A Árvore Exemplifical (1295-1296)
Ramon Llull (1232-1316)
Trad.: Felipe Dias de Souza e
Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)


Ramon Llull entrega ao monge a Árvore Exemplifical. In: Munich, Bayerische Staatstbibliothek, clm (codex latinus monacensis), século XV, 10498, fol. 162r.
A Árvore Exemplifical é um dos frutos mais belos da criação luliana. Trata-se de uma série entrelaçada de exemplos (exempla) fantásticos e metafóricos, com personificações dos quatro elementos (fogo, água, terra e ar), da rosa, da pimenta, e até de um planeta (Saturno). E
spécie de delírio literário narrado com o objetivo de transformar ciência em literatura e, com isso, facilitar a compreensão do conteúdo filosófico e científico de uma de suas grandes obras, a Árvore da Ciência (a Árvore Exemplifical é seu capítulo 15).

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Obs.: Nossa tradução foi baseada no texto Árvore da Ciência (1295-1296), publicado em RAMON LLULL, Obres de Ramon Llull (ed. Salvador Galmés), Palma de Mallorca, 1917, vol. XI, Tom I, p. 799-1007 e RAMON LLULL, Obres Essencials (OE), Barcelona, Editorial Selecta, 1957, vol. I, p. 799-842. Para facilitar a leitura, inserimos subtítulos temáticos, inexistentes no texto original.

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Da Árvore Exemplifical

I. Das Raízes da Árvore Exemplifical

Esta árvore é dividida em sete partes, isto é, raiz, tronco, braços, ramos, folhas, flores e frutos, e cada uma dessas partes é dividida em quatorze partes, como a primeira parte, que é das raízes das Árvores Elemental, Vegetal, Sensual, Imaginal, Humanal, Moral, Imperial, Apostolical, Celestial, Angelical, Eviternal, Maternal, Cristianal e Divinal, e o mesmo da segunda parte e das outras.

Cada uma das sete partes é dividida em quatorze partes para que possam dar exemplos das naturezas e maneiras das árvores conforme suas raízes, troncos, braços e as outras, e que tenham grande matéria para dar exemplos, para que nas quatorze árvores estejam todas as coisas explicadas e empregadas; e pelos exemplos que daremos se possa ter doutrina para se conhecer os segredos naturais e sobrenaturais, e pregar e ter moralidades boas, entretenimento e amizade das gentes. E mais: pode-se ter hábito universal para se entender muitas coisas prazerosas de entender e prazerosas de ouvir.

Desejamos dividir os exemplos que propomos dar em duas partes, isto é, em contos e em provérbios pesquisados conforme as naturezas das árvores. Propomos ter este processo nessa árvore. Mas como a matéria é grande, por causa de sua grandeza não poderemos proceder dessa forma, porque estamos muito ocupados. Assim, para que as gentes se esquivem da prolixidade, desejamos falar brevemente dessa árvore. Contudo, conforme o que diremos, daremos doutrina para que se possam encontrar novos provérbios e novos contos e estender o entendimento através da grande matéria dessa árvore.

I.1. Das Raízes da Árvore Elemental


A Árvore Elemental.
In: Munich, Bayerische Staatstbibliothek, clm (codex latinus monacensis), século XV, 10498, fol. 2r.

O fogo quer que seu calor seja bom para a água para que sua bondade tenha grande virtude. Por isso, a água disse ao ar que se lembrasse de sua doença. Então o monge pediu a Ramon que lhe expusesse aquele provérbio.

1. A Água e o Ar

“– Senhor monge”, disse Ramon, “contam que o ar jazia doente de duas doenças: uma por amor, e a outra por dor. Tinha a doença por amor porque estava descontente com a terra, que tinha ação sobre o fogo, o qual ele muito amava, e porque também desejava ser senhor da terra, que era sua inimiga; tinha a doença por dor porque sentia a secura que o fogo lhe colocava, secura que atormentava sua umidade.”

