O Sonho de Cipião (Livro VI da República) (54 a.C.) [1]
Cícero (106-43 a.C.)
Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)
Notas: Prof. Dr. Pere Villalba Varneda
(Professor Emèrit
Departament de Ciències de l'Antiguitat i de l'Edat Mitjana
Àrea de Filologia Llatina
Univ. Autònoma de Barcelona)


O jovem Cícero lendo (c. 1464). Afresco (101,6 x 143,7 cm), Wallace Collection, London, de Vincenzo Foppa (c. 1427-1515). Trata-se do único fragmento de afresco que restou dos que havia no Palácio dos Médici (Milão), e foi retirado da parede por volta de 1863.


IX.1.9. Após chegar à África, no tempo do cônsul Manílio, destinado à quarta legião como tribuno militar, como sabeis [2], eu desejava apenas fazer uma visita ao rei Massinissa [3], grande amigo de minha família, por fortes razões. [4]

Quando cheguei à sua presença, o velho me abraçou com lágrimas nos olhos e, pouco depois, dirigiu-os ao céu e disse: “Dou graças a ti, Sol supremo [5], e a vós, demais deuses, pois antes de migrar dessa vida posso ver, em meu reino e nessa morada, a Públio Cornélio Cipião, nome com o qual me reconforto, e assim nunca me aparta do pensamento a memória daquele herói excelso e invicto.” [6]

A seguir, perguntei-lhe pelos assuntos de seu reino, e ele, pelas coisas de nossa República. Então, passamos um bom tempo trocando um monte de palavras, de um lado e de outro.

X.10. No dia seguinte, fui recebido com a suntuosidade própria de um rei, quando alargamos a nossa conversa até o início da noite. [7] O ancião-rei não falava de outra coisa a não ser do Africano, quando recordou todas as suas gestas e até suas palavras. [8]

Após interromper a reunião para ir dormir, um sono mais pesado que o de costume me amparou, cansado que estava da viagem, e por ter ficado desperto durante uma boa parte da noite. [9]

Foi quando me apresentou, creio, talvez, pelo que conversamos – pois geralmente costuma ocorrer que nossos pensamentos e nossas conversas gerem, nos sonhos, algo semelhante ao que Ênio escreveu a propósito de Homero que, sem dúvida, durante o dia, costumava pensar e falar muito freqüentemente – o Africano, com aquela mesma fisionomia que me era bem conhecida mais por sua máscara [de cera] que por tê-lo visto pessoalmente. [10]

Logo que o reconheci, estremeci, mas ele me disse: “Recobra o ânimo e não temas, Cipião, e entregue minhas palavras à vossa memória!”

XI.2.11. “Vós vedes aquela cidade que, coagida por mim a submeter-se ao povo de Roma, renovou as prístinas guerras e não pôde permanecer tranqüila?” Ele assinalava Cartago, a partir de um lugar excelso, cheio de estrelas e totalmente iluminado e sonoro. [11]

“Agora, vós viestes atacá-la quase como um soldado; passados dois anos, a destruirás como cônsul [12], e obterás este cognome [13] forjado por ti mesmo e que até agora tens por herança minha. Mas quando tiverdes destruído Cartago, terás celebrado o triunfo [14], e terás sido censor, e, depois de ir como legado ao Egito, à Síria, à Ásia e Grécia, vós sereis eleito cônsul pela segunda vez, em vossa ausência, e levarás a cabo a maior guerra de todas [15]: devastarás a Numância. Agora, depois que tiverdes sido conduzido até o Capitólio com o carro triunfal [16], encontrarás uma República perturbada pelas maquinações de meu neto.” [17]

XII.12. “Então, Africano, faltará oferecer à pátria o lume de vossa mente [18], do teu talento e do teu engenho. Contudo, a partir desse momento eu vejo um duplo caminho marcado pelos fatos. Quando vossa vida tiver completado oito vezes sete translações do Sol e seus retornos [19], e quando esses dois números – cada um considerado perfeito, por diferentes razões [20] – seguindo o seu curso natural, tiverem completado a totalidade dos anos que os fatos te marcaram, a cidade inteira se dirigirá somente a vós ao vosso renome: o Senado, a gente de bem, os aliados e os povos latinos terão os olhos fitados em vós; sereis o único no qual repousará a salvação da nação e, para abreviar, tereis que colocar a República em ordem com os poderes de ditador, se é que podereis escapar das mãos ímpias dos teus parentes.” [21]

Aqui, como Lélio se lamentasse [22] e os outros sensivelmente se condoessem, Cipião, com um sorriso indulgente, lhes disse: “Silêncio, por favor, não me despertem do meu sonho, e escutem, um pouco mais, o que se segue!”

XIII.3.13. “Muito bem, Africano, como estivestes mais impulsionado em defender a República, tenha sempre em mente que todos aqueles que conservam, ajudam e engrandecem a pátria, têm um lugar determinado marcado no céu, onde fruem, felizes, uma vida sempiterna. De fato, não há nada mais satisfatório que aconteça na Terra àquele príncipe-deus [23], que rege todo o universo, que os concílios [24] e as associações humanas que se constituem em virtude de um acordo legal, e que são chamadas de ‘cidades’: seus reitores [25] e salvadores retornam ao lugar de onde vieram.” [26]

XIV.14. Então eu, por mais que estivesse atemorizado – não tanto pelo pavor de morrer, mas pelas insídias dos meus – perguntei-lhe, malgrado tudo, se ele ainda tinha vida, e também Paulo, meu pai, e outros, que nós pensávamos terem se extinguido.

