Livro dos Mil Provérbios (1302) de Ramon Llull: texto e contexto

Tempo 1: os frutos, o passado recente

Quem casa, quer casa.
Cada macaco no seu galho.
Quando a esmola é muita, o santo desconfia.
Quem cala, consente. (Provérbios brasileiros)

A cultura popular brasileira está cheia de provérbios. Eles fazem parte da longa tradição da educação popular, educação que precedia a da escola, educação familiar. Antes do advento da televisão, dosshoppings e dos computadores, as famílias se reuniam e oralmente transmitiam às novas gerações seus costumes e tradições. Para se ter uma idéia da força do provérbio em nossa cultura, há pouco tempo, uma pesquisadora reuniu em sua pesquisa quase 3.000 provérbios populares.1

Essa herança nós recebemos da cultura ibérica, naturalmente.2

Os provérbios nos mostram o que é perene no homem. Uma de suas principais funções é, ludicamente, recordar o profundo sentido moral da educação de um determinado povo, ou, em outras palavras, fixar na memória coletiva a experiência social humana. Daí também eles serem chamados de sapienciais.3

Como muito bem afirmou o Prof. Jean Lauand, um dos maiores especialistas na tradição proverbial, “por mais diversas que sejam as épocas, as latitudes ou as tribos, sempre encontraremos, essencialmente, pesadas críticas e ironias contra o egoísmo, a avareza, a inveja, a pequenez etc. e – invariavelmente também – o louvor da generosidade, da sinceridade, da grandeza, da lealdade etc. São fatos constantes em todas as culturas”.4

Por esse motivo, os provérbios e sua tradição sempre remeteram à educação moral, e nesse aspecto em particular, os provérbios brasileiros têm suas raízes mais profundas na tradição proverbial da Idade Média, que por sua vez, está ancorada na tradição sapiencial bíblica, como veremos.

Tempo 2: os galhos, o passado distante

Em 1559, Pieter Bruegel, o Velho, criou mais um de seus fantásticos quadros, Os Provérbios Flamengos, pintura também conhecida como O Mundo às Avessas. A cena é, literalmente, um mundo de provérbios(há 118 provérbios reconhecidos no quadro) e, portanto, está ancorada na tradição sapiencial medieval. Trata-se de uma aldeia litorânea onde todos parecem ter enlouquecido, pois agem tão desordenadamente que provocam uma desordem social, o caos, a demência coletiva com o pior tipo de loucura, a loucura pecaminosa.

Bruegel parece ter dividido o cenário em dois grupos, misturados, cada um com um tipo de comportamento. Para exemplificá-los, vejamos somente alguns personagens. O primeiro grupo é composto por pessoas que se comportam irracionalmente, embora suas condutas aparentemente não tenham um fundo imoral. Nesse grupo, o pintor ressaltou os muitos absurdos das ações humanas que resultaram na inversão do mundo. Esse comportamento invertido está simbolizado por um globo azul, presente em três cenas.

Na primeira, o globo está pendurado na parede da casa de cabeça para baixo, com o crucifixo invertido (à esquerda): literalmente, o mundo está às avessas; na segunda, o globo está nas mãos de um homem ricamente vestido com uma capa vermelha e branca. Parece ser um jogral, o trovador medieval, aquele que vive do amor e do riso alheio. Esse alegre brincalhão faz o globo girar com a ação de seu polegar (à direita, abaixo): ele representa o provérbio “Ele põe o mundo a dançar no seu polegar”, todos lhe obedecem.

Na terceira cena, abaixo, aos pés do jogral, há uma figura ridícula, um camponês maltrapilho que entra de cócoras no globo caído no chão, inclinando-o para a direita. A cena significa o provérbio “é preciso curvarmo-nos para avançar no mundo”, isto é, é preciso ser esperto e servil para ser alguém e vencer na vida.5

Pieter Bruegel, Os Provérbios Flamengos (1559)

bruegel.jpg

 

O segundo tipo de comportamento do quadro tem como pano de fundo a moral: sua função na cena é alertar os homens para os perigos da loucura e do pecado. Nesse grupo, destacam-se a mulher ao centro, de vestido vermelho, pecadora e luxuriosa como a cor de seu vestido, cobrindo o marido com uma capa azul, cor da inocência e da pureza, o que sugere que ela está ocultando dele seu pecado – a cena materializa o provérbio “Ela veste o marido com uma capa azul” (engana-o). No entanto, a dama de vermelho está sendo observada (e falada) por duas velhas intrigueiras, à sua esquerda, que simbolizam o provérbio “Uma enfia o fuso e a outra fia”, isto é, elas espalham a fofoca.

Acima da luxuriosa, um homem de joelhos acende duas velas ao diabo (“É bom ter amigos em toda a parte”), tendo à sua direita outro, que se confessa ao diabo, com uma cabeça de animal e disfarçado de monge (“Ele se confessa ao diabo”, confia seus segredos aos inimigos). Ainda há outro monge ridicularizando Cristo sentado em um trono vermelho, pois coloca n’Ele uma barba postiça (“Pôr uma barba de estopa em Nosso Senhor”, isto é, tenta enganar alguém com manhas). Sinal dos tempos profanos? Provavelmente, pois outro monge, observado por um camponês, abandona seu hábito e o pendura no cercado (“Pendurar a capa na cancela”), rompendo com o habitual sem saber se se adaptará ao novo ambiente.

aldeia de provérbios de Bruegel é o caos resultante dos atos individuais de loucura humana. São atitudes estúpidas, insensatas, imorais.6 Nessa encenação proverbial, as frases sapienciais representadas na cena são uma advertência: nunca devemos esquecer a sabedoria popular, acumulada há séculos. Caso contrário, que aguardemos a loucura do mundo.

Tempo 3: as raízes, o passado longínquo

Em sua pintura cética e mordaz, Bruegel retratou o desejo de seu tempo. Já no século XV havia sido iniciado um movimento intelectual de recolha e inventário de provérbios. O primeiro desses intelectuais interessados nos provérbios foi Erasmo de Rotterdam. Em 1500 ele publicou uma lista de provérbios célebres de autores latinos. Depois dele, muitos foram os que naquele tempo publicaram suas antologias sobre a tradição sapiencial.7

Mas aqueles homens modernos não faziam nada mais que manter acesa a chama da tradição medieval. Pois para o pensamento da Idade Média, os provérbios representavam uma função viva. Concisos, mordazes, irônicos, eles defendiam a resignação. Ora pagãos, ora evangélicos, eles cristalizaram tanto o pensamento dos mais simples quanto o espírito da literatura da época.8

Sua base, como a de todo o pensamento medieval, foi a Bíblia.

