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Crônicas: a Jacquerie
410.
No tempo que governavam os três estados, começaram a levantarem-se
uns tipos de gentes que se chamavam companheiros e que saqueavam a todos
que levavam cofres. Digo que os nobres do reino da França e os
prelados da santa Igreja começaram a se cansar da empresa e da
ordem dos três estados. Deixaram atuar o preboste dos comerciantes
e alguns burgueses de Paris, mas intervinham mais do que desejavam.
Sucedeu um dia que o duque da Normandia estava em seu palácio
com grande quantidade de cavaleiros e o preboste dos comerciantes reuniu
também grande quantidade de comunas de Paris que eram de sua
seita e de seu partido. Todos levavam gorros iguais para reconhecerem-se.
Este preboste se dirigiu ao palácio rodeado por suas gentes e
entrou na câmara do duque. Com grande acrimônia requereu
que se ocupasse dos assuntos do reino e mantivesse conselho, de modo
que o reino que devia herdar estaria bem protegido daqueles companheiros
que o dominavam, saqueando e roubando por todo o país. O duque
respondeu que se ocuparia com muito gosto, se obtivesse sentença
de assim fazê-lo, mas que correspondia decidir o que determinava
os ditames e juízos do reino.
Não sei por que nem como sucedeu, mas as palavras foram crescendo
tanto e tão alto que, na presença do duque da Normandia
mataram os três maiores de seu conselho, tão próximo
dele, que sua vestimenta ficou ensangüentada. O mesmo correu um
grande perigo, mas lhe deram um dos gorros e concedeu perdoar a morte
daqueles três cavaleiros, dois de armas e o terceiro de leis.
Um deles se chamava meu senhor Robert de Clermont, um homem nobre e
muito gentil; o outro, senhor de Conflans, marechal de Champagne e cavaleiro
de leis, meu senhor Simon de Bucy. Foi uma grande pena que ali morressem,
por falar e aconselhar bem a seu senhor.
411.
Depois disso que aconteceu, ocorreu que alguns cavaleiros da França,
meu senhor Jean Picquigny e outros, acudiram com a ajuda do preboste
dos comerciantes e dos conselheiros de algumas boas vilas ao forte castelo
de Arleux, na Picardia, onde o rei de Navarra havia sido aprisionado
sob a vigilância de meu senhor Tristão de Bos. [1]
Estes hábeis cavaleiros levaram tais estandartes ao senhor do
castelo que lograram libertar o rei de Navarra de sua prisão
e conduzi-lo com grande regozijo à cidade de Amiens, onde foi
muito bem recebido. Alojou-se na casa de um canônico que o apreciava
muito e que chamavam Guy Kieret. O rei de Navarra passou quinze dias
no hospital do canônico [2] até que houvesse
preparado suas provisões e estivesse bem seguro do duque de Normandia,
pois o preboste dos comerciantes, que lhe queria muito e por cujo esforço
havia sido liberado, conseguiu e confirmou a paz com respeito ao duque
e aos de Paris.
O rei de Navarra foi conduzido a Paris por meu senhor Jean de Picquigny
e alguns burgueses da cidade de Amiens e ali foi recebido com grande
alegria. Todo tipo de gentes o acolheram com agrado, inclusive o duque
da Normandia o festejou muito, coisa que lhe convinha, pois o preboste
dos comerciantes e os de sua seita lhe obrigaram a fazê-lo. O
duque fazia isso por dissimulação, ao agrado do preboste
e de alguns de Paris.
412.
Quando o rei de Navarra passou um tempo em Paris, reuniu um dia a todo
tipo de gentes, prelados, cavaleiros, clérigos da universidade
e todos aqueles que quiseram acudir, e ali falou, a princípio
em latim, muito bem e com grande sensatez, na presença do duque
da Normandia, lamentando os prejuízos e vilanias que se haviam
feito com grande injustiça e sem razão. Disse que ninguém
suspeitava dele, pois queria viver e morrer defendendo o reino da França.
E bem o devia fazê-lo, pois lhe correspondia por direito de pai
e mãe e de seus antepassados. Em suas palavras, deixou entender
que se quisesse disputar a coroa da França, demonstraria bem
por direito que ele era mais próximo que o rei da Inglaterra.
Soube que seu discurso foi ouvido com agrado e foi muito bem elogiado.
