Guerra nas estrelas: a metáfora artística da sociedade medieval no macrocosmo astrológico do Homem Zodiacal

Ricardo da COSTA

Conferência proferida no dia 16 de outubro de 2015 no
VI Encontro Internacional de História Antiga e Medieval do Maranhão.
Conflitos sociais, Guerras e Relações de Gênero: Representações e Violência
,
na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

Resumo: A proposta deste trabalho é analisar a importância da Astrologia/Astronomia na Idade Média, especialmente a metáfora artística do Homem Zodiacal como um microcosmo da revolução do Universo.

Abstract: The purpose of this paper is to analyze the importance of Astrology/Astronomy in the Middle Ages, especially the artistic metaphor of the Zodiacal Man as a microcosm of the universe revolution.

Palavras-chave: Idade Média – Astrologia Astronomia – Homem Zodiacal – Arte Medieval.

Keywords: Middle Ages – Astrology Astronomy – Zodiacal Man – Medieval Art.

***

I. Uma Estrela no Céu

E, tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos a sua estrela no seu surgir e viemos homenageá-lo”.

Mt 2, 1-2.1

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Os Três Homens Sábios (Baltasar, Melchior e Gaspar), detalhe de Maria e a criança, cercados por anjos, mosaico de uma oficina italiano-bizantina concluído pelo Mestre de Santo Apolinário em 526. Basílica de Santo Apolinário Novo (Ravena, Emília Romanha, Itália). Acima, à direita do observador, a representação da Estrela de Belém, estrela-guia que norteou a viagem dos três reis magos, magnificamente postos nesse conhecido mosaico da Alta Idade Média.2

Sonhos – o de José, que recebeu a manifestação do Anjo do Senhor (Mt 1, 20).3 Luzes no Céu – a Estrela de Belém, guia dos três reis magos (imagem 1). De certo modo, o Cristianismo “principiou” com o mundo onírico e a influência dos astros.4 No caso da adoração dos magos, ela tornou-se um “clássico” na arte do período, inclusive ultrapassando-o.

Por exemplo, Andrea Mantegna (c. 1431-1506), no coração do Renascimento italiano, fez uma notável representação artística da cena (imagem 2), dessa vez com quatro anjos gentilmente ao redor da estrela, em atitude de oração, precisamente acima de Maria e do menino Jesus.5

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Detalhe central do Tríptico dos Uffizi (c. 1460), de Andrea Mantegna (c. 1431-1506). Tríptico, têmpera sobre madeira, 76 x 76,5 cm (parte central), Galleria degli Uffizi, Florença, Itália. Sob um majestoso Céu, a rica procissão atravessa um sinuoso caminho rochoso até chegar a uma gruta onde a Virgem, cercada por uma efusiva mandorla de querubins, recebe os três reis magos (no centro da imagem, em atitude de prostração). À direita, com um manto amarelo e um cajado, José contempla Maria. 

A relação entre a vida na Terra e o movimento das estrelas desde cedo ocupou as mentes dos escritores, dos filósofos. Um bom exemplo da importância do tema na formação do imaginário cultural filosófico e literário do Ocidente6, está muito bem sintetizado em um trecho dos Diálogos em Túsculo, de Cícero (106-43 a. C.):

E o que dizer daquela outra capacidade humana de investigar os fenómenos ocultos a que se dá o nome de capacidade inventiva e imaginativa? (...) Uma forma de deleitar os nossos ouvidos surgiu da descoberta da variedade dos sons e da forma de os combinar; também o olhar se deliciou com a contemplação dos astros, quer dos que ocupam uma posição fixa, quer dos que são errantes. O homem que, com a sua alma, observou as revoluções e os demais movimentos destes astros, descobriu que a alma era idêntica à daquele ser que fabricou no céu os corpos celestes.

De facto, quando Arquimedes colocou, numa única esfera, os movimentos da Lua, do Sol e dos cinco planetas, fez o mesmo que fizera o criador do mundo no Timeu, ou seja, o deus de Platão: harmonizar numa única revolução os movimentos entre si tão distintos pela lentidão ou pela velocidade. Se, neste nosso universo, tal harmonia não poderia ser conseguida senão graças a um deus, também Arquimedes não conseguiria imitar esses movimentos se nele não existisse uma inteligência divina.

CÍCERO, Diálogos em Túsculo, Livro I, XXV, 62-63.7

Cícero foi um dos grandes transmissores da cultura clássica à Idade Média.8 Outro notável autor, Boécio (c. 480-524), denominado o último romano, talvez ainda mais influente junto aos leitores medievais, expressou a necessidade de os justos terem consolo e se voltarem para a beleza celeste:

Contemplai a extensão do céu, a sua estabilidade e célere movimento, e de uma vez por todas deixai de admirar coisas vis. E o céu não é mais admirável, em boa verdade, do que a ordem com que é governado? Como é arrebatadora a magnificência da sua beleza, como é veloz e mais fugaz do que a mutabilidade das flores primaveris!

BOÉCIO. Consolação da Filosofia, Livro III, Prosa 8, 8.9

Com o fim do Império Romano do Ocidente e o desenvolvimento de uma influente literatura de cunho alegórico – por exemplo, o Comentário ao Sonho de Cipião de Macróbio (c. 385-430)10 e, especialmente, a redação da obra As Núpcias da Filologia e Mercúrio, de Marciano Capela (séc. V), a Astronomia ganhou, em definitivo, o status de uma das sete Artes Liberais, a última, a libertar, definitivamente, o espírito da matéria.11

II. Estrelas no Céu: Astrologia e Astronomia

Os clérigos medievais, não obstante, tentaram fazer uma distinção entre a Astronomia e a Astrologia. O caso mais notável é o de Isidoro de Sevilha (c. 556-636), como se pode perceber nessa passagem de suas Etimologias:

37. Sed quolibet modo superstitionis haec ab hominibus nuncupentur, sunt tamen sidera quae Deus in mundi principio condidit, ac certo motu distinguere tempora ordinavit.

