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“A luz deriva do bem e é
imagem da bondade”: a metafísica da luz do Pseudo
Dionísio Areopagita na concepção artística
do abade Suger de Saint-Denis
Ricardo da Costa (Ufes)
Artigo publicado em
Scintilla.
Revista de Filosofia e Mística Medieval.
Vol. 6 - n. 2 - jul./dez. 2009, p. 39-52 (ISSN 1806-6526).
O lugar [Saint-Denis] gozava de uma
nobreza muito antiga e se distinguia por sua dignidade régia;
costumava ser usado como palácio real e militar. Sem demora
ou fraude era entregue a César o que é de César,
mas não se tributava a Deus o que é de Deus com a mesma
exatidão e fidelidade. Falo do que ouvi, não do que
vi: freqüentemente, dizem alguns, o próprio claustro do
mosteiro se enchia de soldados, urgiam-se negócios e pleitos,
e às vezes era aberto a mulheres. Quem nesse ambiente era capaz
de pensar no celeste, no espiritual e no divino? Mas agora ali se
busca a Deus, cultiva-se a continência, vive-se a disciplina
com vigilância e freqüentam-se as leituras santas. O silêncio
habitual e a ausência perpétua de todo ruído mundano
convidam a meditar as realidades celestiais. Ademais, a ascese da
continência e o rigor da observância se alternam com a
doçura dos hinos e salmos (...)
Não reproduzi as desventuras passadas para confusão
ou opróbrio de ninguém, mas para ressaltar com mais
graça e formosura o esplendor da mudança, comparada
com a vida anterior. Pois os bens atuais se destacam ainda mais quando
cotejados com os males anteriores. As coisas semelhantes entre si
se conhecem por sua analogia, mas as que são contrárias
agradam ou desgostam mais. Por exemplo, junta o negro com o branco:
pelo mútuo contraste começarás a distinguir cada
um por sua própria cor. O mesmo ocorre com a fealdade, que,
próxima da beleza, faz com que esta se torne ainda mais formosa
e a outra mais disforme.
Carta 78 (4, 5) de Bernardo de Claraval a Suger, abade de
Saint-Denis.
Imagem 1
Rosácea do transepto norte da basílica de Saint-Denis. O
tema é a Criação, com Deus no centro, os seis dias
da Criação no segundo círculo, o Zodíaco no
terceiro círculo representando a harmonia da ordem celeste e, no
círculo maior, os trabalhos dos homens que representam a ordem
da terra. Tudo se expande e difunde a partir da irradiação
do Bem, exatamente como os escritos do Pseudo-Dionísio Areopagita.
Em 1127 São Bernardo (1090-1153) se reconciliou
com Suger (c. 1085-1151) (1).
Em uma carta (n. 78) (2),
Bernardo congratulou-se efusivamente com ele por ter reformado sua abadia,
mas, sobretudo, por passar a viver uma vida verdadeiramente cristã,
modesta, mesmo em meio ao fausto do poder. (3)
Essa importante reforma e redecoração levada
a cabo por Suger em Saint-Denis, a mais régia das igrejas (originalmente
um mosteiro), deu origem a uma nova arte, o gótico (4),
que, em Saint-Denis, foi a mais perfeita expressão concreta da
filosofia da metafísica da luz do Pseudo-Dionísio
Areopagita (séc. V). No espetáculo poético da esfuziante
irradiação da luz em Saint-Denis, a transcendência
repousou na matéria, a luz na cor, a contemplação
na ação.
Feliz com sua obra, Suger descreveu-a em dois tratados,
“Das obras realizadas durante sua administração”
(De rebus in administratione sua gestis) e o “Segundo livro
da consagração da igreja de Saint-Denis” (Libellus
alter de consecratione ecclesiae sancti Dionysii). (5)
Ele concebeu seu monumento como uma obra teológica, naturalmente
alicerçada e influenciada pelos (supostos) escritos do patrono
da abadia, São Dinis. (6)
Todos os restos mortais dos reis que ali descansavam estavam na companhia
de um túmulo sagrado, o do próprio Dionísio. (7)
Esses textos (Corpus Dionisiacum), os mais importantes
da tradição mística medieval, foram oferecidos ao
rei Pepino, o Breve (715-768) pelo papa Paulo I (†767).