Ele respondeu: “Pelo contrário, estes são os que vivem realmente, os que saíram dos cárceres dos corpos como de uma prisão. [27] Por outro lado, vossa vida, como denominam, é a morte! Vós não vedes Paulo, teu pai, que vem a vós?”

Quando ele veio, irrompi em uma torrente de lágrimas, mas ele me abraçou e não me deixou chorar mais, dando-me beijos.

XV.15. E eu, tão rápido quando pude, refreei o pranto e comecei a falar: “Te pergunto, pai santíssimo e o melhor de todos, como a vida é essa a daqui, como ouvi dizer o Africano, porque eu continuo na Terra? Por que não venho para cá, ao seu lado?”

Ele respondeu: “Isso não é assim, porque até que aquele deus, de quem é esse templo inteiro que vês, não tenha te libertado da custódia corporal, o acesso até aqui não está aberto.” [28]

“Os homens foram gerados sob essa lei para guardarem esse globo chamado Terra, que vós vedes, colocado no centro desse templo, e lhes foi dada uma alma, que provêm dessas fogueiras sempiternas que vós denominais constelações e planetas, que, redondos, esféricos e animados de espíritos divinos [29], descrevem suas órbitas circulares a uma velocidade maravilhosa. Por isso, não somente vós, Públio, mas também todos os homens piedosos [30], devem reter a alma dentro da custódia do corpo [31], e sem a permissão daquele que vos deu, não podem migrar da vida humana e se esquivarem da tarefa própria dos humanos determinada pelo deus.”

XVI.16. “Vós, Cipião, não obstante, sirva à justiça e à piedade, assim como o teu avô [32] aqui presente e eu que te engendrei, pois se essa piedade é importante quando acontece entre os pais e os familiares, ela o é muito mais em relação à pátria. Uma vida assim é o caminho que conduz ao céu e para dentro dessa assembléia dos homens que já viveram a vida e que, livres dos laços do corpo, habitam esse lugar que vós vedes – esse lugar era um círculo brilhante com um luminosíssimo resplendor, inimigo dos fogos estelares – que vós, tal como recebido dos gregos, denominamos Orbe Láctea.” [33]

“Ao contemplar o universo a partir desse lugar, todos os outros corpos celestes pareciam extraordinários e de uma beleza maravilhosa. [34] Ali, por outro lado, havia algumas estrelas de tal natureza que nós nunca a víamos; as magnitudes de todas elas eram tão grandes que nós nunca poderíamos imaginar, e a menor delas era aquela que, sendo a mais distante do céu, brilhava mais próxima à Terra [35], com uma luz emprestada.” [36]

“As esferas das estrelas superavam facilmente a magnitude da Terra. Ademais, a Terra parecia tão pequena que me envergonharia de nosso Império, que é apenas um ponto dela.” [37]

XVII.4.17. Como eu olhava a Terra muito atentamente, disse o Africano: “Por favor, até quando vossa mente estará cravada na terra? [38] Vós não vedes para qual templo viestes? [39] O universo inteiro está estruturado em nove círculos, ou melhor, esferas, a primeira das quais é a celestial, externa, que abraça todas as demais esferas. [40] Ela é o próprio deus supremo, que contém e mantêm todas as outras unidas. [41] Nela estão fixados os cursos das constelações que giram eternamente.”

“Sob essa esfera há mais sete que giram mais lentamente, com um movimento contrário ao da celestial. [42] Uma dessas esferas é ocupada por aquela estrela que na Terra é denominada Saturno. Depois, vem aquele fulgor propício e saudável ao gênero humano que se chama Júpiter. A seguir, aquela luz avermelhada e horrível para a Terra chamada Marte. Abaixo, o Sol ocupa a região quase ao centro, guia, príncipe e moderador das outras luzes, mente e princípio estruturador do mundo, tão imensamente grande que, com sua luminosidade, ilumina e penetra todo o universo. [43] Seguem-no, como satélites, a órbita de Vênus e a órbita de Mercúrio e, pela órbita inferior, a Lua é trasladada e inflamada pelos raios do Sol. Sob ela só há o que é mortal e caduco, exceto as almas dadas ao gênero humano como presente dos deuses. Acima da Lua, tudo é eterno. Por outro lado, aquela esfera que está no belo meio [44] e em nona posição, a Terra, não se move, e está situada na parte mais baixa, e todas as massas são arrastadas para ela por sua própria força de atração.”

XVIII.5.18. Eu contemplava estupefato aquelas maravilhas e, um pouco recuperado, disse: “Que som é esse, tão potente e ao mesmo tempo tão doce, que preenche meu ouvido?”

Ele respondeu: “Este som é aquele que, composto por intervalos desiguais, mas diferenciados, conforme uma proporção determinada por uma razão [45], nasce de um impulso e do movimento das próprias esferas, e ele, equilibrando os tons agudos com os graves [46], produz acordes uniformemente harmônicos. De fato, movimentos tão grandes não podem ser impulsionados com o silêncio, e a natureza faz com que um extremo de um lado soe grave, e do outro lado, agudo. É por isso que a órbita mais elevada do céu, a estelífera, rotação que é mais veloz, se move com um som mais agudo e penetrante, mas essa órbita que é a da Lua e que é a mais baixa, com um som mais grave. A Terra, por sua vez, que é a nona órbita, permanece imóvel e se mantém para sempre em seu único lugar, ocupando o espaço central do universo.” [47]

“Esses oito círculos, dois dos quais têm o mesmo impulso [48], produzem sete tons por seus intervalos desiguais, número que é o laço do universo. [49] Os homens doutos, que imitam esses sons com as cordas da lira e com seus cantos, são colocados ao redor desse lugar [50], assim como aqueles outros de inteligência superior que, em suas vidas humanas, cultivaram a ciência das coisas divinas.”

