado à noite uma ou duas léguas, retornavam às tendas e às barracas por causa do frio que havia, e enviavam escoltas caso vissem alguém vindo para a hoste. 83. Quando chegou a noite antes da véspera do início do ano [244], decidimos na hoste que, no alvorecer, ouvidas as missas [245], todos receberíamos o corpo de Jesus Cristo, pois assim todos se protegeriam para o combate. Quando estávamos no primeiro sono daquela noite, Lopes Ximenes de Luzia chegou ao nosso leito, chamou-nos e disse-nos: “Senhor, eu venho dos fossos, e ordenei a dois escudeiros meus que entrassem na vila. Eles entraram e viram muitos mortos estendidos nas praças e que, da quinta até a sexta torre, nenhum sarraceno vigiava”. Assim, ele nos aconselhou que ordenássemos armar a hoste, pois a vila seria tomada, já que não havia quem a defendesse; mil homens ou mais poderiam entrar antes que o Sol nascesse. “Ah, velho senhor! Como me dais conselho para que os homens entrem na cidade de noite, e em uma noite tão escura? De dia os homens não têm vergonha de fazer mal de armas, mas quereis que entrem à noite; como conhecerão um ao outro? Além disso, se os da hoste entrarem na vila e forem expulsos, nunca mais tomaremos Maiorca”. Ele entendeu que nós dizíamos a verdade, e concordou. 84. Quando chegou o alvorecer, foi decidido que ouvíssemos as missas e recebêssemos o corpo de Jesus Cristo. Ouvidas as missas e recebido o corpo de Jesus Cristo, dissemos para todos se armarem, cada um com as armas que deveriam portar. Todos saímos diante da vila, na praça que estava entre nós e eles. Isso ocorreu na hora em que já clareava o dia. Nós nos aproximamos dos homens a pé e dos que estavam diante dos cavaleiros e dissemos: “Avante, barões, começais a ir em nome de Nosso Senhor Deus!” Contudo, mesmo com essas palavras ninguém se moveu, apesar de todos terem ouvido. Quando vimos que eles não se moviam, veio-nos um grande pensamento, já que eles não cumpriam nossa ordem. Voltamo-nos para a Mãe de Deus e dissemos: “Mãe de Deus, nós viemos aqui para que o sacrifício de Vosso Filho fosse celebrado. Rogo que eu não receba esta afronta, nem aqueles que servem a mim em nome de Vós e de Vosso caro Filho”. E outra vez gritamos: “Avante, barões, em nome de Deus! De que duvidais?” Dissemos isso três vezes. Com isso, os nossos moveram-se. Ao ver que todos se moviam, cavaleiros e serventes [246], e foram se aproximando do fosso onde fora feita a passagem [247], toda a hoste começou a gritar a uma só voz: “Santa Maria, Santa Maria!”. Estas palavras não saíam da boca [248], pois, após dizerem, voltavam a elas. E assim, quanto mais as diziam, mais levantavam a voz. Disseram isso trinta vezes ou mais. [249] Quando os cavaleiros armados começaram a entrar, cessou a voz. Após ser feita a passagem onde deviam entrar os cavalos armados, já havia entrado cerca de quinhentos homens a pé. O rei de Maiorca veio à passagem com todas as gentes dos sarracenos da cidade. Eles cercaram de tal maneira os que estavam a pé e que haviam entrado que, se não seguissem os cavalos armados, todos estariam mortos. E, segundo o que os sarracenos nos contaram, diziam que viram entrar primeiro em um cavalo um cavaleiro branco com armas brancas. Isso deve ser nossa crença que fosse São Jorge, porque encontramos em histórias que em outras batalhas tanto cristãos quanto sarracenos o têm visto muitas vezes. 85. Contudo, o rei de Maiorca, que tinha o nome de Xeque Abohehie [250], cavalgando em um cavalo branco, gritou aos seus: “Roddo!”, que quer dizer: “Aguardem!”