Luís, o Piedoso (778-840) encomendou ao abade Hilduíno
a tradução do códice grego. O trabalho foi concluído
em 835, mas a tradução foi mal feita, de modo que Carlos
II, o Calvo (823-877) pediu uma nova tradução,
desta vez ao “pai da filosofia medieval”, o irlandês
João Escoto Eriúgena (c. 815-885), que terminou o trabalho
em 862. (8)
Assim, no tempo do abade Suger, os escritos do Pseudo
Dionísio circulavam em todos os ambientes intelectuais da Europa:
de Hugo (1096-1141) e Ricardo de São Vítor (†1173)
a Pedro Abelardo (1079-1142) e Pedro Lombardo (c. 1110-1164), todos o
estudaram e o comentaram.
Mas qual a fundamentação filosófica
para o esplendor de Saint Denis? Como o Pseudo Dionísio estrutura
a meditação filosófica de Suger exposta em seus tratados?
Nosso objetivo nesse opúsculo é estabelecer essa conexão,
apresentar as linhas-mestras dos dois tratados de Suger e confrontá-los
com os aspectos mais gerais dos textos do Areopagita, particularmente
em seu texto Dos nomes divinos, uma das obras do Corpus Dionisiacum.
Consonantia et claritas
Imagem 2
Vitral anagógico (1140-1144).
Saint-Denis.
"Também fizemos pintar, pelas requintadas mãos de
muitos mestres de diversas nações, os novos vitrais de
uma variedade maravilhosa, desde o primeiro que começa com a
Árvore de Jessé no presbitério da igreja até
o que está colocado acima da porta principal, na entrada da igreja,
tanto no nível superior quanto no inferior. Um dos quais, elevando-nos
do material ao imaterial, representa o apóstolo Paulo
dando voltas no moinho [205] e os profetas trazendo os sacos para o
moinho" (os grifos são nossos), Suger, De rebus in administratione
sua gestis, XXXIV.
Em Dos nomes divinos, o Pseudo Dionísio afirma que
as coisas divinas, inteligíveis, revelam-se e mostram-se a nós
de acordo com a medida da inteligência de cada um, embora permaneçam
incompreensíveis para tudo aquilo que está no âmbito
dos sentidos. No entanto, o Bem não permanece totalmente incomunicável,
pois, por sua bondade, manifesta seu “raio supersubstancial”,
e assim ilumina cada criatura proporcionalmente à sua inteligência
(I, §1, 6 e §2, 10). (9)
Trata-se de uma concepção emanacionista, baseada
no modelo da luz: o ser tem a natureza da luz e emana como esta. O Bem
é belo, e é harmonia e luz, proporção e
claridade. Esplendor. Luz. O homem deve mirá-la, amá-la
e aspirar a ela. (10)
Para o Areopagita, deve-se atribuir à Trindade a Substância
supersubstancial, a inefabilidade, a “afirmação
e negação de toda coisa que está acima de toda
afirmação e negação” (II, §4,
42). (11) Embora tentemos
sempre definir o Uno, ao fim das contas, dele não podemos dizer
nada: isso é o que exige o seu programa de teologia negativa
– uma reflexão sobre a inadequação existente
entre todas as nossas denominações, baseadas na pluralidade
e na contraposição. (12)
Nossa linguagem, imperfeita, somente expressa os símbolos do
inefável (que é a verdadeira natureza do mundo), nunca
o próprio inefável. (13)
O Bem, “divindade superdivina”, envia os raios de sua
bondade absoluta. É como o Sol que, pelo simples fato de existir,
ilumina as coisas que podem participar de sua luz. Mais: o Bem é
tão perfeito que seus raios não só O difundem,
mas também fazem com que os seres inferiores tendam aos superiores
e tornem o desejo do bem algo imutável e elevado.
