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Ramon Llull (1232-1316) Das Três Leis 2. Tal lei é significada ao humano entendimento através das obras que fazem os elementos, os planetas, as bestas, as aves, os homens e todas as outras criaturas. Pois de acordo com o que fazem, o fazem conforme o corpo natural, e isso é dado para significar como o homem deve usar da razão e ser obediente a Deus, fazendo isso para que chegue à finalidade para a qual foi criado. 3. Amável filho, a lei natural é honrar
teu Senhor, teu maior e teu benfeitor e amar teu próximo; a lei
natural é que o homem deseje para seu próximo o que deseja
para si mesmo, e odeie em seu próximo o que odeia em si mesmo,
a lei natural é ser amante do bem e esquivar-se do mal. 5. A lei natural quer dizer tanto quanto a ordenação natural. Logo, como Deus criou tudo quanto existe para demonstrar Sua grande virtude e Seu grande poder, e para ser amado, conhecido, servido, obedecido pelo homem, todas as criaturas, ordenadamente de acordo com o corpo natural, significam e demonstram Deus à inteligência humana. Mas, como os homens pecadores saem da ordem da lei natural e são amantes das vaidades deste mundo, não recebem o significado que as criaturas dão de Nosso Senhor Deus, por isso são desobedientes a Deus e à natureza. 6. É coisa natural que o homem, com os olhos corporais, veja o céu, as estrelas, o mar, as terras e outras coisas, com os seus ouvidos ouça as vozes e os sons, com o seu nariz cheire o odor e os odores, e o mesmo dos outros sentidos corporais. E coisa natural é que a alma, com a imaginativa, apreenda tudo o que os sentidos corporais apreendem e que dão ao entendimento humano a fantasia, existente entre a fronte e a nuca, e que o entendimento se eleve acima da fantasia, entendendo aquilo que lhe é oferecido pela nobreza e pela grandeza de Deus, para que a vontade ame e obedeça a Deus. LXIX. Da Lei Velha 2. Moisés foi profeta, que quer dizer tanto um homem espiritual quanto o iluminado pelo espírito de Deus, pela qual inspiração e iluminação tem conhecimento das coisas presentes, passadas e vindouras sobre a apreensibilidade do entendimento humano. Assim, Deus deu a este homem a Lei no Monte Sinai, na qual estão escritos os Dez Mandamentos, conforme já contamos. 3. Saibas, filho, que Moisés foi judeu, senhor e regente do povo de Israel, que era judeu. E Moisés foi homem de tão santa vida, que Nosso Senhor Deus se mostrou a ele, falou com ele, lhe revelou de qual maneira havia criado o mundo, como havia colocado Adão e Eva no Paraíso terreno e como Adão foi desobediente a Deus, como Noé foi colocado na arca e quando aconteceu o dilúvio, e Deus revelou todas outras coisas a Moisés, conforme o que está contado no primeiro livro da Lei Velha. 4. Naquele tempo, Moisés tirou, pela graça
de Deus, o povo de Israel do poder do Faraó e da terra do Egito,
e mandou-o para o deserto, onde viveu pela graça de Deus. Naquele
povo, existiram muitos santos homens que foram profetas e amigos de
Deus, e aquela Lei durou até a vinda de Nosso Senhor Deus, que
deu a Lei Nova para reformar a Lei Velha, a qual Lei Nova são
os evangelhos que ouves cantar na Santa Igreja. 6. A Lei Velha existiu para que fosse principiada e fundamentada a Lei Nova, e a Lei Nova existiu para que fosse o fruto e o cumprimento da Velha. E isso é assim, filho, em todas as coisas de acordo com a Lei Natural, pois o que vem primeiro convém ser o fundamento, e o que vem depois ser fruto e cumprimento. 7. Aqueles judeus que são do tempo de Jesus Cristo, até hoje pensam ter a Lei Velha pelo sentido da letra, mas não a têm, e são de opinião contrária ao significado que a Lei Velha faz da Nova e a concordância que existe entre ambas as Leis. E como estão em erro e trataram da Paixão do Filho de Deus, Deus os puniu para serem servos e cativos de todas as gentes. Por isso, eles são os mais aviltados e os mais covardes homens que existem. 8. Nenhum homem fez coisas mais perversas que os judeus, que não têm reis nem príncipes como o resto das gentes. E pela servidão na qual estão, não podem ter a Lei Velha nem seu estatuto. E assim, como no princípio Deus os honrou acima de todos os outros povos, pela culpa e pela vilania em que estão, a justiça de Deus os tem mais desonrados que a outros povos. LXX. Da Lei Nova 2. Amável filho, Jesus Cristo veio ao mundo para dar a Lei Nova, pela qual sofreu a morte e a Paixão por nós pecadores; porque assim como Deus deu a Lei Velha a Moisés através da escritura, Jesus Cristo deu a Lei pela paixão e morte, encarregando Seu povo a obedecê-Lo, amá-Lo, temê-Lo e servi-Lo. 3. Filho, os mandamentos dados pela Lei Velha são fortes, pois Deus os enviou. Mas como na Lei Nova, Jesus Cristo, que é Deus e homem, encarregou tanto o Seu povo para servi-Lo que desejou morrer, são mais culpados aqueles que desobedecem os estatutos da Lei Nova que aqueles que os dividem na Lei Velha, antes que se tornasse Lei Nova. 4. Filho, a Lei Nova está nos Sete Sacramentos da Santa Igreja os quais já te contamos e os quais são ordenados na Santa Igreja pela virtude que Nosso Senhor Jesus Cristo deu ao Santo Pedro Apóstolo. 