Crônica de Hainaut (c. 1171-1195). Parte I [1]
Gislebert de Mons
Tradução: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)
Revisão: Prof. Dr. Francisco Vieira
Notas: Ricardo da Costa e Francisco Vieira

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Primeira página da Crônica de Hainaut (manuscrito de 1448) - 44 x 31 cm. Bibliothèque Royal de Belgique, Brussels. Na iluminura, Filipe, o Bom (1396-1467), duque da Borgonha (1419-1467) (de negro, no centro), é presentado por Simon Nockart (secretário da província de Hainaut) com um exemplar da Crônica.

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Ao propormos narrar brevemente as gestas e genealogias dos condes de Hainaut, de alguns imperadores de Roma, [2] de Constantinopla e dos reis da França, Jerusalém, Sicília e Inglaterra, assim como as de muitos príncipes e outros nobres relacionados a eles, quisemos começar pelo conde Germano, que possuiu o condado de Hainaut [3] por direito de herança após muitos outros condes, e por sua esposa, a condessa Riquilda, mulher poderosíssima e prudentíssima, para daí descender até o conde Balduíno IV [4], homem ilustre, valoroso, prudente, filho do conde Balduíno III [5] e da condessa Iolanda, o qual tomou por esposa a condessa Adelaide, que está enterrada em Mons, [6] no mosteiro de Santa Waldru, na cripta superior de São João Batista.

Este conde, após grandes esforços e fadigas, ampliou suas possessões do condado de Hainaut e ao morrer foi enterrado em Mons, no coro superior do mosteiro de Santa Waldru. Deste modo, chegaremos a seu filho, Balduíno V, [7] conde de Hainaut e primeiro marquês de Namur, [8] homem muito sábio e príncipe poderosíssimo que, graças à sua esposa Margarida, possuiu Flandres [9] durante alguns anos e ao falecer foi sepultado também em Mons, no centro do mosteiro de Santa Waldru, diante do altar do apóstolo São Tiago.

Saiba-se que o conde Germano, chamado conde de Mons porque este monte era, é e sempre será o centro de todo o território de Hainaut, teve por esposa a condessa Riquilda, mulher prudente e de grande poder, e que ao falecer o conde de Valenciennes sem herdeiro de seu próprio sangue, Gemano e sua esposa reclamaram o condado em propriedade por direito de herança e por compra conjunta com alguns outros nobres que o reclamaram também em herança, e incorporaram assim o condado de Valenciennes ao condado de Hainaut e à honra do castelo de Mons. De seu matrimônio tiveram uma filha e um filho que, segundo contam, era coxo. O conde Germano morreu quando seus dois filhos ainda eram muito pequenos, mas a condessa Riquilda, viúva, sobreviveu e manteve o direito sobre a terra de Hainaut tanto por dote quanto por ser a tutora de seus filhos. [10] Riquilda voltou a contrair matrimônio com o ilustre príncipe Balduíno I, conde de Flandres, [11] filho do conde Balduíno e da condessa Adelaide, filha de Roberto, rei da França. [12] Este Balduíno I foi sepultado ao morrer no mosteiro de Hasnon, cenóbio [13] que ele mesmo reconstruiu.

O conde Balduíno I tomou posse de Flandres e de Hainaut decidida e virilmente. Além disso, governou a França por causa da excessiva juventude de seu tio materno Henrique, rei da França. [14] Sua mulher Riquilda engendrou dois filhos, Arnulfo, o primogênito e Balduíno, o secundogênito, que, após muitos trabalhos e grandes dificuldades, foram deserdados de Flandres, ainda que tenham mantido a propriedade do condado de Hainaut. Mas antes, quando Balduíno I possuía Flandres e Hainaut junto com sua esposa Riquilda, mulher astuta, vendo a debilidade de seus dois primeiros filhos, engendrados do conde Germano, envolveu com o maior afeto seus dois últimos filhos, tidos de suas segundas núpcias com o conde Balduíno. E assim, ordenou seu primeiro filho clérigo e conseguiu para ele o bispado de Chalôns-sur-Marne e fez sua filha religiosa.

Além disso, essa condessa Riquilda, junto com seu esposo Balduíno I, conseguiu adquirir para si, e fazendo-se prevalecer sobre seus filhos, todo o condado de Hainaut, tanto os alódios [15] quanto os feudos [16] e a jurisdição. A terra, situada em Hainaut e Valenciennes, que naquele tempo era alodial, foi obtida graças ao testemunho de príncipes e nobres; receberam do imperador os feudos, isto é, a abadia e igreja de Mons e a jurisdição do condado. Deste modo, Balduíno I, conde de Flandres, possuiu, junto com sua esposa Riquilda, o condado de Hainaut em propriedade e herança.

Portanto, Balduíno teve Flandres e Hainaut. Um dia, animado por inspiração divina, reedificou o cenóbio de Hainaut e o enriqueceu com seus próprios bens, pois havia sido devastado pelos hunos e todas as suas possessões arrebatadas da Igreja, caindo em mãos estranhas. Com sua morte, a condessa Riquilda e seu filho Balduíno II ampliaram as prerrogativas dessa igreja, concedendo-lhe o alódio de Montignes, no Brabante.

Balduíno I, príncipe ilustre e poderoso, conde de Flandres e Hainaut, tinha um irmão, ainda que somente por parte de pai [17]: Roberto, chamado o Frisão, porque cresceu na Frísia. [18] Ele não tinha nenhum direito de participar do patrimônio familiar, e graças à sua extrema maldade e reclamação injusta, Flandres e Hainaut foram destruídas. Um dia, o conde Balduíno ficou enfermo e à morte; estava em Audenarde e, oprimido pela doença, ordenou que trouxessem para ele os corpos e relíquias dos santos de todas as igrejas de Flandres. Mandou também chamar à sua presença todos seus fiéis e, tendo reunido os homens no Conselho, legou Flandres a Arnulfo, seu filho primogênito, e Hainaut a Balduíno, seu secundogênito, declarando que se algum dos dois falecesse o outro lhe sucederia no condado. Todos os homens reunidos aceitaram os dois filhos como legítimos herdeiros, prestaram-lhe homenagem e lhes deram todo o tipo de fidelidade e garantias [19], jurando sobre os corpos e as relíquias dos mencionados santos, ainda que a maioria não tenha respeitado tais juramentos mais tarde.

O conde Balduíno I, cheio de boas intenções e vendo a excessiva juventude e debilidade de seus filhos, confiou seu filho Arnulfo e todo o condado de Flandres aos cuidados de seu irmão, o Frisão. [20] Com tal finalidade, o citado Roberto prestou juramento de fidelidade a Arnulfo e a Balduíno, ainda que mais tarde a tenha quebrado, esquecendo completamente de seu Deus. O corpo defunto de Balduíno I, príncipe e conde de Flandres e Hainaut, foi sepultado no mosteiro de Hainaut que ele mesmo havia reedificado.

A partir de então, Roberto, o Frisão, cavaleiro valente e poderoso com as armas, mas obstinado na maldade e na perfídia, governou Flandres em nome de seu senhor e sobrinho, o jovem Arnulfo. Durante estes anos, Roberto atraiu para si as vontades de quase todos os nobres de Flandres e dos homens das cidades, recebendo deles todo o tipo de garantias sem horrorizar-se por usurpar abertamente o senhorio de Flandres e por expulsar seu senhor Arnulfo de sua própria herdade. [21] Arnulfo recorreu ao auxílio [22] de sua mãe Riquilda, de seu irmão Balduíno II e dos nobres de Hainaut.

Atendendo o conselho de todos se dirigiu a seu senhor e tio materno Henrique, rei dos francos, [23] que o ordenou cavaleiro apesar de sua juventude. O mesmo rei da França convocou Roberto para que lhe mostrasse seus direitos perante as queixas de Arnulfo. Contudo, o Frisão não se apresentou, desprezando ostensivamente a justiça do rei e inclusive perseverando em sua iniqüidade, continuando a guerra em Flandres contra a condessa Riquilda e os homens de Hainaut, sem se amedrontar com as ameaças do rei da França. De sua parte, o rei, vendo a violenta privação da herança de Arnulfo, convocou seu exército e acudiu Flandres com todas as suas forças e acompanhado de Arnulfo e sua mãe Riquilda.

Roberto não temeu enfrentar os francos, os homens de Hainaut e muitos outros homens de diferentes regiões, apoiado como estava pelos homens de Flandres, os frisões e os holandeses. Deste modo, armados, ambos os exércitos se encontraram em um lugar chamado Cassel, onde, lutando em uma dura batalha e retrocedendo rapidamente os de Flandres, Roberto foi capturado pelos de Hainaut. Mas então, a condessa Riquilda se aproximou do campo de batalha para animar os seus e foi feita prisioneira pelos de Flandres. Os homens de Hainaut, aflitos com a captura de sua senhora, devolveram Roberto para conseguir a liberdade da condessa. Assim, Riquilda e Roberto, postos em liberdade, os homens de Flandres voltaram à luta. Morreram na batalha muitos francos e muitos homens de Hainaut. [24] Morreu também Arnulfo, herdeiro legítimo de Flandres, nas mãos de um homem lígio seu chamado Gerdobão. [25] Portanto, Roberto venceu, e se antes já se mostrara forte, agora estava ainda mais poderoso. A condessa Riquilda, aflita com a morte de seu filho, regressou com os seus para Hainaut e, junto com seu filho menor Balduíno II, privado agora de Flandres pela força, promoveu o quanto pôde inimizades e agressões.