Assim, pouco a pouco foi fazendo-se na estima dos de Paris, até
tal ponto que lhe eram mais favoráveis que ao regente, o duque
da Normandia e também em muitas outras boas vilas e cidades do
reino da França. Mas por muito amor que lhe mostraram o preboste
dos comerciantes e os de Paris ao rei de Navarra, meu senhor Felipe
de Navarra não quis consentir com ele nem quis ir a Paris, e
dizia que com a comunidade não se podia manter nenhum trato seguro.
413.
Muito pouco tempo depois da liberação do rei de Navarra,
sucedeu uma terrível e grande tribulação em muitas
partes do reino da França, em Beauvaisis, em Brie, junto ao rio
Marne, em Laon, Valois, a terra de Coucy e os arredores de Soissons. Algumas
gentes das vilas camponesas se reuniram sem chefe em Beauvaisis. A princípio
não eram nem cem homens e disseram que todos os nobres do reino
da França, cavaleiros e escudeiros traíram o reino, e que
seria um grande bem destruir a todos. Cada um deles dizia: “É
verdade! É verdade! Maldito seja quem por ele não sejam
destruídos todos os gentis-homens”.
Então, sem outro conselho e sem outra armadura
além de bastões com pontas de ferro e facas, foram à
casa de um cavaleiro que estava próxima dali. Destruíram
a casa, mataram o cavaleiro, a dama e os filhos, grandes e pequenos, e
incendiaram tudo. Logo foram a um castelo e ali ainda fizeram pior, pois
prenderam o cavaleiro e o ataram a uma estaca muito fortemente e muitos
violaram a mulher e a filha diante do cavaleiro. Depois mataram a mulher,
que estava grávida, a sua filha e todos os filhos, e o marido,
depois de torturá-lo, o queimaram e destruíram o castelo.
Assim fizeram em muitos castelos e boas casas, e foram
crescendo tanto que chegaram a seis mil. Aumentavam porque todos os de
sua condição lhes seguiam por todos os lados por onde passavam,
de tal modo que cavaleiros, damas, escudeiros, suas mulheres e seus filhos
fugiam deles. Damas e donzelas levavam seus filhos dez ou vinte léguas
distantes, ali onde pudessem se proteger, abandonando suas casas com todos
os seus bens. E todos estes criminosos reunidos, sem chefe e sem armaduras,
saqueavam e incendiavam tudo, matando todos os gentis-homens que encontravam,
forçando as damas e donzelas sem piedade e sem mercê como
cachorros violentos.
Certamente jamais houve entre cristãos e sarracenos
os crimes que cometiam estes miseráveis, pois quem cometia maiores
atos vis, atos que nenhuma criatura humana deveria jamais nem imaginar,
esse era o mais estimado e valorado entre eles. Não me atrevo a
escrever nem contar os horríveis e inconvenientes atos que realizavam
com as damas. Pois, entre outras vilanias, mataram um cavaleiro e o cravaram
em um assador para assá-lo no fogo diante de sua dama e de seus
filhos. Depois que dez ou doze forçaram e violaram a dama, quiseram
fazê-la comer à força e logo a fizeram morrer de má
morte. Tinha um rei entre eles que chamavam Jacques Bonhomme, que era,
como então se dizia, de Clermont em Beauvaisis, e o elegeram o
pior dos piores.
Estas gentes miseráveis incendiaram e destruíram
mais de sessenta boas casas e fortes castelos do país de Beauvaisis
e dos arredores de Corbie, Amiens e Montdidier. E se Deus não houvesse
posto remédio com Sua graça, a desgraça teria crescido
de modo que todas as comunidades teriam destruído os gentis-homens,
depois a santa Igreja e a todas as gentes ricas de todo o país,
pois assim sucedeu no país de Brie e Artois. As damas e donzelas
do país, cavaleiros e escudeiros que puderam escapar, tiveram que
fugir a Meaux, em Brie. Assim tiveram que fazê-lo a duquesa da Normandia
e a duquesa de Orléans e grande quantidade de altas damas, como
qualquer outra, para protegerem-se de serem forçadas e violadas,
e logo mortas e assassinadas.
Estas gentes se mantinham unidas entre Paris e Noyon,
e entre Paris e Soissons, e entre Soissons e Eu, em Vermandois, e por
toda a terra de Coucy. Aí se encontravam os grandes violadores
e criminosos, e saquearam entre as terras de Coucy, os bispados de Laon,
Soissons e Noyon, mais de cem castelos e boas casas de cavaleiros e escudeiros,
matando e roubando tudo o que encontravam. Mas Deus, por sua Graça
pôs remédio a tudo isso, o que muito se Lhe deve agradecer,
tal e como ouvireis seguidamente.