Por exemplo, as luzes das várias lâmpadas de uma casa,
mesmo que totalmente imanentes umas das outras, mantêm sua distinção
recíproca, que subsiste, e estão “unidas na distinção
e distintas na união”. Pois todas essas luzes se unem em
“uma só luz e fazem brilhar uma única luz indivisível”
(II, §4, 45). (14)
Tudo isto provém da Bondade, causa universal da união
e da reciprocidade existente no “ordenamento supracósmico”
(IV, §2, 102-104). (15)
Exatamente como o planejamento espacial da rosácea do transepto
norte da basílica de Saint-Denis (imagem
1): o Bem, no centro de tudo,
...é causa também
dos movimentos da enorme evolução celeste, que sucede
sem rumor, e das ordens, das belezas, das luzes e das estabilidades
das estrelas e dos vários cursos de algumas estrelas errantes
e do retorno periódico aos seus pontos de partida das duas luminárias
que a Sagrada Escritura chama grandes (16),
por cujo curso são definidos os dias e as noites, e medidos os
meses e os anos, que precisam os movimentos cíclicos do tempo
e das coisas que estão submetidas ao tempo, os enumeram, os ordenam
e os contêm (IV, §4, 112). (17)
Paz. Harmonia. Ordem. Hierarquia. Todos esses conceitos,
completamente estranhos ao homem atual, estruturavam a percepção
das sensibilidades letradas dos séculos XI-XII para as coisas sublimes,
para a concórdia, a adequação, a conformidade. (18)
Tudo a partir da difusão da luz:
A luz deriva do bem e é imagem
da bondade; por essa razão celebra-se o bem chamando-o luz como
o arquétipo que se manifesta na imagem (...) a imagem onde se
manifesta a bondade divina, isto é, este grande sol todo luminoso
e sempre reluzente segundo a tênue ressonância do bem, ilumina
todas aquelas coisas que são capazes de participar dele e tem
uma luz que se difunde sobre todas as coisas e estende sobre a totalidade
do mundo visível, a todos os escalões de alto a baixo,
os esplendores dos seus raios, e, se alguma coisa não participa
nesta irradiação, tal fato não se deve atribuir
à sua obscuridade ou à insuficiência da distribuição
da sua luz, mas às coisas que não tendem à participação
da luz por causa de sua inaptidão em recebê-la (IV, §4,
117). (19)
E por não terem princípio nem fim, as inteligências
divinas giram de modo helicoidal em torno do belo e do bem e, em relação
às coisas inferiores, se movem em linha reta. O mesmo ocorre com
a alma iluminada, que se move em um movimento helicoidal de atos complexos
e progressivos (IV, §8-9, 147-148). (20)
Em outra obra, Da hierarquia eclesiástica,
o Areopagita deixa clara a forma como nós podemos ascender às
coisas superiores:
Os seres celestes,
devido à sua natureza intelectual, vêem a Deus diretamente.
Nós, pelo contrário, nos elevamos até onde podemos
na contemplação do divino por meio de imagens sensíveis
(I, §2, 373B). (21)
Os homens, particularmente aqueles que pertencem à
hierarquia eclesiástica, necessitam servir-se de signos sensíveis
para se elevarem espiritualmente às realidades do mundo inteligível,
em direção ao divino (I, §5, 377a; V, §2, 501D).
(22) Ao ler o Pseudo Dionísio,
Suger aceitou essa escala de ascensão rumo ao mundo real, e tentou,
de todas as maneiras, salvar a sua alma, reformando a sua igreja e dando
o exemplo para fomentar um zelo constante no cuidado da Igreja de Deus.
E isso
...sem nenhum desejo de vanglória
e sem exigir nenhuma retribuição de louvor humano ou recompensa
passageira, a não ser para que a Igreja, depois de nossa morte,
não visse diminuída sua fortuna por algum engano ou fraude
de alguém...
Suger, Das obras realizadas durante sua administração,
I, 156. (23)
Deus é luz
Imagem 3

Saint-Denis. Fachada ocidental.
Foto: Olaf Lange. Site: www.kto-to.de
Assim, embasado na metafísica da luz do
Pseudo Dionísio Areopagita, Suger pôs mãos à
obra. Entre 1137 e 1144, dirigiu pessoalmente a construção
de um pórtico e fachada novos, além de um coro e uma galeria
coberta. No portal da igreja, Suger mandou gravar com letras douradas
e de cobre os seguintes versos:
...Quem quer que tu sejas,
caso queiras exaltar a glória dessas portas,
que não te deslumbres com o ouro nem com os gastos,
mas com o trabalho da obra.
Pois a obra nobre brilha, mas esta obra,
que brilha com nobreza,
iluminará as mentes para que, sendo luzes verdadeiras
cheguem à luz verdadeira,
onde Cristo é a verdadeira porta.
A porta dourada define dessa maneira a luz interior:
a mente estúpida se eleva em direção à verdade
passando pelo material
e antes, imersa no abismo, ressurge à vista dessa luz.
