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Ricardo
da Costa (Ufes)
Artigo publicado em LAUAND, Luiz Jean (coord.). Revista NOTANDUM, n. 16, Ano XI, 2008, p. 29-38. Editora Mandruvá - Univ. do Porto (ISSN 1516-5477). Palestra
de encerramento da VI
Jornada de Estudos Antigos e Medievais,
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“Se alguém conhecer a arte da eloqüência, será um perito em qualquer disciplina em que for interrogado. A laboriosa juventude se envereda e parte desses estudos, filosofando em vários caminhos, que, no entanto, chegam ao mesmo fim, pois a Filosofia tem uma só cabeça”. Assim João de Salisbury (c. 1115-1180), humanista da Escola de Chartres, se referiu à Retórica em pleno século XII, defendendo-a dos ataques dos cornificianos, estudantes universitários que desejavam uma redução dos programas de estudos. Dessa forma, Salisbury mantinha o ideal de totalidade do saber, e, no caso da Retórica, defendia sua importância por manter a comunidade humana unida pela graciosidade da harmonia das palavras. [2] Esse ataque por parte dos cornificianos à unicidade dos estudos não era novidade para os acadêmicos medievais: alguns anos antes, Gilberto de la Porrée (1076-1154), professor de Chartres, também combateu esse mesmo partido dos cornificianos, e defendeu o ideal clássico do estudo desinteressado. Ele nos conta que, quando via aquela pequena multidão correr para os estudos universitários (muitos sem a menor vocação), dizia a eles o seguinte: “...costumava aconselhar-lhes o ofício de padeiro. Dizia que, em seu país, esse ofício era o único que aceitava todos que não tinham outro ofício, nem outro trabalho. É muito fácil de exercer, é auxiliar de todos os demais, e convém sobretudo aos que procuram menos a instrução do que um ganha-pão.” [3] Portanto, já no século XII o ensino da Retórica sofria críticas por parte da emergente educação laica, fascinada que estava pelo desenvolvimento da Dialética. Mas como ela se inseria na Educação Medieval? A Retórica é a arte do engodo, como se costuma pensar? Por que o filósofo Ramon Llull escreveu uma Retórica que intitulou de nova? E por qual motivo inseriu a caridade em seu tratado retórico? São essas as perguntas que tentaremos responder nesse pequeno trabalho. I. A Retórica medieval, filha da Retórica clássica Diretamente herdeira da Retórica clássica, a Retórica medieval desenvolveu seu manancial a partir basicamente de três fontes: a Retórica a Herênio, a Doutrina oratória (Institutio oratoria, de Quintiliano [35-95]) e a tradição cristã (desde São Jerônimo [340-420] até Santo Agostinho [354-430]). Um dos manuais de Retórica mais estimados na Idade Média foi a Retórica a Herênio (Rethorica ad Herennium) [4], texto então atribuído a Cícero (106-43 a.C.), mas, na verdade, de autor desconhecido. Escrito no século I antes de Cristo em meio à crise da República romana, o tratado não deixava de destacar as técnicas para se obter a docilidade e a benevolência dos ouvintes – como é típico dos tópicos da Retórica – mas as fundamentava no conceito de justiça e, especialmente na diferença entre o bem e o mal, como se depreende nessa passagem:
Esse sólido alicerce ético exposto na Retórica a Herênio tem, por sua vez, raiz em Aristóteles (384-322 a.C.). Em sua Retórica, o Estagirita sustentou as bases filosóficas da virtude, da justiça, do bem e da verdade como alicerces da verdadeira Retórica:
Embora a Retórica de Aristóteles tenha sido pouco lida [7], o fato é que a tradição grega contrária aos sofistas elevou a Retórica à categoria de valor. Mesmo Platão (c. 429-347 a.C.), tão avesso à Retórica em sua República ideal, fez Sócrates afirmar que ela, para deixar de ser uma adulação, deveria estar a serviço da filosofia da educação, como “arte de guiar a alma por meio de raciocínios (Fedro, 261a) para se chegar à verdade, à justiça e ao bem. Assim, desde a filosofia de Platão, a verdadeira finalidade da Retórica não era agradar aos homens, como defendiam os sofistas, mas agradar a Deus (Fedro, 273e). [8] Em outras palavras, a tradição clássica grega legou aos romanos a noção que a verdadeira Retórica deveria estar a serviço da ética, e que o verdadeiro estadista e o verdadeiro retórico deveriam escolher bem suas palavras e praticar suas ações com o intuito de infundir a justiça nas almas dos cidadãos, fazendo com que neles reinassem a prudência, a moderação, e, sobretudo, desaparecesse o destempero: todas as energias do Estado