Por isso, a água disse ao ar que se lembrasse de sua doença, a qual tinha porque o fogo colocava nele seu contrário, razão pela qual o ar devia desamar o fogo. A água dizia isso para que o ar fosse contrário ao fogo e concordasse com ela. Mas o ar respondeu à água e disse que mais amava estar doente e ter uma boa amizade com o fogo que lhe dá sua semelhança que ser são e fazer contra seu amigo falta ou engano, pois nenhuma doença é tão grande quanto a doença da traição e do desconhecimento, que faz com que o homem desconheça os benefícios que recebe de seu senhor.

Por isso, o ar disse que desejava estar sujeito e se submeter ao seu senhor, o fogo, para ter ação na água, na qual está sua senhoria, com grandeza de bondade e de virtude, pois grande virtude é o calor do fogo, que grande bem faz para que ela seja dona de seu amigo por concordância do amor, e de seu inimigo por contrária senhoria.

Chorou a água e disse ao ar que ele não sabia da falsidade que o fogo havia feito à terra. O ar perguntou à água que falsidade havia sido aquela. Respondeu a água que o fogo e a terra haviam feito companhia um ao outro, e prometeram que repartiriam igualmente tudo o que ganhassem.

2. A Terra e o Fogo

Aconteceu que a terra ganhou o ferro e o fogo ganhou o ouro, e quando foram fazer a divisão, a terra disse ao fogo que ele o fizesse com a intenção do fogo dar-lhe o ouro para ela dar-lhe sua secura. E mais: que como aquele que dividia dava sempre ao outro a maior parte do que aquele que recebia, ela acreditava que o fogo fizesse o mesmo. O fogo repartiu e deu à terra o ferro e ficou com o ouro. O ar respondeu à água que o fogo não tinha cometido falsidade em sua partilha, pois ela tinha tido falsa intenção na escolha ao dizer para o fogo fazer a divisão, o qual repartiu justamente para punir a terra da falsa opinião que havia tido.

O ar pediu à água que não ficasse em companhia da terra, pois ela havia feito companhia a ele e ninguém pode durar longamente entre dois contrários, já que ele e a terra estão em grande contrariedade. A água respondeu que aquela grande duração dura por paixão e por concordância. O ar maravilhou-se com o que a água dizia, e perguntou-lhe como podia durar uma companhia pela ação e pela paixão em concordância, já que a ação e a concordância são contrárias. A água respondeu com essas palavras:

“– Contam que a cor do fogo e a cor da terra se encontraram na chama, e tiveram concordância pela maneira da ação e da paixão, pois a terra disse ao fogo que ela, a quem ele dava sua secura, desejava ter sua cor no cume da chama e na fumaça que saía do fogo, além das coisas que o fogo queimava como o carvão, a fuligem e a pimenta.”

O fogo respondeu que isso lhe causava muito prazer, pois sua cor permanecia tanto no meio da chama quanto no ferro quente e na brasa.

A terra disse ao fogo que não lhe daria sua secura, pois a dava ao ar, que é seu inimigo. O fogo então disse à terra que não sabia do poder da largueza. “– Fogo”, disse a terra, “qual é o poder da largueza?”

“– Contam”, disse o fogo, “que a largueza e a avareza se encontraram. A largueza dera tudo o que tinha e não podia dar mais, pois não tinha o que dar. Assim, pediu à avareza, que tinha muitas coisas, que lhe desse o que tinha, para que ela pudesse dar, já que estava doente porque não podia mais dar. A avareza desculpou-se, dizendo que não desejava dar nada, pois não desejava ter sua semelhança. Então a largueza recorreu àqueles a quem dera e àqueles a quem ainda daria, e todos ao mesmo tempo foram contra a avareza e dos bens que possuía a despoliaram, para que a largueza tivesse o que dar. A avareza ficou triste e doente, e disse essas palavras: ‘– Ah, como estou doente e desconsolada, pois o tesouro que longamente trabalhei, pelo qual tanta fome e sede suportei, com tantas desonras e tantos pavores passei, vejo minha inimiga dar a meus inimigos!’”

3. O Fogo e o Ar

O fogo e o ar se encontraram em um grande bosque em que o ar tinha procurado longamente a terra para se vingar de uma grande vilania que ela lhe fez. Mas no momento em que o fogo e o ar se encontraram, o Sol se pôs. Por isso, o ar pediu ao fogo que lhe desse luz por toda a noite para que pudesse encontrar a terra, que desejava muito encontrar. O fogo considerou longamente se daria luz para o ar para que ele encontrasse a terra, pois tinha vergonha de dizer não aos pedidos que o ar fazia, já que tinha consciência que, se mostrasse a terra, que era sua amiga, o ar a destruiria e a mataria.

