Por uma geografia mitológica: a lenda medieval do Preste João, sua permanência, transferência e “morte”

Se abriram as cortinas e subitamente vimos o Preste João, ricamente adornado sobre uma plataforma de seis degraus. Tinha em sua cabeça uma grande coroa de ouro e prata. Uma de suas mãos apoiava uma cruz de prata (...) À sua direita, um pajem apoiava uma cruz de prata bordada em forma de pétalas (...) O Preste João usava um belo vestido de seda com bordados de ouro e prata e uma camisa de seda com mangas largas. Era uma bela vestimenta, semelhante a uma batina de um bispo, e ia de seus joelhos até o chão (...) Sua postura e seus modos são inteiramente dignos do poderoso personagem que é.
( Francisco Alves, embaixador português enviado à Etiópia, século XVI)

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I. O nascimento do mito

A queda da cidade de Edessa, na Palestina (1144), após um cerco de vinte e oito dias efetuado por Imad ed-Din Zengi (general do sultão Mahmud), foi o principal motivo da pregação da Segunda Cruzada na Europa. O banho de sangue que se seguiu à conquista causou comoção nos líderes europeus. O cronista árabe Ibn al-Qalãnisi relatou o fato:

Começaram então o saque e a matança, a captura e a pilhagem. As mãos dos vitoriosos se encheram de dinheiro e tesouro, cavalos e presas de guerra o suficiente para alegrar e fazer com que as almas se regozijassem (al-Qalãnisi, 279-80) (GABRIELI, 1984: p. 50).

Hugo, bispo de Jabala, foi enviado como embaixador pelo reino de Jerusalém e o principado de Antioquia para tratar com o papa Eugênio III (pisano, 1145-1153) — que se encontrava em Viterbo, pois Roma estava em poder de um grupo hostil ao papa — a possibilidade de uma nova cruzada. Em Viterbo também se encontrava Oto Babenberger, alemão, bispo de Freising e tio de Frederico I Barba-Ruiva, imperador do Sacro Império Romano-Germânico (1152-1190). Oto registrou em sua Chronica a notícia, mas estava na cúria papal com o objetivo de notificar a Eugênio III a existência de um potentado cristão na Ásia, mais precisamente na fronteira com a Pérsia, que fazia então uma guerra vitoriosa contra o mundo árabe (RUNCIMAN, 1973: p. 229).

O rei deste reino maravilhoso, que triunfava numa segunda frente de batalha contra o Islã num momento em que todos fracassavam, chamava-se Preste (padre) João. Era nestoriano, portanto herético — a controvérsia nestoriana foi um cisma cristológico provocado pela culminação da escola antioquiana de teologia nas obras de Nestor (c. 381-451), patriarca de Constantinopla em 428-31. Nestor considerou que Cristo tinha duas naturezas (duo physeis) mas isso não fazia dele dois Filhos, pois as naturezas distintas estavam unidas numa conjunção voluntária. Essa concepção forçou Nestor a argüir contra a atribuição a Maria do título de "Mãe de Deus"(Theotokos, portadora de Deus). Para ele; o termo era impróprio porque ela tinha gerado apenas um homem a quem o Verbo de Deus estava unido (LOYN, 1990: p. 272).

Mas que importava? Um aliado, herético mas cristão, vencendo em outra frente de batalha, minando o inimigo, o “outro”, alimentando as esperanças de uma vitória final da verdadeira fé. Seu exército era imenso: sua carta, destinada apenas a “Nossa Majestade”, afirma que sua milícia levava “treze grandes e altas cruzes, feitas de ouro e de pedras preciosas (...) e a cada uma delas seguem dez mil soldados e cem mil peões armados” (Carta do Preste João das Índias. Versões Medievais Latinas, 1998: p. 82). Com este poderoso exército, Preste João teria conquistado Ectabana, capital persa, dirigindo-se então para o norte, quando então regressou a seu país.

Foi dessa forma que o mito de Preste João "entrou" na História, ou seja, pelas mãos de Oto de Freising. O bispo foi além: já na corte de Frederico I Barba-Ruiva, provavelmente falsificou uma carta, que teria sido enviada em 1150 por Prestes João ao imperador bizantino Manuel I Comneno (1143-1180), ao papa e ao próprio Frederico I Barba-Ruiva.

