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Ramon Llull (1232-1316) Das Oito Bem-aventuranças 2. A pobreza de espírito é menosprezar as vaidades deste mundo e desejar o reino de Deus. Assim, aqueles que são ricos e menosprezam as riquezas, e os religiosos que, pelo amor de Deus, desamparam o mundo e suportam a pobreza, são pobres de espírito, filho, e lhe são prometidas as riquezas no reino celestial. 3. Amável filho, os mais honrados e mais nobres no reino dos céus são Jesus Cristo, Nossa Senhora Santa Maria, os apóstolos e os mártires. Todos esses, neste mundo, tiveram a pobreza em Seus espíritos, além de serem pobres dos bens deste mundo. Logo, convém que tu ames mais a vontade da pobreza que as riquezas, para que possas ter o reino celestial. 4. Filho, tu podes ter e possuir as riquezas deste mundo, e ser pobre de espírito, pois se colocas as riquezas que tens e que Deus te deu para louvá-Lo e honrá-Lo, e por amor a Ele fazes esmolas, podes ser pobre de espírito e possuir as riquezas deste mundo. 5. Quem está satisfeito com os bens que tem neste mundo, é pobre de espírito e neste está significado o reino dos céus, no qual todos que lá estão têm cumprimento. E quem não está satisfeito com o que Deus lhe deu neste mundo tem em si o significado da cavidade infernal, na qual têm pobreza eterna os pecadores que desejam o que em nenhum tempo terão. 6. Filho, pensa na vileza das riquezas temporais que não podem satisfazer a alma daqueles que as amam, e cogita o breve tempo em que as possuis e como as possuis com ignorância, já que não sabes quando virá a morte, que leva todos os bens deste mundo. 7. No reino deste mundo existem virtudes com as quais terás o reino do céu. Assim, se desejas ter a celestial bem-aventurança, neste mundo tenhas em teu coração o cumprimento de Deus, de tal maneira que, no desejar de tua alma, Deus se cumpra em Sua Glória. 8. Amável filho, os homens que não satisfazem a Deus neste mundo e cuidam satisfazer a alma com as riquezas temporais são menosprezados por Deus e louvam as riquezas terrenas. Por isso, submetem a si mesmos a perduráveis trabalhos. 9. Filho, se desejas ser mais rico que o rei, sejas mais pobre de espírito que o rei. Se tu, que não és rei, podes ser mais rico que ele por menosprezares este mundo, quanto mais, por pobreza de espírito, podes ser rico no Reino de Deus. XXXVIII. Da Possessão 3. Em guerra e em trabalho se encontra a alma que não possui os cinco sentidos corporais, e o corpo é rebelde contra a alma que não possui sua vontade. Por isso, o homem com trabalhos é possuído pela vaidade deste mundo. 4. Amável filho, ama a suavidade para que a ira não mova teu coração à desobediência, através da qual a servidão vem, e humilha teu pensamento para cogitares a vileza deste mundo para que tua vontade seja contida e queira desejar a posse da bem-aventurança infinita. 5. O amor que ama a Deus faz do rebelde simples e suave, a simplicidade e a suavidade fazem os homens humildes possuírem os orgulhosos, e a humildade pacifica os irados. Por isso, filho, a caridade e o amor são os princípios da possessão da paz. 6. Filho, suave foi Nosso Senhor Jesus Cristo quando veio a este mundo e se deixou prender, sujeitar, açoitar e crucificar. Sabes por quê? Para que a linhagem humana recobrasse a possessão que foi prometida no Reino de Deus. 7. Obediência, perseverança e paciência ajudam a suavidade, que combate o cruel e o rebelde, exaltando o homem simples e suave na benção de Deus. XXXIX. Da Consolação 2. Filho, chora teus pecados e tuas culpas, de tal maneira que não estejas desconsolado dos bens celestiais no fogo infernal, o qual desconsolo têm todos aqueles que neste mundo não se consolam na virtude de Nosso Senhor Deus e na Sua Paixão. 