Quanto a Gerdobão, o homem que matou seu senhor Arnulfo com suas próprias mãos, não posso omitir que, levado pelo arrependimento, foi à Roma, se prostrou aos pés do Sumo Pontífice [26] e confessou o grande crime que foi seu pecado. Perante esses fatos o papa ordenou a um cozinheiro seu que o levasse para fora e cortasse as mãos que mataram seu senhor. Mas acrescentou secretamente que se ao iniciar o golpe suas mãos tremessem, que o cozinheiro devesse prosseguir arrancando-as, mas se não tremesse deveria trazê-lo de novo à sua presença. Quando conduziram Gerdobão ao suplício, este permaneceu de pé com as mãos imóveis. Ao vê-lo, o cozinheiro o conduziu novamente ao papa. Então este lhe impôs como penitência que fosse ao encontro do abade de Cluny e obedecesse a seus preceitos. Quando o abade viu suas boas intenções, o ordenou monge, e com o tempo ele se distinguiu por suas boas obras e religiosidade na igreja de Cluny.

Nessa mesma época faleceu Gothelon, duque da Lotaríngia, que chamavam duque do castelo de Boillon porque esse castelo era sua propriedade alodial. O conde Otão de Champagne o havia vencido na guerra com seu grande exército e o assassinara. Ao duque Gothelon sucedeu em todas as suas possessões seu único filho Godofredo, jovem cavaleiro. Mas este duque também tinha duas filhas, Regelinda, condessa de Namur por estar casada com o conde Alberto e Ida, que foi entregue em matrimônio ao conde da Bolonha. Ida teve três filhos, Balduíno, que mais tarde obteve virilmente o reino de Jerusalém, Godofredo, duque de Bouillon, que possuiu Jerusalém antes de Balduíno, mas não quis tomar para si a coroa régia no reino onde o próprio Jesus Cristo havia tomado para Si Sua coroa, e Eustáquio, conde de Bolonha, cavaleiro muito probo. [27]

O duque Godofredo, filho de Gothelon, morreu sem descendência direta e isso provocou a rivalidade entre suas duas irmãs, Regelinda, condessa de Namur, e Ida, condessa de Bolonha, pela possessão dos alódios e dos feudos. Regelinda, a primogênita, reclamava para si o castelo de Boillon e a maior parte dos bens. Mas o bispo que governava naquele tempo a sede de Liège e que temia o conde de Namur, estreitamente relacionado com ele por razões de vizinhança e homenagem, se fizera mais poderoso, deixando-se subornar por dinheiro, dons e promessas, e opôs-se aos direitos do conde Alberto e de sua esposa. Ofereceu seu auxílio de todas as formas possíveis à condessa de Bolonha, Ida, para quem obteve tanto os alódios quanto os feudos. E apesar de o trânsito de Namur e Boillon ser difícil por si, fez construir no meio do caminho o castelo de Mirwart para impedir a passagem do conde de Namur. Este não pôde fazer prevalecer seus direitos e Godofredo, filho de Ida, obteve a honra, o ducado e o castelo de Boillon.

A condessa Riquilda

Após essa digressão voltemos à condessa Riquilda. Ela construiu o castelo de Beaumont, formado por uma torre e outras fortificações, e fundou ali uma capela em honra a São Venâncio, enriquecendo-a com muitos bens. Além disso, com seu filho Balduíno II, instituiu em sua corte ofícios hereditários: senescais, [28] copeiros, [29] padeiros, cozinheiros, camareiros [30] e porteiros, e à frente deles colocou os homens de Hainaut e os de Flandres que, abandonando todos os seus bens nas terras de Flandres, vieram desterrados para Hainaut junto a seus senhores, a condessa Riquilda e seu filho Balduíno II. Muitos foram os que de condição nobre ou servil que deixaram Flandres aflitos com a privação de seu senhor e foram habitar em Hainaut. Todos esses foram enriquecidos com benefícios pela condessa e seu filho Balduíno. [31]

A condessa, doída com a morte de seu filho Arnulfo e pela violenta privação de seu segundo filho, ofereceu todas as suas propriedades alodiais de Hainaut a Teoduíno, bispo de Liège, príncipe poderoso e vizinho seu, para assim obter dele auxílio e vingança contra Roberto, o Frisão, aceitando dinheiro em troca das terras para pagar mercenários contra Roberto. O bispo Teoduíno, após ter celebrado um Conselho com a igreja de Liège, com seus nobres e ministeriais, [32] aceitou de bom grado todos estes alódios que estavam dotados de tantas e tão grandes honras e lhes concedeu novamente à própria Riquilda e a seu filho Balduíno II para que os tivessem em forma de feudo lígio. [33] Essa troca lhes deu muitíssimo dinheiro e esta compra reduziu gravemente o tesouro em ouro e prata das igrejas conventuais do bispado de Liège. Todas essas coisas foram dispostas em Fosse sob o testemunho de Godofredo, duque de Boillon, de Alberto, conde de Namur, do conde de Louvain, do conde de Chiny, do conde de Montaigu, nas Ardenas, e de outros fiéis da igreja de Liège, de condição nobre ou servil.

Por outro lado, o bispo Teoduíno, homem prudente e poderoso, que naquele tempo possuía o favor e a amizade do imperador de Roma, conseguiu, mediante serviços e dons que este outorgasse à igreja de Liège, com o consentimento e a aprovação da condessa Riquilda e de seu filho Balduíno II, todos os feudos que os condes de Hainaut tinham por ele, isto é: a abadia, o protetorado da igreja de Mons [34] e toda a jurisdição sobre o condado de Hainaut. Dessa forma, Riquilda e seu filho Balduíno receberam do bispado de Liège de uma só vez e com uma só homenagem lígia todos os seus alódios, famílias e feudos. E assim mesmo o seguiram tendo posteriormente seus sucessores no condado, exceto os alódios de Santa Waldru: o castelo e a vila de Mons, as vilas Quaregnon, Jemappes, Frameries, Quévy, Braine-le-Comte, Braine-le-Château, Hal, Castres, Hérinnes, todas os quais, juntamente com o ducado da Lotaríngia, os reteve no dia de Santa Waldru e os concedeu perpetuamente à igreja que fundou no Castrilocus, em Mons. Mais tarde também foram atribuídos à essa igreja Cuesmes, Nimy, Ville-sur-Haine e muitos outros bens.

Uma vez legados à igreja de Liège tantos e tão grandes bens, e após ter feito homenagem lígia a um personagem tão ilustre como Balduíno II, foi acertado que, desde então, o conde de Hainaut deveria servir e socorrer seu senhor, o bispo de Liège, sempre que necessário, com seus próprios homens, a cavalo ou a pé, ele às expensas do bispo desde o momento que o conde saísse de seu condado em Hainaut, de forma que, se o conde se apresentasse perante o bispo a causa da terra recebida em feudo, este teria que pagar todos os gastos a partir do momento que saísse de seu condado, e se o bispo convocasse o conde de Hainaut à sua corte ou à qualquer colóquio, deveria pagar também os custos; se o imperador de Roma convocasse o conde de Hainaut para socorrer sua corte ou qualquer outra causa, o bispo de Liège deveria conduzi-lo por seus próprios meios até a corte e fazer com que regressasse a salvo, além de estar e responder por ele juridicamente perante a corte.

Por outro lado, se alguém agredisse a terra de Hainaut, o bispo de Liège deveria enviar um exército ao conde em seu auxílio, e se o conde sitiasse algum castelo ou se visse sitiado fora ou dentro de suas terras, o bispo deveria apresentar-se com quinhentos cavaleiros pagos por ele para ajudar o conde, o qual, por sua parte, deveria proporcionar víveres suficientes para eles: se pudesse ceder os pastos ou outros víveres necessários para os cavalos, o bispo e os seus poderiam tomá-los à vontade. Este serviço de auxílio deveria ser cumprido pelo bispo até três vezes por ano durante um período de até quarenta dias por cada vez. Assim, junto com o conde de Hainaut, o bispo de Liège ainda tem que render homenagem a seus castelães: o de Mons, o de Beaumont e o de Valenciennes. O bispo de Liège deve dar ao conde de Hainaut na festa do Natal três pares de vestimentas, cada uma das quais deve valer seis marcos de prata ao peso de Liège, e deve dar também vestimentas de igual valor aos três castelães mencionados. Se alguém confiar ao conde seu alódio no condado de Hainaut para retomá-lo na forma de feudo, ou se adquirir alódios, servos ou servas no extremo limite de seu condado, o bispo de Liège os terá imediatamente nas mesmas condições que o restante de seu feudo.

Por último, enquanto muitos príncipes, duques, barões, condes e outros nobres junto com seus homens têm que responder e dar satisfações à justiça da Paz de Liège, os condes de Hainaut e seus homens não estarão obrigados a isso.

E assim, com as riquezas obtidas do bispo de Liège, a condessa Riquilda e seu filho Balduíno II reuniram todos os aliados e mercenários que puderam, procedentes das mais diferentes regiões, para conduzi-los contra Roberto, o Frisão, que retinha Flandres à força. Entre os aliados encontravam-se o duque de Boillon, o conde de Namur, o conde de Louvain, o conde de Montaigu, o conde de Chiny, o conde de Haumont e muitos outros, todos os quais Roberto, sempre que pôde, causou-lhes dano.

No entanto, todos esses esforços foram inúteis. Roberto, desprezando os homens de Hainaut, mantinha ataques contínuos contra eles, e ao cabo de um tempo, colocou-se em marcha com seu exército até Hainaut. No Brabante, no território chamado Broqueroie, próximo de Mons, ele encontrou alguns dos homens de Hainaut e, ao iniciar uma grande luta, sendo poucos para defenderem-se, morreram quase todos. Por essa razão esse lugar recebe hoje o nome de “Bosque Mortal”. Depois disso, Roberto, cheio de maldade e soberba, atravessou o rio Haine em um lugar chamado Doua, próximo de Mons, e passando assim por Hainaut com suas tropas e deixando Valenciennes, alcançou um lugar chamado Wavrechain-sous-Denain. Ali construiu uma fortaleza com fossos e paliçadas de madeira, e logo regressou a Flandres deixando naquele lugar trezentos cavaleiros que devastaram Hainaut incessantemente.

