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Ramon Llull (1232-1316) * Deus honrado, Nosso Senhor glorioso, com Vossa graça e bênção começamos este livro que trata dos princípios da Doutrina para crianças. Do Prólogo 2. Assim, por amor a isso, um homem pobre e pecador, menosprezado pelas gentes, culpado, mesquinho, indigno de ter seu nome escrito neste Livro, faz, abreviadamente e o mais plenamente possível, este Livro e outros ao seu amável filho, para que mais rapidamente ele possa entrar na ciência com a qual saiba conhecer, amar e servir seu glorioso Deus. 3. No princípio convém que o homem faça seu filho aprender os 14 artigos da Santa fé católica, os 10 mandamentos que Nosso Senhor Deus deu a Moisés no deserto, os 7 sacramentos da Igreja e os outros capítulos seguintes. 4. É conveniente que o homem mostre a seu filho a forma de cogitar a glória do Paraíso e as penas infernais e os capítulos que estão contidos neste livro, pois através de tais cogitações, a criança se acostumará a amar e temer a Deus, conforme os bons ensinamentos. Dos Treze Artigos 2. O primeiro artigo é crer em um Deus, que é o princípio de todos os princípios e Senhor benfeitor de tudo quanto existe. 3. A ti convém crer em um Deus tão somente, no qual não há nenhuma falta, pelo contrário, é pleno de toda a perfeição. 4. Esse Deus é invisível a teus olhos corporais, mas visível aos olhos de tua alma e é digno de todo louvor e de todo o honramento. 5. Em Deus existe bondade, grandeza, eternidade, poder, sabedoria, amor, virtude, verdade, glória, perfeição, justiça, largueza, misericórdia, humildade, senhoria e paciência. E em Deus há muitas virtudes semelhantes a essas, e cada uma dessas virtudes, ao mesmo tempo, é somente um Deus. 6. Amável filho, és obrigado a crer e amar essas coisas. Por isso foste criado e vieste a este mundo, e em um Deus somente deves crer, adorar, amar e temer. E se não fizeres isso, as penas infernais te chamarão quando fores sustentar infinitos trabalhos. 7. Amável é Deus, pois é totalmente bom; grande é Deus, pois tudo quanto existe termina Nele; durável é Deus pois não tem princípio nem fim; temível é Deus, pois todo poder está Nele e Ele sabe todas as coisas. 8. Filho, ama a Deus para que Ele te ame e te faça agradável às gentes. 9. As virtudes que tens de veres, de ouvires, de cheirares, de degustares, de apalpares, todas vêm de Deus. 10. Ama a verdade de tal maneira que a divina verdade não saiba que és mentiroso. 11. Menospreza a glória deste mundo que pouco dura para que sejas possuidor da glória que não tem fim. 12. Satisfaz tua alma com a perfeição de Deus porque nenhuma outra coisa pode te dar cumprimento. 13. Filho, ama a justiça, porque se não o fizeres, a justiça te julgará para sofreres o fogo perdurável. 14. Não cobices o que Deus te dá, pois Ele pode te dar ou tirar mais que outro. 15. Tem misericórdia se desejas ser perdoado. 16. Humilha-te a Deus que exalta os humildes e decai os orgulhosos. 17. Não tenhas vergonha de honrar, servir e obedecer a Deus, porque Ele é teu Honrado Senhor. E ama a paciência para que não caias na ira de Deus. 18. Filho, se crês em um Deus, convém cumprires todas as coisas ditas acima e muitas outras semelhantes a essas, se queres ser agradável a Deus. II. Da Trindade 2. Deus Pai engendra Deus Filho de si mesmo; Deus Espírito Santo nasce de Deus Pai e de Deus Filho, e o Pai, o Filho e o Espírito Santo são somente um Deus. 3. Infinita, eternamente e com toda a plenitude, Deus Pai engendra Deus Filho, e nasce Deus Espírito Santo de Deus Pai e Deus Filho. 4. O Pai é um, o Filho é outro e o Espírito Santo é outro, e todas essas Três Pessoas são Um Poder, Uma Sabedoria e Um Amor. 5. Filho, isso que eu digo da Santa Trindade de Deus e da Sua Unidade é assim e ainda melhor do que posso dizer. E se tu neste mundo crês nisso pela luz da fé, no outro século entenderás pela luz do entendimento iluminado pela divina inteligência. 6. Filho, sabes por que não podes entender a Santa Trindade e és obrigado a crer no que não entendes? Porque a Unidade e a Trindade de Deus são maiores que o teu entendimento e porque eu digo isso de uma maneira que não podes entender. 