5. São Mateus, São João, os apóstolos, São Marcos e São Lucas, que foram discípulos de Deus, são os quatro evangelistas que escreveram a Lei Nova, isto é, são os quatro evangelistas, filho, que ouves ler na Santa Igreja. 6. Naqueles quatro evangelhos estão escritas as palavras que Nosso Senhor Jesus Cristo disse quando estava neste mundo; naquele livro estão as obras e os milagres que Jesus Cristo fez, as bem-aventuranças que prometia e os mandamentos que fazia aos Seus discípulos ali estão escritos, e a doutrina que lhes deu, podes encontrar naquele livro. 7. Filho, sabes por que a Lei Nova é o cumprimento da Velha? Por que podes ter mais fé em crer na Lei Nova, pela razão da Trindade e da Encarnação que se caracteriza mais fortemente, que em crer na Lei Velha. E se entendes a Lei Nova e a Lei Velha, terás maior entendimento entendendo a Lei Nova que a Velha. Assim, como por maior fé tens maior mérito e por maior inteligência podes ter maior caridade, a Lei Nova sobrepuja a Velha. 8. Filho, guarda-te quando jurares sobre os Santos Evangelhos, que não perjures conscientemente, pois se o fazes, renuncias a todas as benfeitorias que estão prometidas pela Lei Nova e és desobediente a todos os estatutos e mandamentos da Lei Nova, pela qual desobediência, serás desagradável a Deus. LXXI. De Maomé 2. Maomé foi de uma vila chamada Triple, que fica a dez dias de Meca, à qual Meca os sarracenos fazem reverência da mesma forma que os cristãos fazem ao Santo Sepulcro de Jerusalém. 3. Filho, Triple, Meca e toda aquela província eram cheias de gentes que acreditavam em ídolos e adoravam o Sol, a Lua, as bestas e as aves, e não tinham conhecimento de Deus, nem tinham rei, e eram gentes de pouca discrição e pouco entendimento. 4. Naquele tempo em que Maomé era mercador e foi em caravana a Jerusalém, no caminho de volta, havia um falso cristão que tinha o nome de Micolau, que era recluso e sabia muito da Lei Velha e da Nova. Ele ensinou Maomé a se tornar senhor e rei da vila de Triple. 5. Filho, saibas que a doutrina que o falso recluso mostrou a Maomé fez muitas novas autoridades no lugar da Lei Velha e da Lei Nova. E Maomé foi a um monte próximo de Triple e esteve ali quarenta dias, para significar a quarentena que Jesus Cristo fez no deserto e que Moisés fez no Monte Sinai. 6. Quando Maomé desceu do monte e foi à Vila de Triple e se fez profeta, disse que Deus o enviara ao povo daquela cidade para prometer que eles teriam no Paraíso a companhia de fêmeas, que comeriam manteiga e mel, beberiam vinho, água e leite, teriam belos palácios de ouro, prata e pedras preciosas, e teriam as vestimentas que desejassem. Ele prometeu muitas dessas bem-aventuranças para que acreditassem, e se jogou na terra, retorcendo as mãos e os olhos quase como um endemoniado, dizendo depois que São Gabriel veio a ele e mostrou palavras de Deus que estão em seu livro chamado Alcorão, e que ele, pela grande santidade do São Gabriel e de suas palavras, não podia se conter, e por isso se jogava na terra. E era costume que se cobrisse, e quando havia estado assim uma hora, ele se levantou e disse o que havia pensado. 7. As gentes, que eram pegas e que não acreditavam que após a morte fossem algo, que ouviam o que Maomé prometia do Paraíso e que ressuscitariam, tinham prazer com o que Maomé dizia, e então todas as gentes daquela vila se converteram a ele. As gentes de Meca não desejaram se converter à seita de Maomé, até que ele foi com grandes gentes e tomou Meca à força. E todo homem que não se tornasse sarraceno morreria, e assim Maomé tornou-se senhor de toda aquela terra. 8. Maomé foi um homem muito luxurioso e teve nove mulheres. Como paria com muitas outras fêmeas, tornou sua seita muito ampla. E por essa amplitude, as gentes acreditaram em suas palavras e depois da sua morte seguiram a seita. 9. Refreou a devoção e a caridade no
povo dos cristãos que estavam na terra de Ultramar. Um rei sarraceno,
que tinha o nome Abubecre, sucessor de Maomé, e quem mandou escrever
o Alcorão em belas palavras ditadas a sete trovadores, foi à
terra do Egito e de Jerusalém e conquistou toda aquela terra.