O jovem conde Balduíno II, diante de tão grave derrota, buscou ajuda contra seus inimigos, socorrendo a terra dos avalenses e, com o auxílio de seu senhor, o bispo de Liège, e de alguns dos seus, caiu de surpresa sobre seus inimigos que permaneciam em Wavrechain com muitos cavaleiros. Matou alguns e fez tantos prisioneiros que quase ninguém pôde escapar. Assim a fortaleza foi destruída.

A condessa Riquilda e seu filho Balduíno permaneceram injustamente desterrados de Flandres. Todo aquele tempo acrescentaram suas boas obras e esmolas, construindo em um de seus alódios em Broqueroie a igreja de São Dionísio e instituindo ali uma comunidade de monges para servirem a Deus. De igual forma entregaram a essa igreja a vila e outras terras de diferentes lugares, férteis e estéreis, bosques, prados, águas, servos e servas, concedendo-lhes quantas liberdades puderam.

A Igreja de Santa Waldru e a de São Germano

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Catedral de Santa Waldru em Mons (1450-1690), grandioso monumento no estilo gótico brabantino.

Naquele tempo em Mons havia treze cônegos na igreja de São Pedro, cujas prebendas [35] pertenciam ao grupo de pessoas do capítulo de São Germano. [36] Para eles, a condessa Riquilda e seu filho Balduíno II fizeram com que essas prebendas passassem para os monges de São Dionísio. E como todas as oferendas aos altares dos mosteiros e das capelas de Mons pertenciam aos capelães de Santa Waldru, ou seja, aos cônegos de São Germano, um tempo mais tarde foi acordado que a igreja de São Germano receberia dos monges da igreja de São Dionísio, pelo mosteiro de São Pedro, um censo anual de seis dinheiros, [37] e que estes seriam pagos perpetuamente no dia da festa de São Denis e na igreja do mesmo nome.

Da igreja de Santa Waldru deve ser dito antes de qualquer coisa que é a principal igreja de Hainaut. São Walberto, como é sabido, foi duque da Lotaríngia, ducado que se estendia por todo Cambrai, Hainaut, Brabante, Hasnania e Ardenas até o Reno, e sua esposa foi Santa Bertila. Entre seus muitos bens encontravam-se muitas propriedades alodiais nas terras mencionadas de Hainaut e Brabante. De sua esposa, Santa Bertila, teve duas filhas, também santíssimas: Santa Waldru e Santa Aldegunda. Quando Walberto faleceu, por não ter filhos varões, sua filha primogênita lhe sucedeu no ducado, Santa Waldru, que ademais possuiu muitos alódios em sua propriedade. Esta santa casou-se com um homem ilustre, Magdelgario, depois chamado de São Vicente, do qual teve dois filhos, Landerico e Lesderino, que por seus muitos méritos receberam o nome de santos, e duas filhas, Santa Aldetrude e Santa Madelberta, ambas virgens.

Santa Aldegunda rechaçou bodas com reis e príncipes e só quis unir-se a Deus; em seu alódio de Maubeuge construiu uma igreja e a enriqueceu entregando-lhe uma parte de seus outros alódios e instituindo nela uma comunidade de monjas para servir a Deus, e logo ela mesma tomou o hábito de religiosa. São Vicente também desprezou a vida mundana e se fez monge na igreja de Haumont. Depois fundou sua própria igreja em Soignies e instituiu nela uma comunidade de monges. Esta igreja foi destruída mais tarde pelos hunos, mas seus benfeitores logo a reconstruíram e instituíram cônegos nela.

De sua parte, Santa Waldru, desejando satisfazer a Deus em tudo, quis beneficiar amplamente muitas igrejas com suas possessões, e elegeu para viver um lugar em um de seus alódios chamado Castrilocus. Este lugar se encontrava totalmente deserto. Nele se elevava um antigo monte e foi ali que se construiu sua igreja, e ela honrou-a com muitos alódios em Hainaut e no Brabante. Nela Santa Waldru instituiu uma comunidade de cônegos e canonisas: canonisas para servirem à igreja, cônegos para a proverem com os bens temporais necessários e que estivessem dispostos a ajudar nos trabalhos e demais assuntos da igreja. Inclusive estes alódios que Santa Waldru reteve para si em propriedade mais tarde entregou perpetuamente à sua igreja, com todas as liberdades. Estes eram: a vila de Mons – que antigamente chamavam de Castrilocus -, as vilas de Quaregnon, Jemappes, Frameries e Quevy no Hainaut, e as de Herinnes, Castres, Hal e Braine-le-Chatêau, no Brabante.

Por outro lado, vendo que todos os seus filhos e filhas desprezavam o terreno e só queriam unir-se ao celeste, Santa Waldru legou o principado ducal que possuía em herança por direito paterno à sua consanguínea Aya. [38] Esta desposou Hidulfo, cavaleiro nobre e valente, cujo corpo santo descansa na igreja de Lobbes. Santa Aya entregou à igreja de Santa Waldru os alódios de Cuesmes, Nimy e Braine-le-Comte com todas as suas liberdades e, por isso, não omitirei narrar um glorioso milagre que mais adiante será conveniente que se saiba como ocorreu. Muitos anos depois da morte de Santa Aya, cujo corpo descansa com todas as honras na igreja de Mons, alguns malfeitores tentaram usurpar os alódios que Santa Aya concedera à igreja de Santa Waldru, afirmando que pertenciam a eles por direito.

Após um grande pleito entre a igreja e os malfeitores, a comunidade eclesiástica começou a desconfiar da justiça. Então, colocando todas as suas esperanças somente no Senhor, pediram o testemunho de Santa Aya, que jazia enterrada há muito tempo. Esta testemunhou de sua tumba, e todo o mundo pôde ouvi-la, que aqueles alódios eram própria e livremente de Santa Waldru por direito. Dessa forma, todos aqueles alódios permaneceram nas mãos da igreja de Santa Waldru durante muito tempo, até que mais tarde a maior parte de Braine-le-Comte passou ao conde de Hainaut por permuta.

Portanto, se compreenderá que Mons, antes chamado Castrilocus, [39] é por direito próprio o principal centro de todo o Hainaut, já que foi escolhido por Santa Waldru, duquesa da Lotaríngia, como lugar para habitar durante sua vida, uma vez morta para o século, assim como porque desde o antigo conde de Hainaut foi elevado nela à dignidade abacial e escolhido protetor desta igreja, [40] ele e seus feudatários a enriqueceram com numerosos bens de Hainaut e de Brabante. De qualquer modo, não sabemos com segurança como a dignidade abacial passou para a propriedade e herança de seus protetores, os condes de Hainaut, pois no princípio foi instituída uma abadessa e a eleição da mesma correspondeu por direito ao capítulo do lugar. Foi então estabelecido que a terça parte dos alódios de Santa Waldru pertenciam à dignidade abacial, de modo que graças a eles, as outras partes restantes proveram melhor as necessidades da igreja e seu desfrute foi melhor garantido. Esta terça parte foi composta por Quaregnon, Jemappes, Frameries, Quevy e Herinnes.

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Assim, desde os primeiros tempos da fundação dessa igreja, foi instituída uma abadessa para governá-la. Ao longo de muitos anos um grande número de abadessas sucederam nesta dignidade. A eleição da abadessa correspondia ao capítulo e a eleita era apresentada diante o imperador de Roma, recebendo dele a investidura para reger a igreja. Mas aconteceu que, ainda que a abadessa recorresse sempre ao imperador de Roma para todas as questões concernentes à igreja, um conde de Mons, que desejava veementemente a dignidade abacial e tinha o favor e a consangüinidade suficiente com o imperador, pediu a ele que concedesse o domínio da dita abadia, de forma que, após a eleição da abadessa, esta receberia os bens e dignidades das mãos do próprio conde e de seus descendentes. Este conde afirmava, e assim o disse ao imperador, que os bens da abadia eram de pouca importância, e o imperador então lhe concedeu o domínio da abadia, mas o fez sem o consentimento da Igreja.

Pouco depois disso, morreu a abadessa de Mons e o conde ocupou a abadia dizendo que ela era sua, opondo-se à eleição do capítulo. Este, que queria conservar a liberdade a qual estava acostumado, enviou ao imperador alguns de seus melhores cônegos e canonisas para manifestar a injúria infringida. Ali, na presença do imperador e com seu consentimento e favor, elegeram abadessa uma dama chamada Oda. [41] Mas de regresso a Mons, ela não pôde fazer a paz com o conde. E, ainda que a Igreja não quisesse sofrer a ofensa do conde, como não podiam acudir constantemente ao imperador, seguindo, com grandes esforços e gastos até distantes regiões, decidiram entregar-se à vontade do conde, seu senhor e protetor.

