O Livro da Passagem (1292)
Ramon Llull (1232-1316)
Trad.: Prof. Waldomiro Altoé (Ufes)

Obra dividida em duas partes:

I. Como a Terra Santa pode ser recuperada [1]
(52a) Quomodo terra sancta recuperari potest

Deus, em Sua virtude, ostenta aqui
De que modo a Terra Santa pode ser recuperada

Que o senhor papa e os cardeais façam que haja uma única Ordem das Ordens do Hospital, do Templo e do Hospital dos Alemães, dos Irmãos de Uclés [2], de Calatrava; que essa Ordem se chame Ordem do Espírito Santo e o mestre dessa Ordem, com seus irmãos, mantenha a fronteira na Hermínia [3]; que nessa Ordem haja um só administrador que seja senhor do mar, que tenha algumas galés de prontidão e destrua toda a costa da Hermínia até o monte de Barhah [4], e não permita que alguns cristãos levem qualquer auxílio aos sarracenos nem façam com eles qualquer comércio.

Dali em diante, que haja para a predita Ordem um mestre em Teologia que tenha consigo e para sua Ordem homens santos e devotos que aprendam continuamente diversas línguas, em outro lugar ou lugares, especialmente as línguas árabe, persa, comânico [5], guzo [6] e outras línguas cismáticas. Que esses sejam sábios em Teologia e Filosofia, que tenham também devoção principalmente a Deus e preguem o Verbo de Deus por todo o mundo; que tenham também livros selecionados para isso, nos quais haja razões necessárias para destruir todas as objeções dos infiéis, pelas quais também possam ser criadas posições que os infiéis não possam destruir e que posições possam ser tomadas.

Esses homens santos devem tentar tudo quanto puderem para unir os cismáticos aos católicos a fim de destruir seus cismas, que rapidamente possam ser destruídos, e que os unidos cismáticos, condenados ao Tártaro, logo possam adquirir a fé católica, porque vivem sem lei. E com esses separados e convertidos tártaros rapidamente possam destruir todos os sarracenos. Deve-se ter muito cuidado para que os tártaros não recebam a lei como aconteceu com Maomé, que quase destruiu metade dos cristãos, pois se eles receberem a lei por si ou se os sarracenos a levarem para sua seita, toda a cristandade estará em grande perigo.

Que o administrador e mestre em Teologia determine que os sarracenos saibam de que modo cremos na Trindade Divina e na Encarnação, porque eles estimam que nós cremos que existem três deuses compostos em essência e natureza, que o Filho nascido, gerado no tempo em quantidade e em lugar e assim com a origem do Espírito Santo. Crêem também que nós acreditamos que Deus foi alterado na Encarnação e que foi Deus quem padeceu na Paixão de Cristo; e opinam em muitas outras coisas para que creiamos naquilo que não cremos.

Assim, se os próprios sarracenos conhecessem nosso modo de crer, muitos deles viriam para nossa fé, principalmente aqueles que, entre eles, são mestres em ciência, pois não crêem na fé de Maomé, pois estão bem advertidos de seus erros. Que o administrador e mestre em Teologia e seus súditos estejam sob as expensas do mestre da milícia e se procure que outro rei valoroso e devoto, que não tenha esposa, ou que queira expulsar a esposa, receba aquela Ordem e seja seu mestre, pois eu, Ramon Llull, creio que conheço isto hoje.

Caso isso, que agrada a Deus, puder ser feito, que a igreja de Deus tenha muitos bons braços e defensores Dele. Para isso, que o senhor papa e os cardeais dêem o dízimo à Igreja até que a Terra Santa seja conquistada. E que um dos cardeais seja embaixador e vá à mencionada fronteira com o mestre da referida Ordem e o sustente, mantendo certo número de soldados, de infantes e de navios. Então, o dízimo da Igreja produziria muitos frutos, pois quando o mesmo se dá com alguns magnatas por essas partes, não fazem o que prometem; e se todo o dízimo não pode ser dado ao negócio supracitado, no presente, que se dê dele o que pode ser dado e que, e em tempo oportuno, todo o dízimo seja ordenado para este negócio.

Os sarracenos têm vantagem nas guerras contra os cristãos porque podem ir e vir. Já os cristãos não, por causa de suas muitas armaduras. Têm, todavia, vantagens os cristãos contra os sarracenos quando permanecem em campo; assim, os cristãos têm um duplo modo de guerrear, pois seus exércitos são similares aos dos sarracenos, em sua maneira de lutar e em suas armaduras, e quando os sarracenos são postos em fuga, obtenham recursos daqueles que permanecem no campo, e desse modo podem os sarracenos ser expulsos do campo; que os guerreiros porém, ao ir e vir, como foi dito, possam conduzir-se para a segurança dos gregos, dos armênios, dos tártaros e dos jorianos [7].

Por conseguinte, os sarracenos têm vantagem contra os cristãos por causa de sua ordem, pois têm um só chefe para dez, outro para cem, outro para mil e assim por diante. E quando algum deles é desobediente, quem é o chefe sofre castigo; os cristãos podem fazer isso de modo semelhante. Estabelecida a mencionada ordem e existindo um grande exército na fronteira citada, se o sultão viesse com seu exército contra eles, com um grande navio poderiam ir para Alexandria e tomar a ilha de Rosseti [8], que poderia ser tomada antes que o sultão pudesse voltar àquele lugar. Assim, desse modo previsto, os cristãos podem recuperar a Terra Santa.

