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Ricardo
da Costa (Ufes)
Conferência proferida no IV Congresso de História da Região dos Lagos “História e Memória”, evento organizado pela Universidade Veiga de Almeida - campus Cabo Frio e ocorrido entre os dias 21 a 23 de setembro de 2006 Conferência proferida no Seminário de Educação “Os desafios da Educação Contemporânea”, evento organizado pela Faculdade Estácio de Sá (campus de Jardim Camburi - Vitória) e ocorrido no dia 11 de agosto de 2007. Artigo publicado em Revista Sinais 2, vol. 1, outubro/2007. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciência Humanas e Naturais, p. 2-15 (ISSN 1981-3988). Artigo publicado em LAUAND, Jean (org.). Filosofia e Educação – Estudos 8. Edição Especial VIII Seminário Internacional CEMOrOc: Filosofia e Educação. São Paulo: Editora SEMOrOc (Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente da Faculdade de Educação da USP) – Factash Editora, 2008, p. 81-89 (ISBN 978-85-89909-73-5).
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I. Crise da História, crise da Memória Um dos fenômenos mais trágicos das sociedades pós-modernas é a ausência (ou perda) da memória, seja ela individual ou coletiva. Sim, hoje o homem é um infeliz desmemoriado. Carente, necessitado e angustiado, ele recusou a memória, pois há cerca de quarenta anos a pedagogia construtivista baniu a “decoreba” dos bancos escolares. E ninguém melhor que Salvador Dalí (1904-1989) para representar o esvaecimento da memória nos tempos modernos, em um belíssimo e instigante quadro com quatro relógios que se derretem, tendo como pano de fundo uma sombria e isolada paisagem (A persistência da memória, 1931). Na Educação, decorar passou a ser sinônimo de injúria, de ofensa, uma desqualificação para o educador. Paulo Freire (1921-1997) e muitos pedagogos atuais se esqueceram que decorar significa “saber de cor”, com o coração, pois quando se ama o conhecimento, ele é adquirido primeiro com o coração, depois com a mente. Por exemplo, ao ensinar um pouco da pedagogia de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), o professor Jean Lauand (FEUSP) nos advertiu que, para aprender, o homem deve ter “...solicitude e afeto para com aquilo que quer recordar, pois onde não há interesse e amor, não se fixam as impressões na alma” (LAUAND, 2000). Ademais, o tema da palestra de hoje que preparei para vocês é uma das causas da crise pela qual passa a História. Claro, sem memória não há História. Hoje, infelizmente, muitos estudantes dos cursos de História em nosso país se perguntam: “Por que estou aqui? De que me serve estudar isso? Para que serve a História?” (COSTA, 2003), questões presentes há trinta anos somente nos (vastos) círculos sociais que abominavam a leitura, o estudo. Sim, sem memória não há História. Para apresentar e discutir com vocês algumas questões relativas ao tema desse congresso – História e Memória – e que dizem respeito ao âmbito de minhas leituras sobre a Idade Média, selecionei alguns autores medievais para discorrer uma brevíssima análise histórica de um tempo que colocou a memória como uma das funções da alma, um tempo que realçou a memória como fundamento do conhecimento, um tempo que dignificou a memória como a posse do bem. II. A Memória medieval, “luz dos espaços temporais” O fundador da memória medieval – e, de certa forma, da Idade Média – é Santo Agostinho (354-430). Segundo o hiponense, a memória vive em um palácio, e é como o ventre da alma, espécie de luz dos espaços temporais (Confissões X, 9; De Musica, VI, 8, 21). E, muito importante, Agostinho nos diz que a memória guarda o que se aprende com a educação – com as sete artes liberais. Pois se não fosse a memória, o conhecimento da literatura, da dialética, por exemplo, seriam como o perfume, odor que afeta o olfato, mas que logo se desvanece no ar (Confissões, X, 9). Agostinho destacou a força retentiva da memória, sua capacidade de conservar e fazer recordar as imagens e sensações recebidas do mundo. E mais que isso: ele legou ao mundo medieval a noção que a Santíssima Trindade deixara impressa na alma um reflexo de sua imagem através de seus três poderes: a memória, a inteligência e a vontade (AGOSTINHO, De trinitate, X, 11-18). Com essa sólida e bela herança da Antigüidade, a Idade Média legou ao ensino a necessidade de se saber de memória o que se aprendia. Nesse tempo, saber era saber de cor, com o coração. Adotando as admoestações de Quintiliano (c. 35-95) e, posteriormente, Marciano Capella (450-534), os mestres desejavam que seus alunos fixassem na mente tudo o que liam (LE GOFF, 1994: 451). Durante o renascimento carolíngio (sécs. VIII-IX) – o primeiro grande esforço medieval de sistematização da educação – a memória continuou a ser destacada, e associada à Retórica (uma das três artes do trivium). Por exemplo, em sua carta Disputatio de Rhetorica et de virtutibus sapientissimi regis Karli et Albini magistri, Alcuíno de York (730-804) ensina a Carlos Magno as cinco partes da Retórica (invenção, disposição, locução, memória e pronunciação), quando então o aluno-rei pergunta:
Para tratar da memória, Alcuíno destaca ao rei o metódico e necessário esforço do estudante de Retórica, sempre aliado ao amor ao conhecimento (“aprender de cor”) e à fuga dos vícios. Nesse diálogo que trata da Retórica, Alcuíno faz o soberano refletir moralmente sua ação política (PAUL, 2003: 166). Ademais, a citação de Cícero nos mostra o apreço que o escritor de Arpino já gozava entre os medievos intelectuais – trezentos anos mais tarde, João de Salisbury (c. 1115-1180), demonstrando sua intensa paixão ciceroniana, completou: “O orbe latino não gerou ninguém maior que Cícero” (Entheticus maior, v. 1215, citado em ESCOBAR, s/d). O mesmo João de Salisbury nos deixou um retrato muito vivo da Escola de Chartres, famosa no século XII por cultivar o estudo das ciências naturais (BOEHNER e GILSON, 2000: 318-333). Salisbury nos informa que Bernardo de Chartres (†c. 1124) era considerado “a mais copiosa fonte de sabedoria na Gália”, e que tinha o seguinte método de ensino: primeiro, após a leitura do texto, destacava as figuras gramaticais, as cores retóricas e as argúcias dos sofismas, sempre em doses homeopáticas; a seguir, explicava que o brilho do discurso dependia da combinação elegante dos adjetivos e dos verbos com os substantivos, “e porque memória se robustece e a inteligência se aguça com o exercício, obrigava os alunos a reproduzirem aquilo que ouviam” (SALISBURY, 2003: 56-57). Em outras palavras, o mestre de Gramática indicava ao discípulo o caminho correto da leitura, quais os elementos a serem destacados, analisando-os pouco a pouco para, a seguir, fazê-los memorizarem o conteúdo com exercícios. E tudo isso para se chegar à Sabedoria, objetivo final do estudo, pois, como disse o mestre Hugo de São Vítor (1096-1141), “a filosofia é o amor, o estudo e a amizade para com a Sapiência” e “a procura da Sapiência é uma amizade com a divindade e com sua mente pura” (HUGO DE SÃO VÍTOR, Didascálicon, Livro I, 2). A memória estava, assim, intimamente associada à inteligência, pois se o discípulo não fosse capaz de reproduzir o que havia aprendido, ele, de fato, não aprendera! Imagem
2 Hugo de São Vítor é o representante mais sublime de sua escola, a da abadia de São Vítor, situada nos arredores de Paris. Em seu Didascálicon (1127), Hugo ensina ao estudante o modo de ler, que requer, sobretudo, meditação (“um pensar freqüente com discernimento”). A seguir, ele trata da memória, que é a responsável pela guarda e pelo resumo do que se lê. Para auxiliá-la, o estudante deve saber resumir o que leu a um conceito basilar, colocando no arquivo de sua memória a raiz da doutrina lida, a fonte, origem dos muitos riachos. Essa fonte – o resumo do que se leu a respeito de algo – deve ser constantemente revisitada. E Hugo admoesta:
Portanto, ora os medievais destacam a memória com método auxiliar da Retórica, uma das disciplinas do trivium, ora enfatizam a importância da memória em todo procedimento de estudo, como é o caso da Escola de São Vítor. De fato, praticamente todas as correntes de ensino na Idade Média enfatizam a importância da memória no processo de aquisição do conhecimento para se chegar à Sabedoria. Por exemplo, São Bernardo de Claraval (1090-1153) diz que a memória, purgada pelo temor da fé, torna-se morada da própria fé, e quando a penitência purifica ainda mais a memória, que é o aposento da fé, a adorna (Terceira série de sentenças, 59, 106). Da mesma forma, para Bernardo, o excesso de ciência empanturra o estômago da alma, que é a memória, caso ela não seja bem digerida pelo ardor da caridade e transfundida pelos hábitos e suas obras, que são os membros da alma (Sermão 36 sobre o Cantar dos Cantares, 4). Ao tratar da boa memória, portanto, o monge chama a atenção para o pecado da soberba, muito comum entre os doutores de sua época, inchados como sapos (“A ciência incha!”). Pelo contrário, para São Bernardo, por termos na terra a lembrança, a memória do Bem em sua plenitude – a presença da Virgem Maria – e sermos eternos peregrinos nesse mundo (Na Natividade da Beata Maria, 1), na luz de Deus nossa memória é toda serenidade, nunca escuridão, porque na luz de Deus se aprende o que se ignora, e não se esquece o que se conhece (No Nascimento de São Vítor, II, 3). III. “Memória é o ente com o qual os entes são recordáveis”: Ramon Llull (1232-1316) Por fim, para encerrar esse brevíssimo périplo sobre a memória em alguns autores medievais, não poderia deixar de tratar, mesmo que muito sucintamente, de Ramon Llull (1232-1316), o mestre medieval das definições (BONNER e PERELLÓ, 