Tempo 4: Ramon Llull e seu Livro dos Mil Provérbios

Os leitores brasileiros já conhecem a biografia de Ramon Llull (1232-1316) graças às pesquisas que o Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio realiza há alguns anos e aos livros que publica na Coleção Raimundo Lúlio. Contudo, é importante conhecer a relação entre o sistema filosófico criado por Llull – a Arte luliana – e o Livro dos Mil Provérbios (1302), para compreender o sentido da redação deste tipo de doutrina escrita em forma proverbial. Essa relação é muito importante, pois neste opúsculo se resume praticamente toda a doutrina de Ramon. Deste modo, devemos recordar rapidamente, só para reavivar a memória do leitor, alguns pontos da vida do mestre Ramon.

Em primeiro lugar, a formação intelectual de Llull se produziu na corte do rei Jaime I, o Conquistador. Sua Vida coetânia (1311) afirma que ele foi mordomo do infante Jaime.9 Assim, em seus anos iniciais, Ramon Llull viveu o ambiente palaciano, atmosfera que o fez se tornar um irresistível trovador e conquistador de mulheres tal como narram as lendas sobre sua vida e como o próprio beato afirma em sua Vida coetânia. Não obstante, cinco aparições do Jesus Cristo crucificado levaram-o a abandonar essa vida frívola e cheia de luxos para dedicar-se à contemplação, e após ouvir um sermão dedicado à vida de Francisco de Assis, Llull vendeu todos os seus pertences e empreendeu uma peregrinação a Rocamadour10 e Santiago de Compostela.11 No regresso dessa viagem, aconteceu um dos fatos mais importantes de sua vida: seu encontro com Ramon de Penyafort (1185-1275), em 1264. Esse importante personagem sugeriu a Ramon o estudo das línguas e culturas árabe e latina em sua ilha natal.12

Este conjunto de acontecimentos forjou o ideal luliano, que se baseava em três pontos: 1) a conversão dos infiéis e dos incrédulos à santa fé católica, e para tanto, colocar em perigo de morte sua própria vida; 2) escrever o “melhor livro do mundo” contra os erros dos infiéis e 3) a criação de mosteiros para a formação de homens doutos e sábios na cultura e língua árabe com uma clara finalidade: a pregação da santa fé católica aos infiéis.13 Em 1274, Llull se retirou solitariamente como um eremita para o monte Randa, em Maiorca. Ali teve a iluminação de sua Ars, quando então começou a produzir suas obras e a grande história da sua vida.14

Este breve resumo dos primeiros quarenta anos da vida de Ramon Llull é suficiente para o leitor compreender o que encontrará no Livro dos Mil Provérbios e, sobretudo, o sentido que Llull deseja transmitir nessa obra. Devemos ter em conta que o beato era um místico, um filósofo, mas, sobretudo, um missionário. A principal intenção de sua vida foi a conversão dos infiéis ao cristianismo e o re-encaminhamento dos cristãos desviados do trajeto de Cristo: a esta finalidade ele submeteu sua Arte e a sua própria pessoa. Por outro lado, é importante sublinhar que, nesse período (século XIII), a reconquista dos territórios ocupados pelos muçulmanos já não era um sonho: a cristandade hispânica lutava por controlar estes territórios e suas gentes. A missão apologética era uma das ferramentas que a Igreja e o nascente estado tinham para conseguir este fim, e personagens como Ramon Llull foram importantes pilares neste novo tipo de reconquista, que não se fazia mediante as armas, e sim pelo intelecto e pelas “razões necessárias”.

Neste sentido, a produção artística de Ramon Llull foi criar obras para ensinar outros missionários a pregar aos infiéis. Desde o Livro do gentio e dos três sábios15 até sua última obra, todas tiveram como principal intenção a missão apologética. Assim, o Livro dos Mil Provérbios é a recopilação de sua doutrina em breves sentenças, convertendo-se num verdadeiro manual ou breviário da doutrina luliana, um verdadeiro catecismo enciclopédico para a missão apologética.16 A paixão de Llull pela idéia de unidade está muito bem representada no provérbio, que serve ao autor, mediante fórmulas mais ou menos curtas, para enunciar suas próprias teses filosóficas, morais e místicas, com um afã de vulgarização científica e moral.

Provérbios: à guisa de introdução

A utilização de provérbios pelo ser humano está presente nos mais variados momentos de sua existência. Ou servindo para admoestar determinado comportamento, ou servindo como parâmetro moral para futuras ações, as parêmias condicionam um modus vivendi considerado ideal por gerações anteriores. Analisaremos aqui, em linhas gerais, como essas “pílulas de sabedoria” chegaram até nós desde o século III a.C. e em que medida esse legado secular permeou o fazer paremiológico medieval. Como ponto de chegada temos O Livro dos Mil Provérbios, de Ramon Llull, no século XIV, em que se observa a sabedoria proverbial comprometida com a Sabedoria do Verbo Encarnado.

Uma breve história dos provérbios

As primeiras fontes de que dispomos sobre os provérbios remontam ao terceiro milênio antes de Cristo, aos egípcios17:

...os ‘sebayts’ (ensinamentos), equivalentes aos provérbios atuais, são citados desde o terceiro milênio a.C. Entre os hebreus e os aramaicos, o provérbio representava a palavra de um sábio. No século VI a.C., aparecem as Palavras de Ahiqar e, no século IV a.C., os Provérbios de Salomão. Entre os gregos, ‘gnômê’ (pensamento) e ‘paroemia’ (instrução) cobrem as noções de provérbio, sentença, máxima, adágio, preceito etc., aparecendo em obras de Platão, Aristóteles e Ésquilo...18

Também na China e entre os sumérios dispomos de exemplos desta “sabedoria” universal. Dentre os autores latinos, Catão, Cícero, Sêneca e Publílio Siro constantemente incluíam sentenças suas ou não, com finalidade instrutiva.19

No tocante à Antigüidade Clássica, vários foram os autores que utilizaram provérbios, adágios, frases feitas, máximas e sentenças em seus textos. Aristóteles, Demócrito, Sófocles, Catão, Cícero, Publílio Siro, dentre outros escritores, lançam mão de expressões fraseológicas, que refletem um posicionamento do homem dessas épocas perante o mundo em que estava inserido. Esse mundo era vivenciado de acordo com os valores culturais e éticos herdados de seus antepassados e incorporados à galeria de exemplos que deveriam ser seguidos ou refutados pela humanidade Com os estudos dos clássicos gregos e latinos durante a Idade Média, a difusão das fórmulas clássicas alcançou praticamente todas as incipientes línguas nacionais.

Livro das Sentenças de Pedro Lombardo e os Disticha Catonis, de autoria duvidosa, fariam parte da bibliografia indispensável das escolas eclesiásticas e das universidades, servindo praticamente como primeiros livros para os alumni.