Se, porém, essa ação presente não se fizer em um breve tempo, ou outra que faremos aqui abaixo, que é mais geral que esta, deve-se temer que os tártaros e os sarracenos dominem os gregos, então serão vizinhos, já que os latinos estariam ausentes e isso seria perigoso. Essa simples organização supracitada é possível por causa da honra de Deus, muito amável, e se a Igreja fizer esta organização será um bom exemplo aos laicos que muito se animarão para o bem, sendo de grande utilidade para o mundo dos cristãos. Por sua vez, a Igreja faria uma dívida de seu poder, Deus infundiria graça e bênção sobre o mencionado negócio e reverteria o mundo à devoção para a qual a Igreja foi exaltada pelos homens santos e mártires e, pela efusão de seu sangue, os infiéis voltariam para o caminho da verdade.

Datado em Roma, Domingo da Natividade, ano de 1292.

*

II. Tratado do modo de converter os infiéis
(52b) Tractatus de modo convertendi infidelis

Deus, em Teu nome
Começa o Tratado do modo de converter os infiéis.

Prólogo

Que este tratado agrade ao Santíssimo Padre Sumo Pontífice e ao Colégio Sacrossanto, dos irmãos que o aceitem e diligentemente o examinem; ele é proveniente de Ramon Llull, seu servo, embora indigno, que, com bom zelo pela conversão dos infiéis, longamente não cessou de trabalhar.

Divide-se este tratado em seis partes:

A primeira parte trata do modo de guerrear pelo mar.
A segunda, do modo de guerrear pela terra.
A terceira, do modo de converter.
A quarta, as razões pelas quais as coisas postas neste tratado deveriam ser feitas.
A quinta, porque os infiéis não podem voltar ao caminho da verdade por outro modo.
A sexta, da organização das despesas.

A divisão que mantemos neste tratado está de acordo com a natureza da disposição das terras, do mar e a situação dos povos, e também conforme a natureza das potências da alma e principalmente segundo as divinas dignidades, natureza e virtude delas. Assim, na esperança e na confiança prosseguiremos.

I. Primeira Parte, isto é, do modo de guerrear por mar

Os cristãos possuem ilhas no mar e são mais fortes que os sarracenos. Por causa disso, que se criem três administradores que tenham galés atentas em certo número e locais apropriados em ilhas que mais são de sua competência e tenham naqueles lugares o domínio e o privilégio e sejam submissos e eleitos pela sacrossanta Igreja, permaneçam em sua guarda e estejam à sua disposição. Que um administrador esteja na Espanha e seja senhor do mar de Trípoli, da Barbária até Safi [9]; que outro seja senhor do mar de Surie, do supradito local até a Hermínia, e o terceiro administrador seja senhor do mar romano.

Que estes administradores façam a guerra nas margens do mar e cuidem para que alguns cristãos não prestem qualquer ajuda a outros que são rebeldes à Santa Igreja ou a mercenários que levam aos mesmos infiéis, e que dêem a eles o dízimo e não comprem mercadorias daqueles infiéis, a não ser que estejam sob contrato e que tenham grande foro, pois assim os cristãos usufruirão um grande lucro e os próprios sarracenos grande prejuízo; tendo destruído as margens em seu poder, que os sarracenos residentes na terra abaixo sofram prejuízos ainda maiores.

E também que os mercadores sarracenos que conduzem mercadorias por mar sejam destruídos; em sua destruição, multiplicar-se-ão os mercadores cristãos, que poderão navegar seguramente pelo mar. Destruídos, porém, outros lugares fortificados das margens sarracenas, que possa ser feita passagem em torno dos mares dos cristãos e os rebeldes não possam resistir aos mesmos por causa da perda de suas margens e também por causa do dano que teriam por longo tempo.

II. Da Segunda Parte, que é do modo de guerrear por terra

Para guerrear por terra, convém ao senhor papa, com um só rei e com os mestres do Templo, do Hospital e dos Teutônicos, na fronteira com a Grécia, ter aí dois gládios, um espiritual e outro corporal, pois interessa ao senhor papa ter maior zelo para exaltar a fé que qualquer outra coisa; que ele pessoalmente vá e dê bom exemplo tanto aos prelados e príncipes quanto aos outros súditos a eles submissos, que se fossem marcados pelo sinal da cruz fariam mais por si.

E que vão com o senhor papa, se ele for, homens santos, religiosos e seculares, conhecedores do idioma grego, desejosos de sofrer a morte por Cristo, conhecedores e sábios em Teologia e Filosofia, que tenham razões necessárias para destruir os cismas deles, e que o senhor papa mande-os para disputar a fé, denunciando a eles que, se não quiserem unir-se à Igreja, lhes ocorrerá perder a terra e serem submetidos ao gládio corporal.

Porém, se os gregos não quiserem receber os núncios citados, que o senhor papa ordene ao imperador deles e aos prelados que lhe mande outros núncios bem conhecedores de sua fé e que venham com segurança para disputar em sua cúria. E presos às suas razões, que voltem à verdade e ouçam o quanto acerca de nossa fé seu imperador e seus prelados denunciam e, se não quiserem unir-se à Igreja, proceda e contra eles de tal modo, que com a ajuda de Deus, eles e os próprios participantes poderão unir-se aos próprios gregos e ser conduzidos à Igreja.