A notícia dessa suposta carta que contava as maravilhas do reino de Preste João espalhou-se pela Europa. Até o século XV foram feitas várias traduções e cópias. Suas diferentes versões descrevem as maravilhas de seu reino. Jóias corriam nos rios, o palácio do Preste João abrigava 30.000 pessoas à mesa, todos os dias “...não contando com os forasteiros que chegam ou partem. E todos eles recebem em cada dia, da nossa câmara, ajudas de custo quer em cavalos quer em outras espécies” (Carta do Preste João das Índias. Versões Medievais Latinas, 1998: p. 82).

Seu palácio era ricamente decorado. Teto de cedro, cobertura de ébano, em seu cume dois pomos de ouro, portas de sardônica, janelas de cristal, mesas de ouro e ametista com colunas de marfim. Além disso, existiam seres fantásticos: “bois selvagens, sagitários, homens selvagens, homens com cornos, faunos, sátiros e mulheres da mesma raça, pigmeus, cinocéfalos, gigantes, cuja altura é de quarenta côvados, monóculos, ciclopes e uma ave que chamam fénix e quase todo o género de animais que existem debaixo do céu.” (Carta do Preste João das Índias, p. 56)

Preste João tinha um aspecto jovem, “apesar de ter então 562 anos de idade” (FRANCO JR., 1992: p. 39-40), porque banhava-se na própria Fonte da Juventude. A carta situa a Fonte num bosque, no sopé do monte Olimpo, não muito longe do Paraíso “de onde Adão foi expulso”: “Se alguém beber em jejum três vezes dessa fonte, a partir desse dia nunca mais sofrerá de qualquer doença e será sempre, enquanto viver, como se tivesse trinta e dois anos de idade” (Carta do Preste João das Índias, p. 64-66).

Quando atingiam os cem anos de idade, os homens rejuvenesciam bebendo da água da Fonte, até completarem 500 anos, quando então morrem, e, por tradição, são enterrados juntos de árvores que possuem folhas que nunca caem e são duríssimas. “A sombra dessas folhas é agradabilíssima e os frutos dessas árvores de suavíssimo odor” (Carta do Preste João das Índias, p. 68).

Em seu reino estava também a Árvore da Vida, que fazia fronteira com o Paraíso, a apenas um dia de distância. “Porém ela era guardada por uma serpente duas vezes maior que um cavalo, tendo ainda nove cabeças e duas asas. Vigilante o tempo todo, ela dormia apenas no dia de São João Batista, quando se podia recolher o bálsamo que a árvore produz e do qual se faz o crisma, o óleo sagrado” (FRANCO JR., 1992: p. 39-40). Ela representava o próprio Preste João porque “...tal como essa árvore ultrapassa as outras em fruto e aroma, do mesmo modo a nossa pessoa neste mundo não tem semelhante nem igual.” (Carta do Preste João das Índias, p. 114-116).

Neste reino maravilhoso não havia corrupção, guerras ou violência, o mal inexistia: “Entre nós não existem pobres. Não existe entre nós nem roubo nem rapina, nem o adulador ou o avaro têm lugar aqui. Não há disputa entre nós. Os nossos homens abundam em todas as riquezas.” (Carta do Preste João das Índias, p. 76).

Seus súditos eram abençoados por terem um rei tão maravilhoso. A similitude com Salomão é clara: “A população de Judá e de Israel (...); comiam, bebiam e viviam felizes” (l Rs, 4,20). Preste João proclamava-se imperador de 72 reis na Ásia — o número 72 era uma analogia a Isidoro de Sevilha: “De fato, segundo a autoridade de Isidoro de Sevilha, o mundo é formado por 72 povos (44: IX, 2, 2), e Preste João afirma na sua carta governar 72 províncias, cada uma delas tendo um rei que lhe é tributário (FRANCO JR., 1992: p. 39-40): “Setenta e dois reis são nossos tributários (...) Setenta e duas províncias nos prestam vassalagem” (Carta do Preste João das Índias, p. 54).