Destituída a abadessa, o conde de Hainaut tornou-se abade e protetor da comunidade e dessa forma a dignidade abacial passou para a sua herança. Então o conde enfeudou os muitos bens dispersos que pertenciam à dignidade abacial, conservando a dotação do capítulo a salvo. E assim foi disposto que uma terça parte dos alódios de Santa Waldru pertenceria à abadia, de modo que, com ela as outras duas partes restantes proveriam melhor as necessidades da igreja e seu desfrute estaria melhor garantido, pois deste modo, graças à parte abacial a igreja estaria liberada das taxas que eventualmente são requisitadas pelo papa, por seus legados, o senhor de Reims, ou o de Cambrai e seus oficiais, que em língua vulgar recebem o nome de giste ou porsonia. [42] Todos estes bens que o abade possui juntamente com o capítulo se encontram nas vilas de Quaregnon, Jemappes, Frameries, Quevy, Herinnes, Castres, Hal e Braine-le-Château. [43]

Contudo, a vila de Mons pertence em propriedade à igreja de Santa Waldru de Mons e os dízimos e censos dessa vila não foram outorgados ao abade. O teloneo e a foragia [44] pertencem à parte abacial. Todos os mansos da vila [45] devem censo à Santa Waldru e os cônegos de São Germano, que são os capelães de Santa Waldru, recebem anualmente a terça parte deles, na festa de Quinta-Feira Santa. Deste modo, recebem os dízimos [46] das colheitas e das pastagens de toda a paróquia de Mons, além dos dízimos menores e as oferendas aos altares. Por seu castelo situado na igreja de Mons, o conde de Hainaut deve um censo anual de cinco soldos na festa de Quinta-Feira Santa, além do censo por outros mansos que tem na vila, também pagos nas festas de Quinta-Feira Santa e no Natal. O conde não pode ter nenhum manso na vila nem construir nenhum edifício sem o consentimento da igreja. Caso construa, também deve pagar censo por isso. Se estes censos não forem pagos no dia marcado, está permitido à igreja, sem a intervenção do administrador senhorial nem de seus magistrados, [47] aceitar penhoras em troca do censo, além de dois soldos como multa.

Em Mons, qualquer homem pode dar seu manso como esmola para Santa Waldru sem a necessidade da aprovação do administrador ou do testemunho dos magistrados, sempre que São Germano não tenha participação nele. O mesmo acontece com relação a São Germano: qualquer homem pode entregar seu manso como esmola sem a aprovação do administrador ou o testemunho dos magistrados, sempre que Santa Waldru não tenha parte nele.

Em Mons existem quatro mansos livres [48] que não devem ao conde a talha, [49] as exações, as corvéias [50], nem o serviço de angária [51] e o de hoste. [52] Seus habitantes não podem ser julgados pelo administrador nem pelos magistrados. Estes quatro mansos livres são os seguintes: as fábricas de cerveja de Santa Waldru, de São Germano e os dois mansos do protetorado. [53] A igreja de Santa Waldru pode ter sempre em Mons quatro servos livres que não devem ao conde a talha, nem a exacção e o serviço de hoste ou exército, e não podem ser julgados pelo administrador nem pelos magistrados, somente pelo capítulo de Santa Waldru.

Além disso, esta igreja tem seus próprios administradores e magistrados para todas as suas vilas, sejam as procedentes do domínio alodial de Santa Waldru ou as que são oferecidas como esmola. Frente ao poder do conde, abade e protetor, e ao de todos os feudais, a igreja tem o domínio absoluto, o direito e a jurisdição de todas elas. De sua parte, o conde, como abade, tem em Mons o administrador e o magistrado do tribunal abacial, que podem apresentar testemunho e exercer a justiça junto com os outros administradores e magistrados da igreja. O conde, na qualidade de abade, recebe no dia de Natal a homenagem e o pagamento de alguns administradores de Quaregnon, Jemappes, Frameries, Quevy, Cuesmes, Nimy e de um administrador de Ville-sur-Haine, de Herinnis, de Castres, de Hal, de Braine-le-Château e de Braine-le-Comte, mas o conde não pode levar consigo estes administradores nas causas judiciais, exceto às da igreja de Mons junto ao capítulo e a seus pares.

Se algum desses administradores quiser obter o ofício por direito de herança, caso sua bailia pertencer a uma das vilas de Hainaut, deverá dar à igreja de Santa Waldru, em reconhecimento vassálico da bailia, quarenta soldos de Hainaut. Em caso de as vilas serem situadas no Brabante, todo administrador que tenha homenagem ao conde como abade deverá pagar à igreja sessenta soldos em moeda de Neville, e uma vez solicitada à igreja a bailia, pago o reconhecimento, jurada a fidelidade à igreja dando fé sobre os Santos Evangelhos, o conde como abade deverá aceitar isso sem transgredir a homenagem e a apresentação à igreja. As outras bailias que não devem homenagem ao conde fazem esse pagamento por sua vontade e misericórdia. São essas: Maffle, Bouvines, Hamme, Hofstade, Raismes, Bossu e uma de Ville-sur-Haine. Caso ocorra de qualquer das vilas de Santa Waldru desejar vender ou alienar a bailia, deverá fazê-lo com o consentimento do capítulo.

Na primitiva fundação da igreja, sob o comando da abadessa foram nomeadas: uma prepósita para reger os assuntos temporais; [54] uma decana para os espirituais e uma guardiã para a custódia dos santos, dos tesouros, dos ornamentos da igreja e o cuidado dos servos e servas, das luzes, dos sinos e outras coisas necessárias. Mas assim que os condes foram dotados da dignidade abacial, cujas competências correspondem à prepositura, [55] custódia e doação de prebendas, concederam a prepositura e a custódia aos clérigos, já que estes podiam deslocar-se com maior facilidade e ocupar-se melhor dos assuntos da igreja.

Determinaram também prebendas da igreja de Santa Waldru a São Germano, para servirem como capelães na dita igreja e celebrarem os ofícios divinos no mosteiro. Todos os dias um sacerdote, um diácono e um subdiácono devem celebrar a missa maior e todos os domingos devem tomar parte nas rezas, assim como na procissão da Ascensão do Senhor. E todos os cônegos devem participar dos ofícios divinos, vésperas, matinas [56] e missa maior junto com as canonisas, no Natal durante quatro dias, o dia da Circuncisão, da Epifania, da Purificação da Virgem, na Páscoa durante quatro dias, pela Ascensão, em Pentecostes outros quatro dias, o dia da Assunção, na festa de Todos os Santos e a de Santa Waldru. Na Quinta e Sexta-feiras Santas, na Vigília da Páscoa e na de Pentecostes devem tomar parte na missa. Os cônegos de São Germano recebem da igreja maior dez módios de aveia [57] e quatro de grãos de inverno pela missa celebrada no altar de Santa Waldru, quer dizer, no altar posterior que recebe o nome de altar do presbítero.

De tudo que Santa Waldru recebe como dom, São Germano recebe a terça parte, exceto se se trata de tecidos pintados, terras, ouro ou panos de seda. Em troca de todas as doações de São Germano, Santa Waldru recebe dois terços, exceto igualmente se se trata de terras, ouro, ou tecidos de seda. Todas as oferendas ao altar maior, a não ser que venham para o sacerdote-estola, [58] pertencem a São Germano, se não se trata de terras, ouro ou panos. Nos mosteiros e capelas restantes da vila de Mons, as oferendas aos altares que não chegam para o sacerdote-estola pertencem ao prepósito de Santa Waldru, ainda que se trate de terras, ouro ou panos de seda. As velas do dia da Purificação de todos os mosteiros e capelas, qualquer que seja a forma que tenham sido obtidas, pertencem também ao prepósito, também as oferendas da Vigília da Páscoa.

São Germano tem sob sua custódia espiritual todos os clérigos da vila de Mons e seus próprios cônegos, capelães, cônegos familiares, clérigos escolares, os quatro servos de Santa Waldru, os cervejeiros de São Germano, os servos da herdade do conde e os próprios condes, quando estes se encontram em Mons. A todos eles os sacerdotes de São Germano prestam serviços eclesiásticos tanto em vida quanto na morte. Os cônegos de São Germano têm que procurar a igreja de Santa Waldru assiduamente para celebrar as missas maiores, com sacerdote, diácono e subdiácono, e devem socorrer esta igreja nas grandes solenidades do ano, não podendo reunir-se no mosteiro de São Germano para celebrar a missa maior nem para as horas paroquiais.

Em São Germano tem que celebrar vésperas e matinas nos dias de festa, no Advento e na Quaresma, junto com os clérigos, exceto os dias de grandes solenidades que, como disse, têm que socorrer o mosteiro-mor. Os dias restantes devem assistir à missa e as horas paroquiais no mosteiro de São Germano.

Em razão dos bens que tem na abadia, o conde de Hainaut deve liberar a igreja de Santa Waudru e pagar por ela o que em ocasiões requer o papa ou seus cardeais e legados, o senhor de Reims e seus oficiais, o senhor de Cambrai e os seus, quer dizer, a gista ou porsonia. [59] Os cônegos de São Germano, como os capelães de Santa Waudru, também estão livres de exações. Se o conde de Hainaut ou alguma outra pessoa violentar ou injuriar a igreja de Santa Waltru, a comunidade poderá deixar de celebrar os ofícios eclesiásticos e além disso, como protesto, poderá desenterrar o corpo de Santa Waldru até que se dê a satisfação das injúrias recebidas. Nas ocasiões que isso ocorreu e foi desenterrado o corpo da Santa, muitos malfeitores sofreram grandes tormentos pela vingança divina e nunca se viu alguém permanecer impune. [60]

O conde de Hainaut reclamou pelo protetorado, que exercia uma parte dos bosques de Santa Waudru e então foi-lhe entregue o bosque de Mons em propriedade. A doação do cargo de prepósito de São Germano cabe ao conde pelo direito que lhe outorga a dignidade abacial, já que o prepósito recebe do conde, de suas mãos e de uma única homenagem, a abadia, isto é, as prebendas, o cargo de prepósito, a custódia e a proteção das terras e dos homens. Ao prepósito de São Germano cabe a jurisdição sobre os cônegos do mosteiro e sobre os clérigos de qualquer ordem que se encontre em Mons, exceto os cônegos de Santa Waudru que são julgados pelo prepósito de Santa Waudru e pelo capítulo. O prepósito de São Germano e o prepósito ou prepósita de Santa Waudru tem que prestar homenagem e jurar fidelidade ao conde, assim como o abade, e por esta razão podem tomar parte em sua corte, em processos e testemunhos. Santa Waudru possui muitos outros privilégios que não detalharemos, mas também não passaremos, com o que ocorreu com aqueles que tentaram converter a ordem de canonisas de Santa Waudru em outra ordem.

