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A Primeira
parte de O Romance da Rosa (c. 1225) (Continuação)
Figura 11 Comecei a andar, entretendo-me sozinho pelo jardim, indo de um lado para o outro. Então o Deus do Amor chamou Doce Olhar, pois não queria continuar guardando por mais tempo o arco de ouro. Sem demora, ordenou-lhe que o esticasse, e este o fez imediatamente. Deu-lhe o arco já esticado e cinco flechas fortes e brilhantes, já preparadas para serem lançadas. O Deus do Amor começou a seguir-me à distância, com o arco na mão. Que Deus me proteja da ferida mortal se ele dispara contra mim! Eu, que até então não dera nenhuma importância àquilo, estava alegre, divertindo-me livremente pelo jardim, enquanto o outro me seguia. Não me detive em lugar algum até que não houvesse percorrido tudo. Era um jardim perfeitamente quadrado, igual na largura e na altura. [47] Não havia árvore carregada de frutos – a não ser que fosse uma árvore desprezível – que não houvesse dois ou três exemplares. Havia macieiras, bem relembro, com abundantes maçãs vermelhas, que são uma boa fruta para os doentes; havia inúmeras nogueiras, que quando chegava a época se enchiam de nozes moscadas, que não são nem amargas nem insípidas; abundavam as amêndoas plantadas no jardim; quem necessitasse, encontraria ali muitas figueiras e numerosas palmeiras de tâmaras. Havia no jardim diferentes especiarias: cravos, alcaçuz [48], cardamomos frescos [49], erva-luiza [50], anis, canela e muitas outras especiarias agradáveis que fazem com que a comida seja boa na mesa. No jardim havia árvores frutíferas carregadas de marmelos e de pêssegos, castanhas, nozes, maçãs, pêras, nêsperas [51], ameixas cláudias [52] e pretas, cerejas vermelhas frescas, serbas [53], amieiros [54] e avelãs. O jardim estava povoado de grandes loureiros e de altos pinheiros; também eram abundantes no jardim as oliveiras e os ciprestes; havia frondosos e robustos ulmos [55], loendros [56], faias [57], aveleiras compridas, álamos [58], freixos [59], áceres [60], altos abetos [61] e carvalhos. Que mais posso dizer? Havia tal variedade de árvores que encontraria muita dificuldade para enumerá-las por completo. Saiba que as árvores estavam tão separadas uma das outras, como deveria ser, que distavam mais de cinco ou seis toesas [62]. Os galhos eram largos, altos e tão frondosos por cima, que impediam que o calor e o sol chegassem a bater no chão e danificar a tenra erva. No pomar havia gamos [63], corços [64] e muitos esquilos que subiam nas árvores; havia coelhos que entravam e saíam de suas tocas sem cessar; uns corriam atrás dos outros de infinitas formas pela fresca grama verde. Havia ali não sei quantas fontes claras à sombra das árvores, sem insetos ou rãs. A água corria com um murmúrio doce e agradável por pequenos regatos que Lazer havia mandado fazer. Ao redor dos riachos e à margem das fontes claras e vivas, brotava com força a erva fresquinha. Ali se podia recostar na sua amiga como em um leito, pois a terra era branda e suave. Graças aos mananciais, crescera erva suficiente. Entretanto, o lugar também estava embelezado pela abundância de flores que sempre havia ali, tanto no inverno quanto no verão: lindas violetas recém abertas, frescas e macias; flores brancas, vermelhas e muitas variedades de flores amarelas. Aquela terra era belíssima, adornada e salpicada de flores de distintas cores e de extraordinário perfume. Não falarei por mais tempo daquele agradável e aprazível lugar. Vou me calar, pois seria impossível contar toda a beleza e a formosura do pomar. Fui de um lado a outro até que percorri e contemplei o jardim em sua totalidade. Enquanto isso, o Deus do Amor me seguia atento, como um caçador que espera o animal entrar no lugar adequado para, então, lançar a flecha. Cheguei a um lugar belíssimo, um pouco distante, no qual encontrei uma fonte debaixo de um pinheiro. Desde os tempos de Carlos Magno e de Pepino não se vira uma árvore tão formosa [65]: crescera tanto que em todo o jardim não havia árvore mais alta. Com grande habilidade, a natureza havia situado a fonte em uma pedra de mármore que tinha pequenas letras escritas na parte superior e que diziam: “Aqui morreu o belo Narciso”. Figura 12 Narciso foi um rapaz que o amor capturou em suas redes. O amor o atormentou tanto, e tanto fez, que ele chorava e se lamentava; ao final entregou sua alma, pois Eco, dama de elevada posição, o amava mais que qualquer ser vivo, mas foi tão maltratada por ele, que acabou dizendo que obteria seu amor ou morreria. Porém, Narciso era tão belo, que por sua grande formosura estava cheio de desdém e de orgulho; e não a quis aceitar por mais que ela lhe pedisse e suplicasse. Ao se ver rejeitada, Eco sentiu tamanha dor e tristeza e considerou seu desprezo tão grande que caiu morta instantaneamente. Mas antes de morrer suplicou e rogou a Deus que Narciso, por seu coração fugidio e sua indecisão para amar, fosse um dia atormentado e destruído por um amor pelo qual ele não pudesse encontrar médico que o curasse: assim ele saberia e conheceria o sofrimento que os fiéis amantes sentem quando rejeitados de forma tão vil. Esta súplica era razoável e, por isso, Deus a aceitou. Assim, um dia, casualmente, Narciso chegou àquela fonte de águas puras e cristalinas, pôs-se à sombra do pinheiro no dia que regressava da caça e que havia se esforçado correndo para cima e para baixo, até que se sentiu sedento pela dureza do calor e pelo cansaço que lhe privara de alento. Quando chegou à fonte que o pinheiro cobria com seus galhos, pensou beber dela: abaixou-se disposto a saciar a sede e então viu na água limpa e clara seu próprio rosto, seu nariz e sua doce boquinha. Ficou surpreso, atraído por seu reflexo, pois pensava estar vendo o rosto de um jovem extraordinariamente formoso. Bem se vingou o Amor do grande orgulho e da altivez que Narciso tinha. Foi então que recebeu a recompensa que merecia: passou tanto tempo na fonte que se enamorou por seu próprio reflexo e ao fim morreu – assim terminou a estória. Com efeito, quando se deu conta de que não podia levar adiante seus desejos e que estava tão bem apanhado que não poderia voltar a estar satisfeito em nenhum lugar e em nenhuma circunstância, perdeu a cabeça pela grande dor e morreu em pouco tempo. Desse modo, ele recebeu a recompensa e o merecido pela pobre que havia desprezado. Damas, aprendam com esse exemplo, vós que tratais mal a vossos amigos: se os deixais morrer, Deus vos fará pagar caro. Quando graças àquele título eu soube que aquela era certamente a fonte do belo Narciso, retrocedi sem me atrever a olhar para dentro e me acovardei, por lembrar de Narciso e de sua desgraça. Porém, considerei que me assustava sem motivo, e que podia me aproximar da fonte sem temor, já que distanciara sem razão. Então me aproximei, inclinei-me para contemplar a água que brotava e o cascalho que reluzia ao fundo mais branco que a prata pura. Tal era essa fonte, e não há outra igual em todo o mundo: sua água era sempre fresca e nova, pois dia e noite jorrava com grandes borbulhas de dois mananciais cristalinos e profundos. Ao redor a erva crescia espessa, graças àquela abundante e generosa água, que sequer morre no inverno, e à fonte que nunca seca, nem escasseia. No fundo da fonte havia duas pedras de cristal que contemplei com atenção. Vou lhes dizer uma coisa que, acredito, irá surpreendê-los quando ouvirem. Quando o Sol, que tudo vê, lança seus raios na fonte e a claridade chega ao fundo, aparecem mais de cem cores no cristal que, graças ao Sol, torna-se violeta, amarelo e vermelho. É um cristal de propriedades maravilhosas: nele se refletem as árvores, as flores ao redor e tudo que enfeita o jardim. Para que entendais melhor, vou lhes explicar isso por meio de um exemplo: do mesmo modo que o espelho mostra tudo o que tem na sua frente, que se vê sem dificuldade inclusive com sua cor e forma, o mesmo ocorre com o cristal do qual vos falo, que mostra a quem olha na água tudo o que há no jardim. Esteja onde estiver, sempre se verá a metade do jardim e, se der a volta, poderá contemplar o resto. Não há nada, por menor que seja ou por mais distante e escondido que esteja, que não apareça como se estivesse pintado no cristal. [66] Este é o espelho perigoso no qual Narciso, cheio de orgulho, contemplou seu próprio rosto e seus olhos verdes claros, caindo morto imediatamente. Quem se olhar nesse espelho não encontrará salvador nem médico que possa impedir que veja em seus olhos algo que o impulsione imediatamente a amar. Muitos homens valorosos têm sido vencidos pelo espelho, pois mesmo os mais sábios, os mais nobres e os mais bem dispostos não tardam a serem agarrados e aprisionados. Aqui, um novo tipo de raiva surpreende as gentes; aqui mudam os sentimentos; aqui não é necessário o bom sentido nem a