414.
Quando os gentis-homens de Beauvaisis, de Corbiois, Vermandois e Valois
e das terras onde aqueles miseráveis cometiam seus crimes viram
suas casas destruídas e seus amigos mortos, pediram ajuda a seus
amigos em Flandres, Hainaut, Brabante e Bélgica, e acudiram de
todos os lados. Estrangeiros e gentis-homens do país se uniram
e começaram a matar e decapitar aqueles miseráveis, sem
piedade nem mercê, e os penduravam nos galhos das árvores
ali onde os encontravam. O próprio rei de Navarra acabou um dia
com três mil, muito próximo de Clermont, em Beauvaisis. Mas
haviam se multiplicado de tal forma que se houvessem juntado todos, haveriam
sido cem mil homens. Quando lhes perguntavam por que faziam aquilo, respondiam
que não o sabiam, mas que como viam os demais fazerem, eles também
o faziam. Pensavam que desse modo deviam destruir a todos os gentis-homens
e nobres do mundo para que não restasse ninguém.
Nessa época, o duque da Normandia marchou de Paris
com toda a sua tropa, sem que se inteirassem os de Paris, pois temiam
o rei de Navarra, o preboste dos comerciantes e os de sua seita, pois
todos estavam aliados. Dirigiu-se à ponte de Charenton, junto ao
Marne e fez um grande chamamento dos gentis-homens onde acreditava consegui-los,
e desafiou o preboste dos comerciantes e aos que lhe queriam ajudar. Quando
o preboste dos comerciantes ouviu que o duque da Normandia estava na ponte
de Charenton e que estava ali reunindo a sua gente de armas, cavaleiros
e escudeiros, e que queriam prejudicar aos de Paris, temeu que lhe sucedessem
grandes males e que fossem atacar Paris à noite, que naquela época
não estava fortificada. Pôs a trabalhar quantos obreiros
pôde encontrar, e fez construir grandes fossas ao redor de Paris,
muralhas e portas, e trabalhavam noite e dia. Ao cabo de um ano havia
reunido três mil obreiros e foi uma grande empresa a de fortificar
em um ano uma cidade como Paris, de tão grande contorno. E os digo
que esta foi a melhor ação que o preboste dos comerciantes
fez em toda sua vida, pois de outro modo haveria sido saqueada muitas
vezes e por muitas causas, tal e como ouvireis depois. Agora quero voltar
a aqueles e aquelas que haviam se refugiado a salvo em Meaux, em Brie.
415.
Na época em que aquelas gentes miseráveis saqueavam o país,
voltaram da Prússia o conde de Foix [3] e seu
primo, o captal de Buch. [4] Pelo caminho, quando
iam entrar na França, ouviram a pestilência e os horríveis
fatos que acossavam aos gentis-homens. Estes dois senhores sentiram grande
piedade. Cavalgaram tanto que chegaram a Chalôns em Champagne, onde
os camponeses não haviam entrado. Na vila de Chalôns lhes
disseram que a duquesa da Normandia e a duquesa de Orléans, com
outras trezentas damas e donzelas e o próprio duque de Orléans,
estavam em Meaux em Brie em terrível angústia pela Jacquerie.
Estes dois bons cavaleiros decidiram ir ver as damas
para reconfortá-las tudo o que pudessem, ainda que o captal
fosse inglês. Mas naquele tempo havia trégua entre o reino
da França e o reino da Inglaterra. O captal podia cavalgar
por onde quisesse, e quis também demonstrar sua gentileza na companhia
do conde de Foix. Em sua tropa deveria haver umas quarenta lanças
[5], não mais, pois como os tenho dito vinham
de uma peregrinação. Tanto cavalgaram que chegaram a Meaux,
em Brie. Em seguida, foram ver a duquesa e as outras damas, que se alegraram
muito de sua chegada, pois todas estavam ameaçadas pelos jacques
e os camponeses de Brie, e inclusive pelos da vila, tal e como pude ver.
Aqueles miseráveis, ao inteirarem-se de que havia grande quantidade
de damas, donzelas e jovens e gentis crianças, se uniram, também
com os do condado de Valois, e se dirigiram a Meaux.
Por outro lado, os de Paris, que se inteiraram da assembléia,
saíram de Paris um dia em tropel, e se reuniram com os demais.
Entre todos deveria haver uns nove mil com grande vontade de crimes. Constantemente
lhes agregavam gentes pelos distintos lugares e caminhos que conduziam
a Meaux, e todos chegaram às portas da vila dita anteriormente.