Tendo porém eles próprios sido conquistados, vá com a maior parte deles para a Hermínia com o intuito de guerrear contra os sarracenos, e que os gregos sejam postos na guerra diante dos cristãos, e, em seguida, haja aquisições sucessivas até a Cidade Santa de Jerusalém, Trípoli e Barbária.

Todavia, se os gregos desejarem se unir à Igreja sem guerra, que o senhor papa permita que o imperador dos gregos possua aquela terra e que vá com ele até os sarracenos; mas que o imperador dos gregos, juntamente com seus magnatas, dêem segurança ao senhor papa em nome da Sacrossanta Igreja de Roma e que sejam sempre bons e fiéis a ele e à Igreja. A segurança também pode ser feita por porteiros e fortificando a cidade latina de Constantinopla, até que a Terra Santa, prazerosa a Deus, seja conquistada e povoada por cristãos.

Mas se a vida de um papa não for suficiente para o propósito, que seu sucessor proceda conforme o que foi estabelecido, e assim sucessivamente, até que o objetivo seja alcançado.

Conquistada a Grécia e a Terra Santa, parece-me que a ordenação dos militares existentes na Ordem deva assim ser feita: que o mestre do Templo ou do Hospital com seus militares vá até a Barbária, e que um legado esteja com ele; que o outro vá para a Turquia, igualmente com um legado; que aqueles legados enviados dêem um certo soldo aos militares que o chefe da milícia do Hospital dos Alemães vá para a Licônia [10] lutar contra eles e que um rei daquelas partes vá com ele. Conquistados os licônios, que eles lutem contra os comanos e os outros infiéis.

É bom manter uma distância entre os mestres do Templo, do Hospital e dos Alemães, e quanto mais um distar do outro, tanto mais a ordem deles se multiplicará e eles permanecerão na concórdia e no amor.

Os prelados, canônicos, monges e outros clérigos idôneos para a guerra que desejarem morrer por causa de Cristo e para a recuperação da Terra Santa, deverão ter o privilégio de ir com o senhor papa, e que aqueles que tiverem retorno às expensas do exército recebam o auxílio daqueles bons eclesiásticos. Por causa disto, a sociedade do senhor papa se multiplicará e os leigos serão estimulados a ir. Até aqui, se agrada a Deus que se faça a ordenação mencionada, muitas devem ser as artes mecânicas que, por causa da devoção, ensinariam modos de guerrear e seriam boas para o exército.

Porém, que aqueles que forem para a Barbária aprendam o modo de guerrear dos sarracenos que existe naquelas partes; façam isso também aqueles que forem para a Turquia, pois os cristãos têm um modo de guerrear que, felizmente, os outros não podem ter; os cristãos têm igualmente um modo de guerrear que felizmente os infiéis podem ter. Por causa disso, os cristãos podem submetê-los, pois até agora fazem grande uso de lanceiros e atiradores. Porém, que haja mercadores fiéis que tenham pecúnia o suficiente da Igreja para levar ao exército de tal modo que tenha as coisas necessárias.

Feita a organização dessas coisas ditas e muitas outras que seriam longas de narrar e por todo o mundo publicar, que se sobrepunha até que se consiga o objetivo de subjugar todo o mundo à Sacrossanta Igreja Romana; assim, muitos dos infiéis se assustarão com a magnitude do movimento dos cristãos e sua perseverança, de tal modo que rapidamente os infiéis poderão ser conquistados. E também os cristãos rebeldes da Igreja o temerão muito, assim, que seja ordenado ir sobre eles para que não impeçam a organização mencionada e, se os cristãos rebeldes pedirem perdão, que a Igreja possa perdoá-los e mandá-los para o exército. Tudo o que dissemos foi em prol da utilidade pública e a utilidade pública tem poder sobre a específica. Portanto convém adquirir o modo e a imagem que os imperadores romanos se acostumaram a possuir, enquanto aderiram à utilidade pública, porque, através dela, eles possuíram todo o mundo sucessivamente, por longo tempo, e quando caíram por causa da utilidade específica [11], o Império Romano entrou em declínio.

III. Da Terceira Parte, que é do modo de converter

Em princípio, faça-se o registro das várias seitas no mundo que estão contra da fé católica, e façam-se muitos estudos nos quais os idiomas dos infiéis sejam aprendidos; que os aprendizes sejam homens santos e religiosos, desejosos de morrer por Cristo, bem instruídos em Teologia, Filosofia, e de bons costumes, e que sucessivamente sejam mandados para pregar e disputar com os infiéis, com razões necessárias para destruir as posições que os infiéis possam ter, e que sobreponham suas objeções às posições e objeções que os infiéis fizerem.

Estas razões estão disseminadas nas páginas sacrossantas, e existem em muitos homens sábios, pois estou ciente dessas razões. Então, que se criem livros e que sejam traduzidos em várias línguas de tal modo que os infiéis possam estudar neles e conhecer seus próprios erros. Façam-se também livros sobre os erros dos cismáticos e que sejam expostos com razões necessárias, para que facilmente possam ser encontrados, e que tais livros sejam entregues aos cismáticos para que, através deles, tenham a notícia da verdade na qual se apóia a Sacrossanta Igreja.

