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Obs.: Nossa tradução
foi baseada no texto Árvore da Ciência (1295-1296),
publicado em RAMON LLULL, Obres de Ramon Llull (ed. Salvador
Galmés), Palma de Mallorca, 1917, vol. XI, Tom I, p. 799-1007
e RAMON LLULL, Obres Essencials (OE), Barcelona,
Editorial Selecta, 1957, vol. I, p. 799-842. Para facilitar a leitura,
inserimos subtítulos temáticos, inexistentes no texto
original.
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Da Árvore
Exemplifical
I. Das Raízes
da Árvore Exemplifical
Esta árvore é dividida em sete partes,
isto é, raiz, tronco, braços, ramos, folhas, flores e frutos,
e cada uma dessas partes é dividida em quatorze partes, como a
primeira parte, que é das raízes das Árvores Elemental,
Vegetal, Sensual, Imaginal, Humanal,
Moral, Imperial, Apostolical, Celestial,
Angelical, Eviternal, Maternal, Cristianal
e Divinal, e o mesmo da segunda parte e das outras.
Cada uma das sete partes é dividida em quatorze
partes para que possam dar exemplos das naturezas e maneiras das árvores
conforme suas raízes, troncos, braços e as outras, e que
tenham grande matéria para dar exemplos, para que nas quatorze
árvores estejam todas as coisas explicadas e empregadas; e pelos
exemplos que daremos se possa ter doutrina para se conhecer os segredos
naturais e sobrenaturais, e pregar e ter moralidades boas, entretenimento
e amizade das gentes. E mais: pode-se ter hábito universal para
se entender muitas coisas prazerosas de entender e prazerosas de ouvir.
Desejamos dividir os exemplos que propomos dar em duas
partes, isto é, em contos e em provérbios pesquisados conforme
as naturezas das árvores. Propomos ter este processo nessa árvore.
Mas como a matéria é grande, por causa de sua grandeza não
poderemos proceder dessa forma, porque estamos muito ocupados. Assim,
para que as gentes se esquivem da prolixidade, desejamos falar brevemente
dessa árvore. Contudo, conforme o que diremos, daremos doutrina
para que se possam encontrar novos provérbios e novos contos e
estender o entendimento através da grande matéria dessa
árvore.
I.1. Das Raízes da Árvore
Elemental

A Árvore Elemental.
In: Munich, Bayerische Staatstbibliothek, clm (codex
latinus monacensis), século XV, 10498, fol. 2r.
O fogo quer que seu calor seja bom para a água
para que sua bondade tenha grande virtude. Por isso, a água disse
ao ar que se lembrasse de sua doença. Então o monge pediu
a Ramon que lhe expusesse aquele provérbio.
1. A Água e o
Ar
“– Senhor monge”, disse Ramon, “contam
que o ar jazia doente de duas doenças: uma por amor, e a outra
por dor. Tinha a doença por amor porque estava descontente com
a terra, que tinha ação sobre o fogo, o qual ele muito amava,
e porque também desejava ser senhor da terra, que era sua inimiga;
tinha a doença por dor porque sentia a secura que o fogo lhe colocava,
secura que atormentava sua umidade.”
Por isso, a água disse ao ar que se lembrasse
de sua doença, a qual tinha porque o fogo colocava nele seu contrário,
razão pela qual o ar devia desamar o fogo. A água dizia
isso para que o ar fosse contrário ao fogo e concordasse com ela.
Mas o ar respondeu à água e disse que mais amava estar doente
e ter uma boa amizade com o fogo que lhe dá sua semelhança
que ser são e fazer contra seu amigo falta ou engano, pois nenhuma
doença é tão grande quanto a doença da traição
e do desconhecimento, que faz com que o homem desconheça os benefícios
que recebe de seu senhor.
Por isso, o ar disse que desejava estar sujeito e se
submeter ao seu senhor, o fogo, para ter ação na água,
na qual está sua senhoria, com grandeza de bondade e de virtude,
pois grande virtude é o calor do fogo, que grande bem faz para
que ela seja dona de seu amigo por concordância do amor, e de seu
inimigo por contrária senhoria.
