Doutrina para crianças (1274-1276)

Ramon Llull (1232-1316)
Tradução: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) e
Grupo de Pesquisas Medievais da UFES III
(Felipe Dias de Souza, Revson Ost e Tatyana Nunes Lemos)
Revisão: Tatyana Nunes Lemos
Revisão Final: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)

De Matérias Diversas
LXXX. Dos Príncipes
1. O príncipe é o homem que tem senhoria por eleição sobre outros homens, para tê-los em paz por temor da justiça. Assim, tais homens, que são obrigados a terem justiça, têm que guardar os homens que estão abaixo de si em nobreza, e por tal guarda são mais obrigados que os outros.

2. Filho, saibas que nenhum homem é tão obrigado em seu ofício como o príncipe ou o prelado, pois eu, tu e aquele somos obrigados somente a um homem, nosso rei, e o rei é obrigado a mim, a ti e àquele, isto é, a todos os homens que estão em sua senhoria.

3. Assim como o príncipe é mais obrigado que qualquer outro homem, o principado é mais desejável, e o príncipe tem tanto que responder a mais coisas que outro homem, que deve ser mais auxiliado que outro homem.

4. Amável filho, assim como a alma é o endereçamento do corpo, o príncipe é o endereçamento de seu povo. E assim como a alma se separa do corpo após a morte, o malvado príncipe é a morte e a destruição de seu povo.

5. O príncipe é somente um homem como outro homem, mas Deus o honrou para ser senhor de muitos homens. Assim, filho, apesar de tu veres que o príncipe é um homem como outro qualquer, não o menosprezes, pelo contrário, ama-o, pois ele é de natureza semelhante à tua; tem-no, porque é senhor de ti e de tantos homens; honra-o, pois Deus honrou-o sobre ti e tantos homens melhores que ti.

6. A alma ordena o corpo por todos os seus membros. Sabes por quê? Para que o corpo, com seus membros, seja auxiliado em suas fraquezas. Por isso, o príncipe, para não enfraquecer seu poder, deve ordenar seu reino com homens bons que lhe ajudem a reger seu albergue e seu reino.

7. Membros malvados são a destruição do corpo, e malvados oficiais e conselheiros são a destruição da senhoria e da honra do príncipe, e a destruição da senhoria e honra do príncipe é a destruição do príncipe, da terra e do povo.

8. A doença chega aos membros do corpo se o príncipe faz malvados conselheiros e oficiais; e se o malvado povo faz um mau senhor, um bom povo faz um bom senhor, pois se não o fizesse, o mal e com o mal conviriam mais fortemente que o bem com o bem.

9. Nenhum homem tem tantos ladrões, larápios, traidores, difamadores, inimigos e enganadores como o príncipe. Assim, quem deseja ser príncipe não teme os perigos acima ditos, que vêm pelos homens.

10. Saibas, filho, que se tu desamas teu senhor porque faz justiça de ti, desamas o sapateiro que faz teus sapatos e o costureiro que faz tua camisa, pois o rei é mais obrigado a fazer justiça de ti que o sapateiro teus sapatos ou o costureiro tua camisa.

11. Deus colocou um senhor terreno entre ti e Ele. Sabes por quê? Para que, amando e honrando teu senhor terreno, ames e honres a Deus e temas Seu poder.

12. Amável filho, se estás na graça do senhor terreno, serás amado e temido por seus submetidos, e se sem culpa estás em sua ira, apesar de amá-lo, honrá-lo e fazeres reverência aos seus oficiais, a justiça de Deus te será mais amável e agradável.

LXXXI. Dos Clérigos
1. O clérigo é um homem pago para pedir a Deus por seu povo e para mostrar o caminho perdurável através da doutrina das palavras e pelo exemplo de vida honesta.

2. Filho, assim como o princípio da cavalaria é para manter a justiça, conforme já dissemos no Livro da Ordem de Cavalaria, no princípio foram eleitos homens bons, santos e devotos, de tal maneira que pedissem Deus pelo povo, e mostrassem ao homem uma boa educação e bons costumes, para que o homem pudesse receber a graça de Deus.

3. Foram dados aos clérigos pagamentos, dízimos e primícias com as quais vivessem, para que pelos frutos temporais, o ofício divino não fosse embargado. Por isso, os clérigos foram estabelecidos em paróquias e em lugares para cantarem missas, ouvirem confissões e pedirem às gentes que trabalhem nos frutos dos quais vivem.

4. Assim como o príncipe foi designado aos cavaleiros, o prelado foi designado aos clérigos, isto é, bispo, arcebispo, cardeais e apóstolos, para que vivessem dos bens que restam aos clérigos simples, e que tivessem, na ordem e na regra, uns aos outros, de acordo com o que são no mais alto grau e ofício.

5. A virgindade foi outorgada aos clérigos para que não tivessem filhos, aos quais dessem o tesouro da Santa Igreja, do qual uso são encarregados, de tal maneira que a Santa Igreja seja mais misericordiosa aos pobres de Cristo e seja mais forte e mais temida.

6. O ofício do clérigo é tão alto e excelente que foi vedado que o príncipe terreno lhe fosse anterior por senhoria. Por isso, filho, os clérigos têm um senhor que é príncipe celestial, isto é, o prelado, e o príncipe terreno foi submetido ao prelado para perseguir aqueles que seriam danados pela sentença do prelado.

7. Filho, é feita tão grande honra ao clérigo, para significar que a honra a Deus é feita, pois neste mundo nenhum homem é tão honrado quanto os clérigos, de acordo com o que podes ver no sacramento do altar e nas outras coisas. Logo, se tu és obediente e honras os clérigos, honrarás a Deus.

8. Assim como o clérigo é o mais honrado ofício que existe em todo o mundo, é o mais perigoso ofício que existe, pois nenhum homem promete se opor tão fortemente ao diabo e à vaidade deste mundo quanto os clérigos, e ninguém é tão honrado por Deus quanto os clérigos. Os clérigos prometem mais coisas para servirem a Deus que os outros homens.

9. Se o honramento e o mérito fossem maiores nos clérigos que nos outros homens, e não existisse aí maior perigo, existiria contrariedade entre o mérito, o honramento e a justiça de Deus. Mas como isso não é assim, através da justiça de Deus, os homens não são tão fortemente punidos quanto os clérigos malvados.

10. Amável filho, se tu és clérigo, convém que tenhas em suspeita o patrimônio que tiveres da Santa Igreja, pois ele não retorna à terra de onde saiu, de tal maneira que ele seja elevado para honrar e exaltar a Santa Igreja e a fé católica, e significar a honra, o louvor e o serviço de Deus.

LXXXII. Da Religião
1. A religião é a soberana virtude ordenada no homem para a regra contemplativa e a renúncia da vida ativa. Assim, saibas, filho, que o princípio desses homens religiosos esteve nos ermitães, que, pelo grande amor e fervor que tinham a Deus, partiram para os desertos e os bosques.

2. Filho, no princípio, a vida ermitã era estar só nos montes, viver de ervas e vestir cilício para destruir a carne. Mas os ermitães se desenvolveram e se uniram para terem uma regra, quando então elegeram o maior, isto é, o prior e abade, e construíram monastérios nos desertos para fugirem do mundo, fazerem penitência e terem hospitalidade.

3. Filho, os pecados e os erros se multiplicaram no mundo, e vieram outros religiosos para pregarem, ouvirem confissões, mostrarem a teologia, derrotarem os pecados e os erros e pacificarem os homens. Assim, eles estão entre nós para curarem nossas enfermidades.

4. A pobreza foi eleita nos religiosos para que não se ocupassem dos bens temporais nem seu ofício fosse embargado. Foram eleitas humildes vestimentas e lugares, para significar humildade e honestidade.

5. Filho, magras comidas, jejuns, aflições, lágrimas, choros, contrição de coração, oração, devoção, obediência, consciência e outras coisas semelhantes a essas são o tesouro dos religiosos. Assim, se tu, filho, amas a ordem da religião, convém entrares e perseverares com tais riquezas.

6. Entre Deus e o homem não há grau tão alto quanto o religioso. Sabes por quê? Porque o bem-aventurado religioso expulsa todas as coisas de seu coração para que não exista outra coisa senão Deus. Logo, se o mais nobre coração é o de um verdadeiro religioso, o mais malvado que existe é o religioso falso e hipócrita. Sabes por quê? Porque é mais contrário à religião que outro homem.

7. Se o verdadeiro religioso é luz e exemplo às gentes, o mau religioso é a treva da dúvida da fé, o princípio do erro e a infâmia da vida santa. Assim, o malvado religioso é o mais desprezível homem que existe.

8. A religião é uma coisa tão amável que são desamparados deleites, parentes, filhos, dinheiros, possessões, vontade e liberdade para ter religião. E não somente os homens desamparam pela religião essas coisas ditas acima, mas também as virgens, as velhas e as outras fêmeas que estão na religião se colocam em cárceres e em monastérios, dos quais nunca saem, para que adorem e sirvam o Nosso Senhor Deus.

LXXXIII. Da maneira segundo a qual os infiéis podem ser convertidos à santa fé cristã
1. Converter é encaminhar os errantes ao caminho da verdade, para serem participantes com os católicos do caminho perdurável. Assim, saibas, filho, que tal obra necessita de três coisas: poder, sabedoria e vontade, das quais três, duas Nosso Senhor Deus Jesus Cristo prometeu a São Pedro quando lhe disse e pediu três vezes que pastoreasse Suas ovelhas.

2. Se Deus dissesse a São Pedro, na pessoa da Santa Igreja, que convertesse os errantes e não lhe desse poder nem sabedoria, Deus teria fraqueza em Suas palavras; e se Deus constrangesse forçosamente Sua vontade ao homem que não a quisesse, destruiria o livre-arbítrio, e tal destruição seria a destruição do mérito, e Deus não seria justo. Assim, para conservar o livre-arbítrio e encarregar a Santa Igreja de encaminhar os errantes, o Filho de Deus quis receber a morte em carne humana para salvar Seu povo e exaltar a Santa Igreja, na qual Deus tem honrado tanto o homem.

3. Amável filho, o poder de converter os errantes está na vontade de Deus, e como boa coisa é converter o homem errante, de acordo com a bondade, a justiça, a misericórdia, a piedade e a largueza divina, convém que a vontade divina o queira, e como deseja isso, deu poder ao Papa, aos cardeais, aos outros prelados e aos clérigos de riquezas, de gentes e de sábias pessoas que têm o saber.

4. Muitos judeus e sarracenos que estão na senhoria dos cristãos não têm conhecimento da fé católica, e os cristãos têm o poder de mostrá-la através da força a algumas crianças, filhas dos infiéis, de tal maneira que tenham conhecimento e que através desse conhecimento tenham a consciência de estarem em erro, pela qual consciência é possível que convertam outros. Assim, o prelado ou o príncipe que dessa maneira não amam que os judeus e os sarracenos não fujam para outras terras amam mais os bens deste mundo que a honra de Deus ou a salvação de seu próximo.