38. Horum igitur signorum observationes, vel geneses, vel cetera superstitiosa, quae se ad cognitionem siderum coniungunt, id est ad notitiam fatorum, et fidei nostraesine dubitatione contraria sunt, sic ignorari debent a Christianis, ut nec scripta esse videantur.
 

37. Sejam quais forem as superstições que sobre elas [as constelações] forjaram os homens, o fato é que são corpos celestes que Deus criou no princípio do mundo e os organizou para que, levando-se em conta os ciclos estabelecidos, pudéssemos determinar os tempos.

38. A observação destes signos, a confecção de horóscopos e outras superstições vinculadas ao conhecimento dos astros, isto é, a previsão dos fatos, são, sem dúvida, contrários à nossa fé, de modo que devem ser ignoradas pelos cristãos e nem devem ser escritas.

ISIDORO DE SEVILHA, Etimologias, Livro III (“Sobre a Matemática”), 71, 37-38.12

Contudo, essas tentativas foram infrutíferas, pois o fato é que a gradativa difusão da Educação na Idade Média fez com que, de modo corrente, ambas as esferas de conhecimento dos astros fossem confundidas (só seriam definitivamente separadas no século XVIII).13 Na verdade, a própria Igreja estava dividida a respeito – a crença na influência dos astros cedo penetrou na religião cristã. Somado a isso, com as traduções dos textos árabes no século XIII, a Astrologia ganhou um novo e definitivo impulso.14 

De fato, no mundo civil (que os medievais denominavam século), a Astronomia estava cada vez mais imbrincada com a Astrologia, com os signos zodiacais. Por exemplo, os Anais do Império Carolíngio registram várias observações de passagens de cometas (“Um cometa apareceu no signo do Auriga”, em 817; “Um cometa apareceu no signo de Libra, dia 11 de abril, e foi visto durante três noites”, em 837; “Neste mesmo ano [de 839] um cometa apareceu no signo de Áries e foram observados no céu outros prodígios”; “Um cometa surgiu no dia 25 de dezembro sob o signo de Aquário”)15 Ainda mais surpreendente é o espaço dado em um documento governamental a uma longa análise astrológica/astronômica – devido, especialmente, aos eclipses – que, pela relação direta com o tema, reproduzo integralmente:

No dia 02 de setembro do ano anterior [806], houve um eclipse da Lua. Encontrava-se o Sol no décimo-sexto grau de Virgem, e a Lua no décimo sexto grau de Peixes. Neste ano, em 31 de janeiro, estava a Lua no décimo sétimo, quando se viu Júpiter, como se estivesse a passar através dela, e no dia 11 de fevereiro, ao meio-dia, se produziu um eclipse do Sol, com o Sol e a uma no vigésimo-quinto de Aquário.

Além disso, no dia 26 de fevereiro houve outro eclipse da Lua, e apareceram naquela noite portentosos resplendores de admirável magnitude. O Sol estava no décimo-primeiro grau de Peixes e a Lua no décimo primeiro de Virgem. Mercúrio também foi visto no dia 17 de março no Sol como se se tratasse de uma pequena mancha negra situada um pouco acima do meio, na direção do centro, fenômeno que pudemos contemplar durante oito dias. No entanto, no momento em que entrou pela primeira vez, ou que saiu, não pudemos presenciar, pois as nuvens impediam.

Do mesmo modo, no dia 22 de agosto ocorreu um eclipse da Lua na terceira hora da noite, quando o Sol estava situado no quinto grau de Virgem, e a Lua no quinto de Peixes. Assim, desde setembro do ano anterior até setembro do presente, houve três eclipses da Lua e um do Sol.16

Uma representação imagética que condensa a íntima relação entre a vida no mundo e o mundo (Cosmos) que os medievais acreditavam é uma iluminura (folio 415) dos Annales Zwifaltenses minores (séc. XIII) (imagem 3, abaixo).

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Representação cosmológica dos ciclos do Ano. Württembergische Landesbibliothek. Internet.

No círculo central, como um Cristo (só que, curiosamente, peludo), o Ano (annus regens temporum), com a Lua na mão direita e o Sol na esquerda (e abaixo deles, respectivamente, as representações do Dia e da Noite). No segundo círculo, os doze signos do Zodíaco; no terceiro, o tema do Trabalho e os Meses (com as representações do trabalho mais típico do mês correspondente). Curiosamente, uma cena de caça (com um cão e uma lebre) é representada no mês de janeiro (acima do signo de Capricórnio, à esquerda do observador), algo incomum no tema, já que é inverno em janeiro no continente europeu.

Na borda do círculo maior, cabeças sopram: são os ventos. Nos quatro cantos, dentro da moldura delicadamente adornada com flores, as representações das estações do ano (da esquerda para a direita, de cima para baixo, o Verão, a Primavera, o Outono e o Inverno [Hiemps - mau tempo], este último a aquecer os pés próximos a uma fogueira). Na parte mais externa da iluminura, nos quatro cantos do folio, fora da moldura de flores, quatro representações: acima, da esquerda para a direita, a Aurora (a alvorada), a Pruina (geada); abaixo, Meridies (meio-dia) e Vespera (noite). São os símbolos imagéticos dos quatro pontos cardeais.