Dessa maneira, não é de surpreender que, em 1177, o papa Alexandre III (sienês, 1159-1181) tenha enviado como embaixador para o reino de Preste João seu médico particular, Felipe, solicitando ajuda contra os muçulmanos. A Igreja já nesse momento, também enxergava a possibilidade de se apropriar do mito. Ao que parece, Felipe terminou sua missão na Abissínia sem nenhum resultado (RUNCIMAN, 1973: p. 382).

Mas qual o interesse do bispo Oto de Freising para divulgar um rei lendário, um reino fantástico e falsificar esta carta? Devemos buscar no contexto político germânico da época as causas da atitude do bispo alemão. Em primeiro lugar, as lutas internas no Império entre guelfos e gibelinos — guelfo — de Welf, ou Guelf, tio do duque Henrique da Baviera, que se opôs à eleição de Conrado III da Suábia, o primeiro da dinastia dos Hohenstaufen; gibelino — de Waiblingen, aldeia pertencente aos Hohenstaufen. Mais tarde, na Itália, com as campanhas de Frederico contra a Liga Lombarda, guelfo passou a designar os partidários do papa, e gibelino os partidários do imperador.

Outra questão importante era a disputa entre Frederico e o papa Alexandre III (poder temporal x poder espiritual) — que tinha suas origens na Questão das Investiduras — uma grande crise que assolou as relações entre o Império e o Papado, e, na verdade, entre a Igreja e as Monarquias européias de um modo geral, no período de 1075 a 1122 (Investidura — ato físico de investir um clérigo com as insígnias do cargo). Todas estas questões faziam do mito de Preste João um importante instrumento político nas mãos de Frederico (FRANCO JR., 1994), como veremos.

Como imperador, Frederico também detinha o título de rei da Lombardia. Resolvendo assumi-lo literalmente, enviou a cada uma das cidades lombardas italianas um podestàs — representante imperial — para governar em seu nome. O papa Alexandre III, com receio pelos direitos temporais do papado, excomungou-o (1160). A Liga Lombarda (composta pelas seguintes cidades: Verona, Bolonha, Milão, Vicenza, Treviso, Pádua, Mântua, Bréscia, Cremona, Ferrara, Bérgamo, Parma, Módena e Piacenza), criada em 1167 após a tomada de Milão por Frederico (o imperador arrasou a cidade, incendiando-a totalmente), venceu o exército germânico em Legnano (1176), obrigando-o a se reconciliar com o papa e assinar um tratado restituindo o governo próprio das cidades italianas (Tratado de Constança, de 1183).

O imperador necessitava de um apoio espiritual superior ao papa, um suporte mental que desse legitimidade às suas pretensões de um grande Império contra o poder papal (DUFFY, 1998: p.108-109). Preste João era a oportunidade que Frederico estava esperando. Através de uma série de confluências mitológicas, o imperador construiu uma “ponte” com Preste João, que, por sua vez, desembocava em Cristo. De que forma?

Preste João tinha elementos que o projetavam até o nascimento de Cristo, mais especificamente na figura dos três reis magos, que, numa tradição oriental, seriam seus ascendentes diretos (FRANCO JR., 1994). Devemos então observar a ligação dos magos com Cristo.

II. Os três Reis Magos e Jesus Cristo

Na tradição bíblica, o encontro dos magos com Jesus se encontra no Evangelho de Mateus: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos a sua estrela no céu surgir e viemos homenageá-lo”(Mt 2, 1-2).

O diálogo narrado se deu entre os magos e Herodes. Alarmado, Herodes ordenou aos magos que se certificassem do nascimento. Maravilhosamente, a estrela os conduziu à casa de Jesus: “Eles, revendo a estrela, alegraram-se imensamente. Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o homenagearam. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho que não voltassem a Herodes, regressaram por outro caminho para a sua região” (Mt. 2, 10-12).

O onírico novamente interfere nas ações humanas. Os magos, “do Oriente”, região por excelência “dos sábios astrólogos”, ofereceram os presentes paradigmáticos do “outro” mundo: ouro, incenso e mirra. Para os Padres da Igreja, simbolizam respectivamente a realeza, a divindade e a paixão (A Bíblia de Jerusalém, 1991: p. 1.839).