7. Não descreias de tudo que não podes entender, porque se o fazes, tu desejas ter um maior entendimento de todas as coisas. E sabes por que te falo assim sutilmente? Para que teu entendimento se acostume a exaltar e entender toda a vontade de amar a Deus. 8. Filho, não menosprezes este livro porque está grosseiramente narrado e não foi feito para a exaltação do entendimento, mas para que o entendimento das crianças possa ser exaltado para entender Deus e este mundo. III. Da Criação 2. No primeiro dia da semana, Deus criou o céu, o qual é chamado firmamento. 3. No segundo dia da semana, Deus criou o mar, a terra, as ervas, as árvores e suas sementes. 4. E no terceiro dia, Deus criou o sol, a lua e as estrelas para iluminarem o mar e a terra. 5. E no quarto dia, Deus criou os pássaros e os peixes. 6. E no quinto dia da semana, Deus criou as bestas, e depois criou o homem, que se chamou Adão, e enquanto dormia tirou-lhe uma costela, de onde criou a fêmea, isto é, Eva. E todos nós viemos de Adão e Eva. 7. Naquele mesmo dia, Deus colocou Adão e Eva no paraíso terreno, e o fez senhor de todas as bestas, todas as plantas, todas as aves e tudo que a terra produz e sustenta. 8. E no sétimo dia, Deus repousou para demonstrar que tinha dado ao mundo tudo o que era conveniente de ser criado. Por isso, o sétimo dia foi um dia de festa e louvor para honrar e contemplar a Deus, e para demonstrar que naquele dia Ele honrou o mundo iniciado, feito convenientemente o cumprimento de nossa redenção. 9. Filho, se desejas ter a salvação, é conveniente creres que Deus é o Criador de tudo quanto existe, e que tudo quanto existe retornaria ao nada se Deus não o sustentasse, e sem Deus, o que existe não existiria. 10. Filho, vê quão grandes coisas Deus criou, como o céu, o mar e a terra, e vê quantas criaturas diferentes foram criadas, e olha como as criaturas são belas e proveitosas. Logo, se nas criaturas há tanto de bem, abre os olhos de tua alma e vê quão Grande, Nobre e Bom é o criador que fez todas as criaturas. 11. Todos os que são reis e todos os homens deste mundo não poderiam criar uma flor nem poderiam criar nenhuma criatura, nem poderiam impedir o movimento do sol nem a queda da chuva. 12. Deus dá em maior abundância as coisas mais necessárias ao homem, como o ar, a água, o fogo, o sal, o ferro, o pão e as outras coisas semelhantes a essas. 13. Deus criou o ar para que os pássaros possam voar, deu-lhes plumas para que sejam suas vestimentas, deu unhas às bestas para que sejam suas patas e criou as árvores e folhas para que seus frutos possam madurar. Criou também o mar para que os peixes possam nadar; e para cada criatura Deus criou as propriedades necessárias a seu ofício. 14. Deus criou o cavalo para o homem cavalgar e o falcão para caçar, o carneiro para comer e a lã para vestir, o fogo para aquecer e o boi para arar, e Deus criou todas as outras criaturas para servirem ao homem. 15. Filho, quando tiveres na mesa e diante de ti comidas para comer, relembra quantas criaturas verás aí, as quais Deus criou, e entende que Deus fez as coisas que comes virem de diversos lugares. 16. Deus criou teus olhos para que com eles tu vejas as criaturas que O representam aos olhos de teu pensamento, criou tua memória para que com ela O relembres e criou teu coração para que seja a cama onde O tenhas e O ames. Deus criou também tuas mãos para que faças boas obras, criou teus pés para que vás por Seus caminhos e criou tua boca para que O louves e O bendigas. 17. Filho, não poderia te dizer quantas criaturas Deus criou, não saberia dizer Seu senhorio sobre elas, nem poderia te fazer entender quão grande dívida tu tens pelos grandes benefícios que recebeste do criador. 18. Relembra como Deus poderia te fazer pedra, madeira ou besta, se quisesse, e entende como poderia te fazer mutilado, judeu, sarraceno, demônio ou qualquer outra coisa que seria melhor não ser do que ser. 19. Amável filho, a ti convém considerar e pensar todas as coisas acima ditas, de tal modo que faças neste mundo obras que sejam agradáveis aos santos de glória e ao teu Deus. IV. Da Recriação 2. Filho, toda a linhagem humana caiu em pecado e em erro por causa de nosso primeiro pai e nossa mãe Eva, que foram desobedientes a Deus, Senhor de glória. Por isso, foi conveniente que o pecado fosse vencido e superado por aquele que é mais contrário ao pecado que qualquer outra coisa. 