Assim, o drama da existência humana está inserido no ano, sujeito ao Céu, aos astros, às quatro estações, aos doze ventos. Ao tempo de Deus. Tudo está imbricado, tudo está relacionado, todos estão na esfera – os filósofos diziam na Mônada, que é Deus, como no Livro dos vinte e quatro filósofos (“Deus é uma mônada que engendra uma mônada, e reflete em Si um único ardor” (Deus est monas monadem gignens, in se unum reflectens ardorem).17 Mais: o universo está em em tudo, em todos, em cada um. Em cada corpo humano há o universo em si: somos um microcosmo dele pois, no corpo, encontra-se a síntese da vida, a alma (a psiquê, Ψυχή), além dos quatro elementos (ar, fogo, terra e água). Era como pensavam.

III. O homem zodiacal, microcosmos do Universo

III.1. O homem zodiacal hildegardiano

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O homem e sua relação com o Universo. Iluminura do Liber divinorum operum (c. 1163-1173). Codex Latinus 1942, folio 28v, Biblioteca Governativa di Lucca. É interessante observar o realismo do iluminista, que representou a monja no momento de sua visão (abaixo, à esquerda), na típica cena de um copista medieval, a redigir seu texto (ainda que tivesse aprendido a ler os Salmos, Hildegarda não sabia escrever).

A representação do homem-microcosmo que representa a síntese medieval mais paradigmática do tema é uma das visões da monja Hildegarda de Bingen (1098-1179).18 Encontra-se no Livro das Obras Divinas (Liber divinorum operum, c. 1163-1173). Em suas segunda e terceira visões, maravilhosos delírios a expressar uma das concepções existenciais mais ricas de seu tempo, o corpo humano está no centro da estrutura do Universo. É a intercessão dos mundos. A iluminura que representa sua terceira visão (imagem 4) apresenta o homem rodeado pelos ventos que circundam o firmamento: eles afetam e alteram os humores presentes no corpo (sangüíneo, fleumático, colérico e melancólico).19

Vi que tanto o vento oriental quanto o vento austral, com seus colaterais, moviam o Firmamento com a força de seus sopros, e faziam-no girar sobre a Terra, do Oriente ao Ocidente. E ali, o vento ocidental, o vento setentrional e seus colaterais, sustentando-o e impulsionando-o com seus sopros, enviavam-no à Terra, do Ocidente ao Oriente (...)

Assim, esse ar toca o homem (...) Pois os humores, como o leopardo, às vezes se elevam ferozmente contra o homem ainda que, em contrapartida, logo se tornem mais suaves e, como o caranguejo, ao avançarem e retrocederem, frequentemente indicam uma mudança (...) Assim, os humores são alterados no homem, e muitas vezes transitam até o fígado, onde se prova sua ciência, avançam de modo regular do cérebro às forças da alma e tocam a umidade cerebral, de modo que o fígado se torna gorduroso, forte e são. Isso porque na parte direita do homem está o fígado e um grande calor do corpo. Por isso, a direita é veloz para elevar-se e trabalhar, mas na esquerda estão o coração e o pulmão que o reforçam para as tarefas pesadas e obtém o calor a partir do fígado como de uma forja.

No entanto, as veias do fígado, tocadas por esses humores despertados, sacodem as veiazinhas do ouvido do homem e alteram sua audição, pois frequentemente a saúde ou a doença são introduzidas no homem pelos ouvidos, isto é, quando ele é excessivamente sacudido pelas coisas prósperas na alegria ou quando é excessivamente reprimido pelas coisas adversas na tristeza.

HILDEGARDA DE BINGEN. Livro das obras divinas, “Terceira visão da Primeira Parte”, I.20

Com sua visão do corpo humano como um microcosmo onde estão condensados os movimentos do universo, a influente monja beneditina sintetizou a concepção medieval da íntima tensão da existência humana. O supremo conflito era de natureza espiritual.21

III.2. O homem zodiacal dos manuscritos Ashmole 789 e 391 (séc. XV) e o Tratado de Astronomia (1297) de Ramon Llull (1232-1316)

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O Homem Zodiacal de Nicholas de Lynn. The Bodleian Libraries, The University of Oxford, MS Ashmole 789, folio 363r.

Os esforços da Igreja medieval (e de suas universidades) em distinguir a Astronomia da Astrologia foram infrutíferos.22 Os séculos XIV-XV presenciaram uma verdadeira explosão de tratados astrológicos. As considerações de Hildegarda de Bingen a respeito das influências dos ventos nos humores ganharam novas nuances com as relações que os escritores (e especialmente os filósofos) fizeram com os quatro elementos e os signos zodiacais. Por exemplo, Ramon Llull (1232-1316) – ele próprio um filósofo de transição, do mundo medieval para o moderno – escreveu o Tratado de Astronomia em 1297: nele, são feitas relações dos signos do Zodíaco e dos quatro elementos com o corpo humano.23 Ainda que não estivesse interessado diretamente nos aspectos empíricos da matéria (como a previsão astrológica e a feitura de horóscopos), a dimensão cosmológica da Astronomia de Llull ligava sua filosofia ao uso medicinal-terapêutico do estudo dos astros.

Essa “tendência astrologizante” característica do final da Idade Média intensificou ainda mais as já existentes imbricações (filosóficas, literárias e, naturalmente, artísticas) entre o macrocosmo e o microcosmo. Alterou a visão de mundo dos homens de então, e fez com que, dentre outras coisas, se acirrassem ânimos, já que novas interpretações da condição humana no mundo, do estar-no-mundo, fossem oferecidas pelas relações astrológicas e suas reverberações no corpo humano.

