A Retórica Nova (1301) [1]
Ramon Llull (1232-1316)
Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)
Revisão gramatical: Nayhara Sepulcri (CNPq - Ufes)


Detalhe da iluminura 2 do Breviculum.

Prólogo

Deus, em Vossa virtude começa a Retórica Nova.

1. Como o verbo é o meio e o instrumento através do qual os loquazes e os ouvintes convêm em um único fim, conseqüentemente, quanto mais bem ordenadas e ornadas forem as palavras, mais plenas serão de beleza [2]; e quanto mais belas forem as palavras, mais prazerosas se tornarão aos ouvintes. E, certamente, quanto mais prazerosas forem as palavras, mais necessário será que, graças a elas, unanimemente os loquazes e os ouvintes se unam em um fim. E como a arte retórica se ordena a este propósito, o objeto desta arte será, portanto, a palavra ordenada, ornada e bela.

Faz muito tempo que desejávamos transmitir um ensinamento sobre a maneira de ordenar e ornar as palavras, e sobre a maneira de compor sermões conforme a Arte geral, mas iniludíveis obrigações nos impediram. [3] Sobretudo nos impediram o fato de os loquazes exigirem um tratamento extenso, já que versam sobre temas muito diversos. Por este motivo, redigimos este livro em forma de compêndio, a fim de trilhar um caminho fácil e útil para compor e redigir sermões que, sendo belos e naturais, versem sobre múltiplas e diversas matérias, respeitando o desenvolvimento e a ordem devida.

Da divisão deste livro

2. Para que a doutrina desse livro se torne clara aos leitores, o dividimos em partes, para tornar evidente a ordem da doutrina e facilitar a investigação dos interessados. Assim, o livro é formado por quatro partes: ordem, beleza, ciência e caridade.

3. A ordem é uma parte dessa ciência, já que nela são transmitidos aos que advogam por uma causa a doutrina que ensina a observar a ordem devida em qualquer tipo de sermão e usos da palavra, e evitar a desordem. O objetivo é que, entre loquazes e ouvintes, se estabeleça aquela paz e amizade mútuas que nascem das palavras ordenadas e belas, tal como testemunha Sêneca, quando diz que “falar bem deve ser o princípio da amizade”. [4]

4. De maneira semelhante, se diz que a beleza é uma parte da matéria dessa arte, porque consideram que a beleza é matéria da própria retórica. Assim, a beleza deve permitir a transmissão de uma doutrina por meio da qual todos possam ornar e decorar [5] suas palavras com uma adequada congruência. [6]

5. A ciência também é uma parte de nossa retórica, para transmitir aquela doutrina sugerida aos leitores, supondo que a dominem e dela se sirvam para buscar o esplendor e o ornamento das palavras, além de como descobrir as palavras ornadas e belas. Dessa maneira, poderão discernir as palavras ordenadas e belas das desordenadas e torpes, e utilizar as belas e evitar as torpes. [7]

6. A caridade é a quarta parte dessa arte, porque é dela que retiramos a doutrina, com ou sem palavras, pois as palavras surgidas da caridade refulgem esplendorosamente belas, de tal maneira que, em última instância, sem a caridade elas não podem ser belas.

Da Primeira Parte desse Livro, que trata da Ordem

7. A ordem que se observa nas palavras é aquilo que confere virtude e eficácia, tanto no loquaz quanto no ouvinte.

8. Esta ordem das palavras contém uma tríade que a configura: a forma, a matéria e o fim. [8] Todas as três, contudo, têm um duplo significado.

I. A forma das palavras

9. A forma das palavras é dupla. A palavra tem uma forma essencial e própria que vem de si, mas tem também outra forma que lhe vem da adjunção de outra palavra: esta forma lhe é acidental.

Podemos dar um exemplo. A palavra “rainha” tem, por si mesma, uma grande beleza e uma grande ornamentação, que são sua forma essencial. [9] Mas tem outra forma acidental, que surge quando acrescentamos uma palavra que signifique bondade. A bondade orna com mais graça e esplendor o que a palavra “rainha” significa, como quando dizemos: “A rainha tem uma grande bondade”, ou “A rainha é boa”.

A razão pela qual dizemos isso é óbvia, já que a beleza significada pela palavra “rainha” concorda maximamente com a bondade. E a bondade, que é a forma acidental, decora e embeleza a beleza da rainha, que é forma essencial. Isso se manifesta sensivelmente em seu contrário. Pois quando alguém diz: “A rainha que tem uma grande beleza tem uma grande malícia”, vemos claramente que a malícia leva, aniquila e deturpa a forma essencial primária.

Aqui devemos expor a doutrina que permite discernir as duas formas das palavras, para que elas possam realçar o esplendor da própria forma essencial pela beleza da forma acidental, e possam evitar fazer o contrário, isto é, aniquilá-la. Assim, não fala retoricamente quem diz: “A rainha tem uma grande beleza e uma grande malícia”, ou: “Tem uma grande bondade e uma grande estultícia”. Dever-se-á emitir um juízo similar em tudo o que seja semelhante a isso.

II. A matéria das palavras

10. Assim como há uma dupla forma nas palavras, também há uma dupla matéria.

Uma, que é essencial e própria, é aquela que indica as dicções ou vocábulos, como “rainha”, “grandeza”, e “beleza”, já que as dicções e os vocábulos são a matéria e o substrato da forma das palavras. [10] Designam esta forma quando dizem: “A rainha tem uma grande beleza”. Estes vocábulos são a própria matéria da forma nas palavras, tal como as travas da quina do barco são a matéria da forma do barco.

Contudo, há outra matéria acidental nas palavras que mostra vocábulos como “rainha”, “grandeza”, “bondade”. Estes vocábulos são matéria acidental da seguinte forma: “A rainha tem uma grande bondade”. Assim como a forma “A rainha tem uma grande beleza” colore e embeleza a forma “A rainha tem uma grande beleza”, podemos concluir o que dissemos acima: que também os vocábulos “rainha” e “beleza” são a matéria própria e primeira em relação às dicções “rainha” e “bondade”; que são sua matéria acidental, se ambas as matérias se referem à forma citada, a que propriamente lhe convém.

III. A finalidade das palavras

11. Similarmente, a finalidade das palavras é dupla: uma é explicar, a outra, aquilo que o falante pretende com o que fala.

A primeira finalidade das palavras surge quando se explica ou se exprime algo, como quando alguém diz as palavras: “A rainha que tem uma grande beleza, tem uma grande bondade”.

A segunda finalidade das palavras é aquilo que quem fala tenta alcançar com o que diz, aquilo pelo qual ele pronuncia as palavras que diz. Esta finalidade é o complemento da locução e a perfeição das palavras, tal como seguinte exemplo: imaginemos que uma donzela diz a uma rainha “Senhora, vós tendes uma grande beleza e uma grande bondade”, com a intenção que a senhora lhe proporcione um marido, pois esta era a finalidade pela qual a donzela se dirigia à senhora.

12. Estas três coisas – a forma, a matéria e o fim – são as que fazem a ordenação das palavras. De tal maneira a ordem das palavras depende disso, que, sem as três, as palavras não podem ser devidamente ordenadas. E, tendo isso em conta, é que, na segunda e na terceira parte deste opúsculo, nos propomos investigar a ordem das palavras e as palavras ordenadas.

IV. A ordenação das palavras

13. Há outro modo de ordenar as palavras, e que atende o princípio que estabelece naturalmente quais palavras devem ser colocadas no início, quais no meio e quais no fim. [11] Pois cada palavra não é indiferente à ordem que lhe corresponde em relação à outra.

Por exemplo, se alguém tivesse que falar de uma rainha e de uma escrava, deveria antepor a rainha à escrava, e teria que dizer: “A rainha e a serva têm uma grande beleza”, e não “A serva e a rainha são ornadas por uma grande beleza”. É claro que o vocábulo “senhora” ou “rainha” é mais esplendoroso e nobre que o vocábulo “escrava”, pois o vocábulo “senhora” ou “rainha” significa dignidade e domínio.

Por outro lado, a palavra “escrava” indica servidão e sujeição. Portanto, antepomos o nome “rainha” ao nome “escrava”, pois aquilo que é mais digno deve ser anteposto àquilo que é indigno.

14. Esta ordem também deve ser respeitada nas petições, acusações, escusações, e quando damos um conselho. [12]

15. Em primeiro lugar, devemos observar esta ordem nas petições, pois assim mais facilmente obteremos aquilo que pedirmos. Portanto, deve fazer isso àquele que pede alguma coisa a alguém. Por exemplo, imaginemos que um cavaleiro pobre [13] deseje pedir ao rei que ele conceda um tributo a uma filha sua núbil para que possa desfrutar um dote matrimonial. [14] Quem deseje fazer essa petição deve começar louvando o rei e elogiando-o, e inserir aí exemplos de doações e de largueza, para incitar a alma do rei a dar. Por exemplo, lhe cairia muito bem narrar a resposta que deu Alexandre. [15]

Um militar régio, que durante muito tempo havia servido sob as ordens de Alexandre, pediu para ser provido com qualquer coisa que lhe permitisse viver honrosamente, porque seu corpo, por causa da idade, já não era apto para a milícia. O rei Alexandre deu-lhe uma cidade, mas o militar disse que não merecia receber tanto. Contam que o rei respondeu ao militar, dizendo-lhe que não considerava do que ele era digno, mas qual prodigalidade encarnava a munificência real.

O rei demonstrava assim que preferia retribuir conforme o modo e a natureza próprios da largueza, não segundo o modo da avareza e da pobreza, pois a pobreza do militar ou do vassalo ou o serviço dispensado ao rei – requerido pela dignidade real – exigiam que fosse recompensado com uma grande doação.

Em segundo lugar, uma vez dito o que é pertinente ao elogio da majestade real e de sua munificência e largueza, o suplicante deve apresentar a própria necessidade ou a da pessoa pela qual implora: em nosso caso, a indigência e a fraqueza de sua filha mostram que ela não dispunha de nada para poder casá-la, e demonstra como seria vergonhoso e desonroso se ela não pudesse encontrar um marido.

Em terceiro lugar, ditas todas estas coisas, deve-se acrescentar o que sua petição substancialmente pede, isto é, que o rei se digne favorecer casamento de sua filha, adicionando, ainda, como conclusão, que este casamento contribuiria para enaltecer a honra da excelência real, e faria com que sua boa e louvável fama se estendesse aos seus súditos e vassalos, o que seria uma honra e um bem não menosprezável para o próprio cavaleiro suplicante.

16. Os acusadores devem observar um modo semelhante na ordenação de suas palavras.

Quando alguém deseja acusar outra pessoa de alguma falta, após algumas palavras iniciais condenatórias da falta e do pecado, deve-se narrar a falta e, ao fim, acrescentá-la à posição que ocupa. Assim o fez, segundo nos dizem, certo cavaleiro, que acusava seu senhor de tê-lo traído. O cavaleiro havia confiado sua mulher ao senhor, e este havia cometido adultério com ela. Em conseqüência, ao culpar seu senhor de traição, o mencionado cavaleiro iniciou sua narrativa com o que agravava o pecado de traição e o que fazia esta traição mais perniciosa entre os domésticos que confiavam em seus senhores.

Tendo dito isso, ele deve acrescentar o modo como o senhor o traiu, isto é, como o senhor havia desonrado com uma união adúltera a senhora que lhe fora recomendada. Seguindo a ordem previamente bem traçada, que prossiga, em forma de conclusão, expressando veementemente sua ira e indignação contra o senhor que com tanta ingratidão o tratou; e como se tornaram inimigos, ele poderia – e seria justo se o fizesse – recusar-lhe a obediência e a fidelidade que lhe devia como cavaleiro, já que o havia traído com um crime tão atroz.

17. Tampouco se deve separar o que é desculpável diante de alguém deste modo de ordenação das palavras. Primeiro deve-se atentar como se podem harmonizar os elogios e louvores diante daquele que se propõe perdoar. Em seguida, perto do meio de suas palavras deve-se denunciar o engano e a falta incorridos. Finalmente, deve apresentar uma boa desculpa, e dizer que daí em diante, por nada no mundo, tornará a cometer o engano ou a falta da qual foi acusado.

18. Quem aconselha outro, quando lhe dá o conselho, deve decorar suas palavras da seguinte maneira: primeiro, deve narrar ordenadamente todas as coisas sobre as quais deseja aconselhar, para fazer ver claramente por onde terá que começar e como pensa que poderá obter o fim desejado. Na proposta deve ficar muito clara a ordem sugerida: o que deve colocar no princípio, o que no meio e o que no fim, para decidir o que colocar naquilo que pediu conselho.

Assim, o intelecto e a imaginação de quem pede conselho, capta com mais diligência e perspicácia enquanto empreende, continua e termina tudo aquilo que deve fazer para resolver o assunto. A quem escuta e entende dessa maneira, as palavras de quem aconselha lhe parecem ornadas e lhe resultam prazerosas por causa de seu ornato e beleza. [16]

19. Muitos outros modos poderíamos narrar segundo os quais as palavras tornam-se ornadas e belas por causa da ordem que brota quando colocamos esmeradamente palavras no princípio, outras no meio e outras no fim. Não obstante, a ordem própria às palavras, convenientemente dispostas no lugar que lhes correspondem, provém da ordem e da forma, da matéria e do fim, tal como explicamos acima.

Assim, entendemos tudo aquilo que deve ser colocado no princípio, no meio e no fim.

Da Segunda Parte desse Livro, que trata da Beleza

20. Exposta a parte da ordem, segue a segunda parte, que trata da beleza, pois a beleza é a unidade que decora e orna as palavras. [17]

Para a beleza requerida por esta arte são necessárias sete condições: 1) que as palavras possuam vocábulos belos; 2) que tenham princípios belos; 3) que ao falar sejam feitas comparações belas; 4) que sejam interpostos exemplos belos; 5) que as palavras tenham ornamentos congruentes; 6) que as conjunções e as disjunções entre as palavras sejam belas [18], e 7) que, ao princípio, aquele que fala proponha belos e ornados provérbios, adequados ao seu propósito. Através destas sete condições numeradas deve-se inquirir a beleza e o ornato das suas palavras.

A seguir, expomos a doutrina que instrui o cumprimento destas sete condições, para que o homem possa aplicá-las às suas palavras conforme exige seu propósito.

I. Da beleza das palavras

21. A dicção e o vocábulo obtêm a beleza a partir de três coisas: a forma, a matéria e o fim.

22. Dizemos que um vocábulo é belo ou que uma dicção é bela quando tem uma forma bela, tal como os vocábulos a seguir, que enumeram resultados decorados e belos: “deus”, “anjo”, “homem”, “grandeza”, “eternidade”, “poder”, “rei”, “rainha”, “donzela”, “cavaleiro”, “senhora”, e outros semelhantes, todos vocábulos belos por sua forma. O mesmo se pode dizer de “Sol”, “estrela”, “esplendor”, “leão”, “cavalo”, “árvore”, “rosa”, “viola”, “lírio”, “flor”, “ouro”, “rubi” e “esmeralda”. Todos estes vocábulos são belos, e quando alguém os utiliza em sua fala, faz com que suas palavras resplandeçam por sua decoração.