Chorou a água e disse ao ar que ele não
sabia da falsidade que o fogo havia feito à terra. O ar perguntou
à água que falsidade havia sido aquela. Respondeu a água
que o fogo e a terra haviam feito companhia um ao outro, e prometeram
que repartiriam igualmente tudo o que ganhassem.
2. A Terra e o Fogo
Aconteceu que a terra ganhou o ferro e o fogo ganhou
o ouro, e quando foram fazer a divisão, a terra disse ao fogo que
ele o fizesse com a intenção do fogo dar-lhe o ouro para
ela dar-lhe sua secura. E mais: que como aquele que dividia dava sempre
ao outro a maior parte do que aquele que recebia, ela acreditava que o
fogo fizesse o mesmo. O fogo repartiu e deu à terra o ferro e ficou
com o ouro. O ar respondeu à água que o fogo não
tinha cometido falsidade em sua partilha, pois ela tinha tido falsa intenção
na escolha ao dizer para o fogo fazer a divisão, o qual repartiu
justamente para punir a terra da falsa opinião que havia tido.
O ar pediu à água que não ficasse
em companhia da terra, pois ela havia feito companhia a ele e ninguém
pode durar longamente entre dois contrários, já que ele
e a terra estão em grande contrariedade. A água respondeu
que aquela grande duração dura por paixão e por concordância.
O ar maravilhou-se com o que a água dizia, e perguntou-lhe como
podia durar uma companhia pela ação e pela paixão
em concordância, já que a ação e a concordância
são contrárias. A água respondeu com essas palavras:
“– Contam que a cor do fogo e a cor da terra
se encontraram na chama, e tiveram concordância pela maneira da
ação e da paixão, pois a terra disse ao fogo que
ela, a quem ele dava sua secura, desejava ter sua cor no cume da chama
e na fumaça que saía do fogo, além das coisas que
o fogo queimava como o carvão, a fuligem e a pimenta.”
O fogo respondeu que isso lhe causava muito prazer,
pois sua cor permanecia tanto no meio da chama quanto no ferro quente
e na brasa.
A terra disse ao fogo que não lhe daria sua secura,
pois a dava ao ar, que é seu inimigo. O fogo então disse
à terra que não sabia do poder da largueza. “–
Fogo”, disse a terra, “qual é o poder da largueza?”
“– Contam”, disse o fogo, “que
a largueza e a avareza se encontraram. A largueza dera tudo o que tinha
e não podia dar mais, pois não tinha o que dar. Assim, pediu
à avareza, que tinha muitas coisas, que lhe desse o que tinha,
para que ela pudesse dar, já que estava doente porque não
podia mais dar. A avareza desculpou-se, dizendo que não desejava
dar nada, pois não desejava ter sua semelhança. Então
a largueza recorreu àqueles a quem dera e àqueles a quem
ainda daria, e todos ao mesmo tempo foram contra a avareza e dos bens
que possuía a despoliaram, para que a largueza tivesse o que dar.
A avareza ficou triste e doente, e disse essas palavras: ‘–
Ah, como estou doente e desconsolada, pois o tesouro que longamente trabalhei,
pelo qual tanta fome e sede suportei, com tantas desonras e tantos pavores
passei, vejo minha inimiga dar a meus inimigos!’”
3. O Fogo e o Ar
O fogo e o ar se encontraram em um grande bosque em que
o ar tinha procurado longamente a terra para se vingar de uma grande vilania
que ela lhe fez. Mas no momento em que o fogo e o ar se encontraram, o
Sol se pôs. Por isso, o ar pediu ao fogo que lhe desse luz por toda
a noite para que pudesse encontrar a terra, que desejava muito encontrar.
O fogo considerou longamente se daria luz para o ar para que ele encontrasse
a terra, pois tinha vergonha de dizer não aos pedidos que o ar
fazia, já que tinha consciência que, se mostrasse a terra,
que era sua amiga, o ar a destruiria e a mataria.
Enquanto o fogo assim considerava, o ar se maravilhou
pelo fogo não lhe responder aos pedidos que fazia, e disse-lhe
que sabia bem que ele não o amava muito, já que não
respondia às preces que rapidamente lhe fazia para que ele lhe
ficasse agradecido.
O fogo disse ao ar que ele não sabia o que a sabedoria
havia respondido à vontade.
