Doutrina para crianças (1274-1276)

Ramon Llull (1232-1316)
Tradução: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) e
Grupo de Pesquisas Medievais da UFES III
(Felipe Dias de Souza, Revson Ost e Tatyana Nunes Lemos)
Revisão: Tatyana Nunes Lemos
Revisão Final: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)

Das Sete Virtudes que são os Caminhos da Salvação
LII. Da Fé
1. Filho, a fé católica é crer verdadeiras as coisas invisíveis, convenientes à religião cristã, para se perceber o que é verdade na fé sem que a razão demonstre necessariamente as coisas em que o homem crê.

2. Assim como a luz ilumina teus olhos corporais para veres as coisas corporais, pela luz da graça, vês o que crês do celestial Deus de glória e de Suas obras. E como a luz do entendimento não basta para entender tudo o que é necessário ao homem para crer em Deus e em Suas obras, Deus ilumina com a luz da graça a alma do homem para crer nas coisas invisíveis.

3. Amável filho, pela luz da fé o entendimento se exalta para entender, pois assim como a luz vai na frente para mostrar os caminhos, a fé vai à frente do entendimento. Assim, se desejas ter um entendimento sutil, não sejas incrédulo e crê, para que possas elevar teu entendimento tão alto que entendas o que a fé ilumina.

4. Assim como o homem ganha mérito por amar a Deus e a seu próximo, para ter justiça de si mesmo ou de outro e fazer boas obras, Deus deu a fé ao homem para ganhar mérito e crer nas coisas que não entende. Pois assim como tu deves ter gratidão se o homem te empresta sem garantia e penhora e não faz contrato, mas confia em tua palavra, se crês em Deus e nas Suas obras que não entendes, tens gratidão de Deus naquilo que crês, e pela gratidão tens mérito e pelo mérito tens glória. Assim, para que Deus seja a ocasião de dar a glória, deu fé aos homens.

5. Filho, os judeus, os sarracenos, os hereges e os idólatras não têm fé nem desejam ter. Assim, todos não têm tanta luz para entender Deus e Suas obras quanto tu, se crês nos catorze artigos dos quais já falamos. Logo, como aqueles por falta de fé estão perdidos mas pela fé podem ser salvos, relembra e entende quão cara coisa é a fé, e quão grande dom deu Nosso Senhor Deus àqueles a quem deu fé. Assim, como a fé é tão caro e tão nobre dom, tenhas cara a fé que Deus te deu, e por nada a expulses de teu coração.

6. Deus deu ao homem duas mãos para que uma ajude a outra, e deu ao homem duas luzes: a luz da fé e a luz do entendimento. Assim, naquilo que não se pode ter a luz do entendimento, tenhas a luz da fé e creias no que não podes entender. Logo, essa luz da fé é mais necessária aos lavradores, aos menestréis e aos homens que não têm o entendimento exaltado, e que através dessa luz se ajudem dos erros e das tentações contra os demônios, que desejam fazer os homens descrerem nas coisas que o entendimento não pode entender.

7. Neste mundo, a fé sobrepuja o entendimento, pois através da fé o homem pode mais amar a Deus do que pelo entendimento lembrar de Deus. A fé vê Deus sem intermediário, e o entendimento não pode se elevar a Deus sem a demonstração de outras coisas. A fé conserva o entendimento em um tempo e o que o entendimento entende em outro tempo, e através da fé entenderás no outro século, quando lá estiveres, o que agora não podes entender. E assim como a verdade não pode ser mensurada por nada, se amas a fé que tens, ela não pode ser mensurada por nada.

8. Os malvados cristãos que renegam e descrêem em Deus quando se fazem judeus ou sarracenos não dariam os olhos de suas cabeças por quaisquer dinheiros, mas por felonia, pelo pavor da morte ou para serem homens ricos expulsam a fé de suas almas e permanecem nas trevas, pois sem fé não podem ver Deus.

LIII. Da Esperança
1. A esperança é isso no qual está nossa salvação. Deus deu ao homem a esperança para que, fazendo boas obras, tenha esperança na justiça de Deus. Mas se o homem comete pecados ou faltas, que tenha contrição e esperança na misericórdia de Deus.

2. Amável filho, ao terem esperança na justiça e na misericórdia de Deus, os homens temem errar, pois se esperando a justiça e a misericórdia, aqueles que fazem boas obras e se penitenciam de seus pecados têm esperança de terem glória, por fazerem más obras e não terem contrição de coração são contrários à justiça e à misericórdia de Deus, e por essa contrariedade são dignos de estarem no fogo infernal perdurável.

3. Por seres meu filho e filho de tua mãe, esperes ter nossos bens temporais após minha morte e a morte de tua mãe. Assim, se tens esperança na glória celestial, convém creres que sejas filho do Pai Celestial, Deus Espiritual da Glória, e convém entenderes Sua ira, estares submetido e obedeceres Seus mandamentos, pois pelas obras contrárias não cabe ter esperança nos bens celestiais.

4. Filho, tu cometerias uma grande injúria à justiça de Deus se fizesses boas obras e te desesperasses de Deus. E cometerias grande injúria à misericórdia de Deus se por quaisquer pecados que cometesses te desesperasses da misericórdia de Deus. Assim, como a esperança de fazer o bem é razão para esperar o próprio bem, a esperança te faz esperar o perdão e o dom. Logo, vê e percebe quão boa coisa é a esperança.

5. Deus ordenou que o homem coma e beba para sustentar o corpo, e ordenou a esperança para que recorra a Ele, e confie mais em Deus que em si mesmo ou em outra coisa. Logo, assim como as comidas sustentam o corpo, a esperança a quem se confia ao poder de Deus é a razão pela qual Deus ajuda o homem em suas opressões, em suas necessidades e nas outras coisas em que nenhum homem pode se ajudar, somente Deus.

6. Muitos homens comeriam o que não comem porque não têm o que comer, e muitos homens sarariam e não morreriam se tivessem o que comer. E como todo homem pode ter esperança, se morre no fogo perdurável sabe que não é culpa da esperança e nem de Deus, que sofre para que todo homem possa apreender tanta esperança quanto necessário.

7. Filho, se encarregas muito fortemente o homem no qual confias por teres esperança que te ajude, quanto mais tu encarregas Deus, se confias Nele! Pois se pela esperança o homem não encarregasse mais fortemente a Deus que qualquer outra coisa, Deus não teria maior justiça, poder, sabedoria, caridade, misericórdia que o homem, e se não o tivesse, o homem seria Deus.