23. Similarmente, dizemos que um vocábulo é belo por causa de sua matéria. Por exemplo, dizemos que o vocábulo “anjo” é belo por causa da natureza de sua matéria, que é de natureza espiritual e incorruptível. [19] Podemos dizer o mesmo dos vocábulos “Sol”, “lua” e “estrelas”, que se tornam esplendorosos por causa da incorruptibilidade de sua matéria. [20]

Quanto ao vocábulo “senhora”, dizemos que é belo porque designa o senhorio, apreciação que deve ser extensiva aos vocábulos semelhantes a esses. Dizemos que “bondade” é um vocábulo esplendoroso porque a bondade é contrária à malícia. De maneira semelhante, “verdade”, pois se opõe à falsidade, e a “largueza”, oposto da avareza. Nesses vocábulos, a contrariedade – ou qualquer outro tipo de oposição – é a matéria graças a qual incorporam a beleza em si mesmas. Portanto, as palavras são embelezadas por esta beleza quando são compostas por estes vocábulos.

24. Em terceiro e último lugar, dizemos que um vocábulo é belo por causa de seu fim. Nesse sentido, o vocábulo “anjo” é belo porque o anjo foi criado para o cumprimento de um ótimo fim, isto é, servir a Deus e, conhecendo-O, fruir uma verdadeira bem-aventurança por meio da suave doçura desta visão.

Podemos dizer o mesmo do vocábulo “justiça”, que tem como finalidade a conservação da paz; e da “misericórdia”, que tem como finalidade a indulgência. E também podemos dizer o mesmo da “dileção”, que tem como finalidade a “diligência”, e da “bondade”, com o fazer o bem; da “paz”, que é viver. E também do “ferro”, que tem como finalidade arar, semear e fazer incisões; de “nau”, que é navegar, de “casa”, que é dar habitação; de “castelo”, que é defender, e o mesmo podemos dizer de todos aqueles outros vocábulos que do fim para o qual se ordenam têm beleza e decoração.

25. Portanto, no uso dos vocábulos deve-se considerar as três coisas citadas, porque se prescindirmos delas as palavras não se tornarão esplendorosas. Por outro lado, se as ordenarmos de acordo com estas três coisas, nunca carecerão de beleza.

II. Dos princípios belos

26. Um dos princípios que mais decoram a beleza das palavras são os princípios belos. Pois se as palavras contiverem princípios belos, serão mais prazerosas e decorativas. Há cinco princípios que, se estiverem ausentes das palavras, deixá-las-ão carentes de todo esplendor: a verdade, a audácia, a afeição, a humildade e a continuidade.

27. Quando alguém diz palavras verdadeiras, o próprio esplendor da verdade faz manifestamente visíveis aos ouvintes a forma, a matéria e o fim daquelas palavras. Isso faz com que os ouvintes entendam claramente e se unam amorosamente àqueles que falam, pois a verdade entendida nas palavras torna amáveis os falantes. E, pelo contrário, a falsidade e a malícia tornam as palavras obscuras e odiosas, porque não resplandece a beleza da forma, nem da matéria, nem do fim, e não se descobre qualquer razão de amabilidade.

O mesmo ocorre quando as palavras são simultaneamente verdadeiras e más, de maneira que nem nas que são falsas e más, nem nas que são verdadeiras e más – somente que carecem da bondade do fim – poderá resplandecer a beleza da forma, da matéria e do fim. Portanto, quando isso for verdadeiramente assim, as palavras serão boas, belas e agradáveis de dizer, e isso será exclusivamente assim quando o falante começar, continuar e estiver configurado exclusivamente por palavras deste tipo.

28. O segundo princípio que embeleza muito as palavras é a audácia [21], que revigora aquele que advoga por uma causa e lhe exalta e fortalece a voz. [22] Na voz daqueles que assim se expressam, se formam virtuosas palavras, que têm a grande virtude de influir nas almas dos ouvintes, que desejam e anseiam sentir aquelas palavras que, graças à audácia, conseguem beleza e encanto. Contudo, quando as palavras são proferidas com temor e sem audácia, perdem sua virtude, e os ouvintes consideram que não têm valor. Quando os homens as proferem com temor, os ouvintes suspeitam que elas não tenham um fim verdadeiro, ou que, se têm, têm pouca ou nenhuma utilidade.

29. Um terceiro princípio é a afeição, que adorna maravilhosamente as palavras. [23] Quando alguém expõe suas palavras com uma grande afeição, o ouvinte se torna benevolente; curioso, presta atenção ao que é dito, e se sente inclinado a aceitar o que o falante se propôs dizer. Mas quando alguém fala sem afeição, rapidamente surge na alma do ouvinte a suspeita que o falante valora muito pouco o fim para o qual compôs suas palavras. Assim, a falta de afeição nas palavras – que revela um desejo módico do fim – deforma as palavras e faz com que as almas dos ouvintes as tenham como supérfluas e levianas. Aquele que fala, portanto, se deseja que suas palavras sejam belas e alcancem o fim que se propôs, no início de sua narrativa tem que propor suas palavras com um grande fervor e muita afeição na alma, para que os ouvintes as recebam na inteligência, na imaginação e na memória, e se afeiçoem com amor, pois esta é a melhor maneira de obter o efeito desejado.

30. O quarto princípio, que tem um valor muito grande no ornamento e na decoração das palavras, é a humildade. Quando aquele que advoga por uma causa inicia suas palavras proferindo-as com humildade, a humildade, que é uma bela virtude, as decora e as exalta. Esta mesma exaltação das palavras faz com que os ouvintes tornem-se humildes, benevolentes e atentos. Então, as mesmas palavras, que são belas quando escutadas porque a humildade as torna atrativas, passam dos ouvidos à imaginação dos ouvintes e, uma vez bem imaginadas, informam a inteligência, são retidas na memória e agradam a vontade dos que as escutam. Pelo contrário, quando alguém começa a falar com arrogância e soberba, a arrogância informa os sentidos, a imaginação e a inteligência dos ouvintes, e deixa sua impressão. Assim, cria uma aparência de futilidade, e nada parece digno de louvor.

31. O último princípio que tem uma grande força para realçar as palavras é chamado de continuidade. [24] A continuidade é um instrumento pelo qual aquele que fala pode ligar as palavras de maneira que uma palavra se una à outra sem interrupção da voz, pois as palavras existem nos sons vocais. De fato, as palavras penetram nos ouvidos quando estes prestam uma atenção continuada, e há continuidade nas palavras e uniformidade na voz. Então, quando a continuidade está presente na inteligência, na memória e na fantasia, os ouvintes retêm melhor as palavras, porque são mais amáveis e mais fáceis de serem estimadas. Mas caso se produzisse uma descontinuidade entre as palavras, isso deixaria sua impressão no ouvinte, as palavras tornar-se-iam banais, deixariam de ser estimadas e perderiam todo o seu valor.

32. Portanto, se se deseja que as palavras se tornem verdadeiramente formosas, elas devem ser realçadas pelos princípios citados. A doutrina exposta pode mostrar bem como os princípios e os exemplos citados, inseridos acima, devem ser adaptados às palavras de acordo com uma ordem congruente. Assim, as palavras ordenadas tornar-se-ão belas e os ouvintes serão movidos ao louvor e à amável dileção.

III. Das comparações belas

33. Três são os graus de comparação: o positivo, o comparativo e o superlativo. O positivo é bom, o comparativo é melhor, e o superlativo é ótimo.

34. Estes três graus de comparação aumentam a decoração das palavras, caso os insiramos em palavras que tenham uma forma, um fim e uma matéria belos. Pois fala belamente quem diz: “A rosa e a violeta são belas”, “A rosa é uma flor mais bela que a violeta”, e“A rosa é a mais bela das flores e, portanto, é mais bela que a flor da amendoeira”. De maneira semelhante, quem diz: “O ouro e o ferro têm uma finalidade boa”, “A finalidade do ferro é mais útil que a finalidade do ouro” – porque, embora o ouro seja mais precioso que o ferro, a finalidade do ferro é mais útil que a finalidade do ouro.

Da mesma forma, e de acordo com os graus de comparação citados, podemos dizer “A rainha é boa e bela”. Por isso, esta palavra resplandece a forma da beleza sobre as outras palavras. Baseando-se nessa comparação, alguém poderia dizer “A rainha é bela, não boa”, mas isso seria como dizer “A rainha e a serva são belas”, uma comparação indecente, porque não se pode comparar uma rainha com uma serva. Portanto, deve-se dizer “A rainha é mais bela que a donzela”, mas não “A rainha é mais bela que a serva”. Da mesma maneira podemos dizer “A rainha e a donzela são muito belas”. Contudo, dizer “A rainha e a serva são muito belas” não é falar belamente.

35. Isso também vale para as comparações entre um nome e um pronome, um verbo, um advérbio ou um particípio, tal como no exemplo “A rainha e vós são bons e belos”, que é um falar belo. Por outro lado, não fala bem quem diz “A rainha e tu sois belos”, como tampouco fala bem quem diz “Eu e a rainha somos belos e bons”.

O mesmo para o nome e o verbo, como quando alguém diz “A rainha e a donzela fazem uma bela camisa de ouro”, “A rainha canta melhor que a donzela”, e “A rainha e a donzela entoam uma canção muito bela”.

O mesmo vale ainda para a comparação entre um nome e um verbo, um advérbio ou um particípio, como quando alguém diz “A rainha fica mais bonita quando ri”, “O rei, quando fala, é mais belo que seu juiz”, e “O rei e seu juiz se amam realmente”, e assim, sucessivamente, se poderia fazer mais sentenças como essas.

36. Portanto, a comparação entre a beleza do sujeito e a do predicado deve ser feita de maneira que sejam geradas palavras belas e ágeis, como, por exemplo, “A rainha é bela”. A razão da beleza destas palavras é que o nome “rainha”, que é sujeito, é uma palavra bela, como também o é “bela”, que é predicado. Ademais, quem diz “A rainha é bela”, fala belamente porque, quando o diz, coloca o substantivo diante do adjetivo, já que o substantivo tem uma essência e uma dignidade maiores que o adjetivo, que é predicado, e sem ele não poderia ter um lugar onde existisse.

Portanto, aquele que coloca o adjetivo diante do substantivo, como “Bela é a rainha”, fala torpe e desordenadamente, e o faz torpemente na medida em que não respeita a dignidade devida ao substantivo. Também o faria se dissesse “Mais bela é a rainha que a donzela”, ou “A beleza é muito grande na donzela e na rainha”. Deveria dizer, ao contrário, “A rainha é mais bela que a donzela” e “A rainha e a donzela têm uma grande beleza”.

37. Quem deseja falar retoricamente pode servir-se de todos os modos citados – e muitos outros – e aplicá-los aos graus de comparação, seguindo os exemplos expostos.

IV. Dos exemplos belos

38. Os exemplos belos surgem de uma dupla matéria, conforme se refiram a coisas naturais ou a coisas morais. [25] As coisas naturais podem ser espirituais – como Deus e os anjos – ou corporais – como o céu, a terra e os animais. De maneira semelhante, há dois tipos de realidades morais: as virtudes e seus contrários, os vícios e pecados. Assim, se aquele que fala deseja que suas palavras sejam prazerosas e decorativas, deve escolher os exemplos pertinentes e aplicá-los às suas palavras, respeitando a ordem devida. Portanto, propomos transmitir a doutrina apropriada para que se possa recorrer adequadamente aos exemplos e saber introduzi-los nos lugares congruentes.

39. Os exemplos belos que devem ser aplicados às palavras para torná-las belas e ornadas são os que falam de Deus. Aplica este tipo de exemplo às suas palavras aquele que faz referência à natureza e às operações divinas, as que Deus tem em Si mesmo e que continuamente opera nas criaturas. Por exemplo, quem pergunta que tipo de semelhança da Trindade divina e bem-aventurada há nas criaturas e admite que Deus seja uno e trino – trino em Pessoas e uno em Substância – deve fazer referência ao fato que em toda a criatura descobrimos uma certa trindade.

Com efeito, toda coisa criada é uma e tem três propriedades essenciais e necessárias. Como vemos no anjo, que é uma substância e também consta de três coisas: de forma, de matéria espiritual e de sua conjunção. [26] Não obstante, a semelhança divina do anjo é deficiente, porque não pode adequar-se à substância divina, já que contêm matéria e, movida por Deus, se desenvolve no tempo. Além disso, o anjo é sujeito de muitos outros acidentes e, por isso, não pode convir a Deus, que é forma pura, eterna e infinita, não sujeita a qualquer acidente.

O que dissemos do anjo podemos dizer igualmente do homem, já que também descobrimos unidade e uma certa trindade; numericamente é uno, embora conste de alma, de corpo e de sua conjunção. Por outro lado, sua alma é uma – configurada por três potências: inteligência, memória e vontade – e torna-se completa quando é configurada por sua matéria espiritual, sua forma e sua conjunção. O mesmo podemos dizer do Sol, do leão, dos peixes, da águia, da árvore, da flor, do fruto, da pedra e de qualquer outra criatura natural.

Portanto, se aquele que fala aplica suas palavras a este tipo de semelhança da Trindade divina, que resplandece na criatura de uma maneira tão bela e especial, conferirá a elas beleza e decoração.

40. Deus convém a todas as criaturas na medida em que as criou e as sustenta no ser. Além disso, aquilo que atua por meio de uma virtude é superior àquilo que atua por meio da natureza, como o corpo humano, que utiliza a virtude vegetativa e a virtude sensitiva da alma. Assim, Deus, como em um grau elevadíssimo participa em todas as criaturas, quis assumir a natureza humana e tornar-se homem, para que, por meio da natureza humana, formasse parte de todas as criaturas, já que, de certa maneira, o homem participa da natureza de todas as criaturas. [27]

Como este exemplo é belo por si mesmo, se alguém se servir dessas palavras decorará ainda mais os seus sermões.

41. Jesus Cristo, para libertar o homem perdido da morte e redimi-lo do poder do inimigo, quis submeter-se, como homem, a muitos trabalhos, até sofrer uma morte duríssima. Além disso, quis ser pobre, para enriquecer-nos com sua pobreza e dar-nos exemplo de como devemos trabalhar para a salvação de muitos e a utilidade comum, e como devemos menosprezar as riquezas deste mundo. E mais: ensinou-nos que se desejamos conseguir a salvação, é uma necessidade inevitável enfrentar penas e trabalhos, suportar a morte, menosprezar as riquezas e desdenhar os prazeres. Portanto, o objetivo de um homem virtuoso deve ser o de servir, tanto quanto possa, o seu Deus, e unir-se a Ele com diletos abraços.

