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São Gildas (c. 516 - c. 570)
Tradução: Bruno Costa Oliveira
Revisão: Profa. Regina Egito (Letras - Ufes) Revisão final: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) I – Prefácio
I.1. Eu mantive silêncio, confesso, com muita angústia mental, arrependimento e um aperto no coração, e revolvi tudo isso dentro de mim, e com Deus, o perscrutador de todos os reinos, por testemunha, pelo espaço de tempo de dez anos ou mais, minha inexperiência, também presente, e minha inutilidade impediram-me de ter o papel de censor. Mas eu li como aos legisladores ilustres, por uma dúvida em seu ofício, não era permitido entrar na desejada terra, que os filhos do alto-sacerdote, por atearem fogo estranho no altar de Deus, foram ceifados por uma morte rápida; que o povo de Deus, por quebrar as leis de Deus, salvo apenas dois , foi morto por fera selvagem, por fogo e espada nos desertos da Arábia. No entanto, o governo de Deus amou-os tanto que fez um caminho para eles através do Mar Vermelho, os alimentou com pão celestial e água das pedras e, com um mero levantar de mãos, tornou os seus exércitos invencíveis. Então, quando eles cruzaram o Jordão e entraram na terra desconhecida, os muros das cidades caíram planos pelo som de apenas uma trombeta; e pegar um manto e um pouco de ouro dos amaldiçoados causou a morte de muitos ; e, novamente, o não cumprimento do tratado deles com os gibeões, mesmo que esse tratado tivesse sido obtido por fraude, trouxe destruição para muitos. Eu fui avisado dos pecados do povo, sobre os quais pesaram as repreensões dos profetas e também de Jeremias, com suas quatro lamentações, escritas em ordem alfabética. Eu vi, além disso, em meu próprio tempo, como aquele profeta também se queixou de que a cidade, que antes era cheia de pessoas, foi deixada de lado, só e enviuvada; que a rainha das nações e a princesa das províncias (isto é, a Igreja) foram tributárias; que o ouro foi obscurecido, e que sua cor excelente (que é o brilho da palavra de Deus) mudou; que os filhos de Sião (isto é, da Santa Madre Igreja), uma vez famosos e vestidos no mais fino ouro, humilharam-se em estrume, fato intoleravelmente adicionado ao peso da ganância daqueles homens ilustres, e à minha, nada mais que degradação, enquanto ele, dessa maneira, lamentou-se em suas condições felizes e prósperas, “seus nazarenos foram mais alvos que a neve, mais corados que marfim antigo, mais bonitos que a safira.” Essas e muitas outras passagens nas Antigas Escrituras eu rememorei como um tipo de espelho da vida humana, e voltei-me também para as Novas , onde li mais claramente o que talvez para mim antes fosse escuro, para o desaparecimento da escuridão, e a verdade derramar sua firme luz - lá dentro eu li que o Senhor disse “eu vim não apenas para os cordeiros perdidos da casa de Israel”; e por outro lado, “mas as crianças desse reino serão levadas para fora da escuridão; haverá choro e ranger de dentes”; e novamente, “não é bom pegar a carne das crianças e dar para os cães”; também, “maldições a vós, escribas e fariseus, hipócritas!” Eu ouvi como “muitos virão do Leste e do Oeste, e sentar-se-ão com Abraão, Isaac, e Jacó no reino dos céus”; e, pelo contrário, “aqueles, que estavam prontos, entraram com ele para o casamento; mais tarde vieram as outras virgens também, dizendo ‘Senhor, Senhor, abra para nós;’ e lhes foi respondido ‘eu não as conheço.” Eu ouvi, sem dúvida, “todos aqueles que acreditarem e forem batizados serão salvos, mas aqueles que não acreditarem serão condenados.” Eu li nas palavras do apóstolo que o ramo de oliva selvagem pode ser enxertado na boa oliva, mas jamais será cortada da comunhão da raiz com a fartura, se não se mantiver com temor, mas pelo contrário entretido em pensamentos arrogantes. Eu conheci a misericórdia do Senhor, mas também temi seu julgamento; eu louvei Sua graça, mas temi a interpretação para cada homem de acordo com seus trabalhos; percebi serem diferentes as ovelhas do mesmo rebanho; eu elogio merecidamente Pedro por sua confissão inteira a Cristo, mas clamo por Judas, mais infeliz por seu amor à cobiça; eu penso em Estevão, mais glorioso por causa da palma do martírio, mas Nicolas, infeliz por seu sinal de suja heresia; eu li seguramente, “eles têm todas as coisas em comum”; mas igualmente, como está escrito, “por que têm os conspirados que tentar o Espírito de Deus?” Eu vi, por outro lado, o quanto a segurança cresceu com os homens do nosso tempo, como se nada houvesse que lhes causasse temor. Portanto, essas e muitas outras coisas, as quais por consideração à brevidade nós determinamos omitir, eu revolvi de novo e de novo em minha mente espantada e com arrependimento em meu coração. E pensei: “se o peculiar povo de Deus, escolhido de todos os povos do mundo, a semente real, e nação sagrada, (ele disse para eles, ‘Israel, minha primeira cria’), seus sacerdotes, profetas, e reis, através de tantas épocas, seu servo e apóstolo, e os membros da sua igreja primitiva, não estavam dispostos quando eles se desviaram do caminho correto, o que Ele fará com a escuridão desse nosso tempo, no qual, além de todos os pecados enormes e odiosos, (o que isto tem em comum com toda a perversidade que o mundo cometeu), é encontrada uma carga inata, indelével, e irremediável de loucura e inconstância?” “Que homem infeliz (eu digo para mim mesmo) é dado a ti, como se tu fosses um ilustre e erudito professor, para opor a força de torrente tão violenta, e manter a carga cometida contra ti por uma série de crimes inveterados, os quais têm se espalhado longa e extensamente, sem interrupção, por tantos anos? Mantenha tua paz; fazer de outra maneira é dizer ao pé para olhar e à mão para falar.” A Bretanha tinha regras e vigilantes; por que tu dispões os teus para falar inutilmente? Ela tinha tantos, eu digo, não muitos, talvez, mas certamente não muito poucos; mas, por eles serem levados e pressionados por carga tão pesada, não tinham tempo que lhes permitisse tomar fôlego. Meus sentidos, portanto, como se sentissem uma porção de meus débitos e obrigações, preocuparam eles mesmos com tantas objeções, e com outras