E no lintel:
Acolhe, Juiz implacável, as orações
de teu filho Suger,
Faz com que, por tua clemência, eu esteja entre as tuas ovelhas.
Suger, Das obras realizadas durante sua administração,
XXVII, 12-22. (24)
Esse “poema” define muito bem qual era a
função da obra de arte no pensamento de um de seus mecenas
mais audaciosos: iluminar a alma e ajudá-la a caminhar passo a
passo rumo à luz, graças, sobretudo, à qualidade,
perfeição e significado das (novas) formas artísticas.
Parafraseando Boécio (outro autor muito lido
na Alta Idade Média) (25),
Suger quis fazer com que as coisas existentes se aproximassem
o máximo possível das formas essenciais. (26)
Em outras palavras, ele tentou estreitar a distância entre a coisa
concreta (id quod est) e sua essência (esse),
ao colocar o mundo material a serviço da elevação
espiritual, ao modelar os edifícios e incrementar os tesouros da
Igreja, e, sobretudo, ao ajustar a reforma de sua construção
às “harmonias sublimes do sobrenatural”. (27)
Em seu conjunto, o esquema decorativo foi inspirado pelos
escritos de Hugo de São Vítor (1096-1141) (28),
mas todo o alicerce filosófico pertence à inspiração
de natureza neoplatônica dos escritos do Pseudo Dionísio.
(29)
Suger quis que todo o interior da igreja fosse invadido
pela luz. Sua obra é o apogeu das inovações monásticas
do século XI. (30)
Mas à filosofia mística Suger legou uma das passagens mais
deslumbrantes para a plena compreensão do simbolismo do concreto
como suporte à contemplação das realidades celestes:
Assim, por puro amor à Mãe
Igreja, contemplamos esses diferentes ornamentos novos e antigos, e
vemos a admirável cruz de Santo Elói, jóia incomparável,
que o povo chama “Crina”, posta acima do altar de ouro.
Então digo, suspirando do mais profundo do coração:
“Toda pedra preciosa é Teu ornamento, o sárdonix,
o topázio, o jade, o crisólito, o ônix e o berilo,
a safira, o carbúnculo e a esmeralda. (31)
Para aqueles que reconhecem as propriedades das pedras preciosas, salta
à vista, para grande assombro, que, da lista mencionada, só
nos falta o carbúnculo, mas as outras abundam copiosamente.
Então, quando por causa da dileção ao decoro (32)
da casa de Deus, o agradável aspecto das pedras preciosas de
múltiplas cores me distancia, pelo prazer que produzem, de minhas
próprias preocupações, e quando a honesta meditação
me convida a refletir sobre a diversidade das santas virtudes, trasladando-me
das coisas materiais para as imateriais, creio residir em uma estranha
região do orbe celeste, que não chega a estar inteiramente
na superfície da terra nem na pureza do céu, e creio poder,
pela graça de Deus, trasladar-me de um lugar inferior para outro
superior, de um modo anagógico.
Suger, Das obras realizadas durante sua administração,
XXXIII, 26-14. (33)
Com base em Ezequiel, Suger ornamenta a decoração
do altar e medita as santas virtudes das pedras preciosas. Na Idade Média,
acreditava-se que as pedras tinham poderes curativos. (34)
O tema foi herdado da Antigüidade: com base na História Natural,
de Plínio, o Velho, Isidoro de Sevilha (c. 560-636) descreve,
em suas Etimologias, a origem de pedras verdes (doze classes),
rosas, púrpuras, brancas, negras, cristalinas, cor de fogo, douradas
e de cores variadas, e afirma que a origem das gemas remonta às
montanhas do Cáucaso, quando Prometeu colocou um fragmento de pedra
em um ferro e o transformou em um anel. (35)
Imagem 4

Cristo entre a Igreja e a Sinagoga
(detalhe do Vitral anagógico, 1140-1144). Saint-Denis.
Seja como for, Suger descreve um estado quase de transe
induzido ao referir-se ao efeito hipnótico das cores das gemas,
que fazem com que seu espírito seja transportado para outra dimensão
(como uma experiência premonitória da vida após a
morte, e da beleza do encontro com a verdadeira Luz). A seguir, opondo-se
à tradição cisterciense, ele confessa que lhe compraz
que os objetos mais valiosos sirvam, acima de tudo, à administração
da Santa Eucaristia. E uma vez mais ele recorre à Bíblia
para fundamentar a sua escolha pela suntuosidade:
Cada qual siga sua convicção.
