Doutrina para crianças (1274-1276)

Ramon Llull (1232-1316)
Tradução: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) e
Grupo de Pesquisas Medievais da UFES III
(Felipe Dias de Souza, Revson Ost e Tatyana Nunes Lemos)
Revisão: Tatyana Nunes Lemos
Revisão Final: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)

Dos Sete Sacramentos da Santa Igreja
XXIII. Do Batismo

1. Filho, o sacramento eclesiástico é o reconhecimento da coragem e a santificação do ministério miraculoso pelo qual o caminho da glória celestial é iluminado.

2. Filho, o primeiro sacramento da Santa Igreja é o batismo, que é a purificação da culpa original na qual toda a linhagem humana caiu por obra do pecado.

3. Filho, deves saber que o batismo existe de três maneiras: a primeira é na água, que significa o tempo do dilúvio, quando todo o mundo foi renovado e mudado pela água.

4. A segunda forma do batismo é o fogo, e este batismo de fogo significa o sacrifício que os profetas e os patriarcas fazem a Deus quando fazem o holocausto; e também está simbolizado nas três crianças que foram colocadas no fogo e não se queimaram, conforme conta o santo profeta Daniel.

5. Filho, a terceira forma é o batismo de sangue, e este batismo está significado na Lei Velha na circuncisão e na morte das crianças inocentes que Herodes matou, porque desejava matar Jesus Cristo.

6. Amável filho, essas três formas de batismo não se cumpriram até que chegou o Filho de Deus e foi batizado na água, no sangue e pelo fogo do Espírito Santo foi concebido no ventre da virgem gloriosa, Nossa Senhora Santa Maria.

7. Filho, após o teu nascimento, foste levado à Igreja e batizado na água santificada pelas palavras virtuosas e cheias de coragem do presbítero que te batizou, e pelos padrinhos que te levaram e seguraram.

8. Filho, naquele tempo em que foste batizado, teus padrinhos prometeram por ti, que renunciarias ao demônio e que desejarias ser verdadeiramente cristão, que te obrigarias a servir a Deus e a seguir o caminho de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo.

9. Amável filho, o batismo de fogo está significado na concepção do pensamento que ama o batismo. Logo, como algumas vezes o homem não pode ter água, convém que o batismo seja realizado na vontade do pensamento humano todas as vezes que for feita a conversão dos infiéis que se converterem à Santa fé católica.

10. Filho, o batismo de sangue é coisa tão nobre e tão maravilhosa, que purifica o homem de toda culpa e pecado, pois o bem-aventurado mártir que morre para amar e honrar a Santa fé católica não poderia atormentar mais seu corpo, nem se dar mais como quando se da à morte para honrar seu glorioso Deus.

XXIV. Da Confirmação
1. Filho, o sacramento da confirmação é a imagem e o consentimento do batismo que recebeste. Essa confirmação acontece no momento em que o bispo, que é teu pai espiritual, te confirma e te dá um golpe no pescoço para que te lembres dela. Depois disso ele prende uma faixa em tua cabeça para manifestar às gentes que tu foste confirmado no santo sacramento do batismo.

2. Este sacramento da confirmação é mostrado para que as crianças, quando crescerem e tiverem entendimento, reconheçam o que seus padrinhos prometeram por elas no dia em que foram batizadas, pois naquele dia, as crianças não tinham entendimento para consentirem com o sacramento do batismo.

3. Amável filho, quando tu recebes o sacramento da confirmação, saibas que nasce da promessa dos padrinhos que te levaram à fonte e que na tua presença prometeram conservar o sacramento do batismo. E tu, filho, sacrifica-te a Deus e oferece-te para seres servidor Dele e defensor da Santa fé católica.

4. Filho, renega e impede o santo sacramento do batismo e todos os outros sacramentos que convêm à fé católica e aos malvados cristãos que, por pavor da morte, pobreza, falsa opinião ou alguma outra coisa, renegam e descrêem na Santa fé católica. Por isso, eles não devem participar da virtude do batismo, e quando morrerem, os demônios os levarão ao fogo perdurável.

5. Amável filho, através da virtude desse sacramento e por todos os outros sacramentos da Santa Igreja, tu participas de todos os bens que são feitos nela. Assim deves te esforçar, o tanto quanto podes, para teres e conservares este sacramento e todos os outros.

6. Se tu quebras o que prometes quando recebes o sacramento, os demônios e os pecados infernais te fazem companhia e és expulso da companhia dos anjos e dos santos da glória.