2002: 10). Como sua filosofia em parte seguia a tradição agostiniana e, por isso, tinha em alta conta a memória, Ramon tratou do tema em inúmeras obras – algumas exclusivas, como o Liber de memoria (1304) e o Liber de memoria Dei (1314). Contudo, bastar-nos-á duas pequenas passagens de sua Árvore da Ciência (1295-1296), para discorrermos um pouco sobre suas idéias acerca do tema. A memória é uma das três potências da alma racional (as outras são o entendimento e a vontade) e, como reflexo das dignidades de Deus, ela é boa, grande, duradoura, poderosa, sábia, voluntariosa, virtuosa, verdadeira e gloriosa, e tem princípio, meio e fim, maioridade, igualdade e menoridade. Ela é o que é porque nos faz lembrar as coisas passadas e ausentes dos sentidos. Assim, o homem tem o hábito da ciência, e isso é bom. Como a memória convive com a sabedoria e a vontade, ela lembra e move os instintos do corpo do homem. Por exemplo, quando o homem lembra algum prazer carnal ou algum desprazer que tenha recebido de outro homem, torna-se irado, ou paciente (caso seja virtuoso). Ramon afirma que a memória se encontra na parte posterior do cérebro; se ela é tocada com maldade, responde com a grandeza de sua bondade, e se é tocada com bondade, também responde com a grandeza de sua bondade, pois como é boa, faz o homem lembrar coisas boas. O filósofo afirma que saber o que é a memória é muito útil ao homem, pois assim ele tem o hábito da ciência e a maneira de lembrar as coisas passadas. Isso “para que o homem saiba mover a memória para lembrar os objetos desejáveis de serem lembrados e que têm alguma semelhança com as partes da memória” (Arbre de Ciência, Quinta Parte, III, 1). Imagem
3 Para que seu leitor entenda ainda melhor o conteúdo dos capítulos da Árvore da Ciência, Ramon finaliza essa enciclopédia com dois capítulos complementares, a Árvore Exemplifical e a Árvore Questional. São pequenas estórias edificantes e perguntas e respostas, tendo como tema o conteúdo de todos os capítulos. Para a memória, na Árvore Exemplifical Llull nos conta um exemplo – relato breve de caráter moral a serviço da formação religiosa, artifício muito utilizado pelos escritores medievais que tinham como objetivo a pregação. Contudo, Ramon transforma a tradição dos exemplos e cria ricos delírios literários, construções muito criativas com personificações de sentimentos, de conceitos em personagens, que conversam e discutem sobre os homens e a realidade humana. Assim, contam, diz Ramon, que a Memória, o Entendimento e a Vontade desejaram subir ao céu para ver Deus e ter Sua amizade. Contudo, houve uma discórdia entre elas (em catalão, são todas palavras femininas), porque cada uma desejava subir primeiro para ver antes da outra a bondade de Deus e Sua grandeza. A Memória alegava que ela devia subir primeiro, porque lembrava primeiramente os objetos que o Entendimento e a Vontade tomavam. O Entendimento se defendeu, alegando que deveria ir primeiro porque mostrava à Vontade seus objetos, e os iluminava na Memória, para que a Vontade os encontrasse. Por fim, a Vontade disse que ela é quem devia subir primeiro, porque tinha uma virtude maior que o Entendimento e a Memória, já que desejava amar o que o Entendimento não conseguia entender nem a Memória lembrar. Enquanto as três damas estavam nessa discussão à sombra de uma árvore, chegou um rouxinol (pássaro que simboliza o amor). Quando o rouxinol pousou na árvore e entendeu o motivo do debate, disse às damas que elas não sabiam o que um ateu disse a um cristão, a um judeu e a um sarraceno. “E o que foi?” perguntaram os três. O rouxinol disse que o ateu pediu aos três religiosos que não discutissem com base em seus livros sagrados, mas somente de acordo com argumentos racionalmente demonstráveis. Assim, após outra discussão – e enquanto subiam ao céu,
Portanto, para o filósofo, a vontade dá o passo inicial, a memória retém o que a vontade deseja e, por fim, o entendimento tenta compreender o que a vontade deseja e a memória guarda. Tudo isso ocorre, se possível, à luz da razão, e com benevolência (amor)! IV. Conclusão Considerada uma das bases da compreensão humana, a memória foi, na Idade Média, motivo de profunda meditação, tanto em relação ao estudo do homem quanto da educação e a aquisição da Sabedoria. Sem a memória, não havia estudo, nem conhecimento, muito menos razão. Com ela, a civilização do ocidente medieval acumulou ciência e refletiu seu sentido e finalidade. Sem memória, hoje, nossa civilização caminha desnorteada, pois não conhece seu passado, não tem consciência em seu presente, e não projeta perspectiva no futuro. Urge retomá-la, à luz da História, com vontade, entendimento e, sobretudo benevolência, e dar novamente um sentido à nossa existência nesse mundo. * Fontes Bibliografia
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