ainda mais fortes. Eles lutaram, como eu disse, por tempo não curto, em estreitas temerosas, quando eu li: “há um tempo para falar, e outro para manter o silêncio.” Finalmente, o lado do crente prevaleceu e suportou até a vitória; (disse ele) se tu não és valente o bastante para ser marcado com a marca prazerosa da liberdade dourada entre as criaturas proféticas que desfrutam da categoria de seres racionais próximos aos anjos, não recuses a inspiração dos asnos entendedores, para aquele dia mudo, no qual não poderias carregar à frente a tiara do mago que amaldiçoaria o povo de Deus, mas que, na estreita passagem do campo de videiras, esmagou teu pé frouxo, e a partir de então sentiste o açoite. No entanto, ele foi, com sua mão ingrata e furiosa, contra a justiça correta. Batendo seus lados inocentes, ela apontou para ele, o mensageiro celestial segurando a nua espada, e ficou em seu caminho. No entanto ele não a viu. Por causa do zelo pela casa de Deus e por sua lei santa, compelido tanto pelas razões de meus próprios pensamentos, como pelas súplicas piedosas de meus irmãos, eu agora descarrego o débito tão longamente exigido de mim; humilde, decerto, em estilo, mas com fé, como penso, amistoso a todos os jovens soldados de Cristo, mas severo e insuportável para com os apóstatas tolos; o antecedente daquele, se não estiver enganado, receberá o mesmo com lágrimas, fluindo do amor de Deus. Mas os outros, com mágoa, do modo como serão extorquidos da indignação e timidez de uma consciência convicta. I.2. II – A História Ela é enriquecida pelas bocas de dois nobres rios, o Tâmisa e o Severn, como se fossem dois braços, pelos quais o luxo estrangeiro foi antes importado, e por outros pequenos rios de menor importância. Ela é famosa por ter vinte e oito cidades, e embelezada por certos castelos, com muros, torres, pontes bem estruturadas e construída com ameaçadoras ameias nos topos e provida com todos os instrumentos de defesa que são requisitados. Suas planícies são espaçosas, suas colinas são agradavelmente situadas, adaptadas para cultivo superior, e suas montanhas são admiravelmente calculadas para a pastagem alternativa dos castelos, onde flores de várias cores, pisadas pelos pés dos homens, lhes dão a aparência de uma adorável pintura. Ela é coberta como uma noiva escolhida por um homem, com diversas jóias, com fontes lúcidas e livros abundantes vagando pela areia branca como a neve; rios transparentes fluindo em murmúrios gentis e oferecendo uma doce garantia de sono para aqueles que reclinam sobre seus bancos, irrigados por abundantes lagos que despejam torrentes mornas de água refrescante. II.4. Eu deveria, portanto, omitir aqueles erros antigos comuns a todas as nações da Terra, nas quais, antes de Cristo vir à carne, todos os seres humanos foram limitados; eu deveria enumerar aqueles diabólicos ídolos de meu país, os quais quase excederam em número os do Egito e dos quais nós ainda vemos alguns em ruínas dentro ou fora dos templos abandonados, com características obstinadas e deformadas, como é costumeiro. Mas nem vou clamar sobre as montanhas, fontes, colinas ou sobre os rios, os quais agora são subservientes ao uso do homem, mas que uma vez foram uma abominação e destruição para eles, e para os quais o povo cego prestou honra divina. Eu devo também passar sobre os idos tempos de nossos tiranos cruéis, cuja notoriedade foi espalhada pelos países longínquos; como aquele Porfírio, cão que no Leste estava sempre tão feroz contra a Igreja e que em seu louco e vão estilo adicionou também: “a Bretanha é uma terra fértil em tiranos.” Eu vou apenas me esforçar para relatar as maldades que a Bretanha sofreu nos tempos dos imperadores romanos, e também as que ela causou a estados distantes; mas, enquanto tiver meu poder, não deverei seguir as escritas de meu próprio país, as quais (se já houve alguma delas) foram consumidas pelo fogo dos inimigos, ou acompanhar meus exilados compatriotas nas terras distantes, mas serei guiado pelos relatos de escritores estrangeiros, os quais, sendo quebrados e interrompidos em várias partes, são, portanto, pouco claros. II.5. II.6. II.7. II.8. II.9. Que fuga desgraçada ocorreu, que variedade de carnificina e de morte infligidas como punição, que infelizes apostasias da religião; e, pelo contrário, que gloriosas coroas de martírio eles ganharam, que encolerizada fúria foi mostrada pelos perseguidores e paciência da parte dos santos sofredores, a história eclesiástica nos informa. Toda a igreja foi reunida em um corpo, deixando para trás as coisas obscuras deste mundo e criando o melhor caminho para as felizes mansões do Paraíso como se fossem suas próprias casas. II.10. II.11. Tão agradável a Deus foi essa conduta, aquela entre sua confissão e martírio, que ele foi honrado com maravilhosos milagres na presença dos impiedosos blasfemos que estavam carregando o estandarte de Roma como os israelitas de outrora, que pisaram solo seco numa passagem não freqüentada enquanto a Arca da Aliança ficou algum tempo sobre as areias no meio do Jordão. Então o mártir, com milhares de outros, abriu passagem através do nobre rio Tâmisa, cujas águas ficaram abruptamente como precipícios em cada lado. Vendo isso, o primeiro de seus executores ficou pasmo de temor e, como um lobo, tornou-se uma ovelha. Mas ele, sedento pelo martírio, bravamente sofreu aquilo pelo que estava sedento. Os outros santos mártires foram atormentados com o sofrimento das ovelhas e seus membros foram torturados de insólitas maneiras, até que, sem atraso, ergueram os troféus de seus martírios gloriosos ainda nos portões da cidade de Jerusalém. Aqueles que sobreviveram esconderam-se em florestas, desertos e cavernas secretas, esperando que Deus, que é justo no julgamento de todos, recompensasse seus perseguidores com o julgamento e eles com a proteção de suas vidas. II.12. Por essa sagrada união, as cabeças e os membros da Igreja remanesceram em Cristo até a traição ariana, fatal como uma serpente que vomitou seu veneno do além-mar, causando desacordos mortais entre irmãos que habitavam a mesma casa e, dessa maneira, como se fosse feita uma estrada através do mar, precipitou