7. Filho, tu podes relembrar o quanto os sacramentos da Santa Igreja foram amáveis e agradáveis a Nosso Senhor Deus, pois enviou Seu Filho em natureza humana por amor a eles, na qual foi crucificado e morto, para que a Santa Igreja fosse ordenada e iluminada. Logo, se tu filho, estás contra os sacramentos da Santa Igreja, podes imaginar quão grande falta cometes e como és muito fortemente desagradável a Nosso Senhor Deus.

XXV. Do Sacrifício
1. Amável filho, o santo sacrifício do corpo de Jesus Cristo é uma graça invisível feita de forma visível, isto é, a hóstia sagrada, que é transubstanciada na verdadeira carne de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo.

2. Esse santo sacrifício muito maravilhoso e pelo qual nos salvaremos, foi ordenado, filho, na quinta-feira da ceia, quando Nosso Senhor Deus Jesus Cristo comia com os apóstolos, e bendisse e partiu o pão e o vinho dizendo que o pão era Sua Carne e o vinho Seu Sangue.

3. Amável filho, através da virtude das palavras que Deus Jesus Cristo colocou no pão e no vinho, o corpo de Jesus Cristo está na hóstia e no vinho que tu vês levar ao altar, quando o presbítero canta a missa e diz as palavras que Jesus Cristo disse na quinta-feira da ceia.

4. Filho, para demonstrar que o Deus da Glória é o Senhor da natureza, Ele faz a obra que está acima do poder da natureza, e tal obra acontece quando faz o Santo Corpo Glorioso de Jesus Cristo estar na forma do pão e do vinho.

5. Filho, se teus olhos te dizem que a hóstia sagrada é o pão, o poder, a sabedoria, o amor, e as outras virtudes de Nosso Senhor Deus dizem à tua alma que aquela hóstia sagrada e o vinho sagrado são verdadeiramente o corpo de Jesus Cristo, que para te salvar foi pendurado na cruz na sexta-feira santa da Páscoa.

6. Amável filho, teus olhos foram criados e as virtudes de Deus foram as criadoras, e como o Criador é mais nobre e verdadeira coisa que a criatura, tu deves crer mais nos testemunhos que Deus dá com Sua virtude que nos testemunhos que a natureza dá aos teus olhos e aos teus outros sentidos corporais.

7. Entende, filho, como os olhos corporais mentem em algumas coisas, pois de acordo com a vista corporal parece que o mar e a terra estão ligados ao céu, e o gosto doente encontra amargor na maçã, no mel e nas outras comidas que são doces.

8. Amável filho, a virtude de Deus não pode mentir, pois nada pode obrigá-la a isso. Em contrapartida, os cinco sentidos corporais mentem freqüentemente, pois algumas coisas mais fortes que eles fazem com que mintam. Assim, quando as virtudes de Deus dizem à tua alma, pela luz da fé, que creias que aquela hóstia e aquele vinho sagrados são o santo corpo de Jesus Cristo e os teus sentidos corporais falsamente negam o que diz a virtude de Deus - e como o sentidos corporais são mentirosos e as virtudes de Deus não podem mentir - és obrigado a crer naquilo que as virtudes de Deus te significam com Sua virtude.

9. Sabes por que Deus deseja que tu creias que o corpo de Jesus Cristo está na hóstia sagrada e que é assim que Deus te manda crer? Para que possas mais crer através das virtudes de Deus que entender por teus sentidos corporais, pois através da exaltação que teu entendimento recebe pela luz da fé, que está acima dos cinco sentidos corporais, tu sobrepujas entender maiores coisas através das virtudes de Deus que pelas obras naturais ou pelos sentidos corporais.

10. Para que o grande poder, saber e querer de Deus sejam demonstrados cada dia e em muitos lugares do mundo, Deus deseja que o sacramento do altar seja verdadeiro, pois não existe nenhuma outra maneira para a criatura entender a existência mui grande e perfeita do poder, do saber e das outras virtudes de Deus, a não ser pelo sacrifício do altar. Por esse motivo, podes imaginar, filho, que convém que aquela coisa seja ordenada no sacramento da Santa Igreja para que melhor possam se entender as grandes virtudes de Nosso Senhor Deus.

XXVI. Da Penitência
1. Filho, a penitência é a contrição do coração e a amargura da alma pelos pecados que fazes, dos quais se arrependes ou propões nunca mais fazê-los. Isso dá aflição ao corpo do homem, com jejuns, orações, peregrinações e outras coisas semelhantes a essas.