. Dentre aqueles cristãos a pé havia cerca de vinte ou trinta, que tinham os escudos abraçados, e outros serventes que ali estavam com eles. Do outro lado, estavam os sarracenos com suas adagas e as espadas desembainhadas; nem uma, nem outra parte se atrevia a atacar. Quando os cavaleiros entraram com seus cavalos guarnecidos, foram feri-los. [251] Era tamanha a multidão das gentes dos sarracenos que eles plantaram suas lanças, e nossos cavalos dirigiram-se para o lado para dar a volta, pois não podiam passar por causa da espessura das lanças. Feito o contorno, afastamo-nos um pouco e fizemos entrar tantos cavalos que certamente ali havia entre quarenta e cinqüenta. Os cavaleiros e os homens a pé ali escudados estavam tão perto dos sarracenos que, com as espadas, tentavam não ferir uns aos outros, e ninguém se atrevia a colocar o braço para fora, por pavor que, da outra parte, viesse uma espada e ferisse as mãos. Contudo, os cavaleiros certamente já eram entre quarenta e cinqüenta, com os cavalos armados. Eles se dirigiram contra os sarracenos e gritaram a uma só voz: “Ajudai-nos, Santa Maria, Mãe de Nosso Senhor!”, e também “Vergonha, cavaleiros!”. Assim, fomos feri-los e espantamo-los. 86. Quando os sarracenos da vila viram que a cidade estava sendo invadida, saíram. Entre homens e mulheres, aproximadamente trinta mil, pelas duas portas, a de Barbelec e a de Portopí, foram para a montanha. Havia tanto dinheiro e botim que, da cidade, os cavaleiros e os homens a pé não se importaram com os que fugiam. O último sarraceno que partiu daquele lugar foi o rei de Maiorca. Os outros sarracenos, quando viram que aquele lugar havia sido invadido pelos cavaleiros com cavalos armados e pelos homens a pé, se esconderam nas casas, cada um da melhor forma que podia. Contudo, não se esconderam bem, pois vinte mil morreram quando nós entramos. Ao chegarmos à porta de Almudaina, encontramos cerca de trezentos mortos que, ao pensarem em se recolher na Almudaina, os outros fecharam a porta, e então vieram os nossos cristãos e os mataram. Quando chegamos ali, os restantes não se defenderam, e um sarraceno, que sabia o nosso latim, nos disse que, se nós lhe déssemos homens que os protegessem da morte, eles entregariam a Almudaina. 87. Enquanto trocávamos essas palavras, chegaram dois homens de Tortosa e nos disseram que desejavam falar conosco para o nosso bem. Assim, nós os chamamos a um canto e os escutamos; eles disseram que se lhes déssemos algo, nos entregariam o rei de Maiorca. Nós lhes perguntamos o que queriam, e eles disseram que desejavam duas mil libras. Nós respondemos o que eles nos pediam: uma vez que o rei estava na vila, nós o pegaríamos; mas, para que não nos tomássemos mal, dar-lhes-íamos mil libras. Eles disseram que isso os agradava. Assim, deixamos um rico-homem em nosso lugar e ordenamos que ninguém atacasse Almudaina até que nós voltássemos. Então, chamamos Dom Nuno. Dissemos que tínhamos encontrado o rei de Maiorca, e que viesse conosco. Ele disse que isso muito lhe agradava. Assim, fomos e nos conduziram até a casa onde o rei estava. Nós e Dom Nuno descavalgamos e, guarnecidos, entramos na casa. Diante dela, estavam três exortiquins [252] com suas azagaias [253]. Quando nos aproximamos, ele se levantou com sua capa branca; vestia uma malha de ferro sob a capa, e uma preciosa tela de seda branca que guardava seu corpo. [254] Fizemos dizer-lhe, em árabe, por meio de um daqueles dois homens de Tortosa, que nós lhe deixaríamos dois cavaleiros e alguns de nossos homens, e que não tivesse receio, pois uma vez que estava em nosso poder, não morreria. Deixamos ali nossos homens para que ninguém o tocasse. Voltamos à porta de Almudaina e dissemos a eles que nos dessem reféns e que saíssem ao muro velho para falar conosco. Trouxeram-nos o filho do rei de Maiorca, que podia ter treze anos. Disseram que esta era a fiança que nos davam, e que nos abririam a porta e que observássemos quem entrava. Colocamos ali dois frades pregadores [255], para que guardassem as casas do rei e o tesouro, e dez cavaleiros com eles, bons e sábios, para ajudarem, com seus escudeiros, a guardar e velar Almudaina, pois todos nós estávamos enfraquecidos e queríamos repousar, já que o Sol já estava posto. 