O homem zodiacal dos Manuscritos Ashmole 789 e 391 (imagens 5 e 6) são dois belos exemplos dessa nova e tensa rede de reciprocidades cosmológicas.24 Neles, os homens zodiacais são como o próprio Cristo que, discreta e delicadamente, abre Seus braços, como a estar em uma maviosíssima cruz zodiacal. Talvez por esse motivo os signos zodiacais sejam tão luxuosamente iluminados (chama a atenção o signo de Câncer da iluminura do Ashmole 391 [imagem 6]), com suas garras abertas em direção ao pescoço da imagem). Os signos estão impressos no corpo humano, e precisamente na parte em que são mais influentes (os medievais diziam “senhores”):

Quadro 1

SignoParte do corpo dominante
ÁriesCabeça
TouroPescoço
CâncerPeito
LeãoCoração
GêmeosBraços
VirgemVentre
LibraRins
EscorpiãoÓrgão sexual
SagitárioCoxas
CapricórnioJoelhos
AquárioCanelas
PeixesPés

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O Homem Zodiacal do Manuscrito Ashmole 391, parte V, folio 9r, Bodleian Libraries, University of Oxford.

Essa é a ordem básica presente nas representações artísticas de homens zodiacais do final da Idade Média.25 Confrontemos agora essas posições corporais dos signos do Zodíaco com a descrição feita pelo filósofo Ramon Llull em seu Tratado de Astronomia (1297):

Quadro 2

Signo

Elemento

Qualidade

Tempo

Sexo

Mobilidade

Planeta

Corpo

Áries

Fogo

Quente e seco

Dia

Masculino

Movível

Marte

Cabeça

Touro

Terra

Fria e seca

Noite

Feminino

Fixo

Vênus

Pescoço e garganta

Gêmeos

Ar

Quente e úmido

Dia

Masculino

Movível

Mercúrio

Músculos, braços e mãos

Câncer

Água

Fria e úmida

Noite

Feminino

Movível

Lua

Peito e estômago

Leão

Fogo

Quente e seco

Dia

Masculino

Fixo

Sol

Coração, os flancos e as costas

Virgem

Terra

Fria e seca

Noite

Feminino

Ambos

Mercúrio

Ventre, diafragma e intestinos

Libra

Ar

Quente e seco

Dia

Masculino

Móvel

Vênus

Rins, do púbis às coxas

Escorpião

Água

Fria e úmida

Noite

Feminino

Móvel

Saturno

Pênis, testículos e ânus

Sagitário

Fogo

Quente e seco

Dia

Masculino

Ambos

Júpiter

Coxas

Capricórnio

Terra

Fria e seca

Noite

Feminino

Móvel

Saturno

Joelhos

Aquário

Água

Fria e úmida

Dia

Masculino

Fixo

Saturno

Tíbias até as canelas

Peixes

Água

Fria e úmida

Noite

Feminino

Ambos

Júpiter

Pés

Além de estabelecer todas essas relações, o filósofo catalão ainda indica uma determinada região para cada signo, como se estes também influenciassem a geografia do mundo e tensionassem os múltiplos espaços imaginários que confluíam para o corpo.26 Seja como for, para o que nos interessa, é notável a concordância dos estudiosos de então a respeito das partes do corpo correspondentes aos signos do Zodíaco – certamente, o iluminista do manuscrito do Calendário Astronômico, do mesmo modo que os artistas medievais desde o Românico, foi auxiliado por algum astrônomo (ou estudioso).

Esse método – que denominamos estudo relacional (imagem e textos de época coadunados para oferecer um quadro mais amplo do processo artístico que moldou o imaginário ocidental) – é o mesmo proposto por Dora (1885-1965) e Erwin Panofsky (1892-1968)27, por Johan Huizinga (1872-1945)28 e, mais recentemente, por Jean-Claude Schmitt (1946- ).29 Todos se valem igualmente do “método panofskiano” como ponto de partida para o estudo das imagens da Idade Média em seus respectivos procedimentos interpretativos.

Por fim, além de nos valermos de Jean-Claude Schmitt para o caso medieval, as “artes” na Idade Média também receberão seu devido enquadramento conceitual a partir das precisões terminológicas de Hubert Damisch, filósofo especialista em História da Arte e Estética.30 Expressões textuais e imagéticas de uma mesma época auxiliam o investigador na melhor, na mais ampla e generosa compreensão do passado em toda a sua paradoxal amplitude da vida, no mundo e no tempo.

III.3. O homem zodiacal do Manuscrito Ashmole 370 (séc. XV)

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O Homem Zodiacal do Manuscrito Ashmole 370, folio 27v. Oxford, Bodleian Library (séc. XV). A iluminura do homem zodiacal do Ashmole 370 é menos requintada que a do homem zodiacal do Manuscrito Ashmole 391, talvez por esse último ser uma representação de um religioso (repare na tonsura de seu cabelo). De qualquer modo, a influência zodiacal nas partes de seu corpo é a mesma do 391, com a mesma ordem dos signos nas mesmas partes. Chama a atenção o entrelaçamento do signo de Gêmeos em seus braços, como se representasse aquele entrelaçamento total do corpo humano com o Cosmos.

