O Historiador e a Tradução

A novela de cavalaria Curial e Guelfa (séc. XV)

 

Resumo: Richard Fletcher (1944-2005) estava certo: nada concentra tanto a mente de um historiador em um texto quanto a tarefa de traduzi-lo. A sublime compreensão histórica (erhabenen historischen Verständnis) abarca o tênue instante em que nos deparamos com as palavras no tempo, ponderamos sua inserção cronológica sociocultural e, cuidadosamente, as conduzimos para o presente e as recolocamos fora de sua época, tentando, da melhor maneira possível, preservar seus significados temporais subjacentes. Mas como realizar esse exercício da melhor maneira? O objetivo desta comunicação é apresentar nossa proposta de tradução da novela de cavalaria quatrocentista (e Humanista) Curial e Guelfa e discutir algumas de nossas encruzilhadas, nossas opções, nossas tentativas de trazer à mente do leitor a cultura do passado e a manter viva nela, e ambientar sua reconstrução histórica no melhor espaço imaginário possível, isto é, aquele que respeita os paradoxos do tempo e as multifacetadas contradições inerentes à vida de seus personagens sociais.

Palavras-chave: Tradução – Curial e Guelfa – Novela de Cavalaria – Literatura – Humanismo.

Abstract: Richard Fletcher (1944-2005) was right: nothing concentrates as much the historian’s mind than the task of translating a text. The sublime historical understanding (erhabenen historischen Verständnis) covers the tenuous moment that we face the words in time, pondering its chronological and socio-cultural insertion, and carefully bring them to the present and reposition them out of their time, trying as best as possible, to preserve their underlying temporal meanings. But how to exercise this in the best way? The purpose of this communication is to present our proposal of translation of the humanist novel of chivalry from the fifteenth century Curial e Güelfa and discuss some of our crossroads, choices, and attempts to bring to the reader’s mind the culture of the past and keep it alive in his thoughts, and acclimatize his historical reconstruction in the best imaginary space as possible, i.e., the one that respects the paradoxes of time and the multifaceted contradictions inherent to the life of their social characters.

Keywords: Translation – Curial e Güelfa – Chivalry Novel – Literature – Humanism.

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Les diables fay brocar los aymadors per amor de lur donas (Os diabos fazem os amantes esporearem [seus cavalos] por amor de suas damas). Detalhe de uma iluminura catalã do século XIV (Lo Breviari d’Amor). Repare na incitação dos diabos, que, com trombetas, induzem os cavaleiros a ir ao encontro das damas na torre do castelo.

I. A opção teórico-metodológica

Em termos gerais, traduzir significa transpor determinado conteúdo de uma língua para outra, isto é, dizer a mesma coisa em outra cultura. O problema é que, muitas vezes, surgem inúmeros contratempos nessa operação mentallinguística, especialmente quando se traduz um texto longínquo no tempo. O medievalista Umberto Eco (1932-2016) definiu muito bem esse problema: em uma tradução, dizer a mesma coisa, na verdade, é dizer quase a mesma coisa.1

Por sua vez, o teólogo e filósofo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834) parece ter proporcionado a linha divisória teórico-metodológica padrão a ser escolhida pelo tradutor: ou nós 1) deixamos o escritor em paz e levamos o leitor ao seu encontro, ou, pelo contrário, 2) deixamos o leitor em paz e levamos ao seu encontro o escritor. Essa parece ser a mesma decisão que o historiador tem de tomar quando se defronta com os documentos de uma época para construir sua interpretação: ou “sai de si” e se transporta àquele tempo escolhido, diminuindo sua perspectiva e aumentando sua compreensão, ou “traz o tempo para si”, aumentando a perspectiva, porém diminuindo sua capacidade compreensiva.