88. Pela manhã, nós reconhecemos nossas coisas e fizemos o abastecimento. E vejais como Nosso Senhor dispôs: todos os da hoste encontraram tanto que cada um tomou o que quis para si, a ponto de ninguém discutir com o outro, pois cada um pensava estar mais rico que o outro. [256] Dom Ladrão, um rico-homem que estava conosco, convidou-nos, e nos disse que um homem seu viera lhe ver e dissera que tinha uma boa casa e que preparara uma boa vaca como comida, e que ali poderíamos descansar. Nós dissemos que muito o agradecíamos e que ali iríamos. Quando chegou a manhã, nenhum homem de nossa casa veio até nós, nem depois de oito dias, pois cada um estava tão satisfeito com o que tinha tomado que ninguém queria regressar a nós. 89. Com a vila tomada, reuniram-se os bispos e os ricos-homens, e disseram que queriam falar conosco. Afirmaram que queriam fazer o leilão dos mouros, do butim e de todas as coisas que ali estavam. Nós respondemos que não concordávamos, pois o leilão duraria muito e valeria mais conquistar as montanhas e depois repartir o butim, já que os sarracenos estavam apavorados. Eles disseram: “E como se repartiria o butim?” Nós respondemos que o repartiríamos pelas quatro partes da hoste: “Pois se repartimos imediatamente os sarracenos e o butim, a gente sentir-se-á recompensada. Isso tem de ser feito em oito dias; depois iremos sobre os sarracenos que fugiram e conquistá-lo-emos, dividindo os haveres pelas galeras. E faremos isso da melhor maneira que pudermos.” Dom Nuno, Dom Bernard de Santa Eugênia, o bispo de Barcelona e o sacristão desejavam o leilão de qualquer forma [257]; pensavam em enganar os outros com seu conhecimento, pois sabiam mais que os da hoste, que não percebiam suas intenções. E dissemos: “Vejais este leilão que não será leilão, será um engano, pois nós temos pavor que isso nos atrase e os sarracenos se fortaleçam, pois depois não poderemos conquistá-los tão facilmente. [258] Valeria mais conquistá-los agora com o pavor que estão, do que depois, quando estiverem recompostos.” Eles perguntaram por que nós os contrariávamos, já que o leilão valia mais. Nós respondemos: “Deus o quer, mas nós temos pavor que nos arrependamos.” 90. Assim, começaram a fazer o leilão, que se iniciou no Carnaval e durou até a Páscoa. Após o leilão ter sido feito, os cavaleiros e o povo pensaram que seriam entregues a parte de cada um que comprou. Além disso, não queriam fazer os pagamentos. Os cavaleiros colocaram se ao lado do povo [259] e disseram por toda a vila: “Isto está mal, isto está mal!” Assim, amotinaram-se e gritaram a uma só voz: “Vamos saquear a casa de Gil de Alagón.” [260] E foram lá e a saquearam. Quando saímos e fomos até lá, eles já a tinham saqueado. E dissemos: “Quem vos mandou saquear a casa de algum homem, nós estando aqui, sem que fizésseis clamor a nós?” Eles assim responderam àquelas palavras: “Senhor, cada um de nós merece ter sua parte nas coisas que foram tomadas, assim como os outros têm; não temos nossa parte, morremos de fome aqui e queríamos retornar às nossas terras. Por esta razão a gente fez o que fez.” “Barões”, nós respondemos, “haveis feito mal, e arrependei-vos disso. Não façais isso novamente, pois saibais que não concordaremos; se o fizerdes, seria pior, pois nós lhe faríamos uma grande justiça. Vós teríeis grande dor do mal faríeis, e a nós pesaria muito o mal que teríamos que fazer.” 