É interessante observar que apenas Mateus descreve o encontro com os magos. Marcos e João nada dizem; Lucas fala na presença de pastores (Lc, 2, 1-20). Essas diferenças podem ser historicamente explicadas? (MEIER, 1992: p. 205-230). Possivelmente não. Por exemplo, salta aos olhos que em sua obra Joseph Meier não comente ou tente explicar a ausência dos Três Magos nos outros Evangelhos sinópticos.

Mas o mais importante neste ensaio é identificar o momento em que os magos entraram na casa de Jesus: simultaneamente. Esta tradição bíblica difere significativamente de outra tradição, oral, apócrifa, fixada por Marco Polo (1254-1324) em seu Livro das Maravilhas. Nele, Polo encontra seus túmulos, dá seus nomes (que não constam do Evangelho segundo São Mateus) — Baltazar, Gaspar e Belchior —; identifica a cidade de onde partiram para adorar o menino Jesus (“Sava”, atual Saveh, cem quilômetros a sudoeste de Teerã) (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 64).

Por fim, narra o momento de encontro:

Chegando ao local onde havia nascido o Menino, o mais novo daqueles reis saiu da caravana e foi sozinho vê-lo, e verificou que era parecido consigo próprio, pois tinha a sua idade e estava vestido como ele; ficou assombrado o Rei Mago. 

Logo a seguir foi o segundo Rei Mago, que era de meia-idade, e certificou-se do mesmo; aumentava a surpresa deles. 
        
Finalmente foi o terceiro rei, que era o mais velho dos três, e sucedeu-lhe aquilo que tinha sucedido aos outros. Ficaram muito pensativos. Quando se reuniram, contaram uns aos outros o que tinham visto e maravilharam-se todos. 
        
Decidiram, então, ir os três ao mesmo tempo, encontrando o Menino do tamanho e com a idade que lhe correspondia (pois não tinha mais do que três dias). Prostraram-se diante dele, oferecendo-lhe o ouro, o incenso e a mirra. O Menino aceitou tudo aquilo e em troca ofereceu-lhes um cofrezinho fechado. Os Reis Magos voltaram aos respectivos países” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 58-59).

Os Magos são o “Cristo tripartido”. Nessa “genealogia mitificada e idealizada” da tradição oriental, eles são associados a Preste João, que assim descenderia do próprio Cristo (FRANCO JR., 1994). Mas e Frederico? Onde se insere nessa tradição mitológica que vai de Cristo a Preste João, passando pelos três Reis Magos?

Sua ligação é de reconhecimento, diplomático, real e imperial. A ele, ao imperador bizantino e ao papa Preste João se dirige. Frederico, através de seu tio Oto de Freising, traz o mito para si, como os reis magos e Carlos Magno, como força espiritual em sua luta por um império à frente dos demais reinos da Europa.

Assim, Frederico se colocava na condição de maior representante da Cristandade, único digno de trocar correspondência com o descendente direto de Cristo. Estava dessa maneira acima de Alexandre III ou de qualquer outro que estivesse no cargo de Sumo Pontífice.

Frederico também cercou-se de provas materiais. Quando da tomada de Milão, que nos referimos anteriormente, o imperador se apossou das relíquias dos reis magos, que se encontravam na cidade. Transferiu-as para Colônia, cidade alemã que também possuía muitas relíquias (FRANCO JR., 1994).

Paralelamente, promoveu a canonização de Carlos Magno (embora Carlos Magno não tenha sido santificado, foi incluído no rol dos bem-aventurados em 1165, isto é, aquele que desfruta após a morte uma felicidade celestial eterna. De qualquer modo, é o primeiro passo para a sua canonização). Assim, isso não significa um fracasso nas intenções de Frederico: seu projeto de ter um antepassado real “santo” foi realizado. Foi uma forma de aumentar seu prestígio e sua aura sacrossanta, através de um antecessor glorioso alçado à santidade. Esse “processo santificatório” só pôde ser levado a cabo pela falsificação de Oto de Freising.