Como em minhas opções historiográficas – e agora filosóficas – sempre considerei o aprofundamento da capacidade compreensiva o verdadeiro exercício do historiador, nas traduções de textos medievais que realizei eu preferi a primeira opção de Schleiermacher: deixar o escritor em paz e levar o leitor ao seu encontro, ou, para me expressar em termos historiográficos (e um tanto melancolicamente), deixar os mortos em paz e ir pessoalmente ao cemitério. Isso porque, no fundo, considero que todo historiador é um necrófilo par excellence, como já afirmei em outra oportunidade e reitero agora.2

Essa foi a mesma opção metodológica que escolhi para traduzir a novela de cavalaria quatrocentista Curial e Guelfa, a convite da Universitat d’Alacant (no projeto internacional de tradução IVITRA)3: levar o leitor ao encontro do escritor (anônimo) da novela e, hermeneuticamente, compreender a palavra alheia, por mais estranha que ela seja ao leitor, já que este vive no século XXI e está imerso na cultura do âmbito lusófono contemporâneo, enquanto seu autor viveu no século XV e estava inserido no mundo cavaleiresco ibérico-catalão, banhado pelo Humanismo proveniente das terras italianas, aspecto da novela muito bem estudado por Julia Butiñá Jiménez (1941-).4

Ademais, não é precisamente essa incômoda estranheza o sentimento costumeiro do verdadeiro historiador? Em comum, ambas as culturas têm suas raízes na tradição românica, pois são filhas do latim. Além disso, por sorte, a língua portuguesa tem muitas afinidades expressivas com o catalão, particularmente o português do mesmo período, o que, sem dúvida, permitiu manter na tradução uma linguagem muito próxima do original. Por esse motivo, e pelas mesmas alusões à mitologia grega, sempre que possível eu relacionei nas notas explicativas ao fim da novela as partes de Os Lusíadas (1556)5 de Camões (c. 1524-1580) que tinham pontos em comum com Curial e Guelfa.

De qualquer modo, quero aqui destacar três encruzilhadas nas quais me encontrei durante a tradução, quando tive de tomar decisões que afetaram o resultado: os sentimentos dos personagens, suas expressões proverbiais (algumas tipicamente medievais) e as citações mitológicas recorrentes ao longo da novela.

II. Os sentimentos genuínos

Uma das coisas que mais salta aos olhos quando se traduz uma obra como Curial e Guelfa, escrita no alvorecer da Modernidade – para utilizar a bela expressão de um livro de História de Portugal coordenado por Joaquim Romero Magalhães (1942-2018)6 –, é a forma com que os personagens manifestam seus sentimentos: de um modo intenso e profundo. Tem-se a nítida impressão de que nós ficamos mais insensíveis, embrutecidos tanto pela sociedade de massa surgida no século XIX quanto pelas tradições interpretativas histórico-materialistas que atualmente ainda dominam a compreensão do passado.

Ao ler a novela é impossível não deixar de se lembrar do primeiro capítulo do clássico de Johan Huizinga (1872-1945), O Outono da Idade Média (“A veemência da vida”)7: tudo que as pessoas viviam ainda era revestido de um teor imediato e absoluto que, no mundo atual, só se observa nos arroubos infantis de felicidade e de dor. Esse foi o primeiro momento legítimo de hesitação em minha tradução: deveria eu manter a delicadeza (quase erótica aos olhos atuais) das manifestações gentis entre os homens de então?

Meu amigo e revisor desse trabalho, Prof. Armando Alexandre dos Santos8, chamou-me a atenção para essa estranheza logo no início da novela, quando o protagonista, Curial, ainda bem jovem, se apresenta à casa do marquês de Montferrat que, embevecido, lhe pergunta:

“– De qui est?”.

Lo minyó respòs: “– Senyor, vostre són”.

Lo marquès se aturà e mirà’l, e, bé que fos en tendra edat constituït, no menys li viu los ulls molt resplandents e tanta bellesa en la sua cara que natura més no podia donar; per què respòs tantost: “– E a mi plau que meu sies”.

E, regirant-se als seus, dix: “– Per ma fe, anch no viu tan gentil criatura ne que tant me plagués”.

E replicà: “– E tu serás meu puys que a mi t’est donat, e ho series encara que a altre donat te fosses” (I.1).