Portanto, a vitória do cristianismo trouxe consigo os traços e características do pensamento religioso católico, que paulatinamente se constituíram em norteadores do modus vivendi, do modus agendi e domodus cogitandi da civilização ocidental durante toda a Idade Média. Com a difusão do saber antigo aliado à teologia cristã, com o desenvolvimento das artes liberais, com o aparecimento das primeiras universidades européias no final do século XI e princípios do século XII, com os contatos culturais com os árabes e conseqüente acesso a textos sobre medicina, astronomia, matemática, música, literatura e filosofia, dentre outras ciências, plasma-se uma cultura medieval litterata, que tem como seus grandes representantes homens da Igreja e universitários.20

Pelo exposto, percebemos que homens com domínio do código da escrita encarregaram-se de ilustrar seus textos com frases ou expressões, que em determinado lugar e dentro de seu contexto específico, teriam o valor de uma verdade validada pela experiência. Entretanto, como afirma Maria H. Trench de Albuquerque,

Não se podem confundir as origens remotas e comuns ao acervo paremiológico da Humanidade com os meios pelos quais essas estruturas chegaram aos nossos dias: a mais breve observação sobre a verdadeira fonte comum proverbial permite afirmar que a tão decantada origem popular dos provérbios é um mito surgido em função de alguns dos modos pelos quais os E.P. (Enunciados Proverbiais – parênteses nossos-) foram veiculados e utilizados em certas épocas. Na Idade Média essas fórmulas gozavam de grande prestígio, constituindo-se na base de exercícios gramaticais nas escolas elementares e capitulares (...) A partir dessa época, um grande número desses enunciados foi transmitido por autores (...) ligados ao clero (...) e chegaram até os nossos dias e até o nosso meio contemporâneo.21

Do ponto de vista social, a origem e o papel das expressões fraseológicas através de gerações prendem-se à transmissão de um legado cultural de conselhos práticos de vida baseados na experiência e na sabedoria dos antigos. Através de observações feitas a partir da realidade circunjacente ao mundo de sua época, o homem procurava, por meio de expressões fraseológicas, ter em mãos subsídios práticos para sua própria orientação e das próximas gerações no que diz respeito às condutas a serem seguidas ou refutadas. Uma extensa terminologia ligada a essas expressões reflete, ou pelo menos tenta refletir, nuances distintas de forma e conteúdo, que, de certa maneira, tentam delimitar suas raízes populares ou eruditas, onde o provérbio se destaca pela sua expressividade e peculiaridades externas e internas como se verá a seguir.

Uma sucinta conceituação das expressões fraseológicas

A questão da classificação das expressões fraseológicas em populares ou eruditas coloca-nos diante de algumas questões: quais os limites da ciência fraseológica e até que ponto, em sua origem, os chamados ditos populares emanaram da tradição popular de uma coletividade?22

Essas “frases ou locuções de uma língua” recebem uma classificação tipológica que normalmente não consegue delimitar suas características formais e conteudísticas básicas, pelo contrário, muitas vezes associando-as praticamente como sinônimas. Os maiores dicionaristas da língua portuguesa não conseguem estabelecer limites rígidos no tocante à definição dos chamados ditos populares, como podemos depreender a partir da recolha desses termos feita por Simon.23 Vejamos apenas os verbetes arrolados por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira em seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa24

adágio [Do lat. adagiu] S. m. V. provérbio ...;
aforismo [Do grego aphorismós, pelo lat. aphorismu] s. m. sentença moral breve e conceituosa; máxima...;
anexim (x=ch). [Do ar. an-naxid] s.m. 1. v. provérbio... 2. Dito sentencioso.;
apotegma [Do grego apophtegma] s.m. 1. Dito curto e sentencioso, aforismo, máxima...;
axioma (cs ou ss). [Do gr. axioma, pelo latim axioma] s. m. 1. Filos. Premissa imediatamente evidente que se admite como universalmente verdadeira sem exigência de demonstração. 2. P.ext. Máxima, sentença ...;
brocardo [Do lat. medieval brocardu] s.m. 1. Axioma jurídico. 2. Axioma, aforismo, máxima, sentença, provérbio...;
chufa. [Voc. onom., calcado no lat. vulg. sufilaresibilare, ‘assobiar’.] s.f. Dito trocista; caçoada, troça, remoque, mofa...;
ditado [Do lat. dictatu] s.m. ... . 3. v. provérbio (1)...;
dictério [Do gr. deiktérion, pelo lat. dicteriu] s.m. Troça, zombaria, motejo, escárnio, chufa, dichote...;
ditame [Do lat. dictamen] s.m. ... 2. O que a consciência e a razão dizem que deve ser... 3. Regra, aviso, ordem, doutrina...;
ditério s.m. 1. Var. de dictério. 2. Bras. S. Pop. V. dito (5);
dito [Do lat. dictu] adj. 1. Que se disse; mencionado, referido. S. m. 2. Palavra, expressão. 3. Sentença, frase. 4. Provérbio, ditado. 5. Mexerico, enredo, ditinho...;
dizer. [Do lat. dicere] s.m. ... Expressão, dito ...;
gnoma [Do gr. gnóme, pelo lat. gnome. s.f. sentença moral | V. máxima (2) |;
máxima (ss). [fem. substantivado de máximo] s. f. 1. Princípio básico e indiscutível de ciência ou arte; axioma. 2. Sentença ou doutrina moral... 3. Conceito, aforismo, pensamento, apotegma... 4. Anexim...;
motejo (ê). Do it. moteggio. s.m. 1. V. zombaria... 2. Dito picante; gracejo.;
parêmia [Do gr. paroimía, pelo lat. paroimia] s.f. 1. Breve alegoria. 2. Provérbio, prolóquio.;
prolóquio {Do lat. Proloquiu. s.m. Máxima, ditado, adágio, provérbio, anexim. ... pp. 1400-1401;
provérbio [Do lat. proverbiu] s.m. 1. Máxima ou sentença de caráter prático e popular, comum a todo um grupo social, expressa em forma sucinta e geralmente rica em imagens; adágio, ditado, anexim, refrão, rifão... 2. Pequena comédia que tem por tema o desenvolvimento de um provérbio...;
refrão [Do provenç. ant. refrahn, ‘canto dos pássaros’.] s.m. 2. Adágio, provérbio, anexim, rifão, refrém...;
rifão [F. dissimilada de refrão] s.m. V. provérbio (1)...;
sentença. [Do lat. sententia] s.f. 1. Expressão que encerra um sentido geral ou princípio ou verdade moral máxima. 2. Rifão, provérbio, anexim...

José Pereira da Silva25 ocupou-se do tema em nível textual e sintagmático, classificando o provérbio como preso a “diferentes formas de expressão tradicional”, que se caracterizam, segundo Amadeu Amaral26, por encerrar “um fundo condensado de experiências refletidas”, onde estão presentes traços distintivos como a concisão, a elegância e expressões arcaizantes.

