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Ramon Llull (1232-1316)
Derradeiro Livro sobre a Conquista da Terra Santa [1] Jesus Cristo, Nosso Senhor e Deus: a Vosso louvor, reverência e honra, começa esse livro, nomeado Livro Derradeiro. Por muito tempo o mundo permaneceu em mal estado, e ainda podemos temer o pior, pois, como são poucos os cristãos e muitos os infiéis que dia após dia se esforçam para destruir os cristãos e, ao multiplicarem-se, tomam e ocupam as terras destes, blasfemam e negam vilmente a Santíssima, Verdadeira e Digníssima Trindade e a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, para o escárnio da corte celestial, possuindo a Terra Santa. Como parece que os cristãos não desejam remediar esse malvado e injusto estado de coisas, um homem deixou tudo o que possuía, e por muito tempo trabalhou, correndo quase todo o mundo para poder impetrar do senhor papa, dos senhores cardeais e também dos outros príncipes desse mundo, remédio e ajuda para pôr fim, se possível, a uma desgraça tão grande e tão indecorosa. Esse homem procurou que o senhor papa, os senhores cardeais e também os outros príncipes mencionados dessem permissão para edificar e construir alguns monastérios, onde homens valentes e instruídos, desejosos de buscar a morte por Cristo, aprendessem e ouvissem as diversas línguas dos infiéis, e então fossem por todo o mundo pregar o Evangelho, para seguir o mandamento de Jesus Cristo, Nosso Senhor, que disse a São Pedro: “Pedro, se me estimas, pastora minhas ovelhas.” [2] Mas eu, que sou esse homem, não pude conseguir nada disso. O motivo por não ter conseguido é que o bem público não tem amigos e, se têm, são bem poucos, como está claro para todos que desejam ver a realidade, pois a devoção e a caridade estão esquecidas por quase todos. Como escrevi muitos livros que contradizem os infiéis e mostram uma Arte Geral que exalta o entendimento humano e serve para todas as ciências, esse livro será chamado O último de todos. Com ele, me escuso a Deus Pai, ao seu Justíssimo Filho e ao Espírito Santo, que sonda o coração dos homens [3], à Virgem Santíssima, mãe do Filho de Deus encarnado e à toda a corte celestial; nesse negócio não pude fazer mais do que fiz, pois estou totalmente só para tratá-lo e não encontrei ninguém que me ajudasse. No entanto, propus finalmente enviar esse Livro ao senhor papa e a alguns outros príncipes ou dirigentes da Cristandade. Esse Livro mostra a maneira como, com a graça de Jesus Cristo e se desejarem, podemos conduzir o mundo ao bom estado e congregá-lo na unidade de um só rebanho católico. Se o desejarem fazer, irá bem; de outra maneira, no que se refere a mim, sinto-me desculpado. No Dia do Juízo, me escusarei diante do Juiz Supremo, dizendo e assinalando com o dito: “– Senhor, Juiz Justo: vede aqui aqueles a quem pessoalmente e por escrito mostrei, como melhor sabia, a maneira pela qual, se desejassem, poderiam converter os infiéis e conduzi-los à unidade da nossa fé católica, recuperando o Vosso verdadeiro Sepulcro, a Cidade de Jerusalém e a Terra Santa”. Que julgamento virá sobre eles, não me é lícito saber; isso somente pertence a quem tudo sabe, desde sempre. No entanto, sei certamente e reconheço com firmeza que o poder divino não pode ser forçado a nada, nem a sabedoria divina pode ser espoliada; sei também que a justiça de Deus será grande naquele julgamento. Por tudo isso, eu dou um conselho a quem tem ouvidos para ouvir: que escute o que digo e, com fervor, guarde no seu entendimento o temor pelo grande julgamento. Da divisão desse Livro Esse livro está dividido em três distinções. A primeira trata da disputa com os infiéis; a segunda, da guerra; a terceira, da exaltação do entendimento. I. Primeira Distinção: a disputa com os infiéis A primeira parte está dividida em cinco: 1) a ordem que devemos seguir; 2) contra os sarracenos; 3) contra os judeus; 4) contra os cismáticos e 5) contra os tártaros ou pagãos. Comecemos pela primeira parte. I.1. A ordem que devemos seguir Para converter os infiéis se seguirá esta ordem: o senhor papa e os senhores cardeais elegerão um cardeal de vida santíssima, fervoroso e instruído na Sagrada Escritura, o libertarão e o eximirão dos outros trabalhos consistoriais; esse cardeal fará construir quatro monastérios fora das cidades, em lugares apropriados e agradáveis, com os bens da Igreja, dotando-os perpetuamente com rendas suficientes de tal maneira que aí possam viver os aprendizes de línguas, como disse, e aí disponham de livros suficientes e de mestres que os ensinem. As despesas seriam relativamente pequenas se comparadas com os bens da Igreja, pois há muitos bispos e prelados que, pessoalmente, poderiam cobrir essa despesa com a quinta parte de suas rendas. Nesse Livro se vê e se demonstra que o senhor cardeal, delegado do sumo pontífice para esse negócio, teria mensageiros e homens de leis que enviaria para investigar fielmente entre todo o clericato quais homens instruídos e devotos desejariam aplicar-se a aprender aquelas línguas, com vontade de suportar com grande amor e paciência esse esforço e desgosto, e, finalmente, morrer pelo Filho de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo, que não temeu sofrer a morte por eles. Uma vez encontrados esses homens, sendo ou não religiosos, eles receberiam imediatamente licença do papa para ir aos ditos monastérios e habitá-los. Parece-me suficiente que nesses monastérios viva uma comunidade de doze e um superior que complete o décimo terceiro. Restaria estabelecer que, quando dois houvessem aprendido as línguas, fossem enviados a pregar e entrassem dois novamente. Os quatro monastérios seriam assim ordenados: no primeiro se ensinaria a língua dos sarracenos, no segundo o hebraico, no terceiro a língua dos cismáticos e no quarto a dos tártaros ou pagãos. Para contratar mestres dessas línguas, o indicado senhor cardeal enviaria mensageiros aos respectivos países, onde encontrariam homens pobres que, de bom grado e atraídos pelo lucro, viriam ensinar os sobreditos homens valentes. Esses monastérios seriam construídos em terras de cristãos, próximos do mar, já que alguns fervorosos religiosos, movidos por devoção, vão algumas vezes aos países bárbaros para converter os infiéis, mas como não aprenderam a língua deles conosco, bem pouca coisa podem fazer lá. Não temos aqui efetivamente quem os instrua bem em línguas estrangeiras – e disso tenho experiência, pois fui um desses; assim, os infiéis riem e menosprezam o que eles pregam ou dizem por que se expressam de forma muito confusa pela deficiência de sua fala. De maneira semelhante, quando disputam com os infiéis mediante intérpretes, tampouco esclarecem as coisas, por que os intérpretes não captam o sentido da fé cristã nem sabem palavras suficientes para expressar nossa fé. A fé cristã começou pela pregação e foi se multiplicando pela santidade, pelo sangue e o pelo trabalho. Conseqüentemente, sua multiplicação baseia-se na força da santidade, do martírio e do trabalho. Por que não se multiplica em nosso tempo? A resposta é: não temos mártires nem trabalhadores com desejo ardente de santidade. Quem é o Senhor, o Nosso Deus? É “o que é”! [5] Não é de admirar que agora não existam milagres como havia nos tempos dos apóstolos. Ah, senhor papa, como serás bendito! Oh, senhores cardeais, que recompensa recebereis (sobretudo o cardeal que reger esse negócio)! Começais, por Deus, começais! Vem a morte e já serão passados e estudados mil anos em que esse negócio não foi melhor iniciado. As palavras não foram lamentadas nem os dinheiros escamoteados, os mesmos dinheiros que, talvez, bispos ou prelados não gastam ao serviço de Deus. E, no entanto, não custaria mais do que disse. Não sabeis que os sarracenos educam “assassinos” para objetivos temporais do mundo presente? [6] Não seria algo de se admirar se educássemos santos para multiplicar a honra de Jesus Cristo e a salvação dos gentios? Já disseram os apóstolos a Jesus Cristo: “Aqui temos duas espadas” [7]. Ele respondeu: “É suficiente”. Com isso, fez entender que tínhamos de guerrear com a pregação e com as armas contra os homens infiéis. Não sabeis o que Cristo disse: “Quem não está comigo, está contra mim?” [8], e que ele já significou o comando desse negócio quando disse: “Estima o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração” , etc.? [9] I.2. Contra os Sarracenos Os sarracenos crêem que Nosso Senhor Jesus Cristo é Filho de Deus e Espírito. Porém não crêem que seja Deus. Crêem também que foi o melhor homem que jamais existiu, existe e existirá, que foi concebido por obra do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria. Crêem também que a bem-aventurada mãe Maria é virgem e santa. Igualmente crêem que os apóstolos são santos. Portanto, em muitas coisas concordam conosco. Por razão dessa concordância, poderíamos tentar nos aproximar deles com nossa fé, expondo a encarnação de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Eles não crêem que nós cremos na encarnação tal como cremos, pois eles crêem que nós cremos que Deus é dividido em três partes: uma parte desceu na bem-aventurada Virgem, outra parte permaneceu no céu e a outra é o Espírito Santo. A parte que se encarnou se fez homem, e quanto à divindade, é inferior e vai morrer. E assim nos atribuem falsamente muitos outros erros sobre a encarnação de Jesus Cristo. Portanto, se houvessem alguns homens valentes que declarassem e mostrassem como nós cremos na verdadeira encarnação de Deus – e tal como vós já sabeis e eu ensinei em muitos livros meus —, eles poderiam se induzidos a crer na encarnação. Os sarracenos crêem que há um só Deus. Porém, crêem que nós cremos em um Deus dividido em três partes, e que cada uma delas é Deus separada das outras duas. Crêem assim que nós cremos em três deuses distintos, e em um Deus composto deles em comum. E assim nos atribuem muitos outros erros falsamente. Portanto, se eles soubessem a maneira que nós cremos, sobretudo na Suprema e Divina Trindade, e que damos razões tão convincentes que o entendimento humano