91. Depois de passados dois dias, eles se insurgiram novamente, gritaram e disseram: “Vamos à casa do preboste de Tarragona”. Foram então à casa do preboste de Tarragona, saquearam toda a casa e todo butim que ali havia, exceto duas bestas que ele cavalgava e que estavam em nosso albergue, não lhe deixando mais nada. A esse respeito, vieram os ricos-homens e os bispos e disseram: “Barões, não podemos concordar com isso, pois se concordássemos nenhum de vós permaneceria vivo ou sem ser saqueado. Nós vos mostraremos um bom conselho para receber: à primeira coisa que eles começarem, estejais aparelhados, vos armem e vossos cavalos, e estejais rapidamente na praça, onde não há barreira nem cadeia; daqueles que fazem mal que nós encontrarmos, tomemos vinte por nossa conta, e se não os encontrarmos, tomemos os primeiros que encontrarmos e enforquemo-los, para que sirvam de exemplo. Se não fizermos isso, todos nós estaremos em grande trabalho. Além disso, mudemos a parte que nós temos na Almudaina para o Templo, e nós, nossos corpos, a escoltaremos até lá para que fique guardada”. A esse respeito, falamos com o povo da vila e dissemos: “Barões, vós haveis iniciado uma nova obra que nunca existiu, isto é, saquear as casas, e mais ainda, as daqueles que nunca lhes fizeram nada de errado, nem pouco nem muito. Faço-vos saber que, de agora em diante, isso não será tolerado, pelo contrário, os penduraremos tantos pelos caminhos que a vila ficará empestada. Além disso, eu e os ricos-homens que aqui estão desejamos que sejais dada a vossa parte, tanto de haveres quanto de terras”. Quando ouviram estas boas palavras que eu vos dizia, eles se acalmaram e deixaram a maldade que haviam começado. Contudo, nós aconselhamos tanto aos bispos quanto ao preboste que não saíssem da Almudaina por todo aquele dia até que o povo ficasse aquietado, pois dissemos que contaríamos tudo e depois daríamos a sua parte. À noite, quando o povo ficou mais calmo, cada um foi para sua casa. 92. Passada a Páscoa [261], Don Nuno armou uma nau e duas galeras para adentrar em corso no território da Berbéria. [262] No espaço de tempo em que ele armava nau, Dom Guilherme de Claramunt ficou doente e oito dias depois que a doença começou, ele morreu. Após enterrarem-no, caíram doentes Dom Ramon Alemão e Dom Garcia Pérez de Meitats, que era de Aragão, homem de boa linhagem e de nossa mesnada, e ambos morreram igualmente após oito dias. Depois de estes dois terem sido mortos, Dom Gerardo de Cervelló, filho de Dom Guilherme de Cervelló e irmão mais velho de Dom Ramon Alemão, também ficou doente e oito dias depois morreu. O conde de Ampúrias, ao ver a morte desses três, disse que todos aqueles que eram da linhagem de Montcada iriam morrer; ele também ficou doente, mas não caiu senão após oito dias e, ao fim desses oito dias, morreu. Todos esses quatro, que eram nobres e grandes homens da Catalunha, morreram dentro de um mês. Nós presenciamos esta mortandade ocorrida a tão altos homens da hoste e isso muito nos pesou. Dom Pedro Cornel disse que iria a Aragão e que nós déssemos cem mil souls [263] que ele retornaria a nós com cento e cinqüenta cavaleiros, isto é, cem pelos dinheiros e cinqüenta pela honra que ele tinha por nós. Nós lhe demos e o fizemos ir à Aragão. 93. Acordamos com Don Nuno – que havia permanecido conosco e com o bispo de Barcelona – que como os cavaleiros Dom Guilherme de Montcada, Dom Ramon e os ricos-homens que dissemos acima estavam mortos, que enviássemos cartas a Dom Ato Foces e a Dom Rodrigo Lizana, que estavam em Aragão, para virem servir-nos pela honra que tinham por nós. Nós as enviamos, e eles nos responderam com cartas que viriam de bom grado. Enquanto eles se aparelhavam para vir, acordamos fazer uma cavalgada, pois os sarracenos haviam subido as montanhas de Soller, Almerug e Banalbufar [264], e as defendiam dos cristãos, que não podiam fazer-lhes mal até Polença. Saímos da vila e fomos por um vale que tem o nome de Bunyola com aqueles cavaleiros e homens a pé que tínhamos, pois a maior partida já saíra, parte para a Catalunha e outra para Aragão. Com aqueles que podíamos contar começamos a fazer aquela cavalgada. Deixamos um castelo naquela montanha chamado