Diferenciar-se-ia do ditado por ser uma “construção metafórica ou conotativa, (que) diz respeito a verdades gerais e faz um julgamento de valor”, enquanto este último seria “uma construção direta ou denotativa, (que) diz respeito a setores precisos da atividade e a grupos específicos e fica na simples observação e constatação dos fatos, sem julgá-los.” O refrão apresentaria um caráter popular e familiar. Já a máxima, segundo José Pereira, obedece “à gramática, não permitindo a omissão do artigo necessário nem transgredindo o modelo gramatical.” O adágio seria utilizado como termo equivalente a provérbio, ditado e refrão. O aforismo seria “uma sentença breve e doutrinal, que em poucas palavras explica e compreende a essência das coisas.” O apotegma poderia ser definido como “uma fórmula coletiva e tradicional, pertencente a um personagem ilustre, que se constitui de pequenas histórias extremamente condensadas, que se aplicam às mais variadas situações da vida.”

Se, no que tange às análises eminentemente de cunho lingüístico, não se chega a uma delimitação precisa das diversas manifestações tipológicas da fraseologia, podemos traçar, por outro lado, um esboço da sua história, onde depreendemos com base em seu acervo, um fundo didático-filosófico-moralizante que lhe serve de fio condutor.

O provérbio - definição

“Vamos nos contentar em reconhecer que o provérbio é um dito corrente entre o povo.”

Assim sumariza o paremiologista americano Archer Taylor no início de seu livro, considerado pelos estudiosos como o marco de surgimento da paremiologia moderna, The proverb.27

Maria Lúcia Mexias Simon28 (1989:26-27) assim precisa o termo provérbio:

Tem-se como estabelecido que as lexias textuais de caráter judicioso, extraídas da Bíblia, serão chamadas provérbios e não receberão nenhuma das outras denominações. Outro ponto comum é quanto ao aspecto da gravidade do provérbio; é um aconselhamento ou um juízo que pode ser repetido pelos eruditos, pela classe elevada, enquanto que, ao menos numa visão sincrônica, os ditérios, os anexins, as chufas ficam com as crianças ou a classe menos elevada.

A transmissão cultural e seu próprio desenvolvimento podem ser bem analisados, se levadas em consideração as informações de cunho social contidas nas expressões proverbiais. Partindo-se de temas comuns ao homem, procura-se chegar a um consenso sobre o posicionamento do mesmo perante o mundo e as tribulações e alegrias nele encontradas.

Um dos recursos, talvez o mais preciso para a eficácia da mensagem proverbial, seja a metáfora, já que esta, não apenas pela beleza literária, mas principalmente pela sua funcionalidade, encerra em si um valor conotativo simbólico universal, depreendido pelo público. Peter Seitel, citado por Ambrose A. Monye, nos fala que “o uso social estratégico da metáfora, isto é, a manifestação em uma forma tradicional, artística e relativamente curta da razão metafórica, usada em um contexto interacional para resolver certos problemas (sociais).29

A continuidade da tradição cultural clássica durante a Idade Média, porém, nos leva a considerar a difusão dos provérbios e demais expressões fraseológicas, não apenas como mero exercício de latim com finalidades estéticas de metrificação, mas do mesmo modo, como consolidação de uma mentalidade moral cristã de dominação e de regulamentação da vida social através do discurso (oral e escrito), que sintetiza através de exemplaflorilegia e libri proverbiorum, por exemplo, um manual de conduta dos membros do clero e das demais classes sociais.

No que concerne à sua estruturação, o provérbio possui alguns níveis, sobre os quais podemos rapidamente discorrer. Do ponto de vista de sua estruturação fônica, os provérbios apresentam uma entonação, métrica e ritmo próprios, fazem uso freqüente de aliterações, assonâncias e rimas, com uma estruturação rítmica binária, no caso de boa parte dos dísticos medievais rimados, onde a métrica e a rima, além da cadência fônica, auxiliam a memorização da mensagem proverbial.

A mudança do acento quantitativo para o intensivo, segundo Segismundo Spina, representou o passo para o estabelecimento da poesia românica na Idade Média. Para o autor, a rima foi utilizada “como recurso artístico de expressividade musical, expediente mnemônico ou instrumento apto para enfatizar passagens de sentimento patético”.30 O uso desse artifício requeria estudos tais, que somente poderiam ser feitos em conventos, mosteiros e universidades, o que evidencia um trabalho intelectual apriorístico com a forma do texto e um caráter originariamente erudito deste tipo de produção paremiológica.

Variados são os metros ao alcance dos compiladores de então: o redondilho heptassilábico, o octossílabo, o decassílabo, o hendecassílabo, o alexandrino etc.. Quanto à fraseologia medieval, encontramos uma maior quantidade de expressões fraseológicas compostas por um só verso de seis, sete ou oito sílabas, bem como de dísticos, os quais, inclusive, estão assinalados pela presença de sinais de acentuação.

A seguir sumarizamos as principais características definidoras do provérbio:31

A) Propriedades semânticas
1. Operam com aspectos básicos da vida - amor, saúde, idade, pobreza, riqueza, trabalho, etc. - que não podem ser banais;
2. Dizem respeito a expressões de opinião geral, mais do que da pessoal, e implicam em que a sociedade em geral endosse os sentimentos através delas propostos;
3. Podem ser tomados metaforicamente ou literalmente;
4. Advogam estratégias e dão conselhos;
5. Estabelecem uma verdade geral em contraste com a especificidade do contexto no qual aparecem, referindo-se muitas vezes a uma categoria de experiência mais ampla e geral que a de seu contexto de uso.

B) Propriedades sintáticas
1. Tempo no presente, sugerindo atemporalidade, ou referência a qualquer tempo;
2. Simetria evidente: paralelismos, repetições, lemas, estruturas bipartidas;
3. Uso freqüente da cópula;
4. Uso freqüente dos pronomes pessoais e substantivos;
5. Uso de formas imperativas.

C) Propriedades fonológicas
1. Freqüente uso de aliteração, assonância e rima.

D) Propriedades léxicas
1. Uso de arcaísmos, mas em caso algum os enunciados proverbiais deixam de ser coloquiais.

O provérbio é, então, por nós entendido como unidade fraseológica caracterizada externamente por uma certa concisão e brevidade e, no plano interno, por apresentar elementos metafóricos que contêm uma mensagem de valores gerais referendada através de gerações e que deve ser seguida. Atua em nível do discurso escrito corrente na literatura medieval em língua latina como meio pedagógico, proporcionando aos interessados o discurso da sabedoria, que, no teocêntrico ambiente do medievo, pode ser alcançada através da revelação das verdades (humanas e bíblicas) e através do aprendizado dos discípulos dentro dos padrões éticos e morais condizentes com um cristão e que configuram implicitamente a aceitação de uma visão de mundo revelada e transmitida pela Igreja através de sua retórica de dogmatização do sagrado.