e do indivíduo deveriam, portanto, dedicar-se à busca do bem, não à satisfação dos desejos. [9] Esses pressupostos estão muito presentes em Quintiliano, afamadíssimo professor de Retórica do primeiro século de nossa era. Ao escrever sua obra-prima em 95 d.C., a Doutrina oratória [10], este romano-espanhol de Calahorra não teve qualquer receio em seguir a tradição de Catão (234-149 a.C.) e definir, em seu Livro XII, o orador ideal como um homem perito na arte do bem dizer, mas sobretudo um homem bom (“vir bonus, dicendi peritus”), particularmente por seus costumes. [11] Todo esse manancial ético clássico que norteou a Retórica foi generosamente sorvido pela tradição cristã, especialmente através de São Jerônimo (c. 340-420) e Santo Agostinho (354-430), que a retransmitiram aos medievais (Jerônimo através de suas cartas [12] e Agostinho em suas Confissões [13]). Isidoro de Sevilha (560-636), por fim, fortaleceu a ponte entre os dois mundos, e dedicou um livro de suas Etimologias (Livro II) à Retórica e à Dialética. Nele, o bispo realizou uma importante compilação de excertos e circunscreveu a Retórica ao discurso forense, sem, contudo, abandonar seu cariz ético: “Retórica é a ciência do bem dizer nos assuntos civis, com a eloqüência própria para persuadir o justo e o bom”. [14] Sua obra foi muito difundida e consultada ao longo de toda a Idade Média. A partir de então, o estudo da Retórica ficou restrito ao universo monástico, ou seja, tanto educandos quanto educadores, salvo raríssimas exceções, não a colocavam em prática. Isso só ocorreria a partir do século XI, quando a Retórica passou a ser utilizada na composição de cartas e documentos, e tornou-se uma epistolografia: era o nascimento da ars dictaminis (ou dictandi). [15] E foi dessa época a defesa acadêmica da Retórica feita por Gilberto de la Porrée e João de Salisbury contra os cornificianos. III. A Retórica nova (1301) de Ramon Llull Em setembro de 1301, Ramon se encontrava na ilha de Chipre, hospedado no mosteiro de São João Crisóstomo de Bufavento. Mesmo com quase setenta anos, seu fervor apologético não diminuíra. Sua viagem à Ásia Menor fora estimulada pela crença de cristianizar os mongóis, como ele nos conta em sua autobiografia intitulada Vida coetânia (1311). [16] Em Chipre, nosso autor encontrou um momento de descanso naquele mosteiro, quando então compôs sua Retórica nova, um projeto de ordenação e ornamentação das palavras há muito desejado. Como em todas as suas obras, a base estrutural do texto encontra-se em sua Arte – um sistema lógico-metafísico “ilustrado por Deus” e aplicável a qualquer tema ou problema específico. Tratava-se, segundo seu criador, de uma ferramenta para investigar a verdade das criaturas, e com o objetivo de converter os infiéis. Para isso, a Arte luliana tomava como ponto de partida de sua construção teórica as dignidades de Deus que eram aceitas pelas três religiões monoteístas (Bondade, Grandeza, Eternidade, Poder, Sabedoria, Vontade, Virtude, Verdade e Glória). [17] Embora a dupla “antiga/nova” já fosse utilizada pelos autores da época – como, por exemplo, a Poetria nova (1200), do gramático Geoffroy de Vensauf [18] – o adjetivo “nova” no título da obra de Ramon se referia à sua vontade de renovar as bases da Retórica com sua Arte. Ademais, para ele, sua Retórica nova deveria estar a serviço da pregação, ou seja, na qualidade de um pequeno tratado de homilia, serviria para ensinar técnicas retóricas a pregadores [19], a exemplo de Santo Agostinho que, no último livro de sua Doutrina cristã, defendeu que a Retórica deveria estar a serviço da pregação da palavra de Deus, já que a finalidade da eloqüência é a verdade. [20] Ademais, a redação da Retórica nova se inscreve em um momento especial da vida do filósofo. Abatido com o fracasso da recepção de sua Arte na Universidade de Paris em 1289, Ramon decidiu simplificá-la. Os especialistas denominam esse período de sua produção como “fase ternária” (1290-1308) [21], já que nosso autor enfatiza nas obras dessa época certas combinações ternárias, além de abstrações teológicas trinitárias, em detrimento da teoria dos quatro elementos da etapa anterior. [22] Pois bem, a obra se divide em quatro partes: Ordem, Beleza, Ciência e Caridade. A Ordem confere virtude e eficácia às palavras e, como reflexo da Santíssima Trindade, tem uma tríade que a configura: forma, matéria e fim. Ela existe para que se estabeleça entre o orador e seus ouvintes aquela paz