Enquanto o fogo assim considerava, o ar se maravilhou pelo fogo não lhe responder aos pedidos que fazia, e disse-lhe que sabia bem que ele não o amava muito, já que não respondia às preces que rapidamente lhe fazia para que ele lhe ficasse agradecido.

O fogo disse ao ar que ele não sabia o que a sabedoria havia respondido à vontade.

“– E como foi isso?” disse o ar.

“– Contam”, disse o fogo, “que a vontade tinha um desejo muito grande de poder encontrar um homem que muito amava, e pediu à sabedoria que lhe mostrasse os caminhos nos quais pudessem encontrar aquele homem, o qual desejava encontrar para poder servi-lo e honrá-lo. A sabedoria disse à vontade que ela lhe fazia um pedido justo, e que de boa vontade lhe mostraria os caminhos nos quais poderia encontrar aquele seu amigo, caminhos que ela não lhe mostraria se soubesse que a vontade desejava matar ou cometer alguma vilania contra aquele homem, pois aquele homem que a vontade procurava muitas vezes lhe deu prazeres”.

O fogo perguntou ao ar se ele o amava tanto quanto amava a água, e o ar disse ao fogo que ele não fazia uma pergunta justa, já que pouco sabia da natureza do amor.

“– Ar”, disse o fogo, “e qual é a natureza do amor?”

O ar se calou e não quis dar nenhuma resposta ao fogo. Por isso o fogo se maravilhou fortemente, porque o ar não lhe respondia, e tantas vezes pediu que lhe respondesse até que o ar disse ao fogo estas palavras:

“– Contam que a vontade encontrou a sabedoria enquanto ia a uma cidade onde estava a memória, quando lhe veio a vontade de relembrar de seu amigo. E como a sabedoria era movida pela ira, que é inimiga da vontade, esta não recebeu bem a sabedoria até que lhe fossem mostrados os caminhos para que pudesse encontrar a memória. Mas como a vontade foi vencida pela memória que relembrou seu amigo, ambas fizeram uma grande festa e se distraíram tanto que a sabedoria ficou descontente com a vontade por que não havia feito um belo semblante a ela em seu encontro com memória. Assim, a sabedoria repreendeu a vontade diante da memória, dizendo-lhe que pouco lhe agradecera os prazeres que ela lhe dera. Desculpou-se a vontade, e disse que sentia um prazer muito maior em dar sua semelhança sem paixão que receber a semelhança de outro com sofrimento”.

4. A Água, a Pedra e o Ferro

A água andava por uma bela selva e encontrou a pedra e o ferro de onde nasce o fogo, quando então os blasfemou e lhes disse muitas vilanias, porque eles eram os motivos de sua doença quando ela estava no óleo e o fogo a aquecia e lhe retirava seu frio, que ela muito amava. A pedra e o ferro responderam à água, dizendo-lhe que o fogo foi vicioso em dar a ela sua virtude. Mas a água se maravilhou muito fortemente com aquelas palavras, e disse a eles que lhe parecia algo impossível, pois ninguém pode ser vicioso e dar virtude. Então ela pediu que lhe dissessem a maneira como ele dava a ela sua virtude.

“– Conta-se”, disseram a pedra e o ferro, “que uma erva estava em um prado, e tinha a virtude de curar os homens leprosos de sua doença. A um leproso foi mostrada aquela erva, que ele comeu e foi curado de sua lepra pela virtude da mesma. Aconteceu que aquele homem foi defecar naquele prado e com aquela erva que o havia curado ele limpou seu cu. Por isso, a erva foi viciosa ao dar sua virtude tão fortemente àquele que a havia desonrado.”

“– Pedra e ferro”, disse a água, “qual virtude me dará o fogo quando estiver no óleo?”

Responderam a pedra e o ferro, e disseram que a farinha e a água querem fazer o pão para com aquele pão dar a virtude ao homem com a qual ele possa viver, pão que fazem no forno com a virtude do fogo e sem a qual não podem fazer nem a virtude da vida, nem dá-la ao homem.