 

“– De quem és?”.

O menino respondeu: “– Senhor, eu sou vosso”.

O marquês se deteve, olhou-o e, embora fosse de tenra idade, não deixou de perceber os olhos muito resplandecentes e tamanha beleza em seu rosto que a Natureza mais não podia lhe dar, e rapidamente respondeu: “– A mim me agrada que meu sejas”.

E, voltando-se aos seus, disse: “– Pela minha fé, nunca vi tão gentil criatura que me agradasse tanto!”.

E acrescentou: “– Tu serás meu, pois a mim te entregaste, mas serias meu mesmo que tivesses te entregado a outro”.

O que nessa passagem pode sugerir ao leitor moderno um diálogo claramente homoerótico nada mais é do que a expressão tardia, pois quatrocentista, do “amor entre homens” da relação feudo-vassálica medieval, a “fraternidade”, a “amizade”, como bem expressou Georges Duby (1919-1996) em inúmeras oportunidades.9

O que o tradutor deve fazer nesses casos de estranhamento temporal de um texto de época? Respondo: preservar o mais fielmente possível a comunicação entre as pessoas que o passado nos legou. Porque, caso mantenhamos as formas literárias “puras” intactas em seu sabor, a leitura de uma novela como Curial e Guelfa pode resgatar ao historiador as expressões lingüísticas do passado que o tradutor transmite com seu trabalho.

Em outras palavras, ao “ressuscitarmos” os mortos com nossa tradução, os “ouvimos” falar ao pé do ouvido, e saboreamos o tecido mais profundo das consciências passadas: sua linguagem.

III. As expressões proverbiais

Já há alguns anos eu tive o prazer de participar de um projeto de pesquisa intitulado “A paremiologia medieval: O Livro dos Mil Provérbios (1302) de Ramon Llull (1232-1316)”10 com o amigo e colega que eu tenho a honra de compartilhar esta mesa-redonda, o Prof. Dr. Álvaro Alfredo Bragança (UFRJ), juntamente com a querida Profa. Dra. Adriana Zierer (UEMA). O resultado daquela investigação foi a publicação da obra proverbial do filósofo catalão.11

Naquela ocasião, nós percebemos a importância da função viva dos provérbios medievais, sua concisão, suas propriedades semânticas, sua capacidade de, sinteticamente, expressar a tradição cultural da época.

Em Curial e Guelfa há várias manifestações proverbiais, algumas com seu correlato em nossa língua. Por exemplo, quando o alter ego do autor da novela, o personagem Melchior de Pandó, aconselha Curial a se despedir e partir da companhia do imperador do Sacro-Império (cap. I.26), pois “...hostes e peix a três dies puden”, isto é, “...depois de três dias, os hóspedes e os peixes fedem”, provérbio exatamente igual, curiosamente tanto no castelhano quanto no português, o que sugere sua completa difusão pela Península Ibérica.

Nesse caso, não houve problema em manter o dito na tradução, o que já não ocorreu quando determinado provérbio presente no texto não chegou até a cultura do destinatário da tradução, a portuguesa. Desse segundo caso é o dito “procurar nó em junco” que na novela está ao lado de outro provérbio:

La fama de les paraules obrí les ales e, ab yvarçós cors, [f.108] anà a l’hostal del duch de Bretanya, lo qual, ab lo dit Sanglier e ab altres cavallers, a manera de aquelles qui cerquen pèl en l’ou e nuu en lo jonch, cercaven via com porien desfavorir Curial, en manera que d’ells no.s fes alguna menció;

A fama daquelas palavras ganhou asas e, como em um curso precipitado [f.108], chegou à casa do duque da Bretanha, o qual, com o dito Javali e outros cavaleiros, como quem procura pêlos em ovos e nó em junco, tentavam encontrar uma maneira de desfavorecer a Curial sem que deles se fizesse menção.