não pode aceitar o contrário, razões que vós já sabeis e que eu expus em muitos livros meus, em árabe e em latim, eles acreditariam na Santíssima Trindade de Deus. Fariam-no sobretudo os homens letrados, por que poucos deles crêem em Maomé, por saberem suficientemente que foi um homem pecador e que introduziu na sua lei muitos enganos. Disso cristãos árabes tiveram experiência, e eu posso me incluir entre eles. Assim, se convertêssemos os sarracenos mais importantes, eles induziriam os menos importantes à conversão. Os sarracenos afirmam que nós dizemos que nossa fé não pode ser provada. Por isso a menosprezam; dizem que não desejam abandonar uma fé por outra. Assim difamam nossa fé. Portanto, seria necessário que alguém lhes dissesse que nossa fé pode ser provada, e que ela pode permanecer firme. Assim expliquei nos livros Da Comparação [10], De Deus [11], Da Disputa da fé e do intelecto [12] e no Da ascensão e do descenso do intelecto [13]. Escrevemos esses livros certamente para exaltar a fé cristã. Portanto, se alguém disputasse segundo o dito método com os sarracenos, contando sempre com a graça divina, eles não poderiam negar a Santíssima Trindade. Os sarracenos crêem que possuem um só milagre necessário e verdadeiro. Por isso, afirmam que sua lei é a verdadeira. Este milagre, asseguram, é que o Alcorão foi ditado em um grau tão excelente que é impossível que um homem o tenha escrito; o próprio Gabriel o colocou na boca de Maomé, por vontade de Deus. Assim denominam o Alcorão “palavra de Deus”. Contudo, o discurso é muito confuso; vou comentá-lo. Seu argumento, ou matéria, é enganoso e falso, recheado de falsidades, ornado de canções luxuriosas. Por isso, com facilidade pode-se desmontá-lo e destruir aquilo que dizem que é um milagre. Não cabe expor aqui a maneira pela qual o senhor cardeal irá enviar pregadores aos sarracenos; cabe confiar em seu juízo e em sua santidade. I.3. Contra os Judeus Os judeus argumentam que sua fé é a verdadeira por que cristãos e sarracenos afirmam que Deus deu a lei a Moisés que eles crêem possuir. A isso cabe responder pela primeira e pela segunda intenção [14]. O Antigo Testamento existiu para que existisse o Novo. Da mesma maneira, a casa existe pela segunda intenção, e habitá-la pela primeira, tal como a árvore existe para que nela exista o fruto; e temos esta vida para possuir a outra, e assim seguindo, da mesma forma o Antigo Testamento existiu para que viesse o Novo. Não basta aos judeus o Antigo Testamento pois vão contra o Novo. O Novo é a perfeição do Velho, como a forma é a perfeição da matéria, a primeira intenção o é da segunda e o fato de habitar o é da casa, etc. Logo, assim como Deus pôs uma ordem em todas as coisas pela primeira e pela segunda intenção, pôs uma ordem na primeira lei e na segunda. A primeira tem por fim o Novo Testamento, como o fruto é a finalidade da árvore. E mais: os dez mandamentos são os princípios mais firmes do Antigo Testamento. Conforme sustentam os judeus, eles não bastam para salvarem-se, estando expostos como normas de conduta, ou para terem liberdade e reis neste mundo, como está evidente na vinda que esperam do Messias. A salvação implica conhecer, estimar e servir a Deus por si mesmo, e eles, de Deus, não têm nenhuma noção, nem a desejam, porque expõem literalmente os mandamentos, não como os cristãos, que os expõem segundo a verdade nas formas alegórica, tropológica e analógica. Portanto, os judeus não estão em estado de salvação. Isaías disse: “Se não crêem, não entendem”. [15] Daí segue-se que, se crêem, entendem. Contudo, os judeus dizem que não entendem nada de Deus. Disso segue-se que não crêem tal como têm de crer. Porém, nós cristãos cremos porque de Deus sabemos muitas coisas, como existe a relação na divindade e nos atos intrínsecos das razões divinas. Isso se manifesta claramente por este silogismo: “Quando duas razões se confrontam e uma está em ato e a outra não, são realmente distintas”. Porém, em Deus, a vontade divina tem um ato e um querer. Se a eternidade divina não tivesse um ato, ou seja um eternizar (e assim seguindo pelas outras à sua maneira), seriam realmente distintas. Porém, isso é falso e impossível, por que a vontade não seria eterna por si, nem a eternidade por si seria vontade. Portanto, a eternidade tem um ato, ou seja, um eternizar. Assim, na eternidade divina existe um eternizante, um eternizado e um eternizar. Esses três estão relacionados na essência da eternidade, e entre eles constituem uma só eternidade, uma só essência e uma só natureza divina. Essas três realidades são denominadas pessoas divinas. Isso já foi figurado em Abraão [16], que viu três e adorou um. Também por meio de Davi, que disse: “Antes da aurora te engendrei”.[17] Assim, tudo o que existe antes da aurora, existe desde a eternidade. Portanto, o que engendra, o engendrado e o engendrar são realidades eternas na eternidade divina, e são distintas, já que o que engendra não pode engendrar a si mesmo, tal como colocamos nesse exemplo, podem colocar os outros à sua maneira, como se explica em muitos livros meus que antes indiquei, e nestes outros: o Livro do Intelecto [18], o Livro da Vontade [19], o Livro da Memória [20], Da Significação [21], o Livro da Investigação das Dignidades Divinas [22]. Também representei na Árvore da Ciência [23]. Considerando tudo isso, seria bom que aqueles que escutassem e aprendessem o hebraico, pregassem aos domingos nas sinagogas, e também aos sábados, que disputassem com os judeus em suas casas, concentrando-se em autoridades do Antigo Testamento, que é figura do Novo, e que reduzissem as autoridades às razões necessárias, pois as autoridades não vão contra a razão, pois são verdadeiras. Nós demos um exemplo sobre o eternizante, o eternizável e também o eternizar. Por isso, seria bom que aqueles sábios estudantes de hebraico pregassem e possuíssem muitas autoridades, e que aplicassem a elas razões necessárias, tal como está explicado nos livros Dos Silogismos [24], Da Significação [25] e Dos Atos das Divinas Dignidades [26]. Os judeus temem muito crer a Trindade em Deus e a encarnação. Porém, poderíamos dar-lhes o mesmo exemplo que demos no capítulo sobre os sarracenos. Muitos judeus se fariam cristãos, mas têm medo da pobreza na qual cairiam se fizessem a restituição do que ganharam por usura. Mas cabe dar-lhes um remédio: a necessidade não tem lei, como dizemos vulgarmente. Como todos os bens, tanto móveis como imóveis, vêm de Deus, cabe reduzi-los a Seu serviço, à honra e à salvação da gente deste mundo. 1.4. Contra os Cismáticos Os cismáticos têm muitas seitas, mas o cisma subsiste sobretudo em três: nos gregos, nos nestorianos e nos jacobinos. Contra esses escreveremos um livro onde serão expostos seus erros e que nossa crença é a católica e a verdadeira. Esse livro será bom para confundir os erros dos cismáticos. Também comporemos outro, que darei por título O que o homem deve crer de Deus [27]. No entanto, desejamos agora tratar de alguns pontos contra os cismáticos. I.4.1. Contra os Gregos Os gregos negam que o Espírito Santo proceda do Filho [28]. Portanto, desejamos proporcionar a maneira pela qual os estudantes de grego possam confundir os gregos, para que latinos e gregos aceitem proposições necessárias e comuns. Depois, as opiniões dos latinos e dos gregos serão aplicadas àquelas proposições necessárias. Manter-se-ão as opiniões que mais se adeqüem às proposições necessárias, já que, quanto mais se adequarem às proposições necessárias, parecerão mais necessárias. Daremos alguns exemplos. Deus é o princípio simplesmente perfeito. Um princípio perfeito não pode ser tal sem três elementos: que em tal princípio haja um princípio principiante e não principiado, que nele um outro seja princípio principiante e principiado, e um outro seja principiado e não principiante, e que todos os três sejam um só princípio simplesmente perfeito. Sem esses três princípios, o princípio não pode ser perfeito. Os latinos afirmam tal princípio perfeito, não os gregos. Pois Deus Pai é o princípio principiante e não principiado; Deus Filho é o princípio principiante e principiado: principiante por que com o Pai espira o Espírito Santo, principiado por que é engendrado do Pai; o Espírito Santo é principiado e não principiante: principiado, por que é espirado do Pai e do Filho, não principiante, por que na Essência de Deus não engendra nem espira qualquer pessoa. Não podemos dizer isso aos gregos, segundo sua seita, por que negam que o Filho seja princípio principiante. E assim dizem que Deus não é um princípio simplesmente perfeito. Tal coisa é impossível e falsa. Está claro, portanto, por essa razão, que estão errados. E mais: tudo aquilo pelo qual as divinas pessoas são mais iguais, é necessário. Com essa proposição, os latinos podem provar que os gregos estão errados. Pois se a opinião dos gregos fosse a verdadeira, o Pai teria duas ações: uma, pela qual engendraria o Filho, outra, pela qual espiraria o Espírito Santo. Porém, o Filho é somente objeto de uma paixão, quando é engendrado, e o Espírito Santo tem uma única espiração, quando é espirado somente do Pai. Assim, o Pai está em maioridade ao ter essas duas ações, o Filho em menoridade porque é somente sujeito passivo, e o mesmo acontece com o Espírito Santo, que tem uma só espiração. Mas, segundo os latinos, isso não é assim. Pois, segundo esses, o Pai tem duas ações, o Filho, uma ação e uma paixão, e o Espírito Santo, duas paixões; e assim são iguais. A conclusão, portanto, é que os latinos estão na verdade e os gregos no erro, como está exposto com a sobredita proposição. Ainda mais: tudo isso pelo qual mais concordam as pessoas divinas é necessário. Segundo a opinião dos latinos, essa proposição é verdadeira, não para os gregos. Segundo os latinos, o Pai e o Filho concordam por constituir um só princípio espirador, que atua em um princípio espirado, isto é, no Espírito Santo. Mas se o Espírito Santo não procedesse do Filho, seria destruída aquela concordância maior das pessoas divinas, resultando na menor. Também