As Regras da Saúde a Jaime II (1308)

Arnau de Vilanova (c. 1238-1311)
Trad.: Ricardo da Costa e Matheus Corassa da Silva
Notas: Ricardo da CostaMatheus Corassa da Silva e
Hélio Angotti Neto

Prólogo1

Aqui começam As Regras da Saúde que o honrado mestre Arnau de Vilanova preparou para o mui insigne senhor rei de Aragão2. O mestre Berenguer Sariera, cirurgião, ao trasladá-lo do latim para o romance, acrescentou este Prólogo.3

Como Deus Todo-Poderoso, cheio de misericórdia, criou o homem, que não tem nenhuma possibilidade de fazer algo nem qualquer razão a não ser pelo poder, e o poder não é nada sem a saúde, e a saúde não é nada sem a igualdade de compleição, e a igualdade de compleição não é nada sem o temperamento dos humores, por isso, Nosso Senhor Deus, ao criar o homem, quis amá-lo e inspirá-lo com a graça4 acima de todos os animais, e o fez à Sua semelhança, dando-lhe remédio para ter o temperamento dos humores para a conservação da saúde, assim iluminada pelo desejo dos sábios médicos e, dentre os demais filósofos e mestres da Medicina, o mui sábio mestre Arnau de Vilanova, acima de todos os mestres, pois conhece e ordena de quantas maneiras a saúde é conservada.

Por isso, como a arte da Medicina foi escrita pelos sábios médicos antigos mui extensamente (já que os grandes senhores, que têm grandes negócios, não o povo comum, não podem entendê-la de modo satisfatório), o dito mestre Arnau, em honra do mui excelso senhor Dom Jaime II, rei de Aragão, preparou este livro para dar a doutrina de viver de modo são e para a vinda da velhice natural àqueles que desejem entendê-la e praticá-la.

Estas Regras, tão ordenadamente preparadas, que são proveitosas àqueles que não entendem o latim, foi desejada pela mui elevada senhora Dona Blanca, pela graça de Deus rainha de Aragão, e que ordenou a mim, Berenguer Sariera, cirurgião, que as trasladasse do latim para o romance, e eu, para satisfazer à sua ordem, estou às voltas em verter esse livro. Assim, rogo aos leitores deste que, porventura, encontrarem, no romance ou nas sentenças do livro, algo que lhes pareça digno de reprovação que, antes de desconsiderá-lo, o corrijam com o texto latino, pois há muitos vocábulos e entendimentos nos livros de Medicina que dificilmente podem ser traduzidos para o romance.5

Desejo acrescentar algumas notas marginais como rubricas para que aqueles que lerem este livro encontrem mais rapidamente as propriedades benéficas ou maléficas das coisas aqui nomeadas pelas Regras de Saúde, e também para aqueles que pretendem se ajudar com os livros em romance e não tenham estudado tantos livros. Rapidamente, eles encontrarão a propriedade das Regras supracitadas que o dito mestre Arnau organizou em XVIII capítulos.6

O primeiro trata da escolha do bom ar.

O segundo é sobre o melhor exercício.

O terceiro aborda a lavagem da cabeça e dos pés.

O quarto versa sobre o comer e o beber em geral.7

O quinto é sobre o repouso, o sono e a vigília.

O sexto explica a limpeza das superfluidades e da união carnal.

O sétimo analisa os acidentes da alma que destroem o corpo, assim como a ira e a tristeza; e como a alegria ordenada o recria e o conforta.

O oitavo trata das coisas que nutrem, isto é, dos grãos, como o trigo e seus congêneres dos quais se faz o pão.

O nono narra como devemos utilizar os legumes.

O décimo elenca as frutas usadas pelo homem.

O décimo primeiro, das hortaliças e seus frutos.

O décimo segundo, das raízes que o homem usa.

O décimo terceiro, da diversidade das carnes e como devem ser utilizadas.

O décimo quarto, das coisas comuns recebidas pela umidade dos animais.

O décimo quinto, dos peixes e como devem ser consumidos.

O décimo sexto, dos sabores e dos condimentos.

O décimo sétimo, das regras do beber.

O décimo oitavo, e último, dos remédios e da cura das hemorroidas. Embora estas Regras sejam proveitosas a todo o corpo geralmente são, maiormente o são aos corpos sanguíneos e coléricos e àqueles que estão acostumados a ter hemorroidas. Assim, o dito mestre Arnau colocou no fim dessas Regras um capítulo sobre as hemorroidas. Aqueles que observarem-nas, não devem temer que a dita doença seja agravada.

I. Da escolha do bom ar

Em primeiro lugar, deve-se observar, para a conservação da saúde, a escolha do ar, pois acima de todas as coisas que o corpo animal necessita, isto é, aquelas sem as quais não se pode viver, não há nada tão forte quanto o vento. Ele inspira suas qualidades e propriedades pela boca e pelo nariz, até o coração e as artérias, e as misturam aos espíritos do corpo,8  pelos quais são feitas todas as obras da vida corporal.9

I.1. Por qual razão se deve escolher um bom ar

Quando a sabedoria dos reis, a qual, pela saúde dos reinos, estudou meticulosamente a conservação de sua saúde, tanto quanto pôde, escolhe o ar que lhe é melhor e mais conveniente para habitar nos lugares de seu reino e outros – pois, quando escolhe estar e habitar mais tempo naqueles locais aos quais, de acordo com a diversidade do tempo, é o ar mais puro e mais são – de duas maneiras proveitosas ao bem estar geral atua: 1) na conservação de sua saúde, na qual reside a saúde de todos aqueles que lhe são encomendados, e 2) quando melhor e mais sutilmente provê e dá atenção à multidão que lhe vem diante.10 Pois não somente o ar puro, limpo e são é proveitoso ao corpo, mas o é também às obras da alma, pois todas elas, quaisquer que sejam, ou também ações, pensam e entendem quando julgam mais clara e inteiramente quando o ar é mais são e mais puro.

Desta consideração acima, a sabedoria dos reis é fortemente exaltada, pois cuida da claridade do conhecimento e do engenho natural, e é mais proveitosa aos súditos, não somente para si mesma, mas também para seu Conselho, por meio do qual rege e governa seu reino.

Todos os reis são obrigados, por seu ofício, a bem governar, não apenas por doutrinas e ensinamentos naturais, mas também por experimentos que, diariamente, comprovam que a sujeira e a densidade do ar fazem perder a sutileza e o engenho, destroem as virtudes apreensivas, obscurecem a virtude judicativa e as cogitações, os pensamentos e os desejos oriundos da razão.11

Assim, deve-se escolher para habitar por mais tempo aquela parte do reino na qual a substância do ar é mais pura e em suas qualidades mais temperada conforme a diversidade do tempo.

I.2. Da escolha do ar segundo o tempo

No verão, deve-se almejar um ar puro separado do frio temperado, e o contrário no inverno. Naquele lugar, contudo, um ar é puro nas outras duas estações do ano, isto é, a primavera e o outono, que são moderadas em suas qualidades.

I.3. A quem pode prejudicar o ar puro

Como muitas vezes ocorre que um lugar onde o ar é puro, subitamente, cumula-se de ventos, os que respiram se enchem de sangue, rapidamente são agravados por súbitas mudanças e o vento entra neles, especialmente se estão unidos assim como um canal.

I.4. Como se preservar dos danos do vento

É necessário que nos lugares repletos de ventos, as pessoas saiam cobertas com grossas vestimentas. Aos homens que são de compleição colérica ou sanguínea, é bom e conveniente que vistam linho ou seda, mas com algodão ou gorros de seda tal qual uma cota de malha ou de pano, já que essa veste não aquece nem inflama o sangue, além de proteger do vento as partes do corpo cobertas por ela.

I.5. Da escolha do lugar para descansar e dormir

O lugar especialmente escolhido para descansar e dormir deve ser arejado para permitir uma respiração livre, ao contrário de algumas casas abobadadas, nas quais há poucas janelas e umidade, assim como casas subterrâneas ou sem piso, em que o chão não é pavimentado. Em tais lugares, o ar é muito denso e úmido e agride muito a cabeça e o peito daqueles que ali descansam, especialmente os que ali dormem. Além disso, torna-os, ainda, gordos, preguiçosos e sonolentos, pressiona o coração, endurece o alento, torna grave a respiração e enrouquece a voz ou a torna opaca.

I.6. Como melhorar casas úmidas

Quem pretende descansar em tal lugar durante o inverno, deve amenizar o ar com fogo. É melhor fazê-lo com ramos secos, como os de alecrim, de box12 ou lenha semelhante que não faça fumaça, mas uma chama clara. Durante o verão, todas as janelas devem estar abertas e o chão da casa não deve ser regado. Deve-se descansar naquele cômodo onde o ar pode entrar mais livremente. Mas se a casa é cercada de ramagem verde, deve-se ter cuidado para que não seja aquosa, como juncos grossos ou erva lisa. Pode ser cercada de murta,13 de trepadeiras ou semelhantes. Tal casa pode ser perfumada, no inverno, com aloés,14 incensos, madeira de zimbro15 ou cipreste.16 No verão, pode ser aromatizada com sândalo,17 com folhas de murta secas ou seus ramos ou com rosas secas, com as quais, se possível, o chão da casa deve ser coberto, ou então que sejam feitos sacos cheios delas a serem colocados em torno da cabeceira da cama.18

I.7. Como se aquecer ao fogo

Quando o frio exigir que nos aqueçamos ao fogo, não devemos ficar demasiado próximos, principalmente após comer. Que as chamas não sejam muito intensas e que os espíritos propensos às correntes fluidas e porosas não tenham o rosto voltado para o fogo, pois podem ter sua vista destruída, seu sangue aquecido e adquirirem ronquidão.19 Mas se pode sentar ali moderadamente, virado de costas. Se o fogo estiver diante dos olhos e muito próximo, é melhor colocar alguma coisa à frente por causa da visão.

II. Qual é o melhor exercício

Após nossas considerações sobre o ar, tratemos do exercício. Esse deve ser feito, naturalmente, antes de comer, e por duas razões. A primeira, porque estimula o calor natural propício à digestão do alimento necessário para a comida ser absorvida, de modo que o organismo se encontre agitado e exercitado, não adormecido. A segunda é que o exercício destrói as superfluidades do corpo e as prepara para expulsá-las pois, se permanecessem, impediriam a natureza de completar suas ações, já que elas destroem o calor natural e obstruem os lugares pelos quais o alimento passa. Assim a natureza do corpo fica estorvada até que as superfluidades dos alimentos sejam expulsas.

Até que as densas superfluidades, como as que estão nos intestinos ou na bexiga, saiam dos corpos que não praticam exercícios, as superfluidades delgadas, que devem sair pelos poros da pele, unem-se aos músculos dos membros, entre a carne e a pele, já que raramente podem sair do corpo sadio, a não ser por exercício. Isso porque poucas vezes se bebe moderadamente, e o calor natural mal consegue consumir as superfluidades daqueles membros ou é tão forte a ponto de destruí-las. Por esta razão, é melhor se exercitar antes de comer.

II.1. Quando é bom muito exercício ou pouco

Àqueles que comem pouco, basta-lhes pouco exercício; aos que comem muito, é necessário que muito se exercitem; aos que se exercitam pouco, em contrapartida, basta comer pouco, sutil e rapidamente.

II.2. Quando é bom comer muito ou pouco

se alimentar bem e comer coisas gordurosas. Por isso, antes de jantar e de almoçar, devem exercitar-se temperada e moderadamente. Quando o exercício é igual e moderado, tornamo-nos mais alegres, com os membros mais ágeis. Caso os membros doam ou fiquem fatigados, significa que eles não foram moderados. Por isso, quando se começa a cansar, deve-se abandonar o exercício.

Deve-se saber que o exercício é moderado quando os membros superiores e inferiores são proporcionalmente exercitados, como quando se anda a pé, ou se cavalga, etc. Assim, aquele que caminha, caso queira pegar algo com as mãos, deve se inclinar para alcançar sucesso em tal ação.20 Aquele, porém, que cavalga, enquanto levanta, abaixa ou movimenta o cavalo, não somente movimenta as solas dos pés, mas também as costas, as mãos e os braços, principalmente quando caça.

II.3. Qual exercício é bom ao rei e qual ele deve evitar

Aquela forma de se movimentar deve ser escolhida para o exercício, pelo qual a real majestade permanece íntegra. Por isso, o jogo de bola, jogo aureal21 ou luta não pertencem ao rei, pois o rebaixa, e muito prejudica o bem comum.

III. Do banhar e do lavar a cabeça e os pés

III.1. Do banhar

Após considerações sobre o exercício, tratemos do banho, pois substitui a falta do primeiro. Nas Regras da Saúde, aqueles que somente se banham, por não se exercitarem e muito comerem, acumulam um excesso de superfluidades nos braços e entre a carne e a pele. Por sua vez, àqueles aos quais é necessário lavar o corpo por seu suor excessivo graças ao exercício, é-o por outro motivo. Aos primeiros, é bom e conveniente o banho de estufa para remover o suor; aos outros, simplesmente banhos d’água. Mas nenhum desses banhos é necessário ao corpo temperado com abundância de sangue, pois este temperamento auto-estimula o corpo.22

E, se porventura, por razão de algum exercício que libere o suor, alguma vez for necessário lavá-lo, é importante que a água não esteja muito quente, mas morna, assim como aquela que é aquecida no verão pelo calor do Sol. Além disso, que sejam postas rosas fervidas no banho.

III.2. Do lavar a cabeça e os pés

A sola dos pés, para a conservação da visão, da audição e da memória, deve ser frequentemente lavada com água moderadamente aquecida, e tal lavagem deve ser feita às vésperas23, antes que vá deitar e naqueles dias que não jantar.24

III.3. Do lavar a cabeça

Não se deve deixar de lavar a cabeça por mais de vinte dias, nem se deve fazê-lo mais de uma vez por semana, ou com o ventre cheio, mas antes de comer, ou então muito depois de comer, ou ainda, antes de jantar.

IV. Do comer e do beber em geral

Após as considerações do exercício e do banho, seguem-se as do ato de comer, e por duas razões: porque o exercício debilita os corpos, os quais, após a fraqueza, necessitam de alimentação. No entanto, como o exercício os enfraquece, retira a vontade de comer que chamamos “fome”, que nada mais é do que a mensagem da natureza que manifesta a necessidade de comida.25

IV.1. Qual hora é conveniente para comer

Uma coisa é o corpo que sente a necessidade de comer, pois manifestadamente tem fome. Por isso, é mais necessário àqueles que têm o corpo temperado e abundante de sangue que somente comam quando têm fome, já que a natureza dos membros não recebe o que não deseja, pelo contrário, recusa-a, e, por isso, a comida que é recebida sem o desejo da natureza é conduzida pelo ventre e pelos outros membros como um fardo e se corrompe mais do que se transforma, já que, quando é recebida, o corpo não se esforça em alterar sua substância. Quando o faz, é tibiamente.26

IV.2. Da digestão que fazem aqueles que comem sem vontade

Assim, é certo que, em nenhuma época do ano, é conveniente que os corpos, segundo sua natureza, comam fora de hora, nem no café da manhã, nem no jantar, a não ser quando a natureza os impele a comer. Por isso, é manifesto que o costume do povo de jantar apressadamente e todos os dias é sem razão àqueles que são sadios, e fazem, por algum motivo, a vontade dos loucos, comportando-se de modo indiscreto. Por esse motivo, o ato de comer deve ser apropriado quando a natureza o deseja, e não deve tardar por muito tempo após vir a fome, a não ser que as santas constituições da Igreja, a tarefa honesta ou a religiosa devoção, admoestem a jejuar.

IV.3. A quantidade de comida que se deve receber

Deve-se comer moderadamente para que o ventre não seja agredido e não se inflame, pois comer antes do tempo, como dito acima, faz com que o alimento seja desmedidamente recebido. Assim, para evitar isso, convém fazer as duas coisas que diremos abaixo.

IV.4. Do primeiro dano que a comida provoca quando não é recebida de modo ordenado 

A primeira é mastigar vagarosamente. Caso contrário, faz-se grande injúria à natureza, pois não se retém o que é naturalmente devido. Já que os dentes são ordenados para esse fim, que o alimento seja perfeitamente triturado antes de ser enviado ao local da digestão. Assim, quando o alimento não é claro,27 ou por algum motivo não é triturado, aquele que perfeitamente com os dentes não o tritura, engana intensamente a natureza de seu corpo. Pois a natureza de triturar o alimento não é atribuição nem do estômago nem dos outros órgãos internos, e por isso convém que o ato de comer seja intenso, já que eles não podem cumprir a deficiência do mastigar.