A expressão “procurar nó em junco” é latina – “Nodum in scirpo quaeris”, Terêncio (c. 195-159 a.C.), Andria (941), e Plauto (c. 254-184 a.C.), Menaechmi (247) – e significa o mesmo que “procurar pelo em ovo”, ou “colocar chifre em cabeça de cavalo”, ou seja, procurar problemas onde eles não existem. A interessante repetição da idéia em dois provérbios juntos na frase enfatiza, de modo gracioso, a maldade dos cavaleiros em detratar nosso protagonista.

IV. A mitologia grega

Uma das características mais interessantes de Curial e Guelfa é a profusão de deuses mitológicos e personagens da tradição literária greco-romana presentes ao longo da narrativa, em um sincretismo total com o Cristianismo por vezes bastante inusitado. Isso obriga necessariamente o leitor a conhecer a cultura antiga, para assim conseguir relacionar seu conteúdo com a maneira com que o autor a inseriu no texto, e assim compreender melhor a densidade dramática da obra.

Trata-se de um traço da novela que me obrigou a manter na tradução sua gradativa erudição textual, pois, à medida que deuses e personagens literários participavam cada vez mais na narrativa e interferiam no destino dos protagonistas, Curial e Guelfa crescia em sofisticação literária. Manter essa tensão criativa fez-me procurar sempre as palavras mais elegantes de nossa língua.

Um bom exemplo dessa sofisticação ocorre nos Proêmios de cada Livro da obra. Vejamos o do Livro II:

Aquest segon libre, per la major part, és de cavalleria, usada en diverses maneres; e és atribuïda a Mars, lo qual, segons la opinió antiga e poètics ficcions, fonch déu de batalles. Aquest Mars és planeta calt, e és-li atribuïda una virtut: que tota cosa a ell noÿble foragita. Mars, de sa pròpria natura, importa guerra, batalles, escàndels, falsedats, furts, secrets; importa granesa e valor d’ànimo, e fa emprendre coses terribles de batalles; dóna franquesa e virtut a sostenir les nafres; dóna tempre, e força, e leugeria de cors, e liberalidat, e cavalleria; importa muller. Fa lo seu cors en dos anys, e està en cascun signe sexanta jorns. La sua casa és en lo signe de Leó; dejús d’ell és lo signe de Escurpí e de Àries, e regna en lo signe de Scurpí. És de sa natura calt e sech, e és de color roja e resplandent, e ha un poch de negror. Tempera Jovis e Venus la sua malícia; los seus effectes són calts, e de sa natura produeix luxúria, encara que lo signe de Leó a açò.l conforta; e, segons Macrobi, la sua pròpria color és de foch, e la sua natura tota és enemigable e superba.

Em sua maior parte, este Livro Segundo pertence à cavalaria, que é praticada de diversas formas: ela é atribuída a Marte, o qual, segundo antiga opinião e poéticas ficções, foi o deus das batalhas. Esse Marte é um planeta quente, e lhe é atribuída uma virtude: a de expulsar tudo o que lhe incomoda. Marte, por sua própria natureza, causa as guerras, as batalhas, os escândalos, as falsidades, os furtos, as intrigas; importam-lhe a grandeza, o valor de ânimo, o empreender coisas terríveis nas batalhas; dá generosidade e virtude para suportar as feridas; dá temperança, força e agilidade corporal, além de liberalidade, mas, sobretudo, cavalaria; chama a atenção das mulheres. Faz sua rotação em dois anos e permanece sessenta dias em cada signo. Sua casa é o signo de Leão, sob ele estão os signos de Escorpião e Áries, e reina no signo de Escorpião. Sua natureza é quente e seca, sua cor vermelha e resplandecente, além de ter um pouco das trevas. Júpiter e Vênus temperam sua malícia, seus efeitos são quentes, a luxúria é produzida de sua natureza, embora o signo de Leão a anime e, de acordo com Macróbio, sua cor própria é a do fogo e sua natureza é completamente inamistosa e soberba.

