Crônica de Hainaut (c. 1171-1195). Parte IV
Gislebert de Mons
Tradução: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)
Revisão: Prof. Dr. Francisco Vieira
A morte de Isabel de Flandres

Na Quaresma do ano do Senhor de 1182, na semana da penitência que procede a Páscoa, faleceu a nobilíssima condessa de Flandres e de Vermandois, Isabel, esposa do conde Filipe, amada sobremaneira por todos os homens de Flandres e Vermandois. O conde Filipe sentiu grande pesar por essa morte, pois temia perder Vermandois. Por isso avisou o conde de Hainaut para acudir a seu Conselho. O rei da França se preparou, apoiando a condessa de Beaumont, Aenora, irmã da falecida Isabel, a tomar possessão das terras de Vermandois e de Le Valois. Durante a Páscoa, o conde Balduíno V de Hainaut acudiu em auxílio ao Conselho do conde de Flandres em seu novo castelo de Beauquesne.

O conde Balduíno, que jamais havia faltado a seu dever de auxílio, se declarou disposto a dirigir-se até Saint Quentin e a Chauny com o exército reunido em Flandres, mas os homens de Flandres se negaram. Então, o conde Balduíno enviu com urgência núncios a seu condado de Hainaut para que mandassem vir todos os seus homens a cavalo ou a pé. Estes acudiram prontamente em auxílio do conde de Flandres. O conde de Flandres, o de Hainaut, o rei da Inglaterra, Henrique, o Velho, [122] e seu filho, o rei Henrique, o Jovem, [123] se reuniram em um colóquio em Gerberoy. Ali se acordou a celebração de outro colóquio na Páscoa de 1183, entre a cidade real de Senlis e o castelo de Crepy, em um lugar chamado La Grange de Saint Arnoul, entre o rei Filipe da França [124] e o conde de Flandres, com a mediação do rei da Inglaterra e um representante enviado pela França. Com a esperança de uma futura paz, o conde de Flandres e o de Hainaut deram contraordem a seus respectivos exércitos.

Naquela reunião foram mediadores o rei da Inglaterra, Henrique, e seu filho Guilherme, arcebispo de Reims, os condes Teobaldo e Estêvão, o duque de Borgonha e o conde de Hainaut. Todos desejavam a paz entre o rei e o conde e por isso chegou-se a um acordo: o conde Filipe de Flandres reteria toda a terra de Vermandois e Le Valois em fiança por quatorze mil libras do dinheiro de Châlons. Na realidade, o conde não queria redimir essa fiança mas prometia fazê-lo quando pudesse. Tratava-se de um simulacro: a renúncia à herança por parte do conde de Flandres deveria parecer menos dura. [125] Naquele ano, o conde de Flandres, que havia retido Vermandois e Le Valois à sua vontade, entregou Le Valois à condessa de Beaumont, Aenora, convencido de sua generosidade e com a condição mutuamente aceita que ele o possuiria, como havia feito o conde Raul, em paz, enquanto vivesse.

Naquele tempo, o jovem rei Henrique da Inglaterra, cavaleiro de grande probidade, mantinha ao seu redor como companheiros de armas muitos cavaleiros de grande valor, vindos de todas as partes. E a todos quantos podia atrair, lhes dispensava bens com liberalidade. Como não possuía nenhuma terra, nem por herança materna nem paterna, alçou-se contra um de seus irmãos, reclamando sua terra. Tratava-se de Ricardo. [126] Seu pai, o rei Henrique, duque da Normandia e conde de Anjou, lhe ofereceu auxílio. Mas quando o jovem rei Henrique tirou de seu irmão Ricardo muitos castelos e grandes vilas e ganhou muitos poderosos para a sua causa, pois seu irmão não era amado por muitos, caiu gravemente enfermo e faleceu no burgo de Martel.

Em agosto desse mesmo ano, a condessa Margarida de Hanaut empreendeu uma peregrinação a Saint Gilles, partiu feliz de Mons e regressou sã e incólume no dia seguinte da festa de Santa Lúcia.

Nesse ano, Gautier de Fontaine, cavaleiro probo, formoso e sábio, conselheiro e amado companheiro de armas do conde de Hainaut, caiu enfermo em Mons. Tomou então o hábito da ordem da abadia de Alne e pouco tempo depois morreu monge.

Nesse mesmo ano, o conde Balduíno V de Hainaut, que queria conseguir o favor do imperador de Roma em relação às terras de seu tio, o conde de Namur e Luxembugo, enviou dois legados à sua corte: o cavaleiro Gosuíno de Thulin, homem muito discreto e eloqüente, e Gautier de Steenkerque, cavaleiro muito probo. Enquanto isso, Jacob de Avesnes, que já se encontrava junto ao imperador, tentou conseguir o condado de Larouche para si e para seu irmão, Wery de Walcourt. O imperador recebeu os núncios do conde de Hainaut dignamente e ordenou que dissessem ao conde para vir pessoalmente.

Então o conde Balduíno V tomou para si homens probos e discretos: Rainier de Lacea, Eustáquio de Roeulx, o Velho, e seu filho Eustáquio, o Jovem, Otão de Trazegnies, Nicolau de Barbençon, Amando de Prouvy, Rainier de Trith, Hugo de Croix, Gosuíno de Thulin, Gautier de Steenkerque, João Cornudo e Nicolau, o Monge, e chegou com eles diante o imperador em Hagenau, na Alsácia, no domingo de Letare Jerusalem, após atravessar Namur – onde seu tio, o conde, lhe entregou cartas deprecatórias para o imperador – Durbuy, Laroche, Luxemburgo, Trevers, Tholey, Hornbach – onde caiu enfermo o mui nobre Rainier de Lacea, que formava parte do séquito, morrendo pouco tempo depois (o enterraram ali mesmo, na abadia dos monges) – Bitche e Caste. O imperador e seus filhos – Henrique, que era rei mas ainda não era cavaleiro, e Frederico, duque da Suábia – receberam o conde Balduíno benignamente e lhe concederam seu favor em relação a todas as possessões do conde de Namur. E para que a petição fosse feita solene e oficial, fixaram um dia, o de Pentecostes, na cidade de Mogúncia, onde os filhos do imperador seriam ordenados cavaleiros.

Além disso, propuseram a ele que participasse do torneio que seria celebrado na oitava de Pentecostes seguinte, em Ingelheim, e lhe rogaram encarecidamente que estivesse presente. O conde aceitou diligentemente e prometeu que assistiria à corte em Mogúncia e ao torneio. Regressaram de Hagenau através da abadia de Seltz, Spira, Worms, Sponheim, Kirchberg (que era terra de seus consanguíneos, os filhos do conde Raul, Henrique, Simão e Luís, cavaleiros, e Alberto, Godofredo e Frederico, clérigos), Trevers e Luxemburgo. Simon de Sponheim, cavaleiro de grande probidade e consanguíneo do conde Balduíno, foi quem lhes deu escolta no caminho de ida desde Trevers até a corte de Hagenau e no de volta dali até Trevers.

Durante esse ano do Senhor de 1183, como o conde Balduíno V de Hainaut auxiliava o conde de Flandres contra o rei da França na guerra pelo auxílio que se encontrava comprometido, sua filha, a rainha Isabel da França, foi criticada injustamente pelos francos. Confabularam contra ela um plano maligno. Em Senlis teve lugar uma assembléia de homens malvados que se propunham conseguir o divórcio entre ela e o rei, sem que a rainha, seu pai, o conde de Hainaut, e o conde de Flandres soubessem. A favor desse divórcio trabalhavam alguns dos homens mais poderosos da França: o arcebispo Guilherme de Reims, o conde Teobaldo e o conde Estêvão, tios do rei da França, o duque Henrique da Borgonha, o conde Raul de Clermont e todos os principais conselheiros. No dia que se quis levar a cabo o divórcio, a rainha Isabel se despojou de seus preciosos vestidos, vestiu-se humildemente e começou a percorrer descalça todas as igrejas da cidade, exortando nelas ao Deus Altíssimo para que a livrasse dos maus conselheiros do rei que confabulavam contra ela.