IV.5. Do dano que a comida causa quando não é bem mastigada

Há duas maneiras de agressão que o alimento mal mastigado causa: a primeira, quando se come por gula; a segunda, quando o alimento engolido não é perfeitamente digerido, e assim predispõe o corpo a muitos sofrimentos.28 É por isso que, frequentemente, os glutões ficam doentes e não chegam a uma velhice natural.29

IV.6. Do segundo dano da comida que não é recebida ordenadamente

A segunda coisa que deve ser evitada, por medo do comer imoderado, é a diversidade de alimentos em uma mesa, principalmente se são refinados, pois mais rapidamente se sacia com uma só maneira de comer do que com diversas, já que os abrandamentos dos sabores incitam a tomar mais que o ventre pode digerir. Em contrapartida, quando a diversidade dos alimentos é tamanha que o primeiro é de fácil digestão e o segundo de difícil, faz com que a devida nutrição dos membros seja impedida. Pois como o primeiro é digerido mais rapidamente que o outro e eles se mesclam, serão expelidos tanto o não digerido quanto digerido, ou se restos permanecerem até o fim, a digestão será corrompida, assim como se fossem cozidas carne de vaca e de frango juntas.30

Também ocorre que, quando os alimentos são muitos e diversos, de duas maneiras a digestão é prejudicada: 1) aquele que come diversas comidas mais frequentemente bebe, e isso impede a digestão, assim como colocar água fria em pote quente dificulta a sua fervura; 2) entre a primeira refeição e a última há um grande intervalo, pelo qual a digestão começada na primeira refeição é impedida pela crueza da subsequente. Todas estas dificuldades podem ser evitadas caso se coma apenas uma comida, não mais que duas. Assim, que entre elas não haja um intervalo considerável e que não sejam muito diferentes quanto à facilidade da digestão. Por isso, os que se alimentam de poucas refeições chegam a uma velhice avançada e saudável, enquanto que os que se afanam em engolir uma miríade de refeições, ou bem morrerão antes da velhice, ou bem ela será prematura e imundíssima, como acontece, muito frequentemente, com os habitantes do Norte.

Não somente se há de ter em conta a hora de comer e a quantidade, mas a qualidade, isto é, que sejam tomados aqueles alimentos que convêm ao corpo segundo a exigência de sua natureza e do tempo, e que os que não convêm sejam evitados. Aquele, portanto, que naturalmente é predisposto a sofrer de hemorroidas constantes ou pulsantes, deve evitar as coisas de sabor acentuado e salgadas, além das massas doces. Quanto às comidas que impedem as hemorroidas, trataremos mais adiante em especial.31

IV.7. Do beber

Agora convém tratar das regras do beber em geral, a respeito do qual a natureza oferece aos corpos sadios uma regra breve, isto é, que se beba quando ela o determinar, ou seja, quando verdadeiramente sentir sede. Ela é verdadeira quando se sente calor na boca do estômago, o que nunca acontece nos corpos sadios, a não ser depois de comer. Portanto, quando tal sede se manifesta, deve-se beber sobriamente, assim como é devido à natureza do corpo e do tempo.

A esse respeito, deve-se evitar que o vinho seja rascante, ou ardente, ou espesso e doce. No verão, deve-se preferir vinho branco ou tinto e, no inverno, rosado. Em relação à substância, deve sempre ser clara e suave, de sabor simples, agradável e de suavíssimo odor. Sempre devem ser escolhidos os vinhos mais fracos que possam receber a mescla com água, pois, aos corpos temperados, sanguíneos e coléricos, é mais proveitoso beber um vinho naturalmente fraco e com pouca água, já que o vinho muito aguado não é forte. Assim, convém sempre evitar vinhos mesclados com gesso ou cal,32 e aqueles conservados em vasilhas e fechados com pez.33

IV.8. Da pimenta

Pela mesma razão, deve-se evitar a pimenta, caso não seja feita conforme a descrição adiante.

IV.9. Do vinho novo

É evidente que o vinho novo perfeitamente clarificado é mais proveitoso que o vinho velho.34

IV.10. Como se pode saciar a sede natural

Na sede desmedida, na qual a boca do estômago não está inflamada, mas a garganta ou a boca está seca, ou o paladar, por causa do pulso, ou pelo movimento, ou ainda pelo calor ou pela secura do ar, não é necessário beber, mas limpar e molhar as frentes das ditas partes com gargarejo de vinho bem aguado ou de água. Ou, se preferir, pode-se mastigar frutas cheias de suco e jogar fora a substância, ou engolir um pouco do suco por causa da secura da garganta.

V. Do repouso, do sono e da vigília

Após comer, conforme a ordem da natureza, é conveniente descansar e dormir, porque a comida é recebida para ser digerida e, após a digestão, ser transformada e se tornar substância para os membros. Isso porque a digestão da comida não pode ser concluída (especialmente aquela que se faz no ventre, onde ela é recebida) caso seja alterada nos membros. Assim, o calor natural no qual a digestão é feita deve, sempre que possível, ocorrer onde acontece a digestão. Além disso, não é conveniente àqueles que comeram moderadamente que viajem, trabalhem, velem, especialmente se em seu corpo não abunda calor natural, para que, no movimento ou no trabalho, o calor natural se disperse pelos membros que se movem. O calor natural também se espalha pelos membros dos cinco sentidos no velar, embora não se movam os pés ou as mãos, assim como ocorre com os ouvidos quando ouvem, os olhos quando veem, e o mesmo dos outros. Do mesmo modo, o calor se difunde pelo cérebro, onde são feitas as obras dos pensamentos, pois, sem calor natural, nenhuma obra da vida pode ser concluída.35

V.1. Por quais razões é melhor comer a principal refeição nas vésperas

Por estas razões, todos os filósofos estão de acordo que a hora das vésperas é a melhor que pode existir para comer a principal refeição e assim conservar a saúde, para que a noite recaia sobre a comida. Daí decorrem três bens necessários ao cumprimento da digestão. O primeiro é o frio do ar, pois no ar frio a digestão é mais intensa que no quente, já que, graças a ele, o calor natural é unido na fornalha do corpo e, pelo calor do ar, o calor natural é expulso do corpo para se difundir no exterior. Esta é a razão pela qual se deve comer mais em lugares frios do que quentes, e mais no inverno do que no verão. O segundo bem reside no repouso do corpo e do pensamento, pois à noite cessam os pensamentos e os afazeres. O terceiro bem é o dormir tranquilamente e com repouso, pois, no silêncio da noite, os gritos ou ruídos não embargam o sono, nem o resplendor, que de dia fere os olhos, abrevia-o.

V.2. Do descanso que aqueles que comeram moderadamente devem fazer antes de dormir

Portanto, aqueles que comeram moderadamente devem sentar e repousar o corpo e o pensamento. Sentado e descansado, não deve ouvir coisas pouco sutis ou que lhe causem desprazer, mas de fácil entendimento e prazerosas, como histórias de santos e de reis, e também instrumentos musicais. Assim, tão rápido quanto o sono lhe venha, que vá dormir.

Mas de dia, principalmente no verão, deve dormir em um lugar fresco, escuro e tranquilo, contanto que não seja abobadado. Deve-se descansar os pés e deixá-los cobertos, já que dormir com os pés calçados e as pernas cobertas, principalmente no verão, faz elevar os vapores ao cérebro, aquece o corpo e não o deixa descansar bem, embarga a digestão, ofusca a visão e destrói o pensamento, embora deva-se ter os pés cobertos para que o corpo não se resfrie em demasia.

A cabeça também deve ser mais coberta tanto no dormir quanto no velar, porque, durante o sono, o calor natural está ajustado no meio do corpo, as extremidades permanecem com pouco calor e, mais rapidamente, o frio pode prejudicá-las, especialmente se o ar frio, impelido pelos ventos que se propagam pelas vielas, tocar os membros. Por isso, deve-se cuidar para que, ao dormir, os ventos que entram pelas janelas ou frestas abertas não atinjam a cabeça.

V.3. Qual parte deve descansar durante o primeiro sono

Contudo, aqueles que são sadios, devem dormir o primeiro sono sobre o lado direito, de modo que o fígado, que abunda mais em calor natural que qualquer um dos outros membros (exceto o coração), seja colocado sobre o ventre, assim como o fogo é colocado abaixo do óleo.

V.4. Quem deve voltar a dormir após ter feito o primeiro sono

Após o primeiro sono ter sido concluído, aquele que comeu moderadamente não deve mais dormir. Mas, se porventura, alguma vez alguém receber mais comida que o necessário, ou algo de difícil digestão, aquele que dormiu não deve ser despertado após seu primeiro sono, para que a digestão seja concluída, tanto pelos vapores da superfluidade ajustada nos membros, quanto pela superfluidade das urinas na bexiga, dos vapores nos braços, da saliva no peito, ou outras coisas semelhantes. Assim, quando as ditas coisas forem expulsas na urina, ou na tosse, ou estendidas aos membros, ainda será necessário voltar a dormir. Isso pode ser constatado pelo peso da cabeça e pela gravidade das pálpebras.

V.5. Quando se deve descansar sobre o lado esquerdo

É proveitoso descansar sobre o lado esquerdo para que a retenção dos vapores por parte do fígado não o aqueça em demasia, já que é suficiente pouco calor para completar a digestão quando a comida está quase digerida do que se estivesse crua.

V.6. Do ato de dormir de costas

Todo homem são, contudo, não deve dormir de costas. Isso para que as superfluidades decorrentes pelo paladar e pelas narinas não retornem ao cérebro, já que corrompem a memória. Após despertar, pode se espreguiçar e descansar de costas, e assim postar-se um pouco para igualar os membros, especialmente as juntas da espinha.

V.7. Do ato de dormir sobre o ventre

De modo semelhante, não é proveitoso àqueles que são sadios, especialmente os que têm o ventre quente ou temperado, dormir sobre o ventre, pois assim se torce a cabeça, o colo, e o ventre se comprime e é agredido.

Contudo, aqueles que necessitam descansar sobre o ventre por terem-no frio, devem colocá-lo sobre almofadas macias, pois, caso ponham menos almofadas, terão o colo torcido, e assim mais valeria estar de costas que ter sobre o ventre uma almofada macia, bem quente, próxima e envolta por uma faixa de linho, para que, ao dormir, a tenha no ventre.

V.8. Aqueles que não devem dormir antes de comer

Em contrapartida, não é proveitoso àqueles que comem moderadamente caminhar após comer, assim como aqueles que, ao comerem muito, é proveitoso que passeiem, suavemente, após comer e antes de dormir. Que façam isso até que o peso da boca do estômago desça ao ventre.

V.9. Porque deve-se dormir com a cabeça elevada

Todos aqueles que dormem após comer devem ter a cabeça e o peito elevados em relação às outras partes do corpo, e muito mais devem fazer isso aqueles que comeram muito, para que a comida não retorne do ventre para a boca, nem agrida ou prejudique a cabeça ou os outros membros espirituais.36

VI. Da limpeza das superfluidades e da união carnal

Após dormir, deve-se limpar o corpo dos fluidos nele acumulados. Não somente urinar e defecar, mas também as outras maneiras, como tossir, cuspir, escarrar, pentear cabelos e lavar suavemente a face, as mãos e os orifícios.

VI.1. Da união carnal válida ou não ao corpo

A união carnal que, para o proveito da natureza, é ordenada, deve ser feita após dormir, quando o corpo está temperado. Aqueles, contudo, que têm as juntas débeis, ou os que têm surdez decorrente de hemorroidas, devem-se guardar diligentemente para que, enquanto têm fome, e mesmo depois de comer, não pratiquem união carnal, principalmente se a natureza, por si mesma, não a requerer, pois sempre se deve esperar que a natureza o requeira.37

Deve-se ainda aguardar que entre uma união e outra haja um tempo conveniente, de modo que a natureza possa espalhar a semente sem destruí-la e sem sofrimento para o corpo pois, quando o homem faz a semente sair por força da natureza, as forças do corpo são destruídas e vem a velhice e o decaimento antes do que deveria. 38 Por isso, o homem deve se resguardar fortemente.

VII. Dos acidentes da alma que destroem fortemente o corpo, assim como a ira e a tristeza; e como e de qual maneira a alegria ordenada o recreia e o conforta

Depois das coisas ditas acima e observadas por ordem natural, convém saber, sobretudo, que os acidentes da alma alteram fortemente o corpo e manifestam a impressão e a mudança nas obras do pensamento. Por isso, os acidentes que causam dano dever ser totalmente evitados.

VII.1. Do dano causado pela ira

Especialmente devem ser evitadas a ira e a tristeza, pois a primeira superaquece todos os membros e, por causa do grande calor do corpo, confunde e destrói as obras da razão e do entendimento. Por isso deve-se evitar toda ocasião de ira, assim como, por ordem da razão, deve-se ter ira das coisas indevidas.

VII.2. Do dano causado pela tristeza

Do mesmo modo, a tristeza resfria e debilita o corpo: torna-o magro e seco, porque comprime o coração, turva os espíritos e os deixa espessos, além de destruir o raciocínio, dificultar a apreensão das coisas (isto é, o recebimento dos sentidos), obscurecer o juízo e ferir a memória. Por isso, deve-se esquivar de tudo que cause tristeza, a não ser o que a razão aconselha ao entristecimento, como os vícios que cobiçam a beleza da alma.39

VII.3. Do benefício da alegria

Por isso, aqueles que estão envolvidos em muitas preocupações e problemas, devem estar sempre alegres e imersos em dignos entretenimentos, para que a alma se reanime e os espíritos fiquem mais revigorados.

VIII. Das coisas que nutrem, isto é, dos grãos, como o trigo e seus congêneres dos quais se faz o pão

Após apresentarmos a doutrina geral, é conveniente que tratemos especialmente das coisas que alimentam o corpo e dos remédios que podem existir se os alimentos não forem recebidos do modo devido. Entre outras coisas, primeiramente trataremos das comidas, depois das bebidas. E para que algumas comidas sejam recebidas para a alimentação do corpo, outras para dar sabor, diremos primeiramente daquelas que dão a nutrição, das quais algumas são recebidas das coisas que nascem da terra, outras das coisas animadas. E embora, de acordo com a dignidade, as coisas animadas estejam à frente das plantas, pela natureza da alimentação, primeiro estão as plantas que as coisas animadas, pois aquelas alimentam estas.

VIII.1. Dos grãos com os quais se faz o pão

São cinco as coisas que nascem da terra e que nós usamos, nessa ordem: os grãos dos quais se faz o pão, como o fermento, cevada, centeio, milho, aveia, pão e arroz; os legumes, as frutas, as folhas (isto é, couves e ervas), as raízes (como os alhos-porós, cebolas e todas as coisas que recebem seu crescimento sob a terra).

VIII.2. Do fermento, das farinhas, e de toda a comida feita com pasta frita ou cozida na água

O fermento não deve ser consumido com frequência, porque multiplica e engendra no ventre os vermes chamados de lombrigas, além de obstruções, disposição e ordenação de pedras ou areias na bexiga e nos rins. O mesmo fazem as farinhas feitas de pasta frita ou cozidas na água.

VIII.3. Do amido e da aletria

O mesmo fazem a aletria e o amido, mesmo que o amido seja mais leve.40 Não é proveitoso que os corpos temperados usem essas coisas. E se porventura não se puder comer nada, como nos dias de jejum, que as mesmas sejam preparadas com muito leite de amêndoas e muito bem cozidas.41

VIII.4. Da sêmola

Dentre todas, a sêmola é a que faz menos mal e dano.42

VIII.5. Da colagem do joio

Faz menos mal ainda a colagem do joio, a qual, se for feita com muita água, depois com muito leite de amêndoas nos dias de jejum aos corpos temperados e coléricos, será muito leve e proveitosa.

VIII.6. Da comida de cevada

Mais proveitosa ainda é a comida feita de cevada, cozida até que se quebre, e depois lavada com água fria e cozida e amassada com muito leite de amêndoas até ficar encorpada. Tal comida é muito conveniente àqueles que têm hemorroidas pulsantes.

VIII.7. Da comida de aveia

De modo semelhante deve ser feita a comida de aveia, caso agrade, embora seja menos proveitosa que a primeira.

VIII.8. Da comida de arroz

A comida de arroz que é feita com muito leite de amêndoas é proveitosa aos corpos temperados. Contudo, para se precaver que não seja feita constipação no ventre, deve-se comê-la no fim da refeição.

Deve-se tomar cuidado para que todas as coisas ditas acima não estejam corrompidas pela velhice, nem quase estragadas. Por isso, todo corpo temperado e colérico deve evitar a farinha, o joio e a aletria que estejam guardadas por mais de seis meses, e também o amido e o arroz, caso estejam mais de seis meses fora de sua dispensa, especialmente nas regiões quentes. De modo geral, deve-se evitar todas essas coisas que estejam cheirando mal, ou com o sabor azedo, ou de terra.