(36)
Confesso que a mim me compraz sobretudo que os objetos de grande valor,
os objetos mais luxuosos, devem servir acima de tudo a administração
da Sacrossanta Eucaristia. Se os vasos de ouro das libações,
os copos de ouro e os pequenos almofarizes serviam, segundo a palavra
de Deus e a ordem do Profeta, para recolher o sangue de bodes e novilhos
ou das vacas vermelhas, quanto mais os cálices de ouro, as pedras
preciosas e tudo que existe de mais valioso entre todas as coisas criadas
deve ser exposto, com reverência constante e plena devoção
para receber o sangue de Cristo. (37)
Certamente nem nós nem nossas possessões são suficientes
para esse serviço. (...)
Os detratores objetam que uma mente santa, um espírito puro e
uma intenção fiel deveriam ser suficientes para a administração
da santa Eucaristia, e nós também afirmamos explícita
e expressamente que essa disposição interior é
essencial. Mas reconhecemos que nos ornamentos externos dos santos cálices
não deve haver nenhum outro propósito que não seja
o serviço do sagrado sacrifício, com toda a pureza interior
e toda nobreza exterior. Pois em todas as coisas devemos servir de uma
maneira universal e com máxima decência a Nosso Redentor,
que em todas as coisas de uma maneira universal e sem qualquer exceção
não se negou a nos ajudar; que uniu a sua natureza à nossa
sob a forma de um único e admirável indivíduo que,
colocando-nos à sua direita nos prometeu que, em verdade, possuiríamos
o seu reino (38),
Nosso Senhor que vive e reina pelos séculos dos séculos.
(39)
Suger, Das obras realizadas durante sua administração,
XXXIII, 29-19. (40)
Conclusão
Imagem 5
Saint-Denis. Nave central. Foto:
Olaf Lange. Site: www.kto-to.de
A filosofia do Pseudo Dionísio Areopagita embebeu
a meditação estética do abade Suger de Saint-Denis,
de modo que lhe propiciou uma experiência místico-sensorial
de profundo e duradouro alcance para a história da arte no ocidente
medieval. A busca do luxo e da suntuosidade no cerimonial, e sobretudo
a escolha da inundação da luz através dos vitrais
fez com que o Suger “arquiteto” agisse como um filósofo,
um neoplatônico do século XII. (41)
Assim, propondo-se a “com todo o ânimo e
empenho de sua mente acelerar a ampliação daquele lugar”,
Suger, o regente do reino e filho de camponeses entusiasmado com a metafísica
da luz do Areopagita, sem o saber, sintetizou todas as formas arquitetônicas
regionais em um estilo novo, que ele chamava moderno, e que hoje
chamamos gótico.
A Filosofia nunca mais influenciaria a arquitetura de
maneira tão duradoura.
*
Esse opúsculo é dedicado à
memória de Erwin Panofsky
(1892-1968) e Georges Duby
(1919-1996), grandes intelectuais que se dedicaram ao estudo de Suger
e da arte medieval.
Agradeço sobremaneira a leitura crítica
e correções do amigo Armando
Alexandre dos Santos.
*
Notas
(01) Apesar
de a abadia de Saint-Denis ser um lugar régio, centro de educação
de príncipes, não tinha boa reputação antes
da chegada de Suger à abadia. Bernardo falava dela como a sinagoga
de Satanás e Abelardo criticava sua corrupção
sob o abaciado de Adão, predecessor de Suger. Além dessa
degeneração moral, havia ainda a decadência física.
A infraestrutura arquitetônica estava quase em ruínas.
JAQUES PI, Jéssica. La Estética del Románico
y el Gótico. Madrid: A. Machado Libros, 2003, p. 257.
(02) Obras Completas
de San Bernardo VII. Cartas. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos
(BAC), MCMXC, pp. 286-303.
(03) Para a vida do abade
Suger, o texto clássico é de PANOFSKY, Erwin. “O
abade Suger de S. Denis”. In: Significado nas Artes
Visuais. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002, pp. 149-190.
Suger foi conselheiro de Luís VI (1081-1137) e Luís VII
(1120-1180), e regente de 1147 a 1149, quando Luís VII se engajou
na Segunda Cruzada. É considerado um dos maiores patronos da
arte em toda a Idade Média. Dicionário Oxford de Arte.