discrição; aqui só há vontade pura de amar; aqui não há ninguém que possa ser aconselhado, pois Cupido, filho de Vênus, espalhou a semente do Amor que guarda a fonte, e fez com que fossem colocadas armadilhas e alçapões ao redor das donzelas e dos rapazes para prendê-los, pois o Amor não quer outras aves. Por causa da semente nela semeada, essa fonte recebeu o justo nome de Fonte do Amor; e muitos têm falado dela em numerosos lugares, em novelas e em estórias. Porém, não ouvireis melhor descrição do assunto que a que eu vos fareis, descobrindo para vocês todos os seus mistérios. Contemplei cuidadosamente a fonte e os cristais do fundo, que me revelavam mil coisas que existiam ao redor. Porém, infeliz de mim, o fiz em má hora e tanto suspirei depois! O espelho me enganou: se tivesse antes conhecido seu poder e suas virtudes, não haveria olhado para ele, pois naquele momento caí na armadilha que tem aprisionado e traído a tantos homens. Figura 13 No espelho, entre outras mil coisas, vi roseiras carregadas de flores que estavam em um lugar afastado e rodeado por uma cerca. Então senti um grande desejo de ir contemplar o grupo maior, e não deixaria de fazê-lo em troca de toda riqueza de Pavia e de Paris. Tomado por tal fúria que já surpreendeu a muitos outros, dirigi-me de imediato até os roseirais. Ao me aproximar, a fragrância das rosas me atravessou até as entranhas, como se eu tivesse acabado de ter sido embalsamado. Temendo que me censurassem ou me chamassem a atenção, não me atrevi a colher nenhuma rosa, mesmo que fosse só uma para ter na mão e sentir seu perfume. Temia me arrepender, pois podia molestar o senhor do jardim. As rosas abundavam em grandes grupos de tal forma que não se encontrariam mais belas sob o céu. Havia botões pequenos e fechados, outros um pouco maiores e outros, já quase no ponto ideal de desabrocharem. Esses não eram nada desprezíveis, pois as rosas abertas e alegres murcham em um dia, enquanto os botões se mantêm frescos por, pelo menos, dois ou três dias. Senti-me encantado, pois em nenhum lugar eles crescem tão formosos: quem pudesse arrancar um deveria estimá-lo muito. De minha parte, nada me satisfaria mais que fazer uma grinalda com eles. Dentre todos, escolhi um botão belíssimo; ao seu lado me pareceram inferiores os demais que vi. Tinha a cor vermelha mais perfeita que a Natureza pôde criar e estava rodeado por quatro pares de pétalas, colocadas com habilidade pela Natureza, umas nas outras. O talo era reto como um junco e sobre ele a flor se assentava sem pender nem se inclinar. Seu aroma se espalhava ao redor e o perfume que produzia enchia todo lugar. Ao cheirá-lo, perdi a vontade de abandonar aquele lugar e me aproximei para colhê-lo, mas não me atrevi a estender as mãos: os cardos afiados [67] e os pontudos espinhos me impediram e assim não me deixei avançar, por medo de me causar dano – afinal, eram espinhos cortantes e sutis, além de urtigas e sarças de pontas finas como chifres. O Deus do Amor que, com o arco retesado havia decidido me seguir e me espiar, se deteve debaixo de uma figueira. Ao ver que eu havia escolhido aquele botão, que me agradava mais que qualquer outro, pegou uma flecha, a empunhou na corda e esticou o arco, que era muito resistente, até a altura da orelha e, apontando-a, fez com que a flecha entrasse em um olho e chegasse com violência até meu coração. Senti tamanho frio que muitas vezes depois ainda tremo só de lembrar, mesmo envolto em um manto quente. Atingido dessa maneira, caí de costas, o coração falhou, mentiu para mim e então eu permaneci desfalecido durante muito tempo. Ao recobrar os sentidos e a razão, encontrei-me debilitado e pensei ter perdido grande quantidade de sangue. Contudo, a flecha cravada não me fez derramar uma só gota e a ferida estava completamente seca. Peguei a flecha com as mãos e comecei a tirá-la com força e suspirar de dor. Esforcei-me tanto que consegui arrancar a haste com o penacho, mas a ponta peluda, que se chamava Beleza, estava tão profundamente cravada em meu coração, que eu não pude arrancá-la. Assim, ela ficou ali, sem que brotasse nem uma gota de sangue. Senti-me angustiado e cheio de preocupação, pois o perigo havia se duplicado e eu não sabia o que fazer, nem o que decidir. Ignorava se encontraria algum médico para a minha ferida, pois não esperava que nenhuma daquelas ervas ou raízes me curasse. Enquanto isso, meu coração não se ocupava com outra coisa que não fosse me levar até a rosa: se a tivesse em meu poder, sem dúvida, me devolveria a vida, porque a mim bastava vê-la e sentir seu perfume para que a dor se aliviasse de forma considerável. Comecei a me aproximar da flor de suave aroma, enquanto o Amor pegava outra flecha de ouro. Era a segunda, e se chamava Simplicidade, que faz com que muitos homens e muitas damas no mundo se enamorem. Quando o Amor viu que me aproximava, sem fazer ameaças disparou em minha direção a flecha, que não tinha aço; e a ferina flecha chegou ao meu coração através dos olhos. Não consegui sarar com nada, pois ao tentar arrancá-la, sem grande esforço retirei a haste, mas a ponta não saiu. Estou seguro de que se antes desejava alcançar a rosa, agora minha vontade de obtê-la era muito maior. Ao aumentar meu sofrimento, crescia em mim o desejo de ir em busca da flor que cheirava mais que uma violeta. Melhor teria sido retirar-me, mas não podia recusar as ordens de meu coração: à força tinha que ir até onde ele se dirigia. O arqueiro, que se esforçava e tentava me causar dano, não me deixava ir sem motivo; e, para me enlouquecer, fez com que a terceira flecha voasse contra meu corpo. Essa flecha era a que se chamava Cortesia. A ferida foi profunda e larga, e me fez cair desmaiado sob uma frondosa oliveira. Durante muito tempo estive ali sem me mover. Quando voltei a ter forças, peguei a flecha e imediatamente arranquei-a de meu flanco, mas não pude retirar a ponta, por mais que tivesse tentado. Senti-me angustiado e pensativo. Essa ferida me atormentava, obrigando-me a ir até a flor que tanto me agradava. Porém, o arqueiro me infundia medo – e com razão – pois aquele que se escaldou deve fugir da água. Grande coisa é a necessidade: ainda que eu tivesse visto caírem flechas e pedras mescladas tão abundantemente como se fossem granizo, eu não teria deixado de me dirigir até ali, pois o Amor – que tudo supera – dava-me valor e ousadia para cumprir suas ordens. Pus-me de pé, mesmo débil e desfalecido como se estivesse ferido. Sem me preocupar com o arqueiro, procurei caminhar até a rosa que tinha meu coração, mas havia tantos espinhos, cardos e sarças que não consegui avançar o suficiente para chegar até a flor. Tive que ficar junto à cerca que rodeava as rosas e que tinha espinhos pontiagudos. Contudo, era muito agradável estar tão próximo e notar o doce aroma que saía da flor; agradava-me tudo o que via, ; a recompensa era grande e me provocava gozo e alegria suficientes para esquecer os sofrimentos. Eu estava contente e gozoso, pois não havia nada que eu desejasse tanto quanto ficar ali, de forma que nunca me afastaria. Após um breve momento, o Deus do Amor – que estava destruindo meu coração, pois o tinha feito de alvo – voltou a me atacar e, para minha desgraça, disparou outra flecha que me fez uma nova ferida debaixo do peito. A seta se chamava Companhia: nenhuma outra vence mais rápido as damas e as donzelas. Ela imediatamente renovou a dor das feridas e eu desmaiei três vezes em um instante. Ao voltar a mim, chorei e suspirei, pois meu sofrimento aumentava e piorava, de forma que eu perdia toda a esperança de cura e alívio. Preferia estar morto ao invés de continuar vivo, pois definitivamente – segundo me parece – o Amor faria de mim um mártir e eu não poderia escapar. Entretanto, pegou outra flecha que apreciava muito, mas que eu considero muito pesada: a Boa Cara, que não consente que nenhum enamorado se arrependa de servir ao Amor, à margem de seus próprios sentimentos. É uma flecha pontuda, que atravessa com facilidade qualquer coisa, e cortante, como a lâmina de cortar da espada. Amor havia untado muito bem aquela ponta com um bálsamo precioso para que não causasse grande dano, pois não desejava que eu morresse, somente que recebesse algum alívio com o ungüento que estava cheio de consolo. Amor a havia preparado com suas mãos para reconfortar os leais amantes. Para aliviar meus males disparou em minha direção essa flecha, produzindo uma grande ferida. O ungüento correu por minhas feridas e me devolveu a força do coração que eu havia perdido: eu estaria mal e teria morrido se não fosse pelo bálsamo. Arranquei a haste, mas a ponta da nova flecha também ficou dentro de mim. Se em mim haviam ficado cravadas as cinco, dificilmente poderiam ser arrancadas. O ungüento aliviou a dor daquelas feridas que me faziam empalidecer. Esta última flecha tinha uma curiosa virtude: produzia doçura e amargura. Tenho sentido e notado o auxílio que me prestou, mas também seu prejuízo: ao se cravar produziu angústia, depois seu bálsamo me aliviou. Por um lado me untava, por outro me feria: assim me ajudava, assim me causava mal. Figura