3. Quando Deus - Bendito seja Ele! - criou Adão e Eva e os colocou no meio do paraíso terreno, fez um mandamento a Adão de que poderia comer todos os frutos, menos um. Porque se comesse este, seguramente morreria. E o demônio, em forma de serpente, veio até nossa mãe Eva e a aconselhou que fizesse Adão comer o fruto que Deus havia vedado. E como Adão comeu o fruto e foi desobediente a Nosso Senhor Deus, caiu em morte, e este trabalho que tu vês em nós foi feito por causa da discórdia entre Deus e a linhagem humana. 4. Se Adão não pecasse nem ultrapassasse o mandamento de Deus, nenhum homem morreria, nem teria fome, sede, calor, frio, doença e trabalho. Mas saibas, filho, que pelo pecado original, tu caíste na ira de Deus, e Adão e Eva foram expulsos do Paraíso no dia em que foram ali colocados. 5. Todos aqueles que morriam andavam e subiam no fogo infernal, até que o Pai Soberano teve prazer que Seu filho tomasse a carne em Nossa Senhora Santa Maria pela graça do Espírito Santo. Assim, o Filho de Deus, por Sua grande piedade, veio em uma donzela virgem, chamada Nossa Senhora Santa Maria, que era da linhagem de Davi. 6. Naquela donzela, o Filho de Deus encarnou e nasceu, sendo ela virgem, sem que fosse corrompida nem perdesse sua virgindade. Daquela donzela, Deus nasceu ao mesmo tempo Deus e homem, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo, no qual existem duas naturezas, a natureza divina e a natureza humana, e essas duas naturezas são somente uma pessoa. 7. Esse Jesus Cristo veio ao mundo para recriá-lo e para exaltar a linhagem humana, que havia caído, mas foi exaltada através da virtude da adequação da natureza divina e humana, e com o trabalho e paixão que Ele suportou por amor a nós. 8. Filho, a ti convém crer nesse Senhor Jesus Cristo que te falo, porque se não o fizeres tua culpa não será recriada nem levada de ti, culpa que te foi dada pelo seu primeiro pai, e na qual estão somente os judeus, os sarracenos e os outros infiéis, porque não crêem na vinda nem na paixão de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo. 9. Filho, se é coisa tão má e pecado essa desobediência a Deus - pecado pelo qual outrora todos estiveram na ira de Deus, e por esse pecado a ser destruído, o Filho de Deus não quis ser encarnado e conveio à humanidade que o recebeu suportar angústias, trabalhos e uma morte profunda - guarda-te, filho, do pecado, porque através do pecado o homem é desobediente ao Altíssimo, e Deus é inimigo do homem quando ele comete pecado. E por essa desobediência e pecado, os pecadores irão para o fogo eterno, suportando dolorosos trabalhos e perdendo a eterna glória de Nosso Senhor Deus. V. Da Glória 2. Assim como o fogo aquece a si mesmo, o Divino Rei
da Glória dá Sua Glória aos anjos e aos santos
que estão em glória. 4. Filho, saibas que a glória do Paraíso é ver Deus, amar a Deus e dar louvor a Deus, e cada um dos santos do Paraíso é glorificado na glória do outro. 5. Filho, não creias que na glória o homem coma, beba ou deite com uma fêmea, porque todas essas coisas são decaídas e sujas e convêm com este mundo, que é sujo, corrompido e cheio de faltas. 6. Filho, tu vês o corpo morto do homem justo que apodrece na terra quando é soterrado- Esse corpo ressuscitará no dia do Juízo, e será mais resplandecente que o Sol, nunca morrerá e terá mais glória, que não é toda a glória que existe nos homens deste mundo. 7. Filho, se tu menosprezas a glória deste mundo para teres a glória do outro, terás uma glória que durará tanto quanto a Glória de Deus. Assim, relembra e entende como, por menosprezares a pouca glória que dura pouco, podes ganhar a glória que dura tanto quanto a glória do Altíssimo. 8. Ah, filho, como é grande a maldição daqueles que, por uma pequena bem-aventurança temporal, perdem a glória que não tem fim e vão pelos tormentos perduráveis para serem submetidos a infinitos trabalhos! 9. Filho, se tu entrares na glória, terás glória e encontrarás a glória. Sabes por quê- Porque em todos os lugares da glória está aquele que glorifica e é o Senhor da Glória. 