Isto poderia perfeitamente ser referendado pela própria etimologia do termo proverbium, de pro, “em lugar de, em vez de”, entendido aqui como prevérbio e verbum, a “palavra”, o próprio Verbo original transmutado em carne, representado no mundo terreno pela Igreja e com cuja divulgação Llull estava firmemente comprometido.

O gênero e a significação do provérbio em Ramon Llull

A literatura sapiencial foi muito cultivada na Idade Média, e os provérbios são um claro exemplo deste tipo da literatura da época e das necessidades que tinha a sociedade. Com os provérbios se forjou uma literatura doutrinal de boas sentenças para os leitores, num momento em que a sociedade necessitava de novos pilares doutrinais. Neste sentido, poderíamos entender as obras literárias de Ramon Llull, tais como a Doutrina para crianças (1274), Blaquerna (1283) e Félix (1288), entre outras, como um tipo de literatura que pretendia infundir valores cristãos na sociedade.32

Não foi Ramon Llull o primeiro a escrever um livro de provérbios, nem tampouco o último. Já antes Guillem de Cervera (séc. XIII) escreveu os seus Provérbios, e o rei Jaime I, o Livro de sabedoria. Depois contamos com autores como Dom João Manuel (1282-1348) e o seu Livro dos provérbios, Sem Tob de Carrión (s. XIV) e os seus Provérbios morais, e os Provérbios do Marquês de Santillana (1398-1458). Do mesmo modo, tampouco Ramon Llull escreveu somente este Livro dos Mil Provérbios: na obra luliana encontramos outros opúsculos que contêm provérbios. Entre estes temos os Provérbios de ensino, os Provérbios da Flor Maternal e os Provérbios da Flor Cristalina, todos eles incluídos na Árvore exemplifical da Árvore da ciência (1295-1296). Estes provérbios diferenciam-se das sentenças de nosso livro por serem rimados. Outro livro de provérbios é o dos Provérbios de Ramon (1296),33 obra anterior ao Livro dos Mil Provérbios,34 e que assenta a definição do provérbio em Ramon Llull.35

Nos Provérbios de Ramon, o autor diz no prólogo acerca deste tipo de composição literária:

Oh, Deus! Com a Tua ajuda começamos os Provérbios de Ramon. Como o provérbio é uma composição breve que encerra nela muito de uma sentença, por isso, mediante e segundo a doutrina da Tábua geral, queremos expressar, e pôr ao alcance, um elevado saber e contemplação; e desejamos tecer muitos provérbios, com o fim de que, por meio deles, possamos difundir em grande medida a doutrina.

Este livro é muito útil para conhecer e amar a Deus em Si mesmo e no Seu próximo, pois mostra a natureza das substâncias e seus acidentes; também ensina a conhecer as virtudes morais e os vícios, matéria útil para a pregação, sim, a raiz dela, se alegam provérbios. Igualmente o é para a disputa.36

No Livro dos Mil Provérbios, Llull define o provérbio como «instrumento que brevemente certifica a verdade de muitas coisas».37 Deste modo, parece que a brevidade e a doutrina são duas coisas próprias do provérbio em Llull, mas os propósitos são claramente doutrinais, tal como se demonstra no Livro dos Mil Provérbios: «Fazemos muitos provérbios e diversas maneiras com as quais o homem pode ter matéria para falar dos bons costumes».38 O provérbio é a fórmula mediante a qual se ensina com poucas palavras o que em outras obras do Beato se expõe de forma ampla e detalhada. Com certeza, estes provérbios bem se poderiam resumir, devido ao caráter doutrinal, com a palavra mashal de origem judaica e que agrupa provérbios, admoestações e sentenças, como noLivro dos Provérbios da Bíblia.39

Os temas destes provérbios são vários: teologia, filosofia, moralidade, natureza, física, etc., e sua extensão é variada. Podemos considerar alguns destes provérbios como aforismos devido à sua brevidade e ao seu caráter doutrinal. Do mesmo modo, alguns destes provérbios são simples sentenças, o que contradiz a concepção apresentada no prólogo dos Provérbios de Ramon e na citação do Livro dos Mil Provérbios, pois resultam de largas composições com aclarações similares às Sentenças de Pedro Lombardo. Por outro lado, o conceito do provérbio em Ramon Llull baseia-se não em um ensinamento específico, mas num ensino genérico de base doutrinal.

Após esta sucinta explicação sobre o gênero proverbial em Ramon Llull, passamos ao significado que toma este tipo de composição na obra luliana. Já dissemos que o principal apótema luliano é a conversão do infiel e que toda a sua obra gira em torno dessa premissa. A conversão, segundo Ramon Llull, não se deve realizar mediante ‘autoridades’, mas mediante ‘razoes necessárias’, que ensinem ao infiel entender a falsidade da sua religião e a verdade de Cristo. Para Ramon Llull, a fé se convertia no primeiro passo para se chegar a entender os articulis fidei, já que a fé era a iluminação do entendimento, e essa iluminação junto com as razoes necessárias servia para provar a existência de Deus. Graças à brevidade do gênero proverbial, Ramon Llull podia mostrar seu ensino sobre a verdade da religião cristã, o que converte o Livro dos Mil Provérbios num verdadeiro manual para o missionário, pois ele contém toda a doutrina luliana de forma breve, direta e ordenada. É, realmente, um livro escrito para todos os homens, seculares ou religiosos.

Neste panorama antropológico, a ‘autoridade escolástica’ não tem valor para Ramon Llull40, já que a compreensão dos articulis fidei, da essência de Deus, não se pode realizar através de ‘símbolos’ que declaram a fé, mas mediante alguns argumentos cognoscitivos – neste caso a Ars luliana – que podem mostrar, graças à ajuda da fé, a natureza divina. Portanto, a Ars luliana se erige como «uma arte de conversão dos infiéis, sem deixar de ser uma arte de salvação e uma arte de descobrir a verdade, comum a todas as ciências».41 Em outro plano, a realidade luliana consiste em fazer acessível a Trindade e a Encarnação, já que estes dois são os elementos que separam cristãos de judeus e muçulmanos.

Conforme o que acabamos de dizer, a redação do Livro dos Mil Provérbios responde a esta pretensão luliana de caráter apologético. Os temas se sucedem um após outro, sempre em torno de Deus, Suas bondades e dignidades.