aconteceria a privação da concordância pessoal entre o Filho e o Espírito Santo. E, como a concordância menor não pode existir nas pessoas divinas, portanto, etc. Ainda: tudo aquilo que faz com que a natureza divina seja mais comum nas pessoas divinas é necessário. Isso é assim segundo os latinos, mas não segundo os gregos. Pois, segundo os latinos, entre o Pai e o Filho a natureza subsiste por meio da geração; entre o Pai e o Filho, por meio da estimação no Espírito Santo, que é amor por natureza, procedente de ambos pelo ato de estimar. Bem, segundo os gregos, entre o Filho e o Espírito Santo não subsiste estimação pessoal por natureza, a natureza é que se abstém de seu ato. E isso é impossível e falso. Portanto, etc. Ainda: tudo aquilo pelo qual na Essência de Deus subsiste o estimar que une o amante e o amado é necessário. O mesmo se passa entre o que entende e o entendimento; e no ato de bonificar, entre o bonificante e o bonificado; e assim nos outros atos das razões divinas. Isso se conclui segundo a opinião dos latinos mas não segundo a dos gregos, como está claro por si. Portanto, etc. Ainda: tudo aquilo que faz com que as pessoas divinas sejam mais próximas entre elas e mais afastadas de serem distantes, é necessário. Isto se realiza na opinião latina, mas não na grega. E, portanto, etc. Isso fica exposto assim: como os latinos dizem que o Espírito Santo procede do Filho, mostram como a causa da expiração é a proximidade pessoal entre o Filho e o Espírito Santo. Essa proximidade é um ato puro. Não é assim segundo os gregos; mais ainda, Filho e Espírito Santo são distantes, por que entre eles não existe um ato pessoal produtivo. Isso se pode desenhar sobre uma figura plana. Duas linhas fazem um ângulo agudo e não dois; o primeiro ângulo significa que o Pai gera o Filho e espira o Espírito Santo; mas se o Filho não espirasse o Espírito Santo, não haveria ângulo entre o Filho e o Espírito Santo. Falando matematicamente, segundo os latinos, o triângulo torna-se reto com três ângulos: entre o Pai e o Filho, entre o Pai e o Espírito Santo e entre o Filho e o Espírito Santo. Como a Trindade Divina é necessariamente perfeita e afastada de todo distanciamento, portanto, etc. Muitas outras razões podemos alegar para encontrar proposições contra os gregos, sobretudo seguindo o método da nossa Arte Geral. I.4.2. Contra os Jacobitas [29] Como já sabeis, os jacobitas crêem que em Cristo existe uma só natureza. Para demonstrá-lo, dão algumas razões boas de desfazer e de dissolver. Uma delas é esta: dizem que se da natureza divina e humana não resultasse uma só natureza, a pessoa de Cristo não poderia ser una. Cabe responder com um exemplo. Como qualquer indivíduo é uma só pessoa e a natureza da sua alma e do seu corpo não são convertíveis, tal como a alma tem uma natureza incorruptível e espiritual e o corpo a tem corruptível e corporal, em Cristo uma só é a pessoa e duas são as naturezas: uma divina, infinita e eterna, e outra finita e nova, as quais, como tais naturezas não são convertíveis. Ainda: os jacobitas caem em contradição de muitas formas, como agora provaremos por cinco razões. Veja aqui a primeira: 1. Latinos e jacobitas se equivocaram nesta expressão: Cristo, que parte existe no céu acima de nós, não existe no altar ou na eucaristia. Aí seria, no altar, na eucaristia, ou em qualquer lugar, se a natureza humana e divina fossem convertíveis, pois a natureza divina existe em toda a parte e por toda parte por si. Disso segue-se que Cristo, como o homem, existiria em toda parte e não por toda parte. Tal coisa é impossível. A conclusão é que os jacobitas estão errados. 2. Também: o Pai e o Filho espiram o Espírito Santo e fazem naturalmente por amor, e a natureza das três pessoas é só uma. Conseqüentemente, se a natureza humana fosse uma só natureza como a divina, o homem Cristo, pela natureza de Seu amor, espiraria o Espírito Santo com o Pai e o Filho. E isso não admitem nem os latinos, nem os jacobitas. Portanto, etc. 3. Também: latinos e jacobitas concordam em afirmar que Deus e o Filho têm um entender infinito e eterno, e o têm por natureza. E Cristo, como homem, não têm um entender infinito e eterno, mas, por natureza, um entender finito e novo. Mas se a natureza humana fosse a mesma em número com a natureza divina, Cristo, como homem, teria um entender infinito e eterno; e isso é uma contradição. Portanto, etc. 4. Ainda mais: se em Cristo a natureza divina e a humana fossem a mesma em número, as ações naturais e as paixões humanas seriam convertíveis com a divina bondade, grandeza, eternidade e com as outras razões naturais de Deus. Mas não são convertíveis, pois, tal como a divina bondade, etc., não são convertíveis por natureza com a bondade finita e nova, etc. Disso vêm uma contradição, que é impossível. Portanto, etc. 5. Também: os latinos e os jacobitas afirmam que Cristo é igual ao Pai segundo a divindade, e é menor que o Pai segundo a humanidade. Porém, se em Cristo a natureza divina e a humana fossem convertíveis e numericamente idênticas, Cristo não seria menor segundo a humanidade que o Pai segundo a divindade, que é a natureza divina. Disso resultaria uma contradição, a qual é impossível. Portanto, etc. Pelas preditas razões, e por muitas outras, os jacobitas podem ser refutados. Como o entendimento naturalmente suspira pelo que é verdadeiro, tal como a verdade é seu objeto próprio, com uma disputa laboriosa e constante os latinos podem conduzir os jacobitas à fé católica. I.4.3. Contra os Nestorianos [30] Os nestorianos crêem que há duas pessoas em Cristo. Para prová-lo, dão algumas razões boas de desfazer e dissolver. Entre elas há esta: dizem que Deus não teria podido fazer-se homem se não houvesse já sido homem em ato, não só em potência. Se fosse homem, seria pessoa humana, um ser humano e uma essência humana. Chamam pessoa humana este homem existente por si, e nomeiam a pessoa do Filho de Deus pessoa por si existente. 1. Para desfazer essa razão, colocamos tal exemplo: este indivíduo, quando era um embrião no útero, não era pessoa humana, pois lhe faltava a alma racional. Não obstante, este embrião tinha quatro naturezas ou potências: a elementativa, a vegetativa, a sensitiva e a imaginativa. Ao sobrevir a alma racional, arrebatou-o totalmente com o que tinha no princípio, a espécie humana, atuante sobre o sujeito material e corporal. Com isso, a alma e com ela tudo o que tinha por natureza, o fez e o compôs homem, e o fez em um instante, em um momento indivisível. Igual e incomparavelmente melhor, o Filho de Deus, em um instante produziu um embrião, fazendo-o passar de potência em ato, no útero da bem-aventurada sempre Virgem Maria, e naquele instante criou a alma racional; nesse mesmo momento, transportou a natureza humana para a natureza divina e eterna, na qual Deus se fez homem, e o homem Deus. Por isso, não é verdadeira a razão dos nestorianos, que na encarnação não haverá sucessão ou movimento. Sê-lo-ia se na encarnação tivesse havido sucessão ou movimento de um instante a outro, e se o sujeito da encarnação não tivesse estado na eternidade, na qual não pode haver sucessão e movimento. 2. Ainda: os nestorianos, por razão de algumas expressões, caem em contradição, já que latinos e nestorianos equivocadamente concordam nestas formulações: Cristo é Deus e homem; Deus é homem; um homem é Deus. Deus é Cristo; um homem é Cristo. Mas se em Cristo houvesse duas pessoas, estas expressões não poderiam ser verdadeiras, pois uma pessoa não pode ser outra. Disso deriva uma contradição impossível. Está claro, portanto, que os nestorianos estão errados. 3. Além disso: supondo que em Cristo houvesse duas pessoas e Cristo fosse um, necessariamente resultaria um ser composto, que seria uma terceira pessoa superior às duas primeiras; como alguém que é superior ao seu corpo e à sua alma por ser um terceiro, tal como a alma do indivíduo não é o indivíduo, pois a parte não é o todo. Bem, uma pessoa divina não pode ter nada superior, nem pode ser parte tal como é infinita e eterna. Está claro, portanto, que em Cristo não há duas pessoas. Portanto, etc. 4. Mais: aquilo que em Cristo a natureza divina e a natureza humana podem tornar-se mais, é necessário. Isso acontece pela união da natureza divina com a natureza humana para existir em uma só pessoa, coisa evidente por si. A conclusão é, pois, que em Cristo não há duas pessoas. Portanto, Ele é uma só pessoa. 5. Mais ainda: se em Cristo houvesse duas pessoas, estas seriam próximas, mas não unidas. Não obstante, em um alguém e nos outros homens a alma e o corpo não são somente próximos mas unidos. Como a união é maior que a proximidade, a alma e o corpo de um alguém, pelo fato de constituir uma só pessoa, seriam mais unidas que as naturezas humana e divina em Cristo, mais que a bondade divina e a bondade humana; e assim no resto, à sua maneira. Como tudo isso é absurdo de dizer, portanto... 6. Os nestorianos colocam este exemplo: em Deus existem três pessoas distintas entre elas, e Deus é um, não diversos. De maneira semelhante, em Cristo há duas pessoas: e Cristo é um, não diversos. Cabe responder a isso dizendo que esse exemplo não vale como semelhança, pois na natureza divina, Deus Pai produz, de toda a Sua essência e natureza, Deus Filho, e tudo o que Deus Filho tem; e o Pai e o Filho um para o outro, espiram o Espírito Santo e tudo o que este tem. Não se deve estranhar, portanto, que em pessoas distintas que são um só Deus, um sujeito e uma natureza, uma provenha da outra e uma terceira seja produzida por uma outra. Não acontece o mesmo na encarnação, porque o Filho de Deus não produz, de Sua essência e natureza, um homem, mas tomando a natureza humana, se faz homem. A razão, portanto, dos nestorianos não vale nada. Por muitas outras razões que seriam longas de recontar, os latinos podem responder aos nestorianos, e pôr alguns argumentos que os nestorianos não poderiam destruir, como disso mais acima. Por isso, é bom que nestorianos e latinos disputem com esforço e com constância, a fim de que, tal como as águas dos rios desembocam naturalmente no mar [31], também as verdades, à sua maneira, desemboquem na inteligência. Contam que um sarraceno desejou se fazer cristão