10. Aqueles que estão na glória, tanto amam quanto entendem e tanto entendem quanto amam, e têm tudo isso que amam e entendem. Logo, se tu, filho, não podes ter neste mundo todos os deleites que entendes, guarda-te para que não percas em tua vontade a glória que teu entendimento não pode entender. 11. Filho, se tu não dás a tua mão por um dinheiro, nem a tua cabeça por dois, guarda-te para que não troques a celestial glória pela glória deste mundo. E se, pela glória deste mundo, tu menosprezas a glória do outro século, coloca o teu dedo no fogo e prova se poderás suportar perpetuamente o fogo eterno que os danados sustentam, pois será conveniente que suportes este fogo se menosprezares a Glória de Nosso Senhor Deus. VI. Da Concepção 2. No princípio, quando Nosso Senhor Deus desejou Se humilhar para recriar Seu povo, enviou Seu anjo Gabriel a Nossa Senhora Santa Maria. Aquele anjo glorioso foi até Nossa Senhora Santa Maria de Nosso Senhor Deus, saudou-a e disse-lhe: “Ave, Maria, cheia de Graça, o senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres , bendito é o Fruto do Vosso ventre. Descerá sobre vós o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo vos cobrirá com Sua sombra.” 3. Filho, diz freqüentemente essa saudação à Virgem Gloriosa, pois o maior prazer e o maior honramento que o homem pode fazer é saudá-la com a mesma saudação que Gabriel trouxe e anunciou a vinda de Nosso Senhor Deus. Incontinenti, a Virgem Maria consentiu com as palavras que o santo Gabriel lhe disse da parte de Nosso Senhor Deus, concebeu ver Deus e ver o homem, e foi coberta pelo Espírito Santo. 4. Aquela concepção foi obra de todas as três Pessoas Divinas; mas somente a pessoa do Filho se encarnou, demonstrando a diversidade que existe entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. 5. O Filho de Deus é aquele que é uma pessoa com a humanidade que foi tomada da preciosa e pura carne do santificado sangue de Nossa Senhora Santa Maria. 6. Filho, a alma e o corpo de Jesus Cristo foram simultaneamente ajustados à sua natureza divina. A Sua alma e o Seu corpo, simultaneamente, estiveram no ventre de Nossa Senhora, e naquele mesmo ventre em que estava, o corpo de Jesus Cristo teve todos os Seus membros e toda a Sua forma. Naquela sabedoria, naquela virtude e naquele poder, nos quais Jesus Cristo cresceu e chegou à perfeita idade, e aquela mesma sabedoria e aquele mesmo poder e virtude foram incontinenti unidos ao Filho de Deus. 7. Filho, não te maravilhes destas palavras que envio para ti escritas a respeito da concepção do Filho de Deus, porque foi uma obra maravilhosa que foi feita sobre a natureza por um poder divino que pode fazer todas as coisas. 8. Filho, és obrigado a crer nestas coisas que te digo sobre a concepção do Filho de Deus, e és obrigado, filho, a cativares teu entendimento para que sejas exaltado pela luz da fé, pois assim como naturalmente somos todos obrigados a morrer, por nossa fragilidade e pela soberana obra do Altíssimo, somos todos obrigados a crer no que não podemos entender a respeito da vinda do Filho de Deus. 9. A vinda de Jesus Cristo foi anunciada, antes que existíssemos, pelos santos profetas e pelos santos padres, aos quais foi revelada pela inspiração divina. 10. Filho, abre os olhos de teu pensamento e vê o grande honramento que o Filho de Deus fez a toda linhagem humana, quando quis tomar a nossa natureza e ser uma mesma pessoa com ela. 11. Relembra a bondade, a grandeza, a eternidade, o poder, a sabedoria, o amor e as outras virtudes que estão em Nosso Senhor Deus e vê quão maravilhosamente foram manifestadas na concepção e na encarnação do Filho de Deus. 12. Amável Filho, quando o Filho celestial tiver subido, tu estarás tão honrado por Ele ter tomado natureza semelhante à tua que te dou um conselho: prega eternamente, o tanto quanto podes, e que com todas as tuas forças te ponhas a conhecer, amar, honrar, louvar e servir Nosso Senhor Jesus Cristo, de tal maneira que tuas palavras, tua vida e tuas obras sejam agradáveis ao Deus da Glória. 