14 Não demorou para que o Amor se aproximasse de mim, saltando com toda a rapidez. Ao chegar ao meu lado, disse-me em voz alta: – Vassalo, considera-te preso, pois não podes fugir nem te defender; não ofereças resistência, entrega-te a mim. Quanto mais de bom grado o fizeres, logo encontrarás piedade. Está louco quem pretende resistir ao que deve louvar e ao que tem que suplicar clemência. Não podes te esforçar contra mim. Quero te mostrar como não ganharás nada com o orgulho e a soberba. Renda-te sem lutar e de bom grado, pois assim o desejo. Eu lhe respondi: – Por Deus, com gosto o farei, não vou me defender. Não me permita Deus pensar que posso resistir frente a vós, pois não seria justo nem razoável. Podeis fazer comigo o que quiserdes, enforcai-me ou dai-me a morte: sei eu que não posso impedir-vos, pois minha vida está em vossas mãos. Não viverei até amanhã se não for essa a vossa vontade. De vós espero alegria e saúde, pois ninguém as dará sem que vossa mão, que me feriu, me cure. Se vós quiserdes fazer de mim vosso prisioneiro, não me causareis nenhum dano e eu não ficarei decepcionado. E sabeis que não sinto nenhuma aflição, pois tenho ouvido falar tantas coisas boas de vós, que desejo colocar todo o meu corpo e todo o meu coração à vossa disposição; já que se cumpro vossa vontade, não poderei me queixar de nada. E mais: penso que, em algum momento, chegarei a merecer o que espero e, com essa condição, rendo-me. Após falar assim, quis beijar-lhe os pés. Porém, pegou minhas mãos, dizendo-me: – Estimo-te muito e te aprecio por ter respondido assim. Nunca, certamente, tal resposta saiu da boca de vilão mal-educado; ganhastes tanto em minha consideração que quero que agora mesmo me jures fidelidade em teu beneficio. Beijar-me-ás na boca, a qual nenhum vilão é permitido tocar; não deixo que o façam nem as pessoas rudes, nem os porqueiros. Há de ser cortês e livre para entrar em meu serviço. Sem dúvida é duro e pesado servir-me, porém te faço uma honra muito grande ao te aceitar, e deves sentir-te muito contente por ter um senhor tão bom e tão formoso, pois o Amor é o porta-estandarte da Cortesia e carrega sua bandeira, ao passo que possui tão bons modos, é tão doce, tão franco e tão gentil, que quem entra a seu serviço disposto a honrá-lo perde toda a vilania, toda a maldade e qualquer má educação. Então, me fez seu vassalo juntando as mãos; e me alegrei muito quando sua boca beijou a minha, esse foi o momento em que tive maior alegria. [68] A seguir, me pediu provas de minha fidelidade. – Amigo, tenho recebido a vassalagem de muitos, e a maioria tem mentido. Os que cometem felonia, cheios de falsidade, muitas vezes têm me traído e, por sua culpa, tenho ouvido numerosas queixas. Porém, já saberão como o sinto: se posso aprisioná-los de forma justa, vender-lhes-ei caro sua traição. Agora, desejo, pelo amor que te tenho, estar seguro de ti, e quero que estejas tão unido a mim que não possas me negar nenhuma promessa, nenhuma condição, nem te opor a nada que eu te peça de agora em diante. Se fizeres trapaça, será uma grande desgraça, pois me pareces leal. – Senhor – respondi – escuta-me. Não sei por que me pedis garantia e fianças. Já sabeis que realmente me haveis privado de meu coração de tal modo que, mesmo que desejasse, não poderia cumprir minha vontade a não ser com vossa intercessão. Meu coração é vosso, não meu, e, para o bem ou para o mal, tenho que fazer vossos desejos, pois ninguém pode escapar de vós. Pusestes tal vigilância, que ele é custodiado pela consciência. Mas se apesar de tudo temeis algo, trancai-o com uma chave, e levai-a como fiança. – Por minha cabeça, isso não é uma brincadeira – responde o Amor – por isso, aceito. É senhor do corpo quem tem o coração sob o seu domínio: ultrajante seria pedir mais. Ele então tirou de sua bolsa uma pequena chave, muito bem feita, trabalhada com ouro puro: – Com esta chave trancarei seu coração e não quero outra garantia. Embaixo desta chave tenho guardadas minhas jóias. Por minha alma te digo que ela é realmente a senhora do meu cofre e que tem um grande poder. Assim, ele cumpriu seu desejo. Depois de tranqüilizá-lo, lhe disse: – Senhor, eu estou disposto a levar adiante vossa vontade e aceito com gosto meu serviço, pela fé que me deveis. Não o digo por covardia ante minhas tarefas, pois um servidor se esforça em vão para realizar obras dignas de encômio, se tais obras não agradam ao senhor ao qual as apresenta. O Amor respondeu: – Não te preocupes. Já que entrastes em minha mesnada, recebo teu serviço com gosto. [69] Colocar-te-ei em um lugar alto, se te privares da maldade. Porém, creio que não será logo, pois os grandes bens não chegam de forma repentina: é necessário esforçar-te e esperar. Sofre e suporta a angústia que agora te prejudica e te fere, pois conheço o medicamento que te curará. Se te manténs leal, dar-te-ei um bálsamo que curará tua ferida. Contudo, por minha cabeça, já veremos se servirás de bom grado e como cumprirás dia e noite os mandamentos que dou aos leais amantes. – Senhor, por Deus, antes que vás, diga-me quais são. Estou disposto a cumpri-los, mas antes devo conhecê-los, caso contrário, poderia errar o caminho facilmente. Por isso quero conhecê-los para não infringi-los de nenhuma maneira. – Falastes bem. Escuta e relembra, pois o mestre desperdiça todo o seu esforço quando o discípulo que o está escutando não se preocupa em reter para depois recordar. Então, o Deus do Amor explicou seus mandamentos tal como vais ouvir, palavra por palavra: este Livro os enumera sem erros. Quem deseja amar, que preste atenção, pois o Livro se ocupa deles a partir de agora. Começam agora boas razões para escutar, se aquele que as conta o sabe fazer de forma adequada, pois o final do sonho é extraordinário e seu conteúdo é totalmente novo. Aquele que ouvir até o fim aprenderá bastante sobre os jogos do Amor; assim espere até que eu comece a explicar-lhe o significado do sonho. A verdade, que está encoberta, mostrar-se-á de forma evidente quando me ouvir interpretar o sonho, pois nele não há uma só palavra que seja mentira. – Primeiro – diz o Amor – quero e ordeno que abandones imediatamente a Vilania, e que não voltes a ela, se não queres inimizade comigo, pois maldigo e excomungo a todos que a amam. A Vilania pertence aos vilões, por isso não a quero: o vil é traidor, sem piedade, infiel e inimigo. Guarda-te de contar às gentes coisas que se devem manter em silêncio. Não é nenhuma proeza falar mal; espelha-te em Kay [70], o senescal [71], que por suas zombarias teve má fama e foi odiado no passado. Enquanto Gawain, o discreto [72], era estimado por sua cortesia, Kay era desprezado por ser mais vaidoso, cruel, insolente e de má língua que os demais cavalheiros. – Sê cortês e afável, de doces e sensatas palavras tanto com os grandes quanto com os pequenos. Pela rua, acostuma-te a ser o primeiro a saudar as gentes. Se alguém te saúda primeiro, não mantenhas tua boca muda, procura devolver a saudação sem tardar nem demorar. – Depois, procura não dizer palavras sujas e grosseiras: tua boca não deve se abrir para nomear coisas vis. Não considero cortês quem alude a vulgaridades e a coisas feias. – Serve e honra a todas as mulheres, esforça-te em fazê-lo; se ouvires algum desbocado se meter com elas, repreende-o e diz-lhe que se cale. Se puderes, faça algo que agrade às damas e às donzelas, de forma que ouçam falar bem de ti: deste modo ganharás prestígio. – A seguir, evita o Orgulho, pois para qualquer um que esteja em seu juízo, o Orgulho é uma loucura e um pecado, e quem cai nele, é incapaz de dominar seu próprio coração para que sirva e suplique. O orgulhoso faz o contrário do que deve fazer o leal enamorado. – Aquele que quer se dedicar ao amor deve se comportar com elegância, caso contrário, valerá pouco. A Elegância não é igual ao Orgulho: o que é elegante sem orgulho vale mais se não for um louco presunçoso. Veste-te e calça-te bem, de acordo com tuas rendas: um vestido formoso e belos adornos são grandes vantagens. Confia teu vestido a um bom costureiro, que faça com que as pontas lhe caiam bem e que as mangas sejam elegantes e bem ajustadas. Tem sapatos com laços e botinas, sempre novos e recentes, e procura que se te ajustem tão bem que as vilãs discutam de que modo os pusestes e como. Enfeita-te com luvas, bolsa de seda e cinturão; e se não fores suficientemente rico para fazê-lo, arranja-as como puderes, mas procura sempre sair o melhor vestido possível, sem que isso te cause a ruína. – Utiliza grinaldas de