Este tipo de exemplo, aplicado às palavras que se propõe dizer, embeleza e ornamenta as palavras, de maneira que, de sua beleza e ornato, se desenvolve uma perfeição que penetra na imaginação, na memória e no entendimento dos ouvintes.

42. O anjo é de tal natureza que seu ato intelectivo se equipara à sua potência intelectiva, e sua memória se equipara à sua essência. Assim, ele entende na mesma medida que o entendimento, e sua memória e todas as suas lembranças são tão grandes como sua essência. Algo semelhante podemos dizer de sua vontade, já que ama e estima na mesma medida que ele, por essência e natureza, é vontade. Portanto, o anjo, em todo o seu ser, frui Deus por meio da vontade, e O contempla por meio do entendimento, e fica totalmente envolvido pela graça e glória divinas.

Este exemplo deve ser aplicado ao débito que obriga o homem a servir a Deus por meio do entendimento, da memória e da vontade.

43. Este tipo de serviço é a razão que situa o homem entre as criaturas irracionais e Deus, para que estas criaturas – que por si mesmas não podem servir a Deus como faz o homem, já que Deus não pode ser captado por nenhum sentido nem pela imaginação – possam servir por meio do homem, mas por meio dos homens justos, não pelos homens pecadores. Porque os homens pecadores, ainda que recebam um serviço das criaturas irracionais, não retornam este serviço a Deus como lhe é devido. [28]

Se aplicarmos esse exemplo à matéria que nos propomos falar, as palavras tornar-se-ão ornadas e belas, e demonstrarão até que ponto é grande o serviço que os homens justos fazem a Deus, e farão ver como é grande a ofensa dos pecadores que ofendem a Deus quando se servem desordenadamente das criaturas, por si próprias inocentes e puras, e as submetem à vontade dos que contradizem a vontade de seu Criador.

44. Certo bispo, muito conhecido pelas honras que recebia e pelos dinheiros que possuía, como estimava a pobreza, renunciou à dignidade episcopal e foi viver pobremente em uma certa cidade. Vestia um hábito vil, comia frugalmente e vivia uma vida áspera. Não obstante, fazia isso para que todos o elogiassem, o louvassem e lhe tributassem honra e reverência; e se deleitava como todos falavam de sua demissão do episcopado e de sua austeridade de vida. [29]

Este exemplo fará com que as palavras sejam esplendorosas e narrem o homem hipócrita, que faz tudo para que os outros o vejam. Renunciam ao século, mas para receberem das gentes felicitações e honras.

45. Por causa de seu grande resplendor, o Sol, que por sua natureza não tem calor nem secura, participa da natureza do fogo mais que qualquer outro elemento, porque o Sol e o fogo coincidem em luz e resplendor. [30] Assim, o Sol multiplica sua virtude mais no fogo por sua secura que no ar por sua umidade ou que na água por seu frio que na terra por sua secura. [31]

Se alguém aplicar esse exemplo para mostrar que os homens participam mais da graça e da bênção de Deus, a bondade, virtude e santidade dos quais os fazem semelhantes a Deus, que aqueles que menos se assemelham a Deus, esta aplicação fará com que suas palavras se tornem mais refulgentes pelo brilho da beleza.

46. Por causa de sua fortaleza, o leão é tão audaz que não teme ninguém que lhe ataque com lanças, espadas, ou qualquer tipo de dardos. Mas se alguém o ataca com uma corda comprida arrastada pela terra, ele se aterrorizará com aquilo e fugirá depressa. Isso acontece porque, pelo instinto natural que o torna capaz da vitória, ele não teme a vitória do adversário, e sim suas artes e artimanhas. Por isso, o leão teme que o homem, com o engenho de uma corda, o pegue, o prenda e o capture.

Este exemplo, aplicado às palavras e sentenças sobre a guerra, tornarão belas as palavras. [32]

47. Uma propriedade da águia é poder ver mais distante que todas as outras aves. Ela pode isso porque, ao voar mais alto, olha e captura com mais agudeza a virtude e a luz do Sol que as outras aves. [33]

Deve-se recorrer a esse exemplo sempre que se fale de homens santos, que estimam Deus mais intimamente que os outros homens, e o contemplem mais limpidamente.

48. O peixe do mar nasce e vive na água salgada. Não obstante, não é salgado; é tão doce que o homem o salga para poder comê-lo. [34]

Este exemplo permite ornar as palavras que fala, aplicando-as aos sermões que tratam dos homens justos, pois embora no amargor do mar deste mundo, e afligidos pelas tribulações e trabalhos, eles conservam a paz e a doçura de espírito, enquanto servem a Deus com paciência. E por meio da paciência, que somente pode existir na paixão do sofrimento, eles alcançam a paz e a quietude.

49. Contam que uma garça envelhecera tanto que a velhice a impedia de pescar. Ao dar-se conta disso, ela começou a pensar com inquietude como faria para conseguir alimento. Por fim, descobriu uma maneira de pegar os peixes de um lago para obter comida, e então deixou de pescar durante todo o dia, isto é, da manhã até o entardecer. Ao ver que a garça deixara de pescar, um caranguejo que vivia naquele lago perguntou-lhe porque não pescava mais como estava acostumada. A garça respondeu que não pescava mais porque havia ficado muito triste em saber que uns pescadores vieram ao lago e capturaram todos os peixes.

Ao ouvir isso, o caranguejo foi transmitir aos peixes as palavras da garça. Quando ouviram aquilo, todos os peixes acudiram à garça para pedir conselho como escapar dos pescadores. A garça respondeu fraudulentamente, e lhes disse que daquele lago ela levaria todos para outro lago, onde nenhum pescador poderia exercer o ofício da pescaria. Os peixes ficaram satisfeitos com o conselho da garça. Assim, desejando escapar das redes dos pescadores, eles acudiam diariamente à garça, para que ela os levasse ao lago onde era impossível pescar. Mas a garça, cheia de fraude, escolhia os melhores peixes e os levava a um monte para comê-los. Assim, durante muito tempo, com essa arte ela conseguiu comer os peixes sem ter o trabalho de pescá-los.

Então, o caranguejo, que a garça não queria levar porque não era bom para comer, perguntou à garça: “Porque você não me leva ao lago como os outros peixes?”. Ao ouvir isso, a garça abaixou o pescoço, e o caranguejo subiu e a agarrou o máximo que pôde com seus braços. Assim, a garça levou o caranguejo ao monte onde comia os peixes e onde também desejava comer o caranguejo.

Mas quando o caranguejo olhou as espinhas dos peixes que a garça havia comido e não viu nenhum lago, percebeu a fraude que a garça havia cometido e, apertando seu pescoço muito fortemente com seus braços, a matou. O caranguejo deixou o corpo morto da garça estendido na terra, voltou ao lago e, após convocar os peixes, explicou a fraude que a garça havia cometido. [35]

Este exemplo ornará as palavras daquele que, com sua narrativa, denunciar aqueles que, quando perdem as forças na velhice, se valem de fraudes e falsidade, e acabam presos nos laços de sua fraude.

50. Uma antiga narrativa nos explica que uma raposa rogou ao leão, o rei das bestas, que lhe permitisse entrar em sua casa para formar parte de seu Conselho. [36] Ao ouvir isso, o lobo, que formava parte do Conselho real, disse ao rei, tentando persuadi-lo o quanto podia, que não admitisse a raposa em sua cúria, nem a introduzisse em seu Conselho, pois era de linhagem vil e frequentemente enganava as galinhas e depois as devorava. Logo que isso chegou aos ouvidos da raposa, ela disse ao rei que, para tê-la em seu Conselho, ele deveria levar em conta se ela era uma besta sábia e de confiança, mais do que se era de linhagem nobre. Até porque quanto mais fosse de vil linhagem mais se submeteria e obedeceria ao rei. Ao ouvir isso, o rei imediatamente concordou com as preces da raposa e a introduziu em seu Conselho.

Mas quando isso chegou aos ouvidos do leopardo e da leoa, que também formavam parte do Conselho real, eles ficaram muito descontentes. Assim, disseram ao rei: “Nenhum rei pode ter uma besta de vil linhagem em seu Conselho, mesmo que pareça astuta, porque sua astúcia e sua tenacidade acabam em traição. A besta astuta maquina fraudes para acumular riquezas, encimar-se nas honras, promover seus parentes e vis consangüíneos contra os que são nobres. Por outro lado, aqueles que são de uma linhagem genuinamente boa e sangue venerável, cuidam de não fazer nada que possa macular sua nobreza, e temem provocar fraudes e traições. Estes nunca cometem qualquer injúria fraudulentamente”.

Contudo, o rei não escutou os conselhos, e a raposa, acompanhada de seus cúmplices, conseguiu que o rei, cheio de ira contra o lobo, o leopardo e a leoa, os expulsasse, indignado, de sua casa e de seu Conselho. A seguir, a raposa, com sua astúcia, conseguiu que um de seus filhos se tornasse juiz real, e que outro se tornasse o principal da casa real. Além disso, aconselhou o rei a introduzir a perdiz e o galo em seu Conselho, e que convertesse o coelho em seu porteiro, o lobo como seu notário e a pomba como sua núncia.

A raposa aconselhou o rei dessa forma porque todos aqueles animais a temiam. Uma vez tudo isso aconteceu: a raposa se converteu na senhora da cúria real e de todo o Conselho do rei, e assim fazia o que queria.

Então, como era de se esperar, o rei, mal aconselhado, passou a tomar más decisões e a governar seu reino, porque todos os conselheiros, por temerem a raposa, nunca se atreviam a dar seu conselho, e concordavam com tudo o que a raposa propunha. O resultado foi que o rei, que trabalhava e governava mal, adquiriu tão má reputação em todo o reino e em muitas outras regiões, que muitas gentes o desprezavam.

Este exemplo conferiria ornato às palavras se o narrador se referisse a príncipes e prelados que sofrem situações semelhantes às do rei das bestas.

51. Contam que dois símios colocaram lenha sobre um vaga-lume, pensando que era fogo, e assopravam com força a lenha e o vaga-lume para que a lenha, acesa pelo fogo, pudesse aquecer. Próximo daquele lugar havia uma árvore onde uma pomba e um corvo estavam parados. Algumas vezes a pomba disse aos símios que o vaga-lume não era fogo e que eles se esforçavam em vão, já que nunca conseguiriam acender fogo ali. Algumas vezes também o corvo repreendia a pomba, dizendo-lhe que ela fazia mal em aconselhar a quem era obcecado e rude, incapaz de entender conselhos sensatos e de corrigir-se. Mais ainda: se alguém os aconselhava algo que favorecesse sua honra, não teria nada de bom, somente trabalhos e danos. Mas a pomba não escutou o conselho do corvo: desceu a terra para mostrar aos símios que o vaga-lume não era fogo. Logo que a pomba desceu a terra, os símios a capturaram, a mataram e a devoraram.

Se alguém inserir este exemplo em suas palavras, conferirá decoração a elas, se narrá-las a homens que, mesmo sofrendo trabalho, dano e ira, pretendam corrigir homens obstinados que, com sua perversidade, não somente são impedidos de receberem qualquer correção, mas também repreendem e são duros contra seus corretores. [37]

52. O homem tem naturalmente bondade natural, memória, intelecto, vontade e outras perfeições naturais que requerem beleza natural. Esta beleza as configura e embeleza para que sejam prazerosas a Deus e, fazendo o bem, alcancem a vida gloriosa, de tal maneira que a memória recorde o bem, o entendimento entenda o bem e a vontade estime o bem.

Este exemplo decorará as palavras que narrarem a conduta dos que deturpam suas qualidades naturais com pecados e vícios, que são máculas morais.

53. Com seu calor o fogo decora o ar, que tem prazer de receber o calor do fogo. Mas com sua secura o fogo também torna o ar mais leve, o que desagrada o ar. Assim, o ar, suportando paixão, recebe do fogo aquela secura que o contrário da umidade.

Este exemplo deve ser utilizado para decorar as palavras da narrativa que se referem a quem, de um lado, faz algo que agrada a seus amigos e, de outro, por meios diferentes, cogita fazer tudo que os prejudica e os desagrada.

54. Algumas árvores dão tantos frutos que seu peso quebra seus ramos, o que deve significar que os homens deveriam fazer muitas obras boas, mesmo que isso os submetesse a contínuos trabalhos.

Este deveria ser um belo exemplo para narrar a conduta daqueles que, entregues às delícias, negligenciam as boas coisas que poderiam fazer.

55. As árvores produzem ramos, folhas e flores, por causa do fruto, que é a parte mais nobre da árvore, pois o fruto é proveitoso aos homens mais que qualquer outra parte da árvore. Também graças ao fruto, a espécie da árvore também perdura.

Este exemplo tornará belas as palavras endereçadas àqueles que fazem o contrário, por exemplo, contra aqueles que procuram se tornar pessoas comuns [38] e se sobressair acima dos outros, de maneira que isso os permita amontoar riquezas, serem exaltados com honras, viver nas delícias da luxúria, e fazer valer seus amigos e consangüíneos, ao invés de servir e louvar a Deus, que é a verdade, fruto suavíssimo, e o fim da vida perpétua.

56. A rosa é uma flor bela, para quem a possui e para quem a cheira, ainda que nasça e seja colhida entre espinhos. Isso significa que as virtudes, que adquirimos com grandes trabalhos e muito esforço são, como as flores, mais belas e prazerosas, ainda que devamos colhê-las e mantê-las com grandes trabalhos e paixões, embora, uma vez mantidas, aumentem mais e mais.

Se alguém recitar este exemplo aos homens que desejarem ter as virtudes e se esforçarem para obtê-las – sobretudo quando se derem conta de como são graves os trabalhos e as paixões para adquiri-las e conservá-las – tornará admiráveis as palavras que compõe pelo esplendor de sua decoração.

57. O lírio é a mais bela das flores, e significa que o homem não deve se ensoberbecer. Ela é bela porque tem um ramo alto no meio, inclina sua cabeça para a terra e é ornada de pequenos ramos amarelos, que significam que o ouro refulgente não pode ser comparado à bela e santa humildade de uma pessoa. [39]

Este exemplo deveria ser proposto aos homens que se enaltecem, ensoberbecidos por causa da beleza, das honras e das riquezas.

58. Como as flores recebem mais influência do Sol que qualquer outra estrela [40], e como o Sol é maior e mais belo que os outros planetas, todas as flores se dilatam e se orientam em direção ao Sol quando aponta o dia. Mas às vésperas, quando o Sol se põe, as flores também se movem, dirigindo suas cabeças. [41]

Este é um belo exemplo para narrar a conduta dos homens soberbos e arrogantes que se negam a dar graças a Deus pelo ser e pelos dons que receberam, e não Lhe prestam a devida reverência e honra.