5. O Fogo e o encontro das duas Verdades

No fogo se encontraram duas verdades: uma era do calor e a outra da secura. Ambas as verdades perguntaram ao fogo com qual das duas ele se sentia mais bem guarnecido contra a falsidade e contra a água. O fogo disse à sua luz que respondesse àquela pergunta, mas a verdade da terra disse ao fogo que ele não havia elegido um juiz comunal, pois a luz tem concordância com o calor do dia, que é claro e quente, e é contra a secura da noite, que é fria e tenebrosa, em razão da sombra da terra. Respondeu o fogo ao frio da terra, e disse que em uma cidade aconteceu de um homem do povo ter pensado em uma maneira com a qual ele pudesse ser rei daquela cidade e matar o rei que era seu senhor natural.

Assim que aquele homem concebeu esse propósito, começou a imaginar uma maneira com a falsidade, porque a finalidade de seu propósito não podia vir com a verdade. Aquele homem adquiriu aquela maneira e, por esta razão, teve um poder muito grande naquela cidade contra o poder do rei, e o rei considerou uma maneira de destruir aquele homem. No princípio, ele considerou aquela maneira com a verdade. Por isso, a verdade e a falsidade fizeram uma batalha muito grande naquela cidade e, no fim, a falsidade foi vencida, porque concorda com o não-ser e a verdade concorda com o ser, ser que elegeu o rei para ser juiz de sua consciência contra a falsidade, que existe contra a caridade e concorda com as trevas.

6. A queixa do Ar contra o Fogo e a Terra

O ar reclamou à água que o fogo tinha prazer em atormentá-lo com a terra, pois ele tem prazer de receber o calor do fogo e ser-lhe obediente recebendo aquele calor. Mas como a água é inimiga do fogo, não quis consolar o ar, pelo contrário, falou muito mal do fogo, e quanto pior falava, mais o fogo atormentava o ar, porque ele acreditava na água. Estando o ar assim atormentado e cada dia seu tormento multiplicado, ele recorreu à terra, que era sua inimiga, reclamando do fogo com ela e dizendo que ele lhe fazia um grande mal. A terra respondeu ao ar e desculpou o fogo, dizendo muitas vilanias ao ar para que ele tivesse mais paixão e usasse sua natureza contra o ar, que é seu contrário. Estando assim atribulado, quanto mais clamava, mais atormentado o ar ficava, e assim não teve outra alternativa a não ser pedir ao fogo que dele tivesse piedade. Então o fogo disse ao ar estas palavras:

“– Contam que um rei tinha um cavaleiro que muito amava, e pelo grande amor que tinha, lhe fazia muitos honramentos, lhe dava dinheiros, cavalos e tudo o que necessitava. Quanto mais o rei dava ao cavaleiro, mais o cavaleiro amava o rei e mais fortemente se esforçava para servi-lo. O rei quis testar se o cavaleiro lhe tinha maior amor pelo que ganhava que por ser seu senhor, e ficou um bom tempo sem lhe dar nada para ver se o cavaleiro ficava tão satisfeito com o rei como freqüentemente fazia e se o servia tão bem como estava acostumado. E para testar melhor a intenção do cavaleiro, o rei tomou-lhe um bom castelo que lhe dera. Naquele momento, o cavaleiro partiu muito irado do rei e foi a um conde inimigo do rei que o cavaleiro havia matado seu filho em uma batalha, e disse ao conde que desejava ser seu servidor para que ele pudesse se vingar do rei. Aquele cavaleiro e o conde estiveram em uma batalha contra o rei, e o cavaleiro foi preso. Então pediu mercê ao rei para que o perdoasse, devolvendo-lhe o castelo e seu amor. O rei respondeu-lhe que teria conselho com justiça e misericórdia: com justiça ele desejava ter conselho para saber se deveria puni-lo, e o mesmo com a misericórdia, para saber se deveria perdoá-lo. A misericórdia pediu ao rei que perdoasse o cavaleiro para que ela pudesse ser grande no rei, e a justiça aconselhou ao rei que o punisse, para que ela fosse maior nele que a misericórdia, já que ele é mais rei por ela que pela misericórdia. E mais: disse que o cavaleiro não tinha boa intenção ao pedir perdão, pois pedia para receber o castelo de volta. Então, como a justiça havia provado, o rei fez atormentarem o cavaleiro para que ele morresse uma má morte.”