flores, que custam pouco, ou de rosas em Pentecostes: isso está ao alcance de qualquer um, não é necessário ser muito rico. – Não toleres nenhuma mancha em teu traje; lava as mãos, limpa os dentes. Se nas unhas aparece uma mancha de sujeira, não permitas sua presença. Costura as mangas, penteia os cabelos, mas não te maquies nem te pintes, pois isso é próprio das damas e de homens de má fama, que se ocupam de amores tortos. [73] – A seguir, lembra que deves estar sempre contente: procura ser alegre e vivaz, pois o Amor não se ocupa das pessoas sombrias. É uma enfermidade muito própria da cortesia rir e alegra-se continuamente. Mas às vezes resulta que os enamorados alternem o gozo e o sofrimento, pois sentem que os males do amor são ora doces, ora amargos. O mal de amor é caprichoso: o enamorado ora está alegre, ora abatido, ou se lamenta; em um momento chora, pouco depois canta. – Se sabes fazer algo que agrade às gentes, ordeno-te que o faças. Cada qual deve fazer em todos os lugares o que considera que faz melhor, pois a partir disso receberás fama, mérito e vantagens. Se crês que és ágil e ligeiro, não resistas em saltar; se montas bem, não pares de cavalgar para cima e para baixo; se és hábil quebrando lanças, podes conseguir que te apreciem muito; se és hábil com as armas, serás dez vezes mais amado. Se tens voz clara e afinada, se te pedem, não deves eximir-te na hora de cantar, pois o bom canto é muito apreciado. O mesmo ocorre com o rapaz que sabe dançar e tocar a viola ou a cítara: assim se pode obter grandes progressos. – Evita que te considerem avaro, pois isso te seria prejudicial: é normal que os enamorados dêem o que é seu com mais generosidade que os vilãos néscios e ordinários. Quem não quer dar presentes, ignora o que é amar. Aquele que deseja se esforçar no amor deve cuidadosamente evitar a avareza: se por um olhar ou um sorriso doce e sereno entrega seu coração inteiro, pode deixar seus bens abandonados, depois de ter feito tão rico dom. – Vou lembrar tudo o que até agora te disse, pois é muito mais fácil reter a lição quando ela é breve: quem desejar fazer do Amor seu senhor, deve ser cortês e humilde, vestir-se com elegância, ser alegre e conseguir que o apreciem por sua generosidade. – Como penitência, digo que não deixe de pensar no Amor dia e noite, e não te envergonhes por isso. Pensa sem cessar nele e lembra da doce hora que tanto te demora. E para que sejas um leal enamorado, quero e ordeno que tenhas todo o teu coração em um só lugar, de forma que não estejas dividido, mas inteiro e sem enganos, pois não gosto das divisões. Quem tem seu coração em vários lugares de uma vez, sempre levará a pior parte. Não temo pelo que põe seu coração inteiro em um só lugar e, por isso, te ordeno que faças assim, mas procura não entregá-lo, pois se agires dessa maneira, considerarei uma perfídia de tua parte. – Entrega teu coração como um presente, livre, e com ele alcançarás maior mérito, pois para compensar uma coisa presenteada, deve se dar um alto prêmio. Assim entrega-o sem reticências, de boa vontade, porque se deve estimar muito o que se dá com feições alegres, e eu não aprecio nada que se dá contra a própria vontade. – Depois de entregar teu coração de acordo com os conselhos acima, começarão a chegar aventuras difíceis e graves de suportar para os enamorados. Freqüentemente, ao recordar teu amor, te verás obrigado a afastar-te das gentes, para que não se dêem conta da dor que sofres. Retirar-te-ás para um lado, só, e então virão suspiros e lamentos, temores e muitos outros males. Sentir-te-ás atacado de muitas formas distintas: terás calor e logo sentirás o frio; estarás ruborizado e depois pálido, pois nunca houve febres tão más, nem as diárias, nem as quartas. [74] Assim terás provado os sofrimentos amorosos antes de ir. – Em outras ocasiões, ficarás meditativo e permanecerás imóvel durante muito tempo, como se fosses uma estátua muda, que nem se move, nem se agita: não moverás um pé, nem as mãos ou os dedos, não virarás os olhos para nenhum lugar, tampouco falarás. Ao final, voltarás a ti, sobressaltar-te-ás estremecendo, como quem tem medo, e lançarás profundos suspiros do coração, pois assim o têm feito todos os que provaram esses males que te preocupam. – É justo que, a seguir, recordes que tua amiga está longe. Então dirás: “– Ai, Deus! Que mal suporto não indo ao encontro de meu coração! Por que meu coração se foi só? Agora penso e não encontro resposta, posso enviar os olhos para que acompanhem o coração, mas se não o fazem, não valorizo nada do que vêem. Devem ficar aqui? Não, absolutamente. Devem visitar o objeto dos apaixonados desejos do coração. Bem posso pensar que sou preguiçoso ao manter-me tão afastado de meu próprio coração. Que Deus me ajude! Devo estar louco. Vou embora logo, não demorarei mais, pois não voltarei a estar satisfeito, até ter notícias.” – Então te colocarás a caminho, dirigindo-te até lá de tal forma que várias vezes equivocar-te-ás, e em vão darás teus passos: o que buscarás não verás, e terás que regressar sem conseguir nada, cabisbaixo e meditativo. – Voltarás a te encontrar mal. De novo sentirás suspiros, pontadas e tremores mais agudos que os espinhos do ouriço; aquele que os desconhece, que pergunte aos leais enamorados. Não conseguirás acalmar teu coração e uma vez mais irás tentar ver o que tanta atenção te causa. Por fim, se conseguires conquistá-la, te ocuparás somente de saciar e satisfazer teus olhos. Terás uma grande alegria em teu coração pela beleza que estarás contemplando. Porém, de tanto admirar, teu coração se queimará e se desfará, pois farás com que se excite o fogo ardente: aquele que mais olha a quem quer, mais incendeia seu coração e o expõe às chamas como se o envolvesse com toucinho. Esse toucinho é o que arde e faz arder o fogo que enamora as gentes. Os enamorados estão acostumados a seguir essa chama, que os queima e os consome. Ao sentir o fogo mais perto, vão até ele com maior ímpeto. As chamas são tamanhas que fazem com que se consuma nelas aquele que se detêm para contemplar sua amiga. Assim acontece quando se aproxima muito dela, quando se está mais disposto a amar. Todos o sabem, sábios e estúpidos: o mais próximo do fogo arde com maior facilidade. – Enquanto te encontras alegre não desejarás te afastar de seu lado. Mas quando não te restar outro remédio, recordarás sem cessar o que vistes, e pensarás que cometestes um grande equívoco ao não se atrever a dirigir-lhe a palavra, pois não tivestes valor nem ousadia para fazê-lo e ficastes ao seu lado sem dizer nada, como louco e torpe. Considerarás um grave erro não ter chamado a formosa antes de ela ir. Voltarás muito contrariado, pois se tivesses conseguido obter pelo menos uma gentil saudação, a estimarias em cem marcos. – Começarás a maldizer-te e buscarás uma oportunidade para ir novamente à rua onde viste aquela a quem não atrevestes a dirigir a palavra. Com muito prazer te encaminharias à sua casa se tivesses um motivo. A partir desse momento, todos os caminhos e todas as tuas idas e vindas passarão por aqueles arredores. Mas te oculta das gentes com cuidado e busca um motivo diferente do que na verdade te faz ir por ali, pois é prova de bom senso saber ocultar-se. – Se por casualidade te encontras com a formosa em tal situação que não te resta outro remédio a não ser saudá-la e falar com ela, te mudarás a cor, te estremecerás o sangue, te falharás a palavra e o entendimento quando fores começar a falar; e, se conseguires avançar o suficiente para atrever-te a falar, não conseguirás dizer duas coisas das três que pensavas, pela vergonha que sentirás diante dela. Não há ninguém tão seguro que ao chegar a essa situação não esqueça muitas coisas, a não ser que minta: os falsos amantes empregam palavras a seu gosto, sem medo. São muito mentirosos: pensam uma coisa e dizem outra. – Quando tiveres terminado de falar sem ter dito uma palavra má, pensarás que te equivocastes, pois esquecestes de dizer algo que poderia ser conveniente. Então te sentirás martirizado: é o combate, é a fogueira, é a batalha que nunca termina. Não haverá nenhum enamorado que tenha buscado falar com sua dama e tenha encontrado a paz ou o fim dessa guerra, a não ser que eu o queira. – Ao cair a noite, sentirás mais de mil náuseas. Deitarás em tua cama, mas não poderás descansar, pois quando começares a dormir, tremerás, tiritarás e estremecerás. Virarás de lado, de boca para cima, de boca para baixo, como quem padece de dor de dente. Recordarás o rosto e as maneiras daquela que não tem par. E ainda te digo mais: chegarás a pensar que tens entre os braços aquela de rosto claro, completamente desnuda, como a houvesse convertido em amiga e companheira. Serão vãs imaginações, alegrias sem sentido, resultado do enlouquecimento por agradáveis lembranças, nas