59. O ouro, seja por sua cor belíssima, seja porque é o mais maleável dos metais, seja porque os objetos fabricados ele são mais duráveis que os fabricados com qualquer outro metal, é o mais apreciado e melhor custodiado metal no cofre dos tesouros.

Este exemplo deveria servir para ser dirigido aos homens que falam do ouro, o estimam e o custodiam no tesouro de seus corações mais que a Deus, que criou o ouro, que é Senhor de tudo, e é O melhor, O mais belo e mais durável que qualquer criatura.

60. O ouro é mais belo que o ferro, mas o ferro tem um fim mais nobre e útil porque é mais necessário aos homens, ainda que o ouro seja preeminente o ferro na cor. [42]

Esse exemplo deveria ser explicado aos homens que estimam suas mulheres, pois a adornam com ouro para que pareçam mais belas, não para que a espécie humana se multiplique.

61. As forcas, quando fazem justiça, são mais nobres que a taça real, porque esta, mesmo que seja de ouro, somente serve para facilitar a bebida.

Isso deveria ser dito ao rei que estima mais o ouro que a justiça, pois ele é rei para observar a justiça, não para tomar a bebida com uma taça de ouro. [43]

62. A esmeralda ultrapassa o ímã em beleza. Mas o ímã, ainda que seja uma pedra leve, tem mais virtude que a esmeralda.

Se alguém expusesse este exemplo aos homens que estimam as mulheres por sua beleza mais que por sua bondade, tornaria suas palavras muito mais decoradas. [44]

63. Destes exemplos que expusemos acima, extraímos doutrina para que o homem confira decoração às suas palavras, narre belos exemplos e aplique-os convenientemente à finalidade de suas palavras.

Seguindo a doutrina que oferecemos, pode o homem inquirir e descobrir estes exemplos e, explicando-os na narrativa, ou também, se desejar, descobrir matérias similares para diversas matérias.

V. Dos ornamentos belos

64. Há quatro ornamentos belos: as dignidades, as cores, os gestos e as vestimentas.

Pelas dignidades entendo a bondade, a virtude, a potência, a duração, e outras semelhantes a estas. [45] São cores as formas belas, as matérias belas e os fins belos. São gestos um rosto sorridente ao falar e proferir as palavras sem tossir, cuspir, nem mover as mãos ou agitar os pés. [46] São vestimentas belas os vestidos belos que portam os homens que desejam que suas palavras sejam prazerosas. Com estes quatro ornamentos podem-se fazer suaves e belas as suas palavras e evitar a torpeza dos vícios.

65. A bondade do rei e suas dignidades ornam as palavras que o rei utiliza quando fala. Por outro lado, um falante também orna suas palavras quando as aplica à dignidade do rei, por exemplo, quando diz: “Se o rei, que tem tanta bondade, domínio e dignidade, fala com caridade e humildade a seu povo, vós, que sois um pobre cavaleiro, não deveis falar iracundamente, nem soberbamente, nem rudemente àquele que é igual a vós, muito menos a quem é mais nobre que vós, mesmo que creia que o é”.

66. De maneira semelhante, se alguém dissesse “A rainha é bela e boa”, realçaria decorativamente a bondade da rainha com sua beleza. E semelhantemente ocorre com o contrário, quando alguém diz “A rainha, que é boa, é também muito esplêndida”. Por meio dessas cores o homem pode ter doutrina para ornar e embelezar as palavras com uma cor congruente os substantivos belos com adjetivos belos e adjetivos belos com substantivos belos.

67. O homem que fala com gestos belos orna maximamente suas palavras. Por exemplo, o faz assim quem se apresenta diante do rei com o rosto sorridente, e evita tossir e cuspir, de maneira que suas palavras fluem continuamente, sustentadas por uma voz que as pronuncia sem interrupções.

Não obstante, deve manter o corpo reto, as mãos fixas e os pés juntos, mostrando sua humildade, reverência e honra que qualquer súdito deve exibir ao seu rei e senhor. [47]

68. As vestimentas belas e limpas daquele que fala e sabe vestir-se bem são ornamentos belos através dos quais as palavras tornam-se belas. Pelo contrário, as vestimentas torpes e vis deturpam mais que ornam, pois insinuam a necessidade e pobreza daquele que fala.

69. Quem diz “A rainha, que é bela, não é boa”, diz palavras torpes, que podem ser repetidas da seguinte maneira: “É grave que a rainha bela, a quem corresponde uma grande dignidade e uma elevada excelência porque é a mulher do rei, seja deturpada pela mácula do pecado, já que a mácula do pecado deforma toda a beleza”.

De maneira semelhante, quem dissesse “A rainha, que é feia, não é boa”, falaria torpemente. Mas se alguém dissesse “Foi agradável a Deus, que a rainha, que é torpe e não é boa, desfrutasse de beleza e de bondade, de maneira que se tornasse uma digna cônjuge do rei”, diria palavras ornadas para um bom desejo, que é o de formar palavras belas.

70. Segundo este modo explicado acima, transmitimos uma doutrina para reconhecer quais são os ornamentos belos e bem compostos, os quais aquele que tem que falar pode saber como ornar as suas palavras e evitar a torpeza.

6. Dos ditados belos

71. Os ditados são belos por meio de conjunções belas e disjunções decorativas de nomes, pronomes, verbos, particípios e advérbios. [48] Segundo estes dois modos, o homem tem que saber ditar bem e compor palavras esplendorosas. [49] Assim, a doutrina que transmitimos terá por matéria e objeto fazer belos ditados e belas cláusulas.

Para fazer belos ditados, é necessário investigar as belas conjunções e disjunções entre um sujeito e outro, entre verbos, entre particípios, entre pronomes e entre advérbios. Deve também observar que um substantivo seja determinado por um adjetivo próprio, e que um nome receba a adjunção de um verbo, de um particípio e de um pronome conveniente. Aqueles que desejam observar a beleza nos ditados devem seguir os passos que mostram os exemplos a seguir.

72. Aquele que diz “A rainha e a donzela são belas e boas”, une belamente um nome com um nome e um substantivo com um adjetivo. Mas se dissesse “A rainha e a serva são belas e boas”, tornaria torpes as conjunções. [50]

73. Quem diz “O rei e a rainha se estimam mutuamente” une belamente um verbo com nomes substantivos, mas não o faz quem diz “O rei e a rainha se odeiam”, porque o verbo “odiar” não é belo. Semelhantemente, quem dissesse “O rei e a rainha são inteligentes e diligentes” proferiria palavras ornadas, mas não o faria quem dissesse “são negligentes e odiosos”.

74. Quem diz “O rei e a rainha se olham bela e amavelmente” também une belamente verbos, substantivos e advérbios, mas seria bem contrário se dissesse “O rei e a rainha se olham de maneira má e iracunda”.

75. Quem diz “Vós e ele sois belos e bons” estabeleceria uma bela união por meio de um adjetivo, um verbo e um pronome. Mas não estabeleceria se falasse de maneira contrária.

76. Quem dissesse “É belo e bom criar beleza e bondade”, faria belas conjunções entre adjetivos, um verbo e um substantivo, mas faria o contrário se falasse de maneira contrária.

77. Falaria belamente quem dissesse “É belo ser diligente e fervente na hora de fazer o bem”, porque estabeleceria belamente uma união entre um adjetivo, um verbo e particípios. [51] Portanto, não se deve estabelecer qualquer ditado contrário.

78. Quem diz “Bela e bondosamente o rei é belo e bom”, estabelece belas uniões por meio de adjetivos, um nome, um verbo e advérbios. Contudo, não estabelece isso quem diz o contrário.

79. Quem diz “Ele, que faz um grande bem e evita um grande mal, é bom e sábio”, estabelece uniões belas por meio de um pronome e verbos.

80. Quem diz “Ele, que é inteligente e complacente, é sábio e curial” [52], por meio de um pronome, um verbo e particípios [53], exorna aquilo que diz com belas uniões. [54]

81. Quem diz “Ele, que fala belamente, e escuta sabiamente” faz uma união bela ou uma conjunção por meio de um pronome, verbos e advérbios de locução e de audição.

82. Quem diz “Aquele que é inteligente e amante, fala” por meio de um verbo e particípios, estabelece uma união bela e decorativa.

83. Quem diz “Ele que fala belamente e docemente”, por meio de um verbo e advérbios, une belamente aquilo que diz.

84. Quem diz “Aquele que é um amante responde docemente”, por meio de um particípio e um advérbio estabelece uma união bela.

85. Segundo os casos enumerados acima, o homem poderá investigar as uniões belas e decorativas. As consideramos belas porque são estabelecidas entre vocábulos concordantes e belos. Certamente, uma união não pode ser naturalmente bela quando é estabelecida entre um vocábulo belo e outro torpe, ou entre vocábulos contrários. Isso aconteceria, por exemplo, se se dissesse “O rei é belo e a rainha é feia” ou “O rei é bom e a rainha má”.

86. Este mesmo procedimento deve ser aplicado às disjunções. Por exemplo, alguém poderia dizer “Se pedis um cavalo a um rei, ou ele vos dará ou, se não vos der, vos responderá curialmente”. Esta disjunção é bela se comparada à seguinte: “O rei vos dará um cavalo ou não vos dará”. Isso que acabamos de dizer deve ser aplicado também a todas as disjunções semelhantes.

7. Dos provérbios belos

87. Um provérbio é um sermão breve que contém em si uma magna sentença. [55] Como o provérbio introduz palavras, e confere audácia e conselho àquele que fala, incluímos nessa arte alguns provérbios belos. Seguindo-os, os que têm que falar poderão compor e ornar suas palavras, se souberem aplicar congruência à forma, à matéria e ao fim, conforme o exigem a matéria, a forma e o fim das palavras. Assim, publicamos provérbios de diversas matérias, inclusive à continuação, para que se possa ter à disposição muitos provérbios belos e aptos para muitos tipos de palavras e sentenças. [56]

88. Não rogues a Deus mais por teu bem / que pela honra que lhe convém.

89. Da sentença deste provérbio deve-se extrair que o homem deve honrar a Deus mais que estimar a si próprio. A partir da exposição desse provérbio, que é a conveniente, o homem poderá investigar de maneira similar explicações congruentes a todos os outros provérbios.

90. Se fores a Deus obediente, / tua alma viverá em paz.

91. Quem postula sem bondade, / pede que não lhe seja tributado.

92. Aquele que é mais similar a Deus / dá e não toma nada para si.

93. Que aquilo pelo qual desejas ser amado / nunca seja por ti odiado.

94. Se desejas falar ou calar / considera como podes melhor fazer.

95. Nenhum vivente deseja bem morrer / nem de má morte bem sair.

96. Não desejes ser tão honrado / a ponto de tolo ser considerado.

97. O homem que ama grande honra / cansa muito seu servidor.

98. Se desejas vender ou desejas comprar / não venhas a Deus para lucrar.

99. Não reputes nada em vitupério / onde desejas ter honra. [57]

100. Em tudo que deseje lucrar / receba do que perdes o bem estar.

101. De tudo que aconselhares / sejais diligente para que não lhe venha o mal.

102. O homem que bom conselho não sabe dar / não deseja teu coração revelar.

103. O homem que é falso com maestria / não tem nenhuma companhia.

104. Não desejes tais coisas mostrar / com as quais possam te enganar.

105. Não tomes nada para si / porque o mal deve vir.

106. Não desejes louvar nenhum homem / cujo louvor não possa provar.

107. A perseguição que tens pavor / aquele que foge tem ainda maior.

108. Do homem que não use a razão / não espere ter dó nem perdão.

109. Não desejes se arrepender fortemente / pois grande mal não pode vir.

110. Não desejes ser repreendido / cortesmente e sem razão.

111. Se sua repreensão é suave / é para que possas ter paz.

112. Não desejes ser muito cortês / porque em tudo existe muita superfluidade.

113. Quem tem caridade, todo homem tem / e se faz senhor de todos.

114. Do homem que sempre é iracundo / não desejes ser muito familiar. [58]

115. Quem do homem perverso é vizinho / muito trabalho é impugnado.

116. Não desejes ser tão rico / a ponto de te reputarem como mendigo.

117. A doença vale para o homem / quando a saúde é mal procurada.

118. Não desejes ser virtuoso / para ser comentado.

119. Ao homem que deseja grande santidade / a vanglória o combate.

120. Mais vale a boa tristeza / que o gozo pleno fátuo.

121. Não desejes conduzir / quem te possa capturar e prender.

122. Mais vale a infâmia injusta / que o louvor injusto.

123. Em tudo o que começares / considera como possas terminar.

124. Não desejes perder a verdade / por nenhum pecúlio, com falsidade.

125. Quem abandona o bem e recebe o mal / do que escolhe é néscio.

126. Mais vale não conferir o que é pedido curialmente / que atribuir rusticamente.

127. Se não crês, não podes compreender / nem da suspeita evadir. [59]

128. Se o que tens desejas rapidamente mostrar / o que não sabes, interrogar. [60]

129. Não desejes nada decorar / de onde possa nascer a torpeza.

130. Quem não tem virtude só está / e no fim só morrerá.

131. Com virtude combates os pecados / para que não sejas superado. [61]

132. Quem combate com uma virtude / facilmente é superado.

133. Não desejes buscar tais coisas / que não possas descobrir.

134. Com valor néscio não tens valor / nem com vileza tens honor.

135. Não se erga tão cedo / a ponto de errar o caminho.

136. Não queiras saber sobre a morte / pois enquanto és são, podes o bem fazer. [62]

137. Aquele que não deseja amar a Deus / dos bens de Deus é indigno de usar.

138. Cada provérbio é escrito / para que em seu devido tempo e lugar seja proferido.

139. Com a segunda parte desse livro dizemos o suficiente sobre a tradição dessa doutrina, que serve para que o homem saiba colocar decoração às suas palavras e redigir textos com belas palavras. Esta doutrina consiste em observar nas sete divisões dessa parte [63] a ordem devida de acordo com a matéria, o fim e a forma.

Da Terceira Quarta Parte desse Livro, que é da Ciência

140. Após explicar tudo aquilo que pertence à segunda parte desse livro, devemos passar à terceira parte, intitulada “Da Ciência”. Nessa parte desejamos tratar dos dezoito princípios e das nove regras da Arte geral, para que, segundo o processo da dita ciência, o advogado [64] saiba informar beleza às suas palavras, aplicando-as aos ditos princípios.

I. Dos dezoito princípios da Arte

141. Primeiramente devemos tratar dos princípios, que são os seguintes: 1) bondade, 2) magnitude, 3) duração, 4) poder, 5) sabedoria, 6) vontade, 7) virtude, 8) verdade, 9) glória, 10) diferença, 11) concordância, 12) contrariedade, 13) princípio, 14) meio, 15) fim, 16) maioridade, 17) igualdade, e 18) minoridade.

Ao discorrer sobre estes dezoito princípios, mostraremos explicitamente aquilo que contêm de beleza e decoração, pois eles contêm todas as matérias das quais o homem pode falar, mesmo que sejam variadas e diversas, a fim de estabelecer uma ciência clara de como devemos compor palavras sobre quaisquer matérias e com o devido atrativo.