VIII.9. Qual é o melhor pão

O pão deve ser feito com um pouco de levedo e sal, sem muita farinha. Para evitar a constipação, é proveitoso que ele tenha a sexta ou a sétima parte do joio, com o cuidado de não ser comido quente ou duro.

VIII.10. Do biscoito

Se porventura surgir a necessidade de se comer biscoito, deve-se molhá-lo em caldo com gordura, de carne, de azeite doce de oliva ou de amêndoas. E nos dias que se comer carne, o biscoito será muito proveitoso com pedaços de toucinho ou com algumas outras coisas molhadas que umedeçam o ventre, das quais ainda trataremos neste livro.

IX. Como devemos utilizar os legumes

Legumes não são convenientes a corpos temperados enquanto são sadios. Por isso, deve-se evitar sua substância, especialmente se é seca. Mas, se porventura, desejar-se prová-los, é necessário que sejam cozidos com gengibre e açafrão e, no fim, cozidos com leite de amêndoas, caso não tenham sido fritos na gordura, pois então não será necessário acrescentar leite de amêndoas.

IX.1. Dos feijões e dos grãos-de-bico

Dentre os legumes menos danosos aos corpos sãos, estão os feijões redondos, os grãos-de-bico e as favas e, dentre esses três, os feijões redondos e brancos são os menos danosos. Esta deve ser a regra geral: quando forem preparados os legumes, isto é, sem carne, deve-se fritar uma cebola redonda e branca, cortada bem picadinha e frita com muito azeite doce, e só depois acrescentar o legume. No fim, deve-se colocar leite de amêndoas. Isso é especialmente necessário caso se comam favas, sobretudo as frescas.

IX.2. Do ato de comer legumes

Por sua vez, legumes preparados com leite de animais não devem ser ingeridos. Mas como na Quaresma costuma-se comer com frequência alimentos que causam prisão de ventre, como peixes e alimentos ingeridos com colher, será proveitoso conservar a saúde adquirida no princípio da ceia com um pouco de caldo de feijão ou de grão-de-bico.

IX.3. Dos caldos de feijão e de grão-de-bico

Esta é a água louvada pelos sábios, isto é, os grãos-de-bico ou os feijões umedecidos todas as noites em água doce.43 Nesta mesma água, eles devem ser cozidos duas ou três vezes no dia, e então coados. Esta filtragem deve ser guardada. Após a hora da refeição, acrescente-se um pouco de vinho branco e um pouco de pó de nardo44, açafrão e sal em quantidade moderada. Que tudo, depois, seja fervido uma só vez. Assim, no início da refeição, poder-se-á comer um pouco. Caso seja do agrado, poder-se-ão fazer sopas, pois tal caldo atua no organismo e limpa as veias chamadas capilares (as quais estão no fígado e nas vias urinárias). Assim, evitar-se-ão pedras e resíduos, especialmente se os feijões ou grãos-de-bico estiverem umedecidos e cozidos com a dita água e salsa.

IX.4. Do erro que cometem os que refogam os feijões em leite

A gente simples engana-se redondamente ao crer que o caldo dos feijões refogados no leite é proveitoso. Mas isso não é assim, pois toda a substância sutil e que tem a natureza de se abrir como os feijões é acelerada em seu primeiro cozimento.

X. Das frutas comestíveis

Não é proveitoso ao corpo temperado substituir a comida pela fruta, a não ser medicinalmente, isto é, para preservar o corpo de algum acidente que pode acontecer em virtude do tempo ou do ar. Por isso, convém que elas sejam consumidas moderada e ordenadamente, para assim aproveitar o que a fruta pode proporcionar, já que não devem ser ingeridas apenas para atender o nosso desejo, mas pelo seu próprio proveito.

X.1. Do dano que as frutas causam

Quando comemos as frutas com o devido conhecimento, preservamos nossa saúde. Por isso, aquele que comer frutas não para adquirir conhecimento mas para seu próprio proveito, deve resguardar-se em todas as épocas do ano dos acidentes que podem acontecer ao seu corpo e que possam prejudicá-lo, seja os que ocorrem pela qualidade do ar ou pelas comidas ingeridas em cada uma das estações. Por esse motivo, devem ser consumidas as frutas mais convenientes e que previnam tais acidentes, e devem ser ingeridas da melhor e mais conveniente maneira.

X.2. Das frutas conforme a estação

Por isso, como no verão o sangue se inflama graças ao calor do ar, que no verão e no outono é muito seco, convém que sejam consumidas frutas frias e úmidas para temperar o sangue. Do mesmo modo, como no calor do verão os membros dos corpos emagrecem e empalidecem, e o calor natural e os espíritos mais rapidamente saem deles, convém consumir frutas moderadamente para que os poros da carne sejam obstruídos, como frutas um pouco constringentes. Também nesses períodos é bom consumir frutas ácidas para quebrar a agudez das cóleras.45

A secura do tempo, que muitas vezes constipa e restringe o ventre, requer que, constantemente, no verão e no outono, tais frutas sejam consumidas.

X.3. Do dano que causam as frutas que ainda não estão bem maduras

Todos, contudo, que pretendem conservar a saúde, devem seguir, de modo geral, esta regra: jamais usar frutas cozidas ou cruas até que estejam suficientemente maduras.

X.4. Das amoras

Excetuando as amoras, que não devem ser consumidas até que estejam bem maduras a ponto de estarem negras, porque são alimento de aranhas, sujam e apodrecem o sangue, engendram e multiplicam bulbos, carbúnculos e também bulbos negros. Por isso, nas regiões quentes e úmidas, no ano de época de amoras reina a epidemia, isto é, a pestilência, caso o fluxo do ventre não seja embargado.

X.5. Do dano causado pelas frutas com vermes

A segunda regra é que se deve abster de comer frutas quando elas estão com vermes, isto é, comidas por dentro, e isso se pode saber quando a fruta não é internamente, segundo a sua natureza, colorida, nem tem polpa natural, pois engendram e mantêm febres, caso porventura sua superfluidade não tenha sido expulsa do corpo por fluxo do ventre, por intenso esforço ou por excessiva sudorese.

X.6. Porque não se deve comer muitas frutas ao mesmo tempo

A terceira regra ordena que nunca se comam frutas diversas ao mesmo tempo, pela grande semelhança de agirem naturalmente em si mesmas e por seus efeitos, como se pode observar, por exemplo,

X.7. Das ameixas e das cerejas

se alguém come ameixas para soltar o ventre. Não é conveniente consumir cerejas com elas. Basta que uma ou outra seja ingerida no início da refeição.

X.8. Dos figos e das uvas

Também, em tempos de colheita de figos e de uvas, não se deve comê-las ao mesmo tempo, ainda que cada uma seja proveitosa para soltar o ventre, embora baste uma, sobretudo os figos.

X.9. Do ato de beber após comer figos

Depois, deve-se beber caldo ou outro licor para melhor soltar o ventre. Mas àqueles que têm o fígado e o estômago quentes, como os homens coléricos e os que habitam na África ou na Líbia, é mais seguro beber água fria após comer os figos. Aos outros, vinho bem diluído.

X.10. Das uvas para alargar o ventre

CCaso alguém queira comer uvas para ter o ventre alargado, deve resguardar-se de não as comer à mesa com os outros pratos, mas comê-las muito antes de sentar-se à mesa, sobretudo se estão frescas, pois não só engendram flatulência como fervem os humores, o ventre, além de auxiliar na digestão.46

X.11. Do ato de beber após comer uvas

Após comer uvas, não se deve, de modo, algum beber vinho, mas caldo ou água fria.

X.12. Do ato de limpar as uvas que se comem à mesa

Contudo, se à mesa alguém comer uvas, convém que elas colhidas muitos dias, ou imersas em água fervente e depois fria.

X.13. Dos pêssegos e dos damascos

O mesmo que dissemos dos figos e das uvas deve ser aplicado aos pêssegos e damascos, pois os primeiros às vezes são ingeridos no início da refeição para alargar o ventre. Devem ser consumidos especialmente por aqueles que têm o fígado quente e seco, embora neste caso não seja necessário comer figos, muito menos uvas, bastam pêssegos ou damascos, sobretudo os verdes, porque têm maior umidade.

X.14. Dos pêssegos maduros e dos verdes, e como são limpas suas impurezas

Para aqueles, contudo, que têm o ventre frio e úmido, são melhores os maduros, e se, porventura, quiserem comer os verdes, primeiramente devem umedecê-los em vinho puro e forte, principalmente se tiverem sido colhidos no mesmo dia, pois os que estão ao Sol dois ou três dias após a colheita são mais saborosos e sadios.

X.15. Daqueles que comem muitos figos

Caso aqueles que têm o ventre quente comam figos em grande quantidade, é-lhes são e proveitoso que, antes de comê-los, comam pêssegos ou damascos, ou maçãs bem maduras e de odor agradável47, cruas no verão e cozidas no inverno, ou pelo menos que os figos ingeridos sejam adstringentes, isto é, um pouco ácidos conforme sua natureza, pois são excelentes, já que, por dentro, são vermelhos e têm um sabor um pouco ácido. Por isso, são bons principalmente a homens jovens e a todos aqueles que têm a compleição quente ou moderada.

X.16. Dos pepinos, melões e melancias

Ainda há lugar para a regra dita acima às frutas que se comem para atenuar o calor do sangue (como os pepinos, melões e melancias) ou para quebrar a agudeza da cólera (como as frutas ácidas). Não se deve comer pepinos e melões juntos ou melancias. Caso à mesa eles sejam comidos, que seja com parcimônia; dos pepinos deve ser ingerido só o miolo, e antes dos outros pratos. Isso para os homens jovens e que têm o ventre quente.

X.17. Dos pepinos

No grande ardor do verão, convém comer um pouco do miolo do pepino após o fim do jantar, para que se possa atenuar o ardor do diafragma e dos outros membros superiores que recebem o calor e o ardor do dia. Contudo, isso deve ser feito especialmente antes de dormir.

X.18. Dos pêssegos e das romãs doces

Por isso, pode ter razão quem afirma que os pêssegos e as romãs doces valem mais se moderadamente comidos no fim do jantar do que no início, ainda que sejam frutas aguadas, pois a secura e o ardor das partes superiores mitigam e fazem com que durmamos suavemente. Estas frutas são boas quando comidas assadas com coisas ácidas e secas, pois atenuam a agudez dos vapores.

X.19. Dos pepinos e dos melões

Contudo, muito mais proveitoso seria se, bem antes do jantar, o miolo do pepino ou do melão fosse consumido para atenuar o ardor do sangue, e que fossem comidos pêssegos depois do jantar, ou romãs, ou boas maçãs cruas ou cozidas em brasas e resfriadas com um pouco de pão.

X.20. Das frutas ácidas

Deve-se evitar, contudo, beber após comer essas frutas. Mas caso elas tenham sido consumidas em excesso no início da refeição e se tenha receio de que sua acidez prejudique a garganta, a boca do estômago ou os membros espirituais, então é bom tomar um pouco de caldo, vinho bem aguado, ou suco puro, rapidamente, sem intervalo. Os homens que temem o dito incômodo, caso tomem suco de romã, de laranja ou de limão em jejum, devem bebê-lo com açúcar.

X.21. Das frutas que estreitam ou comprimem o ventre

A regra a seguir abrange as frutas que comprimem ou estreitam o ventre. Por isso, elas não devem ser consumidas ao mesmo tempo.

X.22. Das peras, das sarmenyas e dos marmelos

Assim, quando comer sarmenyas48, não coma peras; quando comer peras, não coma marmelos, e quando comer marmelos, não coma sorvas49 nem nêsperas.50

São muitas as frutas que têm a natureza adstringente, pois algumas comprimem por sua gordura, outras pela espessura de sua substância.

X.23. Das avelãs

Entre estas últimas, estão as avelãs cruas. Outras comprimem pelo poder que têm de restringir; outras, ainda, ressecam pouco: são chamadas adstringentes, isto é, que têm a natureza de ressecar e restringir pouco, como sarmenyas e peras; outras adstringem fortemente, como o marmelo e a acerola, e estas são chamadas ponticas, isto é, que têm a natureza de ressecar e adstringir muito intensamente.

De todas estas frutas, algumas são aromáticas, isto é, de bom odor, e outras não; algumas são doces, outras não.

X.24. Das avelãs tenras

Por isso, deve-se evitar avelãs tenras, inclusive porque podem estragar e adstringir a refeição. Elas devem ser evitadas porque não são doces o suficiente para agradar a boca do estômago, nem são aromáticas para confortar os espíritos, tampouco adstringentes ou ponticas para dar força e firmeza e assim unir os membros. São danosas porque, de modo geral, ferem a boca do estômago e não são boas para nada. As secas, contudo, são menos frias e, por isso, ferem menos.

X.25. Das avelãs torradas

Caso as avelãs sejam um pouco torradas, ferirão menos, pois o ato de torrar diminui sua doçura e sua virtude adstringente, o que poderá torná-las mais proveitosas.

X.26. Das castanhas

O mesmo ocorre com as castanhas quando são assadas, pois a doçura e a virtude de adstringir ganham nelas maior força. Por isso, caso sejam comidas após a refeição, comprimirão o alimento e confortarão a boca do estômago, especialmente se forem umedecidas em caldo de vinho bem odorífico.

X.27. Como as frutas reguladoras estreitam ou alargam o ventre

Das frutas que têm a natureza de estreitar há muitas regras. A primeira é que, caso sejam comidas antes da ceia, causarão constipação e, por isso, se aproximar-se-ão e comprimirão as partes inferiores. Como aquelas partes são estreitas, as sujeiras oriundas das comidas digeridas não poderão sair, ou não tão rapidamente. Mas caso sejam comidas após a refeição, causarão alargamento, pois imediatamente seguirão após o ato de comer e restringirão as partes pelas quais passarem, forçando assim sujeiras da comida e fazendo com que sejam expulsas dos lugares estreitos, de modo que, quando forem ingeridas após a comida, expulsarão as sujeiras pela parte inferior.

X.28. Das frutas adstringentes

A segunda regra é que as frutas ponticas, que têm a natureza de estreitar, nunca devem ser ingeridas cruas, mesmo que confeitadas ou tendo perdido a adstringência pelo longo tempo guardadas, pois todas as coisas ponticas ferem e estreitam as membranas dos peitos.

X.29. Como se devem comer as frutas adstringentes, como marmelos e peras de inverno

Por isso, antes de serem comidas, marmelos e permanys51 devem ser cozidas em caldo de carne gorda, em massa com carne ou, caso agrade mais, assadas na brasa ou no forno (pois assim ficam mais saborosas) e cozidas em vinho forte. Porém, assadas ou cozidas em vinho forte, adstringem mais do que se forem cozidas em caldo gordo.

X.30. Dos frutos das sorvas e das nêsperas

Sorvas e nêsperas, que demoram a amadurecer na árvore, perdem sua ponticidade caso estocadas durante muito tempo após colhidas. Por isso, se for necessário consumi-las, deve-se assá-las ou cozinhá-las em um bom vinho.

X.31. Das nozes confeitadas e das azeitonas salgadas

As demais frutas ponticas, quando confeitadas, perdem sua má adstringência (assim como as nozes que são confeitadas com a casca e as azeitonas em salmoura). Dessa forma, elas constringem moderadamente, mais as azeitonas que as nozes, porque na preparação das azeitonas não se acrescentam mel nem açúcar. Por isso, deve-se consumi-las com moderação. Caso contrário, elas oprimem os membros espirituais.

X.32. Das peras

A terceira regra é que as coisas restritivas que têm sumo, como as peras, são mais convenientes para os tempos secos, como no verão e no outono, do que no inverno.

X.33. Das castanhas e das tâmaras

As castanhas e tâmaras, no entanto, por não serem sumosas e terem alguma adstringência52, especialmente por sua doçura, são melhores de serem consumidas no inverno e na primavera, mas são mais manifestas nas tâmaras das ilhas53 e da África que as da Alexandria.

X.34. Das passas

Caso seja necessário consumir fruta de inverno ou de primavera para alargar o ventre, convém comer tâmaras após a refeição, ou passas com seus grãos, contanto que não se beba depois.

X.35. Dos figos secos

O ventre ainda pode ser umedecido caso sejam consumidos figos secos no início da refeição, sem pão e, como sobremesa, tâmaras ou azeitonas. Após comer as azeitonas, poder-se-á comer algumas passas, sem beber. Mas se as frutas sumosas forem mais agradáveis naquelas épocas, dever-se-á evitar aquelas que são mais perniciosas,

X.36. Das uvas da videira

como as uvas vermelhas, que causam muito mal aos intestinos, aos fígados e à bexiga.