13. Se tu desejas ser honrado, honra o Filho de Deus que tanto te honrou; se desejas amar, ama Jesus Cristo que tanto te amou, e se tens trabalho ou tristeza, consola-te naquele que por Sua humanidade ajustou Sua divindade. VII. Da Natividade 2. Filho, saibas que Nossa Senhora Santa Maria era uma pobre fêmea destas riquezas temporais, mas era rica em virtudes, apesar de não ser de uma honrada linhagem. Por isso, quando Filho de Deus quis, nasceu em um pobre lugar, isto é, em um presépio onde as bestas comiam. 3. Se os filhos dos reis e dos grandes barões nascem em palácios, em camas e em tecidos de ouro e de seda, o salvador do mundo nasceu em um estábulo e na palha que as bestas comiam. 4. Ah, Filho, quão poucos foram os tecidos com os quais o Filho de Deus foi envolvido! E tão poucos foram aqueles e por tão poucas pessoas foi servido e cuidado! No entanto, todos os homens que nascem são natos em culpa e pecado, e o Filho de Deus nasceu para aniquilar e destruir a culpa e o pecado. 5. Filho, quando vires alguma bela e jovem fêmea pobremente vestida e seu olhar te significar honestidade, e ela portar seu belo filho em seu braço e pobremente vestido, cogita a natividade do Filho de Deus, que no braço de Nossa Senhora Santa Maria estava pobremente vestido. 6. Da mesma forma que as outras crianças pequenas, o Filho de Deus se entregou aos cuidados de Nossa Senhora, e pouco a pouco Seu corpo cresceu, ainda que Seu poder e Sua virtude fossem maiores que todo poder e virtude que existem nas criaturas. 7. Filho, imagina quão doce era o olhar que existia entre Jesus Cristo e Nossa Senhora, pois ela sabia que Seu filho era o Senhor de todo o mundo, e Jesus Cristo sabia que Sua mãe era a melhor, a mais nobre e a mais bela senhora que já existiu e que existirá. 8. Amável filho, tu nasceste e vieste a este mundo para honrar e servir esse Filho de Deus do qual te falo, pelo qual te admoesto que tu O ames e O desejes ver. Logo, se tu não O amas e nem O serves, farás contra isso pelo qual vieste ao mundo, e serás servo e cativo de perduráveis trabalhos, pelos quais serás julgado pela justa sentença de Nosso Senhor Deus. VIII. Da Paixão 2. No tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha a idade de trinta anos, pregava ao povo de Israel e fazia muitos milagres, os judeus combinaram Sua morte, e Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos, vendeu o Filho de Deus, Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, por trinta dinheiros aos judeus. O Filho de Deus, que é Senhor de tudo quanto existe, permitiu ser vendido e levado à morte e à paixão para livrar Seu povo do poder do diabo. 3. Quando se aproximava a Paixão de Jesus Cristo, no dia em que Ele deveria morrer, Jesus Cristo estava em oração naquela noite e denunciava Sua Paixão aos apóstolos e àqueles que com Ele estavam, e pedia que estivessem em oração e que dissessem estas palavras: “Pai Nosso que estás no céu, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, não nos deixeis cair em tentação mas livrai-nos do mal.” 4. Na noite em que Jesus Cristo orava enquanto era homem e fazia reverência à Santa Divindade demonstrando que era homem, veio Judas com um grande número de judeus armados, os quais prenderam Nosso Senhor Deus Jesus Cristo e obrigaram-No a ser levado para que fosse crucificado e morto. 5. Filho, vejas quão grande foi a humildade de Jesus Cristo, porque Ele, que era o Senhor de todo o mundo, se deixou levar pelos judeus. Vejas e entendas como Ele cordialmente amou a salvação de Seu povo, o qual foi salvo pela Sua morte. 6. Os apóstolos e todos aqueles que estavam com Ele desampararam-No e fugiram, mas São Pedro O seguiu. Contudo, três vezes O negou naquela noite e disse que não O conhecia. 7. Saibas, filho, que os judeus espoliaram o Salvador de todo o mundo, cuspiram em Sua cara, taparam Seus olhos, feriram-No e deram-Lhe golpes. Depois Lhe perguntaram quem O havia ferido. De todas as maneiras que podiam, eles O ultrajaram e O escarneceram, apesar Dele ter vindo para salvá-los e para tirá-los do poder do diabo. 8. E até o dia não fizeram outra coisa senão ferir e escarnecer o Filho de Deus. Pela manhã, eles O entregaram a Pilatos, que era o procurador do senhor de Roma, e ele os fez açoitar tão regiamente que aquele couro precioso de Seu corpo foi totalmente rompido e dilacerado, com o sangue escorrendo por todo o Seu corpo. 9. Após o açoitarem, fizeram-No levar a cruz até o lugar onde O crucificaram, e cravaram-No nela, e depois alçaram a cruz de tal maneira que todos O vissem. 