3. Filho, se choras porque os cristãos pecadores não são gratos a Deus, que deixou Seu Filho crucificado para que nos consolássemos Nele, e se choras pelos infiéis que ignorantemente vão para os tormentos duráveis que dão os demônios, tenhas consolação na justiça de Deus, que faz todas as Suas obras reta e ordenadamente. 4. Filho, se tu amas fazer algo e não podes terminar para servires a Jesus Cristo, não sejas consolado nos méritos que não tens grandes o suficiente para que tuas obras sejam perfeitas; e chora quando não podes cumprir todo o teu desejo, pois existe falta de amor naqueles que são consolados em seus méritos. 5. Filho, chora primeiramente para honrares e amares a Deus, e somente depois podes chorar por pavor dos tormentos infinitos e por desejares os celestiais bens que duram todos os tempos. 6. Chorar sem amor não convém com o prazer da conveniência que existe no chorar com consolação. Assim, para que sejas consolado, chora por amor, que as lágrimas dão consolação aos seus amantes. 7. Ah, filho, quão grande consolação têm aqueles que por amor estão em suspiros, lágrimas e em choro! Assim, se amas ser consolado e se desejas recobrar as maiores coisas celestes perdidas, saibas chorar, pois ganhas mais na consolação do prazer que tens em chorar que na perda das vaidades mundanas. 8. Se desejas chorar e não podes, não sabes amar nem desejar os bens celestiais e menosprezar os deleites deste mundo, nem sabes ter consolação dos bens que Deus te deu. 9. Amável filho, chora os tormentos que são destinados àqueles infiéis que não conhecem a Deus, pois tais lágrimas preparam tua consolação na bem-aventurança que não tem fim. 10. Este mundo é o lugar de chorar para que no outro século saibamos nos consolar. Assim, se não podes chorar, choras porque não choras, e amas chorar para que sejas consolado e tenhas alívio dos trabalhos que chegam através do desconsolo, pois não podes perder tanto quanto podes ganhar com a consolação que as lágrimas dão. 11. Filho, antes de não poderes chorar, te aconselho a deixares tua terra, teus amigos, expulsares todas as coisas de teu coração e colocares Deus. Então vai aos eremitérios e às terras estranhas e dá pobreza e trabalho ao teu corpo, para que tua vida esteja em consolação e na doçura que chega através das lágrimas e do choro ao relembrar a Santa Paixão do Filho de Deus. XL. Do Cumprimento 2. Filho, Deus prometeu a bem-aventurança da satisfação a todos aqueles que desejam a justiça. Sabes por quê? Porque Deus é justiça, que é o cumprimento do desejo veemente de justiça. 3. Se desejas justiça e morres por justiça, a morte completa teu desejo, pelo qual ser-te-ão aliviados os pavores e os trabalhos que a morte dá, e por este alívio a morte não é temível. 4. Amável filho, as melhores e maiores comidas dão maior satisfação que as menores. Assim, se tua alma está satisfeita quando a justiça te satisfaz a injúria que te fizeram, quanto mais a justiça que fazes de ti mesmo e de teus erros deve satisfazer mais o desejo veemente de tua alma! 5. Amável filho, se o pão, a carne, o vinho e as outras comidas satisfazem o corpo, se a visão de belas feições são prazerosas os olhos corporais, e prazerosas palavras e vozes são prazerosas de ouvir, quanto mais os desejos de tua alma podem ter cumprimento na bem-aventurança que chega através da obra da justiça! 6. Filho, se neste mundo desejas injuriosamente os dinheiros, as posses, o honramento, ou quaisquer outras coisas, a injúria te fará desejar mais sem teres nenhuma satisfação. Assim, filho, como a justiça é contrária à injúria, se desejas justamente algumas coisas temporais ou celestiais, convém que a justiça dê cumprimento e bem-aventurança ao teu desejo reto. 7. A razão final pela qual foste criado e recriado é a justiça. Assim, o cumprimento de tal desejo não pode existir através do desejo injurioso. 