e veio à terra de cristãos. Encontrou em seu caminho quatro
sábios que discutiam sobre suas leis. Um era latino, um outro
grego, o outro nestoriano e o quarto jacobita. Cada um sustentava que
tinha a verdade e que os outros andavam no erro. O sarraceno, vendo
que cada um se dizia cristão e que se contradiziam, blasfemavam
e estavam muito irados, perdeu a afeição que tinha à
fé cristã. E disse-lhes que de bom grado se faria cristão
se pudesse saber qual dos quatro tinha a verdade. I.5. Contra os Tártaros Os tártaros e os outros gentios não têm ciência nem lei. Não têm lei porque não têm pregadores, não têm ciência por que sua inteligência somente capta coisas sensíveis e imagináveis. Por isso, a Igreja deveria procurar pregadores que os instruíssem na santa lei católica com razões probatórias, e lhes proporcionassem a ciência do Direito, da Medicina, da Filosofia e da Moral, contínua e pontualmente. Pelo que faz a Teologia, nossos livros indicados seriam muito úteis, sobretudo o Livro do gentio [32], no qual um cristão, um sarraceno e um judeu disputam sobre a verdade diante de um gentio. Por esse livro, os gentios poderiam saber, se desejassem, que a santa fé católica é a verdadeira e que os judeus e os sarracenos estão no erro. Eu estive na Terra de Ultramar e ouvi dizer que Ghazan [33], imperador dos tártaros, repetia freqüentemente que desejava obter a certeza da fé cristã e que, se a alcançasse, fazer-se-ia cristão e batizaria toda a sua tropa. Como não conseguiu, se fez sarraceno com todo o seu exército. A Igreja de Deus tem motivo de arrepender-se de coração deste fato. E mais. Em Tunis havia um rei sarraceno chamado Miramamolim [34]. Não faz muito tempo que um religioso desejou-lhe provar, em língua árabe, que a lei dos sarracenos era falsa, coisa que é fácil de demonstrar. Então este rei lhe pediu que, se provasse a fé dos cristãos, nesse momento se tornaria cristão e batizaria os habitantes de sua pátria. Aquele religioso não era muito instruído nem em Filosofia, nem em Teologia, e respondeu que a fé cristã não poderia ser provada, somente crida. O rei tomou estas palavras como um engano, e disse que não desejava deixar uma crença por outra, mas que, de bom grado, abandonaria uma crença pela inteligência da verdade. Portanto, se aquele religioso tivesse fornecido razões convincentes de nossa fé – razões que se encontram na Sagrada Escritura e também, estou seguro, em meus livros já citados – o rei não lhe teria podido contradizer e se tornaria cristão e, com ele, a sua gente. O santo rei da França, Luís [35], foi a Tunis com um grande exército seu; se aquele rei dos sarracenos houvesse se convertido, toda a sua pátria tornar-se-ia fiel, e assim recuperaríamos a Terra Santa. Em consciência, portanto, deve-se esperar o juízo contra aqueles que podem fazer o bem – e estão encarregados de fazê-lo – e não o fazem, mas descuidam completamente. Ainda mais. Digo e juro que em Gênova aconteceu este fato: eu desejava disputar com um judeu por razões convincentes; ele replicou que isso não me era lícito porque o papa não o desejava. Então lhe disse que desejava disputar com ele com razões tão convincentes que desfaria todas as suas razões, e que ele, de qualquer maneira não poderia desfazer as minhas. No entanto, essas razões não seriam demonstradas nem “por tal que” nem “porque”, e sim “por comparação” (equiparação) e por outras maneiras já mencionadas. Disso fizemos um livro, citado no princípio. No final, disputamos com ele, tal como disse, mas no fim ele fugiu porque não teve coragem de comparecer em minha presença para disputar. Os tártaros, e igualmente os outros pagãos, quase crêem que o mundo é eterno e, quanto à predestinação, se fiam muito na Astronomia. Que o mundo seja novo, e não eterno, consta na Sagrada Escritura. Por razões convincentes, também está provado em muitos dos meus livros que o entendimento humano não suporta sustentar o contrário. Sobre esse tema, é útil o meu livro intitulado Da Predestinação [36]. Nele prova-se que o homem tem o livre-arbítrio para simplesmente fazer o bem e o mal. Também fizemos um livro, que demos por título Da Astronomia [37]; ali provamos que o juízo dos astrônomos não é totalmente certo em todos os casos. E assim poderíamos citar mais (livros) que seriam úteis para converter os tártaros e os pagãos. Convertendo qualquer um desses, qualquer sarraceno não teria coragem de comparecer diante dos cristãos; mas se fossem os sarracenos que se convertessem, e já convertermos muitos, como disse, nenhum cristão se atreveria a se se apresentar diante deles. Oh, Santa Igreja Católica, veja quantos inimigos tens e terás se permaneceres de mãos atadas e não tiveres braços para o trabalho. Pois setenta anos já se passaram desde que os tártaros desceram das montanhas e dominam mais o mundo que os sarracenos e os cristãos juntos. E portanto, Igreja, por que dormes e não trabalhas quando a ti foi confiado um tesouro tão grande que tens que defender com a espada espiritual e com a espada corporal? Talvez não poderás fazê-lo quando desejares. Está terminada a primeira distinção deste livro, na qual muitas outras coisas poderíamos dizer para propor a conversão dos infiéis. Contudo, de momento e para não me alongar mais, basta o que escrevi. Esta distinção significa a espada espiritual,
isto é, a verdade contra a falsidade, a ignorância e o
erro. Agora segue o tratamento da espada corporal. Como o homem é
composto de corpo e alma, que sejam suficientes essas duas espadas. Esta distinção está dividida em sete partes: 1) a primeira se denominará da eleição; 2) a segunda, das regras; 3) a terceira tratará do lugar; 4) a quarta, da maneira de fazer a guerra; 5) a quinta, da armada; 6) a sexta, da pregação, 7) a sétima, denominamos da arte mecânica. Sobre a primeira, dizemos isto. II.1. Da Eleição Os anjos do Paraíso e os santos e latinos desejam que a Terra Santa e as outras terras que os infiéis tomaram dos latinos sejam recuperadas. Cabe, portanto, que o senhor papa e os senhores cardeais, encarregados principalmente de promover o bem, de procurar a honra de Nosso Senhor Jesus Cristo e a salvação dos homens, elegessem um cardeal muito santo e muito devoto, que recebesse a mensagem de levar a termo tudo aquilo que será exposto nesta distinção, tal como, na primeira distinção, explicamos do outro cardeal. O senhor papa e os senhores cardeais instituirão e ordenarão uma ordem nobre, que será denominada Ordem da Milícia. O cabeça, mestre e senhor dessa ordem será chamado rei guerreiro. Será chamado “guerreiro” conforme o requer a matéria dessa distinção; “rei”, porque será a cabeça da milícia e porque lhe será dado um reino. Se for possível, que lhe seja dado o reino de Jerusalém. É justo que seja assim, por que este rei terá um cargo mais nobre que o de qualquer outro rei deste mundo, e porque a intenção principal deste rei guerreiro será conquistar Jerusalém. Se inicialmente não lhe for possível dar este reino, de momento lhe será dado um outro reino que seja possível de conquistar. Por isso, este rei guerreiro há de ser filho de um rei, tanto pela honra do cargo que assumirá quanto para que as outras ordens militares sejam colocadas às suas ordens de bom grado. Assim, quando morrer este guerreiro, filho de rei, será eleito outro em seu lugar, filho de rei igualmente. Assim se estabelecerá a sucessão. E mais: o senhor papa, com os senhores cardeais, ordenarão e criarão uma só Ordem da Milícia, a qual mencionamos acima, formada da união das Ordens do Templo [38], do Hospital [39], dos Alemães [40], de Uclés [41], de Calatrava [42] e de todas as outras ordens militares. Disso hão de se felicitar unanimemente todas as ordens militares, pois terão um rei por chefe, mas sobretudo porque assim redundará no honramento de Nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação das gentes. Se alguém fizer resistência a este plano, não parecerá nem fiel, nem devoto; que espere o juízo do último dia, quando Jesus Cristo dirá: “Apartai, malditos, ao fogo eterno”. [43] Já dissemos que, no primeiro mandamento da Lei, se lê: “Estima o Senhor, teu Deus de todo seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças”. [44] Assim, portanto, que o papa e os cardeais concedam o dízimo atual da Igreja para recuperar a Terra Santa. Com podem fazer isso e é bom, está incluído no mandamento que acabamos de citar. Mais ainda: o rei guerreiro, senhor da Milícia, saberá quais rendimentos anuais terá. Para tal fim designará dois inspetores. Reservará duas partes às necessidades de seu exército; da outra terceira parte viverão os frades, que custodiarão os lugares e receberão os rendimentos e os servirão. Quem vender ou roubar qualquer coisa disso, deve saber que estará excomungado e que só poderá ser absolvido pelo colégio do rei guerreiro. Os conselheiros do rei serão nomeados pelo seu colégio. Entre eles deverá haver um legado do papa que terá o título de núncio e será da Ordem da Milícia. E mais: que o senhor papa e os senhores cardeais dêem licença em qualquer bispado, arcebispado ou abadia pois, se houver algum cônego, monge ou regular disposto a guerrear, um ou muitos, com consentimento de seu bispo, etc., que seja incorporado ao exército do senhor guerreiro e que retenha no bispado, etc., os rendimentos que ali teria. Se não puder manter-se no exército com seus rendimentos, que o senhor rei guerreiro o ajude com seus bens, de tal maneira que o dito cônego, etc., possa manter um cavalo armado. Este ordenamento é bom, possível e ordenado pelo preceito do Senhor repetido acima. Se não for levado a cabo, haverá um grande perigo, como diz este mandamento: “Estima o Senhor, o teu Deus, etc., com todas as suas forças”. [45] Por outro lado, alguns príncipes cristãos colocam seus olhos no dízimo da Igreja para fazer seus negócios mundanos. Disso tenho experiência. Mas se o rei guerreiro possuir o dízimo e continua e esforçadamente fizer a guerra