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Poema X de Guilherme de Aquitânia
(1071-1127)

Detalhe de uma iluminura das Cantigas de Santa
Maria (Códice E).
I.
Com a doçura do novo tempo,
o bosque se cobre de folhas, e os pássaros
cantam, cada um em seu latim,
conforme o verso do novo canto,
quando está bem que cada um se torne
aquilo que mais deseja. [2]
II.
Do lugar que me parece bom e belo,
não vejo chegar nem carta, nem mensageiro.
Por isso, meu coração não dorme, nem ri,
nem me atrevo a seguir adiante
até que esteja certo do fim,
se ele será assim como eu desejo.
III.
Com nosso amor ocorre o mesmo
que o galho branco do espinheiro
que está queimando sobre a árvore
de noite, com a chuva congelada,
até que, no dia seguinte, o Sol se ponha
pelas folhas verdes e a relva.
IV.
Ainda me lembro de uma manhã
em que nós pusemos fim à nossa guerra.
Ela me deu um dom tão grande
que se deu a mim como amante, e também seu anel.
Que Deus me deixe viver ainda,
para que eu ponha minhas mãos sob seu mantel! [3]
V.
Que eu não me preocupe com estranhos latidos
que me separem de meu Bom Vizinho.
Pois sei como as palavras vem e vão,
e, como diz um breve sermão,
"Que outros se gabem de seus amores,
que nós temos o pão e a faca." [3]
*
Notas
[1] Tradução
feita a partir da edição Guillermo IX. Duque de Aquitania
y Jaufré Rudel. Canciones completas (edicion bilingue preparada
por Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira). Madrid: Editora Nacional,
1978, p. 70-73.
[2] O poema inicia com
o clássico tema do locus amoenus, lugar comum na poesia
medieval. Para isso, veja Ricardo da COSTA,
[3] Nesse momento - em
que termina a guerra entre os amantes - o poema distende sua tensão
e revela a satisfação do poeta, por ganhá-la como
amante e também a seu anel, passagem que pode ser entendida tanto
literalmente quanto metaforicamente (isto é, que os amantes chegaram
às vias de fato, já que, a seguir, o poeta faz uma referência
aos comentários maldosos dos invejosos).
[4] "Que nós
temos o pão e a faca", isto é, temos tudo o que é
necessário para gozar.
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