“– E como foi isso?” disse o ar.
“– Contam”, disse o fogo, “que
a vontade tinha um desejo muito grande de poder encontrar um homem que
muito amava, e pediu à sabedoria que lhe mostrasse os caminhos
nos quais pudessem encontrar aquele homem, o qual desejava encontrar para
poder servi-lo e honrá-lo. A sabedoria disse à vontade que
ela lhe fazia um pedido justo, e que de boa vontade lhe mostraria os caminhos
nos quais poderia encontrar aquele seu amigo, caminhos que ela não
lhe mostraria se soubesse que a vontade desejava matar ou cometer alguma
vilania contra aquele homem, pois aquele homem que a vontade procurava
muitas vezes lhe deu prazeres”.
O fogo perguntou ao ar se ele o amava tanto quanto amava
a água, e o ar disse ao fogo que ele não fazia uma pergunta
justa, já que pouco sabia da natureza do amor.
“– Ar”, disse o fogo, “e qual
é a natureza do amor?”
O ar se calou e não quis dar nenhuma resposta
ao fogo. Por isso o fogo se maravilhou fortemente, porque o ar não
lhe respondia, e tantas vezes pediu que lhe respondesse até que
o ar disse ao fogo estas palavras:
“– Contam que a vontade encontrou a sabedoria
enquanto ia a uma cidade onde estava a memória, quando lhe veio
a vontade de relembrar de seu amigo. E como a sabedoria era movida pela
ira, que é inimiga da vontade, esta não recebeu bem a sabedoria
até que lhe fossem mostrados os caminhos para que pudesse encontrar
a memória. Mas como a vontade foi vencida pela memória que
relembrou seu amigo, ambas fizeram uma grande festa e se distraíram
tanto que a sabedoria ficou descontente com a vontade por que não
havia feito um belo semblante a ela em seu encontro com memória.
Assim, a sabedoria repreendeu a vontade diante da memória, dizendo-lhe
que pouco lhe agradecera os prazeres que ela lhe dera. Desculpou-se a
vontade, e disse que sentia um prazer muito maior em dar sua semelhança
sem paixão que receber a semelhança de outro com sofrimento”.
4. A Água, a
Pedra e o Ferro
A água andava por uma bela selva e encontrou a
pedra e o ferro de onde nasce o fogo, quando então os blasfemou
e lhes disse muitas vilanias, porque eles eram os motivos de sua doença
quando ela estava no óleo e o fogo a aquecia e lhe retirava seu
frio, que ela muito amava. A pedra e o ferro responderam à água,
dizendo-lhe que o fogo foi vicioso em dar a ela sua virtude. Mas a água
se maravilhou muito fortemente com aquelas palavras, e disse a eles que
lhe parecia algo impossível, pois ninguém pode ser vicioso
e dar virtude. Então ela pediu que lhe dissessem a maneira como
ele dava a ela sua virtude.
“– Conta-se”, disseram a pedra e o
ferro, “que uma erva estava em um prado, e tinha a virtude de curar
os homens leprosos de sua doença. A um leproso foi mostrada aquela
erva, que ele comeu e foi curado de sua lepra pela virtude da mesma. Aconteceu
que aquele homem foi defecar naquele prado e com aquela erva que o havia
curado ele limpou seu cu. Por isso, a erva foi viciosa ao dar sua virtude
tão fortemente àquele que a havia desonrado.”
“– Pedra e ferro”, disse a água,
“qual virtude me dará o fogo quando estiver no óleo?”
Responderam a pedra e o ferro, e disseram que a farinha
e a água querem fazer o pão para com aquele pão dar
a virtude ao homem com a qual ele possa viver, pão que fazem no
forno com a virtude do fogo e sem a qual não podem fazer nem a
virtude da vida, nem dá-la ao homem.
5. O Fogo e o encontro
das duas Verdades
No fogo se encontraram duas verdades: uma era do calor
e a outra da secura. Ambas as verdades perguntaram ao fogo com qual das
duas ele se sentia mais bem guarnecido contra a falsidade e contra a água.