Então os leprosos e todos os pobres da cidade, vendo os maus tratos que a rainha recebia, confluíram para o palácio real e começaram a orar a Deus, podendo ouvir-lhes o rei e os seus, para que confundisse os inimigos da rainha e a livrasse de suas más artes. O Senhor Onipotente, voltando-Se para seus humildes escravos, inspirou alguns homens para que saíssem em ajuda da rainha. E assim, Roberto, conde de Braisne, tio paterno do rei da França e seus filhos, Roberto, conde de Dreux, Filipe, bispo de Beauvais e Henrique, bispo de Orleans, intervieram no Conselho a favor da rainha de forma que o rei voltou atrás em seus maus propósitos e não se divorciou. Contudo, manteve-se distante da rainha em seu tálamo e em sua dívida conjugal.

Entretanto, voltaram a acontecer conflitos entre o conde de Flandres e o rei da França. Por causa disso, no fim da Páscoa de 1184 celebrou-se um novo colóquio próximo da cidade de Rouen, em uma casa no meio do bosque que pertencia aos irmãos da Ordem de Grandmont, e assistiram a ele o rei da Inglaterra, Henrique, o Velho, e o conde de Flandres. Junto a este último se encontrava também o conde de Hainaut. O rei da Inglaterra reclamava do rei da França que o conde de Flandres colocara em mãos da Ordem de São João de Jerusalém, enquanto vivesse, os castelos de Thourotte e Choisy, e que a terra restante de Vermandois fosse confiada em vida pelos príncipes da França a este conde. Este acordo aconteceu devido ao prazer do conde, mas Jacob de Avesnes, que era então seu principal conselheiro, se opunha, dizendo que se o conde Filipe cedesse um só palmo de Vermandois ao rei da França, ele não lhe seria fiel por mais tempo nem permaneceria ligado à sua homenagem. E assim, sem firmar paz alguma, o conde de Flandres regressou à suas terras e as relações permaneceram tensas.

O conde Balduíno V de Hainaut, trabalhando continuamente para conseguir a paz, dirigiu-se ao castelo de Bethisy, onde também acudiu o rei, mas não chegaram a nenhum acordo de paz nem à concessão de nenhuma trégua. Dali foi a Pontoise visitar sua filha, a rainha da França, pois fazia muito tempo que não a via. Isabel, ilustre rainha da França, mulher santíssima, desfazendo-se em lágrimas, rogou então a seu pai e aos companheiros de armas que o rodeavam que se compadecessem dela e ajudassem seu senhor, o rei, que por muito tempo ofendia a causa do conde de Flandres, para que deste modo ela pudesse ser mais querida por seu senhor, o rei, e por todos os francos. O conde, seu pai, lhe respondeu que faria por ela e pelo rei da França o que estivesse a seu alcance, sempre e quando a fidelidade devida estivesse a salvo. Contudo, alguns invejosos e malvados disseram ao conde de Flandres que o de Hainaut havia firmado uma confederação com o rei da França e lhe havia prometido auxílio contra o de Flandres. Por culpa desses, o conde Filipe suspeitou e desconfiou do conde de Hainaut, sem ele o saber.

A reunião na corte de Mogúncia

Aproximando-se o tempo de Pentecostes, o conde de Hainaut se dispôs partir à corte de Mogúncia para fazer a petição de sua herança perante o imperador. Como o conde de Flandres tinha que enviar núncios àquela corte, o conde Balduíno lhe rogou, ignorando as suspeitas do de Flandres, que através daqueles ele intercedesse por ele junto ao imperador e seu consanguíneo, o rei Henrique. O conde Filipe concedeu isso e prometeu proceder desse modo. Contudo, se pudesse, por meio de seus núncios, Gerardo, clérigo de Messines, secretário do conde e Raul, cavaleiro de Hazebrouck, ele teria causado grande dano ao conde de Hainaut, apesar de haver prometido ajuda.

O conde de Hainaut chegou à corte na véspera de Pentecostes, depois de atravessar Namur, Liège, Aix-la-Chapelle e Conflent, com um grupo de homens probos e discretos, entre os quais se encontravam Eustáquio de Roeulx, o Jovem, Otão de Trazegnies, Gautier de Wavrin, Nicolau de Barbeçon, Rainier de Trith, Hugo de Croix, Amando de Prouvy, Pol de Villeirs, Godofredo de Esch, que é de um castelo que se encontra em Ardenas, Nicolau, o Monge, Gautier de Steenkerque e Henrique, irmão do conde de Hainaut e cavaleiro novo, todos eles ornados com vestidos de seda.

O séquito do conde de Hainaut era grande e honesto, levava muitas baixelas de prata e todas as outras coisas necessárias, e formavam parte do mesmo muitos serventes honestamente ornados. O conde de Hainaut se encontrava rodeado também por muitos nobres das terras de Luxemburgo. O imperador ordenou que fixassem sua tenda e as de todos que chegavam no prado de Mogúncia, do outro lado do Reno. Ali ordenou que construíssem as casas que faltavam. E assim o conde de Hainaut se instalou entre muitas e belas tendas.

Naquela corte acudiram príncipes, arcebispos, bispos, abades, duques, marqueses, condes e condes palatinos, muitos homens nobres e ministeriais de todo o império desta parte dos Alpes. Calcula-se que se reuniram ali, em uma estimativa exata, uns setenta mil cavaleiros, além dos clérigos e homens de outra condição.

No dia de Pentecostes, o imperador Frederico e sua esposa, a imperatriz, [127] portavam as coroas imperiais como a solenidade exigia. Junto deles estava seu filho, o rei Henrique, [128] portando a coroa real. Diversos príncipes poderosíssimos reclamavam o direito de portar a espada real na coroação, entre eles o duque da Boêmia, que havia chegado à corte com dois mil cavaleiros; o duque da Áustria, Leopoldo, cavaleiro probo e generoso, acompanhado de quinhentos cavaleiros; o novo duque da Saxônia, com setecentos cavaleiros; o conde palatino do Reno, Conrado, irmão do imperador, que se encontrava rodeado de mais de mil cavaleiros e o landgrave da Turíngia, [129] homem valente e sobrinho do imperador, acompanhado de mil ou mais de mil cavaleiros. Contudo, o imperador confiou o transporte da espada ao conde Balduíno V de Hainaut. Ninguém contradisse essa decisão, pois viram que ele era cavaleiro de grande renome, que se encontrava pela primeira vez na corte e tinha muitos consanguíneos entre os príncipes mais poderosos e entre os nobres.

Na segunda feira de Pentecostes, o rei de Roma, Henrique, e o duque da Suábia, Frederico, ambos filhos do imperador de Roma Frederico, foram ordenados cavaleiros. Em sua honra recolheram cavalos, vestimentas preciosas e quantidades de ouro e prata dadas por eles mesmos, pelos príncipes e os outros nobres, para pagar resgates de cativos, para os cruzados, jograis e jogralesas.Os príncipes e os demais nobres dispensaram generosamente, não só por seus senhores, em honra do imperador e seus filhos, como também para engrandecer sua própria fama e renome.