No fim de sua vida reconciliou-se com Roma. A morte de Urbano III em 1187 facilitou as coisas; Gregório VIII (de Benevento, 1187) e Clemente III (romano, 1187-1191) mostraram-se amistosos com esse novo aliado na luta contra o Islã (RUNCIMAN, 1973: p. 23-24).

Sua inesperada morte a caminho da Palestina para a Terceira Cruzada, afogado — um rude golpe tanto para seus seguidores cruzados quanto para todo o mundo franco (RUNCIMAN, 1973: p. 28) — aumentou as lendas que cercaram sua figura. Para muitos Frederico não havia morrido; estava adormecido na montanha Kyffhauser, na Turíngia, pronto para voltar e trazer a glória do Sacro Império de volta. Uma lenda afirmava que podia-se ver a longa barba de Frederico crescendo através do mármore que o cobria. Um dia ele despertaria e faria de novo o Império ordeiro e poderoso. É interessante observar que a construção da imagem de Frederico como um unificador alemão não corresponde à realidade, pois o imperador fez grandes concessões senhoriais aos nobres alemães.

Foi nesse contexto político que “surgiu” historicamente Preste João. A Europa o recebeu de braços abertos; em pouquíssimo tempo o mito ultrapassou a corte germânica para assumir as mais variadas texturas, até se deslocar para a África.

III. Marco Polo e o Preste João

Mas antes que passemos da Ásia para a África, é necessário mostrar por que o mito mudou geograficamente de posição. Consideramos o testemunho de Marco Polo essencial para delimitar esse marco.

Em seu livro já citado, Polo confirma a existência de Preste João na Ásia. Chegando a Karakorum, “cidade de três milhas de circunferência” na planície de Tangut, Polo relata que o povo que vivia nessa região, os tártaros, não tinham rei, mas pagavam tributo a um senhor (Cã):

E era este o Prestes João, de quem falavam todos, no grande Império. Os tártaros davam-lhe uma renda de dez cabeças de gado (o dízimo). Mas o povo multiplicou-se, e, quando isto viu, o Prestes João decidiu dividi-lo por várias regiões, e enviar, para governá-las, alguns dos seus barões.
(MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 92).

Nesta narrativa, Preste João governava um império de muitos povos. Os tártaros se recusaram a obedecer suas determinações; declararam-se revoltados, emigraram “para outro deserto” e elegeram seu próprio rei, Gêngis Cã.

Quando se sentiu suficientemente fortalecido, Gêngis enviou emissários a Preste João, pedindo-lhe sua filha como mulher. Este, ofendido, expulsou os mensageiros, dizendo-lhes: “Dizei ao vosso povo que o condeno à morte por ser traidor e desleal, e por ter a audácia de pedir a filha do seu senhor para mulher, e que eu o farei morrer de morte afrontosa” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 93).

Preste João considerava Gêngis Cã um vassalo e, portanto, indigno de ser seu genro. O Cã organizou um exército para o combate “na grande planície chamada Tangut, que pertencia ao Prestes João, e ali aparelhou os seu cavalos, e eram tantos os homens que não podiam contá-los” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 94). Após uma consulta astrológica com dois cristãos — onde o Cã soube de sua vitória — deu-se o combate:

Durante dois dias, as duas hostes inimigas bateram-se duramente. E foi batalha maior e mais encarniçada que jamais viu o gênero humano. Houve grandes perdas, duma parte e doutra, mas afinal venceu Gêngis Cã esta batalha, na qual morreu Prestes João (...) Contei-vos como os tártaros elegeram o seu primeiro grã-senhor e como venceram Prestes João. Agora falarei dos seus usos e costumes.
(MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 95).

Sem dor, sem lamentação. Assim Polo narrou a morte do mito, esperança última da Cristandade na luta contra o Islã. Por que?

Polo é um homem novo num tempo ainda antigo. Está colocado na curva, virada de um tipo de mentalidade. Seus olhos estão direcionados para a frente, para a troca, o comércio. O mito faz parte do passado, é intransigente e unilateral. Polo representa a multiplicidade, os dois mundos interagindo: é a alavanca para o desenvolvimento, afinal é veneziano...