19. O ouvido dos homens, inundado por esse som, tornou-se insensível, e não há em vós outro sentido mais embotado. Como ali onde o Nilo se precipita de montanhas altíssimas naquelas célebres Catadupas [51], como são chamadas, as gentes que habitam perto daquele lugar não têm consciência de sentir o som, por causa da intensidade do ruído. Bem, o ruído daqui do alto é tão grande, por causa da velocíssima rotação do universo inteiro, que o ouvido humano não pode acolhê-lo, da mesma maneira que não pode olhar o Sol de frente, e a vossa agudeza visual e o sentido são vencidos por seus raios. [52]

XIX.6.20. Apesar de estar maravilhado diante de tudo isso, algumas vezes eu dirigia meus olhos para a Terra. Então disse o Africano: “Dou-me conta que vós ainda contemplais a mansão e morada dos humanos. Contudo, se a Terra te parece pequena, como é, dirija sempre os olhos para essas regiões celestes, e desdenha as coisas humanas. [53] Pois qual celebridade vós podeis conseguir do que digam os humanos, ou qual glória mereça ser desejada? [54] Vós vedes que os humanos habitam a Terra em lugares escassos e em franjas estreitas; nos próprios lugares onde habitam, existem vastas solidões esparsas no meio, e os que habitam a Terra estão tão distanciados entre si que não é possível propagar nada de um lado ao outro, pois uma parte está no hemisfério ocidental, outra no oriental, e a outra em vossas antípodas. Desses, certamente não podemos esperar qualquer glória.”

XX.21. “Esta Terra está como que cingida e envolta por zonas [55]: duas delas, totalmente opostas entre si, e descansando por um e por outro lado nos próprios pólos do céu, estão endurecidas pela neve, e aquela zona do meio, mais ampla, está queimada pelo ardor do Sol. Duas delas são habitadas: a austral, na qual seus habitantes imprimem suas pegadas opostas a vós, e não têm nada a ver com o vosso povo; a outra, exposta no Aquiloni que vós habitais, observa a tão pequena extensão que vos pertence, pois toda a terra que vós ocupais estreita em direção aos pólos, mas ampla nas laterais, é como uma pequena ilha voltada para aquele mar que vós, na Terra, denominais Atlântico, Grande Oceano, mas que vós vedes como é pequeno, a despeito de um nome tão grande.” [56]

22. “Dessas terras habitadas e conhecidas, o vosso nome ou o de algum de vós conseguiu transpor este Caucas que estais vendo ou atravessar as águas daquele Ganges? No extremo oriente, ou nos confins do Sol nascente, ou nos limites do Sol poente, ou ainda do Aquiloni austral, quem ouvirá o vosso nome? [57] Amputadas essas partes, vós vedes em quais angustiantes espaços vossa glória deseja dilatar-se. Contudo, até os que falam de vós, por quanto tempo falarão?”

XXI.7.23. “Ademais, por mais que a distante descendência dos homens que hão de vir deseje transmitir, sucessivamente, à sua posteridade, os louvores de cada um de nós, escutados de seus pais, isso, não obstante, por causa das inundações e incêndios de territórios [58], que inevitavelmente se produzem em determinados períodos, não podem alcançar uma glória eterna, somente uma duradoura. Assim, qual importância tem que aqueles que nasceram depois falem de vós, quando não existirá ninguém que tenha sido por aqueles que nasceram antes de vós?”

XXII.24. “Aqueles não foram menos numerosos, e certamente foram homens mais virtuosos, sobretudo quando nenhum de nós pode conseguir uma memória que tenha uma duração de um só ano entre os mesmos que podem ouvir falar da nossa glória. [59] Os homens calculam corretamente a duração do ano somente por uma volta do Sol, isto é, de um só planeta, mas, na realidade, deveriam denominar um ano somente quando todos os planetas tivessem retornado ao mesmo ponto de onde uma vez saíram e tivessem feito retornar a configuração primeira do universo inteiro, depois de passar um largo período. Atrevo-me a dizer que, para isso, serão necessárias a contagem de muitíssimas gerações humanas.” [60]

“Como então pareceu aos olhos das gentes que o Sol se eclipsava e se extinguia quando a alma de Rômulo entrou nesses mesmos templos, sempre que o Sol novamente se eclipsar no mesmo ponto do céu e no mesmo momento, considereis que todas as constelações e planetas terão retornado à mesma posição de partida, e assim terá completado um ano. Saibas que, deste ano astronômico, ainda não transcorreu a vigésima parte.”

XXIII.25. “Por isso, no caso de que vós tenhais perdido a esperança de retornar a este lugar no qual esses grandes e extraordinários homens colocaram toda a sua aspiração [61], pense: de que vale realmente a citada glória humana que apenas pode se propagar a uma parte minúscula de um só ano?”