o veneno de todas as heresias por suas presas, como bestas selvagens de todas as descrições, infligindo ferimentos mortais sobre o país, que sempre deseja ouvir algo novo, e assim remanesceu longamente para nada. II.13. Pela arte da astúcia mais que pelo valor, ele, juntando com sua regência, por perjúrio e falsidade, todas as cidades e províncias vizinhas contra o estado romano, estendeu uma de suas asas para a Hispânia a outra para a Itália, fixando a sede de seu profano governo em Trèves. Tão furiosamente levou sua rebelião contra seus leais imperadores, que expulsou um deles para fora de Roma e fez outro terminar sua mais sagrada vida. Não muito tempo depois, acreditando nessas tentativas bem sucedidas, ele perdeu sua amaldiçoada cabeça ante os muros de Aquiléia, onde antes havia cortado as cabeças coroadas de quase todo o mundo. II.14. II.15. Uma legião foi imediatamente enviada, esquecendo sua passada rebelião, e provida suficientemente com armas. Quando cruzaram o mar e a terra, eles vieram para acabar de uma só vez o conflito com seus cruéis inimigos, matando um grande número deles. Todos foram levados para as fronteiras e os humilhados nativos foram resgatados do massacre sangrento que os esperava. Por conselho de seus protetores, eles construíram uma muralha através da ilha de um mar ao outro que, manejada com a força apropriada, poderia ser um terror para os inimigos que pretendiam repelir e uma proteção e cobertura para seus amigos. Mas sendo feita de turfa ao invés de pedra, essa muralha não teve uso para aquele tolo povo que não tinha uma cabeça para guiá-los. II.16. II.17. Os romanos, movidos pela compaixão tanto quanto a natureza humana pode ser com os relatos de tais horrores, mandaram seus inesperados bandos de cavalaria por terra e marinheiros pelo mar, como águias em vôo, e, colocando suas terríveis espadas sobre os ombros de seus inimigos, cortaram-nas como folhas que caem no período destinado. Como uma avalanche de montanha eles os levaram com correntes numerosas, destruindo suas margens com o barulho de um rugido, com a crista espumando e espumantes ondas crescendo às estrelas. Com aquelas correntes circulares que ofuscavam nossos olhos, eles superaram com uma de suas ondas todos os obstáculos em seu caminho, como fizeram nossos ilustres defensores, e vigorosamente levaram nossos bandos de inimigos além do mar, se é que algum pôde escapar deles. A pilhagem que haviam ganho estava além daqueles mesmos mares pelos quais eles transportaram, ano após ano, sem que ninguém ousasse resistir. II.18. Eles então deram um conselho enérgico aos tímidos nativos, e deixaram modelos para manufaturarem armas. Além disso, na costa sul onde seus navios estavam, como havia alguma apreensão de que os bárbaros pudessem desembarcar, eles erigiram torres com intervalos definidos, comandando uma prospeção do mar, e então deixaram os ilhéus para não mais retornar. II.19. Além disso, tendo ouvido a partida de nossos amigos e de sua resolução de não retornarem jamais, eles percorreram com maior coragem que antes todo o país até o extremo norte, tão longe quanto as muralhas. Para opor-se a eles foram colocadas nos limites guarnições igualmente lentas para lutar e mal adaptadas para fugir, companhias de combate inúteis e pavorosas, que dormiam dias e noites em suas vigílias pouco proveitosas. Enquanto isso, as armas em forma de gancho dos inimigos não estavam ociosas, e compatriotas infelizes foram arrastados dos muros e jogados contra o chão. Entretanto, tão prematura morte, dolorosa como era, os salvou de ver o sofrimento miserável de seus irmãos e filhos. Por que eu diria mais? Eles deixaram suas cidades, abandonaram a proteção do passado e dispersaram-se num vôo mais desesperado que antes. Por outro lado, o inimigo perseguiu-os com uma crueldade mais implacável que antes, assassinando nossos compatriotas como ovelhas, tanto que suas habitações eram como aquelas das bestas selvagens. Então eles viraram suas armas uns contra os outros e por causa de um pouco de sustento puseram suas mãos no sangue de seus próprios companheiros. Dessa maneira, calamidades estrangeiras foram aumentadas por inimizades domésticas, e todo o país foi inteiramente destituído de provisões, salvo o que pôde ser procurado na caça. II.20. E assim foi, no início, que eles sobrepujaram seus inimigos que tinham vivido em seu país por tantos anos, porque sua confiança não era em um homem, mas em Deus, de acordo com a máxima de Pilo, “nós devemos ter a assistência divina quando falha a humana.” A coragem do inimigo foi controlada por um tempo, mas não a depravação de nossos compatriotas; o inimigo deixou nosso povo, mas o povo não deixou seus pecados. II.21. Durante essas tréguas, os ferimentos do povo angustiado eram curados, mas outra chaga, ainda mais venenosa, aconteceu. Tão logo as destruições dos inimigos foram controladas, a ilha foi inundada com a mais extraordinária variedade de coisas, maiores do que se conhecia antes, e com isso cresceram todos os tipos de luxúrias e licenciosidades. Isso cresceu com tão firme raiz que alguém poderia realmente dizer: “tal fornicação é ouvida entre vocês como nunca foi conhecida entre os gentios.” Mas, além desse vício, também cresceram todos os outros de que a natureza humana é capaz, em particular o ódio da verdade, junto com seus suportes, que ainda no presente destróem tudo que é bom na ilha; o amor pela falsidade, junto com seus inventores, a recepção do crime em lugar da virtude, o respeito mostrado para a depravação mais do que para a bondade, o amor às trevas ao invés do sol, a admissão de Satã como um anjo de luz. Reis foram ungidos não de acordo com a ordem de Deus mas porque se mostraram mais cruéis que o resto, sendo logo mortos por aqueles que os elegeram, sem nenhuma investigação em seus méritos, mas porque outros ainda mais cruéis foram escolhidos para sucedê-los. Se algum desses reis foi de natureza mais pacífica que o resto, ou de algum modo mais respeitoso à verdade, foi visto como a ruína do país, e todos lançaram dardos nele. Eles ainda valorizaram coisas indiferentes ao agrado ou desagrado de Deus apenas se fossem de seu