8. Se a maior justiça que existe no homem é afirmar e amar a unidade, trindade e encarnação em Deus, a maior injúria que existe é negar e descrer na unidade, na trindade e na encarnação de Deus. Assim, filho, se tu desejas ter a maior bem-aventurança que se pode ter através da justiça, ama morrer pela maior justiça. 9. Filho, a misericórdia e a justiça se convêm nos homens pecadores que a misericórdia exalta mais fortemente neste mundo. E se a justiça atormenta aqueles que neste mundo não cumpriram seu desejo veemente, no outro século terão a maldição da ira de Deus. XLI. Da Misericórdia 2. Para significar que Deus deseja a misericórdia, Ele prometeu a bem-aventurança da misericórdia àqueles que por Seu amor são misericordiosos com seus próximos. Assim, se tu, filho, podes fazer misericórdia a teu próximo com os bens que Deus te confiou, quanto mais Deus pode te dar a grande bem-aventurança, se tens misericórdia! 3. Mesmo se tu fizesses todo o bem que fazem os homens deste mundo e perdoasses todas as culpas que existem, tuas obras ainda não seriam o bastante para receberes a bem-aventurança que existe na glória celestial. Mas como Deus é misericórdia, prometeu o Reino do céu àqueles que têm alguma lembrança Dele, quando têm misericórdia. 4. Desamar a misericórdia em teu próximo é desamar a misericórdia de Deus, e desamar a misericórdia de Deus é desamar a bem-aventurança celestial que não pode ser dada por outro, mas somente pela misericórdia de Deus. 5. Diz-me, filho, a quem é dada maior danação: a teu próximo, quando não tens misericórdia dele, ou a ti, quando Deus não tem misericórdia de ti? 6. Deus teve misericórdia do ser humano e de Seu Filho, o qual enviou à Terra para ser homem, e na cruz para que perdoasse a culpa com a qual o mundo estava. Assim, se tu não és misericordioso, menosprezas a misericórdia que Deus te fez, e menosprezas a bem-aventurança na qual são chamados os misericordiosos. 7. Amável filho, este mundo é o lugar de perdoar e de ter misericórdia, pois no outro século não se pode perdoar, pois se todos os demônios e os pecadores que estão no Inferno pudessem ter vontade de amar a misericórdia, sairiam dos tormentos infernais e, pela vontade misericordiosa, seriam bem-aventurados na perdurável bem-aventurança. 8. Se a misericórdia não te ajuda com a justiça, de que te vales? Aquele a quem tu não desejas perdoar não podes danar, e como não lhe perdoas, és julgado à danação. Assim, para que tenhas amigos e que teus inimigos não sejam a ocasião de seres danado, tenhas misericórdia. 9. Deus tem mais que perdoar a ti que ti a teu próximo. Logo, se pelo menor perdão podes ter maior misericórdia, se não amas perdoar desamas e trocas as maiores e melhores coisas pelas menores, e por esse desamor, és indigno de ter a celestial bem-aventurança de Nosso Senhor Deus. XLII. Do ato de ver Deus 2. Assim como não convém à visão corporal grão ou remela, não convêm culpa e pecado aos olhos que vêem Deus. Por isso, é necessário que a pureza de pensamento seja conveniente para ver Deus. 3. Lava teus olhos corporais com a água de teu coração, que sai por teus olhos através das lágrimas e choro, para que a contrição e a penitência mudem e purifiquem tua alma dos vícios e dos pecados, e que através da pureza da consciência de tua alma, tenhas bem-aventurança nos eternos deleites. 4. Amável filho, se tua mãe tem grande prazer de te ver, apesar de seres mortal, vindo do nada e estares em dúvida se serás chamado à glória celestial ou à pena infernal, quanto mais tu podes ter maior prazer em ver Deus, que é Pai e Senhor de tudo quanto existe! 