O fogo disse à sua luz que respondesse àquela pergunta,
mas a verdade da terra disse ao fogo que ele não havia elegido
um juiz comunal, pois a luz tem concordância com o calor do dia,
que é claro e quente, e é contra a secura da noite, que
é fria e tenebrosa, em razão da sombra da terra. Respondeu
o fogo ao frio da terra, e disse que em uma cidade aconteceu de um homem
do povo ter pensado em uma maneira com a qual ele pudesse ser rei daquela
cidade e matar o rei que era seu senhor natural.
Assim que aquele homem concebeu esse propósito,
começou a imaginar uma maneira com a falsidade, porque a finalidade
de seu propósito não podia vir com a verdade. Aquele homem
adquiriu aquela maneira e, por esta razão, teve um poder muito
grande naquela cidade contra o poder do rei, e o rei considerou uma maneira
de destruir aquele homem. No princípio, ele considerou aquela maneira
com a verdade. Por isso, a verdade e a falsidade fizeram uma batalha muito
grande naquela cidade e, no fim, a falsidade foi vencida, porque concorda
com o não-ser e a verdade concorda com o ser, ser que elegeu o
rei para ser juiz de sua consciência contra a falsidade, que existe
contra a caridade e concorda com as trevas.
6. A queixa do Ar contra
o Fogo e a Terra
O ar reclamou à água que o fogo tinha prazer
em atormentá-lo com a terra, pois ele tem prazer de receber o calor
do fogo e ser-lhe obediente recebendo aquele calor. Mas como a água
é inimiga do fogo, não quis consolar o ar, pelo contrário,
falou muito mal do fogo, e quanto pior falava, mais o fogo atormentava
o ar, porque ele acreditava na água. Estando o ar assim atormentado
e cada dia seu tormento multiplicado, ele recorreu à terra, que
era sua inimiga, reclamando do fogo com ela e dizendo que ele lhe fazia
um grande mal. A terra respondeu ao ar e desculpou o fogo, dizendo muitas
vilanias ao ar para que ele tivesse mais paixão e usasse sua natureza
contra o ar, que é seu contrário. Estando assim atribulado,
quanto mais clamava, mais atormentado o ar ficava, e assim não
teve outra alternativa a não ser pedir ao fogo que dele tivesse
piedade. Então o fogo disse ao ar estas palavras:
“– Contam que um rei tinha um cavaleiro
que muito amava, e pelo grande amor que tinha, lhe fazia muitos honramentos,
lhe dava dinheiros, cavalos e tudo o que necessitava. Quanto mais o rei
dava ao cavaleiro, mais o cavaleiro amava o rei e mais fortemente se esforçava
para servi-lo. O rei quis testar se o cavaleiro lhe tinha maior amor pelo
que ganhava que por ser seu senhor, e ficou um bom tempo sem lhe dar nada
para ver se o cavaleiro ficava tão satisfeito com o rei como freqüentemente
fazia e se o servia tão bem como estava acostumado. E para testar
melhor a intenção do cavaleiro, o rei tomou-lhe um bom castelo
que lhe dera. Naquele momento, o cavaleiro partiu muito irado do rei e
foi a um conde inimigo do rei que o cavaleiro havia matado seu filho em
uma batalha, e disse ao conde que desejava ser seu servidor para que ele
pudesse se vingar do rei. Aquele cavaleiro e o conde estiveram em uma
batalha contra o rei, e o cavaleiro foi preso. Então pediu mercê
ao rei para que o perdoasse, devolvendo-lhe o castelo e seu amor. O rei
respondeu-lhe que teria conselho com justiça e misericórdia:
com justiça ele desejava ter conselho para saber se deveria puni-lo,
e o mesmo com a misericórdia, para saber se deveria perdoá-lo.
A misericórdia pediu ao rei que perdoasse o cavaleiro para que
ela pudesse ser grande no rei, e a justiça aconselhou ao rei que
o punisse, para que ela fosse maior nele que a misericórdia, já
que ele é mais rei por ela que pela misericórdia. E mais:
disse que o cavaleiro não tinha boa intenção ao pedir
perdão, pois pedia para receber o castelo de volta. Então,
como a justiça havia provado, o rei fez atormentarem o cavaleiro
para que ele morresse uma má morte.”
7. A disputatio
entre a Rosa e a Pimenta
A rosa e a pimenta falavam do fogo e da água.