agrado ou desagradado. As palavras do profeta endereçadas ao povo antigo podem ser bem aplicadas aos nossos próprios compatriotas: “crianças sem lei, vós deixastes Deus e provocastes a ira do sagrado de Israel! Por que vós ainda investigais, acrescentando iniqüidade? Todas as cabeças estão lânguidas e todos os corações tristes; da sola do pé até a coroa, não há saúde neles.” E assim eles fizeram todas as coisas contrárias à sua salvação, como se nenhum remédio pudesse ser aplicado ao mundo por algum verdadeiro médico. E não somente os leigos o fizeram, mas os rebanhos e pastores de Nosso Senhor, que devem servir de exemplo para o povo, dormiam em ebriedade, como se estivessem banhados em vinho . Enquanto isso, a onda de orgulho, o jarro do conflito, as apertadas garras do inimigo e a estimativa confusa do que é certo e errado se apoderou deles que pareceu sair aos montes. Ainda hoje, um desprezo pelos príncipes e suas próprias vaidades fazem-nos vagar desencaminhados no caminho torto. II.22. Enquanto isso - como disse Salomão, “o obstinado servo não é curado por palavras , o tolo é açoitado e não sente” - uma mortal doença pestilenta afetou o povo tolo, a qual, sem espada, cortou um número tão grande de pessoas, que os vivos não eram capazes de enterrá-los. Mas até isso não serviu de alerta para eles, pois também poderiam ser percebidas ali as palavras do profeta Isaías “e Deus chamará seu povo para a lamentação, para a calvície e para o cinto da penitência; assistir a eles começando a matar os bezerros e a matar os carneiros, para comer, para beber, e para dizer, ‘nós vamos comer e beber, pois amanhã nós podemos morrer.” Pois o tempo estava se aproximando quando todas as iniqüidades, como aquelas dos amorreus, seriam cumpridas. Um conselheiro foi chamado para definir o que era melhor e mais expediente a ser feito, de modo a repelir as irrupções tão freqüentes e fatais e as pilhagens das nações citadas acima. II.23. Aquelas mesmas pessoas as quais temiam mais que a própria morte quando ausentes, foram convidadas a residir, como alguém pode dizer, sob o próprio teto. Tolos são os príncipes, como é dito por Thafneos, que deu conselhos ao insensato faraó. Uma multidão de filhotes de leão veio do covil dessa bárbara leoa, em três cyuls, como eles chamam seus navios de guerra, com suas velas infladas pelo vento, presságios e profecias favoráveis, pois foi profetizado por um adivinho que eles deveriam ocupar o país para o qual estavam velejando trezentos anos, e durante metade daquele tempo, cento e cinqüenta anos, deveriam pilhá-lo e roubá-lo. Eles desembarcaram primeiro no lado leste da ilha, pelo convite daquele rei infeliz, e lá fixaram suas garras afiadas, aparentemente para lutar a favor da ilha, que tristeza, mas certamente contra ela! Sua terra-mãe, vendo sua primeira prole tendo êxito, mandou uma companhia maior de suas proles de lobos famintos que, velejando, juntaram-se aos seus camaradas bastardos. Naquele tempo, o germe da iniqüidade e a raiz da contenda plantaram o veneno entre nós, como merecemos, e atiraram diretamente folhas e ramos. Assim introduzidos como soldados na ilha para procurar o perigo e defender seus hospitaleiros anfitriões, os bárbaros saxões obtiveram um subsídio de provisões que foi oferecido abundantemente por algum tempo, fato que acalmou suas bocas caninas. No entanto, eles ainda se queixaram que esses suprimentos mensais não eram fornecidos em abundância suficiente, e agravaram aplicadamente cada ocasião de discussão, dizendo que se mais generosidade não fosse mostrada, eles iriam quebrar o tratado e pilhar toda a ilha. Em pouco tempo, eles cumpriram suas ameaças. II.24. Isso aconteceu de tal forma que todas as colunas foram levadas ao chão pelos ataques freqüentes dos rebanhos. Enquanto a espada brilhava e as chamas crepitavam em volta deles por todos os lados, todos os maridos partiram, junto com seus bispos, padres e o povo. Era lamentável de se ver. No meio das ruas os topos das altas torres deitavam, tombadas ao chão, pedras de altos muros, altares sagrados, fragmentos de corpos humanos cobertos com um sangue lívido coagulado, parecendo que haviam sido espremidos juntos em uma prensa, sem chance de serem enterrados, salvo nas ruínas das casas ou nas barrigas famintas das bestas selvagens e dos pássaros. E que isso seja falado com reverência por suas abençoadas almas; se naquele tempo muitos tivessem sido encontrados, seriam carregados para dentro do alto céu pelos anjos sagrados. Então, aquela safra inteira que fora tão boa, degenerou e tornou-se amarga. Nas palavras do profeta, o marido virou as costas onde estava duramente uma vinha ou espiga de trigo para ser vista. II.25. Nesse meio tempo, uma oportunidade surgiu quando esses ladrões mais cruéis estavam retornando para casa: os pobres restantes de nossa nação, arrebanhados de vários lugares ao redor de nossos miseráveis compatriotas, tão rápidos como abelhas indo para suas colmeias, por medo de acontecer uma tempestade, reforçados por Deus e clamando por Ele com todos os seus corações, como o poeta disse, “com seus inumeráveis votos eles carregam o Paraíso,” podendo ser levados à total destruição, pegaram em armas sob o comando de Ambrósio Aureliano , um homem modesto que, entre toda a nação romana, foi, na confusão de seu período, atormentado sozinho pela chance de viver. Seus pais, que por seus méritos foram adornados com o púrpura, foram mortos nessa mesma discussão, e em nossos dias sua progênie, embora vergonhosamente degenerada pela utilidade de seus ancestrais, provocou seus cruéis conquistadores à batalha e, pela bondade de Nosso Senhor, obteve a vitória. II.26. As cidades de nosso país ainda não são habitadas como antes, pois foram abandonadas, derrubadas e ainda estão desoladas. Nossas guerras estrangeiras cessaram, mas nossos problemas civis ainda remanescem. Como a lembrança daquela desolação tão terrível da ilha, bem como sua recuperação inesperada, remanesceu nas mentes daqueles que foram testemunhas desse evento maravilhoso e também entre os reis, magistrados públicos e pessoas privadas, como padres e clérigos, todos passaram a viver ordenadamente