5. Existem muitos judeus que seriam cristãos se tivessem do que viver, ele, seus filhos e sua mulher. Assim, quem não deseja lhes dar nem torna comum onde vivem, faz contra o poder que Deus lhe deu em dar os bens temporais. Por sua vez, muitos sarracenos seriam cristãos se vissem que aqueles que se dizem cristãos fossem honrados e não menosprezados pelas gentes. Assim, quem faz a desonra de não corrigir os batizados não usa do poder que Deus lhe deu nem deseja que os outros sarracenos tenham conhecimento de Deus.

6. Filho, tu bem sabes que o apóstolo tem mensageiros e dinheiros, os quais pode enviar às terras onde estão os idólatras, os gentios, e que os faça vir de diversas terras, de diversas nações, quinhentas ou mais, e que os faça mostrar nossa linguagem e nossa fé e que os dê e que eles tenham bom tratamento e então os envie àquelas terras, de tal maneira que saibam nossa fé, a qual ignoram e na qual acreditariam se a soubessem, pois o homem sem fé, idólatra, é facilmente convertido.

7. Muito santo religioso está desejoso de morrer para honrar a Paixão de Deus. E para a salvação de seu próximo, aprenderia a linguagem, se houvesse quem o ensinasse, e iria pregar a palavra de Deus, se houvesse quem o enviasse, mas não há quem estabeleça mosteiros organizados para aprender diversas linguagens, nem existe quem envie os frades.

8. Existem muitos príncipes que, para multiplicar a fé católica, colocariam suas rendas, sua pessoa e suas gentes, se tivessem a ajuda da Santa Igreja, para conquistarem as terras que perderam, as quais têm, para sua desonra, os infiéis, e se têm um bispo e são dadas quinhentas ou mil souls de renda, quantas seriam dadas às coisas acima ditas?

9. Quem encontraria um homem que desejasse ser bispo sem mil marcos de renda? Existiriam homens que com menos renda consentiriam ser bispos? E quem espera que Deus coloque em seus corações o desejo de ordenar essas coisas acima ditas, tenta a vontade de Deus, que o quer, conforme o que a Cruz significa.

10. Se todos os frades religiosos que são convenientes para pregar fossem necessários ao povo dos cristãos, teriam alguma desculpa, mas Deus deseja tanto que por todo o mundo se espalhem, que tanto os multiplicou que para tudo bastariam. E os frades que fossem mártires dariam o exemplo por fama e devoção, porém, nós temos mais fortemente fé e devoção que os frades que estão entre nós.

11. A razão demonstra que a verdade é mais forte coisa que a falsidade. Logo, se Deus recebe a santa conversão dos homens e o sacrifício do sangue sagrado no coração do homem que morre para honrar a Deus, e o homem faz aí seu poder pela oração, pela esmola, pela penitência, pela afeição e pela devoção, como pode ser que, pela longa continuação e perseverança, os homens errantes não sejam expulsos do erro no qual estão? E se isso fosse impossível, o erro e a falsidade teriam maior poder que as coisas acima ditas e o homem faria melhor seu débito convertendo o mundo que Deus, e isso não é verdade.

12. Não estamos nos tempos de milagres, pois a devoção de converter o mundo era maior nos apóstolos que é agora, no mundo em que estamos, nem razões fundadas sobre autoridades os infiéis recebem. Então, para converter os infiéis são convenientes o Livro de Demonstrações e a Arte de encontrar a verdade, os quais lhes são mostrados para que o homem combata a inteligência deles, para que conheçam e amem a Deus.

LXXXIV. Da Oração
1. A oração é elevação devota, piedoso pensamento a Deus, pedir a eterna bem-aventurança ou suplicar a Deus os bens que convêm a esta vida temporal.

2. Amável filho, a oração existe de três maneiras: a primeira é quando a alma lembra, entende e ama a Deus, porque adora a Deus; a segunda é quando a boca nomeia ou fala o que a alma lembra, entende e ama; a terceira quando o homem, fazendo boas obras, cogitando e amando o bem, faz oração a Deus.

3. Na oração não é conveniente nomear Deus ou suplicá-Lo com o corpo cogitando vaidades, pois ao corpo e à boca convém concordância simultânea. Assim, se tu não podes ter teu coração voltado para o que nomeias quando suplicas a Deus, tenhas novas razões e novos pensamentos para pedir a Deus, para que através da busca de novas razões, possas constranger teu coração para concordá-lo com as palavras que dirás.

4. Filho, quando tiveres acordado pela manhã, vai à Igreja orar a Deus; ajoelha-te diante do altar; faz o Santo Sinal da cruz; e olha a cruz com os olhos corporais para que tua alma tenha lembrança da Santa Paixão de Nosso Senhor Deus; eleva os olhos de tua alma e tuas mãos a Deus; beija a terra humildemente para significar que vieste dela e para ela retornarás; saúda a cruz, dizendo: “Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam Crucem tuam redimisti mundum”; diz o Pai Nosso, em lembrança da Paixão de Jesus Cristo, quando à noite foi livrado da morte; com a Ave Maria saúda a Rainha do céu, Nossa Senhora Santa Maria, e adora Nosso Senhor Deus nos anjos e nos santos de Glória.

5. Quando tiveres dito essas palavras diante do altar, de joelhos, muda-te para outro local, se for mais conveniente para adorar, pois a oração é embargada pela multidão de gentes. E naquele lugar, faz a oração, primeiramente adorando a Deus nos catorze artigos, depois adora a Deus, adorando Sua bondade, Sua grandeza, Sua eternidade, Seu poder, Sua sabedoria, Seu amor, Sua virtude, Sua verdade, Sua glória, Seu cumprimento, Sua justiça, Sua largueza, Sua misericórdia, Sua humildade, Sua senhoria e Sua paciência.

6. Filho, suplica a Deus fé para os clérigos, se não o entendes, suplica-Lhe que te dê esperança para que Nele confies tuas necessidades; suplica a Deus caridade, para que O ames, ames a ti mesmo e a teu próximo; suplica justiça, para que temas a justiça de Deus, e para que tu mesmo te julgues neste mundo, para suportares trabalhos por amor de Deus e para satisfazeres tuas culpas; suplica a Deus a luz da sabedoria para que ilumine tua alma nos caminhos de Deus, e para que saibas e desejes iluminar aqueles que estão nas trevas; suplica a Deus fortaleza contra a gula, a luxúria, a avareza, a inveja, a acídia, o orgulho, a ira; e suplica temperança em teu comer, beber, falar, vestir, gastar, dormir e acordar.

7. Filho, saibas que melhor coisa é, sem toda comparação, suplicar a Deus as virtudes antes ditas, que suplicar saúde, vida, dinheiros, honramentos, filhos, filhas, possessões ou outras coisas semelhantes a essas, pois por todas essas coisas, o homem pode estar na ira de Deus e caminhar para infinitos tormentos, e pelas virtudes, o homem vai ser bem-aventurado na glória celestial que dura todos os tempos.

8. Amável filho, pede por teu pai e por tua mãe, pois deles recebeste o ser que tens, o qual não darias por todo o mundo; pede por tua mulher e por tuas crianças, se existem, pois Deus faz grande graça ao homem quando lhe dá mulheres e crianças que sejam seus servidores. Pede por teu senhor terreno, pois Deus o deu a ti para que te ajude, te defenda e te castigue, para que não percas a Glória de Deus.

9. Filho, faz oração comum: é muito agradável a Deus. Pede pelo santo pai apóstolo, pelos cardeais, pelos prelados, pelos príncipes, pelos religiosos e por todo o povo dos cristãos, que os dê graça para que sejam defensores da Santa fé católica e exaltem-na para a honra da Santa Paixão de Deus, a qual é honrada pela Santa Igreja no local onde foi morto e viveu o filho de Deus, para honrar a Santa Igreja e todo o povo dos cristãos. Pelos judeus, sarracenos, tártaros, e pelos outros infiéis, filho, faz oração para que Deus lhes dê a luz da graça com que possam ser convertidos à fé católica, e que Deus, por sua piedade, lhes dê procuradores que sejam pregadores que os doutrinem no caminho verdadeiro, sem pavor da morte.

10. Na tua oração, não esqueças os mortos que estão no Purgatório, os quais suportam graves trabalhos pelos pecados que fizeram, nos quais trabalhos são ajudados, neste mundo, pelos vivos, quando pedem por eles e quando dão esmolas pelo amor de Deus.

11. Filho, tenhas em tua oração especial o santo ou santa no qual tens devoção, e o pregue e honre, para que interceda por ti com Deus, pois os santos de glória são tão amáveis a Deus, que, para multiplicar Sua glória, são atendidos aqueles que os pregam e os honram neste mundo.

12. Filho, acusa-te, confessa teus pecados e suplica o perdão e a misericórdia de Deus; e faz graças a Deus por ter te dado o ser e aquilo que tens. Faz-Lhe graças por não ter te feito deficiente, infiel, pedra nem outra coisa que não é tão nobre quanto o ser que te foi dado.

13. Se tens trabalhos por servir a Deus ou por tuas culpas, faz graças a Deus, pois grandes são os bens que vêm por trabalhos, porque por trabalhos na paciência, o homem é agradável a Deus, e os trabalhos mortificam na alma as vaidades deste mundo.

14. Filho, tu não poderias agradecer a Deus o bem que te é dado, nem aquele que deseja dar, por isso, recorre à Rainha de todo o mundo e aos santos de Glória, e lhes pede que agradeçam por tudo o que não podes agradecer, pois como são tão melhores e mais nobres que ti, são mais convenientes para agradecerem os bens que Deus tem te dado.

15. Não tenhas vergonha de suplicar a Deus, pois Deus é um honrado senhor. Na Igreja, não olhes os homens e nem as fêmeas, nem escutes suas palavras, pois terás tormento em tua oração; não perguntes as notícias, para que não tires Deus da tua alma. Aprende tanto de latim que entendas a missa, pois se a entendes, mais agradável tua oração será a Deus.

16. Sabes por que te enojas de longo ofício e de longo sermão? Porque não tens devoção, nem sabes contemplar longamente a Deus, por afeição de coração, por exaltação do entendimento a Deus e por lembranças das palavras de Deus.

17. Muitos homens têm memória que não sabe lembrar, têm entendimento que não sabe entender e muitos têm vontade que não sabe amar. Logo, se tu, filho, sabes lembrar, entender e amar as palavras de Deus, estarás satisfeito em ouvir as palavras de Deus e estarás cansado quando não as ouvires.

18. Filho, se estás irado, se tens alguma tristeza em teu coração, se tens alguma aflição, se desejas alegrar, consolar, repousar tua alma, incontinente te dá a oração, pois a oração tem tão grande virtude que a todo homem aflito, irado, desconsolado e afrontado, ela honra, consola, repousa e alegra. E sabes por quê? Porque a oração é a ponte entre o homem e Deus.