Na segunda e terça-feira, após a comida, celebrou-se a cavalgada dos filhos do imperador, na qual se calcula que tomaram parte mais de vinte mil cavaleiros. A cavalgada se fez sem armas; os cavaleiros deleitaram-se portando escudos, lanças e bandeiras, e lançando os cavalos em uma correria sem choque. Aquela cavalgada foi feita para o imperador Frederico, ainda que não fosse fisicamente maior nem mais apropriado que os demais, que seu escudo fosse portado por algum outro, e o conde de Hainaut, que foi seu servidor naquela cavalgada, ter levado sua lança.

Ao entardecer da terça feira, um vendaval arrasou a capela do imperador e algumas das casas construídas no prado junto ao Reno. Morreram alguns homens, romperam-se muitas tendas e o pânico disseminou-se.

Naquela corte reuniram-se, como se disse, uns mil cavaleiros. Cada um dos grandes príncipes havia acudido, rodeado de muitos deles: o duque da Boêmia com dois mil, o da Áustria com quinhentos, o da Saxônia com setecentos, o conde palatinado do Reno com mil ou mais, o Landgrave da Turíngia com mil, o arcebispo de Colônia, Filipe, consanguíneo do conde de Hainaut com mil e setecentos, o arcebispo de Magdeburgo com seiscentos e o abade de Fulda com quinhentos. Isso sem nomear muitos outros príncipes, como o arcebispo de Trevers, o de Bremen, o de Besançon e o de Ratisbona; o bispo de Cambrai, o bispo Raul de Laon, o de Metz, o de Toul, o de Verdun, o de Utrecht, consanguíneo do conde de Hainaut, o de Worms, o de Spira, o de Estrasburgo, o de Basiléia, o de Constança, o de Coire, o de Wurzbourg, o de Bamberg, o de Munster e o de Hindelsheim; o abade de Kamberg, o de Lorsch e o de Prüm; os príncipes Otão, duque da Baviera e seu irmão Teodorico, conde palatino da Baviera, o ancião Welf, duque da Baviera e tio do imperador, o Landgrave da Baviera, o duque Bertoldo de Zähringen, primo do conde de Hainaut, o marquês de Meissen, o marquês de Estíria, o duque de Nancy, o conde Gerardo de Vienne-sur-le-Rhône, tio da imperatriz, o conde palatino de Tubingen e muitos outros arcebispos, bispos, abades, duques, marqueses, condes e condes palatinos, landgraves e muitos outros nobres e ministeriais, pois todos os da Baviera, Saxônia, Suábia, Francônia, Áustria, Boêmia, Borgonha e Lotaríngia haviam sido convidados para assistir.

Contudo, de comum acordo, os príncipes anularam o torneio que seria celebrado em Engelheim junto ao Reno, a duas milhas de Mogúncia.

Na corte, o conde de Hainaut tratou de todos os assuntos com o imperador. Primeiro queria chegar a um acordo com seu primo Bertoldo, duque de Zähringen, que reclamava toda a herança de seu tio, o conde de Namur, sem nenhum direito. Por parte de sua mãe, correspondiam a este duque como alódios somente os castelos. Contudo, para que reinasse a paz, o conde Balduíno V queria oferecer ao duque mil e seiscentos marcos de prata pura do peso de Colônia, a serem pagas em oito meses. Quando o imperador se inteirou disso, aconselhou o conde que não o fizesse, pois era mais provável que o duque, seu primo, morreria antes que seu tio, o conde de Namur, já que se encontrava gravemente enfermo, e Balduíno, portanto, não levou o acordo a cabo. Nesse mesmo ano morreu o duque de Zähringen e o conde de Hainaut, graças ao conselho do imperador, ganhou a prata que pensava dar ao duque.

O imperador de Roma concedeu ao conde Balduíno V de Hainaut todo o seu favor em relação aos bens do conde de Namur e lhe confirmou a doação de alódios e feudos em um privilégio redatado de acordo com o seu Conselho e disposto pelo notário do conde, Gislebert. Entre os que se encontravam nesse Conselho junto aos príncipes figuravam: o chanceler do palácio imperial, Godofredo, homem muito discreto e enérgico e que mais tarde foi bispo de Wurzbourg; o protonotário do palácio imperial, Raul, logo bispo de Verden, na Saxônia; Werner de Boladen, ministerial do Império, homem muito sábio e muito rico e que tinha muitos castelos próprios, muitas vilas e a homenagem de mil e cem cavaleiros (enquanto viveu este Werner sempre promoveu os assuntos do conde de Hainaut e teve um filho muito probo, Filipe, que morreu do outro lado dos Alpes a serviço de seu senhor, Henrique, rei de Roma); Cono de Minzenberg, também ministerial do império, rico e sábio, possuidor de castelos e outros bens em propriedade e da homenagem de muitos cavaleiros, e finalmente o conde Henrique de Dietz, homem muito sábio e devoto amigo do conde de Hainaut. E assim, naquela corte, confirmaram os bens do conde de Namur ao conde Balduíno V de Hainaut, seu sobrinho, tanto os do próprio condado de Namur quanto os de Luxemburgo e Laroche.

Na mesma corte encontravam-se os núncios do conde de Flandres que vieram rogar o auxílio do filho do imperador, o rei Henrique, assim como o do arcebispo de Colônia e de muitos outros, contra o rei da França. A ajuda lhes foi concedida por todos eles, e começaram com urgência os preparativos para a guerra que finalmente seria levada a cabo, para o mal do conde de Hainaut e em detrimento de sua terra.

O conde Balduíno V, após as negociações sobre seus assuntos, e tendo realizados todos os seus desejos e sido muito honrado na corte por todos os outros príncipes, pediu licença ao imperador para partir. Na sexta feira de Pentecostes, ele deixou a corte e regressou através de Bingen, Trevers e Luxemburgo.

O encontro do rei da França, Filipe Augusto, com o conde de Flandres

Enquanto isso, o rei da França se reuniu com o conde de Flandres, entre Compiègne e Choisy, e firmaram uma trégua, e para que fosse mantida com maior seguridade ambas as partes nomearam fiadores: o conde de Flandres pôs o conde Estêvão, tio e homem lígio do rei, que há muito tempo o ajudava contra o próprio rei. De sua parte, o rei da França, astutamente, escolheu o conde de Hainaut, sem tê-lo consultado, para semear a discórdia entre este e o conde de Flandres, e assim ter o conde de Hainaut do seu lado.

Quando o conde Filipe ouviu isso, enfureceu-se com o conde de Hainaut, mas aceitou que ele fosse o fiador do rei da França na trégua, ainda que tenha sido assegurado antes de seu consentimento, pois caso não o fizesse teria que prosseguir a guerra contra o poderoso rei até que o conde o confirmasse pessoalmente ou através de núncios fiéis.

No domingo após a oitava de Pentecostes, quando o conde Balduíno alcançou Amberloup, nas Ardenas, chegaram-lhe rumores do sucedido. Em sua ausência, o conde de Hainaut havia advertido que quando regressasse, todo o exército de sua terra deveria estar pronto para partir em auxílio do conde de Flandres, conforme o costume. Mas, estupefato com o que lhe relataram em seu regresso, enviou núncios ao conde de Flandres para que lhe pedissem que viesse falar com ele em suas terras, ou que combinassem um encontro na fronteira, ou ainda, se preferisse, que se encontrassem em algum lugar em Flandres ou Vermandois. O conde Filipe, que guardava um grande rancor com o de Hainaut, negou-se categoricamente, com escusas diferentes.