quais há somente mentiras e fábulas. Pouco tempo poderás permanecer em tal estado; logo começarás a chorar, dizendo: “– Deus, o que tenho sonhado? O que é isso? Onde me encontrava? De onde me vem tal pensamento? Gostaria que voltasse a ocorrer dez ou vinte vezes diárias: isso me saciou e me encheu de alegria e gozo, mas sua brevidade vai me causar a morte. Deus! Conseguirei me ver em tal situação? Agradar-me-ia que assim o fosse, ainda que morresse ao final. A morte não me preocuparia se viesse entre os braços de minha amiga. O Amor me atormenta e me martiriza sem cessar. Por isso me queixo e lamento freqüentemente. Mas se conseguir obter a alegria total de minha amiga, terei conseguido uma boa recompensa por meus males. Ai de mim, peço em demasia! Não devo ser muito rápido, pois aspiro a tanto: aquele que pede uma estupidez é normal que tenha seu pedido negado. Não sei como me atrevi a dizê-lo! Muito mais nobres e valiosos que eu se sentiriam honrados com uma recompensa menor, mas se a bela me concedesse o prazer de um só beijo, seria uma recompensa mais que suficiente pelas penas que tenho sofrido. É coisa difícil de conseguir. Devo considerar-me um louco, pois coloquei meu coração em um lugar onde não conseguirei gozo nem proveito. Só digo loucuras e estupidez, pois mais vale um olhar seu que todo o deleite que outra possa dar. Com muito prazer a veria, que Deus me ajude, pois ela curaria quem a visse só um breve instante. Ai, Deus! Quando amanhecerá? Há muito que estou nessa cama. Não aprecio esse descanso, pois não tenho o que desejo. Estar deitado é um tédio se não se dorme ou descansa. Incomoda-me e desagrada-me que não desponte o alvorecer e termine a noite. Se fosse dia, não demoraria em levantar-me. Ah, Sol! Por Deus, tem pressa, não demores nem te atrases, faz com que se vá a noite escura, com seus pesares que já duram demasiadamente.” – Deste modo, se chegar a conhecer o mal de amar, passarás a noite com pouco repouso. Quando já não puderes suportar continuar velando na cama, arrumar-te-ás, vestir-te-ás, e até te calçarás antes que tenha amanhecido. Escondendo-te, com chuva ou com gelo, dirigir-te-ás à casa de tua amiga, que estarás dormindo, sem pensar em ti. – Primeiro irás à porta de trás, para ver se ficou aberta. Permanecerás ali fora, sozinho, sob a chuva e o vento. Depois irás à porta da frente: se encontrares uma fresta numa janela ou numa fechadura, aproxima o ouvido e escuta se os de dentro dormem. Se a bela estiver acordada, aconselho-te e recomendo que procures que ela ouça tuas queixas e lamentos, para que se inteire de quanto te custa não poder descansar pelos desejos que tens de que seja tua amiga. Toda mulher, se não é muito dura, deve apiedar-se de quem suporta tais sofrimentos por ela. – Agora vou te dizer o que é que farás por amor do santo lugar que não te permite nenhum repouso: quando regressares, vai à porta e, para que ninguém te veja diante da casa ou pela rua, volta antes que tenha amanhecido. – Estas idas e vindas, estas vigílias e meditações fazem com que as peles dos enamorados emagreçam sob as roupas, como poderás comprovar por ti mesmo: o amor não deixa ao leal amante nem cor, nem gordura. Nisso se distinguem sem dificuldade aqueles que traem suas damas: para homenageá-las, dizem que têm perdido a vontade de comer e beber, mas eu vejo esses embusteiros mais gordos que abades ou priores. – Vou te dar e impor mais outra ordem: para que a criada da casa te tenha por generoso e diga que vales muito, dê-lhe qualquer adorno. Deves honrar e querer tua amiga e a todos os que a acompanham, pois através deles podes receber grande proveito. Quando aqueles em quem ela mais confia mais lhe contam que te encontraram valente, cortês e de trato afável, terás conseguido que a dama te queira muito mais. – Procura não sair de tua terra, mas se não tens outro remédio senão fazê-lo, procura que teu coração fique, e pensa em regressar o quanto antes. Não deves tardar muito: mostra que tens grandes desejos de ver aquela que possui a custódia de teu coração. – Com isso já te disse tudo o que deve fazer o enamorado que entra em meu serviço. Cumpre com minhas ordens, a partir de agora, se queres obter os favores de tua bela. Depois das recomendações que me fez o Amor, eu lhe perguntei: – Senhor, de que maneira, como podem os enamorados suportar esses sofrimentos que haveis contado? Sinto um autêntico pavor. Como pode viver, como resiste quem está continuamente entre dores e chamas, entre lamentos, suspiros e lágrimas, que a todo momento e a cada instante se encontra preocupado e com insônias? Que Deus me ajude; admira-me que um homem, ainda que fosse de ferro, pudesse viver um ano em tal inferno. O Deus do Amor me respondeu, dando uma boa resposta à minha pergunta: – Bom amigo, pela alma de meu pai, ninguém tem um bem sem pagá-lo; mais se estima uma propriedade quanto mais cara custou, e com maior gosto se recebem os bens pelos quais mais sofreu. É certo que não há nada comparável ao que passam os enamorados. Do mesmo modo que não se pode esvaziar o mar, é impossível contar os males do amor em um livro ou em uma estória. – Em qualquer caso, os enamorados sobrevivem, pois lhes é necessário; todos fugimos da morte. O que está recluso em um sombrio cárcere cheio de vermes e imundícies, que não tem mais que um pão de cevada ou aveia, não morre de aflição: a Esperança lhe dá consolo, e ele pensa em se ver livre por alguma afortunada casualidade. O mesmo acontece ao prisioneiro do Amor. Espera se salvar e tal esperança o reconforta, lhe dá ânimo e forças suficientes para entregar seu corpo ao martírio. A Esperança o ajuda a suportar os inumeráveis males em troca de uma alegria que vale cem vezes mais. A Esperança vence o sofrimento e faz com que os enamorados sobrevivam. Bendita seja a Esperança, que assim os mantém! A Esperança é muito cortês: até o fim não abandona o homem honrado, apesar dos perigos e das aflições, e faz com que o ladrão que vão enforcar espere misericórdia a todo o momento. Ela te protegerá e não sairá do teu lado sem ter te socorrido se for necessário. Além disso, te presenteio outros três bens que fornecem um grande alívio aos que se encontram em meus laços. – O primeiro dos bens que aliviam os que caem nos laços do Amor é Doce Pensamento, que lhes recorda as concessões da Esperança. Quando o enamorado se lamenta e suspira, entre dores e martírios, não demora muito em aparecer Doce Pensamento, que despedaça a tristeza e a dor e, com sua chegada, faz com que o enamorado recorde a alegria que lhe prometeu Esperança. Depois, lhe mostra os olhos sorridentes, o belo nariz que não é nem muito grande nem pequeno, a boquinha de uma cor viva, cujo sopro é tão apreciado. Então, lhe alegra em recordar a beleza de cada um de seus membros. O deleite se duplica com a lembrança de um sorriso, de um bom rosto ou de um doce olhar que sua querida amiga tenha lhe dedicado. Assim, Doce Pensamento alivia as dores e as tristezas do Amor. Presenteio-te. E vou te dar outro que não é menos agradável: se o rechaças, parece-me que serás difícil de contentar. Trata-se de Doce Conversação, que em muitas ocasiões socorreu a numerosos jovens e damas, pois aquele que ouve falar de seu amor imediatamente se alegra. Recordo que por isso uma dama muito enamorada dizia estas corteses palavras em uma canção: “Sinto-me afortunada / Quando me falam de meu amigo / Por Deus! Cura-me / Quem dele me fala, diga o que disser”. Esta dama sabia quem era Doce Conversação e a havia conhecido sob diversos aspectos. – Aconselho-te e desejo que busques um companheiro prudente e discreto, a quem possas revelar seus pensamentos e descobrir teu sentir. Ele te ajudará muito. Quando o mal de amor te causar profundas angústias, recorrerás a ele para te reconfortar; falareis juntos da bela que te roubou o coração. Contar-lhe-ás tua situação e lhe pedirás que te aconselhe de que modo poderias fazer algo que seja agradável à tua amiga. Se aquele que vai ser teu amigo entregou seu coração a um bom amor, então sua companhia será muito mais valiosa. É razoável que te diga se sua amiga é donzela ou não; e que te indique quem é e como se chama. Assim não deverás temer o que pensas de tua amiga ou que te enganes, mas terão confiança mútua, já que é muito agradável contar com um homem a quem nos atrevemos a dizer segredos e confidências. Receberás com muito prazer tal deleite e te considerarás bem recompensado quando o provares. – O terceiro bem procede da visão: é Doce Olhar, que permite que possam resistir aqueles que têm amores distantes. Aconselho-te que te mantenhas próximo de tua dama com Doce Olhar; assim, seu consolo não tardará em chegar, pois é agradável e prazeroso aos enamorados.. – Os olhos têm um encontro muito bom pela manhã quando Deus lhes mostra o santuário precioso que tanto desejam: o dia que podem ver. Não lhes ocorre nenhuma desgraça digna de consideração; não temem nem o pó, nem o vento, nem alguma outra coisa difícil de suportar. E quando os olhos desfrutam de tal prazer, estão tão bem educados e acostumados, que não gozam sozinhos, mas procuram que o coração também se regozije, de modo que o aliviam de suas penas; pois os olhos, como autênticos mensageiros, enviam imediatamente ao coração as notícias do que vêem e, graças à alegria que produzem, o coração esquece suas aflições e sai das trevas nas quais se encontrava. Do mesmo modo que a luz faz com que fuja a escuridão, Doce Olhar afasta as trevas em que jaz o coração que languesce dia e noite por culpa do amor, e as dores terminam quando os olhos contemplam o que o coração deseja. [75] – Segundo me parece, já te expliquei o que tanto te assustava, e contei sem mentir nada quais são os bens que podem proteger os enamorados, salvando-os da morte. Agora sabes quem pode te dar certo valor, pois ao menos terás a Esperança e não te faltarão Doce Pensamento, Doce Conversação e Doce Olhar. Quero que cada um deles te proteja até que possas aspirar a algo melhor, pois mais adiante obterás outros bens que não são menores que esses, e sim muito maiores. Por enquanto, te dou estes. Quando o Amor terminou de dizer-me o que quis, fui incapaz de pronunciar uma só palavra antes que desaparecesse. Fiquei assustado ao ver que junto a mim não havia ninguém. Sentia uma grande dor em minhas feridas e me dei conta de que não poderia curar-me se não fosse com a rosa à qual havia entregue meu coração e todo meu ser. Para obtê-la, não confiava em ninguém além do Deus do Amor, e estava seguro de que seria impossível consegui-la sem a sua ajuda. Os roseirais estavam cercados por uma cerca, como era normal. Eu estava disposto a entrar em busca da flor, cuja fragrância era superior a qualquer bálsamo, mas tinha medo de que alguém me chamasse a atenção. Parecia que os roseirais desejavam me levar. Assim, enquanto pensava se atravessaria a cerca, vi que se aproximava de mim um jovem rapaz, belo e elegante, sem nenhuma imperfeição. Chamava-se Doce Abrigo, filho da esplêndida Cortesia. Com delicadeza, ele deixou-me livre o caminho e disse-me amavelmente: – Meu bom amigo, por favor, passai esta cerca para sentir o perfume das rosas. Asseguro-te que não receberás nenhum dano por isso e que não enfrentarás nenhuma baixeza, contanto que te guardes de cometer loucuras. Se puder te ajudar em algo, não discutirei, pois estou disposto a servir-te: digo isso com toda franqueza. – Senhor – disse a Doce Abrigo – aceito tua oferta com muito prazer e dou graças pelo favor que me ofereceste, pois fê-lo movido por uma grande nobreza. E já que assim o desejas, estou disposto a aceitar teu serviço. Figura 15 Assim, atravessei a cerca entre sarças e espinhos, que eram abundantes e, acompanhado por Doce Abrigo, comecei a andar até a rosa que exalava o melhor perfume de todas as demais. Asseguro-vos que me agradou muito aproximar-me tanto da flor. Quase pude alcançá-la com a mão. Doce Abrigo serviu-me bem ao fazer com que visse a rosa de tão perto, ainda que naquele lugar estivesse escondido um vilão – que a má vergonha lhe alcance! Chamava-se Rejeição e era vigilante e guardião de todos os roseirais. O covarde se ocultava num canto, coberto pela erva e pela folhagem, para espiar e surpreender a quem estendesse as mãos até as rosas. [76] Esse cão não estava só, tinha como companheiros a Má Língua, a murmuradora, a Vergonha e o Medo. De todos eles, era Vergonha a que mais valia: sabe-se, segundo contam os que conhecem bem o seu parentesco e a sua linhagem, que era filha da prudente Razão e que seu pai se chamava Azarento, um diabo tão odioso e feio que a Razão não chegou a se deitar com ele, mas concebeu a Vergonha pelo olhar. Quando Deus a fez nascer, a Castidade – senhora das rosas e de seus botões – viu-se atacada por malvados ladrões, necessitando de ajuda, pois Vênus havia entrado em suas possessões para levar as flores e os botões, como costumam fazer dia e noite. Então, a Castidade, que se encontrava perseguida por Vênus, pediu à Razão que lhe desse a sua filha. Como se encontrava desamparada, pediu à mesma, que não tardou em fazer-lhe um favor emprestando-lhe sua filha Vergonha, que é honrada e honesta. E para proteger melhor os roseirais, fez com que o Zelo e o Medo a socorressem, pois eles obrigam a cumprir seus desejos. Assim, eram quatro os guardiões das rosas, os quais preferiam ser golpeados antes que alguém levasse alguma rosa ou botão. Eu teria chegado bem perto dos meus propósitos se não estivessem me vigiando, pois Doce Abrigo, nobre e agradável, esforçava-se em cumprir o que havia dito e, assim, em fazer o que via que podia agradar-me. Incessantemente, ele me impulsionou para que me aproximasse do botão e tocasse o roseiral, que estava carregado de flores. Figura 16 Deu-me permissão para fazer tudo isso, pois pensava que esse era o meu desejo. De sua parte, tomou uma folha verde que crescia perto da rosa e me presenteou, pois ela havia nascido junto à flor. Tive uma grande alegria ao receber essa folha, pois, a partir deste momento, me considerei amigo íntimo e confidente de meu companheiro e, por isso, pensava que já havia chegado à minha meta. Então, senti o valor suficiente e o atrevimento necessário para dizer-lhe que o Amor havia me aprisionado e ferido: – Senhor – disse-lhe – nunca voltarei a ter alegria se não for por uma coisa: no coração tenho fixa uma pesada enfermidade, mas não sei como explicar-lhe, pois temo que vos enfadeis; preferiria ser despedaçado em pedaços com facas de aço antes de causar-vos qualquer desgosto. – Dizei-me teus desejos, pois não me molestará nada do que digas. – Bom senhor, sabes que o Amor me atormenta com dureza. Não vou mentir para ti: ele tem me causado cinco feridas no corpo e a dor não cessará até que eu consiga a rosa mais perfeita de todas - é minha morte e é minha vida; nada desejo tanto. Doce Abrigo se assustou e então me disse: – Irmão, pensas algo impossível. Como? Queres minha desonra? Haverias me feito passar por estúpido se tivesses colhido o botão do roseiral; não é razoável tirá-lo de seu lugar. Cometes uma vilania pedindo-o! Deixa que cresça e que se torne mais formoso, pois nenhum homem vivo arrancá-lo-ia do roseiral que o tem sustentado, tanto o quero! Nesse momento, saltou a infame Rejeição do lugar em que estava escondida. Era grande, negra e peluda, tinha os olhos acesos como brasas, o nariz enrugado e o rosto abominável. Então, ela começou a gritar como uma louca: – Doce Abrigo, porque trouxeste este jovem próximo aos roseirais? Por Deus, fizeste mal, pois ele pensa em prejudicá-los. Maldito sejas não tu, mas quem o trouxe a este jardim! Aquele que serve a um traidor tem a recompensa que merece. Pensavas fazer-lhe um favor enquanto ele te desejava afrontas e desavenças. Anda jovem, vá daqui! Com gosto dar-te-ia a morte! Doce Abrigo conhecia-te mal e se esforçava em servir-te, enquanto tentavas enganá-lo. Não confiarei em ti, pois manifestaste a traição que guardavas oculta. Não me atrevi a permanecer naquele lugar por culpa do odioso vilão negro que me ameaçava atacar daquela maneira. Rapidamente ele me obrigou a retroceder com muito medo para o outro lado da cerca, enquanto o malvado movia a cabeça dizendo que se eu voltasse a entrar me faria uma má ação. Então, Doce Abrigo fugiu e eu fiquei amedrontado, aflito e cheio de vergonha: estava arrependido de ter dito o que pensava. Recordei minha loucura e vi meu corpo livre da dor, da pena e do suplício, mas o que mais me entristecia era não ter me atrevido a passar a cerca. Quem não amou não conhece a dor, pois quando se ama padece-se grandes sofrimentos. O Amor me fez provar a pena que me prometera. O coração seria incapaz de pensar e a boca não poderia dizer a quarta parte da dor que eu sentia. Quando recordo que tive que me afastar assim da rosa, meu coração quase se destroça. Por muito tempo permaneci nesse estado, até que a dama do lugar que estava me olhando do alto de sua torre me viu aflito. Chamava-se Razão. Desceu de lá e veio até a mim. Não era jovem, nem grisalha, nem alta, nem baixa, nem muito magra, nem excessivamente gorda. Seus olhos brilhavam como duas estrelas, e tinha na cabeça uma coroa; parecia ser uma pessoa de elevada condição. Por sua aparência e seu rosto parecia ter sido feita no Paraíso, pois a Natureza seria incapaz de realizar obra comparável. Se o texto não mente, saibais que Deus a criou no firmamento à Sua imagem e semelhança, e lhe concedeu o poder e a força para manter o homem distante de toda a loucura, contanto que lhe prestasse atenção. Figura 17 Enquanto eu estava assim me lamentando, a Razão começou a falar: – Meu bom amigo, tua insensatez e tua juventude fazem com que te aflijas