19. Filho, a oração convém com jejuns, aflições, choros, suspiros, contrição, humildes vestimentas e vida restrita. Sabes por quê? Porque as coisas contrárias a essas embargam a oração e expulsam Deus do pensamento humano.

20. Filho, chora em tua oração, pois lágrimas e palavras convêm na oração, e se tens coração tão duro que não podes chorar, tens falha de amor e contrição. Logo, para mortificares tua natureza sensual que te impede de chorar, imagina que tua mãe, teu pai ou algum amigo teu que amas muito mata um homem diante de ti, que ele te peça ajuda, te olhe piedosamente e que tu não o possas ajudar. Quando tua alma corporal começar a morrer, expulsa todas as coisas de tua alma, exceto Deus, e relembra Sua Paixão, a qual suportou por ti e os grandes pecados que fizeste, pois todas essas coisas serão ocasião de chorares.

21. Se por todas essas coisas não podes chorar, sobe para fazeres penitência nos altos montes, foge do século e faz áspera vida, sê só, imagina as grandes penas infernais, as quais sofrem os infernados, e tua imaginação mudará para diversas maneiras de tormentos, quando então, chorarás. E enquanto estiveres no lugar e no tempo, chora e adora, filho, o Rei do céu, pois todos os infernados teriam glória perdurável e fugiriam dos trabalhos infinitos, se pudessem, somente uma hora, chorar e adorar Nosso Senhor Deus.

LXXXV. Da Alma
1. A alma é a substância espiritual racionável que dá forma ao corpo humano. Assim, filho, saibas que Nosso Senhor Deus criou essa alma do nada, e tomou-a no ventre da fêmea, ajustando-a ao corpo engendrado, e do corpo e da alma fez a criança no ventre da fêmea.

2. São dados três poderes à alma, isto é, a memória, o entendimento e a vontade. Assim, tudo o que faz a alma, o faz com esses três poderes, e estes três poderes obram de quatro maneiras, conforme te contei na Arte de encontrar a verdade. Uma obra tem a alma em seus poderes quando apreende o objeto lembrando, entendendo e amando; outra, quando o apreende lembrando, entendendo e odiando; outra quando o apreende esquecendo, ignorando, amando ou desamando; outra quando o apreende compostamente das três maneiras ditas acima.

3. Existem universalmente cinco potências na alma: vegetativa, sensitiva, imaginativa, racional e motiva. Porém, não existe sensitiva nas árvores, nem racionalidade nas bestas, mas na alma do homem existem todas essas cinco. Por isso, diz-se que a alma do homem participa com todas as criaturas.

4. A alma vegetável é o crescimento que acontece nas plantas, no corpo do homem ou na besta, por razão da natureza elemental; a alma sensitiva é o poder pelo qual as bestas, as aves e os homens têm os cinco sentidos corporais; a alma imaginativa é o poder com o qual imagina as coisas corporais; a alma racional é a essência que tem o poder de lembrar, entender e querer; a alma motiva é o poder pelo qual as plantas e as bestas se movem ao que desejam, e a alma do homem ao que ama.

5. Filho, saibas que a alma, com a imaginação, apreende e une tudo o que lhe oferecem os cinco sentidos corporais, vendo, ouvindo, cheirando, degustando e sentindo; e o oferece ao entendimento através da fantasia, elevando o entendimento para entender a Deus, os anjos e as coisas intelectuais que a imaginativa não consegue imaginar.

6. A fantasia é o quarto da fronte onde se encontra o paladar. Por sua vez, a imaginativa ajusta na fronte o que apreende das coisas corporais, e o que apreende entra na fantasia, iluminando aquele quarto para que o entendimento possa apreender o que a imaginativa lhe oferece. Assim, quando isso se desordena por algum acidente, o homem se torna fantástico, ou seu entendimento grosseiro, ou perturbado.

7. Saibas, filho, que quando o homem morre, sua alma racional permanece, pois é coisa imortal. E pela virtude e pelo milagre de Deus, que deseja recompensá-la no Paraíso, no Purgatório ou no Inferno, segundo suas obras, a virtude permanece em seus três poderes ditos acima, pela qual virtude, ela pode lembrar e entender as coisas corporais sem a imaginação e sem os sentidos corporais.

8. Amável filho, muitos homens caem em dúvida e no erro quando pensam imaginar as coisas espirituais e intelectuais que não podem ser imaginadas, pois assim como os olhos têm um ofício e os ouvidos outro, a imaginativa tem o ofício de imaginar o que é corporal, e o entendimento entende o que é corporal e espiritual. Assim, como o entendimento é mais elevado em virtude que a imaginação, pode entender o que a imaginação imagina e a sobrepuja, pois ela não pode imaginar o que é de natureza intelectiva.

9. Filho, são muito sutis essas razões que te falo, conforme os tempos que nos encontramos; mas eu as desejo dizê-las para que tu desejes sabê-las no tempo em que poderás entender.

10. Filho, não penses que quando o corpo do homem morre, morre a alma racional. Pelo contrário, ela vai para o Paraíso, para o Purgatório ou para o Inferno, conforme seu merecimento. Contudo, a alma vegetal, a sensitiva e a imaginativa morrem com a morte do corpo. Sabes por quê? Porque são da natureza do corpo, que é de natureza corruptível.

11. No dia do Juízo, quando todos ressuscitarem, cada alma racional recuperará seu corpo, mas não será necessário o ordenamento das potências da alma como nestes tempos nos quais nos encontramos, pois do dia do Juízo em diante, o homem não comerá, não beberá, não deitará com fêmea nem terá corpo corruptível. Sabes por quê? Para que a justiça de Deus tenha significado eternamente.

LXXXVI. Do Corpo Humano
1. Filho, o corpo humano é composto de quatro elementos, e a composição daquele se faz da matéria que o homem coloca na fêmea e da matéria que a fêmea recebe quando é emprenhada.

2. Como os quatro elementos são corruptíveis no corpo do homem, o corpo é corruptível. Assim, para sustentar o corpo, convém que o homem coma, beba, durma e descanse para ajustar a concordância e contrariedade dos elementos.

3. Amável filho, o corpo tem cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato, e através desses cinco sentidos, participa com as coisas externas, sem as quais não poderia se sustentar, pois o calor natural consome diariamente a umidade do corpo. Assim, se não entrasse no corpo a umidade que existe nas coisas, cheirando e degustando, o calor consumiria a umidade do corpo e ele morreria.

4. Amável filho, o homem não pode viver sem ver, ouvir e cheirar; e sem degustar, sentir e respirar nenhum homem também pode viver. Assim, existe para ti a regra geral para que sejas moderado em teu comer e em teu beber, em teu cheirar e no sutil ar, sem cheirar odores que corrompam os humores, nos quais se mesclam as coisas de onde o corpo toma a vida.

5. Filho, a vista existe nos olhos pelo triângulo, isto é, aquele ar é luminoso, e nos olhos com os quais o homem vê existe luminosidade; e os objetos que o homem vê têm luminosidade, pois, se não houvesse luminosidade nessas três coisas, o homem não poderia ver. E quando não existe luz em alguma dessas três coisas, nem o ar é purificado pela luz do sol ou do fogo para brilhar, o homem não pode ver.

6. Ouvir é o que é feito quando o ar é tocado pelo golpe corporal, e se forma em teus ouvidos com a ajuda da água que recebe a impressão da ferida que é feita no ar. Assim, quando o ar e a água não se convém no cérebro nem nos ouvidos, por causa dessa inconveniência, a conveniência do ar ferido com a água, onde se forma o som que dá audição a teus ouvidos, não pode passar. Por isso, os homens são surdos e não escutam, e por causa da audição que não têm, são mudos e não sabem falar, pois através da audição as crianças aprendem a falar e a guiar a língua de acordo com as vozes que escutam.

7. Cheirar se forma do calor e da umidade, que são do fogo e do ar, pois o fogo e o ar têm a natureza de elevarem o ar, que sobe e desce por teu nariz, tirando o ar que participa com o corpo das coisas odorativas que são vaporativas. Por sua vez, o ar conduz aquela matéria até teu nariz, onde sentes o odor, e naquele lugar teus humores apreendem a secura em sua mescla, conforme os odores convém com a disposição dos humores. Por isso, o ar puro fortifica os humores e o ar corrompido os corrompe.

8. Degustar se engendra pela umidade que se encontra nas veias cheias de ar que estão sob a língua. Por sua vez, na úvula, onde as veias tem sua raiz, principia a mescla da umidade das comidas com a umidade que existe nas veias. Naquele momento, filho, vem o sabor na tua garganta, de acordo com a qualidade das comidas. Mas quando o ar que se encontra nas veias da língua não se convém com as comidas que comes por causa da doença da garganta ou pela falta de hábito das comidas, o que é doce te parece amargo.

9. Sentir vem da animalidade, isto é, quando o homem é tocado na carne viva onde é sensível. Assim, sentimos primeiro a água e a terra e depois o fogo e o ar. Contudo os sentimentos são tantos ao mesmo tempo, que a imaginação não pode imaginar nem o primeiro nem o último tempo entre o sentimento da terra e da água com o sentimento do fogo e do ar. Mas como o fogo e o ar são mais fortes internamente que a terra e a água, é entendido entende-se que o homem sinta antes a terra e a água que o fogo e o ar. E mais: como o corpo é feito da mais grossa matéria, é mais tocável, e onde é mais tocável é mais sensível, sendo animado.

10. De acordo com o desejo natural, assim como o fogo está sobre o ar, o ar está sobre a água e a água sobre a terra nas esferas dos elementos, nos corpos elementais compostos acontece o contrário, pois o calor natural está mais dentro do corpo que qualquer uma das outras propriedades dos elementos, e o ar mais que a água e a terra. Por sua vez, a terra é mais própria aos limites externos do corpo que a água. Isso acontece mais ou menos de acordo com a simplicidade dos elementos, pois nos locais mais próprios do corpo, estão os elementos de acordo com a relação de simplicidade, mais em uns lugares do corpo que em outros.

11. Amável filho, poderia te dizer muitas razões naturais do corpo, mas falo brevemente. Sabes por quê? Para que te fale muito de Deus.

LXXXVII. Da Vida Corporal
1. A vida corporal é a atualidade pela qual vive o corpo, e a vida espiritual é amar a Deus. Assim, se tu, filho, amas a vida corporal, ama a saúde, pois através da saúde, a alma e o corpo se convêm, e o homem vive por causa dessa conveniência. E se amas a vida espiritual, ama e teme a Deus, pois através do amor e do temor a Deus, a alma vive em virtudes e se esquiva dos vícios e dos pecados, que são a ocasião da morte infernal.

2. Filho, saibas que existem três caminhos para significar as duas vidas: o caminho inferior, o médio e o soberano. O caminho inferior é de pecados, o médio é a vida ativa e o soberano é a vida contemplativa. Assim, como a vida contemplativa é mais própria a Deus e mais distante do pecado que a vida ativa, é mais nobre que a ativa.