A rosa louvava a água porque ela multiplicava a bondade de muitas
partes, ajustando uma parte à outra e para que a bondade fosse
grande na água. Por sua vez, a pimenta louvava o fogo porque ele
dividia a bondade em muitas partes, já que, sob seu gênero,
muitas substâncias são boas. Tanto estiveram a pimenta e
a rosa nessas palavras que houve uma grande batalha entre elas, pois a
pimenta dizia que mais vale aquela substância que se dá a
muitos que aquela que se restringe e muitas coisas ajusta em si mesma,
das quais muitas substâncias têm falta, e a rosa dizia o contrário.
Sobre isso a rosa e a pimenta foram à secura
para que ela fizesse o julgamento, porque ela era a qualidade de ambas;
mas a secura se desculpou e disse que não desejava ser juiz, dizendo
essas palavras:
“– Contam que um rei deu julgamento a dois
cavaleiros que disputavam um castelo. O cavaleiro que não tinha
um bom direito pelo castelo deu mil florins ao juiz para que ele julgasse
a seu favor, e o cavaleiro que tinha bom direito no castelo deu ao juiz
cem florins para que ele julgasse a seu favor. Por isso, o juiz decidiu
a favor dos mil florins que dos cem, e falsamente julgou o castelo àquele
que não devia tê-lo.”
Por isso, por ela ser mais da parte da rosa que da pimenta,
não queria ser juiz.
“– Aconteceu que o rei soube que o juiz
havia adquirido mil florins daquele cavaleiro que havia recebido o castelo,
e cem daquele que devia ter o castelo. Então fez vir os cavaleiros
a seu Conselho, e perguntou se eles sabiam a razão pela qual um
cavaleiro dera mil florins pelo serviço do juiz e o outro somente
cem, já que aqueles cavaleiros eram iguais em riqueza. O rei tinha
em seu Conselho um homem sábio e velho que disse que presumia que
aquele cavaleiro que dera somente cem florins tinha direito pelo castelo.
A razão disso é que aquele que tem o bom direito lamenta
mais fortemente ter despesa em um pleito que aquele que não tem
o bom direito, e que, por isso, gasta à vontade para ganhar o que
não é seu. Então o rei fez um ordenamento em sua
terra que aquele que desse mais ao juiz pelo seu serviço deveria
ter má presunção, e àquele que desse menos,
boa.”
8. O Fogo e a Água
O fogo quis enganar a água e pediu a ela que lhe
ajudasse a fazer a pimenta, que é pequena, que ele a ajudaria a
fazer a abóbora, que é grande, e assim ambos concordariam.
“– Contam”, disse a água, “que
um cavaleiro pobre tinha um filho e um camponês rico tinha uma filha,
e de ambos foi feito matrimônio para que o filho do cavaleiro fosse
rico por sua mulher e a filha do camponês fosse honrada por seu
marido, mas tal honramento da mulher tornou-se desonra quando os dinheiros
foram gastos, e nessa paixão ela esteve todos os tempos de sua
vida.”
A água contou esse exemplo para entender o engano
que o fogo desejava lhe fazer, já que a pimenta dura mais que a
abóbora, e o frio tem maior paixão na pimenta que ação
na abóbora, até a pimenta ser pouca e a abóbora muita.
Por isso, ela disse ao fogo que não desejava concordar com ele
sob aquela semelhança, pois não poderia estar longamente
na pimenta em adversidade.
O fogo pediu à água que fossem juntos ao
Sol, porque no caminho poderiam ter amizade falando de umas coisas e outras.
A água respondeu que dois contrários não iriam bem
e plenamente em um caminho, e que o Sol é seu inimigo e amigo do
fogo. Contudo, se o fogo desejasse ir com ela até a Lua, muito
voluntariosamente iria com ele por um caminho, e sob tal condição
que fossem à Lua de noite, não de dia.
Os quatro elementos começaram então a fazer
a pimenta: o fogo colocou quatro onças de leveza e a terra colocou
três de peso; o ar colocou duas onças de leveza e a água
uma de peso. Quando a pimenta foi criada, as seis onças desejaram
se elevar e as quatro desejaram estar abaixo, na terra. A pimenta consentiu
ao apetite das quatro onças e não quis consentir ao apetite
das seis e, por isso, as seis onças disseram à pimenta que
ela fazia algo contra a sua natureza ao estar mais em um lugar abaixo
que acima, já que ela é maior pelos maiores apetites que
pelos menores.