de acordo com suas várias vocações. Mas quando eles partiram deste mundo e uma nova raça ignorante desse conturbado tempo lhes sucedeu, tendo apenas experiência da prosperidade presente, todas as leis da verdade e da justiça foram tão mexidas e subvertidas que nem um vestígio ou lembrança dessas virtudes remanesceu entre as ordens de homens acima nomeadas, exceto entre uns poucos que, comparados com a grande multidão que estava diariamente correndo precipitadamente para o Inferno, são contados em tão pequeno número, que nossa madre superiora, a Igreja, os assiste escassamente, seus únicos filhos verdadeiros que repousam em seu seio. Apesar daquelas vidas úteis serem um padrão para todos os homens e amadas por Deus tanto quanto por seus pregadores e por certos pilares e suportes mais adequados, nossa fraqueza se reergueu. Eu não deveria ter ninguém a quem pretendesse reprovar, mas sou forçado a fazê-lo pelo aumento das várias ofensas. Tenho livremente declarado, com angústia e tristeza, sim, como aumentou a depravação daqueles que se tornaram servos, não apenas para suas crenças, mas também para o Demônio mais que para Cristo, que é nosso abençoado Deus, em um mundo sem fim. Por que deveriam seus compatriotas ocultar quais nações estrangeiras estão agora, e não só agora, mas também continuamente lançando suas presas? III — A Epístola Eles têm muitos prisioneiros em suas prisões, presos em correntes, mas isso é feito mais em traições que em punições justas por aqueles crimes; e quando estão diante de um altar, jurando pelo nome de Deus, eles vão embora e consideram o altar como nada mais que um mero monte de pedra suja. III.28. Nesse mesmo ano, após ter feito um terrível juramento no qual pôs a si mesmo como o primeiro ante Deus em uma solene afirmação, clamando como testemunhas todos os santos e a Mãe de Deus, disse que não planejaria algo que enganasse seus compatriotas. Contudo, no hábito de um santo abade entre os altares sagrados, ele causou com a espada e a lança ferimentos e lágrimas, como se fizesse com os dentes, no seio de sua mãe temporal e da Igreja, sua mãe espiritual, duas juventudes reais com seus dois serviçais cujas armas, embora não ficassem à vontade na armadura, eram ainda valentemente utilizadas e, estendidas contra Deus e seu altar, as veneráveis insígnias de Sua fé e paciência deixaram os portões da cidade. Oh, Cristo! E quando ele fez isso, os mantos, com o sangue coagulado, tocaram o local do sacrifício celestial. Sem nenhum ganho, ele pôde gabar-se previamente desse cruel ato; e muitos anos antes de manchar-se com a abominação de muitos adultérios, ao colocar sua esposa contrária ao comando de Cristo, o mestre do mundo disse “o que Deus uniu, o homem não separa”, e novamente, “esposos, amem suas esposas”. Pois ele plantou no solo de seu coração, um solo estéril para as sementes de Deus, um corte amargo e louco, tomado das vinhas de Sodoma que, sendo aguado como chuvas venenosas com sua impiedade vulgar, doméstica e audaz, usando para ofender Deus, trouxe para o mundo o pecado de horríveis assassinatos e sacrilégios. E ainda sem se desvencilhar das redes sufocantes de suas antigas ofensas, ele adicionou novas perversidades às antigas. III.29. Vai a Ele, que não desejou a morte de um pecador, pois convertido e vivo estaria melhor. Aperta, de acordo com o profeta, a faixa de teu pescoço, oh, filho de Sião; eu rogo que retornes das regiões longínquas do pecado para o mais sagrado Pai, que por seu filho desprezará a comida suja dos porcos e temerá a morte pela fome cruel. Então retorna a ele novamente, acostuma a matar seu bezerro engordado com grande júbilo, e então traz para o vagabundo o primeiro manto e anel reais, toma-os como se fosse o gosto da esperança celestial, assim tu deves perceber quão doce Nosso Senhor é. Pois se custas a desprezar estes, está certo, tu serás quase instantaneamente atirado e atormentado nas inevitáveis e negras torrentes do fogo eterno. III.30. Não, certamente, mas ao menos, como o salmista disse, se tu fosses convertido rapidamente para o Nosso Senhor, aquele rei brandiria sua espada por pouco tempo contra ti, que disseste por teu profeta “eu vou matar e vou causar a vida; eu vou atacar e curar e não há ninguém que vá se libertar de minha mão”. Sê tu, portanto, sacudido fora do sujo pó, e com todo teu coração convertido para Ele, que te criou, que “quando tua ira começar a queimar, serás abençoado por manter as esperanças Nele.” Pois, em contrapartida, dores eternas serão acumuladas para ti e serás sempre atormentado e nunca consumido nas mandíbulas cruéis do Inferno. III.31. O quê! Por que engolias tais golfadas violentas de pecado como se fossem agradável vinho e agora não te satisfazem mais, especialmente desde que o fim da tua vida se aproxima? Por que custas a carregar pesadamente tua alma miserável com o pecado da luxúria, mais faltoso que qualquer outro, por guardar tua esposa, e após tua morte honrosa, pelos atos baixos de tua filha sem-vergonha? Não gastes, eu te rogo, o resto de tua vida ofendendo a Deus, pois ainda brilha na face dos penitentes um tempo aceitável e um dia de salvação, quando tu deverás tomar cuidado para que teus vôos não sejam no Inferno ou no dia do Sabá. Como disse o salmista, “afasta-te do mal e faz o bem, busca a paz e garante-a” , pois os olhos de Nosso Senhor serão lançados contra ti quando fizeres justiça, e então Seus ouvidos abrirão para tuas preces, e Ele não destruirá tua memória da terra dos vivos. Tu deves chorar e Ele te ouvirá e fora das tribulações, te colocará, pois o manto de Cristo nunca despreza um coração com temor Dele, que é arrependido e humilde. De outra maneira, o verme de tua tortura não morrerá e o fogo de tua queimadura não será extinto. III.32. Por que, apesar de tuas várias recaídas, tendo jogado tua esposa pelas portas, por luxúria ou por estupidez de tua mente, indo contra a proibição expressa dos apóstolos, que denunciam que nenhum adúltero pode tomar parte do reino dos céus, estimaste tua detestável irmã, que fez votos a Deus pela eterna continuidade, como verdadeira beneficiada, na linguagem do poeta, das ninfas celestiais? Por que provocas