para exaltar a fé cristã e conquistar a Terra Santa, o senhor papa e os senhores cardeais estarão desculpados de dar o dízimo a qualquer outro. Assim, os bens eclesiásticos serão destinados ao fim para o qual foram dados. Se o rei guerreiro for eleito conforme o que dissemos, muitos militares cristãos, muitos burgueses e outros homens seculares e do povo se alistarão voluntariamente, por sua conta e às próprias expensas. Dessa forma, no exército assim formado, eles submeter-se-ão unanimemente às ordens do senhor rei guerreiro para fazer penitência dos pecados cometidos, pois existem muitos que desejam morrer por Nosso Senhor Jesus Cristo. Cabe considerar muitos outros bens nessa eleição, que seriam extensos de contar. Se for feita, conseguir-se-ão estes bens; caso contrário, perder-se-ão irremediavelmente. Quais males se seguiriam dessa perda, ninguém pode saber atualmente. Que poderia pensar a tristeza em que a obediência – falando metaforicamente – teria? Quem poderia esperar a vingança da justiça de Deus, de acordo com as Escrituras? Quem poderia ouvir a voz e os gritos que fará sentir o primeiro mandamento? Quem poderia calcular quão grande seria a desobediência? E portanto: “Quem tem ouvidos para escutar, que escute!”, [46] enquanto é tempo de escutar. Eu juro, e é evidente, que se Deus enviasse um só anjo para perguntar a todos os condenados “deseja voltar a terra e fazer penitência pelos pecados, comendo, bebendo cada um toda a água do mar fervente e assim vos salvar?”, todos receberiam essa proposta com mais gozo e amor que se propusesse fruir todos os prazeres e grandes alegrias da vida deste mundo. E, portanto, oh, senhor papa, oh, senhores cardeais, aceitai, por Deus, a eleição que vos proponho! Se o quiseres, será uma obra; caso contrário, não chegará a seu termo. Ai, que distância se abre entre este querer e este não querer! Entre este bem e este mal! Aceitais, portanto, este negócio, com a mente, com a boca e com as mãos! Muitas vezes estive em Roma diante do altar de São Pedro. Eu o vi muito ornado e iluminado quando o senhor papa ali celebrava com os cardeais, louvando e bendizendo com muitas vozes elevadas o Senhor Jesus Cristo. Mas ali há um outro altar, exemplo e senhor de todos os outros: quando eu o vi, tinha somente duas lâmpadas, e uma estava fechada. A cidade estava despovoada; somente cinqüenta homens ali habitavam. Ali viviam muitas serpentes nos cestos. Aquela cidade é supra excelente acima de todas as outras, considerando o que faz a Deus. Quanto a nós, consideramos qual é a sua desonra, em que consiste, de onde provém e como é grande. Não somos cristãos, porventura? Ou o que somos? Cristo verá, portanto, quem são os seus amigos, e quem não são, conforme o que trata esta ocupação. Seus nomes serão escritos na memória de Deus, em Sua justiça e poder. Tal escritura perdurará até o dia do juízo. Naquele dia, a leitura será lida com gozo aos bons, e com rancor, tristeza e dor aos maus, e “a porta será trancada” [47] nesse momento, e para sempre. Ah, rei fiel e devoto, seja quem for, quão grande honra receberá do céu e da terra, tu, que apresentarás teu filho para atacar em um negócio tão bom, tão importante, tão justo. Como ficarás feliz, vendo teu filho exaltado a uma dignidade tão sublime e tão honorável! Ah, conselho do rei guerreiro, quantos bons planos, satisfações e desejos sustentarão para procurar um fim tão nobre! Ah, Jesus Cristo, Nosso Senhor e Deus, desça a nós para dar cumprimento, perfeição e santa finalidade a esse negócio que vós tanto desejais, pois se deve dizer claramente que esse negócio é Vosso bem. Deixe-vos pregar, Senhor, por este negócio,
por Nossa Senhora, a bendita Santa Virgem Maria, de quem sois o filho
verdadeiro e bendito; também pelos anjos e por todos os santos
e santas do Paraíso, aos quais virão inumeráveis
almas por meio desse negócio, fugindo das terríveis penas
do Inferno. Que o rei guerreiro tenha a regra que exporemos. De início, desejo dizer que será bom recolher as boas regras que têm as outras ordens militares, conforme o senhor papa e os senhores cardeais o vejam conveniente. Pelo que faz à cruz, quero dizer: é bom que tenha a cor vermelha, para significar que a primeira cruz foi colorida com o sangue de Cristo, e também porque a cor vermelha move o coração e o sangue à audácia e ao valor. Tal cruz será representada na cruz do Senhor. Essa cruz é modelo e causa de todas as outras cruzes. Nosso Senhor Jesus Cristo carregou a cruz e a espada e, com isso, representou que a cruz da ordem do rei guerreiro deve ser colocada na capa, à espada, com o braço superior da cruz no colo. Como Cristo ao sofrer a paixão na cruz tinha duas naturezas, a divina e a humana, também a cruz terá dois palmos de altura e dois palmos de largura. Por outro lado, na cruz deve haver três naturezas: a divina, a espiritual e a corporal. Isso indica que os braços da dita cruz fazem três dedos de largura e formam três ângulos retos. Tal como foi a primeira cruz, totalmente reta, formada com três ângulos retos, igualmente há de ser reta essa cruz. Acima do estandarte do guerreiro deve ser colocada uma cruz semelhante e de semelhante magnitude, na parte anterior e nos extremos. Ela também deve ser colocada no escudo e na sela para que os frades se conheçam mais facilmente durante a guerra. Com a devida proporção, será a cruz do elmo e do estandarte. Essa cruz, colocada assim, com essa figura e cor, obterá a vitória na guerra por razão de sua semelhança com a primeira cruz. Com tal cruz, os freires do Templo ficarão contentes. Lemos no Santo Evangelho que na hora da morte do Nosso Senhor Jesus Cristo apareceram as trevas sobre a terra. [48] Como as trevas significam o negror ou a sombra, a primeira cruz vermelha pelo sangue se tornou negra ou fosca tal como estava situada no ar. Isso prefigurou que a cruz vermelha da ordem do guerreiro deve ser gravada sobre o tecido negro da capa. Os freires do Hospital ficarão satisfeitos com essa cor da capa. As outras vestes serão também de cor negra para significar que o corpo de Cristo foi sepultado em um campo negro. É esse o vestido de luto que colocam aqueles que têm um parente defunto. Assim como quem tem grande tristeza usa barba, que a usem também os freires da ordem do guerreiro; isso significará que o rei e seus soldados estão em estado de tristeza e luto e nele permanecerão até que a Terra Santa e as outras terras que os cristãos possuíram no passado sejam recuperadas. Além disso, como a cor negra, mais que o vermelho, suporta melhor a sujeira e as imundícies, que os militares vistam-se totalmente de negro. Como a cor negra e a vermelha são muito diferentes e combinam para fazer um belo hábito, parece que esse será o melhor e mais adequado hábito que qualquer outro, pelas razões que expomos. A primeira cruz nos mostrou a humildade e a vitória. Assim, como é uma só a vitória alcançada pela união de muitos homens, a mesma humildade concorda com a união de muitos que compartilham uma mesma intenção; como Cristo ceou à mesa entre seus apóstolos, compartilhando a mesa comum, a mesa do senhor guerreiro há de ser comum a todos, de tal maneira devidamente ordenada que o rei guerreiro esteja entre os seus. O senhor rei guerreiro necessita de conselheiros e consultores. Como um conselho existe para esclarecer dúvidas e propor questões, no conselho do rei deveria ser utilizada a nossa obra A Arte do Concílio [49], com a qual se pode encontrar conselho pelo caminho da arte. Também compomos outros livros em língua vulgar que seriam de proveito moral para os militares: a Doutrina para Crianças [50], o Livro de Blaquerna [51], o Livro de Félix [52], o da Filosofia do Bom Amor [53] e o Livro do Gentio [54]. Nesses livros encontrarão prazer, ciência e ensinamento moral. Muitos outros bons costumes convêm a essa ordem, que exporemos no seu lugar, como é agora a maneira como serão admitidos os freires. Será bom que a admissão se faça publicamente, porque, se for feita secretamente, surgirão más interpretações entre os que não pertencerem à ordem. II.3. Do Lugar Cinco são os lugares que devem ser considerados para guerrear contra os malvados sarracenos para que seja conquistada a Terra Santa e as outras terras que foram perdidas pelos cristãos. 1. O primeiro lugar é a rota através da terra do imperador de Constantinopla e dos turcos, seguindo depois pelas terras da Armênia [55] e da Síria. Esta rota é áspera, difícil e muito larga; necessita um exército muito grande e excessivas despesas. Inicialmente não deve ser recomendada. 2. A segunda rota passa pela ilha chamada Roseta [56], situada à margem de Alexandria. Essa ilha pode ser tomada e ocupada com galeras e militares. No entanto, a rota é muito larga e requer muitas despesas e guerreiros. Atualmente não é recomendada. 3. A terceira rota vai pelo mar em direção a Chipre, pela Armênia. Mas essas terras não são indicadas para todos; eu sei por que nela estive. Também é uma rota larga, requer muitos navegantes e guerreiros para submeter a terra. Por outro lado, Chipre e Armênia não têm víveres nem cavalos suficientes. Tampouco essa rota é aconselhável. 4. O quarto lugar é a Tunísia. Mas este lugar não é recomendável porque tem muitos habitantes, requer um grande exército e muitos cavalos. Recordemos a experiência quando nela passou o rei da França, São Luís [57]. 5. O terceiro lugar é a Espanha, isto é, a Andaluzia, onde há Almeria, Málaga e Granada. É um lugar agradabilíssimo e aconselhável acima de qualquer outro. A rota é por mar e pelos reinos de Aragão e de Castela. Assim se impediria que os outros sarracenos pudessem ajudá-los. A Espanha é muito fértil, cria muitos cavalos; é terra saudável e sobretudo próspera. O rei guerreiro poderia começar a guerra com um pequeno exército; manteria a fronteira e iria conquistando uma fortaleza após outra, progressivamente; uma vila e depois outra, e assim iria multiplicando seu exército. Esse lugar é aconselhável por ser bom de conquistar. Após conquistada a Andaluza, o rei guerreiro, com seu exército aumentado, poderia passar à Barbaria Maior [58], primeiro ao reino de Ceuta, que se encontra somente a três milhas por mar. Neste momento, tal como foi dito, conquistaria uma vila após outra, até a fronteira, e assim avançaria até Tunis. Fortificaria e defenderia as fortalezas, e então poderia fazer a guerra contra os sarracenos em terra plana. Assim, o rei guerreiro poderia chegar à Terra Santa de Jerusalém e conquistar todo o reino do Egito, tal como ordenaremos a seguir. II.4. Da Forma de se fazer a guerra Há doze formas que dão vantagens aos latinos para fazer a guerra contra os sarracenos e os outros infiéis. Comecemos pela primeira. 