10. Com sal, fel e fuligem fizeram-No beber vinagre e coroaram Sua cabeça com uma coroa de espinhos para que os espinhos entrassem nela; com uma lança, feriram-No nas costelas de tal maneira que Seu corpo se partiu em dois. 11. Naquela paixão e dor, o Filho de Deus esteve por amor para salvar Seu povo, e morreu para que tu pudesses ter a Lei acabada com a qual pudesses ter glória. Porque se o Filho de Deus desejasse, nem os judeus, nem todos os homens, nem os demônios que existem poderiam atormentá-Lo ou matá-Lo, pois Ele é o Senhor poderoso sobre tudo. Mas porque a Sua morte era necessária para salvar Seu povo, Ele permitiu que o homem O atormentasse e O matasse. 12. Saibas, filho, que só uma gota de sangue de Jesus Cristo bastaria para redimir todo o povo. Pelo grande amor que tem, Ele quis que todo o Seu sangue lhe fosse tirado, porque assim como a ampulheta é tão fortemente dividida que nada pode permanecer sem cair, o corpo de Jesus Cristo foi em tantos lugares furado e ferido que nenhum sangue permaneceu ali. 13. Amável filho, se desejas viver em glória, chora a morte de teu Senhor Jesus Cristo; e se não podes chorar, não O amas tanto quanto tua mãe te ama, a qual choraria se diante dela te matassem e te atormentassem. 14. Filho, Jesus Cristo não foi somente menosprezado no em dia que sofreu a morte pendurado na cruz: neste tempo no qual estamos, Ele é menosprezado, blasfemado e escarnecido. Muitos são os homens que, por não chorarem por Ele, não morrem nem Lhe agradecem a pena que suportou por amor a eles, e muitos são os infiéis que O descrêem e O blasfemam, e que acreditam que Ele é um homem falso e enganador. 15. Filho, olha para a cruz e vê o que representa a paixão de Jesus Cristo, que estava com seus braços estendidos, e crê que assim como Ele morreu para nos salvar, nós não devemos temer a morte para Lhe honrar. 16. Filho, a ti convém morrer, queiras ou não. Logo, como tens que morrer, queiras morrer para honrar aquele Senhor que te criou, que te deu tudo quanto existe, que pode te dar o fogo perdurável, que quis te dar a glória que não tem fim e que por teu amor quis morrer. 17. Sabes por que tu não desejas morrer por Jesus Cristo? Porque a morte te dá pavor, e porque amas mais estar neste mundo que no outro. Logo, se tu fosses Jesus Cristo, não desejarias morrer e nem morrerias, pois Jesus Cristo não morreria se não quisesse. 18. Que coisa é essa que o senhor deseja morrer por seu vassalo e o vassalo não deseja morrer por seu senhor? E por que os cavaleiros deste mundo morrem na batalha para honrarem seu senhor? E por que a morte, que é o portal da vida e onde estão os santos da glória, é posta em dúvida? 19. Filho, saberias responder: qual morte é mais doce e melhor, morrer por amor ou por doença? Tu desejarias tanto amar quem gostasse e tivesse gozo em morrer? E se não morresses, saberias desejá-la? 20. Saibas filho, que a morte natural não rende frutos nem recompensa, aquele que ama não sabe morrer e quem tem medo de morrer não está em estado de salvação. 21. Filho, relembra quantos são os homens que morrem para juntarem dinheiros e por desejarem a vã glória deste mundo, e vê quantos são os homens que morrem por amor do Salvador de todo o mundo, que morreu por amor a nós. 22. Amável filho, como desejo te dizer outras coisas, convém que abandone a matéria da qual falo, em qual matéria podem ser agradavelmente contadas muitas palavras santas e devotas de Nosso Senhor Deus. IX. Descer ao Inferno 2. Amável filho, saibas e creias que quando a alma de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo deixou o corpo morto na cruz, incontinenti desceu aos infernos, e vendo Adão, Abraão e os outros profetas e santos, arrancou-os à força dos demônios e de sua prisão e os colocou na glória celestial, que não terá fim. 3. Quando Adão viu chegar Seu Senhor e Seu Criador para livrá-lo do trabalho e da dor onde havia estado cinco mil anos, disse naquele momento: “Estas são as mãos que me criaram e me formaram, e este é o Senhor que se lembrou de nós na Sua Glória.” 4. Filho, eu não poderia te contar e nem tu
poderias imaginar o grande gozo que Adão e outros santos tiveram.