e amizade mútuas que nascem das palavras ordenadas e belas, pois “falar bem deve ser o princípio da amizade”. [23] A Beleza é a própria matéria da Retórica. Através dela, todos podem ornar e decorar [24] suas palavras com harmonia, isto é, com uma adequada congruência. [25] Com a Ciência, os homens podem discernir as palavras ordenadas e belas das desordenadas e torpes (e ao utilizar o adjetivo torpe – o que é desonesto, infame, abjeto, repugnante, obsceno – Ramon logo chama a atenção para a face moral da Retórica, exatamente como faz Aristóteles em sua obra Retórica, como vimos). Por fim, a quarta parte, da Caridade, grande novidade no tratamento da Retórica em relação à tradição clássica. Virtude das virtudes, a caridade articula todas as outras, e, sem ela, nenhuma palavra pode ser bela. Mas antes de passarmos à análise do tratamento dado à caridade na Retórica nova, há ainda um aspecto que merece ser ressaltado que consta em outra obra de Ramon, o Livro das Virtudes e dos Pecados, de 1313. [26] A preocupação com a Retórica por parte do filósofo se insere no combate aos pecados que poderiam estar associados a cada arte liberal. Em um dos sermões dessa obra (XLVI), Ramon mostra qual pecado pode se manifestar em qual arte liberal. Por exemplo, enquanto a Avareza pode se manifestar na Aritmética e na Geometria, a Luxúria é o pecado que ronda a Música e a Retórica:
Portanto, tratar a Retórica com a devida virtude e caridade é essencial para afugentar a luxúria do orador! II.1. “As palavras surgidas da caridade refulgem esplendorosamente belas” Por que o filósofo inseriu a caridade em um tratado de Retórica? A base dessa imersão da Retórica no âmbito cristão por parte de Ramon, certamente, se encontra na descrição paulina:
São quinze verbos que caracterizam o comportamento que a caridade suscita no caridoso, espelho do comportamento do Cristo, imagem da divindade que os homens devem seguir em sua ação no mundo. Assim, veremos que o tratamento dado ao tema por parte de Ramon tem o objetivo de alcançar, graças à caridade, níveis de beleza retórica impensados antes. Para isso, o filósofo desenvolve o tema com dez provérbios e dez exemplos, sempre com uma breve instrução no fim de cada um sobre a melhor aplicação do exemplo na oratória. Os temas e seus respectivos exemplos são os seguintes:
Ao fim, Ramon diz:
II.2. Exemplos e provérbios Antes de prosseguirmos, uma pergunta se faz necessária: qual a relação dos exempla da Retórica nova com a realidade? A utilização do exemplum (e suas metáforas) como documento histórico para uma análise da vida cotidiana do homem medieval é uma tese defendida por Jacques Le Goff, um dos grandes especialistas deste tipo de fonte histórica. [27] Igualmente, Josep Batalla afirma que a representação dos atos virtuosos dos personagens dos exempla sobre a caridade na Retórica nova revela a capacidade de observação psicológica e social do filósofo maiorquino. [28] Em outras palavras: quando Ramon inicia seus exemplos com um “Contam que...”, narra uma história verídica (que soube de primeira mão ou não), ou adapta e rearranja uma história verdadeira? Ou ainda, será que ele só se vale de um recurso literário que não tem relação alguma com a realidade? Dos dez exemplos, somente dois (o terceiro e o décimo) não iniciam com o verbo contar. O que isso significa? Será possível que as histórias narradas tenham sido verídicas ou, pelo menos, de conhecimento público? Por outro lado, embora o exemplum luliano esteja inserido na pregação urbana característica do século XIII [29], ele não se enquadra exatamente na definição do exemplum clássico medieval (um relato breve e verídico para ser inserido num sermão ou em um discurso teológico com o objetivo de convencer uma platéia através de uma lição moral). [30] Oriundo da retórica antiga – a partir da Retórica de Aristóteles [31] – o exemplum medieval possuía uma estrutura literária bastante rígida e repetitiva, pois era normalmente destinado a um auditório iletrado. [32] Por sua vez, o exemplum luliano, em regra geral, não é realista, nem pretende ter um valor de documento histórico, pois Ramon busca sempre uma atemporalidade e uma utopicidade aplicáveis universalmente. [33] Contudo, não é ilícito supor que as estórias narradas tenham sido extraídas de situações verídicas, na íntegra ou em suas diferentes partes, até porque o próprio autor defende a beleza da verdade:
A defesa da verdade das palavras pode ser uma base para afirmarmos que os exemplos de Ramon podem ter algum grau de veracidade. Seja como for, o caráter amoroso do capítulo dedicado à caridade – e suas possíveis aplicações reais ou não – elevou o tema da Retórica a um nível ético ainda mais sublime que a tradição clássica, visto que a caritas paulina é considerada, filosoficamente falando, o grau mais elevado de amor criado pelo homem. [34] II.3. A crítica luliana à cavalaria É notável nos escritos lulianos a capacidade de nosso filósofo em observar a realidade e criticá-la. Um dos estamentos sociais mais sujeitos à sua verve foi o da cavalaria. No Livro da contemplação (c. 1273-1274) [35], por exemplo, ao dialogar com Deus, Ramon acusa a cavalaria de ser composta de “mártires dos diabos”:
Já na Retórica nova há um exemplo sobre um cavaleiro que se irritou com seu escudeiro (§ 193), outro que ficava surpreso como um rei suportava as repreensões de seu sacerdote (§ 198), e outro que surrava sua bela esposa por ciúmes (§ 191). Ou seja, os cavaleiros são facilmente suscetíveis e irritadiços, não sabem escutar admoestações como bons cristãos, e são violentos com as mulheres – ao invés de protegê-las e defendê-las. Mas vejamos esse triste e último exemplo sobre o cavaleiro ciumento e sua esposa paciente e virtuosa:
Há a possibilidade de essa história ter sido real? Sabemos que a cortesia dos homens em relação às mulheres foi um longo percurso civilizacional, inaugurado somente com o surgimento do amor cortês no final do século XII. [37] Antes disso, era costume surrá-las e maltratá-las, especialmente nas camadas sociais inferiores (burgueses e camponeses), pois a descoberta da cortesia na nobreza do século XII não se difundiu rapidamente por todo o corpo social. Por exemplo, ainda no século XIV, um texto do direito de Aardenburgo (cidade flamenga que seguia o costume de Bruges) dizia a respeito das mulheres burguesas: “Um homem pode bater na sua mulher, cortá-la, rachá-la de alto a baixo e aquecer os pés no seu sangue; desde que, voltando a cosê-la, ela sobreviva; ele não comete nenhum malefício contra o senhor.” [38] Portanto, provavelmente Ramon utiliza uma situação real que teve informação para adorná-la com a caridade e assim mostrar ao estudioso de Retórica como ornamentar suas palavras e fazer com que os ouvintes amem o bem e odeiem o mal – como ainda hoje nos escandalizamos quando lemos sobre alguma brutalidade cometida contra uma mulher, para o filósofo, um mal terrível que deveria ser combatido com o refinamento da educação. III. Conclusão Há alguns anos o prestigiado historiador italiano Carlo Ginzburg chamou a atenção para a importância de se voltar a estudar a Retórica para trazer de volta às ciências humanas os conceitos de verdade e de prova e, assim, combater o relativismo cético reinante atualmente no cenário intelectual. Ginzburg atentou para o fato de que nunca houve uma distância tão grande entre a reflexão metodológica e a prática historiográfica, entre quem pensa a teoria e quem efetivamente “põe a mão na massa”, e trabalha com os textos de época. Portanto, segundo ele, fazia-se necessário resgatar o estudo da Retórica para devolver à História o estatuto de investigação judicial do passado. [39] Em seu último livro, “O fio e os rastros”, Ginzburg acentua ainda mais a crítica do que denomina o “radical ceticismo antipositivista”, e defende que o verdadeiro ofício do historiador é destrinchar o entrelaçamento de verdadeiro, do falso e do fictício, que é a trama do nosso estar no mundo. [40] Ao pretendermos analisar a Retórica nova de Ramon Llull, tivemos esse pressuposto conceitual em mente, qual seja, o de estabelecer, através das ordenadas palavras retóricas do pensador catalão, o que de fantasia e o que de realidade havia por trás dos exemplos narrados em sua obra. Ou, no mínimo, estabelecer qual era, de fato, sua visão a respeito da sociedade da época, imagem fortalecida se levarmos em conta que ninguém melhor que um moralista medieval para dissecar com cores vívidas as mazelas da sociedade de seu tempo. * – Este pequeno trabalho é dedicado a Josep Batalla, notável investigador do Editorial Obrador Edèndum que generosamente me presenteou com um exemplar da Retórica nova, assim permitindo-me aprofundar meus conhecimentos sobre esse aspecto da obra luliana – * Notas [1]
Citado em CURTIUS, Ernest Robert. Literatura Européia e Idade
Média Latina. São Paulo: HUCITEC, 1996, p. 117.
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