7. A disputatio entre a Rosa e a Pimenta

A rosa e a pimenta falavam do fogo e da água. A rosa louvava a água porque ela multiplicava a bondade de muitas partes, ajustando uma parte à outra e para que a bondade fosse grande na água. Por sua vez, a pimenta louvava o fogo porque ele dividia a bondade em muitas partes, já que, sob seu gênero, muitas substâncias são boas. Tanto estiveram a pimenta e a rosa nessas palavras que houve uma grande batalha entre elas, pois a pimenta dizia que mais vale aquela substância que se dá a muitos que aquela que se restringe e muitas coisas ajusta em si mesma, das quais muitas substâncias têm falta, e a rosa dizia o contrário.

Sobre isso a rosa e a pimenta foram à secura para que ela fizesse o julgamento, porque ela era a qualidade de ambas; mas a secura se desculpou e disse que não desejava ser juiz, dizendo essas palavras:

“– Contam que um rei deu julgamento a dois cavaleiros que disputavam um castelo. O cavaleiro que não tinha um bom direito pelo castelo deu mil florins ao juiz para que ele julgasse a seu favor, e o cavaleiro que tinha bom direito no castelo deu ao juiz cem florins para que ele julgasse a seu favor. Por isso, o juiz decidiu a favor dos mil florins que dos cem, e falsamente julgou o castelo àquele que não devia tê-lo.”

Por isso, por ela ser mais da parte da rosa que da pimenta, não queria ser juiz.

“– Aconteceu que o rei soube que o juiz havia adquirido mil florins daquele cavaleiro que havia recebido o castelo, e cem daquele que devia ter o castelo. Então fez vir os cavaleiros a seu Conselho, e perguntou se eles sabiam a razão pela qual um cavaleiro dera mil florins pelo serviço do juiz e o outro somente cem, já que aqueles cavaleiros eram iguais em riqueza. O rei tinha em seu Conselho um homem sábio e velho que disse que presumia que aquele cavaleiro que dera somente cem florins tinha direito pelo castelo. A razão disso é que aquele que tem o bom direito lamenta mais fortemente ter despesa em um pleito que aquele que não tem o bom direito, e que, por isso, gasta à vontade para ganhar o que não é seu. Então o rei fez um ordenamento em sua terra que aquele que desse mais ao juiz pelo seu serviço deveria ter má presunção, e àquele que desse menos, boa.”

8. O Fogo e a Água

O fogo quis enganar a água e pediu a ela que lhe ajudasse a fazer a pimenta, que é pequena, que ele a ajudaria a fazer a abóbora, que é grande, e assim ambos concordariam.

“– Contam”, disse a água, “que um cavaleiro pobre tinha um filho e um camponês rico tinha uma filha, e de ambos foi feito matrimônio para que o filho do cavaleiro fosse rico por sua mulher e a filha do camponês fosse honrada por seu marido, mas tal honramento da mulher tornou-se desonra quando os dinheiros foram gastos, e nessa paixão ela esteve todos os tempos de sua vida.”

A água contou esse exemplo para entender o engano que o fogo desejava lhe fazer, já que a pimenta dura mais que a abóbora, e o frio tem maior paixão na pimenta que ação na abóbora, até a pimenta ser pouca e a abóbora muita. Por isso, ela disse ao fogo que não desejava concordar com ele sob aquela semelhança, pois não poderia estar longamente na pimenta em adversidade.

O fogo pediu à água que fossem juntos ao Sol, porque no caminho poderiam ter amizade falando de umas coisas e outras. A água respondeu que dois contrários não iriam bem e plenamente em um caminho, e que o Sol é seu inimigo e amigo do fogo. Contudo, se o fogo desejasse ir com ela até a Lua, muito voluntariosamente iria com ele por um caminho, e sob tal condição que fossem à Lua de noite, não de dia.