5. Vê quão prazerosa coisa é ver as estrelas, o Sol, a Lua, o céu, o mar, a Terra, os planetas, as plantas, as aves, as bestas, os homens, os castelos, as vilas e as cidades, as vestimentas, as esculturas e as outras criaturas. Logo, se por teus olhos corporais podes ter a bem-aventurança de ver tantas coisas, esforça-te para veres o Deus da glória que criou todas essas coisas, o qual é visto com uma consciência clara e inocente. 6. Ver com certeza em Deus inteligência, bondade, grandeza, eternidade, poder, sabedoria, amor, virtude, glória, cumprimento e as outras virtudes que convém a Deus, filho, existe acima de toda bem-aventurança que existe na criatura, e tal visão nenhuma vista pode elevar sem a pureza de uma alma pura e santificada, onde não existam culpas nem pecados. 7. No espelho que é límpido podes ver tuas feições. Assim, se desejas ver Deus, priva tua alma para purificares o espelho no qual vês teu criador e teu salvador, e que Ele seja a bem-aventurança e glória de tua alma. 8. Amável filho, eleva teus olhos para a cruz e olha como a cruz te significa o Filho de Deus, que, com Seu precioso sangue, limpou e purificou o pecado original, e olha para ti mesmo e vê se és inocente contra os mandamentos de Deus. XLIII. Da Paciência 2. Amável filho, todos somos filhos de Deus pela criação, mas por causa da impaciência, o homem impaciente é filho da culpa e da maldição. Por isso, a paciência faz ser filho de Deus todos aqueles que Lhe são obedientes e submissos. 3. A paciência em terra estranha é filha de Deus e o orgulho em Sua terra é filho do Diabo. Logo, filho, para te significar que mais vale seres pobre e menosprezado em terra estranha e seres paciente que rico e orgulhoso entre teus parentes, Deus prometeu a Si mesmo ser pai daqueles que forem Seus filhos. 4. Sabes por que Deus deseja ser teu pai, se tens paciência? Porque a paciência faz o orgulhoso ser paciente e com a paciência os impacientes são vencidos e superados. 5. O impaciente é filho da ira e se encontra em um buraco de trevas onde deseja estar sem discrição de pensamento e contrição de consciência, e oferece àquele ser filho da morte perdurável. 6. O Filho de Deus, Jesus Cristo, teve paciência na cruz mais do que tu podes imaginar ou a cruz pode te significar, pois a maior paciência foi oferecida por Jesus Cristo, que o homem não pode atormentar nem matar, pois os tormentos que suportou, fizeram-No obediente à sua paciência. 7. Imagina, filho, qual coisa é mais conveniente ser amada: o glorificado e paciente Filho de Deus ou o atormentado e impaciente filho do demônio, impaciente, atormentado e desagradável ao Filho de Deus. XLIV. Da Recompensa 2. Amável filho, assim como as criaturas que não têm razão são submetidas a suportar trabalho e paixão e servirem o homem, todos os homens são submetidos e obrigados a suportar trabalhos para servirem e honrarem o Senhor da Glória. 3. Assim, ainda que todos sejam obrigados a servirem a Deus para demonstrar a grande caridade, liberdade, graça, misericórdia e piedade divinas, o Rei dos reis promete a recompensa reta a todos aqueles que suportarem trabalhos para mostrarem, louvarem e pregarem-No aos infiéis, ainda que sejam obrigados. 4. Os maiores trabalhos e as maiores perseguições que existem para honrar a Deus são convenientes com as maiores recompensas para demonstrar que não trabalhar nem suportar tribulações pelo amor de Deus não é conveniente com recompensas. 5. Se os homens ricos multiplicam suas riquezas multiplicando dinheiros e possessões, a multiplicação dos dons celestiais, filho, é a multiplicação de tormentos e tribulações que devem ser suportados para louvar e servir o soberano bem. 6. Existe algum homem temporal que tenha temor de ser rico e feliz nos deleites deste mundo? E quem tem temor de multiplicar sua glória para suportar coisas amáveis e com todos os méritos ser recompensado com a maior bem-aventurança? 