Aconteceu um dia que um conde de Mons, após um severo Conselho celebrado contra as canonisas de Santa Waudru, incendiado pela ira, jurou subitamente expulsar as canonisas da igreja e instituir essa mesma igreja em uma ordem de clérigos. Quando foi comunicada essa decisão às damas por meio de um secretário do conde, elas se prostraram diante o corpo de Santa Waudru rogando ao Senhor e orando que as livrassem de tão injusta opressão. Graças a esses votos Deus quis velar que permanecessem em sua ordem com as mesmas liberdades de então. Ao chegar a noite, a morte surpreendeu o conde e o mal que pretendia ficou inacabado.

Outra vez aconteceu que certo conde chamado Raineiro, homem religioso e sábio que freqüentava devotadamente a igreja de Santa Waudru assistindo às matinas e as outras celebrações das horas, deixou-se sugestionar por gente malvadas que lhe dizia que os clérigos seriam muito mais úteis à igreja que as damas, decidiu expulsá-las. Uma noite, na festa do mártir São Vicente, o conde foi ao mosteiro com clérigos voluntários escolhidos por ele para ocupar as prebendas; as damas ainda dormiam quando o conde, em uma hora inadequada da manhã, trancou as portas das habitações das damas e quis iniciar a celebração solene das matinas com novos clérigos. Ao iniciar o som de suas vozes clamorosas, despertaram as damas.

Elas então correram presunçosas até o mosteiro mas não puderam passar. Os clérigos diziam a Antífona do Convite comum, o Justus florebit. As canonisas permaneceram de pé no claustro, junto à porta do mosteiro e, sofrendo a injúria com paciência, entoaram as matinas melhor e mais adequadamente, como condiz aos doutos, iniciando com a Antífona do Convite, própria da festa Vincentem mundum. [61] Ao ouvi-lo o conde mandou abrir as portas, fez entrar as damas e dirigiu essa palavras aos clérigos: “Distanciem-se daqui. Elas são doutas e instruídas e conhecem os ofícios eclesiásticos, vós sois ignorantes.”

Em outra ocasião, o conde Balduíno IV, aquele que posteriormente foi enterrado diante o altar maior de Santa Waudru, ao morrer uma de suas canonisas deu a prebenda vaga a um clérigo chamado Gerardo. A comunidade, gravemente ofendida com a afronta do conde, se negou a recebê-lo como cônego. O conde não quis escutar as queixas desta igreja e, após entregar a prebenda sem ater-se ao costume e à ordem justa, marchou até Binche. Ao chegar, foi afetado repentinamente por uma enfermidade tão terrível que não podia estar de pé, nem sentado, nem ficar recostado.

Por conselho de alguns de seus familiares, [62] homens prudentes, regressou à ordem, apesar dos sofrimentos físicos, a igreja de Santa Waudru e, arrependido de sua má ação, pediu misericórdia humildemente à Santa e ao capítulo e restituiu a prebenda às damas. Após este ato o conde sarou. Ao cabo de um tempo, um cardeal chamado Gerardo, legado da Sé apóstólica, aconselhado por homens pérfidos e a pedido de muitos clérigos e pela intercessão da própria condessa Adelaide, cujo corpo foi enterrado depois na cripta superior da igreja, saiu do condado de Namur, passou pela terra dos avalenses e, atravessando Hainaut, chegou à igreja de Santa Waudru, conduzido pela própria condessa. Algumas prebendas se encontravam vagas na igreja e o cardeal tentou entregá-las ao mencionado Gerardo e a outros clérigos. Mas quando o cardeal estava no coro com a condessa e ia conceder as prebendas aos clérigos sem ceder às reclamações das damas que pediam justiça e juízo, elas se precipitaram sobre os clérigos e os expulsaram da igreja. O cardeal se retirou confuso e as damas, apoiadas pela benevolência do conde, permaneceram em paz.

Riquilda e seu filho Balduíno II

Voltemos agora à condessa Riquilda e seu filho Balduíno II, que levavam constantemente a cabo a guerra contra Roberto, o Frisão e seus homens de Flandres. Um dia, o jovem conde Balduíno, probo em armas, chegou a um acordo de paz com os homens de Flandres; prometeu e jurou tomar por esposa a uma neta do conde Roberto quem nunca havia visto nem escutado falar de sua horrível deformidade. Para que Balduíno não pudesse voltar atrás, o astuto Roberto pediu ao conde que lhe desse o castelo de Douai que era de sua propriedade como prenda, aceitando como garantia os homens que custodiavam o castelo, de forma que se o conde de Hainaut não se casasse como havia jurado não teria a fortaleza devolvida, somente por uma grande soma de dinheiro. Quando Balduíno viu sua futura esposa e comprovou sua enorme fealdade e indecência a rechaçou e, desprezando-a, rompeu o pacto. Em troca, tomou por esposa Ida, irmã de Lamberto, conde de Louvain, que era uma mulher religiosa e honesta.  Assim Douai ficou em mãos de Roberto e dos condes de Flandres que lhe sucederam, pois os de Hainaut não conseguiram recuperá-la, nem pela justiça, nem com dinheiro. Balduíno teve dois filhos com Ida; Balduíno III, o primgênito, que lhe sucedeu no condado de Hainaut, e Arnulfo. Teve também duas filhas.

Balduíno II, que dominava todo o condado de Hainaut, concedeu muitos bens em terras no território de Avesnes e em outros lugares a Gosuíno, homem nobre e oriundo da vila de Disy-le-Verger, em Cambrai, par do castelo de Mons. [63] Ele lhe rendeu homenagem lígia enquanto possuiu e estava obrigado a prestações contínuas por seu estágio no castelo. [64] Contudo, apesar da fidelidade jurada a seu senhor, ele empreendeu a construção de uma torre em Avesnes sem nenhum direito e contra a vontade do conde. Logo, admoestado pelo próprio conde recusou-se acudi-lo perante o tribunal de sua corte. O conde Balduíno lançou-se em armas contra ele e foi a seu encontro com muitos de seus homens, próximo do rio Sambre. Ali combateram encarniçadamente durante dois dias, e no terceiro o conde venceu Gosuíno e o conduziu a Mons como prisioneiro. Graças aos pedidos de seus fiéis que eram homem nobres, o conde só cortou sua barba e deixou-o partir. Com o passar do tempo Gosuíno recobrou o favor de seu senhor e pôde terminar a torre, que foi solidamente construída, fato que mais tarde prejudicaria gravemente a outro conde de Hainaut.

A cidade de Jerusalém e sua história

Naquele tempo, a cidade santa de Jerusalém, Armênia, Síria e parte da Grécia quase até o Braço de São Jorge [65] se encontravam ocupadas pelos infiéis. Por isso, a maior parte dos homens do Império Romano [66] e do reino da França se dispuseram a socorrer a Igreja do Oriente. Balduíno II, que era um cavaleiro poderoso em armas e generoso em esmolas, quis aumentar ainda mais suas boas obras e decidiu unir-se a eles.

Muitos desejarão saber quem edificou pela primeira vez a cidade de Jerusalém. Lê-se no Gênesis que Malquidesec, rei de Salem, fazendo oferenda de pão e vinho – pois era sacerdote do Deus Altíssimo – bendisse a Abraão. No livro de Josué se lê que quando foi dividida a Terra Prometida entre as doze tribos, Salem era a própria Jerusalém. Por isso, já que Malquidesec dizia ser rei de Salem, muitos têm deduzido que ele foi seu construtor. Os hebreus também dizem – e São Jerônimo o confirma – que este Malquidesec foi Sem, filho de Noé, que a cidade foi fundada por ele depois do Dilúvio e nela reinou com seus descendentes. É precisamente por isso que dizem que ele era sacerdote, pois pela Lei de Moisés todos os primogênitos o eram, e Sem foi o primogênito. Essa foi também a primogenitura aspirada por Jacó quando disse a seu irmão Esaú: “Venda-me tua primogenitura”, isto é, o direito à dignidade sacerdotal.

Quando mais tarde os jebuseus tomaram Salem, esta, segundo conta o Livro dos Juízes, recebeu o nome de Iebus. Depois, transformando a letra b em r e unindo os nomes de Iebus e Salem, a cidade foi então chamada Jerusalém. Seu primeiro rei, Davi, colocou um trono e se fez cabeça do reino de Israel. Salomão construiu ali um templo e em honra deste rei, segundo narra Santo Isidoro [67], se chamou Ierosolimitano, quase como Ierosalomoniano. O primeiro rei da Babilônia, Nabucodonosor, incendiou o templo, destruiu a cidade e levou seus habitantes cativos, mas depois de setenta anos, Ciro, rei dos persas, ordenou aos judeus que regressassem e reconstruissem a cidade e o Templo.