Durante essa época, o conde de Flandres, que não tinha esposa e estava desejoso de uma, começou a buscá-la incessantemente. Enviou seus legados – cavaleiros e abades – à Espanha. Estes partiram para terras distantes em busca de uma esposa para o conde e regressaram com Matilde, irmã do rei de Portugal, [130] que chegou com muito ouro e preciosos panos de seda. O conde Filipe a desposou com grande gozo e nas núpcias a dotou com muitos bens: Saint-Omer e Aire, que após sua morte deveriam ser cedidas em parte à rainha Isabel da França; Douai, L’Écluse, Orchies, Lille, Nieppes, Cassel, Fournes, Dixmude, Bergues e Bourbourg, que deveriam passar para a condessa de Hainaut e a seus filhos. Por fim, aceso pela ira contra o conde de Hainaut, acrescentou também ao dote o resto dos bens que após sua morte deveriam passar para a condessa de Hainaut e a seus filhos: Bruges, Gand, o País de Waes, Alost, Grammont, Ypres, Courtray e Audenarde.

O encontro e a guerra entre Balduíno de Hainaut e Filipe de Flandres

Naquela época regressou de Jerusalém o duque Godofredo de Louvain, pai do jovem duque Henrique. A “trégua de Lembecq” deveria ser finalizada, portanto, na festa de São Pedro. No início do mês de agosto, o conde Balduíno V convocou o auxílio de todos os seus amigos e reuniu a soldo quantos cavaleiros pôde. Propôs-se então, após celebrar um Conselho, requerir também o auxílio do conde de Flandres, pois o de Hainaut lhe havia servido sempre com muitos homens e grandes gastos.

Balduíno V tomou para si um grupo de homens probos e discretos e se dirigiu ao encontro do conde Filipe em um domingo, três dias antes da festa de São Pedro. Entre os homens que o acompanhavam figuravam Eustáquio de Roeulx, o Velho, seu filho Eustáquio, Nicolau de Barbençon, Otão de Trazegnies, Gautier de Wafrin, Amando de Prouvy, Rainier de Trith, Hugo de Croix, Balduíno, castelão de Mons, Gosuíno de Thulin, João Cornudo, Balduíno de Wattrincourt, Guilherme de Haussy e muitos outros. Ao vê-los, o conde de Flandres se mostrou confuso. Sentaram-se e permaneceram um longo tempo em silêncio por causa da perturbação do conde até que o de Hainaut tomou a palavra e advertiu o de Flandres que, tanto como confederado quanto conjurado, ele deveria ajudar-lhe a conservar sua honra e herdade contra o duque de Louvain. O conde Filipe de Flandres afirmou que lamentava as circunstâncias e rogou que desse uma trégua ao duque de Louvain e o ajudasse contra seu  inimigo mortal, o rei da França.

O conde Balduíno respondeu que não estava disposto a outorgar nenhuma trégua, mas que se ele queria levar imediatamente a cabo a guerra contra o rei da França, se declarava disposto a ajudá-lo com todas as suas forças, mas se não quisesse levar a cabo imediatamente, então ele exigia ter seu auxílio imediato contra o duque de Louvain. E assim, requerendo o conde o auxílio do de Flandres contra o duque de Louvain, pedindo-lhe este uma trégua para poder levar a cabo a guerra contra o rei da França, e o de Hainaut querendo prestar-lhe auxílio imediato, não obstante, no final o conde Balduíno de Hainaut se retirou da assembléia sem o auxílio desejado.

No dia seguinte, véspera de São Pedro, eles voltaram a reunir-se em Warde de São Remígio. Ali o conde de Flandres pediu ao de Hainaut que lhe dissesse se queria permanecer como fiador do rei da França na trégua firmada. O conde de Hainaut respondeu que, apesar de ter sido ligado ao rei da França e sem o saber, coisa feita só pela vontade daquele rei, ele estava disposto a ajudar o conde de Flandres imediatamente contra o rei e que não queria dizer isso mais vezes. Sem os condes e seus homens conseguirem chegar a um acordo, o de Hainaut foi a Tubingen no dia de São Pedro, onde seu exército encontrava-se preparado.

Acudiram em seu auxílio o bispo de Laon, Roger, primo do conde e seu irmão Rainier, com oitenta cavaleiros, o conde de Rethel, Manassés, com cento e quarenta cavaleiros, Guido de Sery e seu irmão Reginaldo de Donchery, Raul de La Thour, Godofredo de Balham, consanguíneo do conde, Roberto de Pierrepont, consanguíneo do conde, os irmãos Godofredo e Ludemar de Vienne, cavaleiros de grande probidade, e Raul de Coucy, com cinquenta cavaleiros.

No dia seguinte, chegou Jacob de Avesnes com alguns cavaleiros em auxílio de seu senhor lígio, mas sugeriu ao conde de Hainaut que concedesse uma trégua, já que os de Louvain iriam ao auxílio do conde de Flandres, e se fosse necessário, também todo o exército de Flandres. O conde Balduíno mal podia acreditar, mas aconselhado por seus homens, permitiu a Jacob que celebrasse reuniões com os duques de Louvain para tentar conseguir forças maiores que pudessem preservar seus direitos frente aos duques de Louvain e ao conde de Flandres, seu novo aliado.

Enquanto Jacob ia ao encontro do duque para falar dessas coisas e o conde de Hainaut aguardava seu regresso, o duque de Louvain, que se encontrava com seu exército em Hal, incendiou Lembecq, coisa que o conde de Hainaut não havia previsto. Em auxílio do duque de Louvain, da parte do conde de Flandres, encontrava-se Hellin de Wavrin, senescal de Flandres, com trezentos cavaleiros e muitos soldados a cavalo e a pé. Quando os cavaleiros e soldados a cavalo de Hainaut viram o incêndio atacaram rapidamente os de Brabante e entraram apressadamente na fortaleza, sem ordem de batalha, o primeiro que chegava era o primeiro que feria. Quando o conde Balduíno alcançou a ponte de Tubingen, sobre as águas do Sena, deixou passar somente alguns poucos para tentar evitar, enquanto pudesse, enfrentar os de Flandres, pois conservava ainda a esperança de obter o reconhecimento de amizade daquele que sempre serviu no que pôde, apesar de todos, os da França, os de Hainaut e os de Ardenas quisessem atravessar a ponte correndo.

Naquela disputa violenta, os poucos homens do bando do conde de Hainaut causaram grandes danos aos muitos do exército do duque, matando-os, fazendo prisioneiros e matando cavalos. Daquele conflito, que em língua vulgar se chama pognis, [131] nunca se viu ou ouvir falar em um igual a essas horas do dia; da parte do conde os mortos foram uns oitenta e os do duque trezentos e quarenta. Além disso, alguns companheiros de armas e homens do conde de Flandres foram feitos prisioneiros. No dia seguinte, graças à mediação de Jacob, a quem o conde de Hainaut imputava o incêndio de Lembecq por ter demorado tanto a chegar, firmou-se uma trégua de dois anos. No entanto, o duque nunca o respeitou. O conde Balduíno V licenciou a todos, comportando-se com grande generosidade e liberalidade com os cavaleiros que haviam atuado como fiadores; restituiu seus bens, remunerou honrosamente os mercenários e deu encarecidamente as graças a seus amigos pelo auxílio recebido.