2. Filho, é grande e forte o sacramento da penitência, pois através da penitência todos os demônios e pecadores que estão no Inferno seriam libertados dos tormentos que não têm fim se, somente uma hora, pudessem fazer penitência.

3. Filho, através da penitência que se faz neste mundo, o homem foge das penas infernais e do fogo do purgatório, e quando o homem passa deste século para o outro, vai para a glória celestial que durará por todos os tempos.

4. Amável filho, faz penitência de todos os pecados que podem ser perdoados e receberás todas as bem-aventuranças do Paraíso. Por isso, enquanto estás neste mundo, filho, faz penitência, pois no outro século será dada a sentença da glória eterna ou do fogo infernal.

5. Filho, naquele tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo estava neste mundo e andava com os apóstolos, deu pessoalmente as chaves da penitência a São Pedro, na pessoa de Nossa Mãe, a Santa Igreja, e disse que tudo o que São Pedro, através da virtude de Deus, ligasse ou desligasse na Terra seria unido ou desligado no Céu.

6. Filho, através do poder que Deus deu a São Pedro, o santo pai apóstolo que ocupa o lugar de São Pedro tem os presbíteros, que estão no lugar dos apóstolos e que têm poder de darem penitência, e por isso as gentes vão se confessar com os presbíteros e pedir-lhes penitência.

7. O motivo pelo qual Deus deseja que o homem faça penitência é para que ele confie na grande misericórdia de Nosso Senhor Deus, e para que Deus tenha razão de perdoar Seus pecadores que são julgados para suportar as aflições que a penitência dá.

8. Se desejas alegrar teu corpo com as aflições que são amadas pela penitência, cogita nos tormentos infernais e nas glórias do Paraíso, pois naquele momento, as paixões que se têm pelas obras da penitência serão agradáveis.

9. Filho, pecar e menosprezar o santo sacramento da penitência é menosprezar a glória do Paraíso, a companhia dos anjos, dos santos de glória e de Nosso Senhor Deus e receber os tormentos infernais.

XXVII. Das Ordens
1. As ordens são sacramentos que são dados aos oficiais da Santa Igreja, pois é coisa tão santa, filho, nossa Mãe Igreja, que os oficiais dela devem ter santidade e ordenamento pelo qual sua Mãe Igreja seja honrada.

2. Seria uma grande vilania e desordenamento se os oficiais da Santa Igreja fossem homens pecadores, desordenados e que ignorassem as Santas Escrituras da Santa Igreja. Por isso, filho, quando o bispo faz ordens, ordena ao subdiácono cantar a epístola, ao diácono cantar o Evangelho, ao presbítero cantar a missa.

3. O bispo faz outras ordens, recebendo os escolares que ajudam a servir o presbítero que canta a missa. Assim, todos aqueles são oficiais da Santa Igreja, e cada um deles, quando recebe o sacramento, promete ser louvador, honrador e se submeter à exaltação e à honra da Santa Igreja.

4. Filho, saibas que o mais honrado ofício e aquele onde há mais virtude é o de ser presbítero, porque ele não somente tem virtude, como também através de suas palavras o pão e o vinho sagrados são transubstanciados na verdadeira carne e no verdadeiro sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

5. Filho, o presbítero tem o poder de perdoar teus pecados e ocupa o lugar de Jesus Cristo neste mundo. Por sua vez, o santo apóstolo, que também é presbítero, deve ser senhor de todo o mundo e a ele todos os reis e príncipes deste mundo devem obedecer.

6. Filho, relembra quão grande coisa é ser presbítero, pois os reis, os outros barões e os homens que existem devem beijar suas mãos e pés quando ele canta a missa.

7. Amável filho, assim como Deus dá a mais nobre ordem ao presbítero que a outro homem, ele é mais obrigado a amar e agradecer a Deus a graça e o honramento que lhe fazem neste mundo.

8. Filho, se a ordem mais honrada é a de um presbítero, e está acima das demais ordens neste mundo, que existem nos outros homens que não são presbíteros, podes relembrar como é grande o caminho e a dívida dos bons presbíteros para serem agradáveis a Nosso Senhor Jesus Cristo.

XXVIII. Do Matrimônio
1. Filho, a ordem do matrimônio é o ajustamento corporal e espiritual para teres filhos que sejam servidores de Nosso Senhor Deus e que Dele recebam graças e bênçãos.