1. Supondo que o senhor papa e os senhores cardeais venham a eleger o rei guerreiro, como dissemos na distinção precedente e dizemos nessa, a eleição deve ser feita devidamente em honra de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se a Igreja e a Cristandade fizessem tudo o que lhes é possível para honrar Nosso Senhor Deus, seria justo e digno que Cristo os ajudasse na guerra. Assim, muito em breve o negócio seria um êxito. Os sarracenos não podem ter essa vantagem e essa justiça contra os fiéis cristãos, porque perseveram em seu erro contra Cristo. 2. A segunda vantagem é esta: se o rei guerreiro for eleito e se situar na fronteira, como dissemos, toda a Cristandade terá seu coração, seus olhos e seus desejos na vitória do rei sobre seus inimigos. Muitos tomarão seu hábito e se alistarão no exército por conta própria. Os sarracenos não podem usar essa forma contra os cristãos, porque não dispõem de militares religiosos tão ricos e tampouco têm dízimos, pois são pobres em comparação às riquezas dos cristãos. 3. A terceira forma é que, se o rei guerreiro for eleito e se situar totalmente na fronteira, os sarracenos daqui se desencorajarão de lutar contra ele porque pensarão que aquele planejamento de guerra durará sempre. Pois, morrendo um rei guerreiro, outro será eleito em seu lugar em seguida; morrendo um militar da ordem do guerreiro, nela se incorporará outro. Assim, os sarracenos verão que, por causa dessa ordenação, nunca poderão invadir aquela ordem, darão as costas e fugirão, e a partir daquela fronteira irão a um outro lugar para encontrar a paz, se conseguirem. Dessa maneira, o rei guerreiro facilmente poderá conquistar aquelas terras. 4. A quarta forma também será esta: se o rei guerreiro foi eleito, os seus militares e a gente de sua tropa serão muito melhores que seus inimigos, por que continuamente estarão na prática da guerra e lutarão com devoção e audácia de acordo com a regra que lhes foi dada. Os sarracenos não poderão fazer isso, pois não têm tal ordem nem orçamento. 5. A quinta forma será a seguinte: quanto aos cavalos, os cristãos levam vantagem, porque cavalos e cavaleiros são guarnecidos e armados com elmos, lanças e escudos. O rei guerreiro estará entre eles durante o combate; eles serão refúgio e fortaleza, e os sarracenos não poderão separá-los nem movê-los porque não armam tanto os seus corpos nem seus cavalos e porque não sabem, como os cristãos, guerrear com tanta destreza com escudos e lanças. 6. A sexta vantagem é que os cavaleiros cristãos combatem com bestas, não somente com arcos, com os sarracenos. E como a besta é superior ao arco, os cristãos usufruirão essa vantagem. 7. A sétima forma consiste nisso: os cristãos, como dissemos, utilizam principalmente as bestas [59]. A lenha para fazê-las encontra-se em terras de cristãos, não de sarracenos. Portanto, o rei guerreiro se esforçará para recrutar muitos besteiros. Que os besteiros da infantaria usem bestas de dois pés. Diante deles não poderão ser colocados nem os soldados, nem os militares sarracenos, pois cada besteiro é protegido com um escudo e os sarracenos não têm este costume de protegerem-se; e mais, vão ao combate quase nus. 8. A oitava vantagem vem dos almograves que têm os cristãos. [60] Eles são guerreiros a pé, armados com lanças, flechas e escudos, e acostumados a fazer caminhadas curtas e longas, de dia e de noite. Há muitos deles na Catalunha, em Aragão e em Castela. Esses homens são muito necessários na conquista de terras. É bom, portanto, que o rei guerreiro tenha muitos que portem o hábito de sua ordem. 9. A nona vantagem provém das máquinas de guerra que os cristãos podem empregar contra os sarracenos, pois eles não dispõem de tanta madeira nem conhecem o engenho de guerrear com máquinas. 10. A décima vantagem vem do fato que os cristãos têm cidades e fortalezas, são mais ricos e podem dispor de mais víveres e recursos. Por isso, podem permanecer mais tempo no exército. 11. A décima primeira vantagem os cristãos têm no mar, porque podem ir pelo mar contra os sarracenos, e este não, como está claro. 12. A décima segunda vantagem é que os cristãos, por mar e por terra, podem obter mais víveres e ferro que os sarracenos. Os sarracenos somente podem dispor disso por terra, pois têm ferro somente incidentalmente. Por essas doze formas de lutar, os cristãos têm vantagem sobre os sarracenos, sempre supondo que o rei guerreiro seja eleito. Estas vantagens demonstram que os cristãos podem conquistar todas as terras dos sarracenos e dos infiéis. Portanto, quem esteja ou estiver contra essa ordenação, que reflita quem é, o que faz e qual é seu objetivo. Do que foi dito se depreende que “quem tem ouvidos para escutar, que escute”. [61] Por outro lado, os sarracenos têm somente três vantagens sobre os cristãos. Uma é o comando ou o regime que têm; outra é pelos arcos turcos; outra pelas azagaias [62] e a arte de montar a cavalo. Têm de combater. Mas o rei guerreiro pode remediar isso instaurando um bom sistema de comando, nomeando um senhor para cada grupo de dez, outro para cada centena, outro para cada milhar, outro para cada dez mil, e assim aumentando de mil em mil. Aquele que desfizesse essa ordenação seria severamente castigado pelo senhor guerreiro [63]. Por outro lado, o senhor rei guerreiro poderia ensinar aos seus militares a arte de montar a cavalo e o uso dos arcos turcos. Seria bom que os instruísse assim, por que um engenho é burlado pelo mesmo engenho. Assim, dessa maneira o rei guerreiro alcançará a vitória. II.5. Sobre a Armada O senhor guerreiro nomeará almirante um militar de sua ordem, o qual terá sob suas ordens os freires marinheiros que lutarão contra os sarracenos com diversas armas. A marinha impedirá que os cristãos prestem ajuda aos sarracenos, coisa que foi proibida pela Santa Igreja. Durante o verão, transportarão cavalos em suas galeras para desembarcá-los na terra de acordo com suas conveniências; cem militares com cavalos bem armados, cem besteiros a cavalo e quinhentos soldados de infantaria com bestas de dois pés, cada um com um escudo que tenha um buraco por onde possam disparar flechas, bem apoiado em um pau bem fixo, que há de fazer dois palmos de altura e um de espessura; mil soldados a pé com escudos, lanças e dardos poderão introduzir-se fácil e ordenadamente na terra dos sarracenos, estabelecer aí um acampamento e fortificá-lo contra dois mil ou mais cavaleiros, e infiltrar todos ao mesmo tempo, coisa de uma légua ou duas, naquela terra e lá permanecer uma noite, com a oposição ou não dos sarracenos. Quando desejarem, poderão retornar à nau armada, chegando nela por mar com barcos. Da margem do mar poderão destruir os campos de trigo, vilas e acampamentos, bens e animais, e capturar os sarracenos. Assim, a gente atingida não poderá viver próxima do mar nem tampouco os sarracenos, chamados árabes e berberes, que vivem terra adentro, pois estes tiram sua subsistência da pesca. Assim, o almirante, uma vez em um lugar, depois em outro, sucessivamente, poderá destruir a marinha, estabelecer os acampamentos, a fim de entrar terra adentro para tomar trigo, animais e outros bens dos árabes e berberes. Depois, o senhor almirante terá uma grande nau e quatro galeras ou barcos bem armados e preparados, e se apoderará da ilha chamada Rodes, que tem um bom porto – eu o vi –, e da ilha de Malta [64]. Um militar de sua ordem navegará por esse mar para capturar tudo aquilo que for enviado aos sarracenos. Proibir-se-á que qualquer cristão audacioso vá comprar mercadorias em Alexandria ou Síria; será excomungado quem violar essa proibição e seus bens serão confiscados. Também será excomungado quem atacar a sobredita nau ou as galeras, sendo severamente castigados com represálias aqueles que atacarem esses navegantes que forem à terra para armar-se. Os sarracenos, nativos do Egito ou Babilônia, não são habilidosos nem valentes nas armas. Contudo, têm mercenários, tártaros, turcos, e de outras nações, chamados mamelucos [65], e com estes se defendem. Por isso, não lhes será permitido ir a Babilônia com naus e galeras, pois parece que falsos cristãos, por afã de lucro, têm mercado desses mercenários na Grécia. Além do que, a sobredita nau e as galeras interceptarão o comércio de especiarias que são transportadas do Egito para terras cristãs. Assim, o sultão e toda sua pátria se empobrecerá. Os cristãos, como agora os genoveses e os catalães, passariam a comprar especiarias em Bagdá [66] e na Índia, além da terra do sultão. Assim, o país do Egito e a Babilônia encontrar-se-ão tão abatidos que, dentro de seis anos, poderão ser facilmente tomados pelos cristãos. Muitas outras disposições contra os sarracenos, distintas das que dissemos, são competência da armada; contudo, podem ser esclarecidas pelo que já dissemos. II.6. Sobre a Pregação O rei guerreiro disporá de sábios pregadores, que receberão as ordens sagradas para instruir os freires em dois aspectos: 1. Primeiro, pelo que faz à alma: que ensinem quais são as virtudes teologais e morais e a forma como nascem, crescem, minguam, e como se relacionam. Igualmente sobre os pecados: avareza, gula, luxúria, soberba, acídia, inveja e ira. Para isso, é muito útil o Livro Da Pregação [67] escrevi e que trata da arte de pregar. Através dele o homem pode ter conhecimento dos vícios e das virtudes naturais e de como se originam. Tal maneira de pregar é muito boa e louvável, por que com ela os pecadores podem conhecer em qual relação estão em relação aos vícios e às virtudes. Por esse conhecimento, mediante a arte, pode-se relacionar com as virtudes e se distanciar dos vícios. 