3. Filho, no caminho inferior estão os homens pecadores, amantes desta vida mundana, para terem os deleites temporais. Assim, eles vivem para o corpo, mas suas almas morrem em pecado e em culpa. Por isso, tu, filho, não deves ir por tal caminho, que conduz o homem à morte perdurável.

4. No caminho médio estão os homens que têm a vida ativa, isto é, os que possuem as bem-aventuranças deste mundo com a intenção de fazerem o bem pelo amor de Deus. Eles têm mulher, filhos, e os deleites deste mundo ordenadamente, os quais agradecem a Deus, e nos quais esquivam a obra do pecado. Assim, tais homens têm este mundo e o outro.

5. Na vida contemplativa estão os homens que fazem áspera vida e contemplam a Deus com jejuns, orações, pobreza e contrição, menosprezando este mundo. Assim, filho, estes homens têm o outro século melhor que os homens que vão pelo caminho médio. Sabes por quê? Porque dão este século pelo outro e desamparam as bem-aventuranças deste mundo.

6. Amável filho, nas atitudes e no tempo é que tu podes ir pelo caminho que desejares. Assim, se o caminho inferior te é amável, relembra como dura pouco a vida deste mundo, como a morte não perdoa os homens jovens, como o homem não vive enquanto dorme, nem enquanto está irado, triste, temeroso, quando está sofrendo, quando está atormentado por doença ou por outra coisa.

7. Se fizeres esta reflexão, descobrirás que na maior parte das vezes o homem dorme quando descansa e está mais vezes irado e sofrendo que alegre e satisfeito. Assim, como a vida nesse caminho inferior é tão breve, e tão longa é a morte infernal na qual o homem vai por tal caminho, serás louco, filho, se elegeres o caminho inferior.

8. Elegerás o caminho médio, filho? Se o fizeres, elejas o ofício que for mais distante do caminho inferior, pois na vida média existem uns ofícios mais nobres e mais elevados que outros. Sabes por quê? Porque estão mais próximos da vida contemplativa.

9. Filho, se tu eleges a vida contemplativa, elege e escolhe aquela ordem que esteja mais distante do caminho médio, pois assim como na vida ativa existem alguns ofícios que estão mais próximos que outros do caminho inferior, no caminho soberano existem algumas religiões mais distantes da vida ativa que outras.

10. Amável filho, em uma mesma religião existem alguns ofícios que convêm melhor à vida contemplativa que outros. Sabes por quê? Porque na vida contemplativa existem alguns ofícios que estão mais próximos da vida ativa que outros. Assim, se entrares na religião, se puderes, tenhas aquele ofício que estiver mais distante da vida ativa.

11. Se elegeres a vida ativa, não leias os livros que fazem a vida mundana desejável, e tenhas o grande Livro da Contemplação, pelo qual a vida contemplativa é desejável para contemplar Nosso Senhor Deus.

LXXXVIII. Da Morte Corporal
1. A morte corporal é a separação do corpo e da alma e a morte espiritual acontece na alma que se distancia de Deus. Por isso, filho, existem duas mortes. Assim, a morte corporal aproxima a alma virtuosa de Deus, que vai para o Paraíso quando o corpo morre. E a morte espiritual que existe na alma pecadora aprisiona o corpo para suportar o eterno fogo infernal, e o submete a infinitos trabalhos.

2. Filho, cogita na morte para que não sejas orgulhoso, pois a morte inclina o corpo à grande vileza, tornando-o impotente, e o coloca sob a terra, fazendo-o comida de vermes e horrível de se ver, tocar e cheirar, tornando-o pó e cinza.

3. Filho, teme a morte para que vivas para servir a Deus; e teme a morte pois não sabes qual hora virá, nem onde, nem por que, nem por qual morte morrerás. E como sabes que tens que morrer e ignoras todas as coisas ditas acima, a morte é temível.

4. Filho, cada dia morres, pois a morte se aproxima de ti todos os dias, e os mortos que vês soterrar e apodrecer sob a terra te significam que és e serás como eles, e assim como eles são esquecidos e desobedecidos por seus filhos e parentes, serás esquecido e desobedecido.

5. A morte te tomará todos os bens que tens, o menosprezo e o esquecimento virão das gentes, e tempos virão que homens que não te conheceram, não te amaram e nem falaram de ti, possuirão o que tiveste, e nem se estivesses vivo, dar-te-iam um pão ou um copo d'água.

6. Eu amei em meu pai essa morte tão horrível e tão pesada. Sabes por quê? Para que não possuísse seus bens, e isso é exemplo para ti e para teu filho, se o tiveres. E naquele momento, filho, amarás a morte da alma para que teu filho tenha teus bens, pelos quais, porventura, amará tua morte?

7. Temível coisa é a morte corporal, porém mais temível é a morte da alma, pois da morte corporal o homem não pode fugir, mas da morte da alma sim. Logo, por que é temível isso de que o homem não pode escapar? E por que a morte do corpo, que vem para todos, é mais temível que a morte da alma, que todos os tempos dura?

8. Filho, desejes morrer para honrar teu Senhor Jesus Cristo, como Ele, que não morreria se não o quisesse, mas quis morrer por amor a ti. Assim, se tu não morresses, deverias desejar morrer para louvar teu Deus; e se agora, que não podes fugir da morte, não desejas morrer para honrar Deus aos infiéis que O descrêem e O desonram, quanto mais desejarias morrer se fosse coisa possível que tu não morresses!

9. Amável filho, o que te vale mais, morrer uma vez ou morrer todos os tempos no fogo perdurável? E o que vale mais, morrer uma morte desejada para honrar a Deus ou morrer uma morte odiosa, na qual o homem mau mata sua satisfação sem que tenha a gratidão e o mérito de Deus?

10. Nada neste mundo é tão próprio ao outro século como a morte, pois sem a morte o homem não pode passar, e por nada se pode ir tão honradamente como através da morte. Também por nenhuma maneira o homem pode ser tão semelhante a seu Deus Jesus Cristo como pela morte. Assim, por que temes morrer por teu Deus? E por que não temes morrer a morte pela qual não terás a graça de Deus?

11. Filho, onde estão tantos imperadores, reis, condes, barões e prelados que passaram desta vida? E onde está Alexandre, que foi senhor de todo o mundo? E quem fala deles, quem se ocupa de honrá-los? E vejas, filho, como são honrados, celebrados, relembrados e pregados os apóstolos e os outros mártires que estão mortos pelo amor a Deus.

12. Filho, estejas seguro que de acordo com o tempo em que estamos, mais o homem é feito para morrer para honrar a Deus que viver e honrar a Deus. E sabes por quê? Porque melhor coisa é morrer para honrar a Deus, e isso que é melhor e mais nobre é a maior ocasião pela qual o homem existe.

13. Filho, em trevas estão os olhos de nossa alma, a devoção refreada e a caridade em falta. Por isso, não desejamos morrer para que Deus seja honrado, não fazemos aquilo para o qual existimos nem mortificamos o corpo para que a alma viva. E como não fazemos isso para que fomos feitos no tempo no qual estamos, existe pavor e perigo de que o mundo seja julgado pela justiça de Deus por estar em perigoso estado.

LXXXIX. Da Hipocrisia e da Vanglória
1. A hipocrisia é semelhante à virtude por ser um vício oculto. Por isso, filho, os homens hipócritas fazem falsas semelhanças e semblantes bons às gentes, mas são maus e cheios de vícios e culpas.

2. A vanglória é a coragem desordenada movida ao próprio honramento, do qual não é digna. Por isso, filho, os homens que têm vanglória fazem algumas coisas boas ou que têm semelhança com o bem para que sejam louvados e honrados pelas gentes.

3. Na hipocrisia há dois caminhos: por um se vai em companhia da vanglória, por outro em companhia da falsidade. Pelo primeiro, filho, vão os homens que portam humildes vestimentas, jejuam, têm vida áspera, dizem palavras humildes e devotas e parecem ser bons homens. Tudo isso fazem de tal maneira que tenham honra e fama com as pessoas.

4. Por esse mesmo caminho vão os homens que são bem vestidos, que cavalgam bem, que dão, gastam e praticam feitos de armas, e por isso as pessoas honram-nos e falam deles. Logo, estes têm hipocrisia por se mostrarem bons, são vis de coração, intenção e fé, e são vangloriosos por se darem glória e por saberem que isso não é durável e que não foi o motivo pelo qual o homem foi criado, pois o homem não foi criado para louvar a si mesmo e sim para louvar a Deus.

5. Filho, como é dada tanta esmola e tanto dinheiro, roupas, bestas, armas e outras coisas semelhantes a essas para que o homem tenha vanglória! E como a fama e a bem-aventurança que os homens hipócritas e vangloriosos têm nos caminhos por onde passam são tão rápidas e breves!

6. Pelo caminho por onde vão os homens aos quais a hipocrisia e a falsidade se unem, vão, filho, tantos homens que fingem ser bons homens para que possam enganar as gentes, pois a semelhança da bondade engana primeiro o homem leal que a semelhança da maldade.

7. Como por esse caminho vão tantos homens, e como é tão difícil que o homem se guarde dos homens falsos e hipócritas, ah, filho, quem é que pode se guardar de tais homens, e quem pode estar seguro contra tais homens?

8. Existem alguns homens que fazem o bem, mas fazem-no secretamente para não serem escarnecidos. Logo, enquanto temem sofrer blasfêmia por darem bom exemplo fazendo boas obras, têm algum resto de hipocrisia e de vanglória, pelo qual perdem o mérito que teriam se não amassem a vanglória nem tivessem hipocrisia. Logo, fazer o bem secretamente não foi principiado pelos outros, mas para que não tivéssemos vanglória.

9. Existem muitos homens que falam mal de seus pais, de seus irmãos ou de quaisquer outros homens. Sabes por quê? Para que o louvem e deixem de louvar aqueles que invejam seu louvor. E existem muitos homens que são hipócritas e vangloriosos, mas não pensam sê-lo. Sabes por quê? Porque amam tanto serem honrados que não conhecem suas falhas.

10. Se tu desejas ser privado do homem vanglorioso, lhe fale mal de outro homem, pois enquanto falares mal de outro, conceberás o amor porque o farás querer falar bem do outro. E se desejas ser menosprezado e desamado pelo homem vanglorioso, repreende-o das faltas que comete contra o Senhor Deus.

XC. Da Tentação
1. A tentação é a prova pela qual o entendimento se certifica, e a tentação é a ocasião pela qual a finalidade vem. Logo, se tu, filho, desejas ter conhecimento da tentação, convir-te-á buscá-lo de três maneiras: a primeira é a tentação angelical, a segunda é a diabólica e a terceira é de um homem para outro.

2. Filho, a tentação angelical acontece quando o anjo dado por Deus te aconselha que faças boas obras, e para que te possa induzir a alguma boa obra, ele te aconselha outra, para que através desta tenhas ocasião de fazer o bem, pois quando tu sentas à mesa, comes e bebes com um grande apetite, o anjo te aconselha, em tua consciência, que tenhas temperança em teu comer e em teu beber. Sabes por quê? Para que sejas obediente e contrastes a glutonia, que é um pecado mortal, e para que tenhas abstinência e continência, que são virtudes.