“Portanto, se desejais dirigir vosso olhar para cima [62] e contemplar este lugar de permanência eterna, desdenha o que diz o povo, e não coloque a esperança de vossas ações nas recompensas humanas: o que importa é que só a virtude, por seus próprios atrativos, vos conduza à verdadeira honra.”

“Do que os outros possam falar de vós, que eles próprios se ocupem, e eles falarão! Mas veja, toda aquela tagarelice não chegará além desses poços das regiões que estais vendo, e não será perenizada por mais ninguém, pois ficará soterrada com a morte dos indivíduos que a fizeram, e se extinguirá no esquecimento da posteridade.”

XXIV.8.26. Depois de falar assim, ele ainda disse: “Realmente, Africano, se aos beneméritos da pátria está aberta o que denominaríamos de senda que conduz à entrada do céu, eu, por mais que tenha seguido as pegadas do meu pai e as tuas desde a infância, e não faltei à vossa glória, agora, não obstante, à vista do acesso a uma recompensa tão superior, esforçar-me-ei com muito mais diligência.”

E ele respondeu-me: “Sim, esforçai-vos e relembrai isso: que o que é mortal não sois vós, mas vosso corpo e, certamente, vós não sois aquele que essa atual aparência manifesta, mas a alma de cada um é aquele cada um, não essa figura que se pode mostrar com o dedo.”

“Saibas, portanto, que sois um deus [63], se realmente é deus aquele que é cheio de vigor, que sente, que relembra, que prevê, que rege, modera e move o corpo que preside como aquele príncipe-deus em relação ao universo, e assim como o citado deus eterno move o universo, que em parte é mortal, a alma sempiterna move um corpo efêmero.” [64]

XXV.27. [65] “Portanto, aquilo que sempre se move é eterno, mas aquilo que transmite a outro o movimento e ele próprio é movido do exterior, quando seu movimento chegar ao fim, terá de ser, pela lei da necessidade, o fim da sua existência. [66] Somente existe aquilo que move a si mesmo, pois nunca é abandonado, nem deixa de mover-se. E mais: isso é a fonte, isso é a causa primeira do movimento dos outros seres que se movem.”

“A causa primeira não tem origem, já que da causa primeira nasce a totalidade da natureza [67], e ela, não obstante, não pode nascer de outra coisa, pois não seria a causa primeira, já que se originaria de uma coisa exterior. E se não nasce nunca, tampouco morre. Por outro lado, uma causa primeira extinta não poderá fazer renascer outra coisa, nem criará qualquer outra coisa de si mesma, pois, pela lei da necessidade, todas as coisas se originam a partir de uma causa primeira.”

“Assim, a causa primeira do movimento provém daquilo que se move por si. E este não pode nascer, nem morrer sem que a lei da necessidade fizesse a volta celeste ruir inteiramente, além de toda a natureza, que se paralisaria e não obteria nenhuma outra força pela qual se movesse e fosse impulsionada a partir de seu impulso inicial.”

XXVI.9.28. “Portanto, como é evidente que o que se move por si é eterno, quem não pode assegurar que esta faculdade não tenha sido atribuída às almas? Pois tudo aquilo que se move por um impulso exterior é inanimado, mas aquilo que é dotado de alma, se move por um movimento interior e que lhe é próprio. Esta é a natureza própria da alma, e também sua essência: se a alma é única coisa que se move por si, é verdade que não nasceu e que é eterna.”

29. “Assim, exercita esta alma nas atividades mais elevadas! As melhores são os trabalhos para a saúde da pátria; a alma, estimulada e exercitada por eles, mais rapidamente alçará vôo a esta casa, que também é a sua casa, e o será mais rapidamente se, quando ainda estiver trancada no corpo, se projetar na luz pública e, contemplando as coisas externas, se desembaraçar o máximo possível do corpo.”

“As almas daqueles que se entregarem às voluptuosidades corporais e se tornarem escravas delas e, também impedidas pelas paixões escravas das voluptuosidades, violarem as leis divinas e humanas, vagarão ao redor da mesma Terra, uma vez saídas dos corpos, e não retornarão para este lugar [68], a não ser depois de vagarem muitos séculos.” [69]

O Africano partiu, e eu despertei do sono. [70]

*

Notas

[1] Tradução de Ricardo da Costa (Ufes), a partir da edição MARC TUL.LI CICERÓ, L’art de governar [DE RE PVBLICA], edició a cura de Pere Villalba Varneda (latim-catalão), Barcelona, Prohom Edicions, 2006, p. 522-575. Aproveitamos as excelentes notas explicativas do querido mestre, o Prof. Villalba Varneda, embora as tenhamos diminuído sensivelmente, o que me obriga a lhe pedir perdão por apresentar sua inacreditável erudição mutilada aos leitores de língua portuguesa.

[2] Isto é, no ano 149 a.C., vinte anos antes da suposta data deste diálogo – e primeiro ano da Terceira Guerra Púnica. Cipião Emiliano, com trinta e cinco anos, havia estado com Massinissa no inverno de 151-150 a.C., para obter elefantes para a guerra contra os celtiberos.

[3] Rei da Numídia (norte da África), nascido em 240 a.C., e morto em 148 a.C.

[4] Cipião Africano, o Velho, um dos protagonistas do sonho a seguir, fez um neto seu de nome Massiva ficar com Massinissa, pois ele lutou ao lado dos cartagineses contra os romanos nas Guerras Púnicas na Hispânia.

[5] Invocação ritual: o Sol era para os númidas o deus mais excelso, objeto de culto (heliolatria, com sacrifícios – Heródoto IV, 188).