Com a exasperação das representações do corpo humano como uma síntese da rede cosmológica do universo, a metáfora do corpo, enraizada na Idade Média, fixou-se, em definitivo, em seu outono. O Zodíaco passou a ser utilizado como método interpretativo para todas as expressões simbólicas que explicavam as coisas. O mundo passou a ser, cada vez mais, uma representação, um teatro, ambiente cênico em que estavam postos os personagens de uma comédia existencial, a vida. Por exemplo, o teatro clássico descrito por Vitrúvio (c. 80-15 a. C.) como um reflexo das proporções do mundo e uma correspondência espacial com o Zodíaco foi ressignificado pelo filósofo italiano Giulio Camillo (c. 1480-1544), em sua obra A Ideia de Teatro.31

O corpo nu, presente nas iluminuras do final da Idade Média, passou a ser sede de convulsões, de conflitos, de delírios, de disputas zodiacais (cada signo, como vimos, a influenciar uma parte específica do corpo humano), de incessantes combates entre os quatro elementos.32

O clássico sistema cabeça-entranhas-membros (caput-venter-membra) ganhou novos e inusitados contornos. O coração, sede zodiacal do signo de Leão, era o lugar dos delírios, das paixões, ambiente íntimo que elevava o órgão até sua (posterior) representação artística suprema: a devoção do Sagrado Coração de Jesus. O fígado (também descrito como as entranhas) – que na iluminura dos manuscritos dos homens zodiacais é o espaço de disputa entre os signos Virgem e Libra – foi interpretado como um espaço da concupiscência, de função naturalmente negativa: disseminar a volúpia ao resto do corpo.33

Em suma, o corpo, no fim da Idade Média, foi cada vez mais entendido como um espaço de conflito, e o mais visceral de todos, porque cosmológico, o que fazia com que ele estivesse ainda mais entregue à própria sorte, inerte diante das influências zodiacais e dos quatro elementos. Ramon Llull afirma que os signos e planetas têm as compleições dos elementos (II.1).34 Assim ele respondeu à pergunta “O que é um signo e o que é um planeta?”:

Signe es part del cel, en qui comensa primerament la influencia e virtut del cel, qui ve sajús als corses moguts per aquella influencia e virtut a obres naturals. E planeta as astella qui la influencia e virtut del cel done naturalment als corses sajús, qui per aquella influencia e virtut an apetit e natura qui mou e causa lurs natures e vertús als actus naturals de generació e corrupció, e a les condicions a els pertayents.

Signe, e aysó matex de planeta, a en si matex propia vartut que as de sse assencia, e ab aquella mou sajús las vartuts dels alements e de los alementats, als quals la virtut del cel apropiade, per so que lur cia astrument ab que's moven a hobra e sian muguts per los corses dasús. E per aysó la vertut qui ve dasús sajús es doble astrument, so as, propri e apropiat.35

O signo é uma parte do Céu onde começa a influência e a virtude celeste sobre os corpos movidos por aquela influência e virtude às ações naturais. Por sua vez, o planeta é uma estrela do Céu que naturalmente influencia e dá virtude aos corpos aqui embaixo.36 Graças a isso, eles têm o apetite e a natureza que os move e proporciona suas naturezas e virtudes aos atos naturais da geração e da corrupção, além das condições pertencente a eles.37

Os signos e os planetas têm em si uma virtude própria de sua essência. Com ela, eles movem aqui embaixo as virtudes dos elementos e dos elementados que, assim, se apropriam da virtude do Céu para que serem instrumentos com os quais possam realizar suas obras e serem movidos pelos corpos superiores. Por isso, a virtude que vem de cima é um duplo instrumento: próprio e apropriado (II.2).38

Esse intenso movimento das virtudes celestes afetava a natureza, ou seja, os corpos, pensavam. Por isso é que para o corpo afluíam todas as virtudes celestes, verdadeiras guerreiras em busca de senhorio corpóreo. O filósofo resumiu muito bem essa estreita conexão entre o mundo superior – acima da Lua (planeta que consideravam como um delimitador dos dois espaços cósmicos), mundo da eternidade, da constância, da perenidade – e o mundo inferior (abaixo da Lua), mundo das inconstâncias, das efemeridades, das transformações. Ao explicar a contrariedade acidental dos corpos celestiais, Llull afirmou que elas são a causa das tensões existentes entre os homens na sociedade humana:

Per la contrarietat desús son sajús los homens disposts a essar los uns contra los altras, e fan gueres e molts da mals, e son irats los uns contra los altras; e on mes dura la ira, mes montiplica lo mal e lla contrariatat. E aysó as per la duració e apatit e granessa dassús, qui causan lurs samblansas sajús; e per aysó ira crex anaxí sajús per la influencia de la contrari[e]tat desús, con fa la fortor de la mostalla, qui crex on pus fort as picade.

La contrarietat dessús as comensament e causa de los homens qui nexan contrets, e as comensament de les amargors que lo gustar atroba en la poma dolce, e as comensament de malaltia, e de los aspils tortes; e anaxí de lles altres cossas samblants a aquestes.39

Pela contrariedade superior são, aqui embaixo, os homens dispostos a estar uns contra os outros. Por isso fazem guerras e muitos males, e são irados uns contra os outros. E quanto mais dura a ira, mais se multiplicam o mal e a contrariedade. Isso ocorre por causa da duração, do apetite e da grandeza superiores, que causam suas semelhanças aqui embaixo. Por isso a ira cresce assim aqui embaixo: por causa da influência da contrariedade superior, como ocorre com a força da mostarda, que cresce quanto mais é triturada. (os grifos são nossos)

A contrariedade superior é princípio e causa dos homens, que nascem constrangidos. É princípio do amargor que o gosto sente no pomo doce; é princípio das doenças e dos espelhos turvos, e o mesmo das outras coisas semelhantes a essas.40

Conclusão

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Homem Zodiacal. Trinity College Library, Cambridge, MS O.1.57, folio 10v (séc. XV).