3. Filho, a tentação diabólica acontece quando o diabo, que é anjo maligno, te aconselha que dês esmola ou algum outro bem para que tenhas vanglória, que é pecado, ou então te aconselha a cometer algum pecado venial para que possa te induzir a cometer pecado mortal, e o mesmo das outras coisas semelhantes a essas.

4. Filho, se desejas conhecer qual tentação é angelical e qual é diabólica, entende que a tentação angelical dá trabalho no princípio e desgosto à natureza corporal. Sabes por quê? Porque o corpo possui a natureza de antes estar preparado para fazer o mal que o bem. E onde o corpo é mais contrário a fazer o bem, maior mérito tem a alma, se lhe faz cometer boas obras.

5. Depois que o corpo é vencido pela alma e preguiçosamente começa a fazer o bem, a alma, que melhor convém fazer o bem que o mal, tem alegria e satisfação no bem que faz, e o corpo, que inicialmente era vagaroso e preguiçoso, torna-se diligente naquelas coisas em que a alma o faz trabalhar para fazer boas obras.

6. Amável filho, a tentação diabólica faz todo o contrário disso, pois no princípio satisfaz o corpo para começar o mal, entristecendo a alma no fim, pois ela tem consciência do pecado e do mal que faz quando consente ao demônio, que é seu inimigo.

7. Filho, a tentação humana é como a bela fêmea que pinta suas feições e orna suas vestes para que seja desejada pelas gentes e que falem de sua beleza. Assim, por essa tentação a vanglória e a luxúria são engendradas.

8. O homem tenta com a semelhança de bem para que possa fazer o mal, e tenta outro homem com a semelhança do mal para que encontre a paciência e a lealdade nele. Assim, com dissimulação e com as outras coisas semelhantes a essas, uns homens tentam outros, conforme o que está contado no Livro da contemplação.

9. Filho, existe diferença entre tentação espiritual e tentação corporal, pois tentação espiritual se faz na alma e em seus poderes, isso é memória, entendimento e vontade, e a tentação corporal se faz no corpo e em seus cinco sentidos corporais.

10. Amável filho, grande é a glória que os homens adquirem ao se oporem à má tentação. Mas como o homem é frívolo e disposto a obedecer ao demônio e à sua própria natureza que é corrompida pelo pecado, e como tantos homens são vencidos por serem tentados, te aconselho, filho, que tanto quanto possas, fujas das tentações diabólicas e das tentações das fêmeas e dos maus homens, pelas quais tu cais na ira de Deus.

XCI. Da maneira segundo a qual o homem deve educar seu filho
1. A educação é acostumar o outro ao hábito mais próprio à obra natural. Pois assim como a natureza segue seu corpo e não se desvia de sua obra, as crianças, no princípio, se acostumam à boa educação ou à má.

2. Filho, saibas que existem duas maneiras de educar: uma pertence ao corpo e outra à alma. Aquela que é do corpo é feita nos cinco sentidos corporais, que são: ver, ouvir, cheirar, degustar e apalpar. A educação espiritual é feita nas três propriedades da alma, isto é, na memória, no entendimento e na vontade.

3. Amável filho, ao homem deve ser muito caro seu filho. Por isso, o homem não deve ser negligente com seu filho para que veja e perceba em qual educação ele se habitua e se inclina, pois através da educação do corpo, a educação da alma é habituada, e através da educação da alma, a educação do corpo é também acostumada.

4. A tentação entra na alma através da visão corporal. Por isso, o homem deve educar seu filho a ver coisas que não o acostumem a malvados pensamentos, nem o façam desejar belas vestimentas, onde o orgulho, a inveja e as despesas são engendradas, e o mesmo das outras coisas semelhantes a essas.

5. Acostumar teu filho a ouvir vaidades, palavras feias, romances e canções, instrumentos e as outras coisas que dão o movimento da luxúria é veneno e peçonha na lembrança, no entendimento e na vontade de teu filho. E tal veneno e peçonha gastam e deterioram os bens que lhe deixas, e aprisionam a sua alma no fogo perdurável. Assim, para mortificar tal veneno são necessárias palavras e livros que falem de Deus e do menosprezo deste mundo, antes que o veneno e a peçonha se multipliquem em seu hábito.

6. A luxúria se engendra ao se cheirar o âmbar e o almíscar, e o corpo adoece pela corrupção do ar. Por isso, a criança não deve ser educada em um lugar insalubre e não deve se acostumar com os odores que lhe movem às vaidades, às inconveniências e às cogitações.

7. No princípio, quando a criança nasce, até que tenha recebido a força e o calor natural, deve ser alimentada somente com leite, pois não lhe convém outra comida, porque o calor natural não se encontra em sua força e não pode digerir a comida. Por isso, as crianças têm tinhas e abscessos por causa da comida que lhes damos à força e que sua natureza não pode ainda digerir. Assim, muitas crianças que viveriam se não comessem e bebessem tanto, morrem por causa dos abscessos.

8. Quando a criança está tão grande que anda, corre e joga, o homem deve lhe dar de comer de acordo com o que ela quer, e não deve lhe dar mais pão pela manhã e nem na merenda, mesmo que peça, pois ela não irá comer o assado, a fruta e as outras coisas no tempo que tiver que comer. Mas como as crianças comem as coisas delicadas mais do que requerem sua natureza ou a riqueza de seu pai, muitas delas ficam doentes e muitos homens pobres.

9. O vinho muito forte destrói o calor natural e o entendimento, e abrevia os dias, e vinho muito misturado ocasiona embriaguez no homem, se bebe muito. E salsas fortes queimam os humores e destroem o cérebro e o calor natural. Assim, todas essas coisas e muitas outras são nocivas às crianças.

10. Quando a criança está muito vestida, se destrói o calor natural, pois no trabalho que faz ao brincar se aquece e abrem-se os poros, por onde nasce o calor natural em vapor e em suor. Por estar muito vestida, seus poros não sentem o frio que os tempera, frio que os temperaria e conservaria o calor natural no corpo. Assim, pelo esforço que as crianças fazem, a digestiva seria mais forte e as comidas que comem seriam digeridas antes.

11. O balançar que o homem faz no berço para que as crianças não chorem, não é movimento natural, pelo contrário, é contra o cérebro, que se bate e não tem a disposição que deveria, por isso, não se deve balançar o berço das crianças que choram. As crianças choram mais sendo balançadas do que chorariam se não fossem acostumadas ao balanço.

12. Conservar cabelos na cabeça com pústulas é acostumar os humores a se elevarem. Assim, destrói-se o cérebro e se têm doenças respiratórias, doenças internas, nos olhos, nas glândulas, escrófulas no colo e muitos outros males. Por isso, as crianças que têm os cabelos raspados são muito mais sãs e os maus humores são acostumados a descerem, onde não dão tanto dano como fazem nos lugares soberanos.

13. Saibas, filho, que mais sábia é a natureza em educar as crianças, que as suas mães. E o que a natureza perde nas crianças filhas dos homens ricos, ganha nas crianças filhas dos homens pobres. Por isso, abre teus olhos e vê quais crianças verás mais sãs e belas: os filhos dos ricos homens ou os filhos dos homens pobres? Sabes por que isso acontece? Porque a natureza dá convenientemente aos filhos dos pobres o que necessitam, e aos filhos dos ricos homens não lhes pode dar o que desejaria. Sabes por quê? Porque muitas vestes e muitas comidas lhe impedem.

14. Filho, muitas palavras te disse, que pertencem ao corpo, e poderia te falar mais, mas desejo te dizer da educação que pertence à alma. Saibas, filho, que quando a criança chega à idade conveniente, o homem deve mostrá-la como recordar, entender e desejar, pois assim como o corpo deseja usar seus membros quando ainda não é chegado o tempo e nem a idade, a alma deseja usar de suas virtudes quando ainda não deve, pois a criança é jovem em idade.

15. Os homens ricos que não obrigam seu filho ou filha a fazerem alguma coisa e lhes deixam ociosos, não fazem seus filhos lembrarem, entenderem e desejarem, pois a ociosidade, o esquecimento, a ignorância e o indesejar se convêm. Assim, filho, os filhos dos ricos homens se tornam mal-educados, preguiçosos, fracos, néscios e iníquos, e destroem o que recebem, pois não têm alma com a qual saibam guardar e se defender dos homens astutos, falsos, traidores e enganadores.

16. O homem que deseja educar bem seu filho não deve ter em sua casa um homem mal educado, para que seu filho não receba má educação. E a senhora que deixa sua filha quando sai de casa, deveria ficar com ela. Sabes por quê? Para que ela não acredite na má serva. E aquele homem educa mal seu filho, pois deveria conduzi-lo a Deus e à ventura.

17. Acostumar tua criança a recordar, entender Deus e amar a Igreja é costumar sua vontade em amar Deus, seu pai e sua mãe. A memória que lembra, o entendimento que entende e o temor envergonhado engendram a vontade que desama as faltas e ama as virtudes. Por isso, a criança deve ser educada com temor envergonhado para que tenha amor ao bem e desamor ao mal.

18. Se a criança não for educada para trabalhar, quando tiver que trabalhar, não terá paciência nem nobreza de coragem para vencer seu trabalho. E se a criança for educada para falar mal, quando ouvir bem dizer, terá inveja, acídia e ira, que são pecados mortais. E se a criança for familiarizada e educada com homens vis, fugirá dos bons homens.

19. Desejas educar bem teu filho? Acostuma sua memória e seu entendimento a cogitarem nobres feitos para que a vontade ame a companhia de bons homens. E desejas educar o entendimento de teu filho para ser exaltado e elevar seu entendimento? Mostra-lhe a ciência divina e a natural. E desejas que ele tenha um elevado entendimento para entender sutilmente? Mostra-lhe a Arte de encontrar a verdade e o Livro de definições, de princípios e de questões. E desejas que teu filho ame muito a Deus? Faz-lhe lembrar e entender a vileza deste mundo e a bondade, a eternidade, o poder, a sabedoria, o amor e as outras virtudes de Deus.

XCII. Do Movimento Racional
1. O movimento racional é a cogitação movida para cogitar uma coisa após a outra, e é um desejo veemente ou ódio da alma de ser ou não ser.

2. Amável filho, assim como teu corpo pode se mover de um lugar a outro, tua alma pode mover suas cogitações de uma coisa a outra, amando uma coisa e odiando outra.

3. Neste movimento que te falo existem diversos movimentos, pois a memória se move do lembrar para o esquecer e do esquecer para o lembrar; o entendimento se move do entender ao ignorar e do ignorar ao entender; e a vontade é movida do amar ao desamar e do desamar ao amar.