[6] Massinissa se recorda de Públio Cornélio Cipião, o Africano Maior, com o qual colaborou em diversas ações militares.

[7] Passagem que mostra a advertência do autor contra a ostentação e o luxo inerente ao sistema monárquico.

[8] Trata-se de Públio Cornélio Cipião, o Africano Maior, avô de Cipião e morto dois anos depois de seu nascimento.

[9] Um sono profundo pressagiava alguma profecia. Veja, por exemplo, Homero, Odisséia, IV, 839-842 (o sonho de Penélope).

[10] A fisionomia das máscaras modeladas sobre o rosto do defunto são as imagens de cera dos antepassados que as famílias nobres romanas costumavam expor em vitrines no átrio da casa.

[11] A visão do universo de Cipião é geométrica. O protagonista se encontra em um ponto não-localizado dentro de uma geometria não precisamente euclidiana, lugar de onde é possível contemplar o todo, em seu conjunto e em seu detalhe: é o estágio próprio do contemplativo da região imaterial, traspassado a região da divindade e das almas.

[12] Inexatidão do autor: Cipião foi cônsul em 147 contra as disposições da lex Villia (181 a.C.), com a idade de 38 anos, para dirigir as hostilidades contra Cartago, mas não a destruiu a não ser em 146 a.C., como procônsul.

[13] Isto é, o de Africano, o Jovem, pois era filho de Emílio Paulo e tinha sido adotado pelo filho do primeiro Públio Cornélio Cipião, o Africano Maior, que agora conversa com ele em sonho, de maneira que era neto segundo a lei, e dele havia recebido o nome por herança.

[14] Em 146 a.C. Cipião foi censor e eleito cônsul por unanimidade pela segunda vez no ano 134 a.C. para dirigir a conquista da Numância (133 a.C.), no mesmo ano da revolução social de seu primo e cunhado Tibério Semprônio Graco.

[15] Maior porque, de acordo com a geografia de então, foi a mais longa e a resistência dos defensores numantinos mais forte.

[16] Metonímia, pois o general vencedor percorria as ruas de Roma em um carro triunfal saindo do Capitólio, para o qual regressava.

[17] Isto é, Tibério Semprônio Graco, filho de Cornélia (por sua vez, filha de Cipião, o Africano Maior – ou, o Velho) e irmão de Semprônia (mulher de Cipião Emiliano, o Africano Numâncio).

[18] Metáfora que anuncia a descrição posterior do Sol como regente do universo e o perfil do bom político. Três palavras dessa passagem – alma, engenho e concílio – constituem os três lados de uma pirâmide isósceles, irremovível: alma (palavra masculina – animus), qualidade expansiva de Cipião, alude às coordenadas de sua alma com sua inteligência; engenho (palavra neutra – ingenium), aponta suas qualidades congênitas, e representa as coordenadas de sua natureza com sua capacidade discursiva; concílio (palavra neutra – consilium), ação sobre a base da previsão, representa as coordenadas de sua faculdade de decisão com seu autodomínio. Essas três palavras dizem respeito à divisão tripartida da alma de acordo com Platão (alma – parte racional, princípio vital; engenho – parte irracional, princípio gerador; concílio – parte concupiscível, princípio ativo; correspondem também às três potências da alma e aos correlativos ativo-causativo-receptivo), e recordam as virtudes cardeais (prudência, fortaleza, temperança) com a justiça como base do triângulo (a virtude das virtudes). Por sua vez, a vida concebida como um caminho tem origem no misticismo oriental (ou bíblico); Pitágoras a representava como um Y grega (direção ao bem e ao mal) e o cristianismo incorporou a idéia. O caminho destinado a Cipião o leva a uma vida de risco, sem possibilidade de escolha.

[19] Isto é, cinqüenta e seis anos, resultado de um número par (oito), denominado mãe das coisas, e a justiça, por sua divisão em partes iguais. O sete (denominado pai nas coisas), capaz de produzir a alma do mundo, a coisa mais perfeita depois de seu criador, número que corresponde aos sete planetas, à divisão dos meses em quatro partes. Sólon havia escrito uma elegia sobre as etapas da vida humana, distribuídas em período de sete anos, especificando os valores e defeitos de cada etapa hebdomadária. Este ciclo biológico setenário também se encontra nos médicos gregos (Hipócrates, De Hebdomadis, 5L), e os pitagóricos o transferiram da esfera física para o plano místico por influência dos egípcios (Diodoro de Cicília, Bibl., 1, 98, 2). Assim se compreende porque o Africano fala de sete translações, sete períodos vitais.

[20] Nos números 7 e 8 há uma forte concepção pitagórica, defendida em Roma por Nigílio Fígul, amigo de Cícero: o número 7 é perfeito, imóvel e venerável, porque é a soma do ímpar 3 (que contém o princípio, o meio e o fim e representa o espírito, tem um lado feminino e é a primeira superfície geométrica ímpar, o triângulo) e do par 4 (que representa a matéria ou os quatro elementos constitutivos do mundo, recordam as quatro virtudes cardeais, fundamento da ordem individual, social e cósmica, e tem um aspecto masculino; figura geométrica – o quadrado – que delimita o cubo no espaço): 1+6; 2+5; 3+4. O número 8 também é perfeito porque é o primeiro número cúbico (2x2x2 = 8; 8:2 = 4; 4:2 = 2; 2:2 = 1) tudo delimitando com oito pontos o cubo no espaço, e é o símbolo da justiça para os pitagóricos.