8. Relembra, filho, a encarnação e a grave paixão de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, e entende como a grande dúvida faz com que tenhas esperança. Pois se Deus encarnou e suportou a morte por ti sem que O pedisses nem merecesses, deves ter grande esperança na justiça, na misericórdia, no poder, na sabedoria, na caridade e em todas as virtudes de Deus!

LIV. Da Caridade
1. A caridade é amar a Deus e a teu próximo, a qual atenua os graves trabalhos e perigos que vêm pelo amor. E a caridade fortalece e multiplica a nobreza da coragem contra os inimigos do amor e do valor.

2. Amável filho, a caridade dá prazer aos bens e aos males que o homem suporta por amor; a caridade exalta a vontade de desejar grandes e elevadas coisas; a caridade une o homem a Deus; a caridade faz Deus dar grandes e nobres dons e faz perdoar grandes golpes e graves faltas; a caridade faz o homem se consolar de grandes danações, tornando-o rico de coragem.

3. Filho, não poderia te dizer a nobreza que existe na caridade. Por isso, aconselho-te a teres caridade em teu coração para que tenhas a Deus, que não entra no coração do homem que não tem caridade. Quanto mais tiveres caridade em teu coração, mais terás de Deus. E para que possas ter tanta caridade quanto desejas, se desejas ter Deus em teu coração, tenhas muita caridade em tua alma.

4. Este mundo é o lugar onde se pode unir e multiplicar a caridade e o amor. E quanto mais caridade e amor tiveres neste mundo mais glória terás no outro século. Sabes por quê? Porque através da maior caridade serás mais amado por Deus que pelo amor, pois a vontade e a caridade de Deus têm o costume de dar maior glória àqueles que são mais amados por Ele e que mais O amaram neste mundo.

5. Filho, a verdadeira caridade é amar a Deus porque é bom, e o falso amor acontece se o homem ama mais a Deus para receber Dele o Paraíso ou estes bens temporais que pela Sua bondade. O falso amor é amar qualquer coisa sem Deus. Assim, antes que ames qualquer coisa, ama a Deus, e sob o amor que tens por Deus, ama tudo o que amares, e com o amor que tens por Deus, não sobrepujes tua vontade para amar qualquer coisa.

6. Em tudo que amares tenhas a intenção de amar a Deus, pois se não o fizeres, não terás caridade em nada que amares. E se não tiveres caridade, serás desamado por Deus, e todos aqueles que são desamados por Deus estão em Sua ira, que os atormenta no fogo perdurável. Assim, como podes ter caridade, amável filho, não queiras estar na ira de Deus.

7. Ama o que deseja a vontade de Deus se desejas ter caridade, e não tenhas impaciência de nada desejado pela vontade de Deus. E ama, filho, todos aqueles que Deus ama; ama todos aqueles que amam a Deus; e desama tudo o que é desamado por Deus e por aqueles que amam a Deus. E antes que ames ou desames qualquer coisa, cogita se aquela coisa é amada ou desamada por Deus ou por aqueles que Deus ama e que amam a Deus.

8. Muitos homens, pelo pavor que têm de seu corpo, da restituição ou de algumas outras coisas, são covardes e não amam a Deus. Assim, ama para que sejas amado por Deus, pois quem é amado por Deus não recebe nenhuma danação, e não existe nenhuma riqueza ou qualquer utilidade que se compare à bem-aventurança que existe nos homens que são amados por Deus.

9. Filho, se sabes ter caridade terás alegria em teu coração todas as vezes que ouvires falar de amor e do que amas, e todas as vezes que vires o que amas terás alegria ou prazer, e a caridade te defenderá da ira, da melancolia e da desesperança, que são coisas que dão ao homem grandes trabalhos e graves paixões.

10. Assim como se não tivesses olhos não poderias ver, sem caridade não podes ter nenhuma virtude e nenhum agradável prazer. Portanto, quanto mais a amares, mais poderás entendê-la e mais entendê-la-ás, e quanto mais entenderes, maior amor poderás ter. Logo, se não desejas amar muito, não desejas entender muito, e se não desejas entender muito, não desejas amar muito, e se desamas amar muito e entender muito, parece que desejas não amar nem entender. Assim, recorda-te se darias tua vontade por qualquer coisa que não desejasses, ou teu entendimento para não entender nada. E se tu desses tua vontade e teu entendimento por alguma coisa, darias a ti mesmo por alguma coisa e desejarias mais aquela coisa que ser em ser, e se não fosses nada, que coisa poderias ter ou possuir?

11. Muitos homens têm capa mas não sabem abrigar-se; muitos homens têm cavalo mas não sabem cavalgar e muitos homens têm tesouro mas não sabem se servir dele. Assim, imagina se tens vontade e sabes amar, pois a vontade que sabe amar é melhor coisa que as coisas ditas acima.

12. Imagina, filho, uma vontade muito próxima que todos os tempos deseja mas nunca tem o que deseja, e todos os tempos tem o que desama e poderia ter todos os tempos o que ama. Assim, imagina quão grave paixão a vontade dá ao entendimento quando entende o que a vontade deseja todos os tempos e não tem, e teve o que todos os tempos desamou, e perdeu Deus, que todos os tempos deseja e ama. Assim, saibas, filho, que tal entendimento atormenta a vontade dos que estão no Inferno, porque neste mundo não tiveram amor a Deus.

LV. Da Justiça
1. A justiça é restituir a cada um o que é seu direito. Assim, filho, quando Deus age te dando tanto e tu esperas Dele tanta misericórdia, é justa coisa que não tires Deus de ti mesmo nem os bens que te confiou, pois se tu não serves a Deus como a ti mesmo e com o que tens, tiras de Deus o que é Seu.

2. Todo poder, saber, e todo direito estão em Deus, e Sua vontade deseja a justiça e odeia a injúria e as coisas tortas. Por isso, a justiça de Deus é temível, pois pela injúria não se pode defender do poder de Deus, não se pode ocultar da sabedoria de Deus as faltas que o homem comete contra a justiça, nem pela injúria se pode pacificar ou refrear Sua ira.

3. Amável é a justiça de Deus, pois Deus é bom. Assim, se amas a Deus, convém amares Sua justiça. E se odeias a justiça de Deus, odeias a Deus, que é Sua própria justiça, e és odiado por Deus e por todos os santos de glória e todos os amaldiçoados do Inferno. Assim, se amas a justiça de Deus, não tenhas ira do que a justiça de Deus faz de ti, pois tu és Dele, nem tenhas ira do que Ele faz com os bens que te confiou, porque foram Dele antes de serem teus.