2. Naquele tempo em que Deus criou o mundo, colocou Adão e Eva no paraíso terreno e fez seu matrimônio. Assim, tu, filho, e todos aqueles que amam e têm a intenção de estarem no matrimônio, são obrigados a estar na ordem do matrimônio que Deus fez no paraíso terreno.

3. Filho, és obrigado a estar na ordem do matrimônio ou da religião, pois todos os outros estamentos não são convenientes à intenção final para a qual foram criados.

4. Amável filho, assim como Deus te deu os olhos para veres e a língua para falares, te deu a fêmea para te servir quando a toma como mulher, pois assim como teus membros são ordenadamente estruturados para servirem o corpo, tua mulher é um instrumento ordenado pelo qual sejas servido.

5. Amável filho, quando entras na ordem do matrimônio, dás a ti mesmo para servir à tua mulher. Assim, ambos, simultaneamente, devem ser servidores de Deus, de tal maneira que Deus seja amado, conhecido e louvado por vocês.

6. Filho, o matrimônio é uma virtude de palavras e uma união de pensamentos, e é um voto e promessa que o homem não pode quebrar sem a vontade de sua mulher. Por isso, filho, muitos homens são enganados por más fêmeas e são falsamente unidos pela ordem do matrimônio, da qual união não podem sair, somente com a morte.

7. Filho, sejas ordenado a ter a ordem do matrimônio porque sem este estamento ordenado não podes tê-lo, e ordena tua mulher, tanto quanto possas, para te ajudar a ter tua ordem, pois a malvada e desordenada fêmea faz o homem sair e se desviar da ordem do matrimônio.

8. A ordem do matrimônio deve ter caridade, temor, humildade, verdade, justiça e outras virtudes semelhantes a essas, e a superfluidade das vestimentas ornadas e feições harmoniosas desordenam o pensamento e fazem o homem quebrar o sacramento do matrimônio.

9. Nem o honramento dos parentes, a riqueza de posses ou de dinheiros valem tanto para conservar a ordem do matrimônio quanto a boa educação. Por isso, amável filho, quando tomares uma mulher, não invejes um grande enxoval nem a beleza de feições ou honramentos, pois todas essas coisas não convêm tão fortemente com a ordem do matrimônio quanto a boa educação.

10. Amável filho, conforme o corpo do homem é grande ou pequeno, convém que os membros sejam, pois os homens que são pequenos têm mãos e pés pequenos e os homens que são grandes têm mãos e pés maiores que os pequenos. Assim, filho, está significado a ti que assim como Deus dá a cada corpo os membros que lhe convém, o homem deve tomar uma mulher de acordo com o que lhe convém, conforme a idade de dias ou o honramento de parentes.

11. Assim como cinco é maior que três e três é maior que dois, filho, a ordem do matrimônio é maior e mais nobre no homem que na fêmea. Por isso, filho, convém que o homem seja senhor de sua mulher, de tal maneira que mantenha sua nobreza e que, por sua doutrina e temor, sua mulher seja obediente a Nosso Senhor Deus.

XXIX. Da Unção
1. Filho, a unção é o derradeiro sacramento da Santa Igreja Romana, que reafirma e conforma todos os outros sacramentos.

2. Filho, quando o homem está fortemente doente e alguns sinais significam sua morte, deve pedir esse derradeiro sacramento para significar e demonstrar que conservou e teve os primeiros sacramentos.

3. Filho, nesse momento, os presbíteros vêm com o sinal de Jesus Cristo pelo qual são ordenados nos sacramentos da Santa Igreja, isto é, a cruz, que representa a Santa Paixão que Jesus Cristo suportou para salvar Seu povo, e trazem a santa crisma com a qual o homem recebeu o primeiro sacramento, e com orações untam o homem nos lugares que pecou e falhou.

4. Filho, neste dia da unção o homem deve expulsar de seu corpo todas as coisas temporais e afirmar em seu coração a hora da morte que está vindo, não tendo esperança de viver daqui em diante neste mundo. E antes de receber este sacramento, ele deve se confessar e receber a eucaristia, fazer seu testamento e ordenar todas essas coisas para receber a morte.

5. Amável filho, este derradeiro sacramento, no qual o homem é untado com crisma e óleo, significa a santa unção do Filho de Deus, a qual recebeu na santa cruz com o precioso sangue de Seu corpo. Logo, se aqueles que vêem na unção da crisma e do óleo, na hora da morte, o significado da paixão do Filho de Deus, quanto mais fortemente a significa àqueles que por Seu amor estão na hora da morte, pelo caminho do martírio, untados com o sangue de seus corpos, sustentando a morte para honrar e servir o Filho de Deus.