Portanto, se for do agrado comer coisas umedecidas e sumosas, mais valerá consumir maçãs bem cheirosas e assadas, depois resfriadas, ou cozidas em vinho, ou uvas vermelhas, especialmente brancas, após retiradas as cascas e as sementes.

X.37. Como são limpas as impurezas das uvas vermelhas

Mas antes de comer uvas vermelhas, convém colocá-las em água quente, depois em água fria e comê-las moderadamente.

X.38. Das peras com queijo ou cozidas e umedecidas no vinho

Caso se deseje consumir ao fim da refeição frutas sumosas que tenham a natureza de contrair ou comprimir, como as peras, deve-se consumi-las com um bom queijo envelhecido ou assadas e umedecidas em vinho, mas devem evitá-las todos aqueles que tenham tido torções ou dores nas juntas.

X.39. Das frutas oleosas, como amêndoas, avelãs, nozes, pinhões, pistaches, cruas ou confeitadas

O último tratado das frutas pertence à categoria de frutas oleosas, como as amêndoas, avelãs, nozes, pinhões, pistaches, que podem ser subdivididas em duas: as cruas e as confeitadas.

Das cruas, é regra geral que todas agridem o ventre, mas as amêndoas, as nozes e os pistaches agridem menos quando frescas e tenras, e as avelãs e os pinhões agridem mais rapidamente quando estão secas. Não é proveitoso a corpos temperados, nem aos de compleição quente, comer estas frutas cruas, pois poderiam fazer muito mal e seriam pouco úteis.

X.40. Das amêndoas tenras e secas

Amêndoas frescas e tenras podem moderar um pouco o ardor do ventre. Entretanto, as secas e novamente umedecidas não são proveitosas, a não ser para impedir que o vapor do vinho suba à cabeça.

X.41. Das nozes tenras e secas

Por sua vez, nozes tenras e secas não somente prejudicam o ventre, mas agridem a cabeça e a visão, além de não fazerem nenhum bem, a não ser contra o veneno de peixes.

X.42. Das avelãs

Por sua propriedade, as avelãs confortam um pouco o fígado, mas prejudicam a cabeça e o ventre.

X.43. Dos pinhões

Pinhões, dentre os outros grãos, prejudicam muito o ventre, mas são úteis aos paralíticos e àqueles com a saliva e os pulmões apodrecidos.54

X.44. Do pistache

Pistaches são muito úteis ao fígado frio e agridem o ventre menos que qualquer das outras coisas, embora prejudiquem a cabeça.

X.45. Das frutas confeitadas

A segunda regra se refere às frutas acima ditas quando confeitadas com mel ou açúcar, como o doce de pinhão ou o de avelã. São menos prejudiciais ao ventre, mas não é proveitoso aos corpos usar tais confeitos, principalmente quando são mais feitos para deleite do que para proveito da saúde.

XI. Das hortaliças e seus frutos

A partir daqui, trataremos das hortaliças e de seus cozidos. Sob o nome “hortaliças”, entendemos as coisas que nascem sobre a terra e que podem ser cozidas, sejam ervas (como couves, acelgas, espinafres e seus semelhantes) ou frutos de ervas (como abóboras e beringelas).

Brevemente, portanto, deve-se saber que nunca é proveitoso ao corpo temperado comer hortaliças cruas,

XI.1. Das alfaces e das beldroegas

exceto alfaces e beldroegas, as quais podem ser comidas em tempos muito quentes para amenizar o calor e diminuir a acidez do sangue no estômago e no fígado. Assim, que sejam consumidas com um pouco de vinagre diluído antes das refeições. As alfaces amargas, por sua vez, devem ser evitadas por todos os corpos temperados e com a compleição quente.

XI.2. Das beringelas

Podem ser feitos cozidos com todas as hortaliças acima, exceto com beringelas, porque de nenhum modo são proveitosas aos ditos corpos temperados e com a compleição quente. Mas, em relação às outras, cabe distingui-las separadamente.

XI.3. Da borragem e da língua bovina chamada anchusa

Borragem e língua bovina doméstica55 são sempre boas, principalmente àqueles que têm o ventre constipado.56

E com as ditas hortaliças, para reduzir a constipação, pode-se sempre acrescentar espinafres ou acelgas bem tenras e não avermelhadas. No verão, alfaces ou beldroegas, ou ainda armoles57 ou acelgas. No inverno, créxens58 ou salsa, e poucas folhas de hortelã ou de couves brancas.

XI.4. Do espinafre e da erva-armola

No entanto, espinafres e ervas-armoles, como são semelhantes em temperamento, podem ser consumidas juntas ou separadamente, em qualquer época do ano, e podem-se adicionar outras coisas convenientes à época.

XI.5. Das hortaliças mais propícias no verão ou no inverno

No verão, são mais propícias alfaces doces, beldroegas, acelgas, ervas-armelas e abóboras. No inverno, créxens, urtigas tenras, salsa e couves-vermelhas ou crespas e verdes.

XI.6. Das couves brancas

Especialmente quando cultivadas em terra regada e sombreada59 as couves brancas, das quais o caule é largo e as folhas suaves, são proveitosas quando às vezes consumidas no verão e no outono, mas devem-se retirar as folhas grandes e preparar o miolo. Na primavera, pode-se adicionar as partes macias dos aspargos ou prepará-los sozinhos para que sejam pré-cozidos.

XI.7. Como se deve preparar os cozidos das hortaliças

Entretanto, ao utilizar as hortaliças mencionadas, deve-se considerar três coisas. A primeira é que não sejam consumidas quando tiverem espigas. A segunda é que não se deve misturar leite de animais, pois sua grande quantidade de gases prejudica os corpos temperados ou quentes. Mas pode-se preparar com caldo de carne, principalmente de galinhas, com leite de amêndoas ou com óleo doce, especialmente se forem frescos.

XI.8. Das abóboras

Especialmente com as abóboras deve-se ter o cuidado de utilizar leite de amêndoas no lugar de leite de animais, para que não agridam os rins e a bexiga. Deve-se também adicionar cebolas brancas e redondas, pois não prejudicam os intestinos e nem o estômago. Não será prejudicial também se forem acrescentados talos de couves brancas e se se polvilhar canela em pó em cima da sopa.

XI.9. Como os caldos das hortaliças devem ser consumidos no início das refeições, exceto as couves

A terceira coisa a ser destacada é que os cozidos devem ser consumidos antes de outros alimentos, exceto as couves, que podem ser consumidas no final da refeição, devido à adstringência que têm, principalmente as rugosas, as verdes e as avermelhadas. Mas se se toma apenas a sopa das couves, convém fazê-lo no início da refeição, pela sua natureza desobstrutora, como o caldo de grão-de-bico supracitado. Isso porque, se consumidos juntos, isto é, a substância e a sopa de grão-de-bico ou de couve, devido ao contraste que têm entre si, agridem o estômago. E como é conveniente evitar isso, ferva e depois cozinhe as hortaliças com as ditas coisas, ou despeje água fervente, ou cozinhe até engrossar, ou cozinhe a substância ao fim e consuma o caldo no início.

XII. Das raízes comestíveis

As raízes que são consumidas comumente são: alhos-porós, cebolas, alhos, rabanetes silvestres60, nabos, cenouras e cherovias.61

Das quatro primeiras, isto é, os alhos-porós, os alhos, as cebolas e os rabanetes silvestres, os que têm corpos temperados e quentes devem sempre evitá-las, principalmente cruas. Mas no inverno, como faz muito frio, pode-se comer alhos-porós ou cebolas. Aqueles, entretanto, que têm hemorroidas recorrentes ou pulsantes, devem sempre evitar alhos-porós, alhos, chalotas62 e cebolas redondas vermelhas.

XII.1. Da cebolada

Contudo, se as cebolas forem brancas, pode-se fervê-las e fazer uma cebolada com carne ou com azeite suave. De qualquer maneira que se faça, deve-se sempre acrescentar leite de amêndoas. Deste alimento poderão comer todos os que têm a referida doença.63 E como esta pode aliviar o ventre, deve-se consumi-la antes dos outros alimentos.

XII.2. Como os rabanetes e os nabos devem ser preparados

Rabanetes doces e nabos tenros, quando cozidos com carne, sem mel, pimenta, cominho ou alcarávia64, são proveitosos aos ditos corpos65, caso não se acrescente nada para dar sabor. Mas pode-se cozinhá-los com dentes de cravo-da-índia amassados ou com gengibre, açafrão e canela, pois aliviam o ventre, limpam o trato urinário e são proveitosos à visão.

XII.3. Das cenouras

Cenouras brancas podem ser consumidas às vezes, assadas ou cozidas com carne, pois aliviam o ventre e limpam as vias urinárias. Mas é necessário que todas as raízes sejam consumidas no início da refeição.

XII.4. Das cherovias

Cherovias podem ser consumidas pelos ditos corpos no Inverno e na Primavera, caso moderadamente assadas. Entretanto, se tiver algum derrame na cabeça, no pulmão ou no peito, não se deve consumi-las, pois prejudicam o pulmão e a cabeça.

XIII. Das diversas carnes e de como consumi-las

Os alimentos derivados dos animais são preparados de sua substância (assim como são seus membros) ou de suas umidades (assim como do leite ou dos ovos). Os animais têm a natureza de andar (como os que têm quatro patas e as aves) ou a natureza de nadar (como os peixes, etc.). Os que têm a natureza de andar são domésticos ou selvagens, e devem sempre ser consumidos conforme as necessidades da refeição. Os mais temperados66, convenientemente conforme as qualidades do tempo.

XIII.1. Das carnes que podem ser consumidas durante todo o ano

Quando a galinha começa a botar ovos e o capão tem seis67, sete ou oito meses, o pavão está com um ano (ou dezesseis meses), o faisão e o carneiro castrado estão com um ano ou, no máximo, dezoito meses, o coelho com quatro ou seis meses, todos estes, se estiverem moderadamente gordos conforme sua linhagem, podem ser consumidos em qualquer época do ano. Carnes de cabritos ou de bezerros, aos corpos temperados e quentes, também são convenientes em qualquer época do ano.

XIII.2. Das carnes mais convenientes para se comer no Verão

Os filhotes de galinhas e de gansos que fazem piu-piu, carne fresca de porco e de leitões são mais convenientes no Verão e no Outono. Por sua vez, filhotes de perdizes seriam igualmente bons nessas épocas, mas como só são encontrados no Outono, assim como filhotes de codornas e rolas68, são mais proveitosos, assim como os pombos.

 XIII.3. Das carnes mais proveitosas quando consumidas no Inverno

Contudo, galinhas velhas, garças-reais, grous69, pavões velhos, perdizes, coelhos de um ano, lebres, gansos, carne de carneiro de dois dentes e que seja castrado, passarinhos presos com armadilhas, pombos, pombos-torcazes70, galinhas magras e carnes salgadas são mais convenientes no inverno, assim como todas as carnes de difícil digestão, tal como a carne de vaca e a de javali. As carnes de rápida digestão, macias e claras, são de compleição fria e seca.

XIII.4. Do cervo e da corça

Estas, como a do cervo e da corça, podem ser consumidas em qualquer época do ano, desde que o animal esteja bem saudável.

XIII.5. Dos galeirões-comuns e dos patos

Patos e galeirões-comuns71, entretanto, são mais convenientes no Outono, mas os corpos temperados nunca devem comê-los.

XIII.6. Das aves que devem ser evitadas pelos que têm hemorroidas

Todavia, aqueles que frequentemente têm hemorroidas, principalmente se pulsantes, devem evitar a todo custo grous, garças-reais, gansos velhos, pavões, tordos, melros-pretos72, estorninhos-comuns73, rolas, pombos-torcazes e codornas.

XIII.7. De como devem ser preparadas as aves e as outras carnes, quando devem ser mortas antes de consumidas e como se deve consumi-las

Estes corpos74 devem ter mais cuidado no preparo das carnes ditas acima. Isso porque as galinhas, após mortas, devem ser abertas para que sejam retiradas todas as suas entranhas, penduradas da manhã até a noite ou da noite até a manhã antes serem cozidas. As perdizes velhas e os coelhos devem estar mortos pelo menos por um dia; os grous e os faisões, dois dias no Verão e três no Inverno; os pavões sempre dois dias e, caso tenham mais de um ano, pelo menos três dias.

Os ditos corpos devem, ainda, comer mais frequentemente carnes cozidas em água ou em massa, caso assadas, mas devem sempre evitar carnes fritas. Também devem ter o cuidado de não comer coelhos assados, nem passarinhos assados presos por armadilhas, nem nada semelhante. No Verão, deve-se evitar carneiro no espeto. Todo assado deve ser consumido no final da refeição, exceto porco e cabrito assados.

XIII.8. Do leitão

Deve-se também evitar leitão assado, mas quando conservado em sal pode ser consumido, às vezes, no verão. Deve-se ter o cuidado de não tostar os assados, principalmente as perdizes pois, se secas, prejudicam os ditos corpos. Todavia, como tudo o que é tostado fica ressecado, deve-se evitar, como a pele e a gordura do porco.

XIII.9. Do morterol

Deve-se evitar comer carne triturada com gordura, como o morterol75, especialmente os ditos corpos.

XIII.10. De como comer carnes brancas

No entanto, pode-se comer carne de galinha com frequência, contanto que não seja desfiada, mas delicadamente cortada, bem triturada e feita somente com leite de amêndoas, ou um pouco de farinha de arroz ou um pouco de amido.

XIII.11. Do coração e dos outros órgãos que são consumidos

Deve-se também evitar os diversos órgãos, pois as partes mais próximas do coração são mais puras graças ao grande benefício do calor natural que recebem. Entretanto, não é bom que o coração seja consumido pelos corpos temperados, nem pelos coléricos, nem os que têm digestão débil, pois o coração é de difícil digestão e tem a natureza de engendrar um sangue espesso.76

XIII.12. Do fígado

O fígado também deve ser evitado, principalmente se for inteiramente cozido, pois provoca constipação e gera, em grande quantidade, um sangue terrestre e melancólico.

XIII.13. Do fígado de cabrito

Somente o fígado de cabrito é, às vezes, proveitoso aos ditos corpos, caso moderadamente assado.

XIII.14. Do cérebro de cabrito

E também o cérebro de cabrito, caso inteiramente assado.

XIII.15. Do coração de cervo

Também o coração de cervo e os cérebros de lebre e de coelho são proveitosos, por causa da virtude da triaga que têm em si.77 Mas os cérebros de quaisquer animais que tenham quatro patas, além dos intestinos de todos os animais, estômagos, rins e baços, devem ser evitados,

XIII.16. Do estômago de galinha e do de ganso

exceto os estômagos de galinha, de ganso ou de grous.

XIII.17. Das orelhas, dos focinhos e dos pés

Entretanto, as extremidades, como as orelhas, os focinhos e os pés de alguns animais devem ser consumidos às vezes pelos corpos ditos acima, assim como as de porco ou a de cabrito, pois comer estas coisas é bom para os coléricos e os temperados, em tempos quentes, principalmente se consumi-las sós.78 Mas deve-se evitar as ditas extremidades dos outros animais que andam em quatro patas.

XIII.18. Do pulmão

O mesmo deve ser entendido a respeito do pulmão, isto é, que deve ser evitado de todos os animais, exceto o pulmão de cabrito, que é bom. A língua, só de bezerro e de cervo.

XIII.19. Dos mamilos

Quaisquer mamilos devem sempre ser evitados, a menos que se esteja com fome e não haja outra comida.

XIV. Das coisas comuns recebidas pela umidade dos animais

A umidade dos animais normalmente recebida na comida é essa: o leite, os ovos de galinha e o que é feito de leite. Não é conveniente comer nenhum sangue de animal, especialmente aos corpos temperados ou de compleição quente.

XIV.1. Dos ovos

Aos ditos corpos, contudo, são saudáveis ovos pouco cozidos. As gemas devem ser comidas do meio do Outono até o meio da Primavera, e sempre a gema com a clara ao mesmo tempo. 79 Caso se deseje comer os ovos de outra maneira, deve-se evitar comê-los se estiverem muito tempo no ventre da galinha ou da truta, sempre assados ou fritos e moles.

XIV.2. Do leite

Deve-se sempre evitar o leite, exceto da metade de abril até o final de maio, pois nesses meses é proveitoso ingerir leite de cabras, pelo menos por quinze dias e, principalmente, em maio. Deve-se ingeri-lo assim: primeiramente deve-se descansar as superfluidades, pois se deve trabalhar pouco para evitar sentir qualquer sabor estranho na boca, ou escuridão nos olhos, ou dor de cabeça. No desjejum, deve-se ingerir o leite tão logo saia das tetas, bebê-lo na quantidade de meia libra ou até de nove ou dez onças. Depois de bebê-lo, deve-se esperar um pouco para comer, até ter vontade.