4. Se a justiça divina castiga teu corpo, a ti e a teus bens e tu O amas, maior amor Lhe tens que se amas a justiça de Deus porque castiga teu inimigo em sua pessoa e em seus bens. E quanto mais amas a Deus em Sua justiça, mais amas a misericórdia, que é Deus. E tanto como a misericórdia de Deus mais é amada por ti, tanto mais tua culpa e tua falta são perdoadas.

5. Ah, filho, como é grande utilidade neste mundo ser amante da justiça! Pois se no outro século, os danados, que todos os tempos estarão no fogo perdurável, pudessem amar somente uma hora a justiça de Deus, por todos os tempos teriam glória. Mas como não estão no lugar em que possam amar a justiça, têm pena que não tem fim. Assim, como neste mundo é o lugar onde podes amar a justiça divina, ama, filho, com toda tua alma, tanto quanto podes, a justiça divina.

6. Temível é a justiça de Deus, pois não perdoa todos os pecadores. Pois se perdoasse todos, seria maior que a justiça, que não condenaria ninguém. Assim, se tu não temes a justiça de Deus e és daqueles que a misericórdia não perdoa, se desejas ser daqueles que são perdoados, tenhas a justiça divina.

7. Se tu abençoas a justiça de Deus quando recebes alguma paixão, abençoarás a justiça com a boca e com o teu pensamento. Mas a justiça te abençoa à celestial glória, que dura todos os tempos. E se tu abençoas Deus em Sua justiça, quando te faz justamente algum bem, por que O amaldiçoas quando justamente te pune? Sabes, filho, em que tempo amaldiçoas Deus em Sua justiça? Naquele em que tua vontade tem impaciência contra o que a justiça divina faz.

8. A justiça e a ciência se convêm, e quem julga sem saber é como o homem cego que caminha pelas trevas. Assim, se tu desejas usar a justiça retamente, adequa tua vontade entre tua lembrança e teu entender, pois pela maior vontade, o entendimento se transforma para entender, e tal transformação convém com a ignorância, que não convém com a justiça.

9. Sabes, filho, por que é dada a justiça aos homens que pleiteiam? Para que possa haver vontade mais adequada entre o lembrar e o entender naquilo que está sendo julgado no que nos homens que pleiteiam. Pois cada um deseja tanto ter aquilo que pede ou que defende, que sua vontade corrompe seu entendimento. Assim, se tu és juiz, fica atento para que não corrompas teu entendimento por tomares serviço; e se desejas ser julgado de acordo com o Direito, não corrompas o entendimento do juiz com dons ou pedidos, e confia teu feito à Justiça, para que a Justiça te confie à misericórdia de Nosso Senhor Deus.

LVI. Da Prudência
1. A prudência é obra virtuosa da vontade que ama o bem e se esquiva do mal, e é obra da inteligência, que sabe distinguir o mal do bem. Assim, por tal virtude, filho, os homens têm a certeza e a maneira de fazerem boas obras e de cessarem o mal.

2. A prudência é eleger o maior bem ou o menor mal; a prudência é concordar o tempo, o lugar, a quantidade e a qualidade; a prudência é dissimular para conservar segredos; a prudência é unir quando os outros separam; a prudência é separar quando os outros não têm quem os separe; a prudência é ter este século e o outro. E a coisa contrária à prudência é o que é contrário às coisas ditas acimas.

3. Amável filho, tenhas prudência para que não sejas enganado e para que não enganes, pois enganar ou ser enganado não convêm com a prudência. Contudo, ser enganado e prudência se convêm, quando aí se mesclam a paciência e o perdão.

4. A prudência está entre a sabedoria e a ciência, pois pela sabedoria és amante do bem e tens ódio do mal. E através da ciência, sabes o que é o bem e o que é o mal. Por isso, a prudência ajusta a sabedoria e a ciência: sabedoria e ciência compõem a prudência, e a prudência não existe sem a sabedoria e a ciência.

5. Saberás me dizer qual é o maior bem: ser amado por Deus ou ser amado por ser senhor de dinheiros, castelos, cidades e reinados? Se sabes responder e amas mais a resposta, amas e conheces a prudência; se sabes responder e amas mais os dinheiros, os castelos, as cidades e os reinados que a Deus, tens ciência sem prudência. Sabes por quê? Porque concordas o contrário da sabedoria com a ciência, que é contra a prudência e a sabedoria. E se isso não fosse assim, os dinheiros, os castelos, as cidades, os reinados e os outros bens temporais valeriam mais que Deus.

6. Com sua ira, o louco persegue o sábio, que concorda com a paz. Assim, se o louco com sua ira te expulsa da paz e faz seu semelhante como a si mesmo , pergunto: o que tens feito à prudência, que defende o sábio paciente com coragem firme e forte contra a insensatez, a ira e o trabalho, que convêm à vontade perturbada e à inteligência impotente?

7. A cautela e a maestria convêm com a prudência na mercadoria e nas outras artes mecânicas, para que aí não exista falsidade nem engano, que são contrários à prudência. Assim, se tu, filho, és amante da prudência, tenhas sabedoria para que queiras e saibas concordar com a prudência, a cautela e a maestria, sem falsidade nem engano.

8. Saber enganar e desamar o engano é amar a prudência, que sabe e desama o engano e sabe e ama a caridade e a justiça. Assim, se o sapateiro e o mercador sabem ter prudência para ganharem riquezas temporais com a pele morta, será que tu, filho, saberás ganhar a vida celestial com a pele viva, para fazeres a virtude da morte que vem com a necessidade, isto é, saberás e desejarás morrer para dares glória a teu Deus?

LVII. Da Fortaleza
1. A fortaleza é a força de coragem que reforça os poderes espirituais da alma. A fortaleza é o fortalecimento da alma, pelo qual é vivificada a força corporal. E a fortaleza é a nobreza e a segurança da coragem.

2. Amável filho, se desejas ser forte contra a batalha de tua carne, do mundo e do diabo, tenhas fortaleza em tua coragem, pois a fortaleza é uma virtude tão nobre que vence e se apodera de todas as batalhas, e a fortaleza não está em nada que é vencido e apoderado espiritualmente.

3. A alma fortalece a força corporal com sua virtude, e com os objetos que apreende fortalece suas potências. Pois, quando a alma relembra, entende e ama a Deus, é forte contra os pecados e os malvados pensamentos. Assim, ao lembrar, entender e amar a bondade, a grandeza, a eternidade, o poder, a sabedoria, o amor e as outras virtudes de Deus, naquele momento, pelos objetos que apreende em Deus seu entendimento, sua lembrança e sua vontade são tão fortificadas que as malvadas lembranças, entendimentos e desejos não têm poder contra a nobreza de sua coragem.