Contudo, devemos advertir, antes de iniciar a exposição desses princípios, que em cada um deles propomos buscar a forma, a matéria e o fim mencionados na primeira parte.

1. Da bondade das palavras

142. A matéria das palavras boas são as boas dicções, mas a forma dessas palavras é a beleza que resulta da composição e da ordenação dos vocábulos bons. Não obstante, a verdadeira bondade da forma e da matéria deve ser buscada no fim, pois boas são as coisas que se ordenam a um fim bom, e ótimas as coisas que se ordenam a um fim ótimo. [65] Da forma, da matéria e do fim, reciprocamente ordenados com se deve, surge a forma bela, que nos permite descobrir quais palavras devem ser consideradas belas.

143. Portanto, quem diz “Deus”, “anjo”, “homem”, “Céu”, “Terra”, etc., e “bondade”, “grandeza” e seus semelhantes, profere bons vocábulos, que são matéria de palavras boas, como acima está expresso. [66] Assim, quem diz “Deus, o criador do homem e de muitos outros bens naturais”, como a alma, o corpo, e outros bens similares, como homem – que, pelos bens naturais que recebe, atinge os bens morais, que são as virtudes, como a justiça, a temperança e outras similares – e a aos artificiais, como o castro, a casa e outros similares – orna os bens naturais para que tudo lhe sirva para servir a Deus, seu criador.

144. Nessas questões, quem aplica ao seu fim bom – pelo qual existe – a matéria da bondade, fará que do fim e da matéria surja a forma boa. [67] De todas as três resultará a forma bela das palavras, que é a luz pela qual as boas palavras também sejam belas. E quando isso realmente for assim, descobriremos a ciência de encontrar a bela forma das palavras, pela qual se pode fazer, compor e ordenar belas palavras. De acordo com isso, são belas e boas as seguintes palavras: “Deus, que é o sumo bem, criou no homem uma alma boa e um corpo bom, uma boa elementativa, vegetativa, sensitiva e imaginativa, com as quais faz boas obras e serve a Deus, seu criador”.

2. Da grandeza das palavras

145. Consideremos que as palavras são grandes e excelentes quanto à sua forma, matéria e fim. A verdadeira matéria é excelente e grande quando é de dicções grandes e excelentes. Isso acontece, por exemplo, quando alguém fala de Deus, dos anjos, do céu, dos homens e de seus elevados e sublimes efeitos, porque todas estas dicções são excelentes e grandes em razão da excelência e da grandeza daquilo que tratam, que tem, por si, uma grandeza e uma excelência sublimes.

146. Portanto, a partir dessas dicções – devidamente compostas e congruentementes ordenadas à sua mútua relação e a um fim grande e sublime – surgem formas belas e grandes, que são palavras elevadas e grandes. A partir desses três princípios, isto é, o fim, a forma e a matéria, surge um tipo de beleza através da qual as palavras grandes e sublimes reluzem com todo o seu esplendor.

147. Assim, pode-se dizer que Deus, que tem tanta magnitude e excelência, criou o mundo grande e a mesma grandeza para um fim grande, isto é, criou os anjos e os homens para que, por sua grande memória, tivessem uma grande lembrança, por seu grande entendimento tivessem uma grande intelecção, e por sua grande vontade tivessem um grande desejo, para assim louvar, honrar e servir humildemente a Deus, pois Deus é digno de ser continuamente lembrado, plenamente compreendido e fervorosamente estimado pelos homens e pelos anjos que Ele criou.

148. Há outro grande fim de uma sublimidade e excelência de algo maior e excelente, que evidentemente é Deus, que criou o grande mundo secular e congregou grandes e diversas partes para que surgisse um excelentíssimo homem, Nosso Senhor Jesus Cristo que, com Sua grandeza, excedeu a todas as coisas por causa da grandeza da incriada bondade e da grandeza criada. Ele foi também o fim e a forma de vida de todos os outros seres por meio da humanidade que n’Ele se uniu à natureza divina na unidade da pessoa. Dessa maneira, sendo Deus e homem ao mesmo tempo, Ele recebeu “aquele nome que está acima de todos os outros nomes”, e diante do qual “todos devem se ajoelhar no céu, na terra e no Inferno”. [68]

149. Há ainda outro fim muito grande e elevado, isto é, o Paraíso, que tem matéria e forma grandes, nas quais são concedidas uma grande recompensa e uma glória imensa, que têm uma duração grande porque perseveram perpetuamente sem fim.

150. Além disso, podemos encontrar outro modo de grandeza nas palavras, como o da narrativa que conta como um imperador romano preparou um grande exército para ir à Índia. [69] No dia marcado para partir para a guerra, uma paupérrima senhora cujo filho havia sido assassinado segurou as rédeas do cavalo do imperador e lhe pediu que fizesse justiça. A senhora dizia que não sairia dali até que fosse julgado o assassino de seu filho. O rei, que verdadeiramente era justo, entregou seu próprio filho à senhora para que ele fosse custodiado no cárcere até que ele retornasse da Índia.

Da mesma forma poderíamos falar da magnífica excelência de Alexandre, que foi tão magnificente que outorgou uma ótima cidade a um cavaleiro que, no máximo, merecia um castro. [70]

151. Estes exemplos e estas palavras são grandes e excelentes, pois são adornados com uma certa cor de beleza. Eles devem ser recitados segundo um fim congruente, e expostos seguindo as exigências da matéria dos sermões, conservando o modo de apresentação exposto acima, que é superior e notável, isto é, que o loquaz pronuncie o que diz à audiência com ornato, com ânimo constante e sem pavor, tal como requerem a sublimidade e a excelência das palavras.

3. Da duração das palavras

152. Dupla é a duração das palavras. [71] Uma é a consistência da atualidade da voz [72], que se estende tanto quanto a pronúncia das palavras; a outra é a persistência das palavras retidas na memória dos homens que, retendo na memória as palavras que escutaram e conhecendo-as com a inteligência, se afeiçoam de tal maneira que depois podem recitá-las.

Portanto, as palavras devidamente recitadas e para um fim devido serão palavras belas, como o são os textos evangélicos, toda a Sagrada Escritura e as gestas dos homens gloriosos que, tendo migrado desse século, vivem na memória. Por isso, para imitar seus exemplos, recitamos continuamente esses textos. Mas quando as palavras se ordenam para um mal fim – como o fazem as escrituras de Maomé e de outros similares – tornam-se palavras más e torpes, ainda que os homens as retenham na memória.

4. Do poder das palavras

153. Dizem que as palavras têm um grande poder na medida em que as várias dicções que elas contêm significam um poder grande e sublime. [73] Por exemplo, quando alguém fala do poder infinito de Deus: “Em Deus Pai há o poder infinito de gerar, que produz o Filho, o qual Lhe é igual em tudo”, ou: “No Pai e no Filho há a potência igualmente infinita de espirar o Espírito Santo” [74], ou ainda: “Em toda a Trindade há um poder infinito que nenhum efeito pode igualar”. Estas palavras que expressam o poder de Deus são muito belas de serem recitadas, caso sejam aplicadas a um fim desejado e congruente.

Similarmente ocorre o mesmo com o anjo que, depois de Deus, é um ser de grande poder. Sua inteligência, elevada pelo lume da glória, pode ver Deus, e sua vontade pode amá-Lo. [75] O anjo tem o poder natural de entender todas as coisas, tanto no céu quanto na terra, se não são superiores à sua natureza.

De maneira semelhante, o poder das coisas naturais, como o fogo e similares, pode ser aplicado a este propósito. Assim, as palavras, adaptadas a uma matéria congruente, serão, por si mesmas, sublimes e belas.

5. Da sabedoria das palavras

154. Se o homem deseja falar com sabedoria deve primeiramente escolher a matéria, ordená-la a um fim devido e adaptá-la a uma forma devida, para que as palavras sejam ordenadas e belas. [76]

155. A respeito da matéria dessas palavras, devem ser atendidas, no mínimo, dez condições. A primeira é que o loquaz, antes de começar a falar, medite diligentemente sobre aquilo que deseja falar; a segunda, que determine a quantidade das palavras, para evitar tanto o defeito da brevidade excessiva quanto a longa superfluidade, e mantenha o meio-termo da discrição [77]; a terceira, que espere o tempo oportuno para falar, para que as palavras pronunciadas em um tempo incongruente não sejam plácidas; a quarta, que observe qual é o lugar congruente para falar; a quinta, que considere a dignidade e a condição daquele a quem se endereça, pois há coisas que podem ser ditas aos que são de condição ínfima, mas que não se pode dizer aos que são de condição elevada; a sexta, que empregue palavras úteis, já que as vazias não podem ser belas; a sétima, que empregue palavras justas, porque as injustas não valem nada; a oitava, que sejam honestas, sem injúrias, pois essas não são agradáveis nem belas; a nona, que sejam virtuosas e verdadeiras, e a décima e última condição, que eleja um fim que seja possível e ao qual possam ser aplicadas as palavras.

156. A matéria das palavras discretas requer estas dez condições. Se estas preditas condições forem observadas nas palavras, segundo a matéria, a forma e o fim a que tenda a intenção de quem fala, e as palavras forem devidamente ordenadas, desta ordenação resultará uma forma belíssima, pela qual, como uma luz, a narração de quem fala será prazerosa e decorada.

6. Da vontade das palavras

157. Para que as palavras sejam amáveis são necessárias seis condições, que colocamos por ordem: amor, quantidade, tempo, lugar, verdade e qualidade.

158. Primeiramente, a matéria das palavras requer amor, o amor que deve haver entre o falante e o ouvinte para que as palavras sejam úteis, frutuosas e justas, já que uma palavra que não tem justiça nem utilidade não pode ser estimada. Em segundo lugar, a matéria das palavras exige uma quantidade discreta e devida [78], porque se são excessivas ou deficientes tampouco poderão ser estimadas. Em terceiro lugar, requer também que o tempo para falar seja oportuno e côngruo, e que se conclua com palavras belas e úteis. Quarto, a matéria das palavras requer um lugar conveniente onde possam ser recitadas de maneira apta e congruente. Quinto, requer também que as palavras contenham a verdade em si, já que as palavras falsas são odiosas aos sábios. Sexto, a matéria das palavras amáveis requer que as palavras sejam qualificadas e concordem as qualidades dos loquazes com a dos ouvintes, pois se deve pensar no caso em que o falante, como o ouvinte, seja fiel e curial, sábio e discreto.

159. Todas essas condições devem ser observadas nas palavras, se desejamos que elas sejam amáveis. Assim, caso sejam bem observadas e devidamente ordenadas, as palavras resultarão em uma forma amigável e tornar-se-ão belas.

7. Da virtude das palavras

160. Se Deus colocou virtudes nas ervas e no lapidário, muito mais o fez nas palavras, que são virtuosas graças às virtudes morais e teologais existentes naquele que fala. [79] Portanto, quando aquele que fala emprega palavras virtuosas – aquelas que têm a virtude por sujeito ou por matéria – colore a forma, e através dessa coloração a forma é bela. Então, escutando a forma ornada, os ouvintes recebem as palavras com deleite, e inclinam benevolamente seus ouvidos e seus corações à audição.

8. Da verdade das palavras

161. A matéria da verdade das palavras consta de quatro princípios: a voz, o tempo, o verbo e o nome. [80]

162. Voz é aquilo que é subjacente às palavras. [81] O tempo é o que aparece quando expressamos as palavras em sons vocais que se referem ao tempo presente ou ao pretérito. O verbo é aquilo que é totalmente necessário, porque se torna aquilo do qual falamos. Por exemplo, quando dizemos: “A rainha é bela”; o nome é aquilo do qual necessitam as palavras verdadeiras, de tal maneira que sem nome não podemos dizer que as palavras belas têm valor.

A matéria da verdade das palavras consta desses quatro princípios, mas o fim da verdade das palavras é aquilo pelo qual as palavras são verdadeiras. A forma é a ordem que seguem as palavras formadas. Posteriormente, desses três princípios surge certa forma de beleza, através da qual as palavras que dizem a verdade tornam-se ainda mais belas. Isso acontece de tal maneira que a forma, a matéria e o fim participam nas palavras boas e virtuosas. Sem estes três componentes não pode surgir a forma bela através da qual as palavras são verdadeiras e belas.

163. Há um outro modo de configurar as palavras que, de um lado, faz com que pareçam verdadeiras e, de outro, que se mostrem falsas, como aconteceria se alguém dissesse: “O rei me deu um cavalo, o qual cavalo o rei não me deu”. [82] Estas palavras são verdadeiras na medida em que, por meio de um nome e de um verbo, se configuram em um som vocal e um tempo, mas são falsas na medida em que a matéria do rei e do cavalo não têm lugar em um tempo pretérito, isto é, antes que o cavaleiro dissesse: “O rei me deu um cavalo”.

164. Há ainda um terceiro modo próprio de configurar as palavras verdadeiras, que consiste em respeitar quatro condições para que elas se tornem belas: fazer com que elas sejam verdadeiras provando-as com argumentos necessários, fazê-lo por meio de autoridades, por meio de testemunhos, e fazer com que a força de sua verdade seja obtida por meio de semelhanças [83] e suposições. [84]

Como entender o que resulta de uma prova por razão necessária é ato próprio do entendimento – embora crer em algo que resulta de uma prova baseada em uma autoridade seja um ato apropriado [85] para o entendimento – o entendimento entende e consente melhor com a verdade das palavras afirmadas por argumentos necessários [86], e elas até lhe parecem mais belas, que as palavras baseadas em uma autoridade, exceto as palavras da Sagrada Escritura, que se fundamentam na verdade divina, autoridade que é maior que qualquer perspicácia do gênero humano.

9. Da glória das palavras

165. Como as palavras são prazerosas e gloriosas [87], sua matéria requer oito princípios maximamente principais: promessa, louvor, narração, verdade, bondade, grandeza, utilidade e amabilidade.

166. A primeira coisa que requer a matéria das palavras gloriosas é a promessa: quando o falante promete aos ouvintes muitos dons, indulgências e graças, as palavras tornam-se muito gratas aos ouvintes.

Em segundo lugar, a matéria das palavras gloriosas requer que elas contenham um louvor, isto é, que aqueles que falam digam aos endereçados que eles são dignos de louvor, pois se se diz palavras blasfemas, sua matéria carecerá de prazer e glória.

Em terceiro lugar, elas também requerem uma narração gloriosa, que se produz quando são narradas belas gestas, que também devem ser boas.

Em quarto lugar, a matéria das citadas palavras gloriosas requer ainda que as palavras sejam verdadeiras, ou pelo menos semelhantes, porque se não o fossem, tornar-se-iam insuportáveis aos ouvintes.