XIV.3. Da manteiga

Dentre as coisas feitas do leite, os ditos corpos devem evitar especialmente a manteiga e o soro, mas, se porventura no Inverno quiserem alguma vez comer manteiga, deve-se evitar comê-la rançosa ou salgada, ou comê-la pouco. Caso a comam crua, é melhor com mel.

XIV.4. Do soro

Soro fresco, especialmente de cabra, fervido e coado, é proveitoso, caso se coma do meio de maio até final de julho ou agosto, na hora e na quantidade dita acima.

XIV.5. Do queijo de vacas e de ovelhas

Queijo de vaca bem gordo e adocicado pode ser consumido com frequência, assado ou cozido, do outono ao inverno. Queijo de ovelhas gordas, não rançoso nem muito salgado, pode ser comido no final da refeição e em pouca quantidade, embora não seja sadio nem seguro comê-lo em demasia. Com abóbora ou ervas feitas de borragem80, de espinafre e de erva-armole81, mas deve-se comer pouco. Os ditos corpos devem evitar queijos coalhados.

XIV.6. Da coalhada

A coalhada feita com flores pode ser consumida no verão para suavizar o ardor do estômago e a sede. Deve-se consumi-la no início da refeição, desde que não se beba vinho logo depois.

XIV.7. Do queijo fresco

Do mesmo modo, pode-se comer queijo no final da refeição, contanto que seja fresco e caso não sejam consumidas as frutas supracitadas.

XV. Dos peixes e de como fazê-los

Deve-se evitar todo peixe de lagoa, caso não se saiba ao certo se a lagoa é bela, limpa e sem imundície; se é de pedras, pedregulhos ou arenosa; se nasce de um grande rio, de uma bela fonte, ou de um grande refluxo e afluxo para o mar. Também deve-se evitar os peixes de rios pequenos que correm lentamente e os de rios que recebem detritos de cânhamo, de linho, de ervas podres, de limo de couro, de sujeiras que nascem desses resíduos ou de quaisquer superfluidades de vilas ou de castelos.

XV.1. Quais são os bons peixes

Deve-se preferir peixes de mar, de rio ou de lago que tenham uma substância pura e que não sejam de cor escura, de sabor pesado e que, quando apalpados, sejam muito limosos. Entre os que têm a substância pura, mais saudáveis são os de polpa branca, como a prata e, dentre esses, os que têm escamas são melhores do que os outros. Contudo, caso não tenham escamas, deve-se evitar os que têm a substância tal como dissemos.

XV.2. Como deixar tenros os peixes grandes e de pele dura

Deve-se evitar peixes grandes e de pele dura, como vertebrados, perciformes e esturjões. Não os comer frescos, mantê-los presos e guardá-los o tempo suficiente para que suas entranhas sejam removidas e para que se tornem tenros. A seguir, deve-se guardá-los para que não se corrompam. 

XV.3. De peixes assados ou cozidos em água

Os ditos corpos devem comer mais peixes assados ou cozidos em água. Os assados devem ser consumidos mais no inverno do que no verão, sejam em forno ou em brasas, e os cozidos em água são melhores no verão do que no inverno. A água deve ser preparada sempre com vinho branco.

XV.4. Como se deve untar os peixes assados

Deve-se evitar que, ao assar os peixes, sejam untados com azeite, mas com vinho e sal dissolvido.

XV.5. Dos peixes fritos

Caso sejam fritos, deve-se untá-los com azeite enquanto são assados e não comer a pele. Portanto, deve-se, de um modo geral, evitar a pele dos peixes e sua gordura.

XV.6. Dos peixes salgados e secos

No entanto, não são convenientes aos ditos corpos os peixes inteiramente salgados, especialmente secos pelo sal, inclusive aqueles com caldo simples, às vezes consumidos na Quaresma, quando ingeridos alimentos que causam constipações. São proveitosos na entrada da refeição, pois trabalham os intestinos. Porém, nunca devem ser consumidos, nem mesmo em pouca quantidade, ao fim do dia ou no fim da refeição. 

XV.7. Da baleia e do atum

Contudo, se o peixe inteiramente salgado é gordo e largo, como a baleia ou o atum, pode-se comer um pouco na Quaresma com espinafres, no início da refeição, por sua qualidade laxativa.

XV.8. Do peixe salgado

Os peixes salgados, especialmente se gordos ou cozidos em água, podem ser consumidos muito rapidamente, pois peixes gordos e largos, em dois ou três dias no sal, caso cozidos em água, são mais saborosos e mais saudáveis.

XVI. Dos sabores e dos condimentos

Trataremos dos sabores daqui em diante.

XVI.1. Da mostarda e da rúcula

Coisas agudas nunca são convenientes aos ditos corpos. Por isso, salsas fortes (como as apimentadas e as preparadas com alho) e sabores agudos (como os da mostarda e da rúcula) não são proveitosos. Por isso, não moderá-los ou evitá-los pode ser danoso. Assim, a rúcula pode ser regulada com massa cozida durante muito tempo em água pura, tanto quanto a carne de vaca. Depois, deve ser amassada com algumas amêndoas e destemperada com vinagre bem puro, sem acrescentar mais nada, a não ser um pouco de canela.

XVI.2. Do mel e do açúcar

Os ditos corpos devem evitar o mel e açúcar em demasia. Contudo, se a rúcula estiver um pouco azeda, é bom adoçá-la com um pouco de açúcar bem branco ou um pouco de arrope82

XVI.3. Dos temperos e condimentos que devem ser evitados por quem tem hemorroidas

Recordemos, pois, que as coisas muito doces, muito agudas, muito assadas e muito salgadas são prejudiciais a todos que têm hemorroidas. Por isso, deve-se evitar que regularmente comam condimentos e salsa, especialmente se contiverem pimenta ou muito gengibre, galanga83, noz d’exarch84, noz-moscada, cravo ou muito açafrão.

XVI.4. O preparado com o qual se deve fazer salsa

Para que se evite qualquer erro, deve-se fazer o seguinte preparado: duas dracmas de gengibre bem branco85, uma dracma de coentro preparado, meia dracma de cardamomo e de benalbi86, duas dracmas de raspagem de marfim lavado, uma dracma de cravo e de açafrão, seis dracmas de boa canela. Que destes ingredientes seja feito um pó com amêndoas e depois uma salsa à qual poderá ser acrescentado um pouco de vinagre ou de agraz.87 Desta salsa, em quantidade moderada, podem ser feitos pães.

XVI.5.  Como devem ser feitos os pães

Por todo o verão, pode-se adicionar leite de amêndoas com agraz ou com suco de romã, de limões, de laranja ou de toranja aos pães tão logo tenham saído do forno, pois tais sabores ácidos, feitos com amêndoas, nunca ou raramente agridem os membros espirituais.

Ainda pode-se precaver que estes ácidos colocados nos pães não sejam prejudiciais caso acrescentemos um ovo cozido fortemente misturado após os pães saírem do forno. Também, se às coisas assadas forem colocados leite de amêndoas com aquelas acidezes, farão ainda menos mal.

XVI.6. Das acidezes

Contudo, se no verão, devido ao sabor amargo, alguém desejar usar uma simples acidez, deve evitar beber suco de limão em demasia, pois afeta muito os nervos e os membros nervosos. 

XVI.7. Das laranjas e das toranjas

A acidez da toranja e da laranja é menos prejudicial que as outras, pois é mais temperada. Nessas frutas, deve-se observar a regra dita acima, isto é, que não sejam consumidas até que estejam maduras na árvore. O limão estará então inteiramente maduro, quando perder a dureza e o verdor da casca. Toranjas e laranjas devem estar um ano na árvore, caso se deseje que estejam inteiramente maduras.

Dentre as outras acidezes, melhor é a acidez da romã envelhecida por um ano, porque não é tão forte como as outras e para que tenha um pouco de adstringência com a qual conforte os membros internos.

XVI.8. Do azedume do broto do sarmento

Por este motivo, entre as outras acidezes a melhor é a do miolo do sarmento. Quando a encontramos, devemos deixar as outras de lado. Ela pode ser misturada com alguma das outras acidezes. Contudo, basta que quando se coma aves no verão, para seu melhor sabor deve-se assá-las, marinadas em vinho um pouco aguado e com um pouco de sal.88

XVI.9. Da salsa verde

Se nos assados das coisas animadas que têm quatro patas se desejar acrescentar outro sabor, basta colocar rúcula da maneira dita acima, ou salsa verde preparada com vinagre, amêndoas, salsa e um pouco de menta e canela ou, se as carnes forem secas (as quais, diligentemente, deve-se evitar e esquivar) basta um pouco de sal com vinho bem aguado.

XVI.10. Das salsas boas para todos os assados

Pode-se, ainda, com uma boa canela, amêndoas e vinagre, fazer um sabor conveniente a todos os assados, não só de coisas animadas que tenham quatro patas, mas também de peixes e, no inverno, pode-se adicionar um pouco de gengibre. Mas aquele sabor feito de boa canela com muitas amêndoas e vinagre pode ser usado sempre, caso o costume requeira sabores. Diz-se isso porque os corpos temperados recebem a comida com um desejo moderado para que não tenham necessidade de um sabor diferente do sal. A não ser quando as qualidades das comidas ou do tempo não forem iguais, o costume da natureza imporá essa necessidade.

XVI.11. Da Regra de Hipócrates

Portanto, conforme disse Hipócrates, deve-se atribuir algo ao costume, algo à natureza do corpo e algo ao tempo89, como manifestamos nas regras ditas acima.

Assim, de acordo com as coisas acima ditas, deu-se suficiente conhecimento do que convém observar em relação ao condimento das comidas, como o sal, o azeite, o vinagre, as carnes salgadas e as demais coisas semelhantes a essas.

XVII. Das regras do beber

Das bebidas, deve-se saber indistintamente as que são consumidas pelos corpos sãos, pela razão de beberem, pela razão da medicina preventiva ou por ambas.

Pela razão de beber, são tomados todos os tipos de licores, com vinho ou com água, para matar a sede oriunda por comer no lugar da digestão, isto é, no fundo do ventre. Dos vinhos mais convenientes e dos que se deve evitar já tratamos acima.90

Por causa da medicina preventiva, deve-se tomar algum licor no Verão para abrandar o ardor e a fervura do calor dos membros internos, assim como o xarope feito apenas de água de rosas e de pão doce, que é muito conveniente aos corpos temperados e muito proveitoso àqueles que têm a compleição naturalmente quente, o fígado ou o coração quentes, o qual, bebido com água fria (não apenas fresca), deixa o homem úmido e conforta muito o corpo.

Do mesmo modo, convém àqueles que têm o ventre e os intestinos secos beber xarope de violetas, e aqueles que não os têm secos convém beber xarope de rosas. Por esse mesmo motivo, convém água de cevada àqueles que têm a compleição com tendência à secura, mas aqueles que são carnosos e que têm as partes internas naturalmente quentes, basta beber água fria de fonte viva, ou de poço, ou de cisterna, e os que têm obstruções e passagens internas estreitas, convém acrescentar um pouco de vinagre. Contudo, quanto ao nosso propósito, se é necessário às vezes beber água, que ela seja preparada com açúcar de rosas feito de pão puro, bem branco e dissolvido. Pode-se assim beber aquela água ou de xarope de violetas em dias caniculares.91 Este xarope é feito com uma libra de pão doce e três de água de rosas. Não se deve deixá-lo muito ao fogo, somente o bastante para clareá-lo. Do mesmo modo, não se deve consumir inteiramente a água de rosas, mas apenas sua terça parte. 

XVII.1. Do beber após dormir, no verão

Por causa do ato de beber e da medicina, quando estamos no calor do Verão após dormir dias, aqueles que comem depressa no café da manhã sentem ardor e sede e, por isso, bebem. Para esses, é conveniente, por causa do ato de beber e da medicina, beber água fria ou vinho bem aguado.

XVII.2. De beber pimenta ou néctar92

Mas no inverno, por causa do frio e, às vezes, na Quaresma, bebe-se, por causa da medicina, pimenta ou néctar no fim da refeição para aquecer a boca do estômago e fazer a digestão. Para isso, bebe-se sobretudo com algo que fique retido na boca do estômago, como um folheado93 que, por sua viscosidade, fica por algum tempo ali retido. Aqueles que têm a boca do estômago úmida, que bebam com um pão um pouco torrado.

XVII.3. Da pimenta

Aos ditos corpos não é coisa proveitosa usar pimenta, pois eles são feitos de duas coisas que têm grande agudeza e inflamação, as espécies e o vinho. A terceira coisa que tem a natureza de inflamar, que entra, mas é doce, é o mel ou o açúcar.

XVII.4. Da pimenta que se pode usar 

Portanto, caso se use pimenta, pelo tempo ou pelo costume, sempre se deve consumi-la moderadamente e seguida de pólvora. Receita: uma onça de uma boa canela; meia onça de gengibre branco; duas dracmas de rosas vermelhas de aleli94 e de sândalo vermelho; uma dracma de pelos de espiga de nardo.95 De tudo isso se faça uma pólvora suficiente para trinta libras de vinho. Acrescente mel ou açúcar, tanto quanto necessário e, por fim, uma quarta parte de mel espumante ou meia libra de açúcar dissolvida com um pouco de vinho.96 Assim pode ser conservado mais tempo, com mel.

XVIII. Dos remédios e da cura das hemorroidas

Caso sigam as regras acima ditas, é certo que as hemorroidas cessarão, ou doerão tão pouco que quase não se sentirá nada. Mas como costuma ocorrer de abandonarem essas boas regras que deveriam sempre ser seguidas, é conveniente que os que são propensos a essa doença saibam quais remédios poderão ajudá-los quando a dita doença os afligir.

Alguns dizem saber que quando alguém tem hemorroidas que o afligem e elas descem um pouco, ou moderadamente, nunca se deve pressioná-las, pois tal descida é proveitosa ao corpo, e protege-o de muitas e graves doenças. Mas quando elas não descem moderadamente e debilitam o corpo, deve-se tentar suavizá-las.

XVIII.1. Do que devem se proteger aqueles que têm hemorroidas

Três coisas são necessárias: ter bem e diligentemente os mandamentos deste regimento, especialmente que se protejam das coisas agudas, salgadas e doces. E, dentre as coisas agudas, os assados, especialmente se são secos.97 Deve-se ainda se resguardar de todas as coisas inflamativas, assim como a ira, a união carnal e esforços em demasia.

XVIII.2. O que devem usar aqueles que têm hemorroidas

A segunda coisa é usar, internamente, coisas deleitáveis e estípticas, como as sarmenyas, as peras, o marmelo e coisas semelhantes a essas, conforme já escrevemos.98 Contudo, não se deve comê-las no início das refeições, para que não causem constipação no ventre.

É bom que frequentemente se coma orelhas de porco, pés, amido e arroz ou, no verão, beber xarope rosado pela manhã, ou feito de suco de marmelo ou de grãos de mirtilo99. Caso seja inteiramente cozido, pode-se misturar dois tantos de água quente, e bebê-lo quase morno. Mas se o xarope não estiver inteiramente cozido, que é importante, deve-se aquecê-lo antes de beber. Se porventura estiver muito doce, quando for bebê-lo, pode-se acrescentar um pouco de suco de romã recém espremida, ou, caso contrário, que pelo menos seja pura, ou misturada com um pouco de suco de laranja. No inverno, contudo, deve-se comer em jejum trinta ou quarenta trufas de Roax100.

A terceira coisa é que, no verão, tenha na parte inferior algumas coisas estípticas, para que se faça um saquinho com três partes de rosas e a quarta parte de grãos de mirtilo, e ferva somente em água. Depois, que seja bem espremido e, quando estiver morno, deve-se aplicá-lo por um tempo, pela manhã e pela noite. No inverno, contudo, deve-se aplicar sálvia fresca e, descascada e fritá-la com muito azeite rosado. Depois, coloque-a em um saquinho e aplique no doente como dito antes.