4. Sabes, filho, qual coisa é objeto da alma? A representação feita de alguma coisa em seu lembrar, entender e querer. Assim como a cor é objeto aos olhos corporais quando os olhos vêem a cor, e assim como o sabor é objeto à degustação, o odor ao odorar, a voz ao ouvir, o sentir ao apalpar e todos esses objetos são corporais, a alma tem objetos espirituais que apreende lembrando, entendendo, amando ou odiando.

5. Assim como as cores azul e verde fortificam a visão corporal, e ver a cor vermelha fortalece a coragem do homem, lembrar, entender e amar a Deus, Seu poder e as outras virtudes que convêm a Ele, e lembrar, entender e amar a fé, a esperança, a caridade, a justiça, a prudência, a temperança e as outras virtudes que convêm ao homem fortalecem as forças e os poderes da alma, pelo qual fortalecimento a nobreza de coragem está em sua força.

6. Bem sabes, filho, que algumas comidas dão maior força ao corpo que outras. Assim, podes saber que a alma, por lembrar, entender e amar umas coisas mais que outras pode ser mais forte contra os pecados e vícios que lembrando, entendendo e amando outras coisas. Pois assim como as mais nobres comidas dão maior força ao corpo, as mais nobres lembranças, cogitações e desejos dão maior força à alma.

7. Sabes, filho, onde se apreende a nobreza de lembrar, entender e amar? Em muito lembrar, entender e amar as coisas nobres, grandes e de grande nobreza. Assim, se desejas ter força de coragem, saibas lembrar, entender e amar muito as coisas nobres, pois muita coragem é vencida e se inclina à maldade e ao engano por não lembrar, entender e amar as coisas nobres.

8. Amável filho, se és fraco por pavor da morte, cogita que tens que morrer, e se algum desejo deseja te submeter, saibas que te cansarás dele; e se deixas de servir a Deus pelo trabalho, imagina o trabalho infernal; e se pela pobreza desejas te inclinar a alguma maldade, deseja ter pobreza de espírito, que é riqueza de coragem; e se as belas feições da fêmea desejam te inclinar à luxúria, calcula e imagina a imundície que sai do homem e da fêmea. E se tiveres tais cogitações e imaginações, serás forte contra os vícios, que são desagradáveis a Deus.

LVIII. Da Temperança
1. A temperança é refrear a vontade estando entre duas extremidades contrárias em quantidade. Assim, se tu, filho, desejas a temperança, convém que multipliques o menor e míngues o maior, eleves tanto o maior quanto o menor e desças o maior até o menor, até que tenhas uma virtude igual.

2. Lembrar e entender muito torna a vontade temperada, e lembrar e desejar muito, mas pouco entender, mortificam o entendimento e exaltam a fé e a crença. Assim, se desejas ter a vontade temperada para entenderes, torna a fé igual ao querer, amando ou odiando o lembrar e o entender.

3. Antes que estejas satisfeito de comer e beber, ama, filho, a temperança, pois amar a temperança quando não podes comer ou beber não é um tempo conveniente para amar a temperança quanto tens vontade de comer e beber, pois no tempo em que o homem pode usar da temperança, não deve amá-la menos que no tempo no qual a temperança demonstra melhor sua virtude.

4. Maior prazer dá a temperança à alma que comer e beber ao corpo, e os homens que têm temperança são mais sãos e mais deleitosos, vivem mais e são mais ricos que os homens que se enchem comendo e bebendo. Assim, se tu, filho, sabes comparar o bom com o melhor ou o mau com o pior, és culpado se não tens temperança.

5. Por comer e beber, tens prazer comendo e bebendo, e por comer e beber muito, tens trabalho, paixão e doença, pelos quais terás a ocasião de morrer. E se tens temperança comendo e não comendo, e bebendo e não bebendo, terás prazer e bem-aventurança.

6. Amável filho, os homens pobres não têm tão grande paixão para jejuarem quanto os homens ricos para comerem muito. Nem os homens pobres podem ter tanto mérito de temperança quanto os homens ricos. Assim, não queiras ser rico para que comas muito, nem queiras ser pobre para teres temperança.

7. Assim como teu corpo requer temperança para que não enfraqueças tua força por pouco comer, nem a corrompas por comer muito, tua riqueza, tua qualidade e tua idade requerem temperança em teu vestir, em teu falar, em teu dormir, em teus gastos e em todas as outras coisas necessárias para louvar e servir Nosso Senhor Deus.

LIX. Da Salvação
1. Filho, a salvação é a bem-aventurança do santo e da santa eleitos por Nosso Senhor Deus em Sua Glória que não tem fim. A qual salvação é, neste mundo, as sete virtudes acima ditas, luz pela qual os santos homens e as santas fêmeas andam pelos caminhos pelos quais se vai à bem-aventurança eleita.

2. Filho, grandes e nobres coisas são as sete virtudes ditas acima, mas maior coisa é a salvação, incomparavelmente. E sabes por quê? Porque as sete virtudes são criaturas, e a salvação existe em ver Deus, que é a salvação dos santos, pois Nele são salvos, bem-aventurados e glorificados. Assim, não basta tão somente a virtude criada para a salvação do homem, pelo contrário, é mais necessária aí a virtude incriada.

3. Não existe nenhum homem, por maior bondade que faça, que mereça ter a salvação. Mas Deus dá salvação àqueles que têm virtude e santidade contra os vícios e a maldade. E aquele que pensa ser digno de salvação por sua virtude, não é menos digno que o pecador, que por sua culpa, pensa ser digno de danação.

4. Filho, a salvação é tão alta e nobre coisa, que o Filho de Deus, para salvar o homem, quis nascer, ser homem, suportar graves trabalhos e uma morte angustiante enquanto foi homem. Assim, como Nosso Senhor Deus Jesus Cristo quis tanto fazer e suportar para dar mais perfeitamente a salvação ao homem, para quem é que, por mais virtude que tenha, pode ser suficiente a salvação?

5. Ah, filho, tantos homens têm danação e pensam ser dignos de salvação! E sabes por quê? Porque comparam suas obras às obras de Deus, que são maiores que tudo que o homem pode fazer por Deus, e Ele dá mais a somente uma alma, quando lhe dá a salvação, que todas as criaturas que existem não poderiam dar a Deus.

