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Poema V de Guilherme de Aquitânia
(1071-1127)

Iluminura 137 do Codex
Manesse.
I.
Farei um verso, pois tenho um sonho.
Vou-me e estou ao Sol.
Há damas com maus propósitos,
e sei dizer quais:
são aquelas que o amor do cavaleiro
levam a mal.
II.
Não comete pecado mortal a dama
que ama o cavaleiro leal;
mas se ela ama o monge ou o clérigo,
fá-lo sem razão:
pela Justiça deveria ser queimada
com um tição.
III.
Para a Alvérnia, perto do Leimosin,
fui totalmente só, apenas com uma capa.
Encontrei a mulher de Dom Guarin
e a de Dom Bernardo.
Saudaram-me muito agradavelmente,
por São Leonardo. [2]
IV.
Uma disse-me em seu latim:
“Deus vos salve, Dom peregrino!
Parece-me de bela cepa,
é minha opinião,
embora vejamos ir pelo mundo muita
gente louca”.
V.
Agora direis o que eu respondi:
não lhe disse nem que sim, nem que não,
nem que ferro, nem que madeira,
mas somente
“Babariol, babariol,
babarian”. [3]
VI.
“Irmã”, disse Dona Agnes à Dona Ermesina,
“Encontramos o que queríamos!”
“Irmã, pelo amor de Deus, alberguemo-lo,
pois ele é totalmente mudo,
e por ele nosso propósito
não será conhecido”.
VII.
Uma me tomou sob seu manto
e me colocou em seu quarto, perto da lareira.
Saibais que a mim foi bonito e belo,
o fogo foi bom,
e me esquentei à vontade
junto a grossos carvões.
VIII.
Para comer me deram frango,
e saibais que foram mais de dois.
Ali não havia cozinheiro nem ajudante,
somente nós três.
O pão era branco, o vinho era bom,
e a pimenta da grossa. [4]
IX.
“Irmã, se este homem é engenhoso,
e deixa de falar por nossa causa,
tragamos nosso gato ruivo
logo,
que ele logo falará,
se mente em algo”.
X.
Dona Inês foi buscar o odioso.
Ele era muito grande e com longos bigodes. [5]
E eu, quando o vi entre nós,
espantei-me tanto
que por pouco não perdi o valor
e a coragem.
XI.
Após termos bebido e comido,
eu me desnudei à sua vontade.
Por trás me colocaram o gato,
mau e traiçoeiro.
Uma o arrastou, das costas
até os calcanhares.
XII.
Pelo rabo, de improviso,
ela tirou o gato, e ele me arranhou,
chagas ele me causou, mais de cem,
daquela vez.
Mas eu não teria me movido,
mesmo que alguém me matasse.
XIII.
“Irmã”, disse Dona Agnes à Dona Ermesina,
“Claro está que ele é mudo”.
“Irmã, preparemo-nos para o banho
e para o descanso”.
Por oito dias, talvez mais, eu estive
naquele forno.
XIV.
Tanto as fodi, tal como ouvireis,
cento e oitenta e oito vezes.
Por pouco não rompi minhas correias
e meu arnês. [6]
E não vos posso dizer o mal-estar
tão grande que me tomou.
XV.
Monet, tu irás pela manhã,
levando meu verso na bolsa.
Leva-o direito às mulheres de Dom Guarin
e de Dom Bernardo,
E diga que, por meu amor,
matem aquele gato. [7]
*
Notas
[1] Tradução
feita a partir da edição Guillermo IX. Duque de Aquitania
y Jaufré Rudel. Canciones completas (edicion bilingue preparada
por Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira). Madrid: Editora Nacional,
1978, p. 42-49.
[2] O São Leonardo
que se refere o poema é, provavelmente, São Leonardo de
Noblac, um dos santos mais populares da Europa central. A lenda conta
que ele nasceu no tempo de Clóvis e que, ao invés das armas,
ele preferiu colocar-se sob a proteção de São Remígio.
Tornou-se um eremita e, mais tarde, conseguiu do rei Clóvis, que
fosse edificado um mosteiro em um terreno que ele conseguisse percorrer
montado em um burro.
[3] “Babariol, babariol,
Babarian”, provavelmente o som emitido por um mudo.
[4] A alusão à
pimenta, naturalmente, evoca o ardor do sexo, e serve como um prelúdio
ao que irá acontecer depois.
[5] O odioso gato tem
longos bigodes: mais uma alusão sexual.
[6] O amor cortês
sempre faz referências aos feitos de armas. Aqui, no caso, o armamento
do cavaleiro é uma metáfora ao seu pênis.
[7] O poema termina de
maneira bastante irônica, pois sugere que as duas irmãs saberão
que o peregrino não era mudo!
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