Cum plures sint homines, qui scire desiderant ueritatem naturarum et secretorum corporum supracaelestium per artem astronomiae, et ipsa sit difficilis ualde ad sciendum; et iudicia, quae per ipsam facta sunt, quam pluries per experientiam falsa sunt reperta. Ideo ego Raimundus cum Arte ad omnes scientias generali inuestigare et declarare propono in hoc tractatu naturas et secreta corporum supracaelestium, ut occasiones inueniantur per quas iudicia per artem astronomiae facta pluries falsa quam uera sunt reperta.41

Como muitos são os homens que desejam saber a verdade das coisas naturais e os segredos dos corpos supracelestiais através da arte da Astronomia, que é dificílima de aprender, e muitas vezes as predições que são feitas por ela mostram-se falsas pela experiência, eu, Raimundo, com a ajuda da Arte Geral para todas as Ciências, proponho-me investigar e manifestar o tratado da natureza e os segredos dos corpos supracelestiais, e demonstrar porque as previsões feitas pela arte da Astronomia são muitas vezes mais falsas que verdadeiras.

Também desejo investigar e descobrir novos modos com os quais o homem conheça os muitos segredos naturais, e pelos quais possa adquirir maior conhecimento da Astronomia e de suas predições.42

Herdeira dos saberes da Antiguidade, a Idade Média incorporou a tradição astronômica clássica (acrescida do Neoplatonismo do século V) em sua Educação. De todos os lados, a Astronomia mereceu atenção, a ponto de a Igreja tentar distingui-la da Astrologia. Por sua vez, a Medicina medieval (também herdeira dos antigos) atribuiu grande importância aos astros, especialmente no momento do preparo dos medicamentos43, o que conferiu à Astronomia uma importância cada vez maior.

A imagem do homem zodiacal, que ascendeu ao protagonismo das representações na arte do final da Idade Média e conquistou o status de tema multidisciplinar – astronômico, médico e, inclusive, político44 – foi um reflexo imagético da ascensão de uma mentalidade mágica no alvorecer da Modernidade (com a Astrologia, a Alquimia, a Cabala e o Hermetismo), algo particularmente visível na Filosofia do período (com Marsílio Ficino [1433-1499], Pico de la Mirandola [1463-1494] e Giordano Bruno [1548-1600], especialmente)45 – até Isaac Newton (1643-1727) acreditava na Alquimia!46

Esse fenômeno social repercutiu na própria imagem que os homens de então tinham de si: o fatalismo cresceu e a sensação de impotência diante de um mundo de influências sobrenaturais fez com que o medo e a insegurança grassassem – e isso em uma época em que o cientificismo empirista ganhava forma. Paradoxos dos múltiplos tempos coexistentes sempre manifestos na vida das sociedades.47 Seja como for, o homem zodiacal é um belo indício documental dessa mudança de paradigma, da Idade Média para a Moderna. Sinal artístico dos novos, complexos (e acirrados) tempos que estavam por vir.48

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A captura de Cristo (c. 1310-1319) de Pietro Lorenzetti (c. 1280-1348). Basilica inferiore di San Francesco, Assis. Enquanto o Drama dos dramas se desenrola na Terra, no Céu, uma estrela cadente rasga o Cosmo, enquanto a Lua se insinua por trás dos montes. Trata-se de um notável exemplo artístico da sincronicidade que os medievais percebiam da Natureza (mundo abaixo da Lua, das coisas que se transformam e morrem) com o Céu (mundo acima da Lua, das coisas eternas e incorruptíveis).