com injúrias freqüentes as lamentações e suspiros dos santos com tuas maneiras corporalmente afligidas? Sabe que, com o tempo, tal como uma leoa feroz, eles quebrarão teus ossos em pedaços. Eu rogo a ti, como o profeta disse, desiste da ira e deixa a fúria mortal que sopraste contra o céu e a terra, contra Deus e Seu rebanho, e que em tempos será teu próprio tormento. Ao contrário, obtém, com mente alterada, as preces daqueles que, neste mundo, possuem o poder de sujeitar o culpado e soltar o penitente. Não sejas, como o apóstolo disse, orgulhosamente sábio, nem confia na incerteza dos ricos, mas em Deus, que deu a ti muitas coisas abundantemente. Negocia para ti mesmo, pela correção de tuas maneiras, uma boa fundação para tua pós-vida, e procura entrar naquele real e verdadeiro estado de existência, que não será transitório, mas perpétuo. Sim, tu deves saber e ver a outra forma que existe neste mundo, o quão amargo mal é para ti deixar teu Senhor Deus e não ter Seu temor diante de olhos brilhantes. Em seguida saberás como não morrerás por nenhum meio e serás queimado nas sujas e envolventes chamas do fogo eterno. Pois as almas dos pecadores estão tão eternamente em perpétuo fogo quanto as almas dos justos estão em perpétuo júbilo e contentamento. III.33. Por que estás cheio de vontade empilhando como uma montanha tal carga de pecados sobre teus ombros reais? Por que te mostras ao rei dos reis, que fez de ti, tanto em reinado quanto em estatura do corpo, maior que todos os outros chefes da Bretanha, não melhor nas virtudes quanto o resto, mas pelo contrário, muito pior por teus pecados? Escuta então por um momento, e ouve pacientemente a seguinte enumeração de teus feitos, na qual eu não tocarei nenhuma ofensa doméstica ou leve, se é que alguma delas são leves, mas somente aquelas abertas e espalhadas longa e amplamente no conhecimento de todos os homens. No início de tua juventude, tu não fizeste uma terrível opressão com a espada, a lança e o fogo contra o tio do rei, junto com seu bando de corajosos soldados, cujas faces em batalha não eram diferentes daqueles jovens leões? Não consideraste as palavras do profeta, que disse “o homem sedento de sangue e enganador não viverá metade de seus dias”? E mesmo que a seqüela de teus pecados não tenha acontecido, que retribuição poderias esperar por essa ofensa das mãos do justo juiz, que disse por seu profeta “mágoa tenha aquele que danificou e, tu mesmo não deverias ser danificado?” “e tu que mataste, não deverias ser morto? Quando colocares um fim em teu dano, então deverás cair!” III.34. Por acaso tu não retornaste seguramente, como uma pomba que corta o ar com suas asas e com suas guinadas rápidas escapa do furioso falcão, para as celas onde os santos repousam, como um lugar certo de refúgio? Oh, quão grande júbilo isso seria para a nossa Mãe Igreja, se o inimigo de toda a humanidade fosse empurrado lamentavelmente, como de fato, para fora de seu seio! Oh, que abundante chama de esperança celestial seria ateada nos corações dos pecadores desesperados, se tu tivesse remanescido em teu abençoado estado! Oh, qual grande recompensa no reino de Cristo seria dada à tua alma no dia do julgamento, se aquele astuto lobo não te tivesse pego - quem era um lobo agora se torna uma ovelha (não muito contra tua própria vontade) - fora do rebanho de Nosso Senhor e feito novamente de ti, uma ovelha, um lobo como ele mesmo? Oh, que grande júbilo seria a preservação de tua salvação para o Deus Pai de todos os santos, não tivesse o Diabo, pai de todos os náufragos, como uma águia de asas e garras monstruosas, te carregado para longe de toda a razão e certeza, para o bando infeliz de suas crianças? E para ser curto, tua conversão para o lado correto deu tão grande júbilo ao céu e à terra quanto o teu detestável retorno. Como um cão para o seu vômito, tu criaste desgosto e lamentação, de forma que “os membros que devem ser empregados como armadura da justiça para o Senhor, agora se tornam a armadura da iniqüidade para o pecado e o Demônio”. Agora não ouves mais as preces de Deus soando docemente pelas vozes agradáveis dos soldados de Cristo, nem os instrumentos da melodia eclesiástica, mas tuas próprias preces, que são nada, soando para a conduta da rota leviana de Baco através das bocas dos teus seguidores vis, acompanhadas por mentiras e malícias, para a total destruição dos vizinhos. Isso de tal maneira que o vaso preparado para o serviço de Deus agora torna-se um vaso de sujeira, e o que foi uma vez reputado útil à honra celestial é agora jogado merecidamente no poço sem fundo do Inferno. III.35. Sobre qual ocasião teu pescoço firme (já carregado de pecados) é agora carregado com dois monstruosos assassinatos, um do teu referido sobrinho, outro dela, que uma vez foi tua esposa, e tu estás agora de baixo a mais baixo, e de mal a pior, submetido, dobrado e sugado para a mais baixa profundeza do sacrilégio. Após isso, tu também desposaste publicamente a viúva, que sofreu engano e sugestão de tão pesadas ofensas, e a tomaste legalmente, como as lisonjeiras línguas de teus parasitas com falsas palavras pronunciaram, mas como nós dizemos mais perversamente, em teu próprio matrimônio. E, portanto, que homem sagrado é aquele, que, movido pela narração de tal história, não choraria e lamentaria agradavelmente? Que pregador (cujo coração está aberto a Deus) após ouvir isso não exclamaria com angústia, na linguagem do profeta: “Quem dará água para a minha cabeça, e para meus olhos uma fonte de lágrimas, e vou dia e noite lamentar aqueles de meu povo que são assassinados?” Por muito pouco (Oh, meu Deus!) estiveste com teus ouvidos escutando aquela repreensão do profeta nesta sabedoria: “Mágoa esteja sobre tu, oh, perverso homem, que deixou a lei do mais sagrado Deus, e se tu nasceres, teu quinhão será para a maldição, e se tu morreres, para a maldição será o teu quinhão, e todas as coisas que são da terra, para a terra devem ser convertidas, e então o perverso da maldição deve passar à perdição”, se eles não retornarem para o Nosso Senhor, ouvindo esta repreensão: “Filho, tu ofendeste; não ofendas mais, mas reza para o perdão das ofensas