Em quinto lugar, a matéria das palavras gloriosas também requer que elas sejam boas, pois isso as tornará prazerosas, já que o bem é algo a que todas as coisas apetecem. [88]

Em sexto, as palavras devem ter magnitude de grandeza, porque são mais prazerosas quando são narrados fatos grandiosos que quando são expostos fatos insignificantes.

Em sétimo lugar, as palavras devem citar coisas úteis, porque a utilidade da narração torna benévolos e atentos os ouvintes.

Em oitavo lugar, as palavras citadas devem ser amáveis, porque o amor que elas desvelam as tornam prazerosas e provocam os ouvintes a escutá-las mais atentamente.

167. A matéria das palavras gloriosas requer todas estas condições. Se as palavras são ordenadas devidamente conforme estas condições, de maneira que a forma se oriente ao fim pelo qual são ditas as palavras, resultará em um esplendor de beleza que fará com que as palavras gloriosas sejam prazerosas e belas.

10-12. Da diferença, da concordância e da contrariedade das palavras

168. Em toda palavra deve haver diferença, concordância ou contrariedade. [89] A forma que perfaz a matéria subjacente [90] move a palavra até seu fim, de maneira que, da matéria, da forma e do fim resultam um esplendor pelo qual as palavras tornam-se decoradas em sua diferença. [91]

169. Portanto, aquele que fala deve prestar atenção às diferenças das palavras, para distinguir uma palavra da outra, conservando em cada uma as sílabas que lhe são próprias e pronunciando-as com a acentuação devida para realçar com a voz a diferença entre elas. Por exemplo, se alguém disser a outro “Ama ardentemente”, não deve pronunciar estas duas dicções tão depressa, pois o “a” final da primeira dicção e o primeiro “a” da segunda dicção serão sentidos como um só som vocálico. [92] Além disso, a perda de sílabas e a má acentuação tornam as palavras confusas e disformes. Portanto, deve-se proferi-las distinta e morosamente.

170. Deve-se ter em conta que as diferenças entre as palavras fazem com que umas sejam do gênero masculino, outras do feminino e outras do neutro. Assim, deve-se ter muita atenção para conjugá-las, para que haja entre elas a máxima concordância. [93] A concordância de uma palavra masculina com outra masculina é maior que a que existe entre uma masculina e outra feminina, como também a que há entre uma feminina e outra feminina é maior que a que há entre uma feminina e outra masculina ou neutra, como ainda, a que há entre uma neutra e outra neutra é maior que a que há entre uma neutra e outra feminina. Portanto, deve-se dizer “O rei é belo”, “A rainha é bela”, “O rei porta um vestido belo”. Conforme os gêneros citados e o gênero de qualquer outra diferença, em geral, quando houver entre palavras a máxima concordância e conveniência, haverá maior beleza entre elas. Assim, entre “rei” e “bem”, que são palavras de um mesmo gênero, há uma conveniência maior que entre “rei” e “bondade”, que são palavras de gêneros diferentes. Devemos entender que isso acontece em todos os casos semelhantes.

171. Além disso, devemos advertir que a contrariedade surge tanto nas palavras quanto nas dicções [94], pois “bem” e “mal” são contrários por fins contrários, “branco” e “negro” são contrários porque situam-se na máxima distância do gênero das cores. De maneira semelhante, “fogo” e “água” o são, porque têm qualidades contrárias. Assim, aquele que advoga por uma causa [95] deve considerar atentamente qual e quanta contrariedade há em cada palavra, pois a contrariedade entre “bem” e “mal” parece maior que a que existe entre “branco” e “negro”, e a que há entre “calor” e “frio” maior que a que há entre “negro” e “frio”, já que entre “negro” e “frio” há mais disparidade que contrariedade. O mesmo deve-se dizer das contrariedades semelhantes a essas.

172. Sempre que entre o falante e o ouvinte tenha havido contrariedade – como a que há entre o advogado e seu adversário – o falante deve prestar atenção às contrariedades citadas, porque quanto maior for a contrariedade entre as palavras, mais belas elas serão na matéria que tratam. A contrariedade desse tipo se dá nas palavras para que se atinja o fim bom das palavras verdadeiras por meio da justiça. Pode-se explicar isso com um exemplo: todos percebem que um pregador desacredita e aniquila melhor a luxúria quando enaltece e ostenta a castidade, que é seu contrário, que fazendo alusão à justiça. Da mesma maneira, ele se opõe mais à injúria e à injustiça por meio da justiça que por meio da castidade. Similarmente, o fogo é mais contrário à água por meio do calor – que é uma qualidade própria do fogo – que por meio da secura, que é mais própria à terra que ao fogo. O mesmo deve ser dito das demais coisas semelhantes a essas. Mas se as palavras daqueles que falam tivessem que buscar a concordância, como fazem os amigos, então teríamos que dizer o contrário.

13-15. Do princípio, do meio e do fim das palavras

173. A matéria das palavras requer um princípio, um meio [96] e um fim [97], e a forma das palavras consiste em seu ordenamento, pois de tal ordem resultará uma certa forma de beleza.

174. Aquele que se dispõe a falar, antes de começar deve meditar e determinar atentamente o que deve dizer no princípio, o que no meio e o que no fim. A esse respeito, mais acima colocamos um exemplo, no capítulo que tratamos da ordem. [98]

175. Como umas dicções são do gênero masculino, outras do gênero feminino e outras do neutro, um falante cauteloso e discreto deve ordená-las de maneira que coloque em primeiro lugar as palavras do gênero masculino; as do gênero neutro devem ficar no meio, e as do gênero feminino devem ser colocadas no fim. As palavras do gênero neutro devem ser colocadas no meio tanto porque participam da natureza dos dois outros gêneros – o masculino e o feminino – quanto porque abnegando de ter gênero, são o meio dos outros dois. Portanto, deve-se dizer “O rei é bom e a rainha é boa”, e não “A rainha é boa e o rei é bom”. De maneira semelhante, deve-se dizer “O rei tem um belo pomo de ouro que deu à rainha”. [99] Mas se alguém dissesse “Um pomo de ouro tem o rei, que o deu à rainha”, suas palavras não seriam belas nem retoricamente bem ditas. [100]

16-18. Da maioridade, da igualdade e da menoridade das palavras

176. Toda palavra é maior, menor ou igual. Isso constitui a matéria e a forma das quais as palavras dependem de sua ordem. E na medida em que a forma se oriente para o devido fim, que não é senão aquele os ouvintes entendam e apreendam o fim do qual se fala, emana uma forma bela, através da qual as palavras são esplendorosas e belas.

177. A palavra pode ser maior de duas maneiras: pelas sílabas ou por sua dignidade. [101] Dizemos que uma palavra é maior pelas sílabas quando contêm muitas sílabas. Assim, a palavra “rainha” tem mais sílabas que a palavra “ser”. Não obstante, a palavra “ser” é mais digna que a palavra ou a dicção “rainha”, como também é mais simples. [102]

Dizem que algumas palavras ou dicções são iguais quando têm as mesmas sílabas, como “rainha” e “serva”. Mas mesmo que sejam iguais em sílabas, quanto à dignidade, a maior corresponde à “rainha”. [103]

Contudo, devemos destacar que se tem que entender a maioridade e a menoridade do que falamos quando nos referimos ao mais e ao menos relativos uns aos outros, de maneira que não podemos falar de um sem o outro. Assim, é necessário que aquele que fala conheça quais palavras são maiores, quais são iguais, e quais são menores, para que saiba o que colocar no princípio, o que no meio e o que no fim. Isso porque, de acordo a maioridade, a igualdade ou a menoridade das sílabas, convém colocar as menores no princípio, as iguais no meio, e as maiores no fim. Portanto, deve-se dizer “o rei e a rainha”, e não “a rainha e o rei”.

178. Há ainda um outro modo de maioridade, de igualdade e de menoridade das palavras: aquele que se dá entre uma substância e outra, entre uma substância e um acidente, e entre um acidente e outro acidente.

O primeiro caso, entre uma substância e outra substância, se dá, por exemplo, entre Deus e o anjo, pois Deus é maior que o anjo. Também se dá entre substâncias mais numerosas e substâncias menos numerosas, pois três palavras juntas são maiores que duas palavras juntas. Por exemplo, as palavras “o rei, a rainha e a donzela” são maiores que as palavras “o rei e a rainha”.

Em segundo lugar, a maioridade das palavras pode-se dar também entre uma substância e um acidente, como entre “homem” e “ver”, ou entre um acidente e outro acidente, como entre “entender” e “ver”. De maneira semelhante, a igualdade pode se dar primeiro entre uma substância e outra substância, como entre “pai” e “filho”, já que o filho é tanto substância como o pai. Pode-se dar também entre uma substância e um acidente, como entre “fogo” e seu “calor”.

Em terceiro lugar, pode-se dar entre dois acidentes, como entre “entender” e “estimar”.

O mesmo deve ser dito da minoridade, já que a relacionamos com a maioridade.

179. O que dissemos sobre os dezoito princípios deve ser suficiente para expor a doutrina de como encontrar os segredos da beleza em suas propriedades, com as quais as palavras se revestem de beleza e decoração.

Com a ajuda de Deus, procedemos agora a expor as nove regras da Arte geral.

II. Das nove regras da Arte Geral

180. Estas regras [104] são resolvidas em nove questões gerais [105], que se referem a tudo aquilo que podem nos perguntar sobre as palavras.

Assim, perguntam: 1) O que é a palavra? 2) De que é feita a palavra? 3) Por que existe a palavra? 4) Qual a quantidade da palavra? 5) Qual é a palavra? 6) Em qual tempo existe a palavra? 7) Onde existe a palavra? 8) De qual modo existe a palavra? 9) Com o que existe a palavra?

Conhecer a verdade de todas essas questões é o que há de mais útil para saber compor palavras belas e ornadas.

1. O que é a palavra?

181. Primeiramente, perguntam: o que é a palavra? A resposta é: a palavra é uma voz significativa [106] que significa uma palavra mental [107] que o homem concebe quando pensa. Nela, movendo a língua no ar, ele imprime sua similitude para revelá-la aos ouvintes.

Saber o que é a palavra e saber defini-la é muito útil para quem fala, porque aquele que a ignora não poderá conferir beleza às suas palavras.

2. De que é feita a palavra?

182. Em segundo lugar perguntam: de que é feita a palavra? Deve-se responder que a palavra surge do som vocal, sua matéria, e do impacto causado no ar pela língua, que imprime similitudes com as palavras mentais nascidas no pensamento.

É sumamente necessário que aquele que compõe belas palavras entenda a verdade dessa questão.

3. Por que existe a palavra?

183. Em terceiro lugar perguntam: por que existe a palavra? Deve-se responder que a palavra existe por duas razões: uma é a forma da palavra, outra é a finalidade da palavra.

 

- Continua -

 

Notas

[1] Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes), a partir da edição RAMON LLULL. Retòrica nova (edició a cura de Josep Batalla, Lluís Cabré i Marcel Ortín). Turnholt/Santa Coloma de Queralt: Brepols/Obrador Edèndum, 2006 (edição bilíngue latim/catalão). Esta tradução faz parte do Projeto de Pesquisa A Retórica no Mundo Antigo e Medieval: Aristóteles e Ramon Llull, registrado no CNPq no Grupo de Pesquisas intitulado Estudos Filosóficos em História Antiga e Medieval. Revisão gramatical: Nayhara Sepulcri (CNPq-Ufes). Aproveitamos também as eruditas notas explicativas desta edição, mas ainda acrescentamos várias outras.

[2] A beleza intrínseca da palavra (verbo) tem sua origem em Deus: “No princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus; e o Verbo era Deus”. (Jo 1, 1); as relações entre Deus-Pai e Deus-Filho são explicadas por João através da palavra personificada de Deus. Portanto, quanto mais ordenadas forem as palavras através da Retórica, melhor representarão a relação entre o Pai e o Filho.

[3] Na Idade Média, um sermão era um enunciado de um juízo ou uma idéia.

[4] Na verdade, essa sentença, tradicionalmente atribuída a Sêneca e freqüentemente citada pelos moralistas medievais, é originária de uma antologia anônima do séc. II.

[5] No original decore (de decor – o que convém, o que tem graça, encanto, formosura, beleza corporal, ornamento, enfeite; por sua vez, de decus – beleza moral, virtude). Segundo Cícero (De officis, 1.96) “...aquilo que é concorde com a natureza, em que aparecem a medida e a temperança com certo esplendor de nobreza”. Esse conceito faz com que a Retórica seja submetida à natureza, isto é, à razão e, assim, faz com que a palavra retórica realce a beleza inerente à coisa que ela alude.

[6] Congruência – Harmonia duma coisa com o fim a que se destina; coerência.

[7] Ao utilizar o adjetivo torpe (desonesto, infame, abjeto, repugnante, obsceno), Llull chama a atenção para a face moral da Retórica, exatamente como faz Aristóteles em sua obra Retórica.

[8] A contraposição dos conceitos aristotélicos de matéria e forma era muito utilizada na época pelos gramáticos modistas de então.

[9] As palavras são essencialmente belas ou feias na medida em que seu significado reflete a nobreza ou vileza da ordem social medieval. Pode-se afirmar que Llull aplica a ontologia inerente à lógica modista – que pressupunham que os diversos modos da palavra refletiam os modos de ser das coisas – à visão hierárquica que tinha da realidade. Em termos lingüísticos, os modistas atribuíam aos nomes uma suppositio naturalis (segundo Pedro Hispano [papa João XXI, 1210-1277], acepção que faz com que um termo comum se refira, por sua natureza, a todas as coisas que dele participam (Tratactus, 6.4).

[10] Uma dicção é o signo oral que significa uma palavra. Ver Thomas d’Erfurt (séc. XIII) (Grammatica speculativa, 6.11, “dicção é voz significativa”) e o Llibre de contemplació, 3.155.19 (OE II, p. 448): “Ah, Jesus Cristo, Senhor muito virtuoso e muito glorioso! O homem escreve a palavra em dicções para que rapidamente entenda os significados que as palavras demonstram. Assim, por isso, Senhor, acontece da palavra ser objeto com o qual o entendimento pode ter aquelas coisas significadas pelas palavras”.

[11] “Outro triângulo é de princípio, meio e fim, e nele entra tudo o que existe, pois o que existe ou existe no princípio, ou no meio, ou no fim, e nada pode ser encontrado fora desses princípios.” (Arte breve, 2.2.2). Veja também § 173-175.

[12] A distinção entre petição, acusação/escusação e conselho tem certa correspondência com os tipos de discurso retórico ciceroniano (demonstrativo, deliberativo e judicial, Cícero, De inventione, 1.5). Llull pode ter-se baseado em Guilherme de Conches (1080-1145) (Moralium dogma philosophorum, I.B.2a), uma adaptação cristã do De officis de Cícero, onde, ao tratar da beneficência, se diz que pode ser feita “dando conselho”, e com “acusações e defesas”.