Para unir os cismáticos à Santa Igreja, o senhor papa, com seus irmãos, deve trabalhar muito, pois através de sua união os tártaros e todas as outras nações poderão facilmente serem unidos. Faça-se um estudo em Roma [12], porque é a cabeça da Igreja; que outro estudo seja feito em Paris, pois aí há mais ciência do que em qualquer outro lugar e porque muitos estudantes acorrem para lá e os escolares poderão aproveitar aquele estudo, a intenção e as razões necessárias que verão nos infiéis; faça-se outro estudo na Espanha, por causa dos sarracenos; outro em Gênova, outro em Veneza, porque vão estar mais com os sarracenos e os tártaros que com outros homens, outro na Prússia, outro na Hungria, outro em Capha [13], outro na Hermínia, outro em Taurus e em muitos outros lugares importantes, para que se aprendam línguas diversas para disputar com os infiéis. Mais idôneos são os estudos entre os latinos do que entre os infiéis, por causa da segurança, da perpetuidade e dos exames dos aprendizes; os estudantes tenham, nos mencionados lugares, suficientemente suas coisas necessárias.

Nos mencionados estudos, que os meninos sejam alimentados para aprender os idiomas dos infiéis e que tenham a devoção de morrer por Cristo. E se os sarracenos educam os assassinos por causa da diabólica intenção e vaidade deste mundo [14], que maravilha se os cristãos fizessem o mesmo por causa de Cristo, que por nós foi crucificado e morto e espera dar glória e bênçãos àqueles que seguem Seus passos, e também porque é e será o nosso Juiz.

Tendo a Igreja tais núncios, pregadores e disputadores que morram por causa da fé, a Igreja poderia alegrar-se muito e máximo seria o exemplo para os laicos acerca da verdade da fé, pois sua morte exercitaria nos bons costumes e Deus, por eles faria milagres para que os infiéis viessem para o caminho da verdade. Serão bem-aventurados aqueles que, ao procurarem tais homens, lhes imponham as mãos.

Sarracenos e judeus crêem que nós cremos na benigníssima Trindade e Encarnação do Filho de Deus. Estas coisas em que nós não acreditamos, opinam eles que nós cremos que os três deuses sejam distintos em essência e natureza, em tempo e lugares diversos. Desse modo, dizem que o Pai existiu antes do Filho, porque O gerou, e assim é distinto do Filho em essência, no tempo e no lugar. Dizem também que o Pai e Filho são procedentes do Espírito Santo, e também dizem que o Pai está em maior nobreza que o Filho e o Espírito Santo, porque gera e espira. E opõem muitas outras razões contra nós que facilmente podemos destruir, mostrando-lhes que o Pai gera e espira em Sua infinidade, simplicidade e eternidade e acerca de Sua eternidade, simplicidade e infinidade. Assim, não pode haver anterioridade de tempo, nem diversidade de lugar, nem maioridade de nobreza, nem composição que eles crêem que nós cremos existir em Deus, e que dizem que nós implicamos contradição em Deus, no qual existe composição e não composição.

Acerca da Encarnação, acreditam que nós cremos que a natureza divina é alterada ao assumir a carne e que sofreu por causa da morte de Cristo e assim de outras coisas, como crêem que quando a deidade existiu no ventre da bem-aventurada Virgem não permaneceu no Céu, e quando a alma de Cristo desceu aos Infernos com divindade a deidade não permaneceu no corpo. Donde, para opor todas as suas falsas e errôneas coisas supracitadas, facilmente se pode responder que a deidade do filho de Deus, em Sua infinitude e eternidade, assumiu a carne humana. Por causa de todos esses erros citados dos infiéis e de muitos outros, bom seria que se escrevesse um livro para a justificação de nossa fé, dizendo-lhes de que modo cremos nos citados artigos e em outros. Vista nossa credulidade pelos próprios infiéis e desligados de sua abominação, se Deus ajudar, possamos ter a máxima esperança sobre sua conversão.

Além disso, seria bom que os judeus que estão entre os cristãos fossem forçados a escolher outros deles para aprender nossa Gramática, Lógica e Filosofia para que possam entender as outras razões que temos para provar nossa fé, e que fossem examinados se entendessem até um tempo indicado, pois se não quiserem entender, os judeus do mundo pagariam grande quantidade de dinheiro, e tendo assim outros de modo semelhante, seriam tentados com aqueles que entendessem a disputar a fé. Assim, os próprios judeus instruídos fariam empréstimos que os outros judeus do mundo pagariam. Os judeus que se convertessem à boa fé católica e que possuíram bens antes da conversão [15], seriam perdoados, por causa de Deus. A pedido do bispo diocesano, os cristãos que pagaram juros, que tais juros lhes sejam perdoados, e se não quiserem devolver, os bons eclesiásticos o providenciarão.

Que os judeus convertidos e conhecedores de nossa fé discutam com os judeus nas sinagogas e que os outros judeus sejam obrigados a ouvi-los. Da mesma forma com os sarracenos presos entre os cristãos, ordene-se que alguns dos próprios idôneos sejam recebidos, aos quais seja mostrada a nossa fé, e que outras razões nossas destruam a seita deles. Caso queiram vir à fé, que se discuta com eles por algum tempo e, depois disso, que possam ir livremente para sua terra com nossos empréstimos e presentes da corte [16], que eles mesmos contarão aos outros sarracenos nossa fé, as razões que temos e o modo de crer que mantemos. Assim as coisas preditas deveriam ser feitas, que todas essas coisas seriam semeadas entre eles e que os mesmos ficariam em dúvida e preparariam o caminho de sua conversão.