6. A hipocrisia e a salvação são contrárias mais fortemente naqueles que, somente por suas obras, pensam merecer a salvação, que nos pecadores que por seus pecados se têm como indignos de salvação. Isso acontece porque as obras que o homem faz não são a salvação, e a opinião que o homem tem, que tão somente por elas seja salvo, é a ocasião de danação ao homem, e a indignidade que o pecador admite ter, concorda com a misericórdia de Deus.

7. Amável filho, a vontade de Deus é maior que a tua. Por isso, convém que Deus ame mais fortemente a tua salvação que ti. Assim, Sua vontade convém com Seu poder, que pode dar salvação a quem deseja. E como tua vontade não tem poder para dar a salvação a ti ou a outro, se Deus não amasse mais a tua salvação que ti, seria menor em querer que em poder, e isso não é verdade.

8. Deus te deu a vontade livre para que sejas amante da salvação e desames a danação. Logo, assim como Deus deu a teu corpo todos os membros que pertencem ao corpo do homem, e deu à alma todas as potências que lhe convém, deu à tua vontade livre tudo o que pertence para desejares a salvação e odiares a danação, para que desejes receber a salvação tão somente pelos dons de Deus.

Dos Sete Pecados Mortais pelos quais o Homem vai à Danação Perdurável
LX. Da Glutonia

1. A glutonia é o desejo destemperado de comer e beber, comendo e bebendo mais do que convém. Assim, esse vício faz os homens desejarem a vida para que possam comer e beber, e os faz duvidar da morte, da fome e da sede para servir a Deus, que faz o homem viver para que seja servido por Ele, suportando trabalhos, perigos, fome, sede, também a morte ou qualquer ofício maior por Seu amor.

2. Filho, como a glutonia faz o homem se desviar da razão pela qual Deus o criou, é um pecado mortal. E como o homem, de acordo com o corpo natural, deseja comer e beber todos os dias, o contrário da glutonia pode existir no homem em qualquer dia, sendo uma ocasião para sua salvação, e tal contrário é a temperança, a abstinência, a continência e as outras virtudes que convêm contra o pecado da glutonia.

3. Amável filho, como os filhos são poucos e o homem os acostuma a comer pão untado, carne assada e outras coisas, acostuma as crianças a serem gulosas, e quando são grandes, elas se tornam glutonas, comem e bebem tanto que engordam e pecam por muito comer e beber, e por tal pecado são dignas de terem fome e sede no fogo e na água borbulhante, que nunca terá fim.

4. A glutonia faz com que os homens tornem Deus seu ventre e as coisas que desejam comer e beber, pois assim como o desejo da alma deve estar em cogitar todo dia como pode servir, amar, louvar e honrar a Deus, a glutonia faz com que o homem todo dia deseje estar satisfeito e ter as comidas com as quais se deleita comendo e bebendo.

5. Filho, não conheço tão malvado senhor quanto o vício da glutonia, pois ele aflige o homem todo dia e o faz freqüentemente suportar muitos trabalhos procurando as comidas. E quando o homem está satisfeito e não pode mais comer, o faz desejar querer comer mais, e por comer muito tem indigestão, fica doente, triste, pobre, desgostoso e trabalha em jejum. Por isso, guarda-te, tanto quanto podes, para não seres servo de teu ventre.

6. Se tens tentação da glutonia, recorre à temperança, à abstinência, à continência e à prudência. A temperança te dará sanidade, bem-aventurança e ponderação; a abstinência te dará o uso da razão, a consciência e os sentidos, pois quando o homem se abstém, entende e ama a razão e tem consciência; a continência te dará, filho, satisfação da vontade; e a prudência te fará ganhar mérito na tentação, pelo qual serás agradável a Deus. Logo, imagina e pensa quais dons são mais nobres e melhores: os dons dados pelas virtudes ditas acima ou a obesidade e a satisfação que a glutonia dá.

7. Sabes, filho, quando estás tentado pela glutonia? No momento em que comes e bebes muito e imediatamente desejas comer ou beber outra coisa, quando então encontras algum desejo. E sabes por que és vencido pela glutonia? Para que lembres os deleites que encontras comendo e bebendo e esqueças os perigos que vêm por comeres e beberes muito. E sabes por que a temperança, a abstinência, a continência e a prudência não te ajudam? Porque não tens fortaleza contra a tentação, nem lembras das virtudes acima ditas, que são agradáveis a Deus.

8. É costume do bom guerreiro lembrar seu inimigo antes de estar com ele na batalha. Sabes por quê? Para que esteja aparelhado para combater e não seja surpreendido. Assim, tu, filho, relembra teu inimigo, isto é, a glutonia, antes de estares satisfeito. E sabes por quê? Para que não engordes e não fiques cativo e submetido pela glutonia, que tem tantos submetidos, os quais faz estar na ira de Deus.

LXI. Da Luxúria
1. A luxúria é um desejo não satisfeito, contrário à ordem do matrimônio. Assim, tal desejo é odioso a Deus, que fez a ordem do matrimônio, pois todos aqueles, filho, que estão contra a vontade de Deus, estão contra o que Ele fez e ordenou.

2. O pecado da luxúria é tão malvado que não morre por velhice, pois alguns homens velhos e luxuriosos enfraquecem o corpo por serem luxuriosos na velhice, conservando-a na vontade. A luxúria é um vício tão viscoso e arraigado no homem que sem oração, devoção e aflição do corpo, ele não pode expulsá-la de sua imaginação nem de seu desejo.

3. Amável filho, a luxúria emporcalha o lembrar, o entender e o amar da alma, pois é coisa tão suja e repulsiva que a faz lembrar, entender e amar o que eu não gosto de nomear nem escrever. Além disso, a luxúria emporcalha o corpo com aquela coisa que eu não gosto de dizer. E se ela tem tanta sujeira que sua obra não pode ser nomeada, é maior ainda a sujeira que tem em si mesma!

4. O melhor remédio que o homem pode ter do mau senhor e da má terra é fugir, e o melhor remédio que pode ter contra a luxúria é fugir da ocasião de pecar e de imaginar os deleites da luxúria, esquecendo-os, e lembrar outras coisas que não sejam semelhantes à luxúria.

5. No momento em que tua imaginação imagina os deleites que se têm pela luxúria, imagina, filho, a sujeira que existe no homem e na fêmea por causa da luxúria. E sabes por que te ordeno imaginar isso subitamente? Para que possas expulsá-la e inclinar tua imaginação para outra coisa com a qual possas esquecer a luxúria, e que em tua lembrança não possas arraigá-la, pois quando a luxúria instala raízes em tua lembrança para muito ser lembrada, por este arraigamento instala também raízes na vontade, pela qual é desejada.