Contudo, tu podes cogitar quão grande gozo terias se te tirassem
de um poço cheio de fogo e enxofre, de serpentes e de trevas,
e se te elevassem para a glória celestial. 6. Saibas, filho, que o Filho de Deus permaneceu com o corpo de Jesus Cristo na cruz, e com a alma desceu aos infernos, estando o corpo naquele lugar onde foi crucificado. E sabes por quê? Para que isso significasse que o Filho de Deus está em todos os lugares que existem, porque tudo quanto foi criado não é tão grande quanto o Filho de Deus. X. Da Ressurreição 2. Quando o corpo de Jesus Cristo foi dado a José de Arimatéia - e foi o maior (presente) que poderia receber - aquele corpo tão precioso foi humilhado para estar sob a terra. Por isso, relembra, filho, destas palavras que te digo, se desejas ter humildade. 3. Saibas, filho, que Jesus Cristo ressuscitou no terceiro dia, e para manifestar a grande misericórdia de Nosso Senhor, quis primeiramente aparecer a Madalena, que tinha sido uma fêmea pecadora mas amava Jesus Cristo com uma caridade muito grande - e como a caridade é a melhor virtude que um homem pode ter - para demonstrar que a caridade é muito agradável ao Filho de Deus, o Filho de Deus apareceu para Madalena. 4. Enquanto os apóstolos estavam em uma casa e as portas estavam trancadas, Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu para eles para mostrar que Ele havia ressuscitado com o corpo glorificado que não tem impedimento de passar por todos os lugares. E para demonstrar que era verdadeiramente homem, Ele pediu o que comer. 5. Não há quem possa recontar a grande alegria que existiu entre os apóstolos quando viram seu Senhor ressuscitado. Por isso, quando Jesus Cristo partiu, veio São Tomé, que era um dos apóstolos, ao qual disseram que Jesus Cristo havia ressuscitado. Mas São Tomé respondeu que não acreditava até que colocasse seus dedos nas chagas de Jesus Cristo. E como a fé e a crença são amáveis pelo Filho de Deus, Ele quis ordenar que São Tomé tivesse ocasião de crer. 6. Mas como São Tomé não quis crer, Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu para ele e disse: “Tomé, coloca teus dedos em minhas chagas, e saibas, pois não quiseste crer.” Assim, para que fosse demonstrado que o entendimento que se exalta para saber a verdade é agradável a Nosso Senhor Deus, Ele permitiu que São Tomé colocasse suas mãos nas costelas, e dissesse: “Tu és meu Senhor e meu Deus.” 7. Amável filho, na ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo foi representada e significada a nossa ressurreição, que acontecerá no dia do juízo, quando seremos ressuscitados e julgados pelo Filho de Deus. XI. Da Ascensão 2. Na ascensão do Filho de Deus está significada a ascensão e a elevação que o teu corpo terá no céu, filho, no dia do juízo, se fores neste mundo um servidor, amante e louvador do Filho de Deus. Pois assim como o Filho de Deus veio a este mundo tomar a nossa natureza e se elevar aos céus com ela, subirão aos céus todos os corpos daqueles e daquelas que neste mundo foram Seus servidores, que acreditaram na Sua encarnação e choraram para honrar Seus honramentos. Mas se porventura, filho, tu fores neste mundo um homem pecador e desagradável a Nosso Senhor Deus e não acreditares nos artigos da Santa fé católica, saibas que decerto teu corpo descerá aos infernos no dia do juízo e aí estará com os demônios no fogo perdurável. 3. Vê, filho, como as aves se elevam pelo ar e relembra quão grande glória terás se pelo ar quiseres ir. Vê ainda quão grande dor terás se teu corpo cair no abismo infernal, aprisionado em um cárcere tenebroso sem nenhum consolo e nenhuma escapatória. 4. Assim como todos os anjos e todos os santos da glória, com cantos de muita doçura e numa grande procissão, saíram para honrar Nosso Senhor Jesus Cristo quando ascendeu em glória, os demônios saem do inferno com um olhar muito horrível quando os homens pecadores passam deste mundo para outro, de tal maneira que os colocam e os atormentam no fogo perdurável. 