4. Filho, no movimento racional existem duas intenções: a primeira e a segunda. Assim, se tu sabes a natureza e a propriedade dessas duas intenções, saberás muitas coisas. E se souberes ordená-las em tua alma, terás muitas virtudes.

5. A primeira intenção é a causa final, e a segunda é a matéria e a forma. A matéria é a segunda intenção no olhar da forma. Sabes por quê? Porque a forma é mais apropriada à causa final que a matéria.

6. Conforme uns graus são mais nobres que outros, Deus quis que a primeira intenção fosse mais conveniente a uns graus, e a segunda intenção a outros.

7. Na árvore existem as folhas para que exista o fruto. E como o fruto vale mais que as folhas, naturalmente o fruto tem a primeira intenção e as folhas a segunda. E como o homem é mais nobre coisa que as árvores, as bestas e as outras coisas que estão abaixo do homem em nobreza, Deus quis que o homem existisse pela primeira intenção e as coisas que não são tão nobres pela segunda intenção.

8. Filho, Deus é mais nobre coisa que o homem e que qualquer criatura. Por isso, Deus quis que o homem tivesse Nele o ato de servir, amar e conhecer a primeira intenção, e nas outras a segunda. Assim, se tu tens Deus na primeira intenção, ama-O mais porque Ele é bom que por ter te criado e por ter te dado Glória.

9. Filho, sabes o que é o pecado? É quando o homem ama menos as coisas que deve amar pela primeira intenção que as coisas que deve amar pela segunda. Por isso, os homens pecam contra Deus e O amam pela segunda intenção e a si mesmos pela primeira.

10. Filho, o primeiro movimento acontece quando a alma racional move seus poderes tão subitamente que a razão não consegue consentir. Por sua vez, o segundo movimento acontece quando a alma racionalmente consente ou não aquele primeiro movimento. Por isso, é feita diferença entre o pecado venial e o mortal, pois não existe liberdade da razão no primeiro movimento. Mas como a razão tem liberdade de consentir ou contrastar o primeiro movimento, existe mérito ou culpa no segundo movimento.

11. Filho, poderia te falar de muitas maneiras do movimento espiritual. Mas falar-te-ei agora do movimento corporal, que existe de três maneiras. A primeira existe em três movimentos: o movimento circular, isto é, o movimento do céu; o segundo é o movimento que o fogo e o ar fazem para cima; o terceiro é o movimento que a água e a terra fazem para baixo.

12. A segunda forma de movimento existe de três maneiras: o movimento de um lugar para o outro; o movimento que os elementos fazem quando engendram as coisas em crescimento e que se movem da menor quantidade para a maior e do não-ser para o ser; o terceiro, que é o movimento que os elementos fazem ao corromperem as formas naturais, retornando-as ao não-ser.

13. Filho, a terceira forma de movimento acontece nos cinco sentidos corporais, pois tens um movimento ao ver, outro ao ouvir, outro ao cheirar, outro ao degustar e outro ao apalpar. Por isso, os cinco movimentos são diferentes uns dos outros.

14. Amável filho, se amas a ciência e as boas obras, que este capítulo te seja caro dentre todos os outros capítulos deste livro, pois a alma é iluminada quando conhece os movimentos ditos acima, tendo assim a intenção de honrar e servir o glorioso Deus.

XCIII. Dos Costumes
1. O costume é a perseverança envelhecida de coisas semelhantes agradáveis. E como os bons costumes são amáveis e os maus costumes são odiáveis, e todo homem tem a liberdade de eleger bons costumes ou maus, serás sábio, filho, se abandonares as coisas da má educação e tomares bons costumes.

2. Filho, os bons costumes são agradáveis à alma. Sabes por quê? Porque entre os bons costumes e a consciência é feita a paz. Por isso, a má educação e a consciência são contrárias.

3. Como o corpo é naturalmente corrompido pelo pecado, convém melhor ao mau costume que ao bom. Sabes por quê? Para que a alma tenha maior mérito se constrange o corpo a receber bons costumes.

4. O sábio mercador é aquele que vai ganhar dinheiro por diversas terras e traz as mercadorias para a sua terra com o intuito de ganhar riquezas. Mas tu serias um mercador mais sábio, filho, se fosses por diversas terras e elegesses os melhores costumes que encontrasses.

5. Não ames o costume velho mais que o novo, apenas por sua antigüidade, nem ames mais o novo que o velho, apenas por sua novidade. Sabes por quê? Para que elejas o melhor e tenhas em ira o pior.

6. Se as coisas da má educação são boas por sua antigüidade, as obras dos demônios, que tanto perseveraram no mal, seriam boas, e se os novos costumes fossem todos maus, o princípio do bem seria mau.

7. Filho, tenhas o costume de dar esmola para que te acostumes a ter esperança em Deus. E te acostuma à oração para que desejes a glória celestial e tenhas esta vida mundana em menosprezo. E tenhas o costume de colocar tua consolação em Deus para que agradeças os trabalhos que te dá pelos teus pecados e pelos meus. E para que agradeças a Deus os bens que Ele faz com que possuas sem trabalho, acostuma o conhecimento em teu coração.

8. Acostuma teu corpo a trabalhar, para que tenhas saúde e não sejas gordo nem preguiçoso; acostuma tua alma a lembrar, para que não esqueças; acostuma teu entendimento a entender, para que não te enganes, e acostuma tua vontade a amar, para que sejas agradável a Deus.

9. Sê obediente, para que não sejas orgulhoso; faz confissão, para que não te esqueças de teus pecados; usa a temperança, para que não sejas glutão; tem fortaleza, para que não sejas vencido; usa a abstinência, para que freqüentemente peças conselho.

10. Filho, acostuma-te a ter contrição, para que venhas a chorar teus pecados. E se desejas ter audácia e nobre coragem, acostuma-te a falar diante de nobres homens; e se desejas ser íntimo de bons homens, ama seus costumes e desama o que é desamado por eles.

11. Tem firmeza em teu coração, para que não te arrependas; tem ponderação em tuas mãos, para que não sejas pobre; refreia tua língua, para que não sejas repreendido; escuta, para que entendas; pergunta, para que saibas; dá, para que encontres; guarda o que te é confiado, para que sejas leal; mortifica a tua vontade, para que não suspeitem de ti; relembra a morte, para que não sejas cobiçoso; tem verdade em tua boca, para que não tenhas vergonha; ama a castidade, para que não sejas sujo; tem temor, para que tenhas paz; tem valentia, para que não sejas preso.

12. Filho, muitos são os bons costumes que podes ter, os quais seguir-te-ão onde quer que vás, ajudar-te-ão em tuas necessidades e ninguém poderá tomá-los ou roubá-los de ti, e até a morte estarão contigo e representarão tua alma perante Nosso Senhor Deus.

XCIV. Dos Quatro Elementos
1. Os elementos são a matéria na qual são conservados os indivíduos naturais, nos quais são conservadas as espécies desejadas pela matéria original.

2. Amável filho, quatro são os elementos: fogo, ar, água e terra, e desses quatro é composto e unido o teu corpo e tudo o que comes, bebes, apalpas, cheiras e sentes. Tudo o que teus olhos vêem sob a Lua pertence aos quatro elementos.

3. O fogo está sobre o ar, o ar está sobre a água, e a água está sobre a terra. O fogo e o ar são leves, a água e a terra são pesados. Por isso, o fogo e o ar se movem para cima e a água e a terra se movem para baixo.

4. Filho, o fogo e a água têm poder e ação sobre o ar e a terra, que têm paixão. O fogo e a água são contrários, e o ar e a terra são contrários. Sabes por quê? Porque o fogo é quente, a água é fria, o ar é úmido e a terra é seca.

5. O fogo, por ser quente, é simples; o ar, por ser úmido, é simples; a água, por ser fria, é simples, e a terra, por ser seca, é simples.

6. Filho, sabes o que quer dizer simplicidade? Uma coisa em sua própria natureza, sem composição de outra coisa. E sabes o que quer dizer composição? A união de diversas coisas, mescladas em uma só coisa.

7. Filho, a composição se faz de duas maneiras: uma é quando o fogo é seco pela terra, o ar é aquecido pelo fogo, a água é umedecida pelo ar e a terra é resfriada pela água. A outra maneira é quando todos os quatro elementos são unidos em um corpo elementado, como o meu, o teu ou os outros corpos onde estão unidos os quatro elementos.

8. Na primeira composição, se inicia a geração e na segunda, a corrupção. Sabes por quê? Porque na primeira são diversas e concordantes de duas em duas, e na segunda são diversas e contrárias de duas em duas.

9. O fogo, aquecendo o ar, passa a aquecer a água e a terra. Sabes por quê? Porque o ar dá a umidade aquecida à água, e a água dá o frio aquecido à terra. A água, resfriando a terra, resfria o fogo e o ar. Sabes por quê? Porque resfria a secura que o fogo recebe da terra, e o calor que o ar recebe do fogo e a umidade que recebe do ar.

10. O ar, dando umidade à água, dá umidade à terra, que recebe o frio da água e dá secura ao fogo. Por isso, o ar retém do fogo o calor que recebe, enquanto o fogo recebe secura com calor onde tem umidade.

11. Quando a terra dá secura ao fogo, resseca a umidade aquecida pelo fogo e a água retém o frio que recebe, ressecando a umidade que o ar dá à água.

12. Filho, através das quatro operações diversas, concordantes e contrárias ditas acima, os elementos se ligam e se ajustam em um corpo e se dividem em outro. E como cada elemento desejaria ser corpo simples por si mesmo, sabe quando pode ter sua simplicidade por si mesmo e em si mesmo sem ter paixão pelos outros elementos. Filho, por isso é significada a ressurreição e a glorificação do corpo ressuscitado.

13. Filho, as complexões descem dos quatro elementos: cólera, sangue, fleuma e melancolia. A cólera é quente e seca, e é do fogo; o sangue é quente e úmido, e é do ar; a fleuma é fria e úmida, e é da água; a melancolia é fria e seca, e é da terra.

14. Cada um desses elementos é examinado pelos médicos em quatro graus. Sabes por quê? Porque algumas coisas são mais fortes em umas complexões que em outras e, por isso, de acordo com os graus, são feitas concordâncias de uns elementos com outros para sanar as doenças.

15. Filho, saibas que uns elementos simples são invisíveis, até que sejam de natureza corporal. Por isso, dão o significado que Deus existe, mesmo que seja coisa invisível, pois se o que é corporal existe, mesmo que seja invisível, bem se segue que seja coisa invisível, sem ser de natureza corporal mas de Deus.

XCV. Do Acontecimento e da Sorte
1. O acontecimento é o ordenamento natural das coisas vindas da Providência Divina. A sorte é o que é desejado e vem por si sem o ordenamento do pensamento. E sorte é acontecer o que não se teve intenção pela cogitação do pensamento.

2. Amável filho, Deus ordenou que os doze signos e os sete planetas tenham poder sobre os corpos terrenos. Assim, conforme com o que existe na natureza e o ponto sob o qual nasce o homem, ele é astrologicamente fadado o quanto deve viver, qual ofício melhor lhe convém e em qual terra lhe nascem os melhores negócios.