6. Pintar e colorir as faces e ornar as vestimentas são sinais que significam a luxúria. Logo, se os sinais da morte corporal são espantosos, mais os são os sinais da luxúria, que é a morte da alma, pela qual a alma do homem luxurioso morre perduravelmente, suportando pena que não tem fim.

7. A luxúria e o ciúme se convêm; escárnio, trabalho e morte diária se convêm. E a luxúria não dá deleites todo dia nem toda hora do dia, por isso, a luxúria e o dano se convêm. Logo, se tu, filho, desejas fugir do trabalho e da morte que o homem sustenta diariamente pelo ciúme, foge e não estejas submetido pela luxúria.

8. Quanto mais os homens têm sentido e razão, mais temem e fogem dos maiores perigos. Logo, como a luxúria é um senhor tão mau, vê, filho, em qual obediência os homens e as mulheres religiosas se colocam, e vê como fogem da luxúria, sendo, por isso, amantes da castidade e da virgindade, que são virtudes pelas quais são agradáveis a Deus.

LXII. Da Avareza
1. A avareza é juntar coisas que são supérfluas ao homem e necessárias aos pobres. Tais coisas, por insaciável desejo, são vedadas aos pobres, e por tal impedimento, os pobres têm fome, sede, frio, nudez, doenças, tristeza e morte.

2. Amável filho, o avaro junta dinheiros em sua casa e possessões na terra onde se encontra, expulsando de si a caridade, a esperança, a largueza, a justiça e as outras virtudes. Por isso, ele junta em seu coração os vícios que são contrários às virtudes ditas acima.

3. A camisa é mais própria à tua carne que o saião, e mais própria aos teus ossos é a pele de tua carne que a camisa. Por isso, filho, podes entender que o homem pode se aproximar mais de si mesmo e do que são a esperança, a caridade, a justiça, a largueza e as outras virtudes, que os dinheiros, as possessões e as outras coisas ou riquezas que não são semelhantes à natureza humana. E como o homem, por ter cobiça e avareza, distancia de si as virtudes que são agradáveis a Deus e aproxima e coloca em si os vícios que são odiosos a Deus. Ter sabedoria é distanciar a avareza de tua alma, para que não estejas na ira de Deus.

4. A cobiça não se diversifica por dinheiros, pão, vinho, carne, tecidos, cavalos e outras coisas semelhantes a essas, pois o homem pode ser cobiçoso por qualquer uma dessas coisas, se não as usa segundo o que se convém. Logo, por dar dinheiros, cavalos, vestimentas, e por juntar em si honramento que deve ser dado a Deus, o homem pode ser cobiçoso e avaro de honramento, de fama e de valor, pois assim como os ricos são cobiçosos porque não desejam dar àqueles o que deveriam dar, são cobiçosos quando desejam ter a honra e o valor que o homem deve reconhecer em seu criador e em seu Senhor.

5. Amável filho, não sejas cobiçoso, pois o homem cobiçoso sente necessidade o tempo todo e sua vontade não pode se satisfazer; nem tenhas tanta largueza que te faça ser cobiçoso e roubar do outro o que Deus lhe deu; e te satisfaças com o que tens, pois não sabes quanto viverás nem quando virá a morte, nem poderás levar o que existe neste mundo para o outro, pois deverás deixar neste mundo.

6. Não existe nenhum homem em todo o mundo que deseje tanto ter riquezas como o homem cobiçoso, nem existe nenhum homem em todo o mundo que seja tão pobre como o homem que tem cobiça. Pois todo o homem que não tem cobiça tem alguma coisa, e se não tem, ao menos tem satisfação em sua alma naquilo que está satisfeito, mesmo sem ter nada. Mas o homem cobiçoso não tem nada, pelo contrário, é servo e cativo daquilo que deseja ter.

7. Se muitos vermes se acomodam a muitas carnes, ao homem avaro se acomodam muitos homens invejosos, muitos caluniadores e muitos inimigos. Sabes por quê? Porque quando possuem muitas riquezas, não as utilizam, nem para si nem para outros. Assim, filho, estejas seguro que muitos homens avaros morrem antes por suas riquezas, pois seus inimigos o matam, ou Deus o mata para que as riquezas, as quais Ele criou, dêem algum fruto.

8. A avareza faz esquecer Deus e a lealdade, e faz lembrar traição e engano. E a avareza faz o corpo trabalhar e ir de uma terra a outra, de um lugar a outro. A avareza aflige a alma em seu lembrar, em seu entender e em seu querer. E como isso não é da natureza da alma, nem suas necessidades podem lhe ajudar, a faz estar na maldição de Deus.

LXIII. Da Acídia
1. A acídia é a tristeza da alma, agravada pelo bem de seu próximo. Assim, saibas, filho, que este vício significa mais fortemente sinal de danação que qualquer outro vício, e pelo seu contrário, é melhor significada a salvação que por qualquer outra virtude.

2. Filho, não tenhas acídia, pois esse pecado é contrário ao que Deus faz. Pois se Deus dá a algum homem, faz o homem ser desapegado daquele bem que Deus dá; e se Deus pune algum homem neste mundo, a acídia deixa o homem irado, porque Deus o pune mais fortemente.

3. A acídia deixa seus submetidos irados e descontentes todos os dias. Por isso, filho, te esquiva e odeia sua senhoria, sejas amante do bem e não te agrade o mal, pois se amas o bem, serás alegre com o bem que amarás, verás e entenderás, e se desamas o mal, terás piedade e temerás a justiça de Deus.

4. Através da acídia, os homens estão todos os dias de má vontade, e a má vontade é paixão da alma. E a paixão da alma mortifica o corpo, e através da mortificação do corpo, os homens se tornam malvados e morrem antes. Assim, como todos esses danos acontecem, filho, através da acídia, se fores amante de teus danos terás acídia.

5. Se Deus fosse acidioso, não teria criado o mundo nem assumido a carne humana em Nossa Senhora Santa Maria, virgem gloriosa, nem teria assumido a paixão para redimir a linhagem humana, e tudo o que existe O destruiria. Assim, se tu, filho, tens acídia, amarias Deus se Ele tivesse acídia, pois um semelhante deseja o outro. Se amasses Deus por ser acidioso, desamá-Lo-ias por não te dar o que quisesses, e amá-Lo-ias se te destruísse. Logo, poderias pensar, se tudo isso acontecesse, quão grave coisa é a acídia.