E mais outros reis sarracenos conquistaram a Barbária e a Espanha,
que eram dos cristãos. 11. Amável filho, tais sarracenos que têm o entendimento sutil e não crêem que Maomé seja profeta seriam fáceis de serem convertidos à fé católica, se houvesse quem lhes demonstrasse e pregasse a fé, quem amasse tanto a honra de Jesus Cristo, lembrasse tanto a honra de Jesus Cristo e lembrasse tanto Sua Paixão, que não duvidasse de suportar os trabalhos que se tem para aprender sua linguagem, nem temesse o perigo da morte. E pela conversão que se faria naqueles, pela virtude do martírio, e como eles já têm a opinião que Maomé não é o mensageiro de Deus, os outros sarracenos se converteriam, se vissem que seus maiores sábios se tornaram cristãos. 12. Filho, saibas que os apóstolos converteram o mundo com pregação, queda de lágrimas e de sangue e muitos trabalhos e mortes graves. Por sua vez, a terra que os sarracenos têm, eles converteram-na. Por isso, estendendo Seus braços, Jesus Cristo deu na cruz um significado: que venham os bem-aventurados sábios que se encontram no povo dos cristãos relembrar Sua santa Paixão, e que abraçará aqueles que forem pregar aos sarracenos e aos infiéis. 13. Amável filho, se ao Deus da Glória der prazer, e àqueles que estão tão bem recompensados, honrados e encarregados, seria razão e hora para retornar o fervor e devoção que existem, freqüentemente, ao converter e endireitar os errados, para que estes não fossem infernados e tivessem a Glória na qual Deus fosse amado, conhecido, servido e obedecido neles. LXXII. Dos Gentios 2. Amável filho, pela ignorância que os gentios têm de Deus, estão em diversos erros e opiniões. Por isso são diversos povos: uns adoram ídolos; outros adoram o sol, a lua e as estrelas; outros adoram as bestas e as aves; outros adoram os elementos, e cada um deles tem uma maneira diferente dos outros no que crê. 3. Mongóis, tártaros, búlgaros, húngaros da Hungria Menor, comanos, nestorianos, russos, genoveses, e muitos outros são gentios e homens que não têm lei. E assim como um rio de água que corre por costume desce e não corre mais para o mar, todos esses decorrem e não cessam em perder Deus e irem para o fogo perdurável, e dificilmente existe alguém que seja seu procurador ou que os ajude a demonstrar o caminho perdurável. 4. Os gregos são cristãos, mas pecam contra a Santa Trindade de Nosso Senhor Deus quando dizem que o Espírito Santo não nasce tão somente do Pai. Por outro lado, eles têm muitos bons costumes, e como estão tão próximos da fé católica, seriam rapidamente induzidos à Santa Igreja Romana, se houvesse quem aprendesse sua linguagem e sua letra, tivesse tanta devoção que não duvidasse de receber a morte para honrar a Deus, e fosse pregar entre eles a excelente virtude que o Filho divino tem em dar procedência ao Espírito Santo. 5. Ah, filho! Por que duvidam do sofrimento e por que são temidas as mortes para honrar o Espírito Santo naqueles que o desonram, enquanto menosprezam a excelente virtude que existe Nele, pois nasceu do Filho de Deus, e por dar tão grande honra a Deus, o Pai que engendrou tão glorioso filho, do qual nasceu tão gloriosa pessoa como é o Espírito Santo? Por que duvidam abandonar riquezas, bem-aventuranças, a mulher e os filhos, e também os reinos? 6. Como o Espírito Santo nasceu do Filho de Deus, que para nos salvar encarnou-se e morreu na cruz enquanto tinha a natureza humana, por que duvidas morrer para honrar o Filho de Deus e pregar aos gregos que o Espírito Santo, que é tão nobre pessoa, nasce Dele? E quem duvidará receber tal morte onde existe a gratidão que tem pelo Filho de Deus? 7. O Espírito Santo é Deus que inspira os bem-aventurados à Glória que não tem fim. Logo, pensa filho, como quem sabe honrar tal Deus, conforme está dito acima, nos lugares, nas terras e nos pensamentos onde é desonrado, tem uma grande bem-aventurança inspirada pelo Espírito Santo. Das Sete Artes 2. Filho, se desejas aprender Gramática, convém saberes três coisas: construção, declinação e vocábulos. Assim, aprendas essas três coisas neste livro, que deve ser trasladado para o latim, para que quando o souberes em romance, saibas fazer a construção neste livro antes que em outro. E como este livro trata de muitas coisas diferentes, aprenderás e saberás declinar muitos vocábulos. 3. Quando tiveres aprendido Gramática neste livro, aprende-a depois no Livro de Definições e de Questões para que depois adquiras as outras ciências. Se não quiseres entrar em nenhuma arte nem ciência, primeiramente convém que passes por esta arte da Gramática, pois é o portal pelo qual se passa para saber as outras ciências. 4. A Lógica é a demonstração das coisas verdadeiras e falsas, pela qual o homem sabe falar retamente e sofisticamente. A Lógica também é a arte pela qual se adquire a sutileza e se exalta o entendimento humano. 5. Amável filho, através da Lógica saberás conhecer os gêneros, as espécies, as diferenças, as propriedades e os acidentes, chamados de os 5 universais. Através deste conhecimento, saberás descer das coisas gerais para as especiais, e saberás elevar teu entendimento das especiais para as gerais. 6. Através da Lógica saberás começar, sustentar e concluir o que disseres, e pela Lógica defender-te-ás para que não possam te enganar com palavras sofísticas, e serás mais sutil em todas as outras ciências. 