passadas.” E, novamente, “Não sejas lento para ser convertido para o Nosso Senhor, nem adia a mesma dia a dia, pois Sua ira vem repentinamente.” III.36. Presta atenção naquilo que Salomão notou, para que não te aconteça. “Mesmo com ele que provocou um homem dormindo para fora de seu pesado sono, tal é aquela pessoa que declarou sabedoria a um tolo, pois no fim de sua fala ele dirá: o que tu disseste no início? Limpa teu coração (como está escrito) da malícia, oh, Jerusalém, que tu poderás ser salva.” Não desprezes (eu rogo a ti) a indizível misericórdia de Deus, chamando, por seu profeta, o perverso no caminho de suas ofensas: “Eu vou dizer rapidamente para a nação e para o reino, que eu devo extirpar, e dispersar, e destruir, e subjugar.” Como um pecador, ele manifestou, em sua sábia exortação, desejo veemente de arrepender-se: “E se o mesmo povo arrepender-se de suas ofensas, também irei me arrepender do mal que disse que faria a ele.” E novamente: “Quem dará a eles tal coração para que eles possam me ouvir e manter meus mandamentos, e para que eu esteja com eles todos os dias de suas vidas?” E também no Cântico do Deuteronômio: “um povo sem conselho e prudência, eu desejaria que eles fossem sábios, e compreendessem, e previssem, no fim de tudo, como um persuadiu mil e dois puseram em fuga dez mil.” E novamente Nosso Senhor no Evangelho: “Venham até mim, todos vós que trabalhais e carregais vossos fardos, e eu vos farei descansar. Carregai meu balancim e aprendai comigo, pois eu sou dócil e humilde de coração, e achareis repouso para vossas almas.” Portanto, se tu viras um ouvido surdo a esses avisos, desprezas os profetas, desprezas Cristo, e não te importas conosco, humilde pensamento nós teremos, tanto quanto sincera piedade e pureza de mente carregaremos, dizendo como o profeta, que não seremos “mudos cães, inábeis de latir” (no entanto eu, por minha parte, talvez não seja daquela singular fortaleza no espírito e virtude de Nosso Senhor, ao declarar “para a casa de Jacó seus pecados, e para a casa de Israel, suas ofensas”). Devemos lembrar ainda de Salomão: “Aquele que diz que os perversos são justos, deve ser amaldiçoado dentre o povo, e odiado pela nação, pois aqueles que reprovarem devem ter melhores esperanças.” E novamente: “Respeita, não com reverência, teu vizinho em sua ruína, nem sê paciente em falar em tempo de salvação.” E também tanto quanto nós esquecemos isso, “Extirpa aqueles que são levados à morte, e não sê paciente em redimir aqueles que são assassinados” pois, como o mesmo profeta diz, “Ricos não devem ter vantagens no dia da ira, mas justiça trazida pela morte.” E “Se o justo for realmente salvo, onde devem aparecer o perverso e o pecador? Se, como eu disse, nos desprezas, (nós) que obedecemos a esses textos, a negra torrente do inferno deverá sem dúvida eternamente afogar-te em seu mortal redemoinho e naqueles terríveis jatos de fogo, que devem sempre atormentar-te e nunca consumir-te. Então será tarde: a confissão de tuas dores e as lamentações por teus pecados será inútil para ti, pois agora, neste tempo e dia de salvação aceitos, adiaste tua conversão a um modo de vida mais correto. III.37. Eu vou ressaltar brevemente as ameaças denunciadas contra esses cinco lascivos cavalos, frenéticos seguidores do faraó, através dos quais seu exército é lançado obstinadamente para total destruição no Mar Vermelho. Também ressaltarei as denúncias contra alguns outros, pelos sagrados oráculos, cujos sagrados testemunhos o quadro desse nosso pequeno trabalho é, como foi, relacionado, sujeito não aos mostradores dos invejosos, pois, de outra maneira, rapidamente se realizariam. Deixa, portanto, os sagrados profetas de Deus, que são para os homens mortais a boca de Deus e órgão do Espírito Santo, proibindo o mal, e favorecendo a bondade; responde para nós, tanto agora quanto antigamente, contra os obstinados e orgulhosos príncipes de nossa era, grandes terrores de nossa invenção, para que eles não possam dizer que os ameaçamos de tal forma e com impetuosa e entusiasta intromissão. Pois não é duvidoso para nenhum homem sábio o quanto são mais aflitos os pecados de nosso tempo que aqueles da era primitiva, quando o apóstolo disse: “Qualquer um transgredindo a lei, sendo condenado por duas ou três testemunhas, deve morrer. Que pior punição tu pensas que ele mereceu, quem deve calcar aos pés do Filho de Deus?” III.38. Não, verdadeiramente, mas quebrou em parte um dos mandamentos de Deus, pois, como um de nossos escritores diz, “A questão não é a qualidade do pecado, mas da violação do preceito.” Também o quanto ele empenhou-se em responder (como pensou) as objeções de Samuel com a maneira do homem sabiamente pede desculpas para suas ofensas desta maneira: “Sim, eu obedeci a voz de Nosso Senhor, e andei no caminho que pensei que Ele havia mandado”, com essa reprimenda foi ele corrigido: “O quê! Teria o Nosso Senhor oferendas queimadas ou oblação? Não seria melhor que a voz de Nosso Senhor fosse obedecida?” Obediência é melhor que oblações, e é melhor ouvi-Lo que oferecer a gordura dos carneiros . Pois tanto isso é o pecado de prever a resistência quanto é ofensa à idolatria não obedecer; em arrependimento, portanto, que tu tenhas lançado a palavra de Nosso Senhor. Ele também lançou a palavra que tu não serias rei. E um pouco depois: “Nosso Senhor tomou neste dia o Reino de Israel de ti e entregou-o para teu vizinho, um homem melhor que tu. O triunfador de Israel realmente não dispensará e não será dobrado em arrependimento, nem mesmo é um homem que poderia arrepender-se;” isto é, dizer sobre os corações de pedra dos perversos. No entanto, deve-se notar o que ele disse, que ser desobediente a Deus é pecado de idolatria. Não deixe, portanto, nossos perversos transgressores (enquanto eles não sacrificam abertamente para os deuses do gentio) lisonjearem-se que não são idólatras, enquanto pisam com seus pés e como porcos as mais preciosas pérolas de Cristo. III.39. Deixa tua mãe, eu rogo a ti, ser virada contra mim, e contra a casa de meu pai; ele teria expiado pelo desaconselhado contentamento de seu coração com sua própria morte. Pois o que a