Logo o conde de Hainaut se dirigiu a Paris, com poucos homens, ao encontro do rei da França. Ali firmou confederação com este rei contra o conde de Flandres. Como o rei também se encontrava nesse momento com poucos homens, fixaram um dia para reunirem-se em Soissons. Nesse dia o rei teria consigo muitos dos príncipes e nobres da França, e o conde de Hainaut teria convencido os homens mais probos e valentes de sua terra a confirmarem a confederação. Na data assinalada, o conde Balduíno V chegou a Soissons com cento e quarenta cavaleiros dentre os mais nobres e poderosos de sua terra, e ali, na abadia de São Medardo, aceitou a fé e o juramento do rei da França para conservar a confederação. Do mesmo modo, o rei recebeu dos homens de Hainaut igual fé e juramento. O conde de Flandres se enfureceu com isso e reuniu o maior exército que pôde contra o conde de Hainaut, convencido que algum dia o rei da França, seduzido por algum conselho pérfido, não contribuiria com seu auxílio ao conde quando este estivesse esperando.

O conde de Flandres tinha o auxílio de Jacob de Avesnes, homem duplamente lígio do conde de Hainaut, que devia estância contínua em Mons pela terra de Avesnes e em Valenciennes pela de Brabante. Que incrível traição a de Jacob!

O conde de Hainaut, que por volta do outono já temia sua perfídia, antes que a guerra iniciasse, astutamente mas em seu direito, o advertiu que deveria custodiar o castelo de Mons e exercer continuamente ali o serviço de estância e lhe assinalou um dia para acudi-lo. Jacob chegou a Mons no dia assinalado, foi aconselhado pelo conde e reconheceu seus deveres de estância nos castelos de Mons e Valenciennes diante todos os seus pares de Mons, isto é, diante Eustáquio de Roeulx, Nicolau de Barbençon, Gautier de Lens, Otão de Trazegnies, Rasão de Gavre, Ida de Jauche, Egido de Chimay, Guilherme de Quevy e Gerardo de La Hamaide, e também diante de seus pares em Valenciennes, isto é, diante Amando de Prouvy, Rainier de Trith, Nicolau de Caudry, Carlos de Fresne, filho de Luís, Oliveros de Préseau e Ida de Jauche, par também de Valenciennes.

E depois de reconhecer os serviços que devia ao conde, rogou-lhe que lhe adiasse o exercício da estância, prometendo-lhe que em qualquer momento que se encontrasse em guerra contra o conde de Flandres entregaria em auxílio os castelos que tinha por ele e lhe serviria pessoalmente junto com todos os homens dos feudos do conde de Hainaut, e também lhe daria os castelos que tinha pelo conde de Flandres, Guise e os adjacentes. O conde de Hainaut, aconselhado por seus homens, concordou, e Jacob prestou-lhe juramento na capela de Mons, deu um beijo de paz e amor ao conde, à condessa e a seus filhos Balduíno, Filipe e Henrique, e partiu com o seu beneplácito. Mas o juramento e o beijo não tardaram a ser quebrados.

Antes de se passarem quarenta dias desse juramento, o conde de Flandres levantou-se em armas contra o conde de Hainaut e Jacob colocou nas mãos do de Flandres os castelos que tinha pelo conde de Hainaut, Avesnes, Landrecies e Leuze, e depois não se horrorizou de entrar em armas em sua própria terra no mesmo dia que o havia desafiado.

O conde Filipe contava com o auxílio do arcebispo Filipe de Colônia, consanguíneo do conde de Hainaut, filho de Gosuíno de Fauquemont, e com o do duque de Louvain, Godofredo, e seu filho Henrique. Primeiramente, abasteceu os castelos para fazer frente ao rei da França, provendo-os com cavaleiros e outros homens. Logo pôs também cavaleiros e soldados a cavalo e a pé para fazer frente ao conde de Hainaut nos castelos de Grammont, Leuze, Douai, Castro, Le Cateau, Landrecies e Avesnes, e finalmente, chegando à região de Cambrai com cerca de quinhentos cavaleiros, uns mil homens a cavalo providos de lorigas e cerca de quarenta homens a pé bem armados, invadiu as terras do conde de Hainaut. No mesmo dia que desejava entrar nessa terra, ele enviou um desafio ao conde Balduíno através de um de seus cavaleiros, Lambekino de Reninghe; e Jacob de Avesnes, que desafiava seu consanguíneo e duplamente senhor lígio, enviou seu desafio através de um de seus fiéis, João de Orcha, em Hasmonquesnoit.

O conde de Flandres pernoitou em Viesly. Otão de Trazegnies o atacou à meia-noite, entrou em algumas casas, matou alguns de seus homens e fez outros de prisioneiros. No princípio, o conde de Flandres tomou algumas fortalezas menores – Solesmes, Saint-Python, Haussy – que o conde de Hainaut, por mau conselho, havia fortificado com muralhas pequenas e baixas e as havia provisto com cavaleiros que, apesar de se defendessem virilmente entre estas pobres defesas, foram, no final, feitos prisioneiros pelas forças do conde de Flandres, cerca de quarenta e cinco. O conde de Flandres não quis conservar nenhuma daquelas fortalezas, tão débeis, e incendiou completamente toda a região até Hasmonquesnoit. O conde de Hainaut havia feito arder a vila de Hasmonquesnoit para que não servisse de ponto de apoio para o exército de Flandres, e a partir dali sitiaram o castelo. Além disso, guarneceu o castelo com muitos cavaleiros e soldados a cavalo e muitíssimos a pé.

O arcebispo de Colônia, Filipe, príncipe prepotente, chegou em auxílio do conde de Flandres com mil e trezentos cavaleiros e muitos soldados a cavalo; o duque de Louvain, Godofredo, e seu filho, o jovem duque Henrique, romperam a trégua que haviam firmado com o conde de Hainaut sem haver renunciado a ela e acudiram também em auxílio do conde de Flandres com quatrocentos cavaleiros e sessenta mil homens a cavalo e a pé, atravessaram pelo bosque de Charbonnière e incendiaram a vila de Roeulx, cruzaram por Binche e passaram a noite em Estinnies. Ali, como faltavam víveres, apesar de ser sexta-feira, comeram ovelhas até fartarem-se. Dali devastaram a terra até chegarem a Belmoncel, a uma milha de Mons.

O conde de Flandres permaneceu dois dias em Hasmonquesnoit acampado em um bosque que chamam de Petit-Gay, repleto de gamos e vacas, e logo se dirigiu ao encontro do exército do arcebispo de Colônia e do duque de Louvain, atravessando Bavay e Maubeuge, e se instalando em Quevy. Não é de se estranhar que o conde de Hainaut não tenha saído a seu encontro, pois concentrava todas as suas forças para conservar os castelos. Por isso, fortaleceu Valenciennes durante esta guerra com um fosso e a guarneceu com muitos cavaleiros além dos mesmos homens da cidade; reforçou o castelo de Bouchain com cavaleiros e soldados a cavalo e a pé; em Raismes colocou soldados a cavalo e a pé, e também reforçou, como se disse, Hasmonquesnoit.

Além disso, o conde Balduíno V de Hainaut ofereceu cavaleiros, homens a cavalo e a pé e dinheiro a Balduíno de Walincourt para que fortificasse seus castelos em Walincourt e de Perwsmont, e a Egido de Busigny para fortificar Busigny; reforçou também Saint Aubert durante uns dias; enviou cavaleiros e soldados a cavalo e a pé para Monceau, para Beaufort e para Solre; abasteceu Binche com cerca de dois mil homens entre cavaleiros e soldados procedentes de Hasbanio, além de trezentos mercenários.