e te entristeças. Em má hora conheceste o bom tempo de maio, que fez com que teu coração se alegrasse em demasia; em má hora foste buscar uma sombra no jardim cuja chave é guardada por Ociosa, a qual lhe abriu a porta. Está louco quem trava contato com ela, pois sua companhia é muito perigosa; ela traiu-te e mentiu para ti: o Amor nunca teria te encontrado se Ociosa não tivesse te conduzido ao formoso jardim do Lazer. Trabalhaste como um louco e agora tens que agir para que tudo seja reparado; procura não crer novamente em um conselho que te leve a cometer loucuras, mesmo que em boa hora as faz quem depois se corrige. Não deve se surpreender que os jovens se precipitem a isso. – Agora quero dizer-te e aconselhar-te a esquecer o Amor, por cuja culpa te vejo fraco, abatido e atormentado. Não sei como poderás te curar ou sarar se não o fizeres, pois a cruel Rejeição quer combater contra ti sem deixar-te repousar: não te confrontes com ela. A Rejeição é pouco importante se comparada à minha filha Vergonha, que é a que defende e guarda as rosas com grande habilidade: deves ter medo dela, pois será a que pior se comportará contigo. – Com elas está a Má Língua, que não permite a ninguém tocar as flores. Antes que dê tempo de fazê-lo, considere trezentos lugares diferentes, pois vais encontrar com gente temível. Pense o que é melhor: abandonar teu propósito ou continuar atrás do que te faz viver com tal sofrimento, que é o mal que se chama amor e no qual há somente loucura. Loucura, sim, por Deus! O enamorado não pode fazer nenhum bem, nem prestar atenção em ninguém: se é clérigo, perde seu saber; se se ocupa de outro ofício, mal pode concluí-lo. E, sobretudo, padece mais que um ermitão [77] ou que um monge branco. [78] Seu sofrimento é desmedido e sua alegria dura pouco. Para o enamorado, alcançar a alegria é uma aventura, pois, conforme vejo, muitos se esforçam para consegui-la e fracassam totalmente no final. Não quiseste escutar meus conselhos quando te entregaste ao Deus do Amor: teu coração volúvel te impulsionou a cometer semelhante loucura, ou então fizestes sem refletir; mas ao abandoná-lo mostrarias uma grande sabedoria. Portanto, despreza e rejeita o amor que assim te faz viver, pois a loucura cresce sem cessar se não é detida a tempo. Coloca um freio firmemente nos dentes, doma e freia teu coração, esforça-te e defende-te dos pensamentos que nascem em teu peito, pois aquele que crê em seu coração não deixa de cometer loucuras. Ao ouvir tais conselhos, respondi irado: – Senhora, suplico-te que deixes de dar-me conselhos. Disse-me para frear meu coração para que o Amor não se apodere dele, mas por acaso crês que o Amor o consentirá e permitirá que eu domine meu coração, que lhe pertence por completo? Não posso fazer o que pedes, pois o Amor tem domado meu coração tão bem, que esse só obedece à suas ordens, não às minhas; e o governa com tal firmeza que fez uma chave para mantê-lo trancado. Deixa-me tranqüilo agora, pois em vão estás gastando o teu francês. Preferiria morrer que ser acusado de falsidade e traição pelo Amor. Ao fim de tudo, quero louvar-me por ter sido um leal amante ou lamentar-me. Por isso, me incomodo com quem me dá conselhos. Diante de tais palavras, a Razão se foi, pois viu que suas recomendações não me fariam mudar de idéia. De minha parte, fiquei cheio de tristeza e de dor; chorava e me lamentava com freqüência, pois não sabia como encontrar um remédio. Então, recordei que o Amor dissera para buscar um companheiro para quem eu pudesse revelar todos os meus pensamentos, pois isso aliviaria a minha dor. Então me lembrei que tinha um companheiro muito fiel: chamava-se Amigo e era o melhor companheiro de todos que tive. Figura 18 Fui rapidamente à sua procura. Mostrei-lhe, conforme os conselhos do Amor, os obstáculos que me mantinham imóvel e, assim, queixei-me de Rejeição, que quase me devorou, que pôs Doce Abrigo em fuga quando me viu falar com ele da desejada flor, e que me disse que se eu voltasse a ultrapassar a cerca, pelo motivo que fosse, pagaria caro. Depois de conhecer a verdade, Amigo não me assustou, mas me disse: – Companheiro, ficai tranqüilo, não te preocupes. Faz muito tempo que conheço Rejeição: ela sabe injuriar, afrontar e ameaçar os enamorados que estão começando; sei disso há muito tempo. Se tiver se comportado mal convosco, o fará de outra forma mais adiante. Conheço-a como se fosse uma moeda: suaviza-se com boas palavras e com súplicas. Vou lhe dizer o que deves fazer: aconselho que peças que te perdoe de coração e também, por favor, sua crítica: promete-lhe que a partir de agora não farás nada que a desagrade. Isso é uma coisa que muito a apazigua, a acalma e a agrada.
- Continua - Notas [47] Não é acidental o destaque que Guilherme de Lorris dá ao fato de a planta do Jardim do Amor ser “perfeitamente quadrada”. O valor simbólico da planta quadrada na Idade Média remonta à visão da Jerusalém futura de João no Apocalipse: “A cidade é quadrangular: seu comprimento é igual à largura” (Ap 21, 16). No entanto, o quadrado espacial, que na mística medieval tem o valor simbólico da glória, laicizado no Romance da Rosa, simboliza a perfeição do amor. [48] Alcaçuz (do latim liquiritia) – Indicado como expectorante e antiinflamatório das vias aéreas superiores, nas alergias respiratórias, gripes e resfriados; e como anti-ulceroso, gastroprotetor e digestivo na gastrite e úlcera péptica. A complicada composição química do alcaçuz dá a ele um largo espectro de propriedades. Centenas de estudos já comprovaram sua ação no tratamento de doenças do fígado, supra-renais, desequilíbrios hormonais e úlceras pépticas. Na China, onde é uma das ervas mais utilizadas, é indicado para o baço, rins e proteger o fígado de doenças. No Japão um preparado de alcaçuz é utilizado para tratar a hepatite. Estudos mostram que o uso do alcaçuz ajuda o fígado a combater as toxinas produzidas pela difteria, tétano, cocaína e estriquinina e também aumenta a estocagem de glicogênio. [49] Cardamomo (do latim cardamomum) – Árvore de grande porte, da família do gengibre, com folhas grandes, flores brancas e frutos de formato elíptico. As sementes secas são usadas como condimento e têm sabor picante. O cardamomo apresenta propriedades anti-séptica, digestiva, diurética, expectorante e laxante. As sementes de cardamomo são consumidas no café nos países árabes e na Índia, além de fazer parte do baharat, uma mistura de condimentos usada para temperar pratos. O condimento também é aproveitado para aromatizar pães, carnes, pastéis, pudins, doces e licores. Não deve ser consumido em altas doses, pois pode provocar vômitos. [50] Erva-luiza (ou Erva Oubena) – Planta da família das Verbenáceas, com folhas elípticas e ásperas na parte superior, flores pequenas em forma de espiga, brancas por fora e azuladas no interior, e fruto seco com sementes negras. É cultivada nos jardins, tem cheiro de limão e é apreciada como tônico estomacal e anti-espasmódico. [51] Nêspera (Nespereira – Eriobotrya japonica, Nespilus Germanica). Nome popular: ameixa amarela, ameixinha, nêspera-pera ou nêspera-maçã. Tem efeito diurético e exerce nos catarros intestinais uma ação energética antiinflamatória, donde provém a sua influência reguladora intestinal. A polpa da nêspera contém 0,35% de proteínas, não contém gordura, 11,5% de hidrocarbonatos (dos quais 9,5 são açúcares), 75% de água, 13,2% de celulose, 56 calorias, 0,44% de cinzas. Também contém pectina e tanino; ácidos cítrico, málico, tartárico e uma pequena quantidade de ácido bórico. A semente contém 2,5% de óleos gordurosos. O conteúdo em tanino e pectina justifica o seu efeito antidiarréico e regulador do intestino, assim como a sua ação adstringente e tonificadora da mucosa intestinal. [52] Ameixa-cláudia – Ameixa de cor verde clara, muito doce e com muito sumo. [53] Serba – Fruto da árvore serbal (família das Rosaceae). As amoras e morangos também são frutas da família das Rosaceae. [54] Amieiro (Alnus glutinosa) – Árvore ornamental da família das Betuláceas. Propriedades medicinais: adstringente (antidiarréico, hemostático local), analgésico local, antipirético, catártica, colerético, descongestionante, emética, febrífuga, hemostática, mucilaginosa, tônico amargo. [55] Ulmo (Ulmus minor) – O ulmo também chamado muermo, toz ou voyencum, é uma árvore sempre verde que pode alcançar até 40 metros de altura, e o seu tronco na base, aproximadamente 2 metros de diâmetro. O Ulmo é de crescimento relativamente rápido, a casca, cinza-marrom e com fissuras longitudinais, não cai facilmente. O córtex do ulmeiro escorregadio tem uma reputação como medicamento para a bronquite, pleurisia e tosses. Seu córtex interno é conhecido pelas suas propriedades demulcentes, diuréticas e emolientes. [56] Loendro (Rhododendron ponticum) – Arbusto da família das