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Fontes

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Notas

  • 1. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1991, p. 1.839.
  • 2. “Aqui, os personagens acompanham o ritmo dado pelas palmeiras situadas em pano de fundo, que pontuam a procissão de mártires e de virgens das paredes laterais da nave”. BARRAL I ALTET, Xavier. Arquitetura Universal da Taschen. A Alta Idade Média. Da Antiguidade Tardia ao Ano Mil. Taschen, 1998, p. 73.
  • 3. A Bíblia de Jerusalém, op. cit., p. 1.838.
  • 4. Para a Onirologia, ver COSTA, Ricardo da (org). Os Sonhos na História. Alicante/Madrid: e-Editorial IVITRA Poliglota. Estudis, Edicions i Traduccions / Atenea, 2014.
  • 5. Para uma interessante desconstrução da ruptura do Renascimento em relação à Idade Média, ver BURKE, Peter. O Renascimento Italiano. Cultura e sociedade na Itália. São Paulo: Nova Alexandria, 2010.
  • 6. Entrelaçamento muito bem exposto por LEWIS, C. S. A Imagem Descartada. Para compreender a visão medieval do mundo. São Paulo: É Realizações, 2015.
  • 7. MARCO TÚLIO CÍCERO. Textos filosóficos II. Diálogos em Túsculo (trad., introd. e notas de J. A. Segurado e Campos). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2014, p. 46-47.
  • 8. Ver FIDORA, Alexander, PARDO PASTOR, Jordi (orgs.). CONVENIT SELECTA – 7. Cicero and the Middle Ages, e, especialmente, COX, Virginia, WARD, John O. (eds.). The Rhetoric of Cicero in its Medieval and Early Renaissance Commentary Tradition. Brill, 2006.
  • 9. BOÉCIO. Consolação da Filosofia (trad. de Luís M. G. Cerqueira). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011, p. 96.
  • 10. MACROBIO. Comentarios al Sueño de Escipión (ed. de Jordi Raventós). Madrid: Ediciones Siruela, 2005 (especialmente o Livro I, cap. 21, 136, p. 103-110).
  • 11. PAUL, Jacques. Historia intelectual del Occidente medieval. Madrid: Cátedra, 2003, p. 89-90. Para as sete artes liberais, COSTA, Ricardo da. “Las definiciones de las siete artes liberales y mecánicas en la obra de Ramon Llull”. In: Anales del Seminario de Historia de la Filosofía. Madrid: Universidad Complutense de Madrid (UCM), vol. 23 (2006), p. 131-164.
  • 12. SAN ISIDORO DE SEVILLA. Etimologías I. Madrid: BAC, MM, p. 480-481.
  • 13. Um excelente (e brevíssimo) resumo é o de SOTO POSADA, Gonzalo. Filosofía Medieval. Bogotá, Colombia: Universidad Pedagógica Nacional/San Pablo, 2007, p. 125-127.
  • 14. CLERICUZIO, Antonio. “A Astrologia”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média III. Castelos, mercadores e poetas. Lisboa: Dom Quixote, 2014, p. 493-494.
  • 15. Anales del Imperio Carolingio (años 800-843) (introd., trad., notas, apéndices e índices de Javier del Hoyo y Bienvenido Gazapo). Madrid: Akal, 1997, p. 88, 156, 158 e 161.
  • 16. Anales del Imperio Carolingio (años 800-843) (introd., trad., notas, apéndices e índices de Javier del Hoyo y Bienvenido Gazapo), op. cit., p. 72-73.
  • 17. El libro de los veinticuatro filósofos (ed. de Paolo Lucentini; trad. de Cristina Serna y Jaume Pòrtulas). Madrid: Ediciones Siruela, 2000, p. 44-45.
  • 18. Já tratei, brevemente, da iluminura do homem da segunda visão da monja, em COSTA, Ricardo da. “A Estética do Corpo na Filosofia e na Arte da Idade Média: texto e imagem”. InTrans/form/ação, Marília, v. 35, p. 161-178, 2012. Edição Especial.
  • 19. “...todas as substâncias terrestres derivam de quatro elementos essenciais (a terra, o ar, o fogo e a água), que ora estão aliados (água e terra, por exemplo), ora estão em oposição (água e fogo, por exemplo). Cada um destes elementos é composto por um conjunto de qualidades primárias: o quente e o frio, o úmido ou o seco. A partir destas bases, os escritores médicos admitiam que todos os corpos vivos são formados por quatro humores (...): 1) o sangue; 2) a bílis amarela; 3) a bílis negra; 4) a fleuma”. MICHEAU, Françoise. “A idade de ouro da medicina árabe”. In: LE GOFF, Jacques (apres.). As doenças têm história. Lisboa: Terramar, 1985, p. 61.
  • 20. HILDEGARDA DE BINGEN. Libro de las obras divinas (trad. de María Isabel Flisfisch, María Eugenia Góngora y María José Ortúzar). Barcelona: Herder Editorial S. A., 2009, p. 217-219.
  • 21. Vida y visiones de Hildegard von Bingen (ed. a cargo de Victoria Cirlot). Madrid: Ediciones Siruela, 2001; “Onde predomina o sangue, temos o caráter Sanguíneo. Esse é o melhor dos quatro, pois o sangue é especialmente natures fried [amigo da natureza] (...) O homem colérico é alto e magro. O feitor de Chaucer ‘era um homem extremamente magro, de humor colérico’ (...) Os sintomas do caráter de Melancolia de Elyot são os seguintes: ‘improdutivo... muito desperto (isto é, dorme mal)... sonhos amedrontadores... firme em suas opiniões... raiva longa e corrosiva. Hamlet, que se autodiagnostica melancólico (ii, ii, 640), refere-se aos seus pesadelos (ibid. 264), sendo exemplos extremos de ‘raiva longa e corrosiva’ (...) O fleumático é, quem sabe, o pior caráter de todos. Elyot cita como sinais ‘obesidade... cor branca... sono supérfluo (isto é, em excesso)... sonhos com coisas ligadas à água ou a peixes... lentidão... enfado no estudo... pequenez de coragem’”. LEWIS, C. S. A Imagem Descartada. Para compreender a visão medieval do mundo, op. cit., p. 167-168.
  • 22. Para o tema, ver NORTH, John. “O quadrivium”. In: DE RIDDER-SYMOENS, Hilde (coord.). Uma História da Universidade na Europa. Volume I: As Universidades na Idade Média. Lisboa: Fundação Nacional-Casa da Moeda, 1996, p. 337-357.