3. Os corpos celestiais não têm poder sobre a alma, mas sobre o corpo. E como a alma é forma do corpo, a senhoria que os corpos celestiais têm sobre os corpos não tem poder sobre a alma. Por isso, muitas vezes acontece o que não era para acontecer ao homem, o que estaria fadado segundo os corpos celestiais. E, acidentalmente, pela liberdade do livre-arbítrio e pela discrição, acontece ao homem o contrário do que estava fadado.

4. Filho, Deus não é contrário ao Seu próprio poder, nem à Sua justiça e Sua misericórdia. Por isso, Seu poder muitas vezes faz acontecer o contrário do que estava fadado ou previsto astrologicamente ao homem, para que use de justiça ou de misericórdia ou de graça no homem. Pois se a alma, que é criatura, pode desviar o corpo daquilo a que estava fadado, para que use de sua liberdade, quanto mais Deus pode desviar a natureza que o corpo têm pelos corpos celestiais, para que use de Sua virtude no homem.

5. As árvores e as ervas seguiriam a natureza que os corpos celestiais lhes deram, de acordo com o que foi ordenado. Mas como o homem corta as árvores e arranca as ervas, retira acidentalmente dos corpos terrenos o que é substancialmente influenciado pelos astros. Assim, se homem tem poder dessas coisas nas plantas contra os astros e os acontecimentos, quanto mais Deus tem poder sobre o homem.

6. Às vezes, a sorte vem pela natureza, como os seis dedos na mão ou nascer o homem aleijado e outras coisas semelhantes a essas; e a sorte faz com que os homens encontrem algumas coisas que não pensam encontrar, tendo o que desejam sem saber o porquê.

7. Filho, lembra e entende essas coisas e não te submetas aos astros, ao acontecimento nem à sorte, mas tema o poder de Deus, e usa a razão em tudo que fizeres, pois os homens que confiam nos astros menosprezam o poder, a justiça e a graça de Deus. E aqueles que fazem da sorte isso que fazem são inimigos do discernimento e da discrição, que é luz pela qual o entendimento humano enxerga o que deve ser feito, para que seja corrigido em suas obras e que não caia na ira de Deus.

XCVI. Do Anticristo
1. O Anticristo será homem carnal enviado para este mundo pelo demônio infernal, em semelhança com Jesus Cristo. Pois assim como o Pai Celestial enviou Seu filho, nosso Senhor Deus Jesus Cristo, ao mundo para restaurar o povo que estava perdido, o demônio, que é pleno de malícia, usará todo seu poder e enviará como mensageiro o Anticristo para destruir o povo que Jesus Cristo reparou.

2. Amável filho, o Anticristo nascerá de uma fêmea e será educado na Babilônia, E quando tiver a idade com a qual Jesus Cristo começou a pregar, pregará tanto tempo quanto Jesus Cristo pregou, e fará falsos milagres, prometerá grandes dons e dos bens temporais dará aos homens aquilo que lhe pedirem, para que o adorem, creiam e reneguem Nosso Senhor Jesus Cristo.

3. Fará grandes ameaças e grandes mortes aos que não lhe crerem e nem lhe obedecerem, e dará fortes razões e semelhanças para que pareça verdadeiro o que disser. Logo, será preciso, filho, que o homem se faça pleno de devoção e de caridade para que não tema suas ameaças, e que o homem tenha fortes razões e demonstrações contra as dele.

4. Filho, podes imaginar que muitos o seguirão e acreditarão no que ele fizer, porque se agora, neste tempo em que vivemos, existem tantos homens em erro, que não têm o que desejam, e não têm semelhanças de milagres, nem os ameaça a morte, nem homem algum prega fortes demonstrações, quanto mais existirão no tempo em que o Anticristo virá.

5. Em Jerusalém, virá e pregará na praça, diante de todos, contra Jesus Cristo, e virão Elias e Enoch, e disputarão e contrastarão suas falsas razões, e ele os matará naquela praça. E então, Nosso Senhor Jesus Cristo não desejará sustentar a malícia dele, mata-lo-á diante do povo.

6. Amável filho, no paraíso terreno o demônio foi contrário à Divina Graça que Deus fez ao homem. Por isso, fez Adão e Eva serem desobedientes a Deus, e no lugar onde Nosso Senhor Jesus Cristo nos criou é preciso que morra o Anticristo e perca o seu poder, para manifestar o poder e a ordenação de Deus.

XCVII. Das Sete Idades nas quais o Mundo está Dividido
1. A idade é o tempo mensurado e o espaço de vida das coisas viventes durante sua vida. Assim, filho, a primeira idade foi de Adão a Noé, e nesta idade Caim matou seu irmão Abel, e eles foram os primeiros filhos que Adão teve.

2. Naquele tempo existiam muitas gentes amantes dos deleites deste mundo, que desconheciam Deus e viviam muito. Por isso, Deus enviou o dilúvio para que o mundo se renovasse com outras gentes que fossem boas.

3. A segunda idade foi de Noé a Abraão. Noé foi santo homem e, pela sua santidade, Deus lhe disse que fizesse uma grande arca e que se colocasse nela com sua mulher, seus três filhos e com as mulheres deles, e que de cada linhagem das bestas e das aves colocasse um par ali, para que povoassem o mundo que pereceu pelo dilúvio.

4. Quando Noé e todas essas coisas estavam na Arca, Deus mandou tanta chuva do céu, filho, que o mar caiu sobre a terra e sobre os montes e todo o mundo pereceu, exceto aqueles que estavam na arca.

5. Quando Noé viu que a chuva cessou, enviou um corvo, para que fosse ver se encontraria terra, mas o corvo não retornou. Depois enviou uma pomba, que trouxe um ramo de oliveira em sua boca como sinal, para significar que o mar havia baixado e a terra aparecido.

6. Noé e aqueles que estavam com ele chegaram e povoaram o mundo, e os outros morreram pelo dilúvio. Eles cresceram, multiplicaram as gentes, mas como tiveram pavor que o dilúvio retornasse outra vez desejaram fazer uma torre tão alta na Babilônia que se o dilúvio retornasse eles escapariam da morte naquela torre. Mas antes que a torre ficasse tão alta quanto eles desejavam fazer, Deus enviou diversas linguagens àqueles que construíam a torre, de maneira que uns não entendessem os outros, por isso não puderam elevar a torre conforme desejavam e, naquele momento, iniciou-se a diversidade de linguagens que existe agora.

7. Filho, a terceira idade foi de Abraão a Moisés. Abraão teve conhecimento de Deus e teve um filho com nome de Isaac, o qual quis degolar para fazer sacrifício a Deus, para significar o sacrifício que Jesus Cristo fez morrendo por Seu povo. Mas Deus enviou um carneiro à Abraão que fez com ele o sacrifício, para significar que a humanidade de Cristo esteve na cruz para redimir a linhagem humana, da mesma forma como, através do carneiro, a morte de Isaac foi redimida.

8. Filho, naquela idade existiram muitos profetas e as doze tribos que formavam o povo de Israel, e nestes existiam muitos bons homens que amavam Deus, que esperavam e desejavam a vinda de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo.

9. A quarta idade foi de Moisés e Davi. Moisés foi profeta e santo homem que falou com Deus, que lhe deu a Lei Velha no Monte Sinai. Moisés foi aquele que tirou o povo de Israel do poder do Faraó quando, pela virtude de Deus, tocou o mar com a vara, e passou a pé com seu povo por ele, que se abriu. O Faraó com seu povo perseguiu Moisés. Após Moisés e seu povo terem passado o mar, ele se fechou e o Faraó e seu povo morreram.

10. Filho, a quinta idade foi de Davi à transmigração da Babilônia. Davi foi rei muito sábio, tocou instrumentos para louvar a Deus, edificou o templo para que Deus fosse adorado, fez o Saltério e fez muita bondade. Nessa idade viveu Salomão, seu filho, que foi um homem muito sábio. E Absalão, seu filho, foi o mais belo homem que existiu. Nesta idade havia muitos reis judeus que fizeram e venceram muitas batalhas contra os infiéis que desejavam destruir o povo de Israel.

11. A sexta idade foi da transmigração da Babilônia até Jesus Cristo, filho de Deus. Filho, naquela idade os judeus perderam seu príncipe, e não foram elevados. E Nabucodonosor foi rei gentio muito poderoso e muito orgulhoso, entrou pela força das armas em Jerusalém e destruiu os judeus e seus livros. E pelo pecado que fez, Deus o puniu sete anos por ele ter sido semelhante a uma besta.

12. A sétima idade é de Jesus Cristo até o fim do mundo. Filho, nesta idade, Nosso Senhor Deus Jesus Cristo foi encarnado, crucificado e existiram os apóstolos. Nesta idade estamos agora, e estaremos até o fim do mundo.

13. A oitava idade é depois do fim do mundo, e esta durará todos os tempos no outro século, e nela seremos ressuscitados e julgados, os bem-aventurados terão Glória sem fim e os maus pena por todos os tempos.

14. Antes que exista essa idade, Deus enviará os quinze dias onde serão feitos os sinais que significarão o fim do mundo. O mar se elevará quarenta côvados sobre toda a terra, não se estenderá e o mar retornará ao seu estado. Os peixes gritarão sobre o mar e as bestas e as aves sobre a terra se unirão e gritarão.

15. O fogo queimará o mar, chorarão os homens, suor de sangue cairá na terra, cairão os castelos, as torres e todos os edifícios. Os pais se separarão e combater-se-ão; existirão terremotos; nenhum homem poderá se sustentar em seus pés e as terras se fenderão; os homens irão, chorarão pelos campos e terão tal pavor que não poderão falar; os sepulcros se abrirão e os ossos sairão; as estrelas cairão do céu e voarão pelo ar. Filho, aqueles sinais serão tão grandes e farão tanto pavor no homem que, naquele momento, o poder de Nosso Senhor Deus será muito fortemente manifestado.

XCVIII. Dos Anjos
1. O anjo é substância invisível, incorpórea e que sempre vê Deus. Filho, no princípio, Deus criou estes anjos com matéria, tempo e movimento, e estes anjos estão no céu imperial diante de Deus onde estão os santos de glória. Esse céu não se move e está acima do céu cristalino, que é um céu cheio de luminosidade e de resplendor e não é móvel. Esse céu cristalino está acima do céu do firmamento, onde estão as estrelas que se movem e que tu vês, e este terceiro céu está acima dos sete céus, que são os céus dos sete planetas que tu vês.

2. Filho, não existe nenhum céu acima do céu imperial. E assim como os anjos benignos estão no céu mais soberano, os demônios, que são os anjos malignos caídos do céu soberano, estão nos infernos, que são os lugares mais baixos que existem. Este lugar está dentro do coração da Terra, que é redonda e está envolvida pelo firmamento, pelo Sol e pela Lua. Mas como os homens são pecadores, para tentá-los e levar para o inferno as almas daqueles que morrem em pecado, e principalmente para que se oponham a seus falsos conselhos, Deus deseja que os demônios possam estar entre nós.