Dos Sete Dons que o Espírito Santo dá
XXX. Da Sabedoria
1. Amável filho, Nosso Senhor Deus é sabedoria, e Deus é o Espírito Santo. Assim, se Deus é sabedoria e tu tens conhecimento da sabedoria de Deus, convém que aquele dom da sabedoria venha de Deus e não de outro, pois se viesse de outro, significaria que a sabedoria conviria melhor a outro que a Deus, e isso é impossível.

2. Filho, a sabedoria que o Espírito Santo dá é diferente da sabedoria deste mundo, pois com a sabedoria deste mundo muitos homens que são chamados de sábios cometem faltas e pecados, mas com a sabedoria que o Espírito Santo dá, ninguém pode cometer falta ou pecado.

3. Amável filho, com a sabedoria que o Espírito Santo dá, o homem tem conhecimento da bondade, da grandeza, da eternidade, do poder e das outras virtudes de Deus, pois é tão excelente e nobre coisa conhecer Deus e Suas virtudes, que nenhuma criatura pode saber isso somente por si mesma e sem a obra do Espírito Santo.

4. Se amas, temes e honras o glorioso Espírito Santo, Ele pode te dar a sabedoria com a qual desejarás louvar, amar, honrar e servir o Deus da Glória por todos os tempos de tua vida.

5. Filho, é coisa injuriosa conhecer e não amar a Deus, pois Deus é coisa tão nobre que, por Sua nobreza, convêm ao homem amor e conhecimento para amá-Lo e conhecê-Lo. Assim, se tu desejas que teu amor e sabedoria sejam convenientes para conheceres e amares a Deus, pede ao Espírito Santo que queira, com Sua piedade, dar-te a luz e a caridade, de tal maneira que conheças e ames Nosso Senhor Deus.

6. Através da sabedoria que o Espírito Santo dá, o homem conhece de onde vem, o que é, onde está, para onde vai, o que fez, o que faz e o que fará. Assim, se tu, filho, desejas ter sabedoria em todas essas coisas, esforça-te, tanto quanto podes, para amares, honrares e temeres o Espírito Santo, que dá tais dons.

7. Filho, essa sabedoria que o Espírito Santo dá faz com que os homens que estão na Terra conheçam Deus, que está no Céu, e faz o homem menosprezar a vanglória deste mundo, ser temeroso do fogo infernal e agradável a Deus e a todos os santos que estão em glória.

8. Filho, pede sabedoria ao Espírito Santo, pois Ele dá a todos aqueles que pedem como deveriam, e a quem quer, mas àqueles que não O amam, Ele não dá.

9. Se o Espírito Santo não desse sabedoria àqueles que amam a sabedoria, seria contrário a Si mesmo, que é a própria sabedoria; se não pudesse dar sabedoria a quem quisesse, não seria livre em seus dons; e se desse sabedoria àqueles que desamam a sabedoria, desamaria a Si mesmo, amando aqueles que desamam.

XXXI. Do Entendimento
1. Filho, o Espírito Santo ilumina de entendimento a alma do homem, como o círio ardente ilumina o quarto ou como o resplendor do Sol que ilumina todo o mundo.

2. Filho, o entendimento é o poder da alma que entende o bem e o mal, e entende a diferença, a concordância e a contrariedade nas criaturas, e pelo entendimento, o homem conhece as coisas que são verdade e as coisas que são falsas.

3. Filho, assim como tu vês com os olhos corporais o caminho por onde vais, tua alma sabe lembrar, amar, imaginar e ver com os olhos do teu entendimento. Logo, assim como a natureza dá a alguns homens melhor visão que a outros, o Espírito Santo dá a alguns homens um entendimento mais claro e mais elevado que a outros.

4. Amável filho, maior que castelos, vilas, cidades e reinados é o elevado e exaltado dom do entendimento que o Espírito Santo dá ao homem. Pois o rei que não tem o entendimento sutil não pode conhecer a Deus, a si mesmo e nem o que Deus lhe dá; mas o homem que tem um entendimento sutil conhece a Deus, a si mesmo e é grato a Deus pelos bens que Ele lhe dá.

5. Filho, pouco valem as belas feições e as vestimentas ornadas no lugar tenebroso, e aos homens que são cegos os caminhos planos são perigosos e penosos. Assim, prega ao Espírito Santo que ilumine tua alma com um sutil entendimento.