Deve-se ainda saber que, nas hemorroidas sangrentas em que não cessa o fluxo de sangue, costumam destilar gotas brancas de água, ou amarelas, ou verdes, e se lhes podem aderir imundícies. Tal sujeira não somente cria uma ardência intensa, mas também faz com que aquela imundície corroa e carcoma aquele lugar. Por isso, quando ali escorrer essa água, deve-se lavar o lugar com vinho, no qual a sálvia fresca e a tanchagen101, igualmente, tenham sido descascadas e fervidas ou, na falta delas, que se faça a mistura com uma parte de rosas e de lírio púrpura, ou absinto descascado e fervido em vinho.102

Acontece muitas vezes que as ditas hemorroidas costumam causar muita dor, e de muitas maneiras. Às vezes isso ocorre por causa da retenção do sangue que deveria sair, já que, quando aquelas veias são muito comprimidas e cheias e não se abrem quando acostumadas a expulsar o sangue, causam muita dor. Assim também naquela parte, e nas que lhe são próprias (como o que está ao redor das ancas) e as partes ligadas a elas (como o dorso). E é conhecido o sobrepujamento de sangue retido quando elas se incham, e se sente naquele lugar gravidade, peso e pulsação, e os homens jovens sentem mais as pulsações do que o peso. Quando o sangue é retido, não se sente dor somente ali, mas também acima do dorso. Nesse caso, apenas se pode curvar e se apoiar em um cajado. Suaviza-se a dor de uma maneira com a cura completa, de outra, quando se utiliza algum remédio.

Uma cura completa e perfeita acontece quando o princípio e a razão da dor são totalmente distinguidos, o que pode ser feito se o sangue acumulado for delicadamente expulso, especialmente naquelas partes pelas quais a natureza se acostumou a fazê-lo, inclusive com esforço, ou seja, pelas hemorroidas.

XVIII.3. Das maneiras com as quais pode-se purgar as hemorroidas

Portanto, deve-se ter o cuidado de abrir as hemorroidas de três maneiras: com lanceta, com sanguessugas postas com caniços e com remédios.

O melhor remédio que existe é a folha de figueira, que deve ser dobrada e uma parte dela esfregada com outra dentro, de modo que saia uma seiva e depois seja bem esfregada nas hemorroidas até que elas se abram. No entanto, àquela folha bem esfregada pode-se acrescentar cebola leitosa, ou dissolver aloé de Socotorá103 com fel de boi e um pouco de vinagre e, quente, aplicá-lo com pano ou algodão, ou sentar sobre esse pano para que elas se abram ou, ainda, aplicar óleo de amêndoas amargas ou de caroços de pêssego. Mas, se porventura as hemorroidas tardarem a abrir-se, ou se se temer que não se abram, deve-se tirar o sangue por outro lugar, o que pode ser feito abrindo em ambos os pés a veia mais grossa que aparece sobre o dorso do pé, e que isso seja feito em jejum e se retire pelo menos três onças de sangue de cada pé.

XVIII.4. Das sangrias que devem ser feitas para as hemorroidas

Caso esta sangria não possa ser feita, que se faça uma da veia do fígado no meio do braço e que o doente faça uma dieta moderada por três dias.

XVIII.5. Os remédios que se podem fazer para as hemorroidas

Para este mal, os remédios convenientes são os aquecimentos molificativos, os quais, suavemente, sem se sentir muito, desinflamam a superfluidade do sangue e o dissolve pelas diversas partes internas. Estes aquecimentos são feitos de duas maneiras: remédios cozidos em água e colocados em uma cadeira com buracos, onde o enfermo se senta e recebe o vapor nas partes feridas; a outra é que os remédios, com a água na qual devem ser cozidos, sejam colocados em uma bacia ou em uma bandeja, e permaneça ali o doente. Ou então coloque uma esponja e depois a esprema que ele se sente em cima. A primeira maneira é mais virtuosa para fazer efeito do que a segunda.104

Os remédios, contudo, que deverão ser fervidos em água, são esses: dois cachos de língua-de-cão105 ou, na falta dela, a mesma quantidade de malva106 ou de malvaísco107, e um cacho de aleli108 e a mesma quantidade de salsa e meia libra de feno-grego109 ou, na falta dele, quatro onças de meliloto110  e duas de diacitrão.111 Todas essas coisas devem ser esmigalhadas, postas em um saquinho de linho e fervidas em água doce, e que seja feito assim como está dito acima.

XVIII.6. O modo das hemorroidas

Às vezes, no entanto, elas causam dor por inflamarem em excesso, isto é, porque em suas extremidades surgem alguns bubos, como se fossem bicos de seios, os quais são, em alguns casos, ásperos e duros, como se fossem verrugas e, por isso, são chamados verrucais. Contudo, alguns são suaves, redondos e inchados como caroços de uvas e, por isso, são chamados uvais. Outros, por fim, são moles e granulosos como as amoras e, por isso, são chamados morais.112 Quando expelem um suor sanguinolento, são chamados figos.

Todas essas inflamações causam dor no doente quando ele se senta ou cavalga, especialmente as verrucais, por causa de sua dureza e aspereza. As uvais atormentam mais do que as morais, devido à sua inflamação, que não cede quando elas são comprimidas.

Os remédios acima são pouco úteis para essas inflamações, com exceção das uvais, as quais, ademais, são engendradas pela retenção do sangue. Seria coisa proveitosa que se aliviasse um pouco do sangue para que se possa usar as ditas coisas.

Nas verrucais, contudo, é proveitoso colocar remédios molificativos e lenitivos no lugar infeccionado. No verão, gema de ovo batida com azeite com violetas; no inverno, óleo de amêndoas doces ou manteiga fresca. Sempre é proveitoso colocar mucilagem de malvas ou de feno grego, assim como molhar na mescla acima um pouco de algodão ou de pano de linho e colocar por cima do lugar ferido.

Nas morais, são mais proveitosas as coisas que secam naturalmente sem arder, como a mistura em pó feita de folhas de verbasco113 ou de plantas queimadas, ou de raízes de canas queimadas, pois esse pó, acrescido de azeite rosado, deve ser posto com um pano sobre o dito lugar ou em uma esponja sobre a qual o doente deve se sentar. Pode-se acrescentar ainda às ditas misturas uma quarta parte de alvaiade114 e outra de litargírio115 e, com azeite rosado, fazer um unguento conveniente para remediar o dito mal.

XVIII.7. Finda a cura das hemorroidas

Em todas essas inflamações, mais vale ter o cuidado de as curar do que lhes aplicar remédios, já que com os remédios a ajuda é momentânea e, por isso, deve-se cuidar para que aquelas inflamações ou excrescências sejam extirpadas e o dito lugar permaneça o mesmo.

Contudo, naqueles corpos nos quais é necessário que as hemorroidas sejam frequentemente purgadas, deve-se ter muito cuidado para que a incisão ou o corte das ditas inflamações não cesse o corrimento, assim como ocorre quando são arrancadas com cautério ou corte, pois acontece com frequência que as veias se fechem e se enrijeçam.

Mas é conveniente e seguro que elas sejam pouco a pouco reduzidas com coisas corrosivas e suaves, assim como com as coisas da natureza do sal, pois, quase como uma comichão, elas consomem a superfluidade excessiva e rapidamente se fundem, assim como resíduos de vinagre queimado, ou gordura de vidro, ou sal-gema116, salitre, mel, ou gordura velha de porco. Destas coisas, pode-se fazer assim um bom unguento: que os resíduos de vinagre queimado, a gordura de vidro, o sal-gema e o salitre juntos, ou somente algum deles, sejam recebidos igualmente e seja feito um pó e depois, com uma parte de mel e duas de gordura fundida, seja misturado fortemente e colocado sobre o dito local com um pano, e cada vez seja lavado com vinho quente e um pouco de mel dissolvido. Poder-se-á, ainda, no verão, acrescentar um pouco de vinagre com as ditas coisas, com as quais será feito um unguento.

Quando as aquelas inflamações forem eliminadas e a superfície inferior estiver lisa, basta que, no verão, se lave o dito lugar com vinho nos quais rosas sejam cozidas, ou verbasco, ou transagem117 e, no inverno, com vinho no qual a sálvia seja cozida.

Depois disso, quando o local estiver lavado, deve-se espalhar pó feito com duas partes de rosas e uma de alvaiade.

As ditas inflamações podem ser eliminadas se forem ligadas em sua raiz com um pelo de animal ou com um fio de seda, mas essa ligadura não deve ficar demasiado apertada, apenas o suficiente para que se possa suportar. E se for utilizada cortiça de trovisco118, podem ser feitos fios com os quais as inflamações serão moderadamente ligadas na raiz e, assim, rapidamente separadas.

Em terceiro lugar, caso elas atormentem com sua inflamação e o ardor dos lugares vizinhos, basta que sejam lavadas com água doce e morna, na qual seja primeiramente aquecida com semente de casca de abóbora, ou de pepino, ou de beldoegra, ou sempre-viva119 ou, então, flores de nenúfar120, e em seu tempo seja untada com suco de abóbora ou de consólida121, ou com clara de ovo e azeite de cor violeta fortemente batidos, ou seja feito um unguento de alvaiade lavado, cera branca e azeite de cor violeta e mucilagem, do mesmo modo recebido e encorpado. Também poderá untar o local com populeão122, caso seja encontrado fresco. E se as ditas coisas não forem encontradas, que seja feita água morna e doce, como se estivesse ao Sol, e algodão ou pano suave embebido nessa água e colocado nesse local.

A quarta maneira na qual as hemorroidas costumam especialmente atormentar é quando a defecção da matéria suja é dura, pois elas são estreitadas e comprimidas pela dita matéria quando sai daquele lugar sujo, e atormentam fortemente, em especial se há inflamações. Por isso, deve-se resguardar que as podridões das comidas não se endureçam e, para isso, deve-se usar coisas molificantes e que umidifiquem, conforme a doutrina já exposta. Mas se as outras coisas não estiverem à mão, pelo menos no início da alimentação deve-se tomar medula de canafístula123 até a quantidade de uma onça ou, de pelo menos, meia onça. No ato da defecção, pode-se evitar a aflição imergindo as partes inferiores em água moderadamente quente124, especialmente se malvas tiverem sido cozidas, ou introduzindo no ânus, tanto quanto possível, um pano de linho embebido em azeite de cor violeta, sempre de modo suave.

 