7. Neste mundo, os trabalhos têm fim mas as recompensas da glória são eternas. Por isso, para ter a bem-aventurança celestial, as dores e perseguições foram muito agradáveis e prazerosas aos apóstolos e mártires, os quais a bem-aventurança chamava. 8. Filho, se tu amas ser bem-aventurado, não temas sofrer os trabalhos nem a morte para amares e servires a Deus, pois tal temor é contra a bem-aventurança que existia naqueles que, com desejo e pregações que faziam a Deus, andavam louvando e servindo o Rei da Glória entre os inimigos de Deus. 9. Quando estás enamorado de Deus e inflamado com a graça do Espírito Santo, não fazes diferença entre a tua terra e a terra estranha, entre a honra e a desonra, entre um homem e outro, entre a bem-aventurança e a paixão, pois tudo te é prazeroso para que possas servir a Deus. 10. Olha quantos homens existem neste mundo que por
dinheiros, que não são Deus, por vanglória, que
faz o homem inimigo de Deus, e pela bem-aventurança mortal, suportam
tantos trabalhos e tantas tribulações. Assim, amável
filho, tu saberás, se punirás e desejarás suportar
infelicidades e menosprezos para louvares o nome de Deus? 2. Amável filho, não podes imaginar o grande gozo que a rainha do céu e da terra teve quando o anjo Gabriel a saudou, pois se não poderias cogitar nem entender o gozo que tua mãe teria se todas as gentes te elegessem senhor deste mundo, quanto mais imaginar o gozo maravilhoso que Nossa Senhora teve no momento em que o Deus da Glória a elegeu rainha dos anjos, de todos os santos do Paraíso e Senhora de todo o mundo! 3. Sem qualquer comparação, o maior gozo da Virgem Maria foi quando Ela entendeu que Seu Filho seria uno com o Filho de Deus e não apenas o senhor do céu, da terra e de tudo quanto existe, porque muito maior nobreza é ser uno com Deus que ser Senhor de todo o mundo. 4. De acordo com o grande gozo de Nossa Senhora, foi conveniente existir o honramento que Deus fez à Nossa Senhora, e de acordo com o grande proveito que a linhagem humana teve na concepção do Filho de Deus, foi conveniente ser grande Seu gozo. Logo, o gozo de Nossa Senhora é inimaginável. 5. Se existisse um fogo que estivesse em todo o mundo, necessariamente seria conveniente que tu estivesses no fogo, caso contrário, não estarias em todo o mundo. Logo, se o gozo que Nossa Senhora teve foi maior que todo este mundo, por necessidade convém que a nobreza de Nossa Senhora, Sua Alegria, Sua Glória e Sua honra sejam maiores que todo o mundo. 6. Filho, foi tão grande o maravilhoso gozo que Nossa Senhora Santa Maria teve, que todo homem, por mais que perca, por mais tribulações que tenha e por mais paixão que suporte, pode ser consolado, alegrado e beneficiado no gozo de Nossa Senhora. 7. O sol não pode iluminar tanto nem o fogo aquecer quanto a alegria que os santos de glória tiveram com a concepção de Nossa Senhora, e tudo o que as criaturas deste mundo fazem não é tanto quanto a lembrança, o entendimento e o amor que Nossa Senhora sentiu ao saber que Deus desejou estar com Seu Filho. Logo, filho, saberás te alegrar desse tão glorioso gozo de Nossa Senhora, para Lhe seres agradável. XLVI. Da alegria que Nossa Senhora sentiu