Os miseráveis da vila não quiseram proibir a entrada aos
de Paris, senão que lhes abriram as portas. Entraram no burgo tal
quantidade de gentes que encheram todas as ruas até o mercado.
Agora observai a grande graça que Deus concedeu
às damas e donzelas, pois, na verdade, teriam sido violadas, forçadas
e perdidas, por nobres que fossem, se não houvessem sido salvas
pelos gentis-homens que ali estavam, e de modo especial, pelo conde de
Foix e meu senhor captal de Buch, pois estes dois cavaleiros
vieram para destruir aqueles camponeses.
Quando aquelas nobres damas, que estavam albergadas no
bem protegido mercado de Meaux, porque o rio Marne o rodeia, viram tal
quantidade de gentes, sentiram medo e terror. Mas o conde de Foix e o
captal, com suas tropas que estavam armadas, se formaram no mercado
e chegaram até a porta do mercado, que fizeram abrir. Logo se colocaram
diante daqueles vilãos negros, pequenos e mal armados, com o estandarte
do conde de Foix e o do duque de Orléans, e o pendão do
captal, empunhando lanças e espadas, bem dispostos para
defenderem-se e protegerem o mercado.
Quando aqueles miseráveis os viram assim formados,
esqueceram o furor de antes. Ainda que não fossem muitos contra
eles, os primeiros começaram a retroceder, e os gentis-homens a
persegui-los e a lançar-lhes lanças e espadas e a derrubá-los.
Então os que estavam diante e sentiam os golpes ou temiam recebê-los,
retrocederam todos de uma vez de terror, e caíram uns em cima dos
outros.
Nisto, todo tipo de gentes de armas saíram das
filas e logo ganharam a praça, metendo-se entre os vilãos.
Derrubaram-nos aos montões e os matavam como bestas, e os expulsaram
fora da vila, pois entre eles não havia nenhuma ordem nem formação.
Mataram tantos que se cansaram e caíram fartos, e os lançaram
no rio Marne aos montões. Dito brevemente, acabaram com sete mil
naquele dia, e não se lhes escapou nenhum ao que não prenderam
mais adiante.
Quando os gentis-homens regressaram, colocaram fogo na
parte baixa da vila de Meaux e incendiaram tudo e a todos os vilãos
do burgo que prenderam dentro. Depois desta destruição que
se fez em Meaux, não voltaram a se unir em nenhuma parte, pois
o jovem senhor de Coucy, que se chamava meu senhor Enguerrand, ia com
muitos gentis-homens acabando com todos os que encontravam, sem piedade
nem mercê.
Notas
[1] Na ocasião
o rei de Navarra era Carlos II, o Mau (1349-1387).
[2] Hospital
– Na Idade Média, um hospital era uma espécie de hospedaria
dedicada a receber pobres, doentes e, sobretudo, peregrinos e viajantes
– especialmente os que iam para a Terra Santa. Por exemplo, a Ordem
do Hospital de São João de Jerusalém, criada
em 1048 e transformada em uma ordem monástico-militar em 1120,
tinha exatamente essa atividade: o obsequium pauperum, o serviço
dos pobres e a atividade hospitalar (além da tuitio fidei,
a proteção da fé ou dos fiéis e de seus territórios).
COSTA, Ricardo da. A Guerra na Idade Média. Um estudo da mentalidade
de cruzada na Península Ibérica. Rio de Janeiro: Edições
Paratodos, 1998, p. 123 e SAUNIER, Annie. “A vida quotidiana nos
hospitais da Idade Média”. In: LE GOFF, Jacques
(apres.). As doenças têm história. Lisboa:
Terramar, 1985, p. 205-220. No entanto, a palavra hospital também
designava simplesmente a residência de alguém.
[3] O conde de Foix era
Gaston III Phoebus (1331-1391).
[4] O nome do captal
de Buch (Senhor de Buch, uma vila) era Jean III de Grailly, um modelo
de cavaleiro em sua época, confidente do príncipe negro,
Eduardo, príncipe de Gales. Captal era um título
feudal da Gasconha. A designação captal (capital,
captau, ou capitau) foi aplicada aos nobres mais ilustres
da Aquitânia (condes, viscondes, etc.) provavelmente como senhores
capitais, senhores principais. Como título real, a palavra foi
usada somente pelos senhores de Trene, de Puychagut, de Epernon e de Buch.
[5] Quarenta lanças
– Cerca de 120 homens.
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