Após algum tempo, o rei Antíoco, conforme se lê no Livro dos Macabeus, entrou nela com um grande exército, destruiu a maior parte das muralhas, quis converter os judeus e infiéis e construiu na mesma cidade uma fortaleza na qual estabeleceu aqueles infiéis. Judas Macabeu conseguiu expulsar muitos deles levando a cabo uma guerra contínua. Ele fortificou novamente a cidade, mas não pôde tomar a fortaleza. Tampouco seu irmão Jônatas pôde, mas seu terceiro irmão, Simão, que lhe sucedeu no principado, a tomou, expulsando os infiéis e purificando a cidade. Assim a possuiu, junto com seus filhos, até depois de sua morte, tal como se refere José, estes litigaram entre si pela posse do reino e da dignidade sacerdotal e um deles slicitou a ajuda de César Pompeu, que veio até Jerusalém, derrotou um e deu o principado a outro, convertendo a cidade em súdita de Roma. Enviado por César, chegou Herodes e durante seu governo nasceu Cristo que, com Sua vida, Seus milagres e Sua Paixão e sepulcro glorificou a cidade a tal ponto que São Mateus Evangelista não duvidou de chamá-la Cidade Santa.

Depois da Paixão do Senhor, Vespasiano e seu irmão Tito a destruíram de modo que aconteceu o que o Senhor predissera no Evangelho: “Não ficará nela pedra sobre pedra”. O imperador Hélio a reedificou e lhe deu o nome de Hélia. Mais tarde, quando Constantino Augusto foi batizado por São Silvestre, sua mãe Helena Augusta encontrou na cidade a cruz do Senhor. Cortou-a no meio e deixou uma de suas partes ali; a outra levou para Constantinopla, que antes se chamava Bizâncio, mas nesta época elogiada e regiamente edificada por Constantino recebeu o nome de Constantinopla.

Muitos anos mais tarde, o rei pagão dos persas, Cósroes, tomou Jerusalém e levou a metade da cruz para a Pérsia. Colocou-a em um templo que edificou para si mesmo, e tendo uma vez passado seu trono e reino para seu filho, este invadiu o reino dos cristãos com um exército de infiéis. Heráclio, imperador de Constantinopla, saiu a seu encontro com o exército cristão e na ponte de um rio, por um sinal do Senhor, o venceu e o degolou. E assim foi retomada a terra que seu pai havia arrebatado. Após subjugar o exército pagão, Heráclio partiu para a Pérsia com a milícia cristã. Chegou ao templo onde morava o pérfido Cósroes e o encontrou sentado no trono de ouro. Admoestou-o para que se fizesse cristão pois tomaria dele o reino da Pérsia, mas ele não quis se converter. Então, desenbainhou sua espada, cortou sua cabeça e batizou seu filho, que ainda era pequeno e, tomando-o da fonte batismal, concedeu-lhe o reino da Pérsia, levando-o consigo como refém para que mais tarde estivesse sujeito a ele.

A cruz do Senhor que Cósroes havia levado para a Pérsia foi novamente trazida para Jerusalém e colocada outra vez no Sepulcro do Senhor, tal como se lê publicamente nas igrejas em exaltação à Santa cruz. E assim o reino da Pérsia ficou ligado por um longo tempo ao império de Constantinopla e o culto da fé cristã floresceu em Jerusalém e em muitas cidades do Oriente até que Deus, ofendido com os pecados dos cristãos, deixou novamente que prevalecesse o erro dos pagãos. Estes atravessaram seus confins, penetraram em Jerusalém e tomaram a cidade e o Santo Sepulcro, obtendo ainda a Armênia, a Síria e parte da Grécia, quase até o mar que chamam de Braço de São Jorge.

A chamada para a Primeira Cruzada

Então, Aleixo, imperador de Constantinopla, vendo seu reino reduzido pelas incursões dos infiéis, estremecido, enviou legados à França com cartas, animando os príncipes a virem em socorro da desolada Jerusalém e da Grécia, pois se encontravam em grande perigo. Por isso, também escreveu ao conde Roberto, o Frisão, senhor de Flandres que, como já dissemos, era irmão de Balduíno I, conde de Flandres e de Hainaut. Roberto tinha uma irmã, Matilde, esposa de Guilherme, conde da Normandia e depois rei da Inglaterra. Matilde engendrou três filhos dele: Guilherme, Roberto e Henrique, e uma filha chamada Adela, esposa de Estêvão, conde de Blois. Adela engendrou um filho dele, Tebaldo, conde poderosíssimo que ampliou muito seus bens no reino da França e que, por sua vez, teve quatro filhos: Henrique, conde de Troyes, Teobaldo, conde de Blois, o conde Estêvão e Guilherme, arcebispo de Reims, além de quatro filhas: Adélia, rainha da França [68] e mãe de Filipe, poderosíssimo rei dos francos, [69] a duquesa da Borgonha, a condessa de Bar e a condessa de Perche.

Dos dois filhos do rei da Inglaterra e de Matilde, Guilherme, o primogênito, quando morreu seu pai o sucedeu no reino; Roberto foi conde da Normandia e alguns anos depois, Henrique o sucedeu no trono, após Guilherme morrer pelas mãos de um de seus cavaleiros quando caçavam juntos no bosque. Morto Henrique, reinou seu sobrinho Estêvão, irmão de Teobaldo, conde de Blois, que teve por esposa uma filha de Eustáquio, conde da Bolonha, irmão de Godofredo e de Balduíno, de quem mais tarde obtiveram o reino de Jerusalém.

Por outro lado, o imperador de Constantinopla, Aleixo, também pediu auxílio e conselho ao papa de Roma, Urbano, a respeito das incursões dos infiéis. Este, que se chamava Otão antes de alcançar o papado, era oriundo da preclara estirpe dos francos. Primeiro foi clérigo, logo se fez monge e foi nomeado prior de Cluny. Posteriormente, por seus muitos méritos foi-lhe entregue o bispado de Óstia. Finalmente foi chamado a ocupar a Sede Pontifícia, recebendo então o nome de Urbano. Quando recebeu as súplicas do imperador Alexis, este homem extraordinário, comovido por elas mas impulsionado sobretudo pelo perigo geral contra a cristandade, foi ao reino da França e em uma cidade chamada Clermont, na Auvérnia, convocou um Concílio para tratar de todas essas coisas. Convidou para participar dele todos os homens da França e da Germânia. Vieram clérigos e laicos e então ele lhes exortou com um piedoso sermão para irem em socorro da Cidade Santa de Jerusalém e das igrejas do Oriente. Seu discurso foi tão doce e adequado que muitos e grandes homens tomaram o sinal da cruz para si e se puseram rapidamente no caminho.

Além disso, neste mesmo Concílio, o papa Urbano, sentindo-se cheio de autoridade, excomungou Filipe, rei da França, por ter repudiado sua esposa Berta e se unido à esposa do conde de Anjou, Bertrada, e o fez com tamanha firmeza que não quis escutar as intersessões dos grandes e notáveis do reino nem temeu permanecer no interior do mesmo. Neste mesmo Concílio, o papa Urbano deu a todos os fiéis um sinal para que no meio da batalha todos clamassem a uma só voz: “Deus o quer, Deus o quer!”. E assim o fizeram.

O Concílio de Clermont foi celebrado no ano da Encarnação do Senhor de 1095. Depois, muitos príncipes se apressaram em partir em auxílio do Senhor. Entre eles estavam Boemundo, filho do duque de Apúlia, seu primo Tancredo, Ramon, conde de Toulouse, o bispo de Puy, Hugo, o Grande, irmão do rei Filipe da França, Roberto, conde de Normandia, o jovem conde Roberto II, de Flandres, filho de Roberto, o Frisão e Godofredo, duque de Boillon, com seus irmãos Balduíno e Eustáquio. A eles se juntou Balduíno II, conde de Hainaut, para ir em auxílio do Senhor e de todo o seu território.

Saiba-se, além disso, que quando Godofredo decidiu empreender o caminho, entregou à igreja de Liège, em troca de uma certa soma de dinheiro, toda a sua propriedade alodial de Boillon, com a condição de que, se por vontade divina, ele falecesse nas terras de Ultramar, [70] passaria tudo para propriedade da Igreja. Mas se Deus lhe permitisse regressar com vida poderia redimi-lo com a mesma soma de dinheiro aceita. E como Godofredo, por ter conquistado o reino de Jerusalém nunca mais voltou, o castelo de Boillon, com todos os seus pertences, passou a ser propriedade da igreja de Liège. A jurisdição sobre o ducado da Lotaríngia e os feudos correspondentes, por sua vez, foram entregues ao nobre Henrique de Limbourg, de modo que ele, seu filho e muitos de seus descendentes, senhores de Limbourg, tiveram o ducado, e ainda que não fossem duques, foram chamados de duques.

O conde Lamberto de Louvain, pai de Godofredo, chamado de o duque Barbudo, príncipe muito poderoso, obteve finalmente a dignidade ducal das mãos do imperador, e assim o ducado passou aos condes de Louvain quem, apesar disso, nunca exerceram a jurisdição do mesmo fora de suas próprias terras.

O exército cristão, com muitos e grandes esforços, atravessou a Hungria, a Bulgária, a Grécia e Constantinopla, sugjugou a maior parte das cidades e chegou a Antioquia. O imperador Alexis [71] havia jurado aos cristãos que viria com seus homens caso eles necessitassem de ajuda. Assim, ele enviou um reforço de três mil homens armados com seu senescal Tatín. Os cristãos haviam jurado ao imperador, por sua vez, que se recebessem seu auxílio, toda a terra de Constantinopla até Antioquia, incluída essa, voltaria a estar em seu poder. No dia que chegaram a Antioquia e acamparam frente à cidade para sitiá-la, Balduíno II de Hainaut foi nomeado chefe da retaguarda do exército.

Uma vez fixadas as tendas e colocados ordenadamente todos os príncipes do exército em volta da cidade, o conde de Hainaut não encontrou nenhum sítio para acampar a sua tenda. Então, Balduíno II, embora desconfiasse dos homens de Tatín que foram enviados pelo imperador e estivesse inquietado com sua perfídia para com os cristãos, não temeu instalar-se entre suas tendas e os muros da cidade, tendo que suportar com dureza os contínuos ataques dos turcos. Por esse motivo, sua fama se espalhou por todo o exército cristão.