Devido ao espaço, tratarei apenas de um pequeno, porém significativo, exemplo de inserção literária antiga. Há uma passagem em que Láquesis, uma das mulheres que conduz todo o enredo do elenco masculino – e não é por acaso que seu nome evoca uma das Parcas, aquela que estabelecia a vida que cabia a cada um – desfalece após beijar Curial e dele se despedir. Sua mãe, desesperada, mas também desconfiada de que sua filha estivesse simplesmente apaixonada, inteligentemente gritou: “– Láquesis, olha Curial!”.

Per què Làquesis, al nom de Curial, no menys que Píramus al nom de Tisbes, obrí los hulls e, obrint los braços, alargà lo coll; e sa mare besà-la moltes vegades. Mas, com Làquesis se trobàs enganada e no sabés cobrir la sua passió, dix: “–¿On és?”.

Ao ouvir o nome de Curial, Láquesis, não menos que Píramo ao ouvir o nome de Tisbe, abriu os olhos e, estendendo os braços, levantou a cabeça; sua mãe beijou-a várias vezes. Mas como Láquesis estava iludida e não conseguia disfarçar a sua paixão, disse: “– Onde ele está?”.

O autor de Curial e Guelfa relaciona o despertar de Láquesis ao ouvir o nome de seu amado à paixão de Píramo por Tisbe. Estes são dois lendários amantes da mitologia greco-romana, citados pela primeira vez por Higino (64-17 a.C.) em suas Fábulas, e, posteriormente, nas Metamorfoses de Ovídio (43 a.C-17 d.C.). Conforme nos ensina Ernst Robert Curtius (1886-1956)12, Higino foi muito citado na Idade Média pelas suas fábulas a respeito das constelações, e Ovídio, seu amigo, tornou-se uma verdadeira enciclopédia da mitologia clássica para os eruditos medievais.

Na lenda, oriunda da Babilônia, os belíssimos Píramo e Tisbe viviam sob o reinado de Semíramis, e foram proibidos de se casarem por suas famílias (curioso notar que é provável que Shakespeare [1564-1616] tenha se inspirado nessa lenda recontada por Ovídio para compor sua tragédia Romeu e Julieta). Por isso, a forma com que Láquesis abre os olhos não é menos delicadamente apaixonada que o olhar de Píramo para com Tisbe! Sem uma nota explicativa ao final da novela, dificilmente o leitor atual compreenderia a expressão de Láquesis à procura de seu amado.

Conclusão

Além de negociar, mas o mínimo possível, a busca pela fidelidade à intenção do texto e confiar em meu ouvido (de ex-músico profissional) para manter a elegância e o sentido de ritmo da ordem das palavras na narrativa – advertências precisas de Umberto Eco para o trabalho de tradução – em minha proposta de transpor a novela de cavalaria Curial e Guelfa para o português procurei preservar o refinado e opulento mundo cortesão quatrocentista, mundo-limite portador da bela, porém efêmera, estética moderna que transcorre ao longo de seus três livros.

Ler Curial e Guelfa atenua a terrível sombra que a historiografia projetou sobre esse período, desde a notável Barbara Tuchman (1912-1989) e seu Espelho Distante13, até Henri Pirenne (1862-1935)14 e Luis Suárez Fernández (1924- )15, mas principalmente pela opressiva tradição marxista, que só viu crise após crise (como, por exemplo, nas obras de A. H. de Oliveira Marques [1933-2007]16 e Guy Bois [1934-2019]17).

A imagem tenebrosa da vida dos séculos XIV-XV exposta por essa tradição historiográfica não poderia ser mais contrastante com a leveza e a delicadeza da novela. Ao ler Curial, percebe-se que era a vida uma obra de arte, não o Estado, como pensava Jacob Burckhardt (1818-1897).18

E embora a novela seja muito mais fruto de suas influências de além-Pireneus (francesa, italiana e occitana) do que propriamente ibérica – não nos esqueçamos que a construção da Espanha foi um processo pluralíssimo! – ela é hispânica, uma de suas mais originais e diversificadas vertentes, mas hispânica.