Ainda, para que a conversão dos infiéis seja mais leve e mais rápida, que seja elaborado um tratado sobre os princípios universais, e que seja universal para todas as ciências e conclua pela necessidade da verdade e ensine o modo de encontrar o objeto específico desejado.

IV. Da Quarta Parte, que trata das razões que se devem realizar neste tratado

Muitas razões necessárias poderiam ser aduzidas, mas para evitar prolixidade, apontamos somente dez razões. [17] Esta é a primeira.

Deus é infinito e digno de ser conhecido e amado em toda parte; é eterno, donde se segue que seja conhecido e amado em todo o tempo. E como é grande em bondade, sabedoria e vontade e por outras dignidades, é digno de ser conhecido e amado com grandeza de bondade, de sabedoria e de vontade, caso contrário, seria feita a Ele uma injúria, se com pequenez de bondade, de sabedoria e de vontade fosse conhecido e amado.

Portanto, é digno que as coisas citadas sejam feitas para maior conhecimento, amor e honra por causa d’Ele. Para a exaltação da fé, a Igreja deve empreender o que segue o modo de Cristo, dos apóstolos e dos mártires, sob cuja autoridade a Santa Madre Igreja deve agir, porque por aqueles princípios pelos quais a fé se inicia e se exalta, ela deve ser conservada e multiplicada, de tal modo que os homens sejam chamados e mandados para pregar e disputar com os infiéis, desejosos de sofrer a morte por Cristo e que esta ordem, foi dada justamente acima na terceira parte. E temos experiência do que seja necessário, pois quando cessaram a pregação e a devoção, surgiu Maomé e fingiu que era profeta. Por isso, ele e seus seguidores destruíram quase a metade dos cristãos, e ainda destrói. Assim, é necessário que seja feita a ordem citada, e como os sarracenos ocupam a terra, é lícito à Igreja dos cristãos combatê-los e recuperar as terras que eles injustamente ocupam.

Os sarracenos muito tentaram introduzir os tártaros em sua seita, oferecendo-lhes suas filhas, irmãs e bens. Desse modo, conquistaram muitos tártaros para a sua seita. Sua seita é muito fácil de crer e agradável, pois prometem na outra vida mulheres, comidas, bebidas e muitas outras coisas agradáveis, que existem em sua lei. E como os tártaros são homens rudes, há o perigo que venham para sua seita, e se vierem, ou formarem uma seita ou os judeus puderem conquistá-los, toda a cristandade estará em máximo perigo. Para precaver-se de um perigo tão grande, a Igreja deve tentar a ordem predita, e se puder converter os tártaros à fé, todos os sarracenos poderão ser facilmente destruídos.

O fim pelo qual Deus criou o mundo foi para ser conhecido e amado, e para que o mundo esteja em bom estado, deve ater-se ao fim para o qual foi criado. Reconduzir o mundo a esse fim proposto consiste a ordem sobredita, pois na mesma ordem encontram-se os princípios e os meios que convém a esse fim, e existem por sua natureza, o que não precisa ser provado, pois está claro por si próprio. Temos experiência que, cessados ou impedidos aqueles princípios e meios, o estado do mundo desvia-se de seu fim.

Naturalmente, as gentes gozam de bom princípio, e quanto maior é um princípio em bondade e utilidade pública, tanto mais é agradável e desejado. Porém, o princípio demonstrado na ordem predita é bom, grande e é tão evidente que mais não pode ser. Assim, após iniciá-lo, os homens muito se alegrarão e, por causa dessa alegria, darão ajuda e favor, principalmente nesse tempo em que todos estão em tristeza com a perda da Terra Santa.

Por esse motivo, é bom começar logo a ordem citada, pois devido à prolongação de seu princípio, a caridade e a devoção podem diminuir. Os sarracenos, os tártaros e quaisquer outras nações por si só não têm grande poder para ordenar e buscar a utilidade pública como os cristãos, isso por causa do mar, no qual os cristãos são mais poderosos, e também em razão da multiplicação dos clérigos, da ciência e de seu poder, também na riqueza e nos costumes são mais poderosos e nobres que os outros, e principalmente porque os cristãos estão com a verdade e são idôneos para receber a graça e a ajuda de Deus, em razão da fé, os outros não, porque não têm fé e estão no erro.

Por conseguinte, os cristãos devem ter devoção e fervor acima de todos os outros, para servir e louvar a Deus, por causa da humanidade e morte que Ele assumiu por eles. E assim, pelas razões mencionadas têm poder de guerrear e de vencer todas as outras nações. E porque se diz inutilmente que existe aquele poder que não se reduz a ato, convém que poder e ato sejam direcionados a um melhor e mais nobre modo que possa ser reconduzido. Muitos bens são obtidos através da ordem mencionada; assim, quanto maior a concordância entre clérigos e leigos em razão dos negócios, tanto maior concordância evitará a contrariedade, pois a contrariedade é muito perigosa e deve ser evitada.

Desse modo, pela ordem citada, consegue-se um equilíbrio da vontade para o poder e para a sabedoria. Assim, como os cristãos têm grande poder para fazer o bem, têm sabedoria para realizar isso, e se adequarem à vontade em grandeza, querendo Deus, aquele bem se converterá em ato, mas se faltar a vontade em razão de sua pequenez, estão desculpados o poder e a sabedoria, não porém a vontade.