7. Filho, todas as coisas criadas vão por 10 coisas, isto é: substância, quantidade, relação, qualidade, ação, paixão, situação, hábito, tempo e lugar. E dessas 10 coisas existem 10 predicados, os quais conhecerás pela Lógica. Com esse conhecimento, saberás ter ciência se souberes concordar os 10 predicados com os cinco universais acima ditos, pois através da composição de um conceito com outro, terás o significado do que perguntas. 8. Antes que aprendas Lógica em latim, aprende-a em romance nas rimas que estão depois deste livro. Sabes por quê? Porque antes a saberás em latim e melhor a entenderás. 9. A Retórica é falar bela e ordenadamente, através da qual as palavras são agradavelmente ouvidas, e pela qual o homem é muitas vezes escutado. 10. A Retórica mostra como o homem deve falar, quais palavras deve dizer primeiramente, quais deve dizer no fim e quais no meio, e através da Retórica as palavras que são longas parecem breves. 11. Filho, se desejas falar através da Retórica, dá belos exemplos de coisas belas no princípio de tuas palavras, e que a melhor matéria de tuas palavras esteja no fim, para que fale fortemente no coração daqueles que te ouvem. 12. Tempo, lugar, verdade, estado, quantidade de tempo conveniente, necessidade e as outras coisas semelhantes a essas convêm à Retórica. Assim, se tu, filho, desejas falar através da Retórica, convém que tuas palavras concordem com todas essas coisas ditas acima, para que sejam agradáveis às gentes e a Deus. LXXIV. Da Geometria, Aritmética,
Música e Astronomia 2. Depois disso, convém que faças outra medida sobre a primeira e vejas em qual lugar do quadrângulo surgirá a linha reta. E depois disso, distancia-te da torre dois tantos, e vejas onde estará a linha do quadrângulo, e ali faças outra medida. E assim, tu poderás dobrar tuas medidas. E que o espaço que existe entre ti e a torre plana seja como o do teus pés ao pé da torre em linha reta. 3. Através desta arte, o homem tem conhecimento da altura da torre, da distância e dos altos montes, e através das medidas que o pensamento humano pode multiplicar imaginariamente, se tem conhecimento da grandeza de Deus, que é maior que todo o mundo. 4. Filho, a Aritmética é o ato de multiplicar somas em soma, e dividir uma soma em muitas. Assim, essa arte existe para que o homem multiplique um número par com outro, e um ímpar com outro para que seja par, pois o número que é par pode multiplicar melhor que o ímpar. 5. Essa arte existe para que o homem saiba melhor reter o número na memória e na visão corporal, pois é natural da memória antes esquecer muitas coisas que uma. Por isso, são feitas as somas, isto é, 10, 20, 30, 100 e 3.000, mas como elas podem não ser suficientes para serem escritas, expulsa-as das cifras e das figuras do algarismo e do ábaco que mais rapidamente serão vistas e entendidas. 6. A Música é a arte pela qual temos doutrina para cantar e soar instrumentos corretamente, rápido e lentamente, elevando, baixando e igualando os tempos breves e as vozes, de tal maneira que diversas vozes e sons sejam concordantes. Assim, filho, essa arte foi descoberta para que, cantando com instrumentos, o homem seja louvador de Deus. Os clérigos possuem essa arte pois cantam na igreja para louvarem a Deus, e os jograis são contra os princípios dessa arte, pois cantam e soam instrumentos diante dos príncipes para a vaidade mundana. 7. A Astronomia é a ciência demonstrativa pela qual se tem conhecimento que os corpos celestiais têm senhoria e operam sobre os corpos terrenos. Isso acontece para demonstrar que a virtude que existe nos corpos celestiais vem de Deus, Soberano dos céus e de tudo quanto existe. 8. Filho, saibas que essa ciência passa pelas propriedades dos 12 signos e dos 7 planetas, conforme concordam ou contrastam em calor, secura, frio e umidade. Pois os corpos terrenos operam de acordo com isso. Mas como Deus está acima de toda virtude e se apodera de todos os poderes, muitas vezes impede que os corpos celestiais obrem nos terrenos, de acordo com Sua virtude. Por isso, essa ciência falha e não segue em sua obra o que deveria, de acordo com a demonstração da arte. 9. Amável filho, não te aconselho que aprendas essa arte, pois é um esforço muito grande e rapidamente pode se errar. É perigosa, pois os homens que não a conhecem muito bem usam-na mal, desconhecendo e menosprezando o poder e a bondade de Deus, por causa do poder dos corpos celestiais. Filho, também não te aconselho que aprendas Geometria nem Aritmética, pois são artes que requerem todo o pensamento humano, e este tem que tratar de amar e contemplar a Deus. LXXV. Da Ciência da Teologia 2. Filho, essa ciência existe de três maneiras: a primeira é quando o homem tem conhecimento de Deus; a segunda é quando o homem tem conhecimento das obras de Deus; e a terceira é quando se tem conhecimento dessas coisas para que se possa ir a Deus e fugir dos infinitos trabalhos. 3. Amável filho, os clérigos estão estabelecidos no mundo para que aprendam Teologia e mostrem-na aos homens, de tal maneira que sejam amantes de Deus e saibam se guardar do pecado. Assim, os clérigos que amam mais outra ciência que a Teologia não seguem os princípios pelos quais são clérigos. 