Não é à toa que esse período é considerado o Grande Século da História da Espanha, o centro do tempo histórico de sua cultura, a essência do resplendor de sua amplitude cósmica, como frisou o notável historiador José Enrique Ruiz-Domènec (1948-).19

Curial e Guelfa expressa muito bem esse extraordinário sentido poético da vida percebido pelos homens (e mulheres) de então, naquele cadinho tão cosmopolita e europeu no sentido mais generoso da palavra como o é a Catalunha. Ficarei imensamente feliz se em minha tradução eu tiver conseguido manter o devaneio estético que senti ao ler essa que é, nas palavras de Antoni Ferrando i Francès (1947-), uma joia da literatura europeia tardo-medieval, particularmente, da narrativa catalã.

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Bibliografia citada

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TUCHMANN, Barbara. A Prática da História. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1991.

Notas

  • 1. ECO, Umberto. Quase a mesma coisa. Experiências de tradução. São Paulo: Editora Record, 2007.
  • 2. SCHLEIERMACHER, Friedrich. Sobre los diferentes métodos de traducir (trad. Valentín García Yebra). Editorial Gredos: Madrid, 2000.
  • 3. Tradução que contou com o luxuoso auxílio das correções, comentários e sugestões dos professores Antoni Ferrando i Francès (Universitat de València) – editor do texto quatrocentista – Vicent Martines Peres (Universitat d’Alacant), diretor do Projeto IVITRA, Julia Butiñá (UNED) e Maria Ángeles Fuster Ortuño (Universitat d’Alacant), estas últimas tradutoras de Curial e Guelfa para o espanhol.
  • 4. BUTIÑÁ JIMÉNEZ, Julia. Tras los orígenes del Humanismo: El «Curial e Güelfa». Madrid: UNED, 2000.
  • 5. LUÍS DE CAMÕES. Os Lusíadas (leitura, prefácio e notas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão). Instituto Camões, 2000.
  • 6. MAGALHÃES, Joaquim Romero (coord.). História de Portugal. Terceiro Volume: No alvorecer da Modernidade (1480-1620). Lisboa: Editorial Estampa, s/d.
  • 7. HUIZINGA, Johan. O Outono da Idade Média. Estudos sobre as formas de vida e de pensamento dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos. São Paulo: CosacNaif, 2010.
  • 8. Membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).
  • 9. Veja, por exemplo, DUBY, Georges. «Los feudales». In: Obras selectas de Georges Duby (presentación y compilación de Beatriz Rojas). México: Fondo de Cultura Económica, 1999, p. 121.
  • 10. Registrado na UFRJ sob o número 7577.
  • 11. RAIMUNDO LÚLIO. O Livro dos Mil Provérbios. São Paulo: Editora Escala, Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal - 68, 2007, 146 p. (ISBN 85-7556-871-X), e também BRAGANÇA JÚNIOR, Álvaro, PARDO PASTOR, Jordi, e COSTA, Ricardo da. “O Livro dos Mil Provérbios (1302) de Ramon Llull: texto e contexto”, introdução daquela publicação.
  • 12. CURTIUS, Ernest Robert. Literatura Européia e Idade Média Latina. São Paulo: HUCITEC, 1996.
  • 13. TUCHMANN, Barbara. A Prática da História. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1991.
  • 14. PIRENNE, Henri. História Econômica e Social da Idade Média. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1968.
  • 15. SUÁREZ FERNÁNDEZ, Luis. Historia Universal VI. De la crisis del siglo XIV a la Reforma. Pamplona: Ediciones Universidad de Navarra, 1980.
  • 16. MARQUES, A. H. de Oliveira. Portugal na Crise dos Séculos XIV e XV. Lisboa: Editorial Presença, 1987.
  • 17. BOIS, Guy. La Gran Depresión Medieval: siglos XIV-XV. El precedente de una crisis sistémica. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 2001.
  • 18. BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália. Um ensaio. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
  • 19. RUIZ-DOMÉNEC, José Enrique. España, una nueva historia. Madrid: Editorial Gredos, 2009.

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