[13] Em latim, miles pauper. Para o tema, ver COSTA, Ricardo da. “A cavalaria perfeita e as virtudes do bom cavaleiro no Livro da Ordem de Cavalaria (1275), de Ramon Llull”. In: FIDORA, A. e HIGUERA, J. G. (eds.) Ramon Llull caballero de la fe. Cuadernos de Anuário Filosófico – Série de Pensamiento Español. Pamplona: Universidad de Navarra, 2001, p. 13-40.

[14] Em latim, toro maritali gaudere (em latim clássico significava “leito nupcial”, mas no latim medieval poderia também significar dote matrimonial).

[15] Essa anedota é reportada por Sêneca (De beneficiis, 2.16), e era muito popular tanto na Antiguidade quanto na Idade Média.

[16] A Retórica proporciona prazer intelectual porque as palavras belas facilitam a compreensão. Por exemplo, no Prólogo da Árvore exemplifical (OE, I, p. 799), Llull enaltece os exemplos porque através deles “...pode-se ter hábito universal para se entender muitas coisas prazerosas de entender e prazerosas de ouvir.”

[17] Na Arte breve (10.12.37), “Beleza é uma bela forma recebida pela visão, pela audição, pela imaginação, pelo conceito e pela deleitação”.

[18] Gramaticalmente, uma disjunção é a supressão de uma conjunção copulativa (ou aditiva), em uma sequência de frases.

[19] Llull aceita a teoria do hilemorfismo universal: exceto Deus, todos os seres, inclusive os espirituais, são compostos de matéria, ou melhor, pela tríade correlativa forma – matéria – conjunção (“A substância naturalmente tem em si primeiramente a forma, a matéria e a conjunção, que são de sua essência”, Lògica nova, 3.1). Esta teoria, de origem estóica – os estóicos afirmavam que todo ser era corporal – esteve presente em Agostinho (Da Trindade, 3.1.5) foi defendida por São Boaventura (1221-1274) (In quatuor libros Sententiarum, 3, p.1, a.1, q. 1) e admitida por muitos franciscanos. Contudo, foi difundida na Idade Média por Avicebron (ou Ibn Gabirol, 1020-1069, em Fons vitae, 4.7-9), que admitia a existência de uma matéria universal. Ver também § 39.

[20] Os medievais acreditavam que a matéria dos astros era incorruptível (seguindo Aristóteles, De caelo, 1.3). Ver COSTA, Ricardo da. “Olhando para as estrelas, a fronteira imaginária final – Astronomia e Astrologia na Idade Média e a visão medieval do Cosmo”. In: Dimensões - Revista de História da UFES 14. Dossiê Territórios, espaços e fronteiras. Vitória: EDUFES, 2002, p. 481-501.

[21] “Nobreza da alma que move o corpo àquelas coisas pelas quais possa ter nobres atos”, Lògica nova, 4.3.97 (NEORL 4, p. 78).

[22] “...que advoga por uma causa”, tradução do particípio latino proloquens (no latim medieval, proloquim podia significar advocacia).

[23] A afeição é o sentimento que comove a alma. Na Retórica, é a paixão (Aristóteles, Retórica, 3.12 [1413b]), com a qual o falante cativa e comove seus ouvintes. Segundo Cícero (De oratore, 1.87), a afeição faz com que “...os ouvintes sejam afetados da maneira com que o orador deseje”.

[24] A continuidade é “...a mistura das partes, uma das quais esteja na outra. E a razão é para que a quantidade contínua possa ter sujeito”, Lògica nova, 4.3.94 (NEORL 4, p. 78).

[25] O poder persuasivo dos exempla era um tema muito comum nos tratados de Retórica: Aristóteles (Retórica, 2.20 [1393a -1394b]), Ad Herennium (4.62) Quintiliano (Institutio oratoria, 5.11), e foi muito explorado pela literatura medieval.

[26] Teoria do hilemorfismo universal. Ver § 23.

[27] Deus intervém no universo através do microcosmo configurado pelas virtudes da natureza humana, na qual Se encarnou. Essa idéia, de origem na cosmologia antiga, tornou-se um lugar comum na Patrística. Por exemplo, em Gregório, o Grande (590-604) (Homiliae in Evangelia, 29.2). É um tema central no pensamento luliano.

[28] O sentido da vida humana é descrito em termos feudais: um serviço que consiste em uma honra que o vassalo (no caso, a humanidade) presta a seu senhor (Deus).

[29] O eclesiástico hipócrita é um tópico nos exemplários medievais. Segundo a Doutrina para crianças (82.6), o religioso falso e hipócrita é o mais malvado que existe, porque “...é mais contrário à religião que qualquer outro homem.”

[30] Por fazer parte do mundo supralunar – segundo a teoria cosmológica medieval – o Sol não contém nenhum dos quatro elementos e, por isso, se pensava que ele não tinha qualidade de ser quente. Não obstante, “o Sol e o fogo se assemelham em claridade” (Félix, 18), e move o fogo a iluminar e aquecer (NEORL 5, p. 182), pois tem a capacidade de influir sobre as qualidades próprias do mundo sublunar (Bartolomeu, o Inglês, De proprietatibus rerum, 8.1).

[31] Doutrina astronômica comum na Idade Média (por exemplo, ver Alberto, o Grande [1193-1280], De caelo, 2.3.6, e Bartolomeu, o Inglês, De proprietatibus rerum, 8.28).

[32] Em todos os bestiários medievais, o Leão é o grande senhor, embora receie a astúcia do homem. Ver Félix (7.37-38), Extratos de 4 Bestiários medievais - o Leão (sécs. XII e XV) (trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa [Ufes]. Base da tradução: Ignacio Malaxeverría. Bestiario Medieval. Madrid: Ediciones Siruela, 2000, e Bestiaris [a cura de Saverio Panunzio]. Barcelona: Editorial Barcino, 1964, vol. II).

[33] A agudeza da visão da águia era um lugar comum nos textos medievais. Veja, por exemplo, Isidoro de Sevilha (560-636) (Etimologias, 12.7.10-11: “A águia recebe seu nome devido à agudeza de sua visão, pois se diz que é tão penetrante que quando se mantém imóvel sobre os mares e mantida por suas asas a uma tal altura que não é visível ao olho humano, ela, de tão elevada altura, vê nadar os peixezinhos e se precipita sobre eles como um raio e, prendendo-os, volta à costa”), e Alain de Lille (c. 1128-1202) (Distinctiones dictionum theologicalium, PL 210, col. 706b)..

[34] Os exemplários medievais destacavam essa aparente contradição natural. Por outro lado, os naturalistas destacavam o habitat dos peixes (por exemplo, Bartolomeu, o Inglês, De proprietatibus rerum, 13.26).

[35] Essa estória se encontra no Livro das Bestas (Félix, 40).

[36] Uma fábula semelhante se encontra no Livro das Bestas (Félix, 37-43).

[37] Essa narrativa encontra-se no Llibre d’Evast e Blaquerna, 52, e também na Árvore Exemplifical (“Dos provérbios do tronco imperial”, ORL, vol. XII, tomo II, 1923, p. 377).

“Na tradição do bestiário medieval ibérico, a pomba simbolizava uma das mais altas virtudes que o homem pode ter: a providência (providentia), para os medievos, esta ação que Deus exercia sobre o mundo enquanto vontade que conduzia os acontecimentos para os seus fins (...) O símio representava os vícios do condenado, a caricatura do homem . Nos séculos XII e XIII era freqüente o emprego metafórico da palavra simia (...) Por exemplo, no século XII, Alain de Lille (Sententiae [PL, 210, 249D]): “quid mundanae potestates, nisi potestatum histriones? Quid saeculares dignitates, nisi dignitatum larvae et simiae? (Que são os poderosos mundanos senão histriões do poder? Os dignitários seculares, senão máscaras e macacos das dignidades?) – COSTA, Ricardo da. A Árvore Imperial – Um Espelho de Príncipes na obra de Ramon Llull (1232-1316). Niterói: Uff, Tese de doutoramento, 2000, p. 220-221.

[38] “1. Pessoa comum é o homem que a ordem de muitos homens está confiada; (...) 8. Boa pessoa comum é centro de virtudes, e má, de vícios; 9. Boa pessoa comum é imagem de Deus, e má, de Lúcifer; 10. Quem se opõe à pessoa comum, se opõe a muitos; (...) 12. Quem faz honra à pessoa comum, faz honra a muitos; (...) 18. Os olhos da pessoa comum vêem longe; 19. Os ouvidos da pessoa comum escutam por trás das paredes...” RAMON LLULL, Proverbis de Ramon, ORL, vol. XIV, 1928, p. 298-299. Portanto, pessoa comum é aquela que tem um cargo de governo.

[39] ISIDORO DE SEVILHA, Etimologias, 17.9.18: “O lírio é uma planta de flor láctea, daí seu nome, pois é como se disséssemos liclia. Embora seja branca a cor de suas pétalas, ela resplandece em seu interior com um brilho de ouro”.

[40] Na Idade Média o Sol era considerado um dos sete planetas. Veja por exemplo, de Ramon Llull, o Tractat d’astronomia, 1.2. (NEORL 5, p. 168).

[41] Descrição que corresponde ao girassol (solsequia), segundo Isidoro de Sevilha (Etimologias, 17.9.37): “O heliotrópio recebeu esse nome porque começa a florescer no solstício de verão, ou porque gira suas folhas seguindo o curso do Sol. Por isso, os latinos o chamam solsequia. Ao nascer o Sol ele abre suas flores, e quando este se põe, ele as fecha”.

[42] A mesma comparação é feita no § 34. Veja Bartolomeu, o Inglês, De proprietatibus rerum, 13.45.

[43] “O honramento do rei é sustentado pela justiça”, RAMON LLULL, Proverbis de Ramon, 42.12. Na época de Llull, a idéia que a realeza se justificava pelo seu serviço à justiça era central entre os defensores de uma concepção secular do poder político. Veja DANTE, Da Monarquia, 1.11.19.

[44] O ímã (caramida) é o mineral que tem a propriedade de atrair o ferro (Arbre de ciència, 1.42, OE I, p. 578). A excelência da esmeralda acima de todas as outras gemas era um lugar comum nos textos da época (veja, por exemplo, Isidoro de Sevilha, Etimologias, 16.7.1).

[45] A Retórica Nova pertence à chamada fase ternária (1290-1315) do pensamento de Ramon Llull, quando as dignidades divinas (princípios constitutivos de toda a realidade) são perceptíveis nos elementos, seus compostos, e nas criaturas.

[46] Nessa passagem fica claro que, para Llull, a Retórica exige um comportamento físico adequado, isto é, comedido, particularmente nos gestos, na expressão corporal. Além disso, os conselhos relacionados à tosse e cusparada fazem parte do processo civilizador, conceito criado pelo sociólogo Norbert Elias em sua magistral obra O Processo Civilizador (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, 02 volumes).

[47] Mais uma passagem ilustrativa das exigências de postura quando de um discurso retórico dirigido a uma autoridade.

[48] Os ditados (dictamina), que devem ser distinguidos da dicção (§ 9), são as composições que resultam da conjunção das palavras, frases e orações (sermones dictare ou componere, § 1) e configuram um texto. Veja o Llibre de contemplació, Prólogo, 24 (OE, II, p. 108).

[49] O verbo latino dictare significa “ação de redigir”.

[50] As conjunções são torpes quando unem, equiparando-os, substantivos que significam realidades hierarquicamente distantes: “rainha” e “serva”, por exemplo.

[51] No latim, as palavras vacantem et ferventem, traduzidas por “diligente e fervente” (“ativo, zeloso, aplicado”, e “ardente, caloroso, fervoroso”) são particípios do presente dos verbos diligere (diligenciar) e fervere (ferver).

[52] A “curialidade” (Veja Árvore da Ciência, 6.2.3.29, OE, I, p. 659) ou cortesia (Veja o Livro dos Mil Provérbios, 37, OE, I, p. 1264) era uma virtude característica da nobreza medieval. Não somente significava o trato refinado e respeitoso que deveria se esperar de quem freqüentava a cúria real, mas também teria uma dimensão ética; cf. § 192, onde o afeto filial é considerado uma virtude curial.

[53] Em latim, as palavras intelligens et placens, traduzidas por “inteligente e complacente”, são particípios do presente dos verbos intelligere e placere.

[54] Exornar (do latim exornare) – ornamentar, ornar, adornar, enfeitar, engalanar.

[55] A mesma definição se encontra em Proverbis de Ramon, 1 Prólogo (ORL 14, p. 1): “Um provérbio é ume exposição breve que contém em si muita sentencia”. Uma sentença é um dito que expressa um significado profundo. Veja também o Llibre d’Evast e Blaquerna, 77.

[56] Os cinqüenta provérbios seguintes correspondem – e na mesma ordem – aos que se encontram nos Proverbis d’ensenyament, 135-225 (ORL 14, p. 386-389).

[57] Isto é, para ter honra, não julgue nada duramente.

[58] E também: “Foge do homem irado e fugirás do mal”, Livro dos Mil Provérbios, 47.12.

[59] A primeira frase é muito semelhante à Is 7, 9 da Vetus latina (uma versão diferente da Vulgata). Agostinho recorreu a essa mesma versão para explicar a inteligibilidade da fé cristã (De doctrina christiana, 2.17).

[60] Isto é, se você é uma pessoa generosa e divide o que sabe com os outros, naturalmente quer saber o que ignora, e não demonstra vergonha por não saber. Por exemplo, veja esse trecho do Didascálicon (1127) de Hugo de São Vítor: “O estudante prudente, portanto, ouve todos com prazer, lê tudo, não despreza escrito algum, pessoa alguma, doutrina alguma. Pede indiferentemente de todos aquilo que vê estar-lhe faltando, nem leva em conta quanto sabe, mas o quanto ignora. Aprenda de todos com prazer aquilo que você não conhece, porque a humildade pode tornar comum para você aquilo que a natureza fez próprio para cada um” (Livro III, cap. 13).

[61] “...para que não sejas superado”, isto é, derrotado pelos vícios.

[62] A mensagem é clara: enquanto tiver saúde (física e mental) faça o bem e não pense no futuro (ou no que você pode ganhar com o bem que faz).

[63] § 20.

[64] § 28.

[65] Conforme a Ars consili (3.14), a bondade é “...o princípio que é digno de bonificar, sem o qual a bondade seria ociosa, pois não existe bonificante e bonificado sem o bonificar”.

[66] § 22-24.

[67] “...pelo qual existe” – expressão que se refere à teoria luliana da primeira intenção: “Filho, como a intenção de Deus é tão alta em excelência de virtude, Deus é inteligível e amável por Si mesmo, e criou a intenção em ti para que com ela O entendas e O ames por Sua bondade e Sua perfeição” (O Livro da Intenção [c. 1283], 2.3).