escritura mais tarde declara de seu filho? Salomão escreveu o que não era aprazível ao Nosso Senhor e não encheu a medida de seus bons atos seguindo o Senhor como seu pai Davi. E Nosso Senhor disse a ele: “Porque te comportaste dessa maneira e não observaste minhas conveniências e percepções para as quais havia te comandado, quebrando isso em pedaços, eu vou dividir teu reino e dar o mesmo ao teu servo.” III.40. De que forma ele também ameaçou aquele perverso rei de Israel, uma útil companhia do antigo, cujo conluio e engano sua esposa, a inocente Naboth, foi posta morta pelo vinhedo de seu pai, quando a sagrada boca de Elias, sim, a mesma boca que foi instruída com a ardente fala de Nosso Senhor, disse a ele dessa maneira: “Tu mataste e tomaste posse, e após isso ainda querias mais? Assim disse Nosso Senhor, neste mesmo local: onde os cães lamberam o sangue de Naboth, eles devem também lamber o teu sangue.” Depois isso aconteceu exatamente dessa maneira, como temos algumas provas. Mas ao menos dessa maneira (como aconteceu a Ahab também) o repousado espírito, o qual pronunciou vãs coisas nas bocas de seus profetas, pode seduzir-te, ouvindo as palavras do profeta Micaia: “Observa que Deus permitiu ao espírito possuir as bocas de todos os teus profetas que restam aqui, e o Nosso Senhor pronunciou o mal contra ti.” Pois mesmo agora é certo que haja alguns mestres inspirados com um espírito contrário, pregando e afirmando o que é aprazível, no entanto certamente depravando. Mestres cujas palavras são mais macias que óleo e dardos que dizem paz, paz. Então não haverá paz para aqueles que perseveram em seus pecados, como também lembra o profeta: “Não deve o perverso regozijar, disse Nosso Senhor.” III.41. O que foi dito para Jeroão, o filho do supracitado Jehosaphat, aquele mais horrível assassino (que, sendo um bastardo, matou seus nobres irmãos para que possuísse o trono no lugar deles), pelo profeta Elias, quem foi a carruagem e quem foi o condutor de Israel?” Assim falou o Nosso Senhor do teu pai Davi. Porque tu não andaste no caminho de teu pai Jehosaphat, e nos caminhos de Asa, o rei de Judá, mas andaste nos caminhos dos reis de Israel, e em adultério de acordo com o comportamento da casa de Ahab, e mataste teus irmãos, os filhos de Jehosaphat, homens de longe melhores que tu, observa, Nosso Senhor deve atacar a ti e tuas crianças com uma poderosa praga.” E pouco depois: “E tu deverás ficar muito doente de uma doença de tua barriga, até tuas entranhas devem, juntas a tua doença, dia a dia, tomar-te.” E ouve também o que o profeta Zacarias, o filho de Jehoiades, ameaçou a Joash, o rei de Israel, quando ele abandonou Nosso Senhor como tu agora fazes, e o profeta disse dessa maneira ao povo: “Assim disse Nosso Senhor, por que vocês transgridem os mandamentos de Nosso Senhor e não prosperam? Porque vocês deixaram Nosso Senhor, Ele também deixará vocês.” III.42. E pouco depois, com ameaças respondidas por tão grande loucura, ele disse, “A filha de Sião deve ser totalmente deixada como um tabernáculo no vinhedo, e como um casebre no jardim de pepino, e uma cidade que é saqueada.” E especialmente, convocando e acusando a princesa, ele disse, “Ouça a palavra de Nosso Senhor, oh princesa de Sodoma, compreenda a lei de Nosso Senhor, oh povo de Gomorra.” No entanto, deve ser notado, aqueles injustos reis são denominados príncipes de Sodoma e Nosso Senhor proibiu que sacrifícios e oferendas sejam oferecidos a Ele por tais pessoas. Vendo que nós avidamente recebemos tais ofertas as quais em todas as nações são desprezadas por Deus, e para nossa própria destruição, permitimos que sejam distribuídas aos pobres e necessitados, Ele fala assim os que, carregados de ricos, são de igual forma dados a ofender: “Não ofereça mais seu sacrifício em vão, seu incenso é abominação para mim.” E novamente os denuncia assim: “E quando tu juntares as mãos, eu virarei meus olhos de ti, e quando tu multiplicares tuas orações, eu não ouvirei.” E ele declarou pelos lugares onde faz isso, dizendo: “Suas mãos estão cheias de sangue.” E igualmente mostrando como ele poderia ser satisfeito, diz: “Esteja lavado, esteja limpo, tire o mal de seus pensamentos, de meus olhos; cesse de fazer o mal, aprenda a fazer o bem; procure, pelo julgamento, socorrer os oprimidos, faça justiça ao pupilo e ao órfão.” E então, assumindo isso como parte de um mediador de reconciliação, ele adiciona: “Embora seus pecados sejam escarlate, eles devem ser feitos brancos como a neve; embora eles sejam vermelhos como o pequeno verme, eles devem ser brancos como a lã. Se você quer me ouvir, deve se alimentar das coisas boas da terra; mas se não, provoque-me a ira, a espada deve devorá-lo.” III.43. E logo após: “Os olhos do homem altivo devem ser trazidos para baixo, e a altura do homem terá se curvado para baixo.” E novamente: “Mágoa ao perverso, que o mal caia sobre ele, pois ele deve ser recompensado de acordo com o seu trabalho.” E um pouco depois, “Mágoa a você que levanta cedo para seguir a embriaguez e para beber até o fim da tarde, que você fumegue com vinho. A harpa, a lira e o tambor, e a flauta e o vinho estão em seus banquetes, e você não respeita o trabalho de Nosso Senhor, nem considera o trabalho de suas mãos. Portanto é o meu povo deixado cativo, porque eles não tiveram conhecimento, e seus nobres pereceram com a fome, e sua multidão murchou com a sede. Portanto o Inferno aumentou e dilatou em seu espírito, e sua boca abriu sem medida, e os seus fortes, seu povo e seus altivos e gloriosos, devem descer com ele.” E, logo após: “Mágoa a vocês que são poderosos por beberem vinho e homens fortes pela procura da embriaguez, que justificam os perversos por recompensas, e privam os homens justos de sua justiça. Por essa causa, como a língua de fogo devorou o restolho e como o calor da chama queimou, tuas raízes devem ser como as cinzas e seu ramo deve crescer como a poeira. Pois eles lançaram a lei de Nosso Senhor das hóstias e desprezaram a fala do sagrado de Israel. Em tudo isso a fúria de Nosso Senhor não é virada de lado, mas sua mão é mais apertada ainda.” |
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