Alaró, que é o mais forte castelo do reino de Maiorca pela parte direita. [265] Após subirmos a montanha, aquele que estava em nossa dianteira nos enviou uma mensagem dizendo que os peões não queriam albergar naquele lugar que nós havíamos ordenado, e se dirigiram para Inca. Nós deixamos em nossa retaguarda um nobre de nome Dom Guilherme de Montcada, filho de Dom Ramon de Montcada, pensando que os encontraríamos e o faríamos permanecer. Ao chegarmos lá, vimos ao pé da costa que eles se dirigiam a uma alcaria chamada Inca. [266] Ao ver isso, não quisemos desamparar a companhia, pois eles haviam capturado na companhia duas ou três bestas. Então, retornamos correndo para a retaguarda com três cavaleiros que estavam conosco. Ao chegarmos lá, nossa retaguarda já haviam atacado, subido por uma costa plana que lá havia e recuperado as bestas. 94. Ao chegarmos, nós encontramos os nossos que retomaram o caminho. Cerca de seiscentos sarracenos, ou mais, estavam em um monte avaliando se poderiam fazer-lhes mal. Por isso, atacaram a companhia quando viram que a dianteira se fora. Nós, totalmente unidos, fomos até aquele lugar onde devíamos albergar e ali acordamos de que maneira nós nos comportaríamos. Dom Guilherme de Montcada, filho de Dom Ramon, Dom Nuno e Dom Pedro Cornel, que já tinham vindo, além de outros cavaleiros que sabiam os feitos de armas, nos disseram que não seria bom que nós albergássemos tão perto daquele poder, pois eles eram cerca de três mil e, além das mulas de carga, a maior parte das provisões e dos homens a pé já haviam ido. Por isso, não seria sensato permanecer naquele lugar. Acordamos ir naquela noite a Inca. Colocamos nossas mulas de carga diante daqueles que haviam permanecido e, quando vimos que estavam embaixo, ao pé da costa, descemos até ali suavemente. Não havia mais que quarenta cavaleiros em toda aquela retaguarda. Quando os sarracenos viram que nós nos comportamos tão bem, não ousaram vir até nós. Dirigimo-nos então para albergar em Inca, que é a maior alcaria que existe em Maiorca. Depois retornamos para a vila. 95. Ao retornarmos para Maiorca, veio o mestre do Hospital, de nome Dom Hugo de Forcalquier, com seus freires e quinze cavaleiros. Ele veio a nós com estes quinze cavaleiros ao ouvir que Maiorca havia sido tomada, porque eles não estiveram na tomada de Maiorca. Nós havíamos feito Dom Hugo de Forcalquier mestre de nossa terra, conforme pedido do mestre maior de Ultramar, que era um homem que nós amávamos muito, e ele a nós. Quando ele chegou, disse que desejava falar conosco tão somente com seus freires. Pediu-nos muito encarecidamente que, pelo amor que nós lhe tínhamos e pela fé que ele tinha em nós, que desejássemos e dispuséssemos com os bispos e os ricos-homens que o Hospital tivesse uma parte naquela ilha, pois o Hospital seria afrontado para sempre se em tão bom feito como aquele, o de tomar Maiorca, ele não estivesse. “E se o Hospital não tiver alguma parte de vós, que tem sido nosso senhor, da ilha que Deus vos deu para tomar, dirão as gentes a partir de então: ‘Nem o Hospital nem seu mestre estiveram em tão grande feito como aquele de Maiorca’, o qual Deus quis que vós fizésseis. Por todos os tempos estaríamos mortos e envergonhados”. [267] Nós respondemos que ele bem sabia que sempre o amamos e o honramos, tanto ele quanto o Hospital, e que faríamos o que ele nos pedia voluntariamente e de bom grado, pois isso nos agradava muito. Contudo, isso seria o maior obstáculo que nós teríamos, pois a terra e os haveres já estavam divididos, e havia muitos que já tinham tomado a sua parte e ido embora. Se não fosse por isso, nos seria fácil fazê-lo. “Contudo, isso não me impedirá de vos ajudar de tal maneira que vós partireis satisfeitos.” 