[21] Cipião se opôs às reformas agrárias de seus cunhados (os Gracos) a favor dos romanos com os aliados itálicos, mas sobretudo os povos latinos, que possuíam uma grande parte do campo público, mas eram excluídos das novas distribuições. Dias depois da suposta data desse diálogo, após ter exposto ao Senado a sua atuação e as condições dos latinos e de ter conseguido diferir a aplicação de lei dos reformistas, Cipião foi encontrado morto em seu leito (129 a.C.), sem que se pudesse saber se foi assassinado ou morreu de morte natural.

[22] Lélio, grande amigo de Cipião Emiliano, manifesta sua dor, sentado ao seu lado. O restante protesta mais contidamente. Não obstante, Cipião, impõe sua serenidade estóica diante da morte, dirigindo-se com humor a todo o grupo.

[23] Trata-se do demiurgo de Platão (Timeu, 32 a-c), “aquele que ocupa o primeiro lugar”. Cícero professa sua crença monoteísta em uma divindade primordial e única, à margem da crença politeísta expressa pelos mitos: é o deus único e metafísico que fala Platão (Timeu, 41a) que se identifica com a alma do mundo, ou com aquela sociedade cósmica de acordo com a doutrina panteísta dos estóicos. Assim como existe um príncipe-deus do universo, o governante terá de ser como esse deus entre os homens: paralelismo entre o macro e o microcosmos.

[24] A palavra concílio alude ao fato inato do homem de viver em sociedade.

[25] Metáfora hípica, porque têm de fazer o caminho de retorno, não sem antes ter feito obras práticas que os farão merecer o prêmio reservado aos justos.

[26] Portanto, os políticos e os homens públicos recebem o poder do alto, da divindade e, por isso, o poder está acompanhado de uma incumbência superior ou, dito de outra maneira, para Cícero, o poder em si mesmo é bom, pois os homens o recebem de deus: é uma teoria de forte raiz estóica. A passagem diz que somente os bons políticos terão o retorno ao umbral celeste, prêmio para a sua justiça. Por fim, a doutrina segundo a qual a substância da alma é ígnea, e assim pode retornar ao astro que lhe é congênere, está exposta por Platão no Timeu (39b e ss.; 90a e ss.), e os pitagóricos a identificam com a mente divina universal, o que é ratificado pelos estóicos.

[27] Cícero se apropria das idéias dos pitagóricos; a consideração da vida terrena como morte tem uma larga tradição filosófica e órfica.

[28] Passagem que nega a licitude do suicídio, mesmo que seja para chegar à vida verdadeira, porque o homem pertence ao deus, segundo a doutrina órfica e pitagórica. Os epicuristas e estóicos não entendiam assim, pois admitiam o suicídio em certos casos. Assim se entenderá melhor o uso da palavra templo, isto é, o universo, casa sagrada da divindade e das almas, espaço sagrado do qual participam as pequenas parcelas dedicadas à realização das ações sagradas na Terra (os templos religiosos, as cidades – estruturadas de acordo com a projeção geométrica sobre a Terra do triângulo marcado no ar com o bastão inaugural (origem etrusca ou proto-itálica). Portanto, a vida dos humanos na terra deve ser uma prefiguração da vida eterna futura.

[29] Os mundos estelíferos estão dotados de uma alma como a dos homens e que são habitados por almas que ali chegaram e se uniram à divindade, isto é, tornaram-se definitivamente eternas e, portanto, os astros são seres vivos (Platão, Timeu, 40) e emanam da alma do universo, de substância ígnea (Cícero, Tusc., I, 42).

[30] Os homens piedosos eram os homens que haviam completado o programa ético da pietas, que prescrevia uma observância acurada dos deveres para com os outros, isto é, para com deus (através de atos de piedade religiosa), com os homens (os pais, a família e a sociedade mais próxima) e a pátria (o cumprimento exemplar das leis e dos deveres para com a sociedade civil): tudo isso é sumamente esperado do homem político.

[31] Entendida no sentido pitagórico. O suicídio não é admitido por Cícero, pois significa a não aceitação da responsabilidade que o homem tem de conservar e melhorar a vida que recebeu da divindade, e seria concebido como um gesto ofensivo à capacidade reflexiva do homem e, portanto, um desvencilhar-se das obrigações determinadas por deus para com a dimensão social da própria existência. Por fim, é um ato de injustiça.

[32] Isto é, Cipião Africano, o Velho, seu avô adotivo.

[33] É a Via Láctea, concebida como um círculo (refração dos raios solares com as estrelas dotadas de luz própria – flammas – de onde lhe vem o nome: Aristóteles, Meteor., 1, 339b, 21 e ss., De caelo, 1, 4, 6) e casa das almas imortais, segundo Pitágoras (Platão, Fedro, 247b; Proclo, De antro nymph., 28); também era a casa dos heróis e gênios benfeitores (Manílio, Astr., 1, 760 e ss.). De qualquer maneira, a noção que os políticos teriam um lugar especial na Via Láctea é de Cícero, e o sonho como sonho poético também é dele. Aqui termina o diálogo com Lúcio Emílio Paulus – pai biológico de Cipião.