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Bibliografia citada

Fontes

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Notas

  • 1. Nossa tradução foi feita a partir da edição ARNAU DE VILANOVA. Obres catalanes. Volum II: Escrits Médics (org. Pe. Miquel Batllori, S. I.). Barcelona: Editorial Barcino, 1947, p. 99-200, confrontada com a edição ARNALDO DE VILANOVA. Régimen de Salud (trad. de Juan Cruz). Esta tradução fez parte do Projeto Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina: O Regimen sanitatis (1308) de Arnau de Vilanova (c. 1238-1311) e sua prescrição da boa dieta, do Prof. Dr. Hélio Angotti Neto (UNESC). Pela natureza do texto, um tratado médico medieval com características nutricionais, foi necessário montar uma equipe interdisciplinar. Também foi realizada sob a égide de ISIC-IVITRA (Higher Cooperative Research Institute ‘International Virtual Institute of Translation), Programa ISIC d’excel·lència de la Generalitat Valenciana per a la Constitució i Acreditación d’Instituts Superiors d’Investigació Cooperativa, Ref. ISIC/2012/022), da Universitat d’Alacant (UA).
  • 2. O texto foi escrito para o rei Jaime II de Aragão, o Justo (1267-1327), rei da Sicília entre 1285 e 1305 e rei de Aragão, Valência, além de Conde de Barcelona entre 1285 e 1302. Precedido por Pedro III de Aragão e sucedido por Frederico II, Jaime II foi também o responsável pela conquista e anexação de diversos territórios aos domínios da Coroa de Aragão, de modo a elevá-la a um período de esplendor. Casou-se quatro vezes, mas só teve descendentes com sua segunda esposa, Blanca de Anjou (1280-1310).
  • 3. Trad. e notas: Ricardo da Costa e Matheus Corassa da Silva. Nossa tradução foi feita a partir da edição ARNAU DE VILANOVA. Obres catalanes. Volum II: Escrits Médics (org. Pe. Miquel Batllori, S. I.). Barcelona: Editorial Barcino, 1947, p. 99-200, confrontada com a edição ARNALDO DE VILANOVA. Régimen de Salud (trad. de Juan Cruz Cruz).
  • 4. Gn 1, 26; 2, 7.
  • 5. O termo romance se refere, genericamente, a um ramo de línguas indo-europeias estreitamente relacionadas entre si e que se desenvolveram como evolução do latim vulgar. A partir dele é que se originaram as principais línguas românicas ou neolatinas, como o português, o catalão, o espanhol, o italiano, o francês, etc.
  • 6. Era comum na Idade Média que os copistas acrescentassem comentários e/ou informações aos textos copiados.
  • 7. Arnau de Vilanova, assim como os médicos de sua época, exerceu o que hoje denominamos Nutrologia (especialidade médica) ou Nutrição.
  • 8. Na filosofia médica de Arnau de Vilanova, os membros espirituais são o coração, o fígado e o cérebro, porque neles são formados os “espíritos do corpo”.
  • 9. Em uma linguagem repleta de analogias e com certo teor poético, Vilanova percebe fatos hoje compreendidos à luz da ciência médica como, por exemplo, a conexão entre a respiração e a ação do coração e das artérias que “carregam o “ar” ao corpo para que se realizem “todas as obras da vida”. De fato, entra o ar pela boca e pelas narinas até aos pulmões, onde há troca de componentes com o sangue trazido do ventrículo direito do coração. Após a oxigenação do sangue por meio da troca de gases nos alvéolos, o sangue retorna ao coração para ser distribuído ao restante do corpo, graças ao bombeamento do ventrículo esquerdo por meio das artérias, que faz levar o oxigênio a disponibilizar energia por meio do Ciclo de Krebs (ou Tricarboxílico). É esse mecanismo aeróbio nos tecidos corporais que provê energia para a “todas as obras da vida corporal”. Ver HALL, John E.; GUYTON, Arthur. Guyton & Hall. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011; LEHNINGER, A.; NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de Bioquímica. São Paulo: ARTMED, 2014 e MOORE, Keith L.; DALLEY, Arthur F.; AGUR, Anne M. R. Anatomia orientada para clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.
  • 10. Saúde do rei e dos súditos.
  • 11. Interessante e correta distinção que Arnau de Vilanova faz entre cogitação e pensamento. Cogitar é pensar com insistência em algo que se pretenda solucionar ou obter – se encontra, portanto, no âmbito da imaginação. Por sua vez, pensamento indica uma meditação mais abrangente, qualquer uma das operações mentais. O médico parece fazer alusão à filosofia de Tomás de Aquino (1225-1274): “...o querer e o entender humanos precisam do material subministrado pelas potências sensitivas externas (os sentidos: tato, olfato, visão, audição e paladar) e internas (o senso comum, a memória, a imaginação e a potência cogitativa).” – COSTA, Ricardo. “A Estética do Corpo na Filosofia e na Arte da Idade Média: texto e imagem”. In: Trans/form/ação, Marília, v. 35, p. 161-178, 2012.
  • 12. Palavra inexistente no Diccionari catalã-valencià-balear.
  • 13. Murta: arbusto ou árvore pequena (Myrtus communis), com raízes e casca. Usos: para extração de tanino, madeira de qualidade, folhas ricas em óleo; em perfumes, assim como as flores brancas, aromáticas, e as bagas carnosas. Outros nomes: mirta, mirto, murta-cheirosa, murta-cultivada, murta-das-noivas, murta-do-jardim, murta-verdadeira, murtinheira, murtinheiro, murto. De origem incerta, provavelmente mediterrânea, cultivada como ornamental e por usos medicinais, há milênios a murta está associada a rituais e cerimônias.
  • 14. Aloé: comum às plantas do gênero Aloe, da família das asfodeláceas (geralmente incluído na família das liliáceas), que reúne cerca de 365 espécies arbustivas ou arborescentes, geralmente xerófilas, de folhas carnosas, frequentemente denteadas, em densas rosetas. Outros nomes: azebre, caraguatá-de-jardim, erva-azebre, erva-babosa Nativas espontâneas de Madagascar, das regiões tropicais do Sul da África e Arábia, e subespontâneas em outras áreas tropicais, algumas são cultivadas para extração de gel e fibras.
  • 15. Zimbro: arbusto (Juniperus communis) da família das cupressáceas, nativo de regiões temperadas do hemisfério norte, de folhas lineares e cones femininos doces e aromáticos, semelhantes a bagas, comestíveis, com propriedades estomáquicas e diuréticas, especialmente utilizado no preparo do gim e na aromatização de licores. Outros nomes: cedro, genebreiro, junípero.
  • 16. Cipreste: árvore de até 45 m (Cupressus sempervirens), da família das cupressáceas, com copa geralmente muito estreita e esguia, ramificações terminais lineares, de um verde forte, e com pequenos estróbilos globosos e pêndulos. Nativa do Sul da Europa e do Sudoeste da Ásia, simboliza a tristeza; sua madeira, homogênea e aromática, foi utilizada em sarcófagos egípcios, móveis gregos, arcas medievais, etc.
  • 17. Sândalo: a árvore do sândalo (Santalum album) é originária da Índia e outras partes da Ásia. Atualmente, é plantada em outros lugares do mundo, especialmente na América. Sua madeira é conhecida por seu entalhe para esculturas e porque dela se obtêm óleos voláteis usados em perfumaria. O sândalo originário da Índia é o que produz a melhor madeira e os melhores óleos aromatizantes. As outras espécies cultivadas não são tão próximas à espécie hindu, mas recebem o nome de sândalos e sua madeira é também aromática.
  • 18. A relação causal entre umidade, presença de fungos e processos alérgicos (como asma, conjuntivite alérgica e rinossinusites alérgicas) já está bem estabelecida. As medidas descritas para reduzir a umidade ambiente e arejá-la, principalmente nos cômodos em que se dorme ou se descansa, foram e ainda são válidas para prevenir crises alérgicas e promover melhor qualidade de vida. Ver MARTINS, Milton Arruda et alClínica Médica. Volume 7. São Paulo: Manole, 2009, p. 4-12, 13-21, 22-33 e 34-43.
  • 19. Na edição que utilizamos como base para nossa tradução, a grafia da palavra é grateyla, que consta no Diccionari català-valencià-balear sem o “y” e com dois “l”. A passagem nele citada é a mesma da presente obra.
  • 20. É interessante observar como Arnau de Vilanova ensina ao rei o melhor modo de portar seu corpo durante uma caminhada. Isso demonstra que disciplina do corpo foi só gradualmente adquirida a partir do final da Idade Média com a aquisição de hábitos de civilidade. Foi o que o sociólogo Norbert Elias (1897-1990) denominou processo civilizador. Ver ELIAS, Norbert. O processo civilizador. 2 volumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.
  • 21. Ao que parece, a palavra aureal foi empregada apenas na tradução de Berenger Sarriera, de modo que seu significado inexiste no universo léxico catalão. A edição de Batllori a relaciona ao termo latino lancealis, de tradução também desconhecida. A especialista Anna Trias i Teixidor estudou a fundo esse vocábulo e considerou-o fantasma. Ver "'Aureal', un mot fantasma atribuït a Arnau de Vilanona". In: Estudis de llengua i literatura catalanes XI. Miscel·lània Antoni M. Badia i Margarit, Volume 3, p. 87-94. Optamos, em nossa tradução, por manter o vocábulo na versão original.
  • 22. “A medicina medieval era, portanto, um Humorismo, pois atribuía a origem das doenças e o estado de espírito de uma pessoa às alterações dos humores do corpo (daí, hoje em dia, dizermos ‘fulano está de bom humor, sicrano de mau humor’), sempre em relação direta com a posição dos astros” − COSTA, Ricardo da. “Olhando para as estrelas, a fronteira imaginária final – Astronomia e Astrologia na Idade Média e a visão medieval do Cosmo”. In: Dimensões - Revista de História da UFES 14. Dossiê Territórios, espaços e fronteiras. Vitória: EDUFES, 2002, p. 481-501. Assim, o temperamento dito sanguíneo é derivado do sangue, um dos quatro humores corporais. Este, por sua vez, deriva do ar, que é devido à combinação do calor com a umidade. A sua sede, no homem, é o fígado. A pessoa possuidora desse temperamento, portanto, apresenta-se extremamente nervosa e explosiva, um comportamento também conhecido como figadal.
  • 23. Vésperas − uma das horas canônicas, divisões do tempo feitas pela Igreja Católica para servir de orientação para as orações feitas durante o dia (porexemplo, um Livro de Horas continha as horas canônicas). As Vésperas (final da tarde) receberam seu nome do astro Vênus (Vésper), que brilha assim que finda o dia.
  • 24. Curiosamente, a Medicina oriental atribui à sola dos pés o que é chamado de Reflexologia, isto é, um microcosmo de todos os órgãos e glândulas do corpo dispostos em arranjo similar nos pés. Não é de se espantar, portanto, que uma simples lavagem dos pés possa fazer bem à visão e à audição, como destaca Vilanova nessa passagem.
  • 25. O segundo motivo será exposto no item IV.6.
  • 26. Tradução incorreta de nam cum natura respuat ipsum vel conatur, tepide in suam substantiam convertit (nota da edição de Pe. Miquel Batlori).
  • 27. O texto latino diz cum ergo cibus non est liquidus. Assim, o termo catalão clar, que optamos por traduzir como claro (sentido lato da palavra), refere-se a algo com pouca densidade, isto é, líquido ou liquefeito.
  • 28. No original per la cobeejança del englotir (pela cobiça de engolir). Adaptamos, mas sem nos desviarmos do âmbito medieval, neste caso, o do Setenário.
  • 29. No original deguastadós (consumidores, vorazes, trituradores). Adaptamos e seguimos a concepção geral do item que diz respeito aos Pecados capitais.
  • 30. Nesta passagem, o médico faz uma admoestação tipicamente cristã, qual seja, a da moderação à mesa. Ademais, isso também se insere no contexto da época, em que os costumes cristãos combatiam a tradição bárbara da glutonaria. “Arnau de Vilanova, nesse sentido, reflete em seu tratado os anseios pela moderação apregoados desde a Antiguidade Clássica com os quais se rompeu, abruptamente, quando das invasões bárbaras do início do Medievo. A gulodice, muito comum entre os reis medievais, era um comportamento tipicamente pagão com o qual se preocupava a Igreja.” – COSTA, Ricardo da; SILVA, Matheus Corassa da. “O Regimen sanitatis (1308) de Arnau de Vilanova (c.1238-1311) e sua prescrição da boa dieta”. In: eHumanista 34 (2016). Journal of Iberian Studies, p. 463-480.
  • 31. Tanto no passado quanto nos dias de hoje, todos os interessados em alcançar o bem-estar desejam alterar seus padrões dietéticos ou escolher alimentos que acrescentam benefícios à saúde. Ver DODD, Judith L. “Nutrição na Idade Adulta”. In: MAHAN, L. Kathleen Mahan; ESCOTT-STUMP, Sylvia; RAYMOND, Janice L. KRAUSE. Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 431-441. O tema das hemorroidas será tratado adiante, no cap. XVIII.
  • 32. No Brasil, ainda é costume fazer doces em conserva com cal, pois isso torna o alimento mais saboroso.
  • 33. Vedação típica do período que poderia ser obtida de três maneiras: 1) resina exsudada dos pinheiros, 2) substância densa obtida pela destilação do alcatrão e 3) betume natural.
  • 34. Exatamente o contrário do que se faz hoje na vinicultura. Isso porque provavelmente o armazenamento por longo tempo poderia resultar em prejuízos para a saúde.
  • 35. Outra interessante passagem a respeito do pensamento (a primeira, no cap. I). Dessa vez, Arnau de Vilanova cria um termo, de cunho filosófico: obras do pensamento.
  • 36. Como dissemos em nota anterior, na filosofia médica de Arnau de Vilanova, os membros espirituais são o coração, o fígado e o cérebro, porque neles são formados os “espíritos do corpo”.
  • 37. Nessa passagem, o médico catalão sugere que as relações sexuais ocorram sempre que haja o desejo.
  • 38. Essa é uma concepção que associa o orgasmo masculino ao cansaço físico. Curiosamente, há na língua francesa a expressão “La petite mort”, que se refere ao período refratário masculino pós-orgasmo, e que também abrange a noção de “gasto espiritual de energia”, ou de força vital.
  • 39. A fina sensibilidade do médico medieval lhe permitiu descrever importantes sintomas que acompanham o que hoje se denomina síndrome depressiva, sintomas afetivos que levam à apatia, ao tédio, ao aborrecimento crônico, à desesperança e à irritabilidade aumentada, além de alterações na esfera instintiva e neurovegetativa, alterações ideativas, cognitivas, volitivas, psicóticas e psicomotoras. Os paralelos entre a descrição de Arnau de Vilanova e a síndrome atual são notáveis. Ver DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre, RS: Artmed, 2008, p. 307-313.
  • 40. A aletria (do árabe al-irtiâ) é uma massa de farinha de trigo crua e seca, em fios muito delgados, usada em sopas ou pratos doces e combinada com leite, ovos e açúcar.
  • 41. O leite de amêndoas é uma alternativa ao leite de vaca. As amêndoas não tem glúten, possuem baixo teor de carboidratos e promovem um bom equilíbrio do colesterol.
  • 42. A sêmola é uma farinha granulada extraída da cariopse do trigo ou de grãos de outros cereais (como, por exemplo, o milho), e que serve para o preparo de massas, sopas, caldos, mingaus, etc.
  • 43. Curiosíssima afirmação que relaciona culinária à Filosofia!
  • 44. Designação comum às plantas do gênero Nardus, da família das Gramíneas, com apenas uma espécie, nativa da Europa e Oeste da Ásia, também conhecida como Bácaro.
  • 45. Trata-se de uma passagem em que Arnau se refere à divisão hipocrática da bílis em bílis negra (melancolia) e bílis amarela (cólera propriamente dita).
  • 46. [1] À primeira vista, trata-se de uma ideia estranha, qual seja, a de intencionalmente alargar o ventre. No entanto, o médico parece sugerir algo como “deixar o estômago relaxado”, com sua musculatura livre para realizar o processo digestivo.
  • 47. A relação entre boa alimentação e um odor prazeroso é, não só na História da Medicina e da Alimentação como na da Filosofia, um topos literário recorrente. Por exemplo, a lenda da morte de Aristóteles (quando o filósofo teria prolongado sua existência com a apreciação odorífica de uma maçã. Para o tema, ver ACKERMAN, Diane. Uma história natural dos sentidos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992, p. 23-90, e CLASSEN, Constance. Aroma: a história cultural dos odores. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
  • 48. A sarmenya é uma fruta semelhante à pera, pequena, aromática e saborosa, quase como uma cereja. Não há, aparentemente, uma fruta do gênero no Brasil.
  • 49. A sorva (ou sorveira, Sorbus domestica L.) é uma árvore da família das Rosaceae. Seu fruto é globoso de coloração verde que, maduro, passa a castanho-escuro. Tem uma casca fina, um suco leitoso e viscoso, e a polpa mucilaginosa e de coloração amarelada.
  • 50. Fruto da nespereira (Eriobothrya japonica), a nêspera é conhecida no Brasil como ameixa-amarela.
  • 51. No original, permany (peramany), variedade de pera de inverno, muito carnuda e doce.
  • 52. No original, stipcitat − qualidade de adstringência metálica (palavra inexistente em nossa língua).
  • 53. Em seu texto, Arnau não define quais são essas ilhas.
  • 54. Fantástica e inusitada relação que o médico estabelece entre a paralisia e as propriedades do pinhão. Talvez isso se deva ao fato de que o pinhão fornece nutrientes que aumentam a densidade óssea (cálcio e magnésio), e ajudam a evitar a osteoporose e a descalcificação óssea.
  • 55. Trata-se da espécie Anchusa azurea, espécie de planta com flor da família Boraginaceae. Seus nomes comuns são borragem-bastarda, buglossa, erva-do-fígado, erva-sangue e língua-de-vaca.
  • 56. No original, em latim: “maxime quibus venter est constipatus [...]” (grifo nosso).
  • 57. armole é uma planta hortense quenopodiácea (Atriplex hortensis L.), parecida à acelga e com propriedades semelhantes às do espinafre.
  • 58. Creixen (Apium nodiflorum) em catalão moderno e berro ou berrera em espanhol. Planta herbácea aquática ou semiaquática, da família das Apiáceas, endêmica da região mediterrânea de Barcelona, Alicante, Girona, Ilhas Baleares, Tarragona e Valência. Aparentemente, sem tradução para o português.
  • 59. No texto original latino, ao contrário, lê-se “in solo arido et umbroso”.
  • 60. Rabanete silvestre (Raphanus raphanistrum) – planta da família Brassicaceae conhecida no Brasil como raiz forte ou armorácia e, em Portugal, como rábano-bastardo, rábano-de-cavalo, rábano-picante, rábano-rústico, rábano-silvestre, rábano-silvestre-maior, rabão-silvestre, rabão-rústico, rabiça-brava, rabo-de-cavalo.
  • 61. Cherovia (Pastinaca sativa) – Planta umbelífera de flores amarelas. Sua raiz, branca e carnosa, é usada como hortaliça. Tem sabor mais intenso do que a cenoura.
  • 62. Chalota (Allium ascalonicum) – A chalota é uma planta bulbosa do gênero allium, originária da Ásia central. Como as plantas deste gênero, é utilizada na culinária. Sua parte comestível está na base das bainhas foliares, que formam bulbos ovais. Seu sabor é um misto de alho e de cebola.
  • 63. Isto é, a hemorroida.
  • 64. Alcarávia (Carum carvi)  planta da família das Apiaceae e nativa da Europa e do oeste da Ásia. Também conhecida como cominho-armênio, cariz, cominho, cominho-dos-prados, cominho-romano ou kümmel. É utilizada como tempero.
  • 65. Isto é, os corpos quentes e temperados.
  • 66. Isto é, os que provocam temperança.
  • 67. Capão – frango capado.
  • 68. No original, tortre – rola-comum (ou rola-brava), ave da família Columbidae, que inclui as rolas, as rolinhas e os pombos.