O Livro dos Mil Provérbios

Em 1299, de volta da corte de Paris, Llull tentou a sorte em Barcelona, onde dedicou o Ditado de Ramon (1299) ao rei Jaime II de Aragão, e o Livro de Orações (1299) à sua esposa, a rainha Blanca. Após esta breve estadia em Barcelona, Llull se trasladou a Maiorca, onde residiu até o ano 1301, ocupando-se em disputas teológicas com os sarracenos da ilha. Neste momento, chegou a noticia de que os tártaros conquistaram o reino da Síria. Assim, embarcou rumo a Chipre, onde se soube que a informação era falsa. Passou alguns meses na ilha, onde escreveu sua Retórica nova, na qual Ramon realiza um comentário sobre sua própria técnica literária. Em 1302, Llull cruzou a Armênia, possivelmente para ir a Jerusalém e retornou a Gênova. Durante essas viagens escreveu o Livro dos Mil Provérbios. O início do manuscrito do século XIV, procedente da Biblioteca Provincial de Palma de Maiorca é mais que claro ao respeito: “Estes Provérbios fez e ditou o Mestre Ramon Llull de Maiorca, chegando de alto mar, no ano de nosso Senhor Deus Jesus Cristo MCCC e dois”.42

Estes mil provérbios de Ramon Llull estão agrupados em cinqüenta e dois capítulos que ligam um número de provérbios que está entre os dezessete e os vinte e dois, somando um total de mil trinta provérbios. A organização dos capítulos segue uma ordenação hierárquica: I. Da Devoção, II. Do Prelado, III. Do Príncipe, IV. Dos Súditos..., onde observamos uma espécie de pirâmide, na qual o primeiro estágio é Deus, o segundo estágio é o governo terreno e o terceiro será o homem. Contudo, as virtudes marcam a progressão dos elementos agora aludidos.

Certamente, Ramon Llull quer outorgar um novo código de virtudes baseado nas uirtutes dei e no amor a Deus acima de todas as coisas. A este respeito, as virtudes que tomaram mais significação nesta obra são a Prudência, a Temperança e a Fortaleza, as três virtudes que no mundo clássico deve possuir um homem sábio.43 É esta uma maneira de proporcionar novos valores à sociedade e, o que é mais importante, uma nova maneira de legar novos conceitos aos predicadores. Assim, seguindo as preceptivas do ‘diálogo inter-religioso’, mediante estas virtudes o predicador consegue a sabedoria e pode manter um verdadeiro diálogo com os infiéis. Esta é a função mais importante dos provérbios que Ramon Llull apresenta: dar a conhecer o amor a Deus e as virtudes que o homem deve ter para assimilar-se a Deus.

Seguindo esta concepção, o homem sábio, aquele que possui as virtudes mencionadas, será um homem que pode vencer todos os vícios, porque está mais próximo de Deus e, por isso, poderemos falar de ‘homem virtuoso’. As virtudes giram em torno do Alfabeto luliano, representação do caráter formal das figuras da Ars44:

 

Princípios absolutos

Princípios relativos

Perguntas

Sujeitos

Virtudes

Vícios

B

Beleza

Diferença

Utrum?

Deus

Justiça

Avareza

C

Magnitude

Concordância

Quid?

Anjos

Prudência

Gula

D

Eternidade

Contrariedade

De quo?

Céu

Fortaleza

Luxuria

E

Poder

Princípio

Quare?

Homem

Temperança

Soberba

F

Sabedoria

Meio

Quantum?

Imaginativa

Acídia

G

Vontade

Fim

Qual?

Sensitiva

Esperança

Inveja

H

Virtude

Maioridade

Quando?

Vegetativa

Caridade

Ira

I

Verdade

Igualdade

Ubi?

Elementativa

Paciência

Mentira

K

Glória

Menoridade

Quo modo / cum quo?

Instrumentativa

Piedade

Inconstância

Neste quadro podemos ver os pares Virtudes-Vícios que encontramos em toda nossa obra. Todos estes pares estão relacionados com os princípios e é mais que fundamental que Ramon Llull os utilize para a composição do Livro dos Mil provérbios. Ditos principia são princípios absolutos que, em origem, se denominaram dignitates dei. Estes principia são, também, os principia essendi e os principia intelligendi da criação, que, por este motivo, não podem ser comprovados (pois são condições de possibilidade do ser e do conhecer), ligando-se esta concepção com a intenção missionária de Ramon Llull: estamos diante dos lugares comuns das três grandes religiões reveladas, judaísmo, cristianismo e islamismo, e, neste sentido, se Deus é aquilo quo nihil maius cogitari potest, feito que nenhum judeu, cristão ou muçulmano podiam negar, devemos aceitar a atividade ad intra da divindade, e, conseqüentemente, a Trindade. Na obra de Ramon Llull, tudo gira em torno da conversão do infiel e do conhecimento de Deus, até os livros que, em aparência, parecem mais literários que doutrinais.

Ligados a isto último, a conversão e o conhecimento se conseguem graças ao Amor. O amor a Deus e a Cristo é a chave para se alcançar as virtudes, pois estas só se logram quando o homem tem conhecimento verdadeiro da divindade. Assim, o processo é circular: o homem deve ter Prudência, Fortaleza e Temperança no seu comportamento na vida ativa, para, chegado à vida contemplativa, lograr entrever a grandeza divina e, em compensação, adquirir aquelas virtudes que o assimilaram a Deus.45

Terminada a interpretação de caráter doutrinal do Livro dos Mil Provérbios devemos dedicar umas linhas ao seu caráter formal. Nesta obra de provérbios não estamos ante um texto complicado e de tom escolástico como é o caso dos Proverbis de Ramon (1296), muito mais amplo, dividido em três livros e com mais de seis mil provérbios. Não estamos frente a uma obra tão monumental, senão ante um texto que quer ser popular, também para o uso quotidiano das gentes do povo. Este fator une-se ao conceito que Ramon Llull tem da predicação: o fim da predicação luliana consiste em aportar os cimentos de uma moral cristã, que consiste em expor uma dita ética baseando-se nos princípios de seu método ‘artístico’, que está encaminhado ao entendimento e não à vontade, já que a Ars luliana não se fundamenta em autoridades.46

Este é um dos motivos pelos quais o presente texto não é uma obra com simbolismos complicados, nem parábolas escondidas. Não, Ramon Llull quer entregar um texto próximo a todos os homens, um texto com o qual podam lograr as virtudes necessárias para se entender a Deus e amar-lhe como bons cristãos. Segundo Antoni Comas, “Estes provérbios constituem uma faceta muito significativa da obra de nosso autor. Em certos momentos tem valor de síntese do pensamento luliano ou refletem aspectos e particularidades da sua vida ou da sua ideologia”.47

O aspecto codicológico da obra é o que segue: há dois manuscritos em catalão, um manuscrito miscelâneo do século XIV, que procede da Biblioteca Provincial de Palma de Maiorca e um codexmiscelâneo do século XIV da Biblioteca Universitaria de Valencia, em latim. As edições do Livro dos Mil provérbios são três: Beati Raymundi Lulli Doctoris Illuminati et Martyris Liber de mille proverbiis latina simul et lemouicensi lingua nunc primum editus, Miquel Cerdà-Miquel Amorós (ed.), Mallorca, 1746; OR. Proverbis de Ramon. Mil proverbiis. Proverbis d’ensenyament, Salvador Galmés (ed.), Mallorca, 1928; Libre dels mil proverbis, Josep Renyé (ed.), Fondarella, 1989. Neste momento, o Prof. Dr. Jaume Medina da Universitat Autònoma de Barcelona está realizando para as ROL a edição latina do Liber mile prouerbiorum. A obra nunca foi editada em português.