Quando Polo “mata” o mito, está contribuindo para essa transposição geográfica: na verdade, as pessoas ainda desejavam que Preste João existisse, o Ocidente ainda tinha como sinal paradigmático a cruzada.

A Europa ainda estava sendo pressionada militarmente pelo Islão, principalmente em suas áreas limítrofes: o Império Bizantino e a Península Ibérica (que então estava no auge de seu processo de Reconquista). Preste João ainda era a esperança da abertura de uma segunda frente. Provavelmente por isso a sua transferência geográfica para a África.

O mito então se deslocou da Ásia para a África no século XIV, mais precisamente para a Etiópia. Segundo Mollat (1990, p. 35), o primeiro a situar seu reino “ao sul do Egito” foi o cartógrafo genovês Angelino Dulcert. O desconhecimento europeu em relação ao reino etíope, devido ao não-mapeamento das fontes do Nilo (porque por terra havia o Deserto do Sudão e o Maciço Etíope) também criava um clima propício ao desenvolvimento de lendas maravilhosas.

Conta uma delas que Makeda era a rainha de Sabá (Etiópia). Sabá seria o Reino de Aksum, mais tarde o Império da Etiópia, que ocupava o sudoeste da península arábica (KI-ZERBO, s/d: p. 116). No entanto, a rainha de Sabá foi provavelmente a soberana de uma das colônias sabéias existentes na Arábia do Norte (A Bíblia de Jerusalém, p. 525). Portanto, não se considera hoje que Sabá correspondesse a Aksum.

De qualquer modo, maravilhada com as preciosidades trazidas do reino de Salomão por um mercador, a rainha de Sabá resolveu fazer uma visita pessoalmente:

A rainha de Sabá ouviu falar da fama de Salomão e veio pô-lo à prova por meio de enigmas. Chegou a Jerusalém com numerosa comitiva, com camelos carregados de aromas, grande quantidade de ouro e de pedras preciosas (...)

Quando a rainha de Sabá ouviu toda a sabedoria de Salomão (...) ficou fora de si e disse ao rei: “Realmente era verdade quanto ouvi na minha terra a respeito de ti e da tua sabedoria (...) Felizes das tuas mulheres, felizes destes teus servos, que  estão continuamente  na  tua  presença  e ouvem a tua sabedoria (...)

O rei Salomão ofereceu à rainha de Sabá tudo o que ela desejou e pediu além dos presentes que lhe deu com munificência digna do rei Salomão  (o grifo é nosso). Depois ela partiu e voltou para sua terra, ela e seus servos” (1 Rs, 10, 1-13).

O final dessa passagem bíblica permite uma aproximação com a tradição apócrifa: Makeda é seduzida por Salomão, dá a luz um filho chamado Menelike, que será sagrado rei por Salomão “e voltará com um grupo de jovens notáveis à Etiópia, não sem terem subtraído a arca da Santa Aliança, para a honrarem em África” (KI-ZERBO, s/d: p. 116). Assim se inicia uma dinastia salomônica na Etiópia, conferindo-lhe uma condição mítica que desembocará na lenda de Preste João no século XIV.

No século IV o reino etíope de Aksum se converteu ao cristianismo pelas mãos de Fromentius, monge sírio sagrado bispo e chefe espiritual da Etiópia por Santo Atanásio, patriarca de Alexandria (KI-ZERBO, s/d: p. 118). Atanásio havia afirmado que a humanidade de Cristo estava absorvida na sua divindade — proposição de unidade da natureza de Cristo (monofisismo) — e foi condenado pelo Concílio de Calcedônia (451). A Igreja etíope é, portanto, herética e cismática, seguindo o rito litúrgico e o calendário copta egípcio, além de certos costumes sincréticos, como, por exemplo, “danças arrebatadas, tambores, sacrifícios de cabras (...) interdição de entrar na igreja no dia seguinte a relações sexuais e a observação do sábado em vez do domingo resultam da prática judaica” (KI-ZERBO, s/d: p. 118).

É mais uma aproximação com a lenda de Preste João, que também era herético (nestoriano) e maravilhoso.

IV. Preste João na África

O avanço do Islão chegou a Etiópia.