6. Muitos são os homens que amam ter ciência mas não podem tê-la, porque não têm o entendimento claro, e muitos homens recebem a ciência através de um elevado entendimento.

7. Amável filho, o Espírito Santo dá ao teu entendimento as coisas que consegues entender. Assim, se entendes Deus, Deus permite ser entendido pelo teu entendimento. E se tu entendes a ti mesmo e a este mundo, é o Espírito Santo quem dá ao teu entendimento a capacidade de entender a ti mesmo e a este mundo.

8. Ah, filho, tantos homens são presos, enganados, traídos e mortos porque lhes falta o entendimento, e tantos homens estão ricos e bem-aventurados neste mundo, e no outro estarão em glória por todos os tempos por terem um entendimento abundante e elevado pela graça do Espírito Santo!

9. Filho, terás maior entendimento em glória se, em um mês neste mundo, exaltares teu entendimento para conheceres, amares e servires a Deus. Por isso, te dou um conselho: que tu, tanto quanto possas, exaltes teu entendimento acima de todas as coisas para honrares, louvares e conheceres Aquele que te deu o dom do entendimento, isto é, Deus Glorioso Espírito Santo.

XXXII. Do Conselho
1. Filho, o conselho do Espírito Santo é aquilo pelo qual os homens fazem boas obras e têm vontade de cessar o mal e de fazer o bem. E como o Espírito Santo é conselheiro de todo o bem, em tudo o que fizeres e disseres, pede que o Espírito Santo te aconselhe e ilumine os olhos de tua alma para as obras que são agradáveis a Deus.

2. O conselho que o Espírito Santo dá não falha, pois sabe todas as coisas, ama todos os bens e não deseja nenhum mal. Por isso, filho, convém te inclinares ao conselho do Espírito Santo se desejas ter alguma coisa. E esquiva e foge do conselho daqueles que, ignorantemente e tendo má vontade, são conselheiros que aconselham faltas e erros ao homem.

3. Amável filho, teus sentido corporais te aconselham que ames este mundo e menosprezes o outro século. Sabes por que te dão esse conselho? Porque vêem os deleites deste mundo e não podem ver a bem-aventurada glória do outro. E como o Espírito Santo vê este século e o outro, te aconselha que menosprezes a vaidade deste mundo traspassável, e que tenhas a glória do outro, que nunca terá fim.

4. Se a má fêmea te aconselha que a ames mais que a Deus, o Espírito Santo te aconselha que ames mais a Deus que a todas as outra coisas. E se tu, filho, crês no conselho da malvada fêmea, saibas que tu colocas teu corpo na prisão do cárcere infernal, da qual nunca sairá.

5. Se as penas infernais te dão, com temor, conselho que ames a Deus para que não as tenhas, o Espírito Santo te aconselha que ames a Deus porque Ele é bom. E se a glória do Paraíso te aconselha que ames a Deus para que a tenhas, o Espírito Santo te aconselha que ames a Deus porque ele vale mais que a glória celestial que tu amas.

6. Filho, tudo o que tens, tens pelo conselho que o Espírito Santo te dá; e tudo o que erras, erras porque não crês no conselho do Espírito Santo.

7. O Espírito Santo dá e aconselha a verdade e as boas obras contra aqueles que pedem pagamento do malvado conselho que dão. Por isso, filho, crê no conselho que Deus te dá e não submetas teu entendimento nem tua vontade ao conselho do entendimento ignorante nem da vontade injuriosa.

8. O Espírito Santo aconselha os pobres órfãos despossuídos e humilhados e aconselha os príncipes e os barões honrados que não submetam a si mesmos ao malvado conselhos de seus homens, que menosprezam o conselho que o Espírito Santo dá.

9. No momento da morte, quando o teu conselho falha, tens necessidade, filho, do conselho de Deus, que não falha àqueles que o pedem, pois naquele momento nem os dinheiros, o honramento, os amigos, a ciência nas artes nem qualquer coisa pode ajudar o homem, somente o conselho do Espírito Santo.

XXXIII. Da Fortaleza que o Espírito Santo dá
1. Filho, o Espírito Santo dá forte coragem aos homens para que vençam e se apoderem de seus inimigos e dos deleites deste mundo, que são inimigos da glória do outro século.

2. Com o Espírito Santo, és forte contra tua carne, contra este mundo e contra o demônio, e sem a ajuda do Espírito Santo, nenhum homem pode vencer qualquer uma dessas três batalhas.