  • 69. Grou – Aves da família dos Gruidae, grupo com 14 espécies distribuídas pela América do Norte, Europa e Ásia, África e norte da Austrália. São de grande porte, pernaltas e com o pescoço comprido.
  • 70. Pombo-torcaz (Columba palumbis L.– espécie europeia mais comum de pombos. São encorpados e medem mais de 40 cm, com peso entre 300 e 600 g.
  • 71. Galeirão-comum (Fulica atra) – ave da família Rallidae. Do tamanho de um pato, é facilmente identificável pela plumagem negra, que contrasta com o bico e a placa frontal brancos.
  • 72. O melro-preto (Turdus merula), vulgarmente conhecido como melro ou mérula, é uma ave do gênero Turdus.
  • 73. Estorninho-comum (Sturnus vulgaris), também chamado de estorninho-malhado, é um pássaro insetívoro da família dos esturnídeos, nativo da Eurásia e introduzido na América do Norte, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia.
  • 74. O autor ainda se refere aos corpos quentes e temperados.
  • 75. Morterol – Pasta típica da Espanha, feita com fígado de porco e outros ingredientes (presunto, frango, perdiz ou coelho, ensopado, triturados e lavados-com especiarias e farinha de rosca). É um prato típico da região da Mancha (centro da Espanha, comunidade de Castela-Mancha).
  • 76. Como se verá a partir desse item, os medievais aproveitavam, literalmente, todas as partes dos animais, inclusive o cérebro, o pulmão, os rins, etc. Temos um bom exemplo no Brasil com a culinária nordestina, como, por exemplo, a buchada de bode (entranhas (rins, fígado e vísceras) do animal lavadas, fervidas, cortadas, temperadas e cozidas em bolsas (8 cm de diâmetro) feitas com o estômago do animal) e o sarapatel (fígado cozido de boi com miúdos de outros animais [moela de galinha, vísceras de porco] com temperos [especialmente hortelã e pimentas]).
  • 77. Triaga – A triaga era um antídoto feito com muitos ingredientes e especialmente aplicado contra mordida de animais venenosos.
  • 78. Curiosa passagem que sugere a interferência humoral da companhia que se tem na refeição. Os medievais acreditavam que os humores (colérico, sanguíneo, fleumático e bilioso) interferiam na vida. Assim, tudo, literalmente, estava entrelaçado!
  • 79. A partir dessa passagem, o médico relacionará, de modo curioso, o consumo de determinados alimentos com a estação do ano. Isso parece sugerir alguma relação astronômica/astrológica dos alimentos ou sua disponibilidade em determinados períodos do ano. Por exemplo, não é descabido associar o verão com o fato dos ovos estragarem mais rapidamente, devido ao calor, especialmente nas regiões mediterrâneas.
  • 80. Ver item XI.3.
  • 81. Ver nota do item XI.3 e XI.4.
  • 82. O arrope (do árabe hispânico arrúb) é o produto obtido mediante a desitratação parcial do mosto em fogo direto até chegar à caramelização dos açúcares, de modo a obter uma consistência de xarope. Pode-se acrescentar ainda frutas, como o melão, o pêssego, o marmelo (ou a abóbora). No Brasil, a iguaria que mais se aproxima do arrope são os doces de compota, mas estes não contém mistura de frutas.
  • 83. Galanga (do árabe khalanjan), também conhecida como gengibre do Laos ou gengibre tailandês, é o rizoma de uma planta nativa do sul da China com utilidades tanto gastronômicas como medicinais. É muito conhecida na cozinha asiática, em particular nos países do Sudeste Asiático (Tailândia, Laos, Vietnã, etc.). Recentemente seu uso tem se estendido também ao Ocidente, devido à popularidade da comida tailandesa.
  • 84. Ao que parece, o termo se refere à malagueta, também conhecida como grão-do-paraíso, cardamomo ou pimenta-da-guiné (Aframomum melegueta). Conhecida desde Marco Polo (c. 1254-1324) e corrente na documentação medieval francesa com o nome de not ycherca, era usada como condimento, medicamento e perfume. Popularizada no século XV quando Afonso V de Portugal (1432-1481) concedeu sua exclusividade de comércio a Fernão Gomes, estima-se que já era utilizada pelos europeus pelo menos desde o século XIII. Ver “Nou”. In: GUAL CAMARENA, M. Vocabulario del comercio medieval. Colección de aranceles aduaneros de la Corona de Aragón (siglo XIII y XIV). Tarragona, 1968. Internet, e FREEDMAN, Paul. Lo que vino de Oriente: las especias y la imaginación medieval. Valência: Publicacions de la Universitat de València, 2010, p. 222-223.
  • 85. Dracma – inicialmente uma moeda grega. Posteriormente, passou a denominar uma medida farmacêutica que equivalente a, aproximadamente, 3,6g.
  • 86. Benalbi – produto vegetal que se usava como condimento e do qual desconhecemos a natureza.
  • 87. Agraz – sumo de uva verde.
  • 88. O texto sugere que a acidez dos brotos de sarmento é atenuada quando se come aves marinadas. É o que deduzimos da leitura desse subitem.
  • 89. No Corpus Hippocraticum, tratados escritos entre 450 a. C. e o séc. III a. C., há pelo menos duas passagens de duas obras: “É necessário aprender adequadamente a constituição de cada estação assim como a doença” (Epidemia III, XVI. HIPPOCRATES. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 147. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923, p. 256), e “Ao se valer dessas evidências – estações do ano, clima, qualidade da água, solo e hábitos da população local – é preciso considerar cada caso” (Ares, Líquidos e Lugares, II. Trad. de Henrique F. Cairus. CAIRUS, Henrique F. ‘Ares, águas e Lugares’. In: CAIRUS, Henrique F; RIBEIRO JR., Wilson A. Textos Hipocráticos: o Doente, o Médico e a Doença. Rio de Janeiro, RJ: Editora FIOCRUZ, 2005, p. 94).
  • 90. Cap. IV. Do comer e do beber em geral, IV.7. Do beber.
  • 91. Dias caniculares são os dias em que a grande estrela da Constelação do Cão Maior (Canis Major, CMa) surge no Céu e, por isso, são especialmente quentes.
  • 92. No original, claret, vinho com mel (ou açúcar) e especiarias.
  • 93. No original, neula, primeira folha da farinha cozida (algumas vezes com açúcar).
  • 94. A aleli (Erysimum cheiri ou Cheiranthus cheiri) é uma planta crucífera (importante para a produção de óleos e gorduras vegetais). Dessa família pertencem a mostarda, a couve, o nabo e o repolho.
  • 95. O nardo (Polianthes tuberosa) é uma planta conhecida no Brasil como vara de São José. De suas raízes é extraído um óleo para perfumes e fins medicinais.
  • 96. A receita do mel espumante encontra-se no Antidotarim Nicolai (folio 245v), texto latino escrito no final do séc. XI com mais de cem receitas para a criação de medicamentos à base de plantas e minerais. Trata-se de um escrito produzido no círculo da Escola Médica de Salerno, principal centro do conhecimento médico europeu na Alta Idade Média. Foi baseado em parte no Antidotarium de Constantino, o Africano (†c. 1098), obra também escrita em Salerno que, por sua vez, foi redigida com base em traduções de obras árabes antigas. Foi um dos textos médicos mais influentes na literatura medieval.
  • 97. O cuidado com a dieta continua a ser um elemento básico para o tratamento das hemorroidas. Recomenda-se hidratação copiosa – 8 copos de água por dia – e ingestão de aproximadamente 25 gramas de fibras por dia para facilitar a passagem do bolo fecal pelo ânus. Ver MADOFF, Robert D. “Doenças do Reto e do Ânus”. In: GOLDMAN, Lee; SCHAFER, Andrew I. Goldman - Cecil Medicina. Rio de Janeiro & São Paulo: Elsevier Editora, 2014, p. 1080.
  • 98. Ver Cap. X.22.
  • 99. Mirtilo (Vaccinium myrtillus), planta arbustiva de pequeno porte, nativa da Eurásia, e que também cresce em sub-bosques das florestas temperadas na Europa. Seu fruto é uma baga que, quando maduro, adquire a coloração azul arroxeada, de tamanho pequeno, sabor agridoce. Esta planta adapta-se bem ao clima temperado.
  • 100. Roax era o nome medieval da cidade de Edessa, na Palestina.
  • 101. Tanchagen (Plantago major), espécie popularmente conhecida como tanchagem, taiova, orelha de veado, tansagem, transagem, tanchá ou sete nervos. É nativa da Europa, embora largamente disseminada pelos colonizadores nos outros continentes. Usada topicamente na forma de colírios, em forma de injeção na irritabilidade da membrana mucosa da uretra em casos de gonorreia, e em forma de banhos para tratar úlceras. É febrífuga, considerada útil contra a diarreia, para cicatrização de feridas e para extrair o excesso de fluido linfático. No Candomblé, religião de matriz afro-brasileira, é considerada uma planta sagrada.
  • 102. Absinto (Artemisia absinthium), também conhecido por losna ou sintro, é uma erva originária da Europa e da Ásia, de folhas recortadas de cor cinzenta, de sabor amargo, e que ainda é utilizada como planta medicinal (e também na fabricação da bebida homônima).
  • 103. Socotorá (do sânscrito Dvipa Sukhadhara, “ilha da felicidade”) é um pequeno arquipélago formado por quatro ilhas no Oceano Índico, em frente à costa do Chifre da África (a 250 km a leste do cabo Guardafui e a cerca de 380 km a sudeste da costa do Iêmen), administrado pela ilha de Socotorá em nome do Sultanato de Mahra e Socotorá. Conhecida desde o século I (citada no anônimo O périplo do mar Eritreu com o nome de Dioskouridou, em alusão ao greco-romano Dioscórides). Diz-se que Alexandre, o Grande (356-323 a. C.), conquistou a ilha devido à sua grande quantidade de aloés, planta utilizada para o tratamento das feridas e enfermidades de seus soldados. Foi dominada pelos ptolomeus no século I a. C. e, com a ascensão do Cristianismo, a tradição afirma que sua população foi convertida pelo próprio apóstolo Tomé. Colonizada, ao longo dos séculos, por mercadores e negociantes, Socotará passou a figurar como principal escala marítima na rota para a Índia.
  • 104. Atualmente, no caso de hemorroidas complicadas com a trombose e, portanto, dolorosas, o paciente ainda recebe a recomendação do uso de analgésicos, dieta adequada e banhos de assento sobre água morna. Ver MADOFF, Robert D. “Doenças do Reto e do Ânus”. In: GOLDMAN, Lee; SCHAFER, Andrew I. Goldman - Cecil Medicina, op. cit., p. 1080.
  • 105. Língua-de-cão (cinoglossa-de-flor-listrada ou orelha de lebre), designação vulgar de uma planta da família Boraginaceae, que tem o nome científico de Cynoglossum creticum. Distribui-se pela Europa meridional, Ásia central e ocidental e, em geral, por todo o Mediterrâneo.
  • 106. Malva – Gênero botânico pertencente à família das Malvaceae e composto por trinta espécies. É uma erva fresca, comum de regiões tropicais, subtropicais e temperadas, frequentemente utilizada como planta ornamental e, na medicina popular, em infusões para a limpeza do cólon e como suplemento para a perda de peso.
  • 107. Malvaísco – Planta arbustiva, o malvaísco (Althaea officinalis) é de origem africana. Utilizam-se dele a raiz, as folhas e as flores. Com o chá da raiz, tratam-se de problemas gastrointestinais, diarreias, gengivites ou inflações na boca e na garganta, o que favorece a expetoração do catarro e o combate à inflamação das vias respiratórias. Já com o chá das folhas e das flores, acalma-se a tosse crônica causada pela irritação da laringe ou da traqueia.
  • 108. Aleli – Planta brassicácea (Erysimum cheiri), de flores rubras, raiadas de branco, ou amarelas, e aromáticas. É nativa da Europa, embora tenha se naturalizado em outros continentes. A beleza de suas flores faz dela uma planta ornamental por excelência, embora se saiba que ela também possui propriedades medicinais cardiotônicas, anti-inflamatórias, depurativas e diuréticas.
  • 109. Feno-grego (Trigonella foenum-graecum) – planta da família das fabáceas, conhecida desde os egípcios tanto como especiaria quanto por suas propriedades medicinais (sobretudo nos processos de embalsamamento). Na língua portuguesa é também nomeada como alforva (palavra de origem árabe). Suas sementes são ainda utilizadas na culinária, principalmente na indiana. Apresenta diversas usos medicinais, desde o tratamento de infecções gástricas e respiratórias até a redução dos níveis sanguíneos de triglicerídeos, colesterol e açúcares (além do aumento do apetite e da regulação do sono). Sua utilização descrita no cap. 70 da Capitulare de villis vel curtis imperii (c. 795)famosa ordenação de Carlos Magno (747-814), que decretou um determinado número de regras e observações para reformar a agricultura e a administração de seus domínios (que se estendiam, à época, da Alemanha à Espanha). Muitos dos artigos dessa capitular abordam as centenas de árvores, arbustos e ervas que deveriam ser cultivadas nos jardins reais. Entre elas estava o feno-grego (fenigrecum). Para a capitular De Villis, ver Internet.
  • 110. Meliloto (Melilotus officinalis) – planta (com flor) da família das Leguminosas. Tem cerca de 70 cm de altura, ramos ascendentes com flores amarelas em cachos alongados, pendentes, de folhas trifoliadas e vagens curtas. O fruto é uma vagem obtusa, glabra, enrugada, com 1 ou 2 sementes lisas. Suas folhas são estimadas pelas abelhas, pois é uma planta de odor doce e agradável (daí o significado de seu nome: lótus de mel). São propriedades medicinais do meliloto sua ação anti-inflamatória, cicatrizante, antiespasmódica, antisséptica, adstringente e antiedematosa. É utilizado, em geral, no estímulo à circulação linfática, para diminuir inchaços.
  • 111. Diacitrão – Cidras, frutos das cidreiras (Citrus medica), confitadas (isto é, cozidas lentamente em gordura e a baixas temperaturas ou banhadas em uma calda de açúcar que forma uma espécie de revestimento ao fim do processo). A versão açucarada tornou-se um doce espanhol muito popular entre os séculos XV e XVI, o acitrón (ou diacitrón).
  • 112. Ao referir-se aos tumores (ou inflamações hemorroidais), o autor elenca quatro possíveis tipos: 1) as verrucais, caracterizadas por sua aspereza e por sua dureza, à semelhança das verrugas; 2) as uvais, inflamações mais lisas e arredondadas, semelhantes a uvas; 3) as morais, moles e granulosas tais quais as amoras e, por fim, 4) os figos, caracterizados por expelirem o que o autor chama de um “suor sanguinolento”. É bastante curioso – e ao mesmo tempo compreensível – que Vilanova utilize, nos três últimos casos, referências frutíferas para nomear sua tipificação das hemorroidas. Ele se apropria, afinal, de elementos do seu universo, de seu métier par excellence, qual seja, o de uma medicina nutricional (embora, à época, ainda não fosse conhecida por essa nomenclatura). Apesar da distância temporal que nos afasta de Vilanova, hoje ainda é possível encontrar uma permanência desse pensamento: em alguns dicionários, o termo uvais continua a aparecer como sinônimo das excrescências hemorroidais!
  • 113. O verbasco (Verbascum thapsus), também conhecido como barbasco ou vela-de-bruxa, é uma planta herbácea natural da Europa, do Norte da África e da Ásia. Com até 2 metros de altura, apresenta folhas com uma espécie de penugem esbranquiçada ou acinzentada. Entre as propriedades medicinais, sua utilização no tratamento de bronquite, gripes, infecções no ouvido, eliminação de catarros crônicos, alívio da tosse, tratamento da artrite, de hemorroidas e de problemas na próstata. No caso das hemorroidas, objeto do texto de Vilanova, deve-se aplicar o verbasco por meio de banhos de assento.
  • 114. Alvaiade – carbonato artificial de chumbo, de cor branca, empregado na pintura, na medicina e como cosmético.
  • 115. Litargírio – Atualmente, nome comercial do óxido de chumbo (PbO, grau de pureza de 99,8%). É um sólido, na forma de pó, insolúvel em água, sem cheiro, altamente tóxico e usado principalmente na indústria para refinamento de óleos, separação de ouro e prata na mineração, produção de tintas, esmaltes, vernizes, vulcanização da borracha e fundição de vidros e cerâmicas. Foi encontrado pela primeira vez na natureza em 1917, na Califórnia, Estados Unidos. No século XIV, contudo, o termo litargírio estava relacionado a um variante químico do óxido de chumbo, o óxido plumboso ou monóxido de chumbo, também conhecido como óxido de chumbo II. Apesar de sua toxicidade, era relativamente utilizado, em pequenas quantidades, como base para emplastros medicinais.
  • 116. Sal-gema – Cloreto de sódio (NaCl) acompanhado de cloreto de potássio (KCl) e de cloreto de magnésio (MgCl2), que ocorre em jazidas na superfície terrestre. Também conhecido por halite.
  • 117. Ver nota 101.
  • 118. Trovisco – Arbusto venenoso da família das timeleáceas (Daphne gnidium), cuja casca tem propriedades vesicantes (que produz vesículas ou bolhas na pele).
  • 119. Sempre-viva – Gênero referente a cerca de 30 espécies de suculentas perenes da família das Crassulaceae. É originária das Ilhas Canárias, embora também seja endêmica nas regiões montanhosas da Península Ibérica, nos Alpes, nos Cárpatos e no Cáucaso. O nome popular é devido à sua capacidade de armazenar água por longos períodos em suas grossas folhas, o que a torna resistente a situações adversas de crescimento, sobretudo ao solo rochoso e ao clima frio e seco. Conhecidas na Antiguidade como barbas de Júpiter, as sempre-vivas foram cultivadas durante séculos por seus supostos poderes mágico-esotéricos: dizia-se que elas protegiam as pessoas contra raios, fogo e espíritos maléficos. Em termos medicinais, elas são, há muito, utilizadas por suas notáveis propriedades anti-inflamatórias.
  • 120. Nenúfar – Mais conhecida por ninfeia, é um termo que designa várias espécies do gênero botânico Nymphaea, da família das Nymphaeaceae. Inclui várias plantas aquáticas perenes, com grandes rizomas e geralmente flutuantes. Suas flores são perfumadas, têm quatro sépalas verdes e diversas pétalas que são tão grandes quanto as próprias sépalas, com cores variadas: azuis, verdes, brancas, amarelas e em tons de vermelho, conforme as espécies. Adquiriram fama mundial especialmente após a série de pinturas intitulada Ninfeias, do impressionista Claude Monet (1840-1926), que as retratou em seus jardins, em Giverny. O nenúfar é um vegetal antisséptico, adstringente, antiblenorrágico, antidiarreico, calmante e emoliente, bem como sedativo e mucilaginoso. A depender da forma que é utilizada, o nenúfar pode ser usado no tratamento e na cura de doenças como diarreia, gonorreia, leucorreia e bronquite. Também combate infecções da vagina, da uretra e problemas de pele. Por fim, a planta ainda possui efeito calmante.
  • 121. Consólida (Symphytum officinale) – da família das Borragináceas, é uma erva vivaz, cespitosa, de rizoma grosso e raízes fusiformes, fasciculadas, caules eretos, vigorosos, ramosos, eriçados, ásperos, angulosos e alados. Cresce até 80 cm. Planta essencialmente medicinal, sua raiz é semelhante ao aspargo, adocicada, mucilaginosa, emoliente e adstringente. É altamente eficaz na estimulação da reparação dos tecidos danificados (em entorses, hematomas, lesões desportivas e suturas). Promove a regeneração e reduz o período de cicatrização.
  • 122. Populeão – Unguento composto de brotos de álamo, banha de porco, folhas de beladona, de dormideira, dentre outras ervas. Possui um efeito calmante.
  • 123. canafístula (também conhecida como cássia-imperial, Cassia fistula) é uma árvore de folhas verdes, flores amarelas e de odor muito agradável. Cultivada como árvore ornamental, em suas vagens há uma medula chamada polpa, então usada como purgante.
  • 124. No Brasil, esse procedimento é conhecido com banho de assento (utilizado para diminuir a inflamação).