[34] Cipião se encontra em um lugar maravilhoso, de onde se contempla o todo (a partir de uma concepção filosófica). Esta contemplação por parte de Cipião não é somente física, mas também religiosa, pois o ato de contemplar pertence à linguagem dos augúrios que, relacionada com o templo, fundamenta o caráter espiritual ou divino do mundo estelar.

[35] No original “Terras”, um plural poético pois concebe a Terra como um conjunto de territórios.

[36] Deve-se entender o céu como a volta celeste e a esfera primeira, mais externa. Assim se compreende melhor que Cícero diga que a Lua é a mais distante (ou última) a partir da esfera primeira.

[37] O termo “ponto” alude ao Fédon de Platão (110b), que se refere à Terra vista do céu, onde o homem ocupa uma mínima parte. O autor antecipa aqui a idéia da caducidade da glória humana que tratará adiante.

[38] Aqui inicia uma digressão sobre a grandeza do universo a partir da obsessão de Cipião de fixar seu olhar na Terra. Cícero aqui utiliza o termo húmus, para estabelecer uma diferença com Terra, que aparece em outros locais: o escritor não está se referindo à Terra como planeta, mas ao solo, à terra, ao terreno, em contraposição com caelum (“esfera primeira”), algo permanente e inalterável, certamente para introduzir seus leitores no jogo do mistério.

[39] Cipião contempla a esfericidade do universo de fora da própria esfericidade, e assim pode formar uma idéia de sua estrutura geométrica interna. A palavra “templo” não deixa de evocar o caráter sagrado e auspicioso do cosmo, por estar habitado por deus e assim, ser, em parte, eterno.

[40] As esferas móveis são oito, além da Terra. Caelestis tem significados ambíguos: “estágio dos astros”, mas também “estágio de deus”.

[41] Concepção divina da esfera celeste (doutrina estóica), que abraça as outras esferas e é o céu das estrelas fixas, identificado com o éter (Cícero, De nat. deor., 2, 101). Por sua vez, o éter é identificado com deus, conforme o panteísmo estóico (ibidem, 1, 36; Acad. pr., 2, 126). Para Ptolomeu ainda existia outra esfera mais externa, o Cristalino.

[42] Os planetas – Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua – segundo a ordem caldéia; a ordem egípcia colocava o Sol depois de Mercúrio (seguido por Pitágoras, Filolau, Eudóxio, Platão). Marte era concebido como algo funesto e era relacionado com o fogo destruidor, tradição que Cícero abraça. O Sol é o centro do universo planetário, entre o Céu e a Terra, porque as distâncias entre as esferas não eram iguais. Vênus e Mercúrio são satélites do príncipe Sol, não da Terra. A Lua é a parte mais baixa do céu; sob a Lua, nada se move. Há, portanto, a mortalidade, exceto as almas que têm movimento eterno.

[43] O Sol é concebido com virtudes humanas (prudência, justiça, fortaleza, temperança). O Sol era considerado deus pelos pitagóricos e estóicos, e na doutrina órfica/pitagórica, era o pai dos deuses e do cosmos.

[44] Isto é, no centro e no fundo de todo o sistema das esferas, pois no centro está o fundo interno da esfera celeste (na concepção geocêntrica); aí os corpos tendem conforme sua densidade: o éter, para cima, o ar, próximo da Terra, etc. O limite marcado pela Lua que separa as coisas mortais das imortais é de concepção pitagórica.

[45] Isto é, de acordo com uma proporção conseguida por uma relação pensada e que corresponde a um acordo. As distâncias entre as esferas são desiguais e racionais, compostas de semitons, tons e meio: uma quarta parte da Lua ao Sol, uma quinta do Sol ao céu das constelações, uma oitava pela totalidade dos sons.

[46] A teoria dos intervalos é pitagórica, e se baseia nas matemáticas, na física e na geometria que, juntamente com a música, constituíram o quadrivium educativo desde a antiga formação clássica até os nossos dias, passando, naturalmente, pelo mundo medieval. Tanto Platão (Polit. X, 617b) quanto Aristóteles (De caelo, 2, 9, 290b) aceitam a teoria da harmonia celeste.

[47] Portanto, a Terra não produz qualquer tom, embora ocupe uma posição privilegiada central e extrema. Na concepção geocêntrica do universo, o deus de natureza ígnea (Vitrúvio, IX, 1, 12; Cícero, De nat. deor., II, 39-40, 42-44) eram os planetas Saturno, Júpiter, Marte, Mercúrio e Vênus, além do Sol, entre os quais o deus Júpiter estabeleceria um equilíbrio com intervalos apropriados dentro das órbitas concêntricas.

[48] A teoria que Vênus e Mercúrio vão em uníssono é falsa, pois não têm nem a mesma órbita, nem a mesma velocidade, e entre eles há um semitom.

[49] Consideração mística do número 7, de raiz pitagórica, formada pelos números mais elementais e plenos de virtudes.

[50] Isto é, a Via Láctea, onde se reunirão finalmente todos os grandes homens citados aqui – tanto artistas e filósofos como políticos. O músico Terpandro de Lesbos (s. VII a.C.) foi o primeiro a utilizar uma lira de sete cordas (antes a lira só tinha quatro), para recitar os textos homéricos e seus próprios. O instrumento vocal do homem é igualmente uma semelhança do instrumento musical cósmico. Ao dizer diuina studia Cícero pensa nos estudos metafísicos.

[51] Isto é, as primeiras cascatas do Nilo, entre as ilhas Elefantina e Filé (Heródoto, II, 17). Sêneca (Nat. quaest., IV, 2) e Plínio (Nat. Hist., VI, 181) falam da surdez de seus habitantes por causa do ruído da queda d’água.