Quando a cidade foi tomada, os príncipes do exército quiseram manter o pacto firmado com o imperador de Constantinopla e lhes enviaram como legados Hugo, o Grande, irmão de Filipe da França e o conde de Hainaut, Balduíno II, junto com uma multidão de cavaleiros para entregar-lhe a cidade tal como haviam jurado e para que, retomando-a, a repovoasse. Mas tiveram que experimentar a maldade dos turcos e foram atraiçoados. Uns morreram, outros foram feitos prisioneiros e só alguns conseguiram salvar-se, fugindo. O conde de Hainaut desapareceu neste conflito, mas ainda hoje continuamos ignorando se ele morreu ali.

Por este motivo, sua esposa, a condessa Ida, quando recebeu a notícia do infortúnio de seu senhor, sem saber se ele estava morto ou aprisionado, pelo amor a Deus e a seu esposo sem duvidar um instante se pôs no caminho em direção àquelas terras, apesar do grande esforço e dos enormes gastos necessários a isso. E se partiu incerta da sorte de seu esposo, regressou ainda mais incerta. Então, como era uma mulher religiosa, se dirigiu a Roma com a intenção de orar. De regresso dessa peregrinação, quando passava por Ardenne, onde possuía alódios próximos da igreja de São Humberto, o conde de Chiny a agrediu violentamente e quis raptá-la.

A condessa Ida conseguiu fugir para a igreja de São Humberto e permaneceu ali por algum tempo até poder passar com segurança para Hainaut. Agradecida pelo favor e a hospitalidade que esta igreja lhe oferecera, ela conferiu em propriedade todos os alódios que tinha naquelas terras, que sua avó, a condessa Riquilda já havia entregue uma parte a esta mesma igreja, em plena liberdade e a outra parte provisoriamente. [72] Ao reunir assim todos estes bens, ela decidiu além disso que quem fosse abade de São Humberto futuramente também seria capelão do conde de Hainaut, de modo que deveria ir três vezes por ano a Hainaut para aconselhar o conde e celebrar os Santos ofícios, como a grande solenidade do Natal, da Páscoa e do Pentecostes, trazendo consigo duas vasilhas cheias de vinho de Lieser, essas que a língua vulgar chama de barris.

*

Notas

[1] A versão completa da Cronicon Hanoniense encontra-se em um único manuscrito datado do século XV (Biblioteca Nacional de Paris, Ms. Latino 11.105). Alguns fragmentos dele encontram-se em várias obras do século XIV, como os Annales Hanoniae, de Jacques de Guise, e o Chronicon, de Balduíno de Avesnes. Nossa tradução baseou-se na edição Cronica de los condes de Hainaut (trad. de Blanca Garí de Aguilera). Madrid: Ediciones Siruela, 1987 (aproveitamos ainda suas sessenta e cinco notas explicativas).

[2] Isto é, imperadores do Sacro Império Romano Germânico. Na Idade Média, o imperador tinha o direito de ser coroado pelo Papa após sua eleição, e só depois desta coroação poderia usar o título de imperador. Até então, usava apenas o título de rei dos romanos. Para assegurar a sucessão de seus filhos no Império, os imperadores se esforçaram para elegê-los rei dos romanos enquanto viviam, como fez Frederico Barba-Ruiva com Henrique VI (1190-1197), e como fizeram, por sua vez, Henrique VI e Frederico II (1212-1250). Ver MASSON, Georgina. Frédéric II de Hohenstaufen. Paris, Albin Michel, 1963.

[3] Povoado na Antigüidade pelos nervianos, Hainaut é atualmente uma cidade (e também província) da Bélgica.

[4] Balduíno IV (1120-1171) casou-se em 1127 e adquiriu através desse casamento o direito pelo condado de Namur.

[5] Balduíno III (1099-1120).

[6] Cidade na Bélgica, capital de Hainaut, situada sobre um acampamento de Júlio César.

[7] Balduíno V, o Corajoso (1171-1195), e conde de Flandres (1191-1195).

[8] Namur, província da Bélgica, era parte da Austrásia e depois da Lotaríngia. No século IX, Namur pertencia ao condado de Name. A primeira dinastia de condes de Namur data dos anos 907-952.

[9] Flandres era um condado autônomo resultante da desintegração do Império Carolíngio.

[10] Ao contrário do que se costuma pensar, as mulheres também herdavam feudos na Idade Média. Juridicamente falando, eram chamados “feudos de roca” (fiefs de fuseau): “Assim, o condado de Hainaut foi enfeudado, em 1071, à condessa Richilde. Numerosas foram, desde então, as mulheres que detiveram grandes feudos e exerceram o poder político que daí decorre; citemos as condessas de Flandres, Joana e Margarida de Constantinopla (1205-1244 e 1244-1280), a duquesa de Brabante, Joana (1355-1406), Margarida da Baviera, em Hainaut (1345-1356), Maria de Borgonha para o conjunto dos pays de par deçà (1477-1482). Em França e Alemanha mesmo os maiores feudos transmitem-se às mulheres que, então, desempenham em pessoa os seus serviços feudais, salvo a hoste.” - GILISSEN, John. Introdução Histórica ao Direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p. 602. Foi o próprio imperador Henrique IV quem legalizou a enfeudação do condado de Hainaut à condessa Riquilda feita pelo duque da Baixa Lotaríngia. Nas disposições estabelecidas para o futuro, ficou previsto inclusive o caso de outra mulher receber a sucessão. O caso foi um dos primeiros em que uma mulher recebeu um condado como feudo. Ver GANSHOF, F. L. Que é o Feudalismo. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 189-191.

[11] Balduíno I, conde de Flandres (1067-1070).

[12] Trata-se de Roberto II, o Piedoso, rei da França (996-1031).

[13] Cenóbio = Habitação de monges, convento.

[14] Embora o cronista Gislebert de Mons esteja se referindo a Henrique I (c. 1009-1060), na verdade se equivocou: tratava-se de Filipe I (1053-1108), cuja regência foi assumida por Balduíno V de Flandres e não por Balduíno I de Hainaut.

[15] Alódio = bem familiar recebido dos antepassados e transmitido por herança de geração em geração. Inalienável fora do grupo familiar, o alódio está associado à glória da linhagem. Nos séculos XI e XII designava qualquer tipo de bem fundiário. É importante ressaltar que existiam alódios aristocráticos e camponeses, e que estes últimos estavam isentos de tributação - somente aquela que dizia respeito à justiça. (os chamados direitos banais) Em contrapartida, a longo prazo, o alódio camponês foi engolido pelos progressos da economia monetária, especialmente a partir do século XI. Ver BONNASSIE, Pierre. Dicionário de História Medieval. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985, p. 26-29. Para o caso da região de Hainaut, as pesquisas mais recentes indicam que os alódios camponeses representavam uma parcela considerável das terras. Ver HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Lisboa: Edições Asa, 1994, p. 209.

[16] Feudo = de 890 até 1020-1030 o feudo era um bem público (geralmente um território fiscal) concedido a um agente da autoridade pública em troca de serviços públicos. A partir da primeira metade do século XI, pouco a pouco o feudo tornou-se um bem privado (cobranças, pedágios, direitos de justiça, cunhagem de moeda, bens fundiários), concedido em troca de serviços de natureza também privada.

[17] Isto é, bastardo.

[18] Roberto, o Frisão (1071-1093), “...dito ‘conde aquático’ porque vivia na Frísia.” — DUBY, Georges. A Idade Média na França. De Hugo Capeto a Joana D’Arc. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p. 146.

[19] Isto é, o reconhecimento do dever de fidelidade de um vassalo em respeito a seu senhor, com as devidas garantias e o compromisso de não trair seus direitos. Tratava-se, portanto, da renovação do voto de vassalidade entre o conde e seus homens, que era dividido em três partes: 1) a Homenagem (tornar-se homem de outro homem), 2) a Fidelidade (juramento feito sobre a Bíblia e relíquias de santos, como diz o texto) e 3) a Investidura (recebimento por parte do vassalo de um objeto - punhado de terra, folhas, ramo de árvore), simbolizando o feudo recebido (no caso em questão, provavelmente isso já deveria ter ocorrido, pois os vassalos foram chamados apenas para concordarem com seu novo senhor). Ver FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média. Nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 92.

[20] No original, “encomendou seu filho..”, termo tipicamente medieval que exprimia a relação vassálica entre dois pares.

[21] A usurpação do condado de Flandres por Roberto, o Frisão, ocorreu em 1071. Ver DUBY, Georges. A Idade Média na França. De Hugo Capeto a Joana D’Arc, op. cit., p. 282.

[22] Auxílio (auxilium), isto é, a ajuda que o vassalo devia a seu senhor, especialmente militar.

[23] Sucedeu a seu pai, Roberto, em 1031 e reinou até 1060.

[24] Nesta batalha, em 1071, teria morrido ainda Guillaume de Crépon, terceiro marido de Riquilda. In: ISENBURG, Wilhelm Karl, Prinz von. Stammtafeln zur Gerschichte des europäischen Staatten. Verlag von J. A. Stargardt. Marburg, 1965.

[25] Homem lígio = expressão que define o serviço preferencial de um vassalo a um senhor, na paz e na guerra. “No caso - muito freqüente em França a partir do século X - de haver uma pluralidade de compromissos de vassalagem, a homenagem lígia é, a partir do início do século XI, aquela que prevalece sobre as outras, em geral por causa da importância do feudo. Esta homenagem obriga o vassalo de forma prioritária para com o soberano a quem foi prestada; e só pode ser prestada a um único suserano. Mas, na prática, foi também prestada a vários.” - LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984, vol. II, p. 308.