4. A Teologia é fundada pela fé e encontra-se nas palavras dos santos homens que escreveram e disseram palavras de Deus e de Suas obras, e o homem deve crer em tais palavras para que as tenha na memória, no amor de Deus e de Suas obras. 5. Como Deus deu natureza e propriedade às criaturas para que naturalmente O signifiquem e O demonstrem ao entendimento humano, a Teologia convém com a Filosofia, que é ciência natural que demonstra Deus e Suas obras por razões necessárias. Isso ocorre de tal maneira que se o homem deseja exaltar seu entendimento a Deus, através da Filosofia pode fazê-lo. 6. Fé e razão convêm na sentença da Teologia para que, se a fé cair, o homem se ajude com razões necessárias, e se a razão cair no entendimento humano, que o homem se ajude com fé, crendo nas coisas de Deus que o entendimento não pode entender. 7. Filho, Aristóteles, Platão e os outros filósofos que, sem fé, desejaram ter o conhecimento de Deus não puderam elevar seu entendimento tão alto para que pudessem ter, declaradamente, conhecimento de Deus, de Suas obras ou de como o homem vai a Deus. Isso aconteceu porque não desejavam crer nem ter fé naquelas coisas pelas quais o entendimento humano, através da luz da fé, se exalta para entender Deus. LXXVI. Da Ciência do Direito 2. Assim como é dado o Direito canônico aos clérigos para que sigam a regra pela qual estão no ofício da cleresia, é dado aos príncipes o Direito civil para que sigam a regra pela qual foram estabelecidos e exaltados acima dos outros homens. 3. Saibas, filho, que existe outra forma de Direito, que é encontrado para cessar o mal, e este Direito não convém com o Direito divino porque contém algumas falhas. Assim, esse Direito possui uma contrariedade entre teoria e prática, e isso acontece devido à malícia das gentes para se superarem e consentirem o menor mal. Assim, através desse Direito, o homem é perdoado pelo senhor terreno, mas não o é pelo Senhor Celestial. 4. A quarta forma do Direito existe no Direito canônico, o qual possui uma inconveniência entre a teoria e a prática, pois uma coisa é o Direito na teoria, e seu contrário é o Direito na prática. Por isso, os clérigos julgam uma coisa de acordo com a teoria e outra de acordo com a prática. 5. Amável filho, se desejas aprender o Direito, convém que aprendas as quatro formas ditas acima, caso desejes usá-lo bem e no estamento secular, pois convém que concordes o Direito terreno com o Direito celestial, e convém que julgues de acordo com a diversidade que o Direito possui. 6. Filho, o Direito canônico está no Decreto e nas Decretais, que são ditos de santos, regra e ordenamento da Santa Igreja e de seus sacramentos. O Direito civil está no senhor natural, nas leis e nos costumes, e por tais costumes não te cabe aprender o Direito, pois esses não estão obrigados ao Direito. 7. Filho, não te aconselho que aprendas o Direito civil, pois poucos são aqueles que o usam bem. Por isso, é um perigo aprender tal ciência, pois quase todos aqueles que a aprendem usam-na mal. Contudo, não te desaconselho que a aprendas, pois terás grande mérito se desejares usá-la bem. 8. Filho, se tu desejas aprender o Direito para cometeres erro, desejas saber o Direito porque amas o erro; e se aprendes o Direito civil com o patrimônio da Santa Igreja, cometes erro ao Direito canônico. Mas se tu aprendes o Direito para manteres os pobres que não têm o que dar aos advogados, serás maravilhosamente agradável às gentes e a Deus. LXXVII. Da Ciência da Natureza 2. Amável filho, o primeiro princípio é a primeira matéria, e convém melhor ser chamada de “natureza”, pois é mais geral que qualquer dos outros princípios. E aos outros princípios convêm, de acordo com o olhar do especialista, melhores nomes naturais que ao primeiro princípio. 3. Filho, o homem não pode ver, tocar ou sentir a primeira matéria. Sabes por quê? Porque ela é corporalidade natural, confusa e mesclada sem ser corpo, embora tenha forma, e nela são colocados todos os corpos elementados que têm forma. 4. Assim como a alma e o corpo do homem morto são da natureza humana sem ser homem, a primeira matéria é da natureza corporal sem ser corpo. 5. A primeira matéria tem o apetite de conservar os gêneros, as espécies e os indivíduos, e tem o desejo natural que seus particulares tenham as propriedades que lhes convêm. Por isso, o segundo princípio é composto dela, isto é, o fogo, o ar e a terra se compõem, e a água, o ar e a terra se compõem, e dessas duas composições compõem-se todas ao mesmo tempo no terceiro princípio, do qual se engendra o quarto. 6. Assim como a primeira matéria é invisível e insensível porque o primeiro e o segundo princípios são invisíveis, a segunda matéria é sensível, porque forma o terceiro, o quarto e o quinto princípio, que são sensíveis. E assim como a primeira matéria é potência geral a todas as formas, a segunda é potência especial a todas as formas naturais sensíveis, de acordo com as diversidades de gêneros e espécies. 7. Filho, saibas que é através da contrariedade que os quatro elementos têm no quarto princípio que o quinto princípio inicia, corrompendo-se naturalmente. É por esse motivo que o quinto princípio está fora da natureza. Mas como o primeiro princípio deseja a conservação de seus gêneros, de suas espécies e de seus indivíduos, o que está no quinto princípio retorna a si mesmo. E como o primeiro princípio o recebe e cada elemento retorna à sua simplicidade, o primeiro princípio dá ao segundo por geração, o segundo ao terceiro, o terceiro ao quarto, e o quarto o expulsa de si através da corrupção. Assim, o movimento e o corpo natural são uma roda que não cessa por geração ou corrupção, e tal movimento está na segunda matéria, que é sensível. 