96. Vieram o bispo de Barcelona, Dom Nuno, Dom Guilherme de Montcada, e aqueles que nós pudemos reunir e que haviam permanecido na terra. Pedimos muito encarecidamente que dessem uma parte ao mestre daquilo que haviam recebido. Contudo, os encontramos muito duros, pois questionaram como poderiam fazer aquilo, isto é, dar uma parte, quando tudo já havia sido dividido. Ademais, isso não era coisa que se pudesse fazer, maiormente porque os ricos-homens já haviam ido e não se encontravam. Nós respondemos: “Barões, nós temos um conselho, e como podemos chegar a esse conselho, será bom conservar o mestre e o Hospital”. Eles perguntaram qual era aquele conselho. Nós respondemos: “Nós temos a metade da terra. Daremos uma alcaria nossa, boa e honrada, como nossa parte. E vejamos Ramon de Ampúrias, que sabe as partes de vós. Contudo, vós não podeis dar uma alcaria que não tivésseis tomado, mas dividais as terras conforme as partes que vós haveis tomado. Com a terra e a alcaria que nós lhes daremos, terão sua parte convenientemente. Espero que isso vos agrade de tal maneira que nem com esta nem com outra ordem fiqueis enojados, pelo contrário, cumprais a sua vontade, e nós não faremos nada”. A esse respeito, fizemos que voltassem ao nosso caminho, e eles disseram que, já que tanto desejávamos, que assim o fariam. 97. E enviamos nossa decisão através do mestre. Entretanto, os ricos-homens disseram que nós fizéssemos a resposta para todos. Quando o mestre chegou, dissemos-lhe: “Mestre, vós viestes aqui para servir primeiramente a Deus, e a nós, nesta conquista que fizemos. Agora saibais que nós e os ricos-homens tivemos coração e vontade de fazer isso que vós nos haveis pedido. Mas este é o embargo que nós temos: a repartição está feita, e a maior parte daqueles que tomaram já não estão entre nós. Mas tudo isso não impedirá que nós demos uma parte, a razão de trinta cavaleiros, e faremos contar no livro com as outras. [268] Dar-vos-emos uma alcaria das nossas, boa e honrada. Mas como os outros não podem vos dar alcaria, darão parte das terras de acordo com o que têm, tal que corresponderá a parte de trinta cavaleiros. E fazemos-vos grande honra quando vos damos a mesma parte que a do Templo, que ali esteve.” O mestre levantou-se com os freires que ali estavam, e quiseram beijar nossa mão. Nós não demos a mão para ele beijar, mas aos outros freires. E depois disseram: “Senhor, depois de tanta graça feita ao mestre e ao Hospital, pedimos-vos que doe parte dos móveis e umas casas para que lá estejamos.” Nós nos voltamos para os ricos-homens e, rindo, dissemos-lhes: “O que parece a vós isso que o mestre e os outros freires nos pedem?” “Senhor,” – disseram eles – “isso não poderia ser feito, pois quem tem seus dinheiros e sua roupa não os entregaria. Sobre as casas, seria bom que nós fizéssemos cercar algum local em que pudéssemos fazer.” E nós dissemos: “Vós aceitaríeis um conselho que não custasse nada?” Todos disseram que seria bom. “Demo-los, então, a casa do arsenal. [269] Ali já existem paredes e poderão fazer boas casas. E quanto aos móveis, dar-lhes-emos quatro galeras que estão aqui, as quais encontramos e que pertenceram ao rei de Maiorca. Assim, todos terão a sua parte.” O mestre e os freires ficaram muito alegres, beijaram-nos as mãos e os freires choraram. E isso agradou ao bispo e aos ricos-homens, pela boa oportunidade que nós lhes demos. 98. Ainda estavam conosco na ilha Dom Nuno, o bispo de Barcelona e Dom Eiximenis de Urrea, quando fomos adentrar na montanha sobre os sarracenos. Quando chegamos a Inca, o mestre do Hospital estava conosco, e enviamos os ricos-homens para que consultassem os adalids, que nos guiam e conhecem as entradas da terra. [270] Dom Nuno, Dom Eiximenis de Urrea e o mestre do Hospital aconselharam que, de acordo com a companhia que nós estávamos, não seria bom que entrássemos pela montanha, pois ali havia aproximadamente três mil mouros de armas que estavam nas montanhas de Sóller, de Almerug e de Bonalbahar, onde nós deveríamos entrar. Seu líder era Xuaip, natural de Xurert [271], e com ele havia de vinte a trinta homens a cavalo. Aconselharam-nos a não entrar ali, pois nós e a companhia que estava conosco nos meteríamos em uma grande aventura e nos perdermos. Reconhecemos que nos davam o melhor conselho e seguimos o mesmo. Mas nos pesou muito não poder ter feito aquela façanha. 