Naquele momento a pimenta respondeu com essas palavras:
“– Contam que o vento elevou um grão
de videira em uma alta montanha que era muito fria. Aquele grão
se multiplicou em tronco e em braços, em ramos, folhas e flores,
mas não podia fazer fruto por causa do grande frio que havia naquela
montanha. E como ele havia tomado o princípio, a natureza e o ser
no pé da montanha, desejava estar mais nos lugares baixos que nos
altos, para poder fazer fruto e multiplicar sua espécie”.
O ar se colocou no meio do fogo e da água para
que eles concordassem e todos os três ficassem contra a terra. Como
o ar havia feito concordância entre o fogo e a água contra
a terra, a terra não quis dar sua secura ao fogo, nem receber o
frio da água conforme estava acostumada. Por isso, o fogo e a água
ficaram contra a terra e o ar, e se colocaram no meio dos dois. Naquele
momento o ar não quis receber o calor do fogo nem a umidade da
água, até que a água e o fogo voltassem a ter concordância
contra a terra, que não queria dar sua secura ao fogo, nem receber
da água seu frio.
E assim, todas as vezes que queriam ter concordância,
o fogo e a água estavam em sofrimento, porque se maravilhavam muito
fortemente por não terem concordância nem pela terra, nem
pelo ar. Então perguntaram a Saturno se ele sabia a razão
e o motivo pelos quais não podiam ter concordância.
Saturno disse essas palavras:
“– Contam que um eremita, que era um homem
de vida muito santa, disse ao anjo que o guardava que se maravilhava muito
fortemente como podia não ter nenhuma tentação de
cometer pecado quando contemplava a Deus e assim que deixava de pedir
e contemplar a Deus logo caía em tentações e cogitava
coisas vãs. O anjo lhe disse que não havia nenhuma maravilha
o fato de o homem estar tentado e cogitar coisas vãs, pois entre
ele e Deus não há meio que o faça estar em concordância,
já que simplesmente foi separado de toda natureza de pecado, de
vaidades e contrariedades entre Deus e o homem.”
“– Isso”, disse Saturno, “o ar
não tem quando vós desejais ter concordância com ele
contra a terra, pois não estais distante da contrariedade na qual
estais, até que desejais ter concordância no ar.” Naquele
momento em que disse sobre o santo eremita, e pela natureza contrária
na qual estavam, o fogo e a água entenderam a maneira segundo a
qual os santos homens têm tentações e cogitam coisas
vãs.
9. A Pimenta, filha
do Fogo e da Terra
O fogo e a terra fizeram uma filha na pimenta, que tinha
o nome de Maioridade, e o ar e a água fizeram naquela mesma pimenta
uma filha chamada menoridade. Ambas as filhas foram mulheres da pimenta
e de ambas nasceu um filho que matou seu pai. Por isso, o costureiro amaldiçoou
as tesouras e a agulha. Naquele momento o monge pediu a Ramon que demonstrasse
aquele exemplo.
“– Senhor monge”, disse Ramon, “contam
que uma agulha engendrou uma filha de um costureiro que tinha o nome de
Riqueza, e as tesouras engendraram uma filha que tinha o nome de Honramento.
O costureiro tomou aquelas duas filhas como mulheres, e das quais teve
um filho que, após sua morte, não quis dar um pedaço
de tecido para cobri-lo. Assim, colocaram-no totalmente nu sob a terra,
contra o honramento e a riqueza. Por isso, o costureiro amaldiçoou
a agulha e as tesouras que tinham juntado a riqueza e dado honramento
a seu filho. Mas as tesouras e a agulha se desculparam daquela maldição,
dizendo que não tinham culpa, pois ele havia colocado a si mesmo
em menoridade de riqueza e honramento e a seu filho em maioridade. Por
isso, convinha que, na morte, ele e seu filho fossem contrários.”
“– Ramon”, disse o monge, “e
como era o nome desse filho?” Ramon respondeu que o filho do costureiro
tinha o nome de Privação do fim do honramento e da riqueza.