6. O homem que tem acídia é semelhante ao diabo em todo o bem que lembra e entende, e tem tristeza quando o mal não é maior. Por isso se esforça, tanto quanto pode, para minguar o bem e multiplicar o mal, e nesta obra existe paixão e culpa, pela qual culpa multiplica a pena e o tormento em si mesmo, e dessa multiplicação tem ira e tristeza. Por isso, de todas as maneiras tem trabalho, maldição e pena.

7. Se tens acídia, mal falado serás, pois a acídia te fará dizer maldades; serás mentiroso, de enganos, de traição e de falsidade não estarás distante; e estarás em perigo por causa de teus inimigos, pois não serás ajudado nem defendido pela acídia.

8. Ah, filho! Tantos homens estão no pecado pela acídia e não pensam estar. E devido aos males que vêm através da acídia, ela não se demonstra ao homem. Por isso, a acídia é um pecado mais perigoso que qualquer outro, pois o homem tem maior danação naqueles danos onde menos pode se defender, do que naqueles que são manifestados a ele.

9. O demônio teve acídia no bem que Deus deu ao nosso pai Adão e à nossa mãe Senhora Eva no Paraíso terreno. Por isso, aconselhou que comessem o fruto, pelo qual Adão e Eva estiveram na ira de Deus.

LXIV. Da Soberba
1. O orgulho é opinião e desejo veemente de coragem para que o que é vil seja nobre e o que é nobre seja vil. E o orgulho é o que é contrário à humildade, que está na nobreza de coração e se inclina às coisas menos nobres para que lhe dêem mais nobreza.

2. Filho, saibas que o orgulho foge da igualdade, persegue a solidão e a singularidade, e não encontra par nem igual. E a humildade persegue seus semelhantes todos os dias. Assim, como o Rei da Glória é singular e não tem par nem igual em nobreza, se fosse coisa que se pudesse fazer, o homem orgulhoso se faria Deus.

3. Deus dividiu tudo o que foi criado em três estados, isto é, maior, igual e menor. O orgulho é contrário a cada um desses três: o homem orgulhoso é contrário ao maior pois deseja estar acima do maior e diminuir o que tem maioria sobre ele; o homem orgulhoso é contrário ao igual pois deseja ser maior e que seu igual esteja submetido por menoridade. Por fim, o homem orgulhoso é contrário ao menor pois não deseja que ele seja maior, fazendo isso para que o torne menor do que é. Assim, o homem orgulhoso é contrário ao que Deus criou.

4. No orgulho os demônios desejam estar semelhantes a Deus. Se pudessem se elevar tanto, desejariam ser iguais a Deus. Como foram semelhantes a Deus, desejam e desejaram ser maiores que Deus, por isso Deus lançou os demônios no abismo infernal, que é o lugar mais baixo que existe, onde há maior mal e pena. Por isso, Deus – Bendito seja Ele! – criou o homem, e deseja que o homem, através da humildade, seja elevado na Glória da qual caíram os demônios.

5. Filho, saibas que os homens orgulhosos não serão elevados no Paraíso, pois se pudessem ser elevados, Deus não teria expulsado os demônios. Logo, se tu amas estar por todos os tempos na companhia dos demônios no fogo perdurável e desamas a companhia de Deus e dos anjos na Glória que não tem fim, sejas orgulhoso.

6. Neste mundo, o homem orgulhoso segue a maneira que os demônios tiveram quando foram criados anjos, pois o homem pobre orgulhoso deseja ser igual ao rico homem em riqueza e honramento, e quanto mais elevado àquela riqueza e àquele honramento, menos preza aquele que lhe é igual, desejando estar acima dele em nobreza e em riqueza e igual ao outro homem que lhe está acima em riqueza e honramento. E assim não pensa em outra coisa, mas somente no desejo de se elevar, e menosprezar seu igual. Por isso, tais homens são semelhantes aos demônios, que menosprezaram os anjos benignos, quando desejaram ser mais nobres que eles e quando desejaram ser semelhantes a Deus.

7. Amável filho, se és orgulhoso e és sapateiro, desejarás ser alfaiate, e quando fores alfaiate, desejarás ser burguês, e quando fores burguês, desejarás ser cavaleiro, e de cavaleiro, desejarás conde, e de conde a rei, e de rei a imperador. E se pudesses te elevar mais, mais tu desejarias. Logo, Deus consentiria que tivesses toda esta vontade, e não cometerias pecado pois não serias orgulhoso nem menosprezarias aqueles que estivessem acima ou abaixo de ti, nem os iguais em riqueza e em nobreza.

8. O homem orgulhoso não tem somente orgulho em elevar a si mesmo e diminuir os outros, mas também é orgulhoso em seus filhos, pois o sapateiro deseja casar sua filha ou seu filho com alguém mais nobre que si mesmo, e isso faria o alfaiate e todos os outros graus ditos acima. Por isso, são realizados matrimônios inconvenientes, e pela desigualdade os maridos são menosprezados por suas mulheres e as mulheres pelos seus maridos. E como grandes enxovais podem ser dados, são feitos muitos pecados, e por causa das uniões inconvenientes, muitos pais são desonrados e muitas mães são desonradas e aviltadas, existindo muita discórdia entre marido e mulher.

9. No homem orgulhoso não existe caridade, piedade nem qualquer virtude, e por mais que tenha riqueza, poder, honra e bela pessoa, não é agradável a nenhum homem nem dá prazer a nenhum homem. Assim, como o orgulho é a razão de tanto mal neste mundo e tanta pena no outro século, saibas, filho, pouco sobre a mudança, que, por orgulho, expulsa a humildade de teu coração.

10. Amável filho, quando mirares tuas feições e cogitares em tuas riquezas e em teu honramento, se a tentação do orgulho te vier, relembra incontinenti e entende de onde vieste e foste engendrado, em qual lugar nasceste e qual foi a veste com que nasceste, e relembra, filho, o que tens em teu ventre sob teu saião, e o que sai de ti pelo nariz, pela boca e pelos outros lugares, e não esqueças os vermes que roerão tuas costelas e tuas feições, e a terra sob a qual serás colocado. E se tu, filho, tiveres na memória todas essas coisas para que não sejas orgulhoso, serás humilde e agradável às gentes e a Deus.

LXV. Da Inveja
1. A inveja é desejar outros bens sem meritória possessão. Assim, guarda-te desse vício, filho, tanto quanto possas, de tal maneira que não mereças estar possuído pelos demônios no fogo perdurável.