99. Quando eles partiram de nós e cada um retornou ao seu albergue, solicitamos aos adalids que viessem diante de nós. Eles vieram e conversamos em um canto onde havia somente nós e eles. E dissemos-lhes: “Ordenamos-vos que, pela natureza que tendes conosco, digais a verdade disso que vos pediremos: dizeis se algum de vós sabeis se há sarracenos em outro local da ilha de Maiorca além desta serra que, vendo daqui, nos parece muito alta, pois queremos saber se algum de vós haveis estado lá.” Um deles respondeu: “Eu fiz uma cavalgada há não mais que oito dias, onde prendi sarracenos em uma cova, naquela serra que vós vedes. Mas quando pensei tê-los prendido, saíram cerca de sessenta sarracenos com armas para protegê-los e se colocaram na cova.” Quando ouvimos estas notícias ficamos muito satisfeitos, e enviamos Dom Nuno, o Mestre do Templo, Dom Eiximenis de Urrea e sábios cavaleiros que estavam conosco na cavalgada. E dissemos: “Tivemos conselho que não é necessário retornar tão desafortunadamente a Maiorca; dissemos que viemos para dominar esta montanha. Se nós não fizermos nada com vergonha retornaremos.” Eles nos perguntaram qual conselho havíamos recebido. Nós respondemos: “Há aqui um adalid que nos mostrará uma boa cavalgada de sarracenos. Há oito dias ele nos deixou e nós estamos nesta partida desta montanha que eu vos mostrarei. Esta é a montanha da terra de Artana.” Eles responderam: “Se Deus nos ajudar, é bom que a conquistemos.” Veio o adalid e nos contou como os havia encontrado. 100. E foi acordado que, à bela manhã, fizéssemos recolher nossas tendas e nossas roupas, fôssemos até lá e ordenássemos a corredores [273] que os embarreirassem, para que eles não pudessem sair até que nós ali chegássemos. E assim como foi determinado, foi cumprido. Nós chegamos à hora das vésperas, com nossos corredores, que nos disseram: “Não devemos procurá-los muito, pois eles tiveram um torneio conosco, e vós os vedes aqui.” [274] Rapidamente os sarracenos fizeram suas luminárias [275] em direção à montanha onde se encontrava a maior partida de sarracenos. Nossas mulas de carga estavam fatigadas pelo calor que fazia e, por isso, albergamos em um rio que havia sob o pé da foz. E acordamos assim: que ao alvorecer já estivéssemos guarnecidos, nós e nossos cavalos – podíamos estar até com trinta e cinco cavalos guarnecidos. E foi também acordado que os serventes fossem combater até a rocha e os embargassem lá dentro, que, enquanto isso, decidiríamos o que fazer. E fez-se assim: os nossos os combateram na entrada da cova. A montanha era tão forte e tão elevada que fazia uma ponta e a rocha se estendia. No meio daquela rocha, as covas estavam feitas de tal maneira que nenhuma pedra que viesse de cima poderia fazer mal às covas onde os mouros estavam. Mas nas barracas que eles haviam feito, nós poderíamos atirar-lhes pedras. Quando os nossos os combatiam e eles desejavam sair para defenderem-se na batalha, algumas pedras que os nossos lhes jogavam causavam-lhes dano. Isso durou um bom tempo, e era bom saber vê-los quando combatiam. *** Notas [222] No capítulo
seguinte, Jaime diz que são quinze. O texto latino de Marsílio
difere ainda mais, pois cita vinte e sete. É possível que
essas diferenças em relação à quantidade de
partidas se deva ao fato delas terem realmente variado ao longo da expedição,
ora aumentando, ora diminuindo.
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