[26] O papa Alexandre II (Anselmo de Baggio, 1061-1073).

[27] Probo (do latim probu). De caráter íntegro, honesto, reto, justo. Trata-se de um dos adjetivos mais utilizados por Gislebert de Mons para elogiar um nobre.

[28] Senescal = Espécie de supervisor das terras de um senhor feudal, mordomo-mor que dirigia os alcaides dos domínios de seu senhor.

[29] Copeiro = Encarregado principalmente da adega e de servir o vinho à mesa.

[30] Camareiro = A mesma função atual, isto é, aquele encarregado do serviço de quarto.

[31] “O regulamento interno de uma enorme casa, a corte de Hainaut, proporciona uma das visões mais claras desses serviços e de seu funcionamento (...) Três ofícios, no documento que exploro, são considerados principais (...) o senescal-mor, o camareiro-mor e o copeiro-mor ocupavam esses ofícios (...) Eles passavam por servir o conde no principado inteiro...” — DUBY, Georges. “Convívio”. In: DUBY, Georges e ARIÈS, Philippe (dir.). História da Vida Privada 2. Da Europa Feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 83.

[32] Ministeriais = cavaleiros de condição servil. “...considerados como membros plenos da família, comendo com o senhor, por certo dormindo na casa...” — DUBY, Georges. “Convívio”. In: DUBY, Georges e ARIÈS, Philippe (dir.). História da Vida Privada 2. Da Europa Feudal à Renascença, op. cit., p. 83.

[33] Feudo lígio = lige, no regime feudal dizia-se do indivíduo que, tendo recebido terras ou privilégios do soberano, ficava assim abrigado a servi-lo na paz e na guerra. Ver também nota sobre a homenagem lígia (nota 25)

[34] Protetorado = Situação jurídica onde um particular passa a exercer a autoridade de um território que não lhe pertence. No caso em questão, o bispo Teoduíno conseguiu que o imperador de Roma concedesse à Igreja de Liège os feudos do Império que antes eram administrados pelos condes de Hainaut em nome do imperador. Desse modo, o bispo passou a ser o protetor da igreja de Mons no lugar do conde Balduíno, recebendo todas taxas e encargos fiscais que lhe eram devidos e tendo a obrigação de proteger a igreja em caso de ataque ou saque.

[35] Uma prebenda é qualquer renda eclesiástica, de um canonicato.

[36] Um capítulo era uma reunião de dignidades eclesiásticas para tratar um determinado assunto.

[37] Censo = pensão anual que era paga ao senhorio pela posse de uma terra ou em razão de um contrato.

[38] Em sua classificação de parentesco, Gislebert distingue o consangüíneo (os irmãos) do consobrinus (primos).

[39] O nome (castro) indica que provavelmente se tratava de uma antiga fortificação romana. Ver COSTA, Ricardo da. “A cultura castreja (c. III a.C. - I d.C.): a longa tradição de resistência ibérica”. Publicado nessa home-page.

[40] No original advocatus, termo que define a instituição do protetorado e a procuradoria laica sobre as terras da Igreja.

[41] O titulo de Oda é o de dama (domina), o que indica sua procedência nobre (dama porque domina) e assinala também seu caráter de canonisa secular, diferenciando-a do restante das monjas.

[42] Porsonia = Exações (cobranças) ligadas ao direito de albergue.

[43] Esta passagem é provavelmente uma interpolação – um acréscimo posterior –, pois Gislebert anteriormente afirmou que desconhecia a forma que o conde Hainaut adquiriu o título de abade de Santa Waldru.

[44] Teloneo e Foragia = Taxas sobre o tráfico de mercadorias e a venda de cerveja, respectivamente.

[45] O manso (mansus, do verbo manere, habitar) era uma unidade territorial e familiar sujeita à avaliação tributária, tipo de exploração agrícola mais conhecido e generalizado na Idade Média. O mansus era um dos elementos constitutivos da villa. Havia basicamente dois tipos de manso: o mansus indominicatus (terra do senhor) e os mansi (as tenures camponesas).

[46] Dízimo = a décima parte da colheita.

[47] Os magistrados formavam a justiça do conde (villicus = administrador senhorial e scabinii = magistrados).

[48] Mansos livres, isto é, menos sujeitos às imposições, geralmente apenas entre três e seis semanas de trabalho gratuito por ano.

[49] Talha = Contribuição arbitrária arrecadada pelo senhor uma vez por ano.

[50] Corvéia = Dias de trabalho não pago que o servo, ou melhor, a comunidade servil, devia a seu senhor, como, por exemplo, drenar pântanos, cavar canais e abrir florestas.

[51] Angária = Requisição ou aluguel de besta de carga.

[52] Hoste = Obrigatoriedade do serviço militar, de “servir na hoste de seu senhor”. Em relação a esta passagem da fonte, é importante destacar que muitos dos estudos mais recentes dos medievalistas amenizam enormemente o impacto dos impostos feudais na vida cotidiana dos camponeses medievais. Ver, por exemplo, HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Lisboa: Edições Asa, 1994, p. 218-231, que afirma, pelo contrário, que foi o Estado moderno quem multiplicou as obrigações dos encargos fiscais camponeses: “Interpretamos mal os nossos textos. Os censuais, as tarifas do tonlieux e, de maneira geral, todos os registros fiscais fornecem listas dos sujeitos tributáveis e precisam as quantias a pagar. E nós construímos com base nisto, mas trata-se de registros da base do imposto, e não da sua cobrança: são somas devidas, não somas efetivamente pagas. Em relação a uma época em que as recusas de pagar e os atrasos eram tão freqüentes, determinar a carga fiscal apenas pela base do imposto, por listas de censos ou de corvéias, equivale a transpor os nossos comportamentos de hoje para um tempo em que as coisas não se passavam da mesma maneira.” (p. 228).

[53] As “fábricas” de cerveja tinham uma grande importância econômica na Idade Média, sobretudo nas zonas setentrionais do Ocidente medieval.

[54] Prepósita = cargo de uma corporação religiosa, no caso, feminina.

[55] Prepositura (do latim praepositura) = cargo ou dignidade de prepósito (do latim praepositu, “posto à testa de”; antigo prelado de certas corporações religiosas).

[56] Horas das orações: matinas (meia-noite), laudes (três da manhã), primas (primeiras horas do dia, ao nascer do Sol ou cerca de seis da manhã), vésperas (seis da tarde) e completas (hora de dormir).

[57] Módio = Medida romana para grãos secos.

[58] Estola = Fita larga que os sacerdotes colocam acima da alva. No caso do texto (sacerdote-estola), trata-se de um sacerdote ordenado que oficia a missa.

[59] Gista ou Porsonia = exações ligadas ao direito de albergue.

[60] Santa Waudru (Waltru ou Waldetrudis) nasceu provavelmente no reinado do rei austrasiano/merovíngio Dagoberto II (c. 651-679) e morreu por volta de 688. Irmã de Aldegunda, fundadora da abadia de Maubeuge, e esposa de São Mauger (São Vicente de Soignies), ela fundou em Mons uma abadia beneditina da qual foi a primeira abadessa. Waudru é a patrona da cidade de Mons. Quando se tornou religiosa, ela colocou suas duas filhas no monastério de Maubeuge. Foi assim que, por ocasião da morte de Aldegunda em 680, Aldetrude sucedeu sua tia e governou o convento até 697, ocasião de sua morte. Foi então a vez de Maldeberte, que morreu no início do século VIII.

[61] Vincentem mundum = ofício instituído em honra a São Vicente.

[62] Na Idade Média, os conceitos de familia e familiares indicam o conjunto de dependentes de um senhor, incluindo servos e ministeriales. “A família aparece sob dois aspectos: em sentido lato e em sentido restrito. No sentido lato, compreende todos os que sentem entre si uma relação de parentesco; é o clã, chamado gens entre os Romanos, sippe entre os Germanos, zadruga entre os Sérvios, muitas vezes linhagem na Idade Média. Esta família estende-se tanto quanto o permitir o reconhecimento dos laços de sangue. Desempenha um papel essencial na organização social e jurídica das sociedades primitivas e também nas sociedades de tipo feudal (...) Os efeitos do parentesco são consideráveis. Todos os parentes estão ligados por solidariedades, quer ativas, quer passivas. A solidariedade familiar obriga todos os parentes a participar na vingança privada (...) ainda freqüentes nos séculos XIII e XIV...” - GILISSEN, John. Introdução Histórica ao Direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p. 563.

[63] Um par era uma dupla de vassalos de uma mesma categoria social que rodeava seu senhor.

[64] O serviço de estágio (stagium) representava o dever do vassalo de prestar guarda ou uma estada periódica no castelo ou nos castelos de seu senhor. O vassalo tornava-se então um castelão. Ver GANSHOF, F. L. Que é o Feudalismo, op. cit., p. 121.

[65] Braço de São Jorge = o Bósforo.

[66] Gislebert fala aqui em Império Romano, mas trata-se Sacro Império Romano do Ocidente.

[67] Santo Isidoro de Sevilha (c. 560-636).

[68] Adélia de Champagne (†1206), rainha da França, terceira esposa do rei Luís VII (1120-1180).

[69] Filipe II Augusto (1165-1223).

[70] Terras de Ultramar era a designação na Idade Média para a Palestina durante as Cruzadas.

[71] "Imperador Alexis" - também grafado Aleixo Comneno, imperador do Oriente (†1118).

[72] "a condessa Riquilda já havia entregue uma parte a esta mesma igreja, em plena liberdade e a outra parte provisoriamente" - no original vadium (prenda, garantia, algo empenhado).

- Fim da Parte I -