 

Notas

  • 1. VELLASCO, Ana Maria de Moraes Sarmento. “Coletânea de provérbios e outras expressões populares brasileiras”.
  • 2. Ver ESTANQUEIRO, António. A sabedoria dos provérbios. Lisboa: Editorial Presença, 1998.
  • 3. Ver também o texto de LACAZ-RUIZ, Rogério. “O Referencial Comum dos Provérbios e a Personalidade Humana”.
  • 4. LAUAND, Jean. “500 provérbios portugueses antigos. Educação moral, mentalidade e linguagem”. InRevista Videtur – Letras 4. Ver também do mesmo autor, “250 Provérbios Árabes”, COLLATIO – Estudios académicos / Estudos acadêmicos. ANO III No. 5 – 2000 e e Provérbios e Educação Moral – A filosofia da educação de Tomás de Aquino e a Pedagogia do mathal. São Paulo: Mandruvá. 1997.
  • 5. ROSE-MARIE e HAGEN, Rainier. Pieter Bruegel, o Velho (cerca de 1525-1569). Camponeses, loucos e demónios. Germany: Benedikt Taschen, 1995, p. 36.
  • 6. ROSE-MARIE e HAGEN, Rainier, op. cit., 1995, p. 34.
  • 7. ROSE-MARIE e HAGEN, Rainier, op. cit., 1995, p. 34.
  • 8. HUIZINGA, Johan. O declínio da Idade Média. Lisboa: Editora Ulisseia, s/d, p. 239.
  • 9. A esse respeito, Álvaro Santamaría (Ramon Llull y la Corona de Mallorca. Sobre la estructura y elaboración de la Vita Raymundi Lulli [Monografies, 1], Mallorca, Societat Arqueològica Lulliana, 1989, pp. 93-108) submete a reflexão à afirmação senescalus mense regis Maioricarum, qualificando dita sentença de «histórica e institucionalmente impensável» (p. 97), já que tal cargo o ocupavam os nobres mais importantes – no caso de Catalunha, os Montcada e, no Reino de Mallorca em 1324, o visconde de Canet (p. 101). Os Llull eram proprietários importantes, mas não pertenciam à alta nobreza, nem eram cavaleiros da cidade. Cf. também, Ricard Soto, «Alguns casos de gestió “colonial” feudal a Mallorca», em La formació i expansió del feudalisme català, Actes del colloqui organitzat pel Collegi Universitari de Girona (8-11 de gener de 1985), Estudi General (5-6) 1985-6, p. 345-369; que possui muitos documentos relacionados às atividades dos Llull.
  • 10. Na Ocitânia (França), ao norte da cidade de Tolosa de Languedoc. O santuário de Rocamadour era um dos lugares de destino mais reconhecidos para a penitência.
  • 11. Na Galícia, ao noroeste de Espanha.
  • 12. Ramon de Penyafort foi o geral da ordem dos predicadores (1237-1240) e um dos maiores impulsores dos studia linguarum, colégios, onde se ensinavam a língua e a cultura dos povos árabe e judeu. Ver F. Valls Taberner, San Ramon de Penyafort, Barcelona, Ed. Labor, 1936 y M. Batllori, «L’entrevista amb Ramon de Penyafort a Barcelona», Obres Completes. Ramon Llull i el lul·lisme, Valencia, Tres i Quatre, vol. II, p. 45-49.
  • 13. O leitor interessado nos dados biográficos de Lúlio pode consultar: E. Allison Peers, Ramon Lull: A Biography, Londres, 1929; F. Sureda Blanes, El beato Ramon Llull (Raimundo Lulio): su época, su vida, sus obras, sus empresas, Madrid, 1934; L. Riber, Raimundo Lulio (Ramon Llull), Barcelona, “Colección Pro Ecclesia et Patria”, vol. I, 1949; A. Llinarès, Raymond Lulle, philosophe de l’action, Grenoble, Université de Grenoble, 1963; M. Batllori, «Certeses i dubtes dins la biografia de Ramon Llull», Ramon Llull i el lullisme, Valencia, Tres i Quatre, 1993, pp. 83-86; Heigues Didier, Raymond Lulle, París, Deasclée de Brower, 2001.
  • 14. Sobre o pensamento luliano: E. Longpré, “Lulle, Raymond (Le bienheureux)”, DTC, IX, 1, París, 1926, col. 1072-141; E. W. Platzeck, Raimund Lull. Sein Leben. Seine Werke. Die Grundlagen seines Denkens, 2 vol., Düsseldorf, Bibliotheca Franciscana (5-6), 1964; Ll. Sala Molins, La philosophie de l’amour chez Raymond Lulle, París-La Haya, Mouton, 1974; Miguel Cruz Hernández, El pensamiento de Ramon Llull, Valencia, Castalia-Fundación Juan March, 1977; Amador Vega, Ramon Llull y el secreto de la vida, Barcelona, Ediciones Siruela, 2002.
  • 15. Cf. A. Bonner, “La situación del Libre del gentil dentro de la enseñanza luliana en Miramar”, em Actas del II Congreso Internacional de Lulismo. Miramar, 19-24 de octubre 1976, vol. I, Palma de Mallorca, 1979, p. 49-55.
  • 16. Cf. Jordi Gayà, Raimondo Lullo. Una teologia per la missione, Milan, Jaca Book, 2002.
  • 17. Para uma análise mais pormenorizada sobre a questão dos provérbios na Idade Média cf. Álvaro Alfredo Bragança Júnior, A fraseologia medieval latina como reflexo de uma sociedade, Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Setor de Reprografia da Faculdade de Letras, 1999.
  • 18. Cf. Maria Helena Trench de Albuquerque, Um exame pragmático do uso de enunciados proverbiais nas interações verbais correntes, São Paulo, Universidade de São Paulo, 1989. Dissertação de Mestrado da Área de Filologia Românica, p. 35.
  • 19. Cf. OTTO, A, Die Sprichwörter und sprichwörtlichen Redensarten der Römer, 2. Aufl., Hildesheim, Georg Ohlms Verlag, 1971.
  • 20. Não é escopo deste artigo uma detalhada discussão sobre trovadores e menestréis, pois o tipo de texto por eles composto não se insere neste texto luliano.
  • 21. Cf. Maria Helena Trench de Albuquerque, op.cit., p. 36.
  • 22. Sobre a extensa e ainda incerta delimitação das expressões fraseológicas cf. o capítulo 2 de Bragança Júnior, op.cit., p. 18-30.