Se os cristãos adequarem a vontade com a sabedoria e o poder no mundo, de acordo com a ordem mencionada, farão seu poder, e se souberem usar a sabedoria com o poder e a vontade de servir a Deus, tanto mais Deus agirá neles com Seu poder, Sua sabedoria e Sua vontade. Assim, pelas razões preditas, os cristãos são obrigados a seguir a vontade na grandeza, com sabedoria e o poder que Deus lhes deu. Dessa forma, reis condes, barões e seus súditos que fazem guerra entre si em razão da ociosidade na qual se encontram, deixariam aquelas guerras, caçadas e muitas vaidades que cometem e que contrariam o fim para o qual foram criados, iriam às lutas contra os infiéis. Quem poderia avaliar o bem que seguiria?

Em Deus, todas as Suas dignidades são grandes, como Sua bondade, Sua eternidade, Seu poder, Sua sabedoria, Sua vontade, Sua virtude, Sua verdade e glória, Sua perfeição, Sua justiça, etc. Assim, deduz-se que se todas são grandes, todas são boas, eternas, etc. Em razão disso, todos os cristãos, em qualquer lugar por si e no mundo, estão obrigados a servir às dignidades de Deus, que são o próprio Deus em grandeza de bondade, de duração, etc. E como as dignidades de Deus são o mesmo, observe isso: como o pecador ofende a divina bondade fazendo o mal, também ofende a própria bondade fazendo um bem pequeno quando pode realizar um grande bem. A razão disso é que a grandeza e a pequenez se opõem e a grandeza e a bondade de Deus são a mesma coisa, e isso é o mesmo a respeito da privação do bem quando a privação se opõe à eternidade, e o mesmo das outras coisas.

Por causa disso, Deus exaltou as pessoas comuns nesse mundo, como o Sumo Pontífice e seus irmãos, prelados, reis e barões, para que no mundo se estabeleça uma ordem que qualquer homem, com todo o seu poder e alma, sirva a Deus, que busca todo o homem, principalmente no universo.

E se a ordem e todas as coisas que se ligam a ela se realizarem, não parece que uma ordem mais elevada possa ser feita para o fim que não tem fim, servindo a Deus e Suas dignidades em bondade, em grandeza, em eternidade, etc. As coisas substanciais são mais necessárias que as acidentais, porque a substância importa mais a respeito do ser, da bondade, da grandeza, etc., que o acidental, e também porque existe substância para a primeira intenção, e o acidente, na verdade, para a segunda [18]. A razão é essa: a substância permanece por si, enquanto o acidente se sustenta na própria substância, na qual tem seu ser, donde, ter neste mundo honra, prazeres e longa vida, existe como segunda intenção e por acidente; já conhecer a Deus, amá-Lo e tratá-Lo como Ele teve de nós a máxima reverência e honra, existe pela primeira intenção, e substancialmente, em razão do fim pelo qual o homem foi criado. Assim, insistir na segunda intenção e negligenciar a primeira é perverter tudo pelo qual o homem foi criado.

Dessa forma, pela mencionada ordem, as intenções ordenadas no mundo permaneceriam, pela própria ordem observada, e para o devido fim, como é o propósito conduzi-la, se conseguiria a intenção do fim. Disso temos experiência em contrário, pois hoje os homens amam principalmente a Deus pela segunda intenção e acidentalmente em razão do fim. Amam-No para terem prosperidade nesse mundo e glória na outra vida, e O temem para não terem o castigo infernal, pois certamente poucos daqueles que são e onde estão hoje amam a Deus pela primeira intenção substancialmente em razão do fim e porque é bom, grande, eterno, etc., temendo ofender Sua bondade, Sua grandeza, etc., que me admiro se o mundo vive em mau estado. O homem enfermo, existindo e não tendo sua saúde alterada, concebe a morte. O mundo está enfermo por causa dos pecados, e há mais maldade que bondade, mais ignorância que ciência, mais falsidade que verdade, de tal modo que a grandeza está mais impregnada de malícia e de vício que de bondade e virtude.

Portanto, se o mundo não assumir alguma alteração em grande bondade, mas permanecer assim no mal, ao final, pouco a pouco, virá a decadência. Portanto, convém que o Sumo Pontífice, seus irmãos e outros homens valentes estabeleçam essa grande e elevada ordem, e que todo o mundo retorne para caminho da verdade de tal modo que a grandeza seja muito mais infundida na bondade que na falsidade, a ciência mais que a ignorância e a verdade mais que a falsidade, e assim de outras coisas. Porém, isso pode ser feito de acordo com a ordem mencionada.

V. Da Quinta Parte, que trata do outro modo pelo qual os infiéis não podem ser convertidos para o caminho da verdade

Em razão da disposição da forma e da matéria, a ordem citada é tão elevada que não pode ser mais alta. Sua elevação encontra-se na bondade, na grandeza, na perseverança, no poder, na verdade e na virtude, e assim das outras coisas, e por esses motivos não convém ser provada, porque por si só é clara. E possível reconduzir o mundo ao fim para o qual foi criado e essa possibilidade encontra-se na elevação da bondade, etc., e consiste não em sua enfermidade, pois constituiria na enfermidade, o desvio do mundo de sua finalidade consistiria na elevação da bondade, da grandeza, etc., o que é impossível. Portanto, está claro que, sem a ordem mencionada, o mundo não pode ser reduzido a seu fim, conforme o poder humano. Porém, o desvio do mundo está em esquecer, ignorar e odiar a Deus, e cultuar, entender e amar as coisas mundanas contra Ele.