Os quatro elementos começaram então a fazer a pimenta: o fogo colocou quatro onças de leveza e a terra colocou três de peso; o ar colocou duas onças de leveza e a água uma de peso. Quando a pimenta foi criada, as seis onças desejaram se elevar e as quatro desejaram estar abaixo, na terra. A pimenta consentiu ao apetite das quatro onças e não quis consentir ao apetite das seis e, por isso, as seis onças disseram à pimenta que ela fazia algo contra a sua natureza ao estar mais em um lugar abaixo que acima, já que ela é maior pelos maiores apetites que pelos menores.

Naquele momento a pimenta respondeu com essas palavras:

“– Contam que o vento elevou um grão de videira em uma alta montanha que era muito fria. Aquele grão se multiplicou em tronco e em braços, em ramos, folhas e flores, mas não podia fazer fruto por causa do grande frio que havia naquela montanha. E como ele havia tomado o princípio, a natureza e o ser no pé da montanha, desejava estar mais nos lugares baixos que nos altos, para poder fazer fruto e multiplicar sua espécie”.

O ar se colocou no meio do fogo e da água para que eles concordassem e todos os três ficassem contra a terra. Como o ar havia feito concordância entre o fogo e a água contra a terra, a terra não quis dar sua secura ao fogo, nem receber o frio da água conforme estava acostumada. Por isso, o fogo e a água ficaram contra a terra e o ar, e se colocaram no meio dos dois. Naquele momento o ar não quis receber o calor do fogo nem a umidade da água, até que a água e o fogo voltassem a ter concordância contra a terra, que não queria dar sua secura ao fogo, nem receber da água seu frio.

E assim, todas as vezes que queriam ter concordância, o fogo e a água estavam em sofrimento, porque se maravilhavam muito fortemente por não terem concordância nem pela terra, nem pelo ar. Então perguntaram a Saturno se ele sabia a razão e o motivo pelos quais não podiam ter concordância.

Saturno disse essas palavras:

“– Contam que um eremita, que era um homem de vida muito santa, disse ao anjo que o guardava que se maravilhava muito fortemente como podia não ter nenhuma tentação de cometer pecado quando contemplava a Deus e assim que deixava de pedir e contemplar a Deus logo caía em tentações e cogitava coisas vãs. O anjo lhe disse que não havia nenhuma maravilha o fato de o homem estar tentado e cogitar coisas vãs, pois entre ele e Deus não há meio que o faça estar em concordância, já que simplesmente foi separado de toda natureza de pecado, de vaidades e contrariedades entre Deus e o homem.”

“– Isso”, disse Saturno, “o ar não tem quando vós desejais ter concordância com ele contra a terra, pois não estais distante da contrariedade na qual estais, até que desejais ter concordância no ar.” Naquele momento em que disse sobre o santo eremita, e pela natureza contrária na qual estavam, o fogo e a água entenderam a maneira segundo a qual os santos homens têm tentações e cogitam coisas vãs.

9. A Pimenta, filha do Fogo e da Terra

O fogo e a terra fizeram uma filha na pimenta, que tinha o nome de Maioridade, e o ar e a água fizeram naquela mesma pimenta uma filha chamada menoridade. Ambas as filhas foram mulheres da pimenta e de ambas nasceu um filho que matou seu pai. Por isso, o costureiro amaldiçoou as tesouras e a agulha. Naquele momento o monge pediu a Ramon que demonstrasse aquele exemplo.

“– Senhor monge”, disse Ramon, “contam que uma agulha engendrou uma filha de um costureiro que tinha o nome de Riqueza, e as tesouras engendraram uma filha que tinha o nome de Honramento. O costureiro tomou aquelas duas filhas como mulheres, e das quais teve um filho que, após sua morte, não quis dar um pedaço de tecido para cobri-lo. Assim, colocaram-no totalmente nu sob a terra, contra o honramento e a riqueza. Por isso, o costureiro amaldiçoou a agulha e as tesouras que tinham juntado a riqueza e dado honramento a seu filho. Mas as tesouras e a agulha se desculparam daquela maldição, dizendo que não tinham culpa, pois ele havia colocado a si mesmo em menoridade de riqueza e honramento e a seu filho em maioridade. Por isso, convinha que, na morte, ele e seu filho fossem contrários.”