Na pimenta, o fogo está em maioridade e a água
em menoridade. Por isso, a água pediu ao ar e à terra que
lhe ajudassem contra o fogo, pois não podia sustentar sua menoridade
na maioridade do fogo. Então, o ar e terra responderam à
água que ela não sabia o que uma boa senhora havia respondido
ao seu mau marido.
“– E como foi isso?”, disse a água.
“– Contam”, disseram o ar e terra,
“que um homem que era muito rico tinha uma mulher, e lhe disse estas
palavras: ‘– Eu desejo que vós sejais minha senhora
e que de mim e da riqueza façais vossa vontade. Digo isso para
que vós sejais boa, e que vossa bondade seja maior que a minha.’
A senhora respondeu com estas palavras: ‘– É impossível
que se possa adquirir maior bondade com naturezas contrárias.’”
O fogo convidou o ar e a terra na pimenta para que lhe
ajudassem contra a água, que igualmente lhe era contrária
pelo frio e pelo peso. Ele desejava destruir essa igualdade destruindo
a proporção igual que existe na pimenta. Porque destruindo
a igualdade de ambas as qualidades na pimenta, conseguiria destruir a
água, como a inveja que, destruindo a igualdade especial da amatividade
e da amabilidade, queria destruir a caridade entre dois irmãos.
“– E como foi isso?”, disseram o ar
e a terra.
“– Contam”, disse o fogo, “que
um grande mercador era um homem rico e tinha dois filhos, que em vida
deu uma mulher a cada um, e na morte ordenou em seu testamento que ambos
possuíssem igualmente seus bens, tanto que enquanto fossem vivos,
não poderiam dividir nada até a morte daquele que morresse
primeiro. Isso fez o mercador, para que tivessem igual caridade. Então,
a inveja pensou como poderia destruir aquela caridade, e disse ao primeiro
filho gerado que não era conveniente que ele fosse igual ao seu
irmão em riqueza e em honramento, pois Deus o havia feito nascer
primeiro. Por isso, ele deveria tratar com a corte que eles dividissem
com seu irmão e ele tivesse a maior parte da riqueza. Então,
aquele respondeu à inveja, e disse que ela não sabia a intenção
pela razão da qual seu pai havia feito aquele testamento.
“– E qual intenção teve o seu
pai?”, disse a inveja, “– Em fazer o testamento?”
“– Inveja”, disse o primeiro nascido,
“nosso pai matou um homem dessa cidade e que tem um filho, com tanta
riqueza como nós temos, e quis que nós não dividíssemos
a riqueza para que tivéssemos grande caridade. E se ele deixasse
a maior parte para mim e a menor para meu irmão, a caridade não
existiria em igualdade, e nosso inimigo poderia matar primeiramente meu
irmão, que estaria em menoridade de poder, e depois a mim. Por
isso mesmo, inveja, não faleis tais palavras.”
10. O encontro do
Fogo com a Água
Conta-se que o fogo saiu em romaria, e também
a água, e ambos encontraram-se no caminho. O fogo disse à
água estas palavras:
“– Nessa terra há muitos cavaleiros
que são meus amigos e que fariam tudo o que eu quisesse, pois muitas
vezes eu tenho dado prazer a eles.”
Enquanto o fogo assim falava, conforme as palavras que
ele dizia, a água percebeu que o fogo tinha pavor dela. Por isso,
entendeu que ele tinha menor virtude e menor poder que ela, pois se ela
tivesse menor poder e menor virtude que o fogo naquela terra na qual se
encontravam, teria pavor antes do fogo, pavor que teve somente depois
que o fogo disse aquelas palavras. E como considerou que o fogo começou
a ter pavor antes que ela sentiu-se virtuosa e forte contra o fogo, e
então combateu e venceu o fogo, que dizia que naquela terra havia
cavaleiros amigos seus para que a água tivesse pavor. Então
disse ao fogo que não tinha pavor do que não via, pois ouvia.
Dissemos das raízes e demos a maneira segundo
a qual se saiba aplicar à moral, conforme nós aplicamos.
E como nos esquivamos da prolixidade, passamos ao tronco das árvores.