Eustáquio de Roeulx, o Velho, e seu filho Eustáquio, que puderam contribuir com um grande auxílio ao conde de Hainaut, se encontravam em dificuldades custodiando o castelo de Morlanwelz. De qualquer modo, quando o arcebispo e seus homens passaram por ali junto com o duque e os seus, lograram fazer prisioneiros alguns e mataram outros. Braine-le-Comte, Ecaussines, Ath, Blaton e Tubize – esta última arrebatada ao duque de Louvain em troca de Hoesnaken – foram guarnecidos de cavaleiros e soldados. Mons, onde se encontrava a condessa Margarida, que jazia na cama por causa de um parto, se encontrava rodeada por uma muralha excessivamente pequena e baixa, e por isso foi reforçada com cento e quarenta cavaleiros e balestreiros necessários para defendê-la. Para todos os soldados a cavalo e a pé que o conde havia encomendado para a defesa dos castelos contra a agressão inimiga, ele procurou tudo o que necessitavam abundantemente, sob seu próprio gasto, e para seus homens, tanto os principais quanto os demais, ele os animava com um rosto alegre, dizendo: “reconfortem-e e sejam fortes, pois nossos inimigos irão embora algum dia e deixarão nossas terras, pois não podem levar consigo.”

Nesta guerra, o conde Balduíno V utilizou cerca de trezentos cavaleiros mercenários e também uns três mil soldados mercenários, a cavalo e a pé. Encontravam-se ali trezentos cavaleiros que lhe ofereceram auxílio e estavam à expensas do conde, apesar de não estarem a soldo. Entre eles alguns vinham da França, outros da Lotaríngia.

Naquela época, o conde recebeu Balduíno Caron como companheiro de armas, um grande cavaleiro, formoso, forte e probíssimo, filho de Roger de Rumes. Este Balduíno havia abandonado o conde de Flandres por causa de uma discórdia e então o conde de Hainaut lhe entregou seiscentas libras em feudo lígio sobre Querenaing, vila próxima de Valenciennes. Entre os demais companheiros de armas que rodeavam Balduíno V se encontrava Hugo de Antoing, cavaleiro então bastante pobre, irmão de Gossuino e Guilherme de Antoing, ao qual o conde entregou livremente a vila de Attre, no Brabante, que seus antepassados haviam recebido em fiança por quatrocentas libras. Também se encontrava Balduíno de Neuville e seu irmão Eustáquio, aos quais enfeudou trezentas libras pelo que lhes consignou trinta no winage de Meubeuge. [132]

Outro companheiro de armas foi Roberto de Beaurain, cavaleiro muito probo e de renome que enfeudou as terras da vila de Forest por vinte libras. Gautier de Wavrin, cavaleiro discreto e probo em armas, recebeu em feudo lígio a fiança de setecentas libras na vila de Bellaing, próxima de Valenciennes. E a vários cavaleiros do reino da França, probos e de renome – Roberto de Conde, Gerardo de Geri e Guilherme de Pierrepont – deu-lhes feudos anuais, vinte libras a Roberto, vinte a Gerardo e vinte marcos a Guilherme.

Deve-se saber de qual forma o conde Filipe de Flandres, o arcebispo de Colônia e o duque de Louvain partiram de Hainaut e o que fez o conde Balduíno V após sua marcha. Quando o conde de Flandres, o duque e o arcebispo se encontravam com seu exército em Belmoncel, o conde de Hainaut parlamentou com o arcebispo através de mediadores, e o arcebispo insistia com o conde para que firmasse a paz, mas o conde, que sabia que faltavam víveres para seus inimigos, não respondia nada de concreto para ter tempo e conseguir a vitória, quando se viram surpreendidos pela fome.

Assim, fingindo estar meditando aceitar estes conselhos, conseguiu reter o arcebispo durante três dias somente com palavras. No final, o arcebispo e os demais se deram conta da astúcia do conde e foram embora dali. Passando entre Mons e Binche, chegaram ao bosque de Carnières, onde demoraram dois dias abrindo passo através do bosque.

No terceiro dia, o arcebispo de Colônia e o duque de Louvain chegaram de regresso a suas terras. O conde de Flandres, que atravessou o bosque com eles, regressou a seu condado através das terras do duque de Louvain; mais adiante, voltou a Ostrevant para atacar o conde de Hainaut. Durante esse tempo, Jacob atacou com força algumas fortalezas do conde Balduíno V, especialmente aquelas que mais odiava: Beaufort e Moncel.

Os poucos que se encontravam nelas resistiram virilmente. Não logrando nada ali, Jacob partiu confuso. O conde de Flandres atacou durante dois dias o castelo de Villeirs, em Warde-Saint-Remi, com cavaleiros, soldados a cavalo e a pé, balestreiros e manganeles, [133] mas os que guarneciam o castelo se defenderam viril e animadamente, e o conde teve que partir confuso e com muitos feridos. Rasão de Gavre, homem lígio do conde de Hainaut mas que também se encontrava ligado por homenagem ao conde de Flandres e o temia muito, colocou-se do lado deste e atacou gravemente a Baduíno V em Geraumont, incendiando grande parte daquelas terras e tomando a fortaleza de Ghislengien, pobre e pequena, quando então obrigou os soldados que foram feitos prisioneiros a unirem-se às suas forças.

Após a partida do duque de Louvain e do arcebispo de Colônia, o conde de Hainaut devastou a terra de Jacob no Brabante, saqueando-a e incendiando-a. Arderam setenta e duas vilas, algumas das quais pertenciam a Jacob em propriedade e outras em feudo. Ele encontrou Condé quase completamente queimada e iniciou a reconstrução da fortaleza com a intenção de possui-la para sempre. Mais tarde, contudo, graças à intervenção do rei da França, devolveu-a à Jacob, juntamente com a vila.

O rei da França havia congregado o exército em Compiègne para acudir em auxílio do conde de Hainaut contra o de Flandres. Contudo, aconselhado por homens cheios de perfídia, retrocedeu para atacar seu tio, o conde Estêvão, que o provocava para assim favorecer o conde de Flandres. O rei teria podido fazer-lhe frente através de qualquer príncipe, mas seguindo o mau conselho dos seus, abandonou o conde de Hainaut, apesar de haver firmado uma confederação com ele e ter se comprometido absolutamente a prestar-lhe auxílio.

E assim, os homens do conde, seus legados e cavaleiros que acudiram em seu auxílio não puderam sair nem entrar do condado nesta guerra, exceto através da fronteira do castelo de Thuin e de Chimay. No momento de iniciar a guerra, o conde de Hainaut pediu a seu senhor lígio, o bispo de Liège, que também era seu primo, que lhe proporcionasse o auxílio devido. Contudo, ele não quis dar. De qualquer forma, como temia o conde de Flandres, para que seus filhos Balduíno VI, Filipe e Henrique se encontrassem melhor protegidos durante a guerra, enviou-os ao castelo de Thuin, que pertencia ao bispo de Liège.

No curso da guerra entre o conde de Flandres e o de Hainaut, Jacob de Avesnes insinuou ao conde Balduíno V através de Guilherme, o Pisiere, homem seu e companheiro de armas enviado como núncio, que se algum cavaleiro ousasse afirmar que ele não havia atuado justamente contra o conde de Hainaut e que não havia faltado à sua homenagem por causas legítimas, estaria disposto a retalhiar em qualquer corte, na do rei da França ou no da Inglaterra, em um duelo judicial entre ele e o suposto cavaleiro. Isso agradou a muitos e dentre os homens de Hainaut muitos cavaleiros de grande probidade mostraram-se dispostos a defender aquele duelo. Contudo, chegado o tempo e o lugar oportunos, Jacob voltou atrás.