apocináceas. Também conhecido como rododendro. [57] Faia (do latim fagea, de faia) – Árvore fagácea do sul e do centro da Europa, muito cultivada por ser ornamental. [58] Álamos (do latim alnu, influenciado por ulmu) – Espécie de olmo ou choupo da família das salicíneas. [59] Freixos (Fraxinus excelsior L.) – Aproximadamente 65 espécies de árvores decíduas, principalmente robustas, compõem o gênero Fraxinus que ocorre ao longo das partes temperadas do hemisfério do norte. Fraxinus ornus é encontrado em bosques da Europa meridional e Ásia ocidental. A maioria dos freixos cresce rapidamente e tolera uma grande variedade de condições ambientais. Eles têm folhas penatissectas e flores insignificantes, com a exceção dos freixos denominadas “florescentes”. Estes incluem várias espécies ornamentais, como Fraxinus ornus, que produz vistosas panículas de flores brancas. [60] Ácer – O Acer palmatum é uma árvore caduca (árvore que as folhas caem no inverno), originária das regiões frias do hemisfério norte. Existem numerosas variedades desta espécie. [61] Abeto é o nome popular de diversas espécies dos gêneros Picea e Abies. São árvores coníferas da família Pinaceae, nativas de florestas temperadas da Europa e Ásia. Os abetos de maneira geral possuem folhas pequenas e aromáticas, e produzem pólen abundante durante o período de reprodução. [62] Toesa (do fr. toise) – Antiga medida francesa de longitude equivalente a 1,946 metros (seis pés). [63] Gamo (do latim gammu) – espécie de veado, de cauda comprida e galhos achatados na parte superior. [64] Corço – filho ou macho da corça [65] Ao citar Carlos Magno e Pepino, Guilherme de Lorris certamente faz uma alusão à literatura desenvolvida na escola palatina, pois a proposta do renascimento carolíngio, nas palavras de Alcuíno de York, era fazer renascer a Academia grega: "Surgirá na terra franca uma nova Atenas mais esplêndida que a antiga, pois nobilitada pelo ensinamento de Cristo, nossa Atenas superará a sabedoria da Academia”. Portanto, o formoso e alto pinheiro do romance pode ser interpretado como uma metáfora do cultivo e da preservação do pensamento clássico. [66] A metáfora do espelho é muito recorrente na literatura medieval. Como bem observou Jacques Le Goff, a imagem do espelho nos conduz ao mais profundo do imaginário medieval (Jacques LE GOFF, São Luís. Biografia, Rio de Janeiro, Record, 1999, p. 360). Por sua vez, Herbert Grabes propõe uma tipologia para o sentido do espelho, na Idade Média e na Renascença inglesa: 1) o espelho reflete as coisas exatamente como são; 2) reflete as coisas como deveriam (ou não) ser; 3) reflete as coisas como serão no futuro e 4) como são na imaginação (HERBERT GRABES, The Mutable Glass. Mirror Imagery in Titles and Texts of the Middle Ages and English Renaissance, Cambridge, 1983). [67] Cardo (do latim cardu) – Planta da família das compostas (Centaurea melitensis), considerada praga de lavoura, de flores amarelas, folhas com espinho e acinzentadas, caule ereto e revestido de pêlos. Portanto, a presença do cardo nessa passagem significa que a rosa escolhida pelo poeta estava protegida e resguardada pelos cardos e os espinhos. [68] Na Idade Média o voto de vassalidade era dividido em três partes: 1) a Homenagem (tornar-se homem de outro homem), 2) a Fidelidade (juramento feito sobre a Bíblia e relíquias de santos) e 3) a Investidura (recebimento por parte do vassalo de um objeto – punhado de terra, folhas, ramo de árvore, simbolizando o feudo recebido). Ver FRANCO JR., Hilário. A Idade Média. Nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 92. Particularmente na França e na Alemanha, a homenagem e a fidelidade eram acompanhadas por um terceiro ato, o beijo (osculum): “Encontramo-lo na Alemanha desde o século XI; Ekkehard, monge de Saint-Gall (falecido, sem dúvida, pouco depois de 1057), conta que em 971 Notker foi eleito abade na presença de Otão I e que entrou para a vassalagem imperial (...): ‘finalmente tu serás meu, disse o imperador, e, depois de o ter recebido pelas mãos, beijou-o; em seguida, tendo sido trazido um evangeliário, o abade jurou fidelidade’ (...) O osculum não é elemento essencial (...) constitui um meio de confirmar as obrigações contraídas pelas partes (...) é qualquer coisa de análogo ao aperto de mão que os camponeses ainda usam quando da realização de vendas de gado. Acto materializado pelo gesto (...) o osculum devia (...) impressionar o espectador.” – GANSHOF, F. L. Que é o Feudalismo? Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 107-108. [69] Mesnada (do latim mansionata, particípio passado de mansionare [alojar]) – Companhia formada por cavaleiros que, a soldo, serviam a um rei, a um rico-homem ou a um cavaleiro, e viviam em sua casa. [70] Nos Romances da Távola Redonda, de Chrétien de Troyes, Kay (ou Kai) é filho de Antor, que criou também Artur como se ambos fossem irmãos. Kay foi inicialmente companheiro de Artur, depois senescal da corte. Ver CHRÉTIEN DE TROYES. Romances da Távola Redonda. São Paulo: Martins Fontes, 1991. [71] Senescal – Espécie de supervisor das terras de um senhor feudal, mordomo-mor que dirigia os alcaides dos domínios de seu senhor. Na Alta Idade Média merovíngia, o senescal também abastecia a mesa real: “O senescal – sinis kalk, em alto alemão antigo – o mais velho dos criados, podia ser qualificado de alto funcionário? Certamente não, se o vemos aplicar-se em suas tarefas de abastecer a mesa real.” – ROUCHE, Michel. “Alta Idade Média Ocidental”. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges (dir.). História da Vida Privada I. Do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 411. [72] Gawain – Filho de Lot, rei da Orcânia (reino das ilhas Órcadas). Narradas por diversos romancistas, as aventuras de Gawain constituiriam um Romance de Gawain. Ver El Cuento del grial de Chrétien de Troyes y sus Continuaciones. Barcelona: Ediciones Siruela, 2000. [73] Interessantíssima passagem em que provavelmente o autor alude aos homossexuais, “homens que se pintam e são de má fama”. Segundo John Boswell (Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality: Gay People in Western Europe from the Beginning of the Christian Era to the Fourteenth Century, Chicago, 1980), a cristandade uma tolerância inicial deu posteriormente lugar a uma intolerância, ou seja, à medida que a Idade Média caminhava para seu fim, a intolerância cresceu. No período de redação do Romance da Rosa, houve um recrudescimento do sentimento anti-homossexual. Ver também, RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação. As minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: 1993, p. 151. [74] Na Idade Média a febre era classificada em graus de calor, e esses graus eram relacionados aos graus de um dos quatro elementos e aos graus das plantas que serviriam no preparo dos ungüentos para que o médico pudesse aplicar a medicina adequada. Ver COSTA, Ricardo da. Las definiciones de las siete artes liberales y mecánicas en la obra de Ramón Llull. USP/Univ. do Porto, 2005, e SOUSA, Jorge Prata de, e COSTA, Ricardo da. “Corpo & alma, vida & morte na medicina ibérica medieval: o Regimento proveitoso contra a pestilência (c. 1496)”. In: História, Ciência, Saúde - Manguinhos. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz, volume XII, número 3, 2005. [75] “...as dores terminam quando os olhos contemplam o que o coração deseja”, alusão à abertura do Tratado do Amor Cortês de André Capelão: “Amor é uma paixão natural que nasce da visão da beleza do outro sexo e da lembrança obsedante dessa beleza” (São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 5). [76] Ver iluminura 19. [77] O “padecer mais que um ermitão” mostra o quanto os medievais consideravam os eremitas, um dos tipos ideais da Idade Média e topos literário muito utilizado nos textos. Mas a figura do eremita não era somente literária: o século XII assistiu a um verdadeiro florescimento do movimento eremítico, fenômeno social semelhante ao monaquismo do século IX. Entre 1095 e 1110 célebres personagens adotaram a vida eremítica, como, por exemplo, Robert de Arbrissel, Bernardo de Tiron e, é claro, o famoso, Pedro, o eremita. Ver MOLLAT, Michel. Pobres, humildes y miserables en la Edad Media. México: Fondo de Cultura Econômica, 1998, p. 72-78, e especialmente VAUCHEZ, André. A Espiritualidade na Idade Média Ocidental (séculos VIII a XIII). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995, p. 77-82. [78] Os monges brancos que o texto alude são os da ordem de Cister, famosos por viverem uma vida austera. Sem dúvida, um dos melhores trabalhos já escritos (inclusive para o eremitismo) é o de M. COLOMBÁS, García. La tradición benedictina. Ensayo histórico. Tomo cuarto: el siglo XII. Zamora, Ediciones Monte Casino, 1993.
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