com o nascimento de Seu Filho 2. Amável filho, quando este Filho tão Glorioso e tão Honrado nasceu de Nossa Senhora, a rainha do céu se alegrou tão fortemente que o coração do homem não pode imaginar, nem a angelical inteligência pode entender. 3. Assim como a natureza de Nossa Senhora é mais própria ao Seu Filho que às outras criaturas, convém necessariamente que seja mais alegre com a Natividade de Seu Filho que nem os homens nem os anjos possam entender. E se isso não fosse assim, a possibilidade de entender seria maior nos anjos e nos homens que a união de Nossa Senhora e de Seu Filho, e isso é impossível. 4. O gozo e o fato de ser Senhor de todo o mundo não convêm e nem concordam tão fortemente quanto ter gozo e parir o Salvador e Deus do mundo. Logo, se tu desejas cogitar o gozo que Nossa Senhora teve com a Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo, imagina quão grande alegria deverias ter se pudesses criar um século tão grande e tão belo quanto este século. 5. O grande gozo que Nossa Senhora teve com Seu Filho foi coisa tão grande e maravilhosa como quando seus olhos O viram homem nascido com todo os Seus sentidos e com todo o Seu poder, e os olhos de Sua alma viram-No Deus do céu, da terra e de tudo quanto existe. Assim, aquele gozo deveria ser nomeado por um outro nome que significasse o maior gozo e a maior alegria que todo o gozo e alegria que podem existir neste mundo. 6. Parece-te que a rainha deva ter gozo quando tem um filho que deve ser rei? Contudo, seu gozo não é completo até que o vê rei. Mas a rainha do céu, logo após ter parido Seu filho, incontinenti O viu rei do céu, da terra e de todo o mundo. 7. No momento em que a doce rainha Nossa Senhora teve seu belo Filho e O teve em seus braços, e seus olhos misericordiosos olharam-No e Seu Filho glorioso olhou Sua mãe com Seus piedosos olhos corporais, a divina natureza se manifestou à inteligência de Nossa Senhora. Assim, aquele gozo, aquela alegria, aquele prazer, filho, que existiu em Nossa Senhora, não podem ser totalmente entendidos, nem neste mundo, nem no outro, por nenhuma outra criatura, mas somente por Nossa Senhora e Seu Filho, que é homem e Deus. XLVII. Dos Três Reis 2. Aqueles Três Reis foram guiados por uma estrela muito resplandecente e luminosa, que ia adiante os guiando até chegarem diante do Filho de Deus. 3. Quando os Três Reis viram Nossa Senhora Santa Maria com Nosso Senhor Deus Jesus Cristo em Seus braços, desceram de seus cavalos e ofereceram ao Filho de Deus incenso, ouro e mirra, para significar que Ele era Deus e homem e que morreria para salvar a linhagem humana. 4. Amável filho, quando Nossa Senhora viu chegar os Três Reis e viu a estrela que os guiava e o presente que ofereceram a Seu Filho, teve muito gozo com o senhorio que a estrela e os presentes significavam de Seu Filho. 5. Imagina quão grande gozo é o significado de ser Senhor das estrelas, o qual foi significado por aquela estrela, e imagina o grande gozo que a mãe de Seu Filho deve ter tido, pois pelo incenso foi demonstrado ser Ele o Senhor do céu, pelo ouro ser Senhor da terra e pela mirra ser homem e Senhor da morte e do demônio, pelo qual foi perdida a linhagem humana. 6. Quando os Três Reis ofereceram os presentes ao Filho de Nossa Senhora, fizeram a reverência que convém à criatura fazer ao Seu senhor e foram dormir, o Anjo Gabriel veio até eles e disse que não passassem pelo rei Herodes, pois este desejava matar Jesus Cristo e mataria os inocentes. E quando Nossa Senhora entendeu que Seu Filho livrou-se do poder de Herodes pela regência do anjo, teve um gozo muito grande pela salvação de Seu amável Filho de Deus. XLVIII. Do gozo que Nossa Senhora teve
com a ressurreição de Seu Filho 2. Na noite em que os judeus prenderam e encarceraram o Filho de Nossa Senhora e conduziram-No muito afrontadamente, Nossa Senhora estava naquele lugar e seguia Seu Filho como podia, e pela multidão que se movia apressadamente, Nossa Senhora não estava honrada com a honra que Lhe convinha, pois era empurrada e menosprezada pelos judeus. 3. Quando Nossa Senhora viu Seu Filho espoliado, preso e açoitado tão fortemente que Sua preciosa carne e sangue que havia recebido dela estavam arrancados e destruídos, teve tanta dor que não cabe dizer nem se pode recontar. 4. Se tu, que és servo e submetido a obedeceres