A guerra começou na Festa de Todos os Santos e se prolongou até o Natal. Então intermediários do conde de Flandres e do de Hainaut firmaram trégua até a oitava da Epifania, quando foram incluídos pelo conde de Flandres o duque de Louvain e Jacob de Avesnes. Durante a trégua, o conde Hainaut restituiu generosamente as fianças e os gastos dos que haviam acudido em seu auxílio e deixou os partir dando-lhes graças repetidamente e com grande benignidade. Também remunerou amplamente os serviços dos mercenários, fossem cavaleiros, soldados a cavalo, a pé ou balestreiros. Depois, no Natal, foi ao encontro do rei da França em Laon, e na oitava do Natal saiu dali com o rei e muitos outros cavaleiros probos para a reuinião que teve lugar entre Compiègne e Causiaco, com o conde de Flandres. Foi ali que Eustáquio de Roeulx, o Jovem, e Otão de Trazegnies, que haviam se preparado com grande empenho para isso, se ofereceram como voluntários para enfrentarem-se em duelo judicial  contra Jacob de Avesnes, [134] pois consideravam que haviam atuado mal contra seu senhor lígio, o conde Balduíno V de Hainaut.

Contudo, como este estava incluído na trégua pelo conde de Flandres, o conde Balduíno não permitiu que ninguém o enfrentasse sem a licença do conde de Flandres para não quebrantar a fé outorgada ao firmar a trégua. Assim, rogou publicamente a Jacob de Avesnes que prosseguissem o assunto em Valenciennes perante o conde de Flandres de forma que, sem quebrantar a fé, pudessem chegar a um acordo para um duelo. Jacob não queria  que tudo aquilo fosse adiante e preferia esconder-se na sombra indecorosa das tréguas do conde de Flandres e, por isso, recusou-se a responder conforme requeria sua condição de homem nobre e cavaleiro probo. Nesta assembléia foram firmadas tréguas até o dia de São João entre o Conde de Flandres e o rei da França, junto ao conde de Hainaut, que o auxiliava.

Naquela época, o conde Balduíno V adquiriu de um de seus homens lígios, chamado castelão de Famars, os bens que este tinha por ele: treze prebendas da igreja de Conde, as gentes do armazém de Valenciennes, um moinho também em Valenciennes, a metade da cidade de Artres, vinte e cinco homenagens de cavaleiros e todo o restante que tinha pelo conde Hainaut.

Naquele tempo, Gosuíno de Wavrin, cavaleiro muito probo e irmão de Hellin de Wavrin, senescal de Flandres, matou um soldado do conde Filipe de Flandres chamado Lamberto. Gosuíno logo acudiu à corte do conde de Hainaut, onde Balduíno V o acolheu, o nomeou companheiro de armas e naquele mesmo ano lhe entregou como esposa sua consanguínea Ada, filha de Eustáquio de Roeulx e viúva de Nicolau de Boulaere e Dreux de Boisies. Entregou-lhe ainda (...) [135] libratas de terra [136] em feudo lígio na cidade de Querenaing, próxima à Valenciennes. Nesse mesmo ano, considerando a probidade do cavaleiro Balduíno de Caron, lhe entregou como esposa Ida de Jauche, consanguínea sua e muito nobre, esposa em primeiras núpcias de Rainier de Jauche.

Nas Páscoa de 1185, antes que fosse finalizada a trégua firmada pelo conde de Flandres e o rei da França, um cavaleiro muito nobre, castelão de Péronne, pôs nas mãos do rei da França o castelo de Bray-sur-Somme, possuído há muito tempo pelo conde de Flandres e Vermandois; logo o recebeu de novo do próprio rei, reforçado com cavaleiros para ficar a salvo das ameaças do conde de Flandres. O conde Filipe de Flandres reuniu o exército, se dirigiu ao castelo e o sitiou. O rei convocou seu exército para acudir em socorro da fortaleza e dos cavaleiros que se encontravam nela, dirigiu-se a Boves-sur-Somme, próximo de Amiens, e aguardou.

De sua parte, o conde Filipe atravessou o rio com suas tropas. O exército do rei era composto aproximadamente de dois mil cavaleiros e cento e quarenta mil soldados a cavalo e a pé. O rei e o conde permaneceram ali com seus respectivos exércitos durante três semanas. Com o conde de Flandres e Vermandois encontravam-se cerca de quatrocentos cavaleiros e quarenta mil homens a cavalo e a pé; não é estranho que fossem menos do que de costume, pois ele havia disposto grande parte de seus cavaleiros e soldados em seus castelos para defendê-los do rei da França, reforçando Ribemont, Saint Quentin, Chauny, Beaulieu, Thourotte, Choisy, Ressons, Lassigny, Montdidier, Hangest, Bulles, Milly, Poix, Beauquesne, Amiens e muitos outros. Por outro lado, nenhum homem de fronteira se atrevia a acudir em seu auxílio e abandonar a custódia de seus próprios bens.

Além disso, para se defender do conde de Hainaut, o conde Filipe teve que prover de forças os castelos de Château-Cambresis, Douai, Wavrechain, Ecluse, Audenarde, Grammont e muitos outros, e também nenhum homem daquela terra se atreveu a acudir em auxílio do conde de Flandres e deixar a custódia de seus próprios bens. Faltou também ao conde de Flandres o auxílio do duque de Louvain e de suas grandes tropas, e o de Jacob de Avesnes e das suas, pois se encontravam ocupados na guerra com o conde de Hainaut. Por outro lado, ele já não podia contar com o apoio que já estava acostumado, o do conde de Hainaut, com o qual, sem dúvida, teria podido resistir ao rei.

Entretanto, o conde Balduíno V havia reunido o exército e devastado a maior e melhor parte das terras de Jacob de Avesnes, saqueando-a e arrasando-a com fogo. Naquela ocasião arderam cerca de cento e dez vilas. Dali se propôs atravessar as terras do conde de Flandres até Grammont e as terras do duque de Louvain. Encontrando-se com seu exército no prado de Boussu, próximo do rio Haine, chegaram a seu encontro legados do rei da França, que lhe rogava que acudisse com urgência e que, entretanto, se mantinha em paz com o conde de Flandres e os que o apoiava. O fato é que havia sido acordada uma reunião entre o rei da França e o conde de Flandres e Vermandois. O conde Balduíno, que se preparava naquele momento para cobrar a vingança de muitos males causados por seus inimigos, viu com grande desagrado a convocação daquela trégua e reunião. Não obstante, como estava acostumado a atuar sempre de acordo com o conselho de seus homens, e tendo visto seu parecer, atravessou as terras do conde de Flandres com escolta e licença e foi ao encontro do rei da França.

A Paz de Boves

O conde de Hainaut encontrou o rei e seu exército em Boves. Ali trataram das pazes do rei da França e do conde de Flandres. As condições foram as seguintes: o conde de Flandres devolveria imediatamente a Aenora, condessa de Beaumont, Chauny, Resignies e Lassigny, pois lhe pertenciam por herança, e lhe entregaria ainda duzentas libras anuais em winage de Roye; daria ao rei da França, com o consentimento da condessa Aenora, herdeira de toda esta terra por justiça, o condado de Amiens e todas as suas homenagens, Mondidier, com suas adjacências e homenagens, Choisy, Thourotte, as homenagens de Breteuil, de Poix, de Milly, de Bulles, de Hangest, o vice-senhorio de Picquigny, o senhorio de Boves, o de Moreuil e outros daquela região, para que os possuísse perpetuamente.