3. O fortalecimento da fé, da esperança, da caridade, da justiça e das outras virtudes vem da força do Espírito Santo, sem O qual nenhum homem pode combater ou dominar os vícios que são contrários às virtudes ditas acima.

4. Amável filho, o Espírito Santo dá diversas forças, pois a alguns homens dá força corporal, a outros dá força de coragem, a outros força de linhagem, a outros força de riquezas, e assim das outras coisas semelhantes a essas.

5. Filho, todas as forças corporais e espirituais vêm do Espírito Santo. Por isso, filho, Sua força é amável e temível acima de toda outra força ou forças. Se não fosse o Espírito Santo, tudo quanto foi criado não teria tanto poder para ser algo em uma hora ou em um momento, pois tudo quanto existe retornaria ao nada de onde veio, mas pelo Espírito Santo, todas as criaturas são sustentadas.

6. Filho, muitos são os demônios que têm tanta força que, se não fosse o Espírito Santo, todos os homens deste mundo seriam colocados no Inferno e destruiriam todo o mundo. Mas a força do Espírito Santo é tão grande que nenhum demônio pode fazer algo, somente o que o Espírito Santo permite.

7. Como o Espírito Santo é tão poderoso acima de todos os outros poderes, se o Espírito Santo está contigo, filho, quem pode contra teu poder? E quem pode te separar da agradável vontade de Nosso Senhor Deus?

XXXIV. Da Ciência
1. Filho, ciência é saber o que existe, e o Espírito Santo deu essa ciência aos apóstolos e aos outros homens que têm a ciência infundida pela graça de Deus, a qual ciência não pode ser dada sem a graça do Espírito Santo.

2. Amável filho, todas as criaturas significam e representam ao homem a bondade, a nobreza e o poder de Nosso Senhor Deus. Assim, quando o entendimento humano recebe a demonstração que as criaturas têm de Deus, é iluminado com a divina luminosidade do Espírito Santo.

3. Filho, muitos homens têm ciência por aprendizado. Mas a ciência que o Espírito Santo dá é infundida e é muito maior e mais nobre que aquela que o homem aprendeu na escola de seu mestre.

4. Filho, se disputas com alguém para dares honramento de Deus e para exemplificares a Santa fé católica, confia na ciência que os mestres mostram aos escolares.

5. A ciência adquirida não pode inspirar a coragem dos pecadores nem dos errados, mas a ciência infundida pela obra do Espírito Santo dá consciência aos pecadores de seus pecados e ilumina os olhos tenebrosos dos homens que estão no erro.

6. Sabes, filho, por que Deus te dá o conhecimento de Si mesmo? Para que O ames mais que a todas as coisas. E se amas mais alguma coisa que a Deus, que te conhece melhor, maior culpa tens e maior pena terás, pois com essa culpa, vais ao abismo infernal.

7. Na celestial glória, aqueles que têm mais conhecimento têm de Deus maior glória. Mas no fogo infernal, aqueles que têm maior conhecimento de Deus têm maior pena.

8. Filho, a ti é dada ciência da divina luz do Espírito Santo, pela qual sabes ter conhecimento do bem e do mal. Sabes por quê? Para que ames o bem e tenhas ódio do mal.

9. Se Deus te demonstra as coisas que deves fazer e as coisas que não deves fazer, e tu, filho, não fazes o que entendes, cegas os olhos de tua alma e a colocas em caminhos tenebrosos, pelos quais vão os pecadores ao fogo perdurável, no qual são atormentados pela justiça de Deus.

XXXV. Da Piedade
1. A piedade é ter o coração paciente na paixão de seu próximo. Assim, filho, o Espírito Santo dá tal piedade ao coração dos homens para que sejam amáveis e ajudem uns aos outros.

2. A piedade faz relembrar a Santa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo nas grandes dores que suportou por nós pecadores, e faz o homem cogitar o amargor, as lágrimas e os grandes trabalhos que Nossa Senhora Santa Maria teve quando atormentaram e mataram Seu glorioso filho diante Dela.

3. Em piedade são e estão os bem-aventurados ricos, pobres de espírito, quando têm piedade dos pobres que pedem pelo amor de Deus, mas em muito maior piedade, são e estão aqueles que têm piedade dos infiéis, que ignorantemente vão ao fogo perdurável, e pela salvação desses homens, dão a si mesmos trabalhos e mortes.