5. Filho, se tu desejas te elevar em tão alto e tão excelente lugar quanto o céu, a ti convém começar, enquanto tens tempo, a fazer boas obras; e evita cometer pecado tão grave que teu corpo não possa se elevar nas alturas nas quais se elevam aqueles que vão pelo caminho da penitência, feito de jejuns e de boas obras, e se elevam à celestial glória. 6. Filho, se desejas te elevar lá onde está Jesus Cristo, eleva teu pensamento e teu desejo a Ele, desce tua lembrança à vileza de onde vieste e à falta na qual estás neste mundo, e menospreza este mundo para que sejas estimado no outro. 7. Do lugar onde estão os santos do Paraíso, caíram os demônios que estão no meio da terra, soterrados em enxofre, em água borbulhante e em brasas de fogo. E neste lugar onde estão caídos os demônios, cairão os homens pecadores que menosprezaram e descreram na Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. XII. Do Juízo 2. Naquele dia maravilhoso, ressuscitarão os corpos dos homens, os quais eram pó e cinzas na terra, esperando a sentença que seria dada no dia do Juízo pelo Filho de Deus. 3. Naquele momento, aqueles corpos se ajustarão uns com os outros, e cada braço recuperará sua mão, cada membro sua forma e cada alma recuperará o mesmo corpo que era seu neste mundo. 4. Filho, se Deus criou tudo que existe do nada para demonstrar Seu grande poder, imagina que Deus desejará ressuscitar os homens mortos para demonstrar Sua grande Justiça. Cada homem ressuscitará para receber a recompensa pelo que tiver feito, cada um virá com seu livro no qual estarão escritos os bens e os males que tiverem feito neste mundo e cada um retamente prestará contas diante do Filho de Deus. 5. Naquele dia verás o Filho de Deus, que virá nas nuvens com os anjos do céu e mostrará Suas chagas pelas quais saiu o sangue no dia de Sua Paixão, quando recriou a linhagem humana. 6. Aquele dia será muito agradável a todos aqueles que neste mundo foram Seus servidores e será muito horrível e espantoso a todos aqueles que neste mundo morreram em pecado. 7. Amável filho, aquele que der a sentença da glória infinita e da pena perdurável será Nosso Senhor Jesus Cristo, filho de Nossa Senhora Santa Maria, que veio a este mundo para receber a Paixão e a morte para restaurar a linhagem humana que estava perdida. 8. Este glorioso juiz reto do qual eu te falo dirá: “Bem-aventurados, ide ao reino perpétuo para terdes a glória perpétua; e, mal-aventurados ide aos fogos infernais para terdes a pena perdurável”. 9. Naquele mesmo dia irão os santos em glória e os pecadores em pena; e por todos os tempos estarão os santos em glória e os pecadores em pena. 10. Ah, filho! Quantas bem-aventuranças terão aqueles que foram retos ao Filho de Deus, mostrando as chagas e os trabalhos que por Ele sustentaram neste mundo! E tão mal-aventurados serão aqueles que, neste dia perigoso, estiverem com as mãos vazias e não tiverem feito algo reto ao Filho de Deus, que lhes fez retos com as chagas de Seu corpo e com a paixão que suportou por amor a eles! 11. Naquele dia os odiados pecadores ressuscitarão e não poderão fugir da sentença, porque Deus está em todos os lugares e sabe todas as coisas. Ocultar-se não poderão, resistir não poderão, nem poderão pregar nem se escusar de nada. 12. Filho, amável é à minha alma relembrar que te engendrei e ter esperança de que serás salvo, e será odioso se te vir pecador e teus pecados me significarem que estarás danado. 13. Se fosse seguro ter um filho justo e amável servidor de Deus, seria boa coisa desejar ter filho. Mas como os demais homens do mundo estão em pecado, por qual razão, então, ter filhos é desejável? E por que por seu filho, perde-se a graça de seu Deus? - Fim do Prólogo e Dos 13 Artigos - |
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