Por sua vez, o conde de Hainaut restabeleceria os laços de amor e a confederação com o conde de Flandres e voltaria a prestar-lhe a homenagem que deve pelas quinhentas libras anuais sobre o winage de Beaupame relativas à reclamação sobre a herança de Douai e a seu matrimônio com a condessa Margarida. Esta confederação deveria deixar a salvo a confederação firmada entre o conde de Hainaut e o rei da França. Por fim, Jacob de Avesnes faria as pazes com o conde de Hainaut e voltaria a render-lhe homenagem lígia.

Estas condições de paz satisfizeram muito ao rei da França, e o deixaria ainda mais satisfeito, pois ao final não só recebeu todas estas honras já mencionadas como também as cidades de Noyon, Corbie, Montreuil-sur-mer, Saint Riquier, no Ponthieu e vilas reais ligadas até esse momento ao conde de Flandres e rodeadas por seus castelos.

Contudo, o acordo não prazerou tanto ao conde Balduíno V de Hainaut, que se doía muito por tantos danos causados a ele e a seus homens e tantos gastos por causa do conde de Flandres e Jacob de Avesnes. Não obstante, é certo que destroçou a terra de Jacob em Hainaut e no Brabante, saqueando-a e incendiando-a, fazendo muitos prisioneiros e matando muitos outros. O rei lhe rogou então quase de joelhos, tratando-o como um pai e como auxílio máximo depois de Deus, que aceitasse esta paz que favorecia tanto a ele. O conde de Hainaut pensou então que aquela paz aumentava muito a honra de seu genro, o rei, e prejudicaria claramente o conde de Flandres - todo o mundo dizia naquela reunião que esse prejuízo o conde de Hainaut havia conseguido. Por isso concordou com a vontade do rei e consentiu em firmar essa paz pela qual o rei lhe prometia tantos bens, ainda que estas promessas não se cumpriram quando se encontrou necessitado.

Os castelos mencionados foram devolvidos pelo conde de Flandres e Vermandois à condessa Eleonora de Beaumont. Outros, como já se disse, passaram ao rei e a seu reino com o consentimento da condessa. Alguns eram honras próprias e outros feudos e se calcula que entre todos somavam cerca de sessenta e cinco, além da cidade de Amiens. Aqui está a origem dos males causados por Lembecq, como já se disse; o primeiro a sofrer foi o conde de Hainaut, a seguir Jacob de Avesnes e agora o conde de Flandres.

O conde Balduíno V restabeleceu sua homenagem e confederação com o conde de Flandres, mas deixou a salvo, acima disso, a que havia firmado com o rei da França. Jacob restabeleceu sua homenagem lígia ao conde de Hainaut. Este Jacob, que foi o principal conselheiro do conde de Flandres, obteve uma recompensa que o rei da França, para conseguir esta paz tão favorável a seu reino, lhe havia prometido em segredo. Muito poucos souberam disso até que o rei lhe entregou um feudo de cem libratas de terra correspondentes a Crépy-en-Laonnois. Ao duque de Louvain foi restituída Tubize, e ao de Hainaut, Hoesnacken. Uma vez firmada a paz naquela reunião, Roberto de Boves, homem nobre e de renome que havia realizado múltiplas façanhas em muitos lugares, como já se falou, ao fazer nova homenagem ao rei da França pronunciou estas palavras, para opróbio do conde de Flandres, que o odiava: “- Senhor conde, em outro tempo fui vosso homem, hoje, graças à vontade divina, me converti, por vossa causa, em homem do rei e devo julgar na mesma corte junto a vós.”

Obras de defesa

Naquele mesmo ano o conde de Hainaut elevou e proveu as muralhas de Mons com novas defesas. Reformou a torre e, para maior defesa da vila e de sua pátria, fez construir um grande fosso, derrubando muitas casas, tal como havia existido em um outro tempo. Elevou e reformou também as muralhas de Binche. Em Braine-le-Comte elevou a torre e fez construir um telhado superior. Da mesma forma, cubriu e elevou a torre de Bouchain e reformou as muralhas da vila. Elevou a torre de Raismes e a ornou com um telhado. Iniciou a construção do fosso de Valenciennes. Circundou Beaumont com uma muralha. Em Ath construiu uma muralha exterior ao redor de sua mansão. Todas estas coisas o conde de Hainaut levou a cabo, prudente e resoluto, para se prevenir da maldade de seus inimigos e adversários, já que desconfiava da maioria das promessas feitas e da fé outorgada.

- Continua -

*

Notas

[122] Henrique II (1133-1189).

[123] Dito Rex Filius (1155-1183).

[124] Filipe Augusto.

[125] O Concílio de Senlis (1184) foi convocado também para, sob o pretexto de consangüinidade, romper a união matrimonial de Filipe com Elizabeth, sobrinha de Filipe da Alsácia, união que não havia se consumado. Ver DUBY, Georges. A Idade Média na França. De Hugo Capeto a Joana D’Arc, op. cit., p. 205.

[126] Ricardo Coração de Leão (1157-1199).

[127] Beatriz de Borgonha.

[128] Mais tarde o imperador Henrique VI, rei de 1190 a 1197.

[129] Landgrave (Landgraf, conde do país). Título usado por vários condes do Sacro Império desde o século XII. Os landgraves da Alta e da Baixa Alsácia, assim como os de Breisgau, adquiriram o título porque seus condados correspondiam aos antigos condados da época carolíngia. Havia ainda landgraves da Turíngia e de Hesse. Dava-se ainda o título de landgrave a magistrados que faziam justiça em nome do Imperador.

[130] Filha do rei Afonso I de Portugal e irmã de Sancho I, morta em 1211. Em algumas genealogias aparece como Tereza e não Matilde. Ver SERRÃO, J. Veríssimo. História de Portugal. Lisboa, Verbo, 1995, vol. 1, pág. 397.

[131] Pognis = em português, pugna.

[132] Winage = Pedágio sobre o transporte do vinho.

[133] Manganeles = Máquina de guerra que lançava pedras à distância. Ver MONREAL, L. Ingeniería Militar en las Crónicas Catalanas. Barcelona, 1971.

[134] O duelo judicial também era chamado de direito de desafio ou julgamento por combate. Era um tipo de ordálio bilateral (onde as duas partes em litígio desempenhavam uma função). Este tipo de julgamento tem origem na tradição germânica. Com o passar do tempo, gradativamente o costume medieval colocou restrições ao desafio: várias comunidades concediam à corte o direito de proibir um duelo. A partir do século X, campeões pagos eram utilizados substituindo uma das partes do litígio - decorrência natural da idéia de que Deus decidia com Sua justiça o caso. Por exemplo, o imperador Oto I (912-973) decidiu a questão da castidade de sua filha num duelo de campeões.

Ao contrário do que se costuma pensar, provavelmente o duelo judicial tenha sido um método mais “racional” escolhido naturalmente para substituir a vingança privada (faida ou fehde), comum na Alta Idade Média especialmente na sociedade merovíngia, e existente ainda no século XI (em contrapartida, na História do Direito, os duelos são considerados exemplos do sistema de provas irracionais, pois se recorria a um ente superior para ajudar o juiz a fazer justiça (ver GILISSEN, John. Introdução Histórica ao Direito, op. cit., p. 715-716). O duelo judiciário subsistiu até aos séculos XIV-XV, sobrevivendo anacronicamente até o século XIX (e início do XX) no chamado duelo de honra. Para a questão da tradição do duelo de honra, ver GAY, Peter. O cultivo do ódio - a experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 17-34.

[135] Lacuna no pergaminho.

[136] Librata = Medida de terra que contribui com uma libra de renda anual.