2. Em segundo lugar, os freires pregarão sobre a guerra: de qual maneira hão de se prevenir no combate contra os infiéis para evitar acidentes ou infortúnios. Para isso, serve a nossa Arte Geral [68], porque surgem muitas questões e dúvidas que se podem resolver com a Arte Geral, como também com o livro Do Concílio [69]. Além disso, esses clérigos ou religiosos, cantando missas, ouvindo confissões, rezando as horas e coisas semelhantes, exercerão o ofício da Santa Igreja. Os freires terão para sua direção esses oficiantes de sua própria ordem com uma devoção maior que se fossem de outra ordem. E mais, seria bom que houvesse na ordem do rei guerreiro juristas, médicos e cirurgiões porque julgam as causas e curam os doentes e os feridos. Para isso, são bons os livros Da Justiça [70] e Da Medicina [71] que fizemos, dos quais se podem tirar conselhos. É bom que os religiosos clérigos pertençam à ordem do rei guerreiro, que saibam falar, ler e entender a língua árabe e outras línguas bárbaras, para que saibam ler, escrever e entender as cartas do rei guerreiro, para guardar os segredos que foram escritos e para disputar com os principais cativos a fim de conduzi-los à santa fé católica. Se não desejarem se converter, que pelo menos os ensine a nossa fé e as razões que temos contra a sua crença e os demonstre que Maomé não foi um verdadeiro profeta. Caso demonstrem conhecimento, isso será bom de se provar com um livro que se chama Alquindi e por outro chamado Telif [72]; também por um outro vamos fazer: Do Gentio. Aqueles cativos, de bom grado ou à força, aprenderão esses livros durante o cativeiro. Depois, o rei guerreiro lhes dará recursos e os deixará livres, deixando-os com boa e agradável aparência. Ele os enviará aos reis sarracenos e aos outros príncipes de suas regiões para que lhes manifeste e lhes mostre o que nós cremos da Santíssima Trindade, e de que maneira cremos na encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim recontarão e explicarão nossa fé no Senhor Jesus Cristo. Isso será causa da conversão de infiéis e da propagação da nossa sacrossanta fé. Ainda mais: que alguns dos ditos frades, que sabem árabe, sejam enviados a príncipes sarracenos e a outros infiéis, como disse, da parte do rei guerreiro. Eles dirão que o senhor rei guerreiro lhes dará fortalezas e cidades caso desejem se converter à nossa santa fé católica; eles mostrarão as razões de nossa fé. Caso não lhes admitirem, eles advertirão que será ordenado contra eles que a espada do rei guerreiro sempre se moverá para despedaçar e matar os infiéis. E mais: o rei guerreiro enviará religiosos árabes como espiões com hábitos sarracenos para que o rei guerreiro conheça a situação dos sarracenos e esteja mais bem preparado para combatê-los. Também: que alguns clérigos instruídos da ordem do rei guerreiro preguem por terras de cristãos para captar recursos e apoio para o seu rei. Dessa maneira, aumentarão a devoção e a ajuda, pois muitos receberão o hábito do dito rei guerreiro. II.7. Dos Mecânicos Nesta parte diremos que o rei guerreiro há de ter em sua ordem mestres experientes nas artes mecânicas, nos serviços e em tudo aquilo que seja necessário a um exército como o seu. Esses freires mestres devem ter mecânicos da mesma ordem que sejam mestres subalternos. Sob suas ordens terão serventes mecânicos sarracenos e cristãos que trabalharão a soldo. Dessa forma, o exército se abastecerá das coisas necessárias, realizadas com fidelidade, pois os freires da ordem serão mais fiéis ao rei guerreiro que outros trabalhadores que não sejam da ordem. O exército terá também os materiais que necessita mediante os homens da ordem, com mais abundância que se fossem procurados por homens seculares. A razão disso é que os religiosos anseiam e procuram unanimemente, como sabemos, a exaltação de sua ordem. O rei guerreiro necessitará dos seguintes mestres: 1. Primeiramente, um tesoureiro muito sábio e fiel, engenhoso, e que saiba fazer contas de diversas índoles, de tal maneira que não seja enganado por ninguém. Ele guardará todos os dinheiros e tesouros. 2. No exército haverá um outro mestre, que seja experiente no comércio e que saiba comprar para o rei as coisas necessárias para o exército; que saiba encontrá-las e qual é o mercado mais importante, e que se abasteça a tempo, pois há muitas vantagens nisso. 3. Que haja também um outro mestre, que estoque e conserve o que foi comprado. 4. Depois desse, que haja um outro que receba dele as mercadorias e as distribua aos outros mestres que necessitam no exército. 5. Sob esse último que receberá e distribuirá as coisas, deverá haver outros mestres mecânicos, como o mestre ferreiro. Sob suas ordens, fabricar-se-á tudo o que se faz do ferro: espadas, claves, couraças, elmos, pregos, ferraduras de cavalos, e as outras coisas semelhantes. 6. Haverá um outro freire, o mestre madeireiro. Sob suas ordens se farão naus, galeras, máquinas, lanças, escudos, bestas, etc. 7. Um outro freire será o mestre pedreiro. Sob suas ordens serão edificadas as fortalezas e as construções, como torres, etc. 8. Um outro freire será o senhor encarregado de fabricar o tecido para fazer as vestes, como as camisas, e também as tendas e as velas, etc. 9. Um outro será o mestre de couro de porco. Sob suas ordens, fabricar-se-ão o calçado, as coberturas das selas e as correias dos escudos, as rédeas dos cavalos, etc. 10. Um outro será o senhor dos pastores. Ocupar-se-á de alimentar os animais: os cavalos, as ovelhas e os bois, os porcos e os carneiros, para que o exército seja provido abundantemente de carne e de galinhas. 11. Um outro será senhor e guardião do trigo: o fará moer para fazer pão e biscoitos. 12. Um outro será o mestre vinhateiro e adegueiro. Comprará o vinho e, quando for necessário, o distribuirá. 13. Haverá também o senhor do legume. E assim, seguindo, para outras coisas. Com tal ordenação, o tesoureiro poderá levar as contas dos sobreditos mestres e cada mestre exercerá o seu ofício ou arte. O tesoureiro devolverá as contas aos conselheiros do rei guerreiro; depois, os conselheiros as devolverá ao rei, para que este saiba quais são seus rendimentos anuais e quanto gasta em cada ano. Um mestre será constituído acima dos outros, o qual terá espiões fiéis e secretos que inspecionarão a fidelidade dos súditos e dos mestres. Com esta ordenação, o exército terá abundância de bens temporais e espirituais, e permanecerá na concórdia e na tranqüilidade, pois onde há ordenança ou ordem, há abundância, perfeição, ou seja, virtude. III. Da Terceira Distinção, que é da exaltação do entendimento Dividimos esta distinção em duas partes. A primeira é da Ars generalis aut compendiosa sive inventiva vel demonstrativa. [73] Todos estes adjetivos são iguais pois são deduzidos dos mesmos princípios. A segunda trata das vinte artes especiais, derivadas da Arte Geral; a saber, da Árvore da ciência [74], da Árvore da Filosofia [75], da Árvore da Filosofia do Amor [76], do Livro do Gentio [77], do Livro da Astronomia [78], do Livro do Intelecto [79], do Livro da Vontade [80], do Livro da Memória [81], do Livro da Luz [82], do Livro da Significação [83], do Livro da Investigação da Dignidade Divina [84], do Livro da Predestinação [85], do Livro da Nova Lógica [86], do Livro da Nova Retórica [87], do Livro do Concílio [88], do Livro da Justiça [89], do Livro da Medicina [90], do Livro da Ascensão e do Descenso do Intelecto [91], do Livro da Arte da Pregação [92], do Livro da Demonstração feita por equiparação [93]. Todos esses livros podem ser chamados artes especialíssimas, pois seus princípios derivam dos princípios generalíssimos da mesma Arte Geral. III.1. Da Arte Geral A Arte Geral é assim chamada porque está dividida em princípios generalíssimos e doze questões, ou regras generalíssimas, das quais se compõem quatro figuras e sua tabela, e com as quais podemos responder todas as questões de qualquer matéria. Diz-se “compendiosa” porque é um tratado breve; também se diz “inventiva” porque ensina a encontrar muitas coisas, e “demonstrativa”, porque tira e demonstra conclusões. III.2. Das Vinte Artes Especiais 1. A Árvore da Ciência é chamado de “arte” porque tem árvores divididas, mediante a arte, para fazer conhecer os segredos dos elementos, dos vegetais, e de muitas outras coisas, como se vê claramente. Diz-se “especial” porque contém princípios especiais, como se vê na Árvore Elemental, que trata dos princípios elementais, e na Árvore Vegetal, que trata dos vegetais, e assim por diante através das outras árvores. 2. A Árvore da Filosofia é chamada de “arte” porque trata, com suas figuras, de encontrar, mediante a arte, os objetos filosóficos e seus segredos. E o faz especialmente com os princípios especiais dos quais é dotada. 3. A Árvore da Filosofia do Bom Amor é chamada de “arte”, pois, mediante a arte, faz entender amorosamente o Amigo, e o bom comportamento que torna o amor mais excelente, em ordem para estimar a Deus. Diz-se “especial” por que aplica seus princípios especialíssimos ao bom amor. 4. O Livro do Gentio é chamado de “arte” pois, quando dá inteligência com suas árvores, ensina, através da arte de encontrar, que a lei dos cristãos deve ser eleita acima de todas as outras. É chamada “especial” porque nela deduzem-se princípios especialíssimos para tal fim. 5. O Livro da Astronomia é chamado de “arte” porque ensina, mediante a arte, a encontrar as constelações e os poderes que os corpos celestes têm nos inferiores. É “especial” pelos princípios especiais nele aí deduzidos, para isso e para seu próprio âmbito. 6. O Livro do Intelecto é chamado de “arte” porque em linha reta trata pela arte e ensina a esclarecer quando ele se encontra em linha reta ou oblíqua. Diz-se “especial” porque se afirma que tem condições especiais. 