  • 23. RAMON LLULL. Tratado de Astronomia (apres. de Júlia Butiñyà; estudo, tradução e notas de Ricardo da Costa). Madrid: Palas Atenea Editora, 2016. A obra, escrita em Paris (outubro de 1297), é a utilização dos fundamentos da Arte Geral para uma importante área de conhecimento, do Quadrivium: a Astronomia/Astrologia. Está catalogada na Base de Dades Ramon Llull com a numeração III.29, e no Catálogo Cronológico de Fernando Domínguez Reboiras com o número 73. Ver DOMÍNGUEZ, Fernando. “II. Works”. In: FIDORA, Alexander, and RUBIO, Josep E. (eds.). RAIMUNDUS LULLUS. An Introduction to his Life, Works and Thought. Turnhout: Brepols, 2008, p. 172-173.
  • 24. NICHOLAS OF LYNN. The Kalendarium of Nicholas of Lynn (ed. and introd. by Sigmund Eisner). Athens: University of Georgia Press, 1980; OLESON, T. J. “Nicholas of Lynne”. In: Dictionary of Canadian Biography, vol. 1, University of Toronto/Université Laval, 2003.
  • 25. BOUDET, Jean-Patrice. Entre science et nigromance: Astrologie, divination et magie dans l'Occident médiéval (XIIe-Xve siècle). Paris: Publications de la Sorbonne, 2006.
  • 26. RAMON LLULL. Tratado de Astronomia (apres. de Júlia Butiñyà; estudo, tradução e notas de Ricardo da Costa). Madrid: Palas Atenea Editora, 2016.
  • 27. Em duas obras: Significado nas Artes Visuais (São Paulo: Editora Perspectiva, 2002) e A caixa de Pandora: as transformações de um símbolo mítico (São Paulo: Companhia das Letras, 2009).
  • 28. O outono da Idade Média. São Paulo: Cosac Naif, 2010.
  • 29. O corpo das imagens. Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. São Paulo: EDUSC, 2007.
  • 30. DAMISCH, Hubert. “Artes”. In: ROMANO, Ruggiero [dir.]. Enciclopédia Einaudi. Volume 3: Artes – Tonal/Atonal. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, p. 11-65.
  • 31. YATES, Frances A. A Arte da Memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 2007, p. 217.
  • 32. Para o tema, ver BUESCU, Ana Isabel, SOUSA, João de, MIRANDA, Maria Adelaide (coords.). O Corpo e o Gesto na Civilização Medieval. Lisboa: Edições Colibri, 2006.
  • 33. LE GOFF, Jacques, e TRUONG, Nicholas. Uma História do Corpo na Idade Média. Lisboa: Teorema, 2003, p. 135-151.
  • 34. RAMON LLULL. Tratado de Astronomia (apres. de Júlia Butiñyà; estudo, tradução e notas de Ricardo da Costa). Madrid: Palas Atenea Editora, 2016, p. 57.
  • 35. Nova Edició de les obres de Ramon Llull. Volum V. Començaments de Medicina – Tractat d'Astronomia (a cura de Lola Badia). Palma de Mallorca: Patronat Ramon Llull, 2002, p. 182.
  • 36. “Aqui embaixo”, isto é, abaixo da Lua (desde a concepção aristotélica, astro que dividia o Universo). Ver LEWIS, C. S. A Imagem Descartada. Para compreender a visão medieval do mundo, op. cit., p. 23-24.
  • 37. É interessante observar que nessa passagem o filósofo alude a uma importante obra de Aristóteles, muito lida pelos físicos na Idade Média: Da Ação e da Corrupção. Ver ARISTÓTELES. Sobre a geração e a corrupção (trad. e notas de Francisco Chorão). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009.
  • 38. RAMON LLULL. Tratado de Astronomia, op. cit., p. 57-58.
  • 39. Nova Edició de les obres de Ramon Llull. Volum V. Començaments de Medicina – Tractat d'Astronomia (a cura de Lola Badia), op. cit., p. 202.
  • 40. RAMON LLULL. Tratado de Astronomia, op. cit., p. 83.
  • 41. Nova Edició de les obres de Ramon Llull. Volum V. Començaments de Medicina – Tractat d'Astronomia (a cura de Lola Badia), op. cit., p. 161.
  • 42. RAMON LLULL. Tratado de Astronomia, op. cit., p. 33.
  • 43. Ramon Llull é bastante meticuloso em suas considerações a esse respeito, como, por exemplo, nessa passagem: “O fogo é quente por natureza e seco pela terra. A terra é naturalmente seca e fria pela água. Por isso, quando o médico faz um medicamento com duas ervas, uma de B e outra de C, C vence B, porque a secura de B é naturalmente qualidade própria de C, e C, com o frio que tem graças à água, constrange B, recobra sua secura e B não consegue se defender com seu calor, pois sua secura tem maior apetite da essência da erva de C que pela erva de B. Neste trecho e nos outros, seria útil que os médicos soubessem os procedimentos que tratamos em Os Princípios da Medicina. Se o paciente que bebe o medicamento é da compleição de C ou de B, C sempre vence, conforme acabamos de dizer.”, RAMON LLULL. Tratado de Astronomia, op. cit., p. 56.
  • 44. Desde o século XII com o Policraticus de João de Salisbury. Ver COSTA, Ricardo da. “A Estética do Corpo na Filosofia e na Arte da Idade Média: texto e imagem”. In: Trans/form/ação, Marília, v. 35, p. 161-178, 2012, Edição Especial.
  • 45. Uma notável investigadora desse tema foi Frances Yates (1899-1981). Ver YATES, Frances. Giordano Bruno e a tradição hermética. São Paulo: Cultrix, 1995, e YATES, Frances. Ensayos reunidos I. Lulio y Bruno. México: Fondo de Cultura Económico, 1990 (aqui, Yates mapeia maravilhosamente a influência de Llull junto a esses filósofos quinhentistas, e mostra o quão instigante pode ser um tempo histórico).
  • 46. FANNING, Philip Ashley. Isaac Newton and the Transmutation of Alchemy: An Alternate View of the Scientific Revolution. Berkeley, California, North Atlantic Books, 2009; PÉREZ PARIENTE, Joaquín. “La Alquimia de Newton y Boyle”. In: Anales de la Real Sociedad Española de Química, n. 4, 2005, p. 63-69.
  • 47. Contradições da História com as quais não me surpreendo, pois, desde Fernand Braudel (1902-1985), aprendi que o tempo tem vários tempos a coexistir em uma mesma época. Para isso, ver BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo na época de Filipe II. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995.
  • 48. Agradeço ao Prof. Vinicius Muline dos Santos pela leitura crítica do trabalho.