E muito difícil contradizer um meio quando o meio se ajuda com o princípio e o fim, mas é extremamente fácil quando seu princípio e seu fim se contradizem. Como a Terra Santa está muito distante dos latinos e no meio deles estão os cismáticos que resistem à Igreja, começar pelos extremos é bom; o fim, porém, é grande, e assim carece de um grande princípio e um meio para que possa ser adquirido. Está claro que, pela oposição da mencionada ordem, a Terra Santa não pode ser recuperada nem mantida aprisionada. O princípio, iniciado na concordância, é mais forte do que na contrariedade, mas iniciar contra os infiéis a disputa e a concordância das dignidades de Deus com razões necessárias importa mais que somente guerrear contra eles, contrariando-os com o gládio, matando-os e retirando as terras que possuem. Mas na conversão e no perdão dos bens que possuem importa a concordância e o amor e assim tal concordância e disposição em razão deste princípio passa do meio ao seu fim. Tal concordância contra a ordem citada não pode existir.

Começar o bem é bom, mas principiar o bem e não perseverar é um mau. A razão é porque é próprio perseverar na eternidade de Deus, como fazer o bem na bondade. Isso é igual a engrandecer, poder ter, saber, querer, etc., e sobre todos os outros atos secundários das qualidades dos homens que Deus infundiu no homem, como Sua bondade que infundiu no homem Sua semelhança especialmente para fazer o bem ao próprio homem, em razão da qual o próprio homem se beneficia. Assim, a grandeza de Deus infunde Sua semelhança ao homem, e Ele mesmo se engrandece, e o mesmo das outras coisas.

Toda essa ordem mencionada importa de modo semelhante, donde se segue que, em oposição àquela ordenação, o propósito desejado não pode ser adquirido. Iniciar o grande princípio contra os infiéis e dar-lhe o que lhe convém assustaria os infiéis em razão da grandeza, do poder, da duração, assim como pelo temor e pela longa perseverança. Eles estão em tamanha tribulação e em guerra e em tão grande tribulação e temor que o princípio grande e prolongado na execução afastaria os próprios infiéis, e seu coração e espírito viriam mais facilmente à submissão da Igreja. Assim, a ordem mencionada é importante e seu oposto leva a um princípio oposto.

O desacordo que existe entre latinos, cismáticos e infiéis é bom, até que os latinos, naquilo que discordam do erro deles e naquilo que tenham matéria na qual se fazem bons, podem, pregando, converter os maus, suportando trabalhos e morte por causa de Cristo e convertendo aquela contrariedade em concordância. É mau para os cismáticos e infiéis, porque estão no erro e será mau também para os latinos se eles não impugnarem aquela contrariedade logo que puderem. E como a contrariedade é grande na malícia, não pode converter-se em bondade, concordando sem a máxima grandeza de bondade. Mas para que haja concordância nos latinos, a ordem predita declara esta grandeza, mas atinge seu oposto. O olho da vontade é o intelecto para que a vontade ame as coisas que devem ser amadas e odeie as que devem ser odiadas.

Assim, quando o intelecto ilumina e declara com grandeza, a vontade está obrigada a amar ou odiar com grandeza, para que a grandeza da operação do intelecto não se frustre e a magnanimidade de sua vontade para com o objeto desejado seja a moção do intelecto para o objeto verdadeiro. Assim como o intelecto, também a vontade se porte com grandeza ao seu bem desejado. Assim como o intelecto, igualmente deve ater-se ao seu verdadeiro objeto para que a magnanimidade da vontade não se atenha em vão na moção do intelecto. Entre o intelecto e a vontade há o poder, comunicando-se a eles igualmente para que qualquer poder possa atingir o objeto com grandeza de bondade e de verdade.

Portanto, de acordo com a ordem mencionada, todas essas coisas citadas, para que o propósito desejado aconteça é necessário que não estejam em oposição. Assim, está claro que, sem a grandeza do movimento do intelecto, sem a grandeza da vontade e a coesão do poder, é impossível converter o mundo para o caminho da verdade e para um bom estado. Pois entre ordem e ordem há diferença e a diferença deve estar em concordância com a grandeza. Mas se está em concordância com pequenez, a concordância é prejudicada na contrariedade, e por conseqüência, há diferença na malícia e ordem na privação, debilidade e ódio. A razão disso é porque, privado um princípio, privam-se todos os outros que estejam de acordo com ele, donde, para isso, não há outro remédio a não ser afastar uma ordem da outra, para que nas coisas corporais não exista contrariedade e para que nas coisas espirituais haja acordo, as quais segundo a ordem mencionada são significativas.

Entre latinos e cismáticos há diferença, e essa diferença existe em parte da concordância e em parte na contrariedade; a parte da contrariedade e a ocasião de duvidar da fé católica está nos infiéis, contra a fé católica portanto, deve-se tentar a união entre latinos e cismáticos para que o cisma deles seja destruído, é a conversão. E a dúvida ocasiona a dureza no coração dos infiéis e a cegueira dos olhos do intelecto, donde outros males provêm, assim como os infiéis desconhecem aqueles cristãos que hoje se mantêm na verdadeira fé, etc.