8. Aquilo de que o fogo e os outros elementos são compostos no quarto princípio existe porque cada elemento, enquanto é simples, deseja ter corpo simples. E como a matéria não pode ser corpo sem a forma e a conjunção entre ela e a forma, deseja forma e conjunção. E como nenhum elemento pode encontrar isso no terceiro, no quarto nem no quinto princípios, os elementos se compõem sem contrariedade no segundo princípio e depois passam contraditoriamente aos outros princípios, de acordo como foi dito acima. 9. Filho, se os quatro elementos tivessem no segundo princípio aquilo que desejam e o motivo pelo qual se movem, não iriam aos outros princípios, onde se contrariam. E se fossem movidos violenta e forçadamente, esse movimento não seria natural. 10. Se a água é corpo simples em sua região, o fogo, que está sobre o ar, não poderia receber a secura da terra, que está abaixo da água, a qual água está abaixo do ar. E se do fogo simples fosse feita parte simples corporal passando pela região, e a espera da água fosse simples e corpo contínuo, a parte do fogo contra a água seria mais forte que toda a água contra a parte do fogo. 11. Filho, tu vês as borbulhas da água que sobem na fonte? Elas significam que uns elementos simples passam pelos outros, pois o fogo simples deseja passar através da água simples e compondo-se com o ar, que convém com a água, passando por ela pelo meio. O mesmo acontece com os outros elementos. 12. Filho, diversas opiniões são significadas pelas razões ditas acima, por exemplo, se os elementos são corpos ou não, conforme o segundo princípio. Mas uma coisa é certa: ao mesmo tempo os corpos são compostos no terceiro, no quarto e no quinto princípios, uns passando pelos outros pelo meio. Pois se o fogo deseja passar pela água, coloca-se no meio, e coloca-se depois se o ar, que convém com a água, recebe a secura da terra, que convém ao fogo e à água. Dessa maneira, os elementos compõem-se e mesclam-se uns com os outros. 13. Filho, poderia te dizer muitas razões sobre a natureza, mas falarei brevemente, pois não posso explanar alguns vocábulos obscuros que teria que te dizer. Por isso, dir-te-ei brevemente a intenção que os filósofos tinham em seus livros e depois falarei deles. 14. No livro da Metafísica, o filósofo manifesta todas as coisas que são comuns às outras ciências, e trata das primeiras coisas que convêm existir, isto é, as substâncias espirituais, manifestando sua ordem, sua natureza e seu ser. Ele faz isso para que possamos encontrar uma primeira substância espiritual, eterna, infinita, completa e que seja a primeira causa e fim de todas as coisas, à qual e pela qual todas as coisas sejam endereçadas, e esta é Deus. 15. No livro de Física, o fílósofo determina as naturezas gerais e as propriedades de todas as coisas naturais, para dar conhecimento universal de todas. Por isso, busca um movimento eterno, regular e primeiro móvel, movimento e movido, existindo um que move, imóvel e primeiro, que move tudo que se move. 16. No livro Do céu e do mundo busca as naturezas e as propriedades gerais dos céus, seus movimentos, e pergunta sobre os quatro elementos que compõem o mundo que se encontra abaixo da Lua, e pergunta isso para provar que o mundo é somente um. 17. No livro Da Geração e da Corrupção busca a possibilidade de determinar a natureza e as propriedades das coisas que são engendradas e corruptíveis, e pergunta como uns elementos são agentes e outros pacientes. Por isso, tenta manifestar a natureza dos elementos que compõem os corpos elementais pelo conhecimento dos corpos compostos. 18. No livro Meteoro fala das nuvens, dos ventos, dos trovões, dos relâmpagos, das estrelas, dos cometas e dos outros sinais semelhantes a esses. 19. No livro Da alma racional fala da substância da alma, de sua espiritualidade, incorrupção, de seus poderes, como endereça o corpo e apreende os objetos, e fala como é diferente das outras almas irracionais. E faz isso para saber a natureza da alma racional. 20. No livro De dormir e despertar fala da natureza e da propriedade pela qual os animais dormem e despertam. 21. No livro Do sentir e do sentido fala da maneira pela qual o homem sente com os cinco sentidos corporais e de qual maneira os cinco sentidos são sensíveis às coisas corporais. 22. Nos livros Dos animais fala das propriedades, dos gêneros, das espécies e das diferenças que a natureza tem. No livro Das plantas e ervas trata do mesmo. Assim, filho, os filósofos inquirem tudo isso para terem o conhecimento de Deus. LXXVIII. Da Ciência da Medicina 2. O primeiro princípio divide-se em sete partes: elementos, compleições, humores, membros, virtudes, operações e espírito. O segundo princípio é dividido em seis partes: respirar; exercitar, isto é, trabalhar e repousar; comer e beber; dormir e despertar; encher e esvaziar. Isto é, às vezes o homem come e bebe muito, às vezes pouco. O último é dos acidentes da alma, isto é, gozo e tristeza. O terceiro princípio é dividido em três partes: doença, ocasião para a doença e acidente. 3. Cada uma dessas partes ditas acima divide-se em