os mandamentos do glorioso Filho de Nossa Senhora – não
somente tu mas todos os anjos e homens e tudo quanto foi criado –
estivesses diante de tua mãe, preso, atormentado e morto sem
culpa, podes pensar que tua mãe teria grande dor e grande piedade
de ti. Assim, se tua mãe, que pode errar, teria um desgosto muito
grande com tua paixão, quanto mais a Virgem Maria, que não
pode errar, teve grande dor com a paixão de Seu Filho! 6. E se imaginas quão grande gozo teria tua mãe se ressuscitasses, podes pensar como foi grande o gozo de Nossa Senhora quando viu Seu Filho ressuscitado com Seu corpo imortal, incorruptível, insensível à dor e glorificado em eterna bem-aventurança. 7. Sem cogitar na maior excelência e nobreza que o Filho de Deus e Nossa Senhora têm, maior que tu e que tua mãe, e sem imaginar a dor que tua mãe poderia ter com tua paixão e morte, não poderias cogitar nem imaginar convenientemente a paixão que Nossa Senhora suportou com a morte de Seu Filho, nem o grande gozo que teve com a ressurreição de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo. XLIX. Do gozo que Nossa Senhora teve quando
seu Filho Lhe apareceu 2. Eu não poderia contar o gozo e a alegria que Nossa Senhora sentiu quando viu Seu glorioso Filho diante de Si com Seu corpo mortal glorificado. Pois assim como eu não poderia dizer a dor que Nossa Senhora suportou pela paixão de Seu Filho, somente com minhas palavras, o gozo que Nossa Senhora teve está acima de meu entendimento e de minhas palavras, pois eu não posso entendê-lo nem contá-lo. 3. Filho, este nome “Jesus Cristo” nomeia ao mesmo tempo Deus e homem, e esta aparição quer tanto dizer quanto demonstrar. Assim, se um homem muito amado e desejado que longamente esteve em terra estranha alegra muito fortemente sua mãe quando o vê chegar e fica diante dela, quanto mais Jesus Cristo, que é Deus e homem e veio da morte na qual estava, alegrou Nossa Senhora, que é Sua mãe! 4. Foi tão grande o gozo que a rainha do céu teve com a aparição de Seu Filho que qualquer outro gozo basta para alegrá-La, qualquer tristeza basta para consolá-La, e qualquer homem pode se alegrar e ser bem-aventurado com aquele gozo. 5. Filho, alegra-te com a grande alegria de Nossa Senhora e com a virtude que pode haver com a virtude que Nossa Senhora teve com o gozo de Seu Filho, pois através de tal gozo serás partícipe no agradável prazer que Jesus Cristo teve com Nossa Senhora, e sempre que pregares a Nossa Senhora, lembra-te do gozo que Ela teve com a aparição de Seu Filho. Assim serás atendido em tuas preces. 6. Se tu estás recompensado e na benção de Nossa Senhora, se tens dor ou tristeza com alguma coisa, não te sintas em dano, pois Nossa Senhora é tão alegre com Seu Filho glorioso que Sua alegria e bem-aventurança bastam tão fortemente aos seus servidores que não se tornam agradáveis à bênção de Deus. L. Do Pentecostes 2. Naquele dia foi tão grande o gozo de Nossa Senhora e dos apóstolos que, por essa abundância de grande alegria e de grande gozo, iniciou-se a pregação dos apóstolos sobre a vinda e a Paixão do Filho de Deus. E por aquelas graça e bênção que tiveram naquele dia, eles se espalharam pelo mundo para converterem o mundo ao caminho da salvação. 3. Assim como o ferro é aquecido pelo fogo
tão fortemente que por dentro e por fora fica totalmente imerso
e cheio de fogo, naquele dia em que o Espírito Santo desceu do
céu e esteve sobre Nossa Senhora e todos os apóstolos,
à semelhança da chama do fogo, todos foram inflamados