Entre os clérigos e os leigos há diferença, e essa diferença deve estar na concordância com a grandeza de bondade, de duração, de poder, etc., para que a contrariedade não surja entre eles. Deus Pai e Deus Filho têm concordância com o Espírito Santo, o Pai e o Espírito Santo com o Filho Encarnado, o homem e a mulher com o filho, a forma e a matéria na união, e assim por diante, como quando o meio conserva aquela concordância com a grandeza de bondade, de duração, etc.. Assim, para que os clérigos e os leigos estejam de acordo, tenham um bom meio e grande, de tal modo que as mãos operem segundo a ordem mencionada. Assim, fica claro que sem esta ordem mencionada não podem chegar ao propósito desejado, e este significado existe conforme as razões preditas e muitas outras que seria cansativo narrá-las.

VI. Da Sexta Parte, que é da ordem das despesas

De acordo com o que foi exposto, convém que haja grandes despesas para que a forma tenha matéria através da qual possa agir para que chegue ao fim, pois faltando matéria, falta forma, e como a matéria está na grandeza e disposta para um propósito, a forma possui culpa que a move para um fim, pois a própria forma e matéria existem e, a não ser que o poder da matéria se reduza a ato, a matéria se enfraquece em razão da privação do ato da paixão, e também a forma em razão da privação do ato da ação, com a perfeição da matéria é sofrer e a perfeição da forma é agir, quanto mais a matéria sofre, mais se aperfeiçoa, e também a forma, por conseqüência, quanto mais age, mais se aperfeiçoa. Para o propósito mencionado, convém que a Igreja ordene que se dê a décima parte dos bens eclesiásticos anualmente até que o propósito chegue a seu fim, e ponham esse dízimo entre seus súditos, para dividir com o exército, como se disse acima. Assim que esses súditos restituírem e tiverem indulgência pela cruz dos assinalados, que se administre isso devota e fielmente, outros que sofram a pena devida.

Muitos outros modos existem pelos quais a Igreja pode ordenar seus bens temporais para a utilidade de tão grande negócio, mas não quero me intrometer nisso porque não sou digno. Ainda suplico humilde e devotadamente ao Senhor Santíssimo e aos seus irmãos que me ampare se em algo falei demais ou errei, pois se errei não o fiz intencionalmente, e sim especialmente, com grande zelo para que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse conhecido e amado em todo o mundo. Recomendo esse trabalho à Sua proteção e da própria Beatíssima Virgem Maria.

*

Notas

[1] Tradução de Waldemiro Altoé (Ufes) feita a partir da edição Raimundi Lulli opera latina, vol. XXVIII, p. 328-331. Liber de sancta Maria in Monte Pessulano anno MCCXC, editerunt Blanca Gari et Fernando Dominguez Reboiras (Corpus Christianorum. Continuatio mediaevalis CLXXXII), Turnhout: Brepols Publishers, 2003. Esta epístola, um texto da Fase ternária (1290-1308), foi escrita ao papa Nicolau IV (Girolamo Masci, 1288-1292), o primeiro papa franciscano. No Catálogo Cronológico das Obras de Ramon Llull, de Anthony Bonner assim consta: III.10. Libre de passatge. Escrito em 1292 em Roma. Lo xi, G1 bb, Av 49, Ca 216 & Obras Perdidas 4, Pla 65-6, ROL 51. Em duas partes: III. 10a. Quomodo Terra Sancta recuperari potest (=Epistola summo pontifici Nicholau IV); Petició a Nicolau IV. III.10b. Tractatus de modo convertendi infideles. Latim. 4 Mss. Ed. Rambaud-Buhot em Opera Latina III, Mallorca, 1954, 93-112. Francês. Trad. de 10b em Sugranyes, Docteur, pp. 131-43. Ver BONNER, Antoni. “Catàleg cronològic de les obres de Ramon Llull”. In: Obres Selectes de Ramon Llull (1232-1316) (ed. introd. i notes de Antoni Bonner). Mallorca: Editorial Moll, 1989, volum II, p. 539-589

[2] Ordem de Santiago de Uclés.

[3] Llull chama de Hermínia a ilha de Roseta (atualmente em árabe, Rašid), célebre pela Estela conhecida como Pedra de Rosetta (196 a.C.). De fato, trata-se de uma cidade situada às margens do Nilo.

[4] Na Cirenaica.

[5] Língua dos comânicos, ou populações citas.

[6] Língua dos guzos, povos turcos seldjúcidas.

[7] Provavelmente povos da região de Ghor, ou vale do Jordão.

[8] Ilha próxima a Alexandria, no Egito.

[9] Provavelmente na costa atlântica do Marrocos.

[10] Ou Licônia, região da Ásia Menor, vizinha da Cilícia, na época parte do Sultanato Seldjúcida de Icônio. Ver McEVEDY, Colin. Atlas da História Medieval. São Paulo: Verbo-Edusp, 1979, p. 80.

[11] Isto é, por causa dos interesses privados se sobrepujarem ao interesse público – COSTA, Ricardo da.

[12] Isto é, uma única escola.

[13] Haifa.

[14] Para a seita dos Assassinos, ver LEWIS, Bernard. Os Assassinos. Os primórdios do terrorismo no Islã. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

[15] Isto é, possuíram dinheiro às custas dos cristãos.

[16] No original, curilitates.

[17] Exatamente como no original.

[18] Llull aqui alude à sua teoria da primeira e segunda intenção. Ver O Livro da Intenção.