Alguns companheiros de Maomé, fugindo da aristocracia coraixita (originalmente da tribo dos Quraish, do norte da Arábia, uma importante comunidade comercial de Meca. LEWIS, 1990: p. 40-41), refugiaram-se em Aksum, em 615, instigados pelo próprio Profeta, que teria lhes assegurado: “Se fordes para a Abissínia (...) encontrareis um rei sob o qual ninguém é perseguido. É uma terra de justiça, onde Deus trará o repouso às vossas tribulações” (KI-ZERBO, s/d: p. 152).

Nessa tradição, a Etiópia também é a terra das maravilhas, como na descrição do reino de Preste João. Mas a pirataria etíope no Mar Vermelho e suas razias nas costas árabes (os etíopes pilharam Jeddah, porto de Meca, em 702) levaram o Profeta, segundo outra tradição, a dizer: “Evitai toda a querela com os Etíopes, porque eles receberam em herança nove décimos da coragem da humanidade” (KI-ZERBO, s/d: p. 153).

É mais uma oralidade que ajuda a conexão com Preste João: agora, os etíopes são os inimigos dos árabes, portanto, amigos da Cristandade. O início da dinastia Zagwés no século XII não interromperia o caráter maravilhoso da Etiópia iniciado desde a visita da rainha de Sabá a Salomão: segundo alguns autores, esta dinastia seria uma descendência salomônica por via de Balkis, uma das criadas de Makeda, rainha de Sabá (KI-ZERBO, s/d: p. 155).

Assim estava preparado o terreno para a chegada do reino de Preste João direto da Ásia. Principalmente porque a Etiópia já possuía seu santo católico: Lalibela, da dinastia zagwé, rei piedoso que fundou inúmeros igrejas e mosteiros (KI-ZERBO, s/d: p. 153).

Após a geografização do maravilhoso feita pelo cartógrafo genovês Angelino Dulcert, temos notícia do encontro em Nápoles de um dominicano de origem siciliana, Pedro Ranzano, com um embaixador do soberano etíope negus, de nome Pedro Rambulo. O título oficial do imperador era Rei dos Reis (Negusa nagast), que se explicava pelo grande número de príncipes da periferia do império que reconheciam-lhe laços de vassalagem. Tais laços eram freqüentemente consagrados através do casamento do rei etíope com princesas árabes, em detrimento da monogamia cristã. Embora essas princesas fossem obrigadas a converter-se, aconteciam casos de regentes filhas de príncipes muçulmanos, como, por exemplo Helena, princesa que recebeu uma delegação portuguesa em 1520. A parte central do império estava sob a autoridade absoluta dos negus (KI-ZERBO, s/d: p. 229).

Este embaixador estava em missão junto ao rei de Aragão, em 1450. Afirmou que seu rei era o verdadeiro Preste João, descendente direto da rainha de Sabá, e que seu reino havia sido evangelizado pelo apóstolo Tomás (MOLLAT, 1990: p. 37).

Além de transferência geográfica, percebe-se aqui outro elemento mítico: o nome Preste João começa a se tornar um título, intemporal. Assim, o “nome se pereniza (...) mais conveniente para a lenda” (BRAGA JR., 1994: p. 20). Preste João é sempre um rei, sacerdote, chefe religioso, inimigo do Islã (pelo menos em teoria).

A Europa receberia muitos embaixadores etíopes a partir de então, mas nenhum com descrição tão precisa quanto Ranzano. As relações tornaram-se mais sólidas com a fundação do Colégio Etíope, em 1474, pelo papa Sixto IV (de Savona, 1471-1484) e duas missões de Battista d’Imola (em 1482 e 1484) (MOLLAT, 1990: p. 37).