7. O Livro da Vontade é chamado de “arte” por que ensina, mediante a arte, a encontrar a vontade virtuosa, colocada em linha reta com os princípios superiores. Esses princípios são “especiais” porque especialmente estão referidos na mesma vontade. 8. O Livro da Memória é chamado de “arte” porque ensina como receber, recordar e dirigir, mediante a arte, as espécies pelas quais o entendimento e a vontade ali se colocaram. Diz-se “especial” porque, para isso, têm condições especialíssimas. 9. O Livro da Luz é chamado de “arte” porque, mediante a arte e metaforicamente, aplica os exemplos da luz de uma vela a todos os sujeitos, com os quais o entendimento observa a ciência. É “especial” porque, para isso, têm princípios especiais. 10. O Livro da Significação é chamado de “arte” porque ensina a encontrar, através da arte, o signo do significante e do significado. Diz-se “especial” porque tem princípios especiais e próprios para isso. 11. O Livro da Investigação das Dignidades Divinas é chamado de “arte” porque ensina a encontrar, através da arte, os atos das dignidades divinas, tal como o bonificar, que é o ato da bondade divina; o magnificar, da magnitude divina; e assim por diante, à maneira de cada um. Diz-se “especial” porque tem princípios teológicos especiais para isso. 12. O Livro da Predestinação é chamado de “arte” por que ensina, mediante a arte, a encontrar a conjunção entre a predestinação e o livre-arbítrio. Diz-se “especial” porque tem princípios especiais para isso. 13. O Livro da Nova Lógica é chamado de “arte” porque ensina a reduzir os cinco predicados e os dez predicamentos aos princípios generalíssimos da Arte geral. Diz-se “especial” por que contrai os princípios mais gerais aos princípios menos gerais. 14. O Livro da Nova Retórica é chamado de “arte” porque ensina, através da arte, a dar brilho à forma primeira com a segunda e à matéria primeira com a segunda. Diz-se “especial” porque tem condições especialíssimas. 15. O Livro do Concílio é chamado de “arte” porque, mediante a arte, traz doutrina para dar conselho bom e verdadeiro sobre qualquer matéria. Diz-se “especial” porque tem condições especialíssimas. 16. O Livro da Justiça é chamado de “arte” porque, mediante a arte, ensina a encontrar os princípios do Direito, com os quais a ciência do Direito pode proceder através da arte e pode ser aplicada facilmente ao entendimento. Diz-se “especial” porque tem condições especialíssimas. 17. O Livro da Medicina é chamado de “arte” porque ensina a encontrar, pela arte, a conjunção dos corpos supracelestiais e elementais e seus espaços no paciente. Chama-se “especial” porque tem condições especiais para isso. 18. O Livro da Ascensão e do Descenso do Intelecto é chamado de “arte” por que ensina o entendimento a ascender e descender, mediante a arte, nos entes sensíveis, imagináveis, duvidosos, críveis e inteligíveis, a fim de que o entendimento produza ciência sobre esses entes; e assim, algumas vezes é geral e outras especial, discorrendo através dos nove sujeitos, fora dos quais qualquer ente não pode existir. Esses sujeitos são: Deus, anjo, homem, animal, planta, elementos e elementados, de acordo com a maneira de cada um deles. Chama-se “especial” porque tem condições especiais. 19. O Livro da Pregação é chamado de “arte de pregar” porque tem princípios da arte que fazem encontrar as verdades dos preditos sujeitos; ensina também a forma de aplicar esses princípios aos sermões preparados mediante a arte. Disso oferecemos experiência em cento e dez sermões que contém a supracitada arte. Desses, cinqüenta e dois pertencem aos cinqüenta e dois domingos; os outros dez são dos santos. Diz-se “especial” porque os princípios gerais estão contidos em pregações especialíssimas. 20. O Livro da Equiparação é chamado de “arte” porque conclui por princípios de igualdade, não finais ou causais. Diz-se “especial” porque não tem nada a ver com a conclusão final ou causal. No mundo é muito necessária a Arte Geral para que o entendimento humano esteja disposto geralmente com ela por todas as ciências especiais, e para que, quando cair no erro ao tratá-las, poder ser corrigido por meio da Arte Geral, e também porque nela há mais contingências duvidosas que as que estão escritas. Há também no mundo vinte artes especiais necessárias, como elas mesmas o demonstram; também porque são práticas da mesma Arte Geral. Com elas, as ciências podem ser facilmente obtidas. E como a vida é breve, o homem necessita tal facilidade. E mais: com as preditas nove artes encontradas, faz pouco, e com as outras artes antigas o entendimento pode elevar-se tanto, mediante a Arte, que todos os erros do mundo podem ser rapidamente destruídos e o mundo pode chegar a uma situação de bondade e de verdade. Como não pude fazer implantar no mundo, ao meu agrado, as artes supracitadas, freqüentemente sou menosprezado por tentar, pois as ciências lucrativas estão em evidência e discorrem por este mundo, dominando-o. Pela utilidade pública que vejo nessas artes, sofro e vivo em tristeza e dor, e ando apressadamente por todo o mundo. Aqueles que me são contrários, que sinto se têm surdez mental, grande mal fazem em tudo isso contra o bem público. IV. Conclusão Confiamos este livro ao Espírito Santo. Que ele aperfeiçoe e complete tudo aquilo que contêm, já que foi composto e ditado para o bem comum. Como o Espírito Santo é uma só e comum espiração passiva, igualmente espirado por amor pelo Pai e pelo Filho, está escrito que aqueles que pecam contra o Espírito Santo não serão perdoados [94], pois pecam contra o bem comum e público. Que cada um, portanto, tenha cuidado. “Quem tem ouvidos para escutar, que escute” [95] com um coração limpo, para não ir contra a ordenação exposta, que ordenada para a salvação de todos. Que as avarezas, as preguiças, as invejas, as soberbas, as injustiças e os outros pecados não se elevem contra a razão. Pelo contrário, que haja generosidade, prontidão, legalidade, humildade, justiça e caridade, sem as quais ninguém pode ter a amizade do Espírito, pois estão com elas os verdadeiros amigos do Espírito Santo. Não duvido, pelo contrário, creio firmemente, que se a ordenação exposta nesse livro fosse levada a cabo tal como dissemos, acabar-se-iam as heresias, os erros e as dissensões que poderiam surgir entre os cristãos, pois muitos são os pedintes para promover o bem público. Da mesma forma, a santa fé seria exaltada, pois os fiéis cristãos se mostrariam ardorosos em ajudar o rei guerreiro em tudo aquilo que estivesse ao seu alcance. Daí viria a paz e a concórdia entre os príncipes e os prelados, entre as comunidades e as classes populares. Quem for contra essa ordenação, considere o quanto de mal cometerá e o quanto de bem impedirá nesse mundo; que tenha temor do Espírito Santo, como já foi dito. Ramon Llull concluiu esse Livro do Fim em Montpellier, em louvor e honra do Espírito Santo, no mês de abril do ano da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1305. Amém. * Notas [1] Nossa tradução baseou-se na edição RAMON LLULL. Darrer Llibre sobre la conquesta de Terra Santa (introd. de Jordi Gayà; trad. de Pere Llabrés). Barcelona: Clàssics del Cristianisme 91. Facultat de Teologia de Catalunya / Fundació Enciclopèdia Catalana, 2002, p. 77-111, que, por sua vez, baseou-se na edição crítica de A Madre, ROL IX; CC Continuatio Mediaevalis XXXV, Turnhout 1981, p. 250-291. Nesta tradução, sempre que Ramon Llull citar uma outra obra sua, colocaremos sua referência (data e local de sua composição) obtida no Catálogo Cronológico composto por Anthony Bonner e publicado em Obres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Mallorca: Editorial Moll, 1989, vol. 2, p. 539-589. Comecemos pelo próprio Liber de fine: III.72. Liber de fine. Escrito em abril 1305 em Montpellier. [2] Jn 21, 17. [3] 1Co 2, 10. [4] Mt 11, 15. [5] Ex 3, 14. [6] Para a Seita dos Assassinos, ver LEWIS, Bernard. Os Assassinos. Os primórdios do terrorismo no Islã. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. [7] Lc 22, 38. [8] Mt 12, 30. [9] Mt. 22, 37. [10] III.71. Liber de demonstratione per aequiparantiam. Escrito em março de 1305 em Montpellier. [11] III.48. Libre de Déu; Liber de Deo et Jesu Christo. Escrito em dezembro de 1300 em Maiorca. [12] III.58. Disputatio fidei et intellectus. Escrito em outubro de 1303 em Montpellier. [13] III.70. Liber de ascensu et descensu intellectus. Escrito em março de 1305 em Montpellier. [14] Para o tema da primeira e segunda intenção lulianas, ver o Livro da Intenção: II.A.18. Libre d'intenció; Liber de prima et secunda intentione. Escrito por volta de 1283. Traduzido para o português por Ricardo da Costa (Ufes) e o Grupo de Pesquisas Medievais da UFES III. [15] Is 7, 9. [16] Gn 18, 1-2. [17] Sl. 109, 3. [18] III.62. Liber de intellectu. Escrito em janeiro de 1304 em Montpellier. [19] III.63. Liber de voluntate. Escrito em janeiro de 1304 em Montpellier. [20] III.64. Liber de memoria. Escrito em fevereiro de 1304 em Montpellier. [21] III.65. Liber de significatione. Escrito em fevereiro de 1304 em Montpellier. [22] III.67. De investigatione actaum divinarum rationum. Escrito em abril de 1304 em Montpellier. [23] III.23. Arbre de ciència; Arbor scientiae. Escrito de 29 de setembro de 1295 a 01 de abril de 1296 em Roma. [24] III.64. ter Liber ad probandum aliquos articulos fidei catholicae per syllogisticas rationes (=Liber de syllogismis). Escrito em fevereiro de 1303 em Gênova. [25] Ver nota 21. [26] Ver nota 22. [27] III.52. Libre què deu hom creure de Déu; Liber quid debet homo de Deo credere. Escrito em janeiro de 1302 na Armênia Menor. [28] Trata-se da célebre questão do Filioque. Como é sabido, o símbolo niceno diz que o Espírito Santo procedeu do Pai, e esse texto original havia sido mantido pelas Igrejas do Oriente. Acrescentando qui ex Patre Filioque procedit (“que procede do Pai e do Filho”) foi introduzido pelo Ocidente. Originou uma apresentação diferente da teologia do Espírito Santo, um dos temas clássicos das discussões entre gregos e latinos. Llull defendia a visão ocidental e católica. [29] Llull disse iacibini. Jacobitas é o nome pelo qual também eram conhecidos os | |||||||||||||||