“– Ramon”, disse o monge, “e como era o nome desse filho?” Ramon respondeu que o filho do costureiro tinha o nome de Privação do fim do honramento e da riqueza.

Na pimenta, o fogo está em maioridade e a água em menoridade. Por isso, a água pediu ao ar e à terra que lhe ajudassem contra o fogo, pois não podia sustentar sua menoridade na maioridade do fogo. Então, o ar e terra responderam à água que ela não sabia o que uma boa senhora havia respondido ao seu mau marido.

“– E como foi isso?”, disse a água.

“– Contam”, disseram o ar e terra, “que um homem que era muito rico tinha uma mulher, e lhe disse estas palavras: ‘– Eu desejo que vós sejais minha senhora e que de mim e da riqueza façais vossa vontade. Digo isso para que vós sejais boa, e que vossa bondade seja maior que a minha.’ A senhora respondeu com estas palavras: ‘– É impossível que se possa adquirir maior bondade com naturezas contrárias.’”

O fogo convidou o ar e a terra na pimenta para que lhe ajudassem contra a água, que igualmente lhe era contrária pelo frio e pelo peso. Ele desejava destruir essa igualdade destruindo a proporção igual que existe na pimenta. Porque destruindo a igualdade de ambas as qualidades na pimenta, conseguiria destruir a água, como a inveja que, destruindo a igualdade especial da amatividade e da amabilidade, queria destruir a caridade entre dois irmãos.

“– E como foi isso?”, disseram o ar e a terra.

“– Contam”, disse o fogo, “que um grande mercador era um homem rico e tinha dois filhos, que em vida deu uma mulher a cada um, e na morte ordenou em seu testamento que ambos possuíssem igualmente seus bens, tanto que enquanto fossem vivos, não poderiam dividir nada até a morte daquele que morresse primeiro. Isso fez o mercador, para que tivessem igual caridade. Então, a inveja pensou como poderia destruir aquela caridade, e disse ao primeiro filho gerado que não era conveniente que ele fosse igual ao seu irmão em riqueza e em honramento, pois Deus o havia feito nascer primeiro. Por isso, ele deveria tratar com a corte que eles dividissem com seu irmão e ele tivesse a maior parte da riqueza. Então, aquele respondeu à inveja, e disse que ela não sabia a intenção pela razão da qual seu pai havia feito aquele testamento.

“– E qual intenção teve o seu pai?”, disse a inveja, “– Em fazer o testamento?”

“– Inveja”, disse o primeiro nascido, “nosso pai matou um homem dessa cidade e que tem um filho, com tanta riqueza como nós temos, e quis que nós não dividíssemos a riqueza para que tivéssemos grande caridade. E se ele deixasse a maior parte para mim e a menor para meu irmão, a caridade não existiria em igualdade, e nosso inimigo poderia matar primeiramente meu irmão, que estaria em menoridade de poder, e depois a mim. Por isso mesmo, inveja, não faleis tais palavras.”

10. O encontro do Fogo com a Água

Conta-se que o fogo saiu em romaria, e também a água, e ambos encontraram-se no caminho. O fogo disse à água estas palavras:

“– Nessa terra há muitos cavaleiros que são meus amigos e que fariam tudo o que eu quisesse, pois muitas vezes eu tenho dado prazer a eles.”

Enquanto o fogo assim falava, conforme as palavras que ele dizia, a água percebeu que o fogo tinha pavor dela. Por isso, entendeu que ele tinha menor virtude e menor poder que ela, pois se ela tivesse menor poder e menor virtude que o fogo naquela terra na qual se encontravam, teria pavor antes do fogo, pavor que teve somente depois que o fogo disse aquelas palavras. E como considerou que o fogo começou a ter pavor antes que ela sentiu-se virtuosa e forte contra o fogo, e então combateu e venceu o fogo, que dizia que naquela terra havia cavaleiros amigos seus para que a água tivesse pavor. Então disse ao fogo que não tinha pavor do que não via, pois ouvia.

Dissemos das raízes e demos a maneira segundo a qual se saiba aplicar à moral, conforme nós aplicamos. E como nos esquivamos da prolixidade, passamos ao tronco das árvores.