[68] “Por isso Deus o sobreexaltou grandemente / e o agraciou com o Nome / que é sobre todo o nome, / para que, ao nome de Jesus, / se dobre todo joelho dos seres celestes, / dos terrestres e dos que vivem sob a terra, / e, para glória de Deus, o Pai, / toda língua confesse: / Jesus é o Senhor.” – Fl 2, 9-11. Como Ramon poucas vezes cita suas fontes, é notável essa citação que faz de São Paulo, justamente na parte da Retórica Nova dedicada à grandeza das palavras. Isso não só pela similitude da personalidade de ambos – o mesmo caráter apaixonado, a alma de fogo que se consagra sem limites a um ideal, o zelo incondicional e o estilo fogoso – mas sobretudo o fato de o hino rimado paulino, composto para ser um apelo à unidade na humildade, ser considerado uma verdadeira efusão do coração, o que é mais uma semelhança com muitos textos lulianos.

[69] Essa estória era atribuída ao imperador Trajano (53-117). É possível que Llull tenha tido informação dessa narrativa em um dos exempla que circulavam em seu tempo, e que situavam a estória na Índia. Veja ARNAU DE LIEGE, Recull d’exemples i miracles ordenat per alfabet, 357-358 (ENC / B 24, II, p. 42-43). A estória também foi citada por Dante em sua Divina Comédia (“Purgatório”, X.70-93), embora sem o detalhe da prisão do imperador narrado por Ramon: “Mudei pra além do lugar onde estava, / para ver de mais perto uma outra história / que, ao lado de Micol, já branquejava. / Era historiada ali a suma glória / do romano exemplar cujo valor / moveu Gregório a obter-lhe a grã vitória; / eu falo de Trajano imperador / e da velhinha que lhe estava ao freio, / em postura de pranto e de grã dor. / Era, o lugar, de cavaleiros cheio, / e as águias de ouro, sobre eles ao vento / alçadas, simulavam seu ondeio. / A pobrezinha, nesse ajuntamento, / via-se dizer: “Senhor, faz-me vingança / do filho meu, morto, que é meu lamento”. / E ele lhe respondeu: “Tem confiança / até eu voltar”, e ela: “Meu Senhor”, / como pessoa que a dor não abonança, / “e se não voltares?”, e ele: “O sucessor / meu o fará”, e ela: “De outro o bem / a que te valerá, se teu não for?” / E ele então: “Te conforta, pois convém / que o meu dever cumpra antes que me mova: / justiça o ordena, e pesar me retém”. – DANTE ALIGUIERI. A Divina Comédia. Purgatório (trad. e notas de Italo Eugenio Mauro). São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 69-70.

[70] § 15.

[71] De acordo com a Lógica Nova (4.3.4, NEORL 4, p. 70), “Duração é a propriedade em razão da qual a bondade, a grandeza, etc., duram, pois assim como tudo que é quente o é por qualidade, tudo quanto existe dura por duração.”

[72] § 181.

[73] “Poder é o que a bondade e as outras podem ser o que são, e podem fazer o que fazem.”, Árvore da Filosofia do Amor, 1.4.

[74] “...espirar o Espírito Santo” – na filosofia luliana, o verbo espirar se refere ao ato de amor divino de criar o Filho e o Espírito Santo, mas também o ato do Espírito Santo de iluminar a criatura humana (GGL, vol. II, 1983, p. 355). Portanto, ultrapassa e muito o sentido em português, que é o de exalar, desprender, emanar, emitir sopro.

[75] O lume da glória é o dom divino que faz a criatura racional deiforme (conforme com Deus), para que ela possa contemplar misticamente a Deus. Ver Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q. 12, a.5.

[76] De acordo com a Lógica Nova (4.3.6, NEORL 4, p. 71), “Sabedoria é a propriedade por razão da qual o sábio entende, isto é, o entendimento é a potência ou razão pela qual tudo quanto é inteligível é inteligível”, e sua origem encontra-se em Deus: “Amável filho, Nosso Senhor Deus é sabedoria, e Deus é o Espírito Santo. Assim, se Deus é sabedoria e tu tens conhecimento da sabedoria de Deus, convém que aquele dom da sabedoria venha de Deus e não de outro, pois se viesse de outro, significaria que a sabedoria conviria melhor a outro que a Deus, e isso é impossível.” (Doutrina para crianças, XXX, 1).

[77] Segundo os Provérbios de Ramon (242.1, ORL 14, p. 265), a discrição é “o ato ordenado de amar e entender”, mas aqui nesse caso tem o sentido restrito de dizer somente aquilo que se deve.

[78] “Quantidade discreta é o número de uma substância”, Provérbios de Ramon (129.14, ORL 14, p. 133).

[79] A virtude de uma coisa inanimada é a força com a qual Deus dotou-a para que possa ajudar o homem. Veja, por exemplo, o Livro do Gentio e dos Três Sábios, Prólogo (NEORL 2, p. 8). Além disso, na terminologia médica medieval “virtude” significa a capacidade curativa das ervas e dos minerais (Començaments de medicina, NEORL 5, p. 80-81).

Em relação às virtudes morais e teologais, as primeiras são as clássicas – prudência, justiça, fortaleza e temperança. Desde Platão e Aristóteles, o conceito foi entendido, para o primeiro (“virtudes cardeais”), como uma capacidade de realizar uma tarefa determinada (A República, I, 353a); para o segundo (“virtudes morais” ou “excelência moral”), como um hábito racional, que tornaria o homem bom (Ética a Nicômanos, II, 2, 1103b, e II, 6, 1106).

A tradição veterotestamentária também se valeu das virtudes cardeais como necessárias ao rei sábio. No Livro da Sabedoria a esposa ideal do rei Salomão é a própria Sabedoria (provavelmente, numa interpretação alegórica da expressão hebraica “mulher forte” contida nos Provérbios [Pr 31, 10]). A Sabedoria evoca a eficiência e as virtudes, que são frutos da Justiça: “Ama alguém a justiça? As virtudes são seus frutos; ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza, que são, na vida, os bens mais úteis aos homens (Sb, 8, 7)”.

Por outro lado, as virtudes teologais (, esperança e caridade), que se encontram em São Paulo (1Cor). Ao comentar o uso e a hierarquia dos carismas – um dos problemas cruciais do cristianismo primitivo – São Paulo, numa famosa passagem, trata da importância da caridade (“Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse a caridade, seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine” [1Cor, 13, 1). Ver COSTA, Ricardo da. A Árvore Imperial – Um Espelho de Príncipes na obra de Ramon Llull (1232-1316). Niterói: Uff, tese de doutorado, 2000, p. 118-120.

[80] Sobre a verdade das palavras, veja § 27.

[81] Para os gramáticos e lógicos medievais, a voz (vox) era objeto de estudo enquanto signo.

[82] Nesse exemplo, as palavras parecem verdadeiras por sua correção gramatical, mas mostram que são falsas por sua falsidade significativa.

[83] “Semelhança é o hábito assemelhado para que o semelhante e o assemelhado possam participar”, Lógica Nova (4.3.69, NEORL 4, p. 76).

[84] “Suposição é a credulidade de antecedente para que se possa haver a ciência da conseqüência, pois a suposição é matéria do entendimento investigativo e prático”, Lógica Nova (4.3.81, NEORL 4, p. 77).

[85] Para a distinção entre sentido próprio e apropriado, veja § 185.

[86] Ramon defende que a fé baseada em simples argumentos de autoridade é somente um “ato apropriado” do entendimento. Ato próprio do entendimento daquele que crê deve ser a compreensão de razões demonstrativas e necessárias, resultado de uma autêntica discussão teológica. Veja o Livro do Gentio e dos Três Sábios, Prólogo (NEORL 2, p. 12). Ao contrário do que faziam alguns escolásticos, Llull não contrapunha razão e fé, pois para ele a fé é o lume racional que Deus deu aos homens para que eles entendessem como são realmente as coisas criadas. Portanto, a fé é um ato de compreensão intelectual e não um ato de renúncia do entendimento (veja, por exemplo, a Declaratio Raimundi, 16 [ROL 17, CCCM 79, p. 28]).

[87] As palavras são gloriosas porque participam do princípio da glória divina, que é “...aquele deleite na qual a bondade, a grandeza, etc., repousam, pois assim como na essência da bondade ou em seu gênero não podem haver o mal, na essência da glória ou em seu gênero não podem existir trabalho nem sofrimento.”, Lógica Nova (4.3.10, NEORL 4, p. 71).

[88] O apetite universal do bem (apetite – princípio que impele o ser vivo à ação para satisfazer uma necessidade ou desejo; parte diretiva da alma) é um dos temas centrais da tradição filosófica clássica – Platão (República, 6), Aristóteles, Ética a Nicômaco, 1.1-4 (1094a - 1096b), Plotino (Enéadas, 6.9) – e muito rapidamente foi acolhido pelos pensadores cristãos (por exemplo, já em Agostinho, em sua obra A Cidade de Deus, 8, 8).

[89] Como os nove primeiros princípios são absolutos, devem ser tratados separadamente; os nove restantes, por serem relativos, são tratados em tríades, que configuram os três triângulos da Figura T da Arte luliana.

[90] Veja § 1.

[91] “Diferença é aquilo em razão do qual a bondade, a grandeza, etc., são razões que não são confusas, porque a diferença é a causa da bondade ser uma razão, a grandeza outra, etc. O mesmo ocorre com seus atos, como o bonificar, que é ato de bondade, não de grandeza, e o magnificar, que é ato da grandeza, não da bondade. Por isso, a diferença é luz do entendimento para que se conheça as coisas, como a luz da visão, para que se atinjam os entes visíveis. Isso é o que deseja a regra de C.”, Lógica Nova (2.3, NEORL 4, p. 29).

[92] A respeito da dicção, veja § 10.

[93] “Concordância é aquilo em razão do qual (...) muitas coisas concordam em um termo a quo, para que tendam a um termo ad quem.”, Lectura artis, 2.11 (ROL 22, p. 358).

[94] “A contrariedade é uma resistência mesclada por razão de diversos fins.”, Arbre de filosofia desiderat, 3.3 (ORL 17, p. 412).

[95] “...aquele que advoga por uma causa”, tradução do particípio latino proloquens (no latim medieval, proloquim podia significar advocacia).

[96] Meio é o “...sujeito no qual o fim influi no princípio sua semelhança, e o princípio a reflui – e o meio sabe a natureza de cada um”, Proverbis de Ramon, 117.1 (ORL 14, p. 17).

[97] Sobre a tríade princípio-meio-fim veja § 13.

[98] § 13-19.

[99] No sentido figurativo, um pomo (ou poma) é qualquer esfera ou bola.

[100] Na Idade Média o pomo era um dos símbolos da realeza (além da coroa e do cetro). No século XIII, por exemplo, Navarra adotou o pomo real como emblema. Ver FUENTES ISLA, Benito. “La imagen de la virgen em los sellos”, Internet, Euskomedia Fundazioa.

“El pomo fue al principio una insignia imperial que simbolizaba la soberanía universal. La esfera surmontada por una cruz representaba el cosmos y fue adoptada por los emperadores germánicos en el siglo XI. Su uso en la monarquía aragonesa es más tardío, pues se remonta a la coronación de Pedro II el Católico, cuando el papa Inocencio III le otorgó este símbolo en detrimento de los derechos antes exclusivos del emperador. En su Crònica Ramón Muntaner describe el orbe aragonés empleado en la ceremonia de coronación de Alfonso IV el Benigno en 1328: “E lo pom era d’or e havia dessús una flor d’or ab pedres precioses; e sobre la flor, una creu molt rica e honrada de belles pedres precioses”. En aquella ocasión un juglar recitó en el banquete sucesivo unos versos que explicaban el significado del pomo: igual que el orbe está sujeto por la mano del rey, los reinos están en poder del monarca. Aunque su uso no era anterior a la ceremonia de 1204, todos los reyes privativos de Aragón y los condes reyes de la Corona unificada, incluyendo a Ramón Berenguer IV, llevan en su mano izquierda el orbe con la cruz. Como la corona de florones, se trata de un atributo propio de la casa real de Aragón, pues la cruz patada que monta sobre el pomo puede identificarse como la cruz de Aragüés o de Íñigo Arista, alusiva a las raíces en el condado de Sobrarbe del primitivo reino aragonés. Es muy probable que el interés de Pedro IV por la figura de Íñigo Arista y los orígenes históricos del Reino de Aragón implicase la recuperación de esta seña de identidad.” – SERRA DESFILIS, Amadeo. “La historia de la dinastía en imágenes: Martín el Humano y el rolo genealógico de la Corona de Aragón”. In: LOCVS AMŒNVS 6, 2002-2003, p. 68-69.

[101] Para o tema das dignidades, veja § 64.

[102] Como o “ser” é anterior ao “ser rainha”, a palavra “ser” também é anterior e mais simples que a palavra “rainha”: “Os entes simples são anteriores que os compostos por essência”, Començaments de filosofia, 2.17 (NEORL 6, p. 108).

[103] “Maioridade é a imagem da imensidão da bondade, da grandeza, eternidade, etc., porque a maioridade e a imensidão são mais concordantes que a finitude e a menoridade.”, Lògica nova, 4.3.166 (NEORL 4, p. 172). Veja também a Árvore da Ciência, 1.16 (OE I, p. 561).

[104] Como as categorias aristotélicas, as nove regras da Arte luliana indicam as possíveis maneiras de se pensar corretamente (Ars compendiosa inveniendi veritatem, 3 [MOG 5, p. 37-65]). Por volta de 1293-1294, Ramon passou a antepor uma questão inicial, de utrum (“se existe”), contando dez questões (por exemplo, na Taula general 3 [ORL 16, p. 337-354], na Arbre de filosofia desiderat [ORL 17, p. 423-439] e na Lògica nova, 1.6 (NEORL 4, p. 15]).

[105] Uma questão é uma pergunta para se descobrir o que não se sabe (Lògica nova, 1.6 (NEORL 4, p. 14]). Por sua vez, as regras e questões são gerais porque pretendem esgotar todas as formas possíveis de investigação.

[106] Ao considerar que a palavra tem como base um som vocal (vox significativa), Ramon segue Aristóteles (De interpretatione, 2, 16a 19, Poetica 20, 1457a 10).

[107] Essa “palavra mental” é a linguagem prévia a qualquer tipo de expressão sensível, oral ou escrita (veja, a seguir, § 186). A descoberta da “linguagem mental” é atribuída aos estóicos (a distinção entre um discurso interior e o discurso proferido – Sexto Empírico, Adversus mathematicus, 8.275-276). Contudo, essa teoria formava parte do patrimônio comum da Antigüidade tardia, muito rapidamente adotada pela Patrística (Agostinho, Da Trindade, 15.10-11 e 17-21), assumida posteriormente por praticamente todos os teólogos e lógicos medievais (por exemplo, Guilherme de Ockham, Summa logicae, 1.1). Llull explicita ainda melhor suas idéias sobre a linguagem em sua obra Liber de affatu, de 1294.