3. Filho, cada homem tem um anjo benigno que lhe aconselha a fazer boas obras e lhe ajuda contra o demônio. E cada homem tem um demônio que lhe aconselha a fazer o mal. Por isso, filho, todo homem deve obedecer a seu anjo bom, cada dia lhe fazer alguma honra e uma vez por ano lhe fazer festa.

4. O bom anjo vê tudo o que o homem faz, pois não se afasta dele onde quer que vá. Assim, filho, grande desonra faz o homem ao bom anjo quando não o obedece e obedece ao demônio, que lhe é contrário, e grande vilania é fazer, diante do anjo, luxúria e outros pecados.

5. Filho, os bons anjos levam ao Paraíso as almas dos homens que morrem em santidade e em boas obras, e os anjos pedem a Deus e servem-No, e cada anjo pede a Deus por aquele homem que Deus lhe confiou.

6. Filho, se após teres comido e bebido convenientemente, desejas comer ou beber e tens consciência disso, isso acontece porque, nesse momento, teu anjo benigno te aconselha que não comas nem bebas mais. Sabes por quê? Para que tenhas temperança, abstinência, continência e fortaleza, que são virtudes. Ele te aconselha igualmente quando desejas cometer luxúria ou falar mal de alguém.

7. Quando jazes em teu leito e ouves o sino que soa para que vás à missa pedir a Deus, o bom anjo te aconselha a ir e fazer graças ao Deus que te criou e te deu as manhãs e o leito onde jazes à noite. Por sua vez, o espírito maligno te aconselha a dormir, para que não faças graças a Deus.

8. Quando o pobre, magro e mal vestido está diante de ti e pede pelo amor de Deus, o anjo malvado te aconselha a não dares esmola. Sabes por quê? Para que tenhas avareza e não confies na largueza de Deus. Mas o bom anjo te aconselha a dar, para que tenhas caridade e confies na riqueza de Deus.

9. Filho, muitas vezes acontece dos anjos tomarem no ar a forma de homem ou de outra coisa; o mesmo fazem os demônios. Sabes por quê? Para que possam induzir os homens à sua vontade. Logo, se os anjos se transfiguram em formas que não lhes são convenientes para que possam induzir os homens às boas obras, como os homens são culpados quando lhes são desobedientes!

10. Filho, ama e honra o teu anjo, porque não custará nada de teu e não poderás perder nada; e em tudo quanto obedeceres ao demônio, perderás a ti mesmo e a todos os teus bens, e, no fim, se obedeceres, estarás na ira de Deus.

XCIX. Do Inferno
1. O Inferno está no meio de um lugar que fica dentro do coração da Terra, e tal lugar é trancado e fechado, e ali existe pena por todos os tempos. Essa pena acontece em quatro lugares: um é o Inferno, onde estão os danados que nunca sairão; outro é o Inferno que é chamado Purgatório, no qual o homem faz penitência porque não a cumpriu neste mundo; o terceiro Inferno é o lugar onde entraram os profetas antes que o Filho de Deus fosse encarnado, e esse Inferno é chamado Abraão; o quarto Inferno é aquele onde entraram as crianças que morreram e não foram batizadas.

2. Amável filho, assim como é boa coisa considerar a Glória do Paraíso para que o homem ame a Deus, é boa coisa considerar as penas infernais para que o homem tema a Deus, que pode dá-las a quem quiser. Logo, como tu temes a Deus, desejo mostrar que deves cogitar as penas infernais de diversas maneiras.

3. Filho, cogita e imagina uma grande multidão de gentes na ribeira do mar e considera que o mar esteja todo borbulhante e cheio de fogo ardente, e que do mar saiam grandes peixes que coloquem imediatamente no mar um homem após outro. Logo, se tens tal cogitação, podes imaginar quão grandes serão os gritos, as vozes e os pavores daqueles homens que não poderão se defender daqueles peixes que serão dragões infernais, dos quais não se poderá fugir.

4. Quando esquentares o fogo e vires o óleo das favas e dos legumes borbulharem, e umas favas subirem e outras descerem, cogita, filho, que dessa forma os peixes do mar subiriam e desceriam, se a água do mar fosse assim borbulhante como a água do óleo que está sobre o fogo. Logo, podes considerar qual dor estará naqueles homens que estarão na água borbulhante assim como o peixe está no mar; e aquela água borbulhará muito mais fortemente que o óleo das favas.

5. Amável filho, quando vires os rios e as grandes torrentes onde passam a água que cai pelas rochas, considera como são muitos os pecadores e os infiéis que não cessam diariamente de cair na boca do dragão infernal. Logo, tu podes pensar, se estivesses em uma alta ribeira e caísses em uma boca de dragão cheia de fogo flamejante, e que o dragão tivesse grandes e agudos dentes, quão grande pavor terias.

6. Filho, por acaso tu vês tições no grande fogo, uns sobre os outros, e umas brasas sobre outras? Assim, filho, estarão os infernados, todo o tempo uns sobre os outros, e o corpo de cada um estará assim cheio, por dentro e por fora, de fogo ardendo, como são os grandes tições que vês no fogo.

7. Filho, para que tenhas temor do fogo infernal que dura todo o tempo, vai à fornalha onde fazem o vidro e ao forno onde cozinham o pão, e considera estar uma hora naquele fogo. Logo, se mesmo que eu te desse todo o mundo, tu não estarias uma hora naquele fogo, mais deves temer que, por um deleite temporal que passa rapidamente, estejas no fogo infernal que dura por todo o tempo!

8. Quando vires fundir o chumbo ou o ouro ou a prata, imagina que exista um grande buraco cheio de chumbo ou ouro fundido. Se tu estivesses na boca desse buraco, terias pavor se atassem tuas mãos e teus pés e o colocassem em um saco, e te amarrassem uma grande pedra ao teu colo e te jogassem no buraco. Logo, tenhas pavor, filho, do estanho que é cheio de ouro e de prata fundida, onde estarão os homens que por ouro e por prata perderam a glória de Deus.

9. Quando vires o gelo na água e no meio daquele gelo tiver uma pedra, um tronco ou qualquer outra coisa, cogita, filho, como os pecadores, que pelo calor da luxúria perderam o reino celestial, estarão todos nus dentro das grandes montanhas de gelo e de neve, nos infernos.

10. Quando fores para fora do muro da cidade, encontrares as bestas mortas que o homem joga no vale, e vires muitos cães, grandes e pequenos que roem as orelhas, os olhos, a cara, os braços e as pernas daquelas bestas, entrando em seus ventres e roendo seus ossos, comendo seus corações e suas entranhas, então, é certo, filho, que deves cogitar nos infernados, que estarão pelos campos, e virão os demônios semelhantes a cães, leões e serpentes, e morderão as cabeças, os braços e os membros daqueles homens que não poderão morrer nem escapar daquela pena.

11. Quando estiveres na carniceria e vires que os carniceiros, com os grandes cutelos, degolam os carneiros, e com as maças matam os bois e escalpelam-nos com os cutelos mais cortantes, e depois, com esses grandes cutelos dividem-nos e estraçalham-nos, cogita, então, filho, quão grande é a pena infernal daqueles homens que não podem morrer e que os demônios atormentam no Inferno.

12. Se vais caçar e vês os cães unidos sobre uma lebre ou um coelho, matando, dividindo, tirando e escalpelando-os, e estes não recebem nenhuma ajuda nem podem se defender, imagina como os demônios, que são tantos e tão maus, se unem às almas dos pecadores para atormentá-las e dar-lhes pena que é inestimável.

13. Se fosses rei e estivesses em um grande deserto, totalmente só, sem nada para comeres e beberes, e estivesses a ponto de morrer por essa grande fome e sede, darias todo teu o reinado por um pão e uma taça de água. Se não desejas dar todo o teu reinado, guarda-te para que não tenhas, perduravelmente no Inferno, por um pecado mortal, fome e sede, sem poderes ter uma crosta do pão ou uma gota de água.

14. Vai ao mar e imagina quantas gotas de água existem; olha a areia e imagina quantos grãos de areia existem no mar; eleva teus olhos ao céu, conta as estrelas e cogita quantos grãos de milho caberiam no espaço que existe entre o céu e a terra. Saibas, filho, que um pecador estará, incomparavelmente, por muito mais anos nas penas infernais do que as coisas acima ditas.

15. Filho, entende quão grande pena tem a alma do homem infernado, pois a memória lembrará que em todos os tempos terá pena, o entendimento entenderá que perdeu a Glória que não tem fim, e a vontade odiará a memória que lembrará a infinita pena, e o entendimento que entenderá a Glória que perdeu. Por isso, cada uma dessas potências terá pena na outra e em si mesma.

16. Sabes, filho, o que fazem os marinheiros que vão sobre o mar quando tem mau tempo? Jogam no mar as caixas com ouro e prata e a mercadoria que portam. Sabes por quê? Para que possam escapar da morte. Logo, para que possas escapar e fugir das penas infernais, expulsa todas as coisas de teu corpo e não tenhas outra coisa, mas somente Nosso Senhor Deus ou o que Lhe seja prazeroso.

C. Do Paraíso
1. O Paraíso é ver Deus e estar com Ele em Glória. Logo, se meus olhos não podem ver todo o mar, minhas mãos não podem, filho, escrever toda a Glória do Paraíso, pois a Glória do Paraíso é, incomparavelmente, muito maior que todo o mar; e todo o mundo não é tão grande como a Glória que os santos do Paraíso têm em Nosso Senhor Deus.

2. Filho, não desejo dizer nem escrever tudo o que poderia te dizer e significar da Glória do Paraíso, pois devemos pensar outras coisas, e isso pareceria grande demais para este livro; mas, brevemente, dir-te-ei algumas poucas palavras da Glória celestial.

3. Amável filho, no Paraíso Deus Se demonstra em Sua Unidade, Sua Trindade e Sua Essência à lembrança, ao entendimento e ao desejo da alma. Essa demonstração é tão grande que a lembrança, o entendimento e o desejo têm todo seu cumprimento, e não haveria tal cumprimento sem a demonstração acima dita, mesmo que houvesse todo o mundo ou mil milhões de mundos.

4. Filho, se tu entrares no Paraíso, teus olhos corporais verão o corpo de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, teus olhos espirituais verão Sua alma, e teu entendimento verá uma natureza semelhante à tua com a Deidade.

5. Filho, verás Nossa Senhora Santa Maria diante de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, e verás uma procissão e uma fileira de todos os anjos, arcanjos, mártires, profetas, virgens, confessores e abades; e ouvirás que todos, com cantos de muito grande doçura, louvarão e bendirão Nosso Senhor Deus, por todos os tempos, como Deus estará no céu e durará em Sua Glória, perduravelmente sem fim.

6. Como a memória lembrar&aac