de fervor, de devoção, de caridade e de gozo. 5. Com a grande devoção e grande fome que havia nos apóstolos para converterem o mundo, e a morte e paixão que suportaram pelo amor do Filho de Deus, eles fizeram milagres e converteram os homens ao caminho da salvação. 6. Filho, está distante de nós o dia em que o Espírito Santo desceu sobre os discípulos. Por isso, filho, estão quase mortas a devoção e a caridade para pregar e converter os errantes infiéis, e encontra-se em nós o temor da morte, no qual estavam os apóstolos antes que o Espírito Santo descesse sobre eles. 7. O entendimento humano é exaltado nos homens pelos costumes e escrituras, e os infiéis requerem razões e provas necessárias para demonstrar a verdade da fé católica. Esse requerimento acontece para nós quando, pela grande caridade e fervor, trabalhamos para aprender diversas línguas e termos a doutrina necessária, já que não somos dignos de fazer milagres, e temos tal indignidade por falta de caridade e fervor e pelo temor que temos para suportarmos trabalhos e morte pelo amor de Deus. LI. Da Assunção de Nossa
Senhora Santa Maria 2. Quando Nosso Senhor Deus teve prazer que Nossa Senhora traspassasse este século para o outro, no local do dia de Sua morte foi feita uma procissão do céu à terra, na qual foram Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, todos os anjos, arcanjos e todos os santos do Paraíso e com cantos de doçura e muitos grandes honramentos elevaram Nossa Senhora ao céu soberano, na glória de Nosso Senhor Deus. 3. Quando Nossa Senhora relembrou a miséria deste mundo do qual saiu, viu Seu Deus e Seu Filho diante de Si e que A elevavam ao Pai celestial, e viu Seu Filho como Senhor de todos os santos da glória, que todos louvavam-No e honravam-No e estavam unidos para honrá-La e louvá-La, se Nossa Senhora esteve gozosa e alegre não cabe falar, e mesmo que exista alguém que queira imaginar todo o gozo que Nossa Senhora teve, não poderá cogitar nem pensar. 4. Filho, Nossa Senhora foi exaltada e elevada sobre a Lua, o Sol e as estrelas. Assim, convém que Sua alegria e gozo existam da mesma forma quanto Sua elevação foi alta, excelente e honrada. Logo, como Seu honramento é inestimável, quem é que poderia dizer, escrever, significar ou imaginar o grande gozo que teve a rainha do céu quando esteve em glória? 5. Nos céus existem duas coroas que são as melhores e mais nobres que todas as outras que estão nos santos de glória: uma é de Nosso Senhor Jesus Cristo e a outra é de Nossa Senhora. Assim, quando Seu filho coroou Nossa Senhora e Nossa Senhora viu Seu Filho coroado tão nobremente, e viu a nobreza da coroa de Seu Filho coroado, o gozo de Nossa Senhora foi igual àquela coroa. Assim, como a glória dos santos do Paraíso é tão grande, vê quão grande foi o gozo de Nossa Senhora. 6. Amável filho, como foi doce o olhar divino e humano com o qual Jesus Cristo olhou para Nossa Senhora no céu como mãe e Rainha do céu e da terra, dando gozo e doçura à Nossa Senhora, podes pensar que falta recontar e escrever aquele gozo tão grande e tão glorioso. Assim, como o gozo de Nossa Senhora Santa Maria, Virgem gloriosa – Bendita seja Ela! – é tão grande e tão maravilhoso, pede, filho, que Nossa Senhora tenha gozo, esperança, consolação, desejo e amor de tua alma e sobre todas as coisas. 7. Lembra de Nossa Senhora em tuas preocupações e orações. Assim, tanto quanto possas, honra o Filho de Nossa Senhora se desejas honrá-La e alegrá-La, pois o maior honramento que pode ser feito à Nossa Senhora é que se honre e sirva Seu glorioso Filho Deus Jesus Cristo. - Fim Das Oito Bem-aventuranças e Dos Sete Gozos de Nossa Senhora - |
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