História dos Francos (c. 591)
Gregório de Tours (c. 540-594)
Tradução: Prof. Josemar Machado (Ufes)

Livro II
Aqui começam os capítulos do Livro Segundo

I. Episcopado de Brice
II. Os vândalos e a perseguição dos cristãos entre eles
III. Cyrole, bispo dos heréticos e os santos mártires
IV. A perseguição desencadeada sob o reino de Atanarico
V. O bispo Aravatius e os hunos
VI. A basílica Saint-Etienne da vila de Metz
VII. A mulher de Aetius
VIII. O que os historiadores escreveram a respeito de Aetius
IX. O que eles contam dos francos
X. O que os profetas do Senhor descrevem a respeito dos ídolos dos gentios
XI. O imperador Avitus
XII. O rei Childerico e Egidius
XIII. Episcopado de Venerand e de Rústico em Auvergne
XIV. O episcopado de Eustáquio de Tours e de Perpétuo e a basílica de Saint-Martin
XV. A basílica de Saint-Symphorien
XVI. Namatius, bispo, e a igreja de Auvergne
XVII. Sua esposa e a basílica de Saint-Etienne
XVIII. Como Childerico veio a Orléans e Odoacro a Angers
XIX. Guerra dos saxões contra os romanos
XX. Victorius duque
XXI. Eparchius bispo
XXII. Sidônio bispo
XXIII. Santidade de Sidônio bispo e a repressão pela vingança divina das injustiças que eles sofreram
XXIV. Fome em Borgonha e Ecidius
XXV. Eurico perseguidor
XXVI. Morte de Santo Perpétuo e o episcopado de Volosien e de Vérus
XXVII. Como Clóvis conquistou o reino
XXVIII. Como Clóvis desposou Clotilde
XXIX. Seu filho primogênito, que foi batizado, morre em sua roupa de criança
XXX. Guerra contra os alamanos
XXXI. Batismo de Clóvis
XXXII. Guerra contra Gondebaud
XXXIII. Morte violenta de Godesisile
XXXIV. Como Gondebaud quis ser convertido
XXXV. Como Clóvis e Alarico se encontraram
XXXVI. O bispo Quintien
XXXVII. Guerra contra Alarico
XXXVIII. Patriciado do rei Clóvis
XXXIX. O bispo Licinius
XL. Morte violenta de Sigeberto, o velho, e de seu filho
XLI. Morte violenta de Chararico e de seu filho
XLII. Morte violenta de Ragnacaire e de seus irmãos
XLIII. Morte de Clóvis.

Começo do Livro Segundo

Como nós seguimos a ordem do tempo, nós relataremos em uma desordem completa tanto os milagres dos santos quanto os massacres dos povos. Eu não penso, com efeito, que se ache absurdo que nós relatemos a vida feliz dos santos no meio das calamidades dos miseráveis, pois não é a fantasia do escritor, mas a sucessão cronológica que o impôs.

Um leitor atento, de resto, que faz uma enquete dirigente, descobre na história dos reis de Israel que Phinée, o sacrílego, pereceu no tempo de Samuel, o justo, e que sob o reino de Davi, dito o homem da mão forte, sucumbiu Golias, o filisteu. Que se lembre também, que no tempo de Elias, o iminente profeta que parava as chuvas quando queria ou as fazia correr sob terras áridas quando desejava, ele, que com sua prece enriqueceu uma pobre viúva, houve massacres de povos, que a fome e a seca desolaram uma terra miserável. Que se lembre dos males que Jerusalém suportou no tempo de Ezequias, de quem Deus prolongou a vida por quinze anos. E também sob o profeta Eliseu, que ressuscitou dos mortos e que fez, no meio das populações muitos milagres, que massacres e misérias oprimiram esse mesmo povo dos israelitas.

Assim também, Eusébio, Severo, Jerônimo, assim como Orósio, inseriram em suas crônicas às vezes narrativas de guerras de reis e de milagres de mártires. É assim que nós mesmos compusemos, pois, nosso escrito, para que o inventário dos séculos e o cálculo dos anos até o nosso tempo sejam mais fáceis de serem descobertos em sua totalidade. Encontrando-nos onde estamos, no meio de histórias dos autores pré-citados, vamos tratar, com o socorro de Deus, dos acontecimentos que ocorreram posteriormente.

I. Após a morte do bem-aventurado Martinho, o bispo da cidade de Tours, homem iminente e incomparável nos milagres dos quais nós consagramos grandes volumes, Brice sucedeu-lhe no episcopado. Ora, esse Brice, quando estava nos primeiros anos de sua juventude, preparava freqüentemente armadilhas ao santo que estava ainda vivo, porque esse último lhe reprovava sempre por seguir seus caprichos. Foi assim que, num certo dia, quando um doente veio pedir um remédio aà São Martinho, ele encontrou Brice na praça, que era ainda diácono, e ele disse-lhe simplesmente: “Veja! Eu espero o bem-aventurado homem e eu não sei onde ele está nem o que pode fazer.” Brice respondeu-lhe: “Se é esse delirante que você procura, olhe lá; veja-o que, segundo seu hábito, contempla o céu como um demente.” Após o encontro ter acontecido, quando o pobre obteve seu pedido, o bem-aventurado apostrofou o diácono Brice: “Eu te pareço, Brice, um delirante?”

Como, escutando essas palavras, Brice, confuso, negava que tivesse tido esse propósito, o santo homem replicou: “Minhas orelhas não estavam aplicadas contra a tua boca quando você falava assim de longe? Na verdade, eu te disse: obtive de Deus que depois de mim tu acedesse à dignidade pontifical, mas saiba que durante teu episcopado você terá que suportar muitas adversidades.”

- Continua -