[52] A frase toda tem um caráter militar: olhar diretamente o Sol é um desafio, embora a priori frustrado, feito contra as forças da natureza.

[53] O Africano aconselha o ideal de vida contemplativa, formulado anteriormente por Anaxágoras de Clazômenas (c. 500-428 a.C.), segundo o qual o homem nasceu para a contemplação do Sol, da Lua e do céu, não para os afazeres políticos – teoria não compartilhada por Cícero. Platão foi o primeiro a transfigurar a vida do homem contemplativo em uma compreensiva dedicação à vida prática e política, de maneira que esse homem, com o menosprezo pelas coisas terrenas, se torne um místico que busca a felicidade dos concidadãos a partir da contemplação do Bem, fazendo-o partícipe da justiça divina.

[54] O menosprezo pela glória humana é algo muito vivo em Cícero (Tusc., 1, 109 e ss.).

[55] Cícero descreve duas zonas glaciais, extremas, e uma terceira, central, subdividida em subtropical e setentrional, dentro dos paralelos em que a Europa se estende, seguindo assim as teorias pitagóricas (Cícero, Tusc., 1, 68 e ss.).

[56] Isto é, o Oceano Atlântico, reverenciado por Erastóstenes de Cirene, por Aristóteles (De mundo, 393a) e Aviano (Ora maritima, 402-406). Denominado mar Atlântico em homenagem ao gigante Atlas, que residia no país das Hespérides, a ilha Atlântica, desaparecida por um cataclismo segundo Platão (Timeu, 21 e ss.; Crit., 108e e ss.). O Oceano, entendido como um grande rio que envolvia a Terra, foi concebido a partir do século VII a.C. como um mar, o mar Atlântico (Estesícor, fr. 6).

[57] Isto é, ninguém ouvirá falar de ti em qualquer dos pontos cardeais.

[58] O fogo era, para os estóicos e neoplatônicos, destruidor e criador de todas as coisas. Essa passagem é uma alusão a Heráclio de Éfeso (morto em 504/501 a.C.), que defendia que o fogo era a substância criadora do mundo e das coisas. Em períodos concretos, todas as coisas e os elementos retornavam ao fogo primitivo por meio de um incêndio universal, para depois retornar à vida. A partir da doutrina do dilúvio universal (de tradição babilônica e bíblica) alguns filósofos estóicos adotaram os períodos intermediários de transformação dos elementos como medida cronológica, isto é, como ano cósmico, e seu dogma catastrófico justificava sua vida alheia às atividades políticas. Portanto, os homens que viveram em um novo ciclo desconheceram o que ocorreu no ciclo anterior; na melhor das hipóteses, estes cataclismos marcariam o limite da fama humana.

[59] Cícero se refere ao magnus annus do Sol (annus communis), não ao grande ano do retorno do cosmos ao seu ponto de partida.

[60] Trata-se, portanto, do magnus annus, ou recomeço cíclico das revoluções planetárias (Platão, Timeu, 39), a quem os homens atribuíam uma duração de 25.800 anos, 12.954 anos para Cícero (Servi, ad Aen., I, 269), 15.000 anos para Macróbio, que segue Platão (In Som. Scip., II, 11, 15).

[61] De uma perspectiva filosófica, a aspiração se refere a todo o desejo e esperança de alcançar a plena felicidade, a virtude da sabedoria, o conhecimento da realidade tal qual ela é.

[62] Aspirar ao que é mais elevado, ou desejar ter uma visão por cima do que é comum, ou ainda, observar uma conduta mais elevada que o restante dos mortais: a virtude será a chave e a própria convicção dessa aspiração superior.

[63] Hipérbole, pois Cícero concebe Cipião como um ser divino ou superior, ou como uma imagem da divindade por ter sido alçado à ação no governo, e adornado com as três potências da alma e as quatro virtudes cardeais. Portanto, o indivíduo é alma, não corpo: conceito místico de Platão, mas de origem órfico-pitagórica.

[64] Analogia perfeita entre o macrocosmos, com deus regendo o universo, e o microcosmos, com a alma regendo o corpo mortal.

[65] Os parágrafos seguintes são uma adaptação do Fedro de Platão (245e, 246a). Contudo, o fato de existirem algumas variantes nos faz pensar que o tradução poderia vir da mão de Possidônio (escravo de Cícero). Cícero, a partir deste ponto, inicia uma série de silogismos encadeados para demonstrar a existência de uma divindade e a imortalidade da alma a partir do movimento sem início.

[66] Isto é, não cessa.

[67] Omnia, no sentido filosófico, significa “abraça toda a natureza”.

[68] Essa passagem indica a crença na imortalidade das almas em geral, e não somente dos homens públicos, pois todas as almas, sem exceção, têm de sair do mundo das esferas.

[69] Segundo Platão (Fedro, 248e), o castigo durará 10.000 anos, mas 3.000 para os que professaram honestamente a filosofia (Fedro, 248e-249a). Sobre o destino das almas, ver também Platão (Fédon, 81c e ss.) e Virgílio (Aen., VI, 730-747).

[70] A obra termina assim, de forma um tanto abrupta, mas certamente com um objetivo em mente: deixar o leitor perplexo, e fazê-lo retornar à Terra, recurso muito mais pungente do que se Cícero tivesse escrito uma despedida.