muitas partes, e todas simultaneamente compõem a ciência
da medicina. E como nós, filho, desejamos manifestar brevemente
essa ciência, diremos algumas coisas dos primeiros princípios
o mais breve que pudermos. 5. As compleições são quatro: cólera, sangue, fleuma e melancolia. A cólera é do fogo, o sangue do ar, a fleuma da água e a melancolia da terra. A cólera é quente pelo fogo e seca pela terra. O sangue é úmido pelo ar e quente pelo fogo. A fleuma é fria pela água e úmida pelo ar. A melancolia é seca pela terra e fria pela água. Assim, como essas compleições são desordenadas, os médicos trabalham para que possam ordená-las, pois o homem fica doente por causa do desordenamento delas. 6. Filho, existe em cada homem as quatro compleições ditas acima, mas cada homem é sentenciado a uma compleição mais que a outra. Por isso, alguns homens são coléricos, outros sangüíneos, outros fleumáticos e outros melancólicos. 7. A concordância dessas quatro compleições é feita de duas maneiras: uma é quando a compleição da qual o homem é mais formado que da outra é conservada ou fortificada para que ele tenha ordenadas sob si, graças à sua virtude, as outras compleições que a servem. A segunda maneira é quando a compleição que o senhoreia tão fortemente que destrói as outras é diminuída e mortificada por seus contrários. Por isso, filho, os médicos fazem duas curas: uma quando curam e saneiam a doença através de coisas semelhantes na natureza e a outra quando curam através de coisas contrárias. 8. Quando a cura se faz por coisas semelhantes, convém que os graus menores sejam semelhantes à compleição que é mais forte em sua virtude, e os graus maiores lhe sejam contrários; quando a cura se faz pelos contrários, convém que os graus menores estejam primeiramente contra os dois graus maiores. Assim, filho, os médicos fazem esta cura com as ervas e as sementes e ordenam os quatro graus que estão nas coisas medicinais. 9. Amável filho, duas são as mesclas: a primeira é dos quatro humores, e é feita no corpo humano; a outra é das coisas que estão mescladas fora do corpo. Os médicos as mesclam aquelas de tal maneira que se mesclem no corpo para vivificar a compleição que precisa de ajuda, com vevena , ungüento, emplastro ou letovari, e para mortificar aquela que é mais forte. 10. Os membros são os lugares do corpo onde os humores são mesclados. Assim, cada membro, de acordo com sua diversidade, necessita de uma cura distinta. Por isso, convém que os médicos tenham conhecimento da diferença e das qualidades dos membros, para que saibam obrar em cada um deles de acordo com o que convém. 11. Filho, a virtude existe por todas as outras partes e em cada parte, ajustando-se com outra e tendo a virtude operativa através das mesclas, do espírito e das operações. Por isso, as virtudes das ervas se mesclam umas às outras e as substâncias distintas permanecem umas com as outras. 12. As operações são a obra natural de cada elemento e a natureza do outro com o qual é composto e mesclado. Por isso, os médicos seguem artificialmente, tanto quanto podem, a obra natural. E tanto quanto a obra de alguns médicos é mais semelhante à obra natural que a obra de outros, uns médicos são melhores que outros. 13. Filho, o espírito vital é o meio pelo qual as potências vegetativa, sensitiva e racional se ajustam, a alma conserva a matéria com seus poderes, e a vegetativa recebe a virtude das coisas elementais. Por isso, os médicos ordenam o corpo com as coisas medicinais, de tal maneira que o espírito seja ordenado por todos os membros, que, por sua vez, são instrumentos ordenados ao espírito, que é a conjunção do corpo e da alma. 14. Sem respirar não se pode adequar nem mesclar
as compleições, porque incontinenti uma destruiria a outra.
Mas a inspiração, que expulsa do corpo, em vapor, o que
é muito quente, frio, úmido ou seco, tirando, conduzindo
para fora e colocando no corpo o que é necessário à
mescla das quatro qualidades, convém à conservação
natural, e os médicos dão odores e ares convenientes aos
doentes, esquivando-os de lugares onde o ar esteja corrompido. 16. Sem comer e beber, o corpo humano não poderia ser sustentado, pois através da comida a grossa matéria é conservada, e a sutil pela bebida. Por sua vez, a grossa matéria é fortificada comendo coisas frias e úmidas, e comendo e bebendo coisas quentes e secas a matéria sutil é fortificada. 17. Filho, se tu estás doente e tens conhecimento de tua doença, se é de calor, frio, secura ou umidade, saibas comer e beber segundo o que convém e o que aquilo te significa anteriormente, multiplicando ou minguando, conforme o que convém, teu comer e beber, para conservares a matéria que convém à saúde e mortificar a matéria pela qual estás doente. 18. Comer e beber pouco engendra matéria sutil e dá grande espaço ao espírito vital e ao alento que te refresca do calor contrário a ele. Por sua vez, comer e beber muito faz grossa matéria. Sabes por quê? Para que o calor natural não cozinhe a comida que o espírito vital necessita pelos membros, de tal maneira que ali exista a virtude e a operação convenientes, sem as quais o espírito vital não poderia existir nos membros, nem em sua virtude, nem em sua força. 