V. A “morte” do Mito

No tempo do rei Lebna Denguel (Incenso da Virgem) (1508-1540) (KI-ZERBO, s/d: p. 57), a regente Helena, uma princesa muçulmana convertida, mandou um mensageiro a Portugal, Mateo, o Armênio, durante uma série de escaramuças do reino etíope com as potências islâmicas da costa. Uma embaixada portuguesa foi enviada em 1520. No entanto, parece que os portugueses foram acolhidos sem entusiasmo, pois Lebna Denguel teria ficado decepcionado com os magros presentes provenientes da Europa. Ainda, quando lhe mostraram num mapa o pequeno Portugal em comparação com seu reino (cuja extensão era exagerada por causa das técnicas de representação cartográfica), Lebna Denguel encheu-se de orgulho e ficou consternado com o fato dos reinos cristãos recorrerem às armas. De qualquer modo, aceitou ceder Massawa como base naval a Portugal e prometeu a sua aliança contra os Muçulmanos. Por sua parte, pediu artesãos e médicos (KI-ZERBO, s/d: p. 57).

Na embaixada portuguesa encontrava-se Francisco Alves, padre e e capelão. Devemos a ele a primeira descrição do Preste João. Ele foi o primeiro cristão a "ver", e, por consegüinte, "matar" o mito:

Se abriram as cortinas e subitamente vimos o Preste João, ricamente adornado sobre uma plataforma de seis degraus. Tinha em sua cabeça uma grande coroa de ouro e prata. Uma de suas mãos apoiava uma cruz de prata (...)

À sua direita, um pajem apoiava uma cruz de prata bordada em forma de pétalas (...) O Preste João usava um belo vestido de seda com bordados de ouro e prata e uma camisa de seda com mangas largas. Era uma bela vestimenta, semelhante a uma batina de um bispo, e ia de seus joelhos até o chão (...)

Sua postura e seus modos são inteiramente dignos do poderoso personagem que é.
(MOLLAT, 1990: p. 39).

O surgimento do mito é uma correspondência mental com a realidade. O mito é uma das formas da consciência humana, “o exame dos mitos ilumina a estrutura dessa consciência” (MORA, 1982: p. 266). Sua efervescência mostra uma tomada de atitude, sua aceitação aponta em direção do anseio coletivo, personificação do fabuloso na forma do reino imaginário, distante e inatingível. Sua inexistência física amenizava os desgastes dos personagens concretos, talvez por isso “seu conteúdo mítico e sua longa duração” (FRANCO JR., 1994).

Acreditar em Preste João foi, para o homem dos séculos XII-XV, a esperança da cruzada, um motivo para permanecer lutando, reconquistando. É esse espírito belicoso que sempre insiste em renascer de nossas entranhas, mesmo com todo o racionalismo delirante que cresce, século após século. É parte de nós.

 

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Fontes 

A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.

Carta do Preste João das Índias. Versões Medievais Latinas (trad. Leonor Buescu). Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.

GABRIELI, Francesco (selected and translated). Arab historians of the crusades. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1984.

MARCO POLO. O Livro das Maravilhas. Porto Alegre: L & PM, 1994.

 

Bibliografia 

BRAGA JR. Elói. "Introdução". In: MARCO POLO. O Livro das Maravilhas. Porto Alegre: L & PM, 1994.

CAHEN, Claude. Oriente Y Occidente en tiempos de las cruzadas. México: Breviarios, Fondo de Cultura Económica, 1989.

DUFFY, Eamon. Santos & Pecadores. História dos Papas. São Paulo: Cosac & Naif, 1998.

FRANCO JR., Hilário. As utopias medievais. São Paulo: Editora Brasiliense, 1992.

FRANCO JR., Hilário. A construção de uma utopia: o império de Preste João. Conferência proferida em 12-10-94 durante o I Simpósio Internacional de História Antiga e Medieval e VI Simpósio de História Antiga, 10 a 14 de outubro de 1994, Porto Alegre (notas pessoais).

KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I. Viseu: Publicações Europa-América, s/d.

LEWIS, Bernard. Os Árabes na História. Lisboa: Editorial Estampa, 1990.

LOYN, Henry R. (org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.

MEIER, John P. Um judeu marginal — repensando o JESUS histórico. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1992.

MOLLAT, Michel. Los Exploradores del siglo XIII al XVI — primeras miradas sobre nuevos mundos. México: Fondo de Cultura Económica, 1990.

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982.

RUNCIMAN, Steven. Historia de las Cruzadas II. Madrid: Alianza Universidad, 1973.

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