2. Invejar outros bens é pecado mortal, pelo qual a alma invejosa morre na ira de Deus, a qual ira faz viver a alma invejosa em morte de pena que não tem fim, na qual morte, a alma mesquinha deseja o que em nunca terá.

3. Assim como através das palavras o homem tem conhecimento do que a alma deseja e entende, pela inveja e pelos outros pecados, o homem tem conhecimento neste mundo das penas infernais. Porque assim como o homem invejoso deseja o que não tem, e não faz para que o tenha sem dano de seu próximo, todos os danados infernais invejaram a celestial Glória dos bens aventurados de Glória, não para que tivessem Glória, mas para que Deus tomasse a Glória dos santos de Glória e desse a eles o que não mereciam.

4. De acordo com o corpo natural e com o que contam os filósofos, a forma é a demonstração da matéria. Logo, assim como a matéria é demonstrada pela forma, de acordo com a qualidade dos pecados mortais é demonstrada a pena infernal. Por isso, Deus ordenou que aqueles que usam o pecado conheçam em seu pecado a pena que está disposta neste pecado.

5. A inveja é contra a caridade, a esperança, a justiça e contra as outras virtudes. Assim, como o homem merece ter os bens corporais por ser amante das virtudes, se, por invejar, o homem pudesse ter os bens temporais, por ter virtude o homem não deveria possuir o que Deus dá somente para servir o homem. Logo, como isso é o contrário, o homem invejoso não é digno de ser possuidor de nenhum bem, para significar que os danados não têm nenhuma bem-aventurança.

6. O homem invejoso não recebe graças de Deus. E se fosse outro Deus, ele acreditaria Nele, se isso lhe proporcionasse aquilo que inveja, e renegaria o Deus que o criou. Por isso, os homens invejosos são impacientes e desamam a Deus, quando não lhes dá alguns bens, mas se Deus lhes desse alguns bens temporais, amá-Lo-iam mais pelo que lhes foi dado que pela nobreza e bondade que Deus tem em Si mesmo.

7. O invejoso toma e não dá, destrói, mata e não perdoa. E o homem invejoso não está sem tristeza, ânsia, falsidade e engano, e é mais próprio à traição que outro homem. Filho, como a inveja tem tanto mal em si, não sejas invejoso, se desejas estar na bem-aventurança celestial com os anjos de Deus.

LVI. Da Ira
1. A ira é a perturbação do pensamento que destrói a conveniência entre o desejar e a inteligência. E como Deus deu ao homem o entendimento para que O entenda, e lhe deu vontade para que O queira, convém que a ira, que destrói o ordenamento que Deus colocou na alma, seja pecado, pelo qual pecado o homem cai na ira de Deus.

2. Filho, não sejas submetido à ira, nem a obedeças quando estiveres movido pela ira, pois a ira cega os olhos do entendimento e faz o homem odiar o que deveria amar, e a ira faz os homens falarem como loucos, e os coloca em perigo de perder este mundo e o outro.

3. O homem irado não guarda o bem, no começo, nem no meio e nem no fim, e o que faz, o faz impensadamente; e quando mata homens, diz palavras vis ou comete algum outro erro, quando a ira passa, apenas relembra o que fez e se arrepende do que fez. Logo, filho, guarda-te para não fazeres nada enquanto estiveres irado.

4. A razão demonstra que nenhum homem irado não faz nem deve fazer nada, pois se o que faz é mau, se não estivesse irado, não faria tanto mal; e se o que faz é bom, se não estivesse irado, faria melhor do que fez. Logo, assim como se deve amarrar o homem louco para que ele não atire pedras, devemos amarrar o homem irado para que ele não fizesse nada.

5. O homem pode se guardar do homem falso, mas do homem irado quem pode se guardar, já que um homem irado deixa outro homem ou homens irados? Logo, se tu, filho, desejas te guardar do homem irado, guarda a ira de teu coração e combate a ira com paciência, abstinência, esperança, caridade, justiça e fortaleza, pois com tais armas podes te defender da ira e de seus protetores.

6. O homem que dorme, desperta sendo tocado ou com um grito. Assim, filho, quando estiveres irado toca a ira de teu coração, para que isso te desperte para ter abstinência, paciência e caridade. E quanto mais forte estiveres irado, mais preparado estarás para teres abstinência, paciência e caridade; e quanto maiores virtudes tiveres em teu coração, mais nobre coração terás e mais agradável serás a Nosso Senhor Deus.

LXVII. Da Danação
1. A danação é perder a glória celestial perdurável e ficar submetido a suportar as penas infernais que não têm fim. Assim, através dos sete pecados mortais ditos acima, saibas, filho, que os homens têm danação.

2. Amável filho, Nosso Senhor Deus criou o homem para que tenha salvação. E quando o homem se submete ao pecado e é desobediente a Deus, é expulso da razão pela qual Deus o criou. E como Deus é justo, coloca o homem em trabalhos infernais.

3. Deus dana quem quer, mas Sua vontade não quer danar sem razão nenhum homem. Sabes por quê? Porque razão e justiça se convêm. E como a vontade e a justiça de Deus são uma mesma coisa, Nosso Senhor Deus não dana nenhum homem que não seja culpado.

4. Filho, sabes por que nenhum homem merece a glória, por mais que seja virtuoso? Porque Deus é a glória e é melhor, sem qualquer comparação, que o homem por si mesmo ou por qualquer virtude ou virtudes que tenha. Assim, está significado que todo homem pecador merece a pena infernal. Sabes por quê? Porque perder Deus é pena infernal e nenhum homem pecador merece ter Deus, pois se os homens justos, por mais virtudes que tenham, não merecem ter Deus, quanto mais os homens pecadores e injustos!

5. Filho, podes sentir em tua alma o livre-arbítrio, o qual Deus deu ao teu coração para que possas fazer o bem ou o mal, e que, por fazeres o bem, Deus tenha razão para te dar salvação, e que pelo mal, sejas impulsionado à tua danação. Mas como a salvação é coisa mais nobre que tua vontade e que o bem que tu podes querer ou fazer por ti mesmo, sem a graça de Deus não podes ter salvação. E como a tua vontade tem poder de querer fazer o mal, tu, todo homem e cada homem por si mesmo, podem eleger a danação sem a ajuda de Deus.

- Fim Das Sete Virtudes que são os Caminhos da Salvação e Dos Sete Pecados Mortais pelos quais o Homem vai à Danação Perdurável -