  • 23. Cf. Maria Lúcia Mexias Simon, Para uma estrutura proverbial nas línguas românicas, Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1989. Dissertação de Mestrado em Filologia Românica, p. 18-25.
  • 24. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Novo Dicionário da L íngua Portuguesa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1995.
  • 25. Cf. José Pereira da Silva, “A classificação das Frases feitas de João Ribeiro”. InIII Encontro Interdisciplinar de Letras, Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1992, p. 194-197.
  • 26. Cf. Amadeu Amaral, Tradições populares, São Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1948, p. 219.
  • 27. Cf. Archer Taylor, The proverb and an Index to ‘The Proverb’, Bern, Frankfurt am Main, New York, Lang, 1985, p. 3.
  • 28. Cf. Maria Lúcia Mexias Simon, op. cit., p. 26-27.
  • 29. Cf. SEITEL, Peter apud MONYE, Ambrose A. “Proverb usage: kinds of relationships”. InProverbium. Yearbook of International Proverb Scholarship, Ohio, The University of Ohio, 1986, v. 3, p. 87-88.
  • 30. Cf. Segismundo Spina, Manual de versificação românica medieval, Rio de Janeiro, Gernasa, 1971, p. 16.
  • 31. As propriedades acima listadas foram retiradas de Maria Helena Trench de Albuquerque, op. cit., p. 28-29. Fizemos algumas alterações quanto à apresentação do citado texto para adequá-lo ao nosso trabalho, sem, contudo, modificar as palavras da autora.
  • 32. No aspecto literário, cf. Jordi Rubió, «La literatura catalana», em Historia general de las literaturas hispánicas, Guillermo Díaz-Plaja (ed.), I, Barcelona, 1949; Íd., Obres de Jordi Rubió i Balaguer. Ramon Llull i el lul·lisme, Barcelona, Publicacions de l’Abadia de Montserrat, 1985; Lola Badia, Teoria i pràctica de la literatura en Ramon Llull, Barcelona, Quaderns Crema, 1991; A. Bonner-L. Badia,Ramon Llull. Vida, pensamiento y obra literaria, Barcelona, Quaderns Crema, 1993. No sentido doutrinal remeto o leitor a Jordi Pardo Pastor, «El caballero a lo divino en Ramon Llull: contra el pecado de la lujuria», Revista Mirabilia, 1 (2001), www.revistamirabilia.com. Com respeito à situação da Península Ibérica no século XIII, cf. Ibid., «Literatura y Sociedad en el Mundo Románico Hispánico (s. X-XIII): Texte et Contexte», Revista Internacional d’Humanitats, 6 (2003), p. 27-36.
  • 33. O Prof. Jordi Pardo Pastor está realizando a edição crítica latina do Liber proverbiorum para as ROL.
  • 34. Do mesmo modo, a edição latina do Liber mile proverbiorum para as ROL está sendo realizada pelo Prof. Jaume Medina.
  • 35. Cf. a introdução de S. Garcías Palou a Ramon Llull, Proverbis de Ramon, Madrid, Editora Nacional, 1978, p. 9-56.
  • 36. Ramon Llull, Proverbis de Ramon, em Obres de Ramon Llull, Mallorca, 1927, XIV, “Del prolech”.
  • 37. Ramon Llull, Llibre dels mil proverbisObres de Ramon Llull, Mallorca, 1927, XIV, p. 327.
  • 38. Ramon Llull, Llibre dels mil proverbised. cit., p. 328.
  • 39. Dom Ramir Augé aponta que: “é curioso que se encontrem uns ao lado dos outros provérbios, admoestações e sentenças, e que estes gêneros literários (e, provavelmente, também o enigma ou adivinhação) sejam resumidos em uma só palavra mashal” [Dom Ramir Augué, Proverbis, em La Biblia (Versão dos textos originais e comentários pelos monges de Montserrat), 1946, p. iv].
  • 40. Cf. Anthony Bonner, «L’Art lul·liana com a autoritat alternativa», Studia Lulliana 33/1 (1993 [1994]), pp. 15-32; ibid., «Ramon Llull i el rebuig de la tradició clàssica i patrística», en Homenatge a Miquel Dolç. Actes del XII Simposi de la Secció Catalana i I de la Secció Balear de la SEEC. Palma, 1 al 4 de febrer de 1996, Palma de Mallorca, 1997, p. 373-385; Jordi Pardo Pastor, «Las auctoritates bíblicas en Ramon Llull: etapa 1304-1311», Revista Española de Filosofía Medieval 11 (2004) [en prensa]; ibid., «El versículo Isaías 7, 9 en la obra de Ramon Llull», Patristica et Mediaevalia 25 (2004) [no prelo].
  • 41. Cf. Joaquim y Tomàs Carreras Artau Historia de la filosofía española. Filosofía cristiana del siglo XIII al XV, Madrid, 1939, vol. I, pp. 398 (reeditado pelo Institut d’Estudis Catalans-Diputació de Girona, Barcelona-Girona, 2001).
  • 42. Não tivemos acesso ao manuscrito, mas tomamos a referência da introdução de Antoni Comas ao Livro dos mil provérbios em OE, p. 1246.
  • 43. Pere Villalba, “Reminiscencias ciceronianas en Ramon Llull”, em Alexander Fidora e Jordi Pardo Pastor (edd.), Convenit Internacional / Convenit Selecta. Cicero and the Middle Ages, 7 (2001), Frankfurt am Main/Barcelona, 2001, pp. 81-86; estabelece mais paralelismos com o mundo clássico, tais como caritaspatientiapietas e amicitia.
  • 44. Ver Alexander Fidora, “El Ars brevis de Ramon Llull: Hombre de ciencia y ciencia del hombre”, em Alexander Fidora y José Higuera Rubio (edd..), Ramon Llull: caballero de la fe. El Arte luliano y su proyección en la Edad Media, Pamplona, Cuaderno de Anuario Filosófico, 2001, pp. 61-80.
  • 45. Ver Jordi Pardo Pastor, «Tradición misticoplatónica en el Llibre d’amic e Amat de Ramon Llull», Estudios Eclesiásticos 76 (2001), pp. 437-450.
  • 46. Ver nota 17.
  • 47. Antoni Comas, Introducció, em Ramon Llull, Libre dels mil provérbis, OE, p. 1249.

Aprenda mais