19. Despertar e dormir convêm ao homem. Sabes por quê? Para que o homem repouse ao dormir e trabalhe ao despertar. Quando o homem repousa ao dormir, seu espírito recobra o calor natural, e ao despertar, os homens trabalham obrando o que os poderes da alma ordenam. Assim, o calor natural é multiplicado e conservado pelo movimento do corpo aquecido por seu próprio movimento. 20. Dormir muito destrói o espírito e o priva do calor natural, que convém por trabalho e por movimento; e trabalhar e despertar muito destroem o calor natural, porque levam no vapor a umidade e o calor que o espírito necessita. 21. Comer e beber muito faz com que o homem encha as tripas do intestino, fortificando a operação natural que perece minguando o calor natural fortificado por se estar muito cheio; pela evacuação se faz a expulsão, e o calor natural, por pouco comer e beber, consome alguma superfluidade inatural. 22. Filho, através dos acidentes da alma, o corpo é vivificado, quando se tem gozo, satisfação e prazer; e pela tristeza da alma e por muito considerar, suspeitar, ter pavor, ciúme, ira e as outras coisas semelhantes a essas, é mortificada a natureza no corpo humano. 23. Amável filho, o médico tem a intenção de curar a doença, e pelos acidentes que a doença demonstra, busca sua ocasião, e quando tem conhecimento dessa origem, cura a doença por sua origem contrária. 24. Filho, os acidentes que significam a ocasião da doença são febres diversas, urinas, pulsações, calores, desejos de comidas e outras coisas semelhantes a essas. Filho, a cura se faz pela virtude e pelos graus que estão nas ervas e nas coisas da medicina simples, das quais o homem faz beberagens, xaropes, letovaris, ungüentos, emplastros, vômitos e as outras coisas semelhantes a essas. 25. Filho, sangrias, dietas, vômitos, banhos
e muitas outras coisas são contra a ocasião da doença,
e são mais seguras que as receitas, os letovaris, os xaropes
e as outras coisas compostas da medicina simples. 27. Filho, o mesmo se segue do ar e do fogo, pois o ar é úmido por si e quente pelo fogo, a água é fria por si e úmida pelo ar e a terra é seca por si e fria pela água. Assim, o médico que ignora os graus ditos acima e tem maior vontade de receber o pagamento que conhecer a ocasião da doença não é contra a doença e nem concorda com a vontade de Deus. LXXIX. Das Artes Mecânicas 3. Em qualquer terra em que um homem esteja, pode viver do seu oficio mecânico. Por isso os sarracenos fazem isso muito bem, pois todo homem, por mais rico que seja, não deve deixar de ensinar ao seu filho algum ofício para que, se lhe falhar a riqueza, ele possa viver do seu trabalho. 4. Muitos filhos de ricos homens morrem de fome em terra estranha porque não têm ofício, e muitos homens deixam ricos seus filhos, mas vêm a pobreza e a morte, porque eles gastam a riqueza e não têm ofício com o qual possam viver. 5. Muitos homens desejariam saber algum ofício com o qual pudessem viver quando tivessem gastado o seu dinheiro, e muitos homens seriam sábios se tivessem do que viver e muitos viveriam de seu ofício se soubessem procurá-lo, e tais homens mostram aos seus filhos como gastar quando seria melhor que lhes mostrassem algum ofício. 6. A mais segura riqueza é enriquecer seu filho com algum ofício que lhe dar dinheiros e posses, pois todas as outras riquezas desamparam o homem que não tem um ofício. Logo, filho, eu te aconselho que aprendas algum ofício com o qual possas viver se precisares. 7. Não existe nenhum ofício que não seja bom, mas assim como todo homem pode pegar qualquer nome ou sinal que quiser, todo homem pode eleger um bom ofício. Por isso, filho, aconselho-te que elejas um bom ofício. 8. Quase todos os homens que estão nos ofícios ditos acima desejam estar no estamento de burguês e desejam que seus filhos sejam burgueses, mas não há em todo o mundo nenhum ofício tão danoso e que dure tão pouco. 9. O burguês deriva dos ofícios ditos acima, pois no princípio sua linhagem esteve em algum ofício e ganhou tanto que seu sucessor tornou-se burguês. Mas sua linhagem declinará no burguês. Sabes por quê? Porque o burguês gasta e não ganha, tem filhos e cada um deles está ocioso e quer ser burguês, e a riqueza não é suficiente para todos. 10. Filho, assim como a roda que se move gira, os homens que estão nos ofícios ditos acima se movem. Logo, aqueles que estão no mais baixo ofício em honramento desejam se elevar cada dia até chegarem à cabeça da roda soberana, na qual estão os burgueses. E como a roda está sempre a girar e a se inclinar para baixo, convém que o ofício de burguês também caia. 11. Nenhum homem vive tão pouco quanto o burguês. Sabes por quê? Porque come demais e suporta pouco o mal. E nenhum homem faz tanto dano aos seus amigos quanto um burguês pobre, e em ninguém está tão ultrajada a pobreza como está no burguês. 12. Nenhum homem tem tão pouco mérito de esmola, nem de fazer o bem quanto o burguês. Sabes por quê? Porque não suporta o mal que dá. E como o homem foi feito para trabalhar e suportar o mal, quem faz seu filho burguês atenta contra isso pelo qual o homem foi feito. Por isso, esse ofício é mais punido por Nosso Senhor Deus que qualquer outro. - Fim Das Três Leis e Das Sete Artes - |
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