4. Filho, quanto maior for a grande piedade de teu coração, serás mais agradável ao Filho de Deus, e mais suavizarás a ira de Deus contra tuas faltas.

5. Amável filho, tenhas piedade de teu próximo, para que possas amar e chorar, pois a piedade traz o amor e faz as lágrimas se transformarem em doçura.

6. Se o Deus da Glória teve piedade ou por piedade foi encarnado, atormentado e levado à morte na cruz, quem é o inimigo da piedade, e como se desculpa por não ter piedade de seu próximo e de si mesmo?

7. Filho, não tenhas piedade de ti mesmo quando pecares, nem quando ouvires contar que o Filho de Deus é em algumas terras blasfemado, desonrado e desacreditado, tenhas piedade da Paixão do Filho de Deus e daqueles que são teus próximos que, pela desonra que fazem ao Filho de Deus, irão ao fogo sem fim.

8. A piedade faz dar, perdoar, pacificar, amar, humilhar e ajudar; e a piedade faz o homem confiar nos dons que o Espírito Santo dá, pois vem e se apodera da crueldade e do desconhecimento.

9. Filho, da necessidade convém que tu ames a ti mesmo e não te desejes mal. Assim, se te amas, terás piedade, se te desejas mal, terás crueldade.

10. Filho, a ti parece que Deus é piedoso, se no fim de todos os dias vês a morte com os muitos pecados que tens feito? E não te parece que o pobre, mal vestido, doente e faminto, precisa encontrar piedade em teu coração quando te pede pelo amor de Deus?

XXXVI. Do Temor
1. O temor é conheceres tua menoridade e a maioridade de teu maior que tem cometido faltas. Assim, por ser dado pelo Espírito Santo, tal temor existe com amor.

2. Filho, temível é Deus, porque O tens, porque não O perdes e porque Ele não te dá tormentos duráveis. No entanto, Ele é temível muito mais fortemente porque é bom e amável.

3. Filho, se tu tens tal temor, teu amor será semelhante ao amor de Deus, pois Deus ama a Si mesmo através de Sua bondade. E se tu temes mais a Deus por pavor que por amor, és mais amante de ti mesmo que da bondade de Deus. Assim, tal temor não é dado pela obra do Espírito Santo, pois se o fosse, o Espírito Santo seria contrário à Sua própria bondade.

4. Temer a morte natural é temor que a natureza dá, e temer suportar trabalhos e morte para louvar e honrar a Deus não é temor dado pela obra do Espírito Santo. Logo, o temor que se tem de morrer para servir a Deus é uma obra que o Espírito Santo não dá.

5. Filho, responde-me e dize-me qual temor é maior em teu coração: temer a Deus ou a blasfêmia das gentes? Pois se temes mais a blasfêmia das gentes que a Deus, o temor que tens é contrário ao temor que vem pela graça do Espírito Santo.

6. Amável filho, o Espírito Santo dá temor para que o homem saiba que Ele tem todo o poder, sabe todas as coisas e obra retamente em todos os tempos e lugares. Assim, se tu tens maior temor de teu senhor terreno que de Deus, renegas o Deus da Glória que não teme nada, e de teu senhor terreno, que teme a Deus e é Seu servidor, faz ídolo e Deus.

7. Filho, imagina como o Deus do céu é temível, pois o rei que te deram, que foi criado do nada e o qual receberá Sua sentença e mercê, pode tomar tudo quanto tens, e Aquele tem muitos servidores que podem te sujeitar, atormentar e matar sem que possas te defender.

8. Filho, se tu não temes a Deus, não temes o fogo infernal, e se não temes o fogo infernal, não temes o fogo deste mundo, e se não temes este fogo temporal, entra em um forno quando está totalmente aceso e experimenta ficar aí uma hora.

9. Filho, sabes por que a morte é temível? Porque não podes fugir dela e não sabes quando ela te levará. Assim, se temes a morte, que não pode te matar mas somente teu corpo, temerás a Deus, filho, que pode colocar teu corpo e tua alma no fogo perdurável.

10. Deus não seria temível se tudo perdoasse, mas como não perdoa alguns, para que tu não sejas daqueles que Ele não perdoa, tenhas temor, filho, pois se O temes, não temerás a morte. E quanto maior for o temor que tiveres, teus méritos estarão maiores na glória e neste mundo confiarás mais na misericórdia de Deus.

- Fim Dos Sete Sacramentos da Santa Igreja e Dos Sete Dons que o Espírito Santo dá -