São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 512.
(04) WILLIAMSON, Paul.
Escultura Gótica (1140-1300). São Paulo: Cosac
& Naif, 1998, p. 11.
(05) Os dois documentos
foram publicados em El Abad Suger. Sobre la Abadía de Saint-Denis
y sus tesoros artísticos (ed. de Erwin Panofsky). Madrid:
Ediciones Cátedra, 2004. Esta será a edição
que embasará o nosso artigo.
(06) Primeiro bispo de
Paris, martirizado em 272. Na Idade Média, acreditava-se que
São Dionísio e Dionísio Areopagita eram a mesma
pessoa.
(07) DUBY, Georges. O
tempo das catedrais. A Arte e a Sociedade (980-1420). Lisboa: Editorial
Estampa, 1979, p. 104.
(08) MARTINS-LUNAS, Teodoro
H. “Introducción”. In: Obras completas
del Pseudo Dionisio Areopagita. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos
(BAC), MCMXCV, p. 20.
(09) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA.
Dos nomes divinos (introd., trad. e notas de Bento Silva Santos).
São Paulo: Attar Editorial, 2004, p. 59-60.
(10) TATARKIEWICZ, Wladyslaw.
Historia de la Estética. II. La estética medieval.
Madrid: Akal Ediciones, 2002, p. 33.
(11) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA.
Dos nomes divinos, op. cit., p. 73.
(12) FLASCH, Kurt. El
pensament filosòfic a l’Edat Mitjana. D’Agustí
a Maquiavel. Santa Coloma de Queralt: Obrador Edèndum, 2006,
p. 76.
(13) O inefável
é aquilo que, por sua beleza indescritível, não
se pode nomear ou descrever, e, por isso, tem caráter incomunicável,
indizível. Não obstante sua inacessibilidade substancial,
o prazer que causa ao seu contemplador é inebriante, encantador.
Para o Areopagita, o inefável é o próprio Bem,
que é verdadeiro e real, isto é, Deus. De modo muito inferior,
a sensação do inefável está presente em
muitas sensações humanas (a música, o amor, a liberdade,
etc.). Este tema foi abordado pelo filósofo francês (de
origem russa) Vladimir Jankélévitch (1903-1985).
(14) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA.
Dos nomes divinos, op. cit., p. 73.
(15) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA.
Dos nomes divinos, op. cit., p. 91.
(16) “Deus disse:
‘Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o
dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto
para os dias e os anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu
para iluminar a terra’, e assim se fez. Deus fez os dois luzeiros
maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para
governar a noite, e as estrelas. Deus colocou no firmamento do céu
para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para separarem
a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom”, Gn 1, 14-18;
“Ele fez os grandes luminares: porque o seu amor é para
sempre! O sol para governar o dia, porque o seu amor é para sempre!
A lua e as estrelas para governarem a noite, porque o seu amor é
para sempre!” Sl 136 (135) 7-9.
(17) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA.
Dos nomes divinos, op. cit., p. 93.
(18) “Ordem ‘é
o que podemos perceber no espetáculo dos planetas onde cada elemento
ocupa seu lugar e sua ordem sem ser um empecilho para o outro’.
Esta sentença formulada no século XII no círculo
da escola de Abelardo, sugerindo a harmonia comum ao cosmo e à
congregação dos homens, situa-se na longínqua herança
da concepção antiga, grega e romana, de ordo rerum. Desde
a época dos Pais da Igreja, os autores cristãos encontraram
nos antigos, estóicos e sobretudo platônicos, um antigo
quadro de reflexão sobre o sistema social concebido como uma
concórdia de ordens reguladas de acordo com o modelo da harmonia
dos planetas.” – IOGNA-PRAT, Dominique. “Ordem(ns)”.
In: LE GOFF, Jacques, e SCHMITT, Jean-Claude (coords.). Dicionário
Temático do Ocidente Medieval II. Bauru, SP: EDUSC; São
Paulo, SP: Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 305.
(19) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA.
Dos nomes divinos, op. cit., p. 94.
(20) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA.
Dos nomes divinos, op. cit., p. 99-100. Platão já
afirmara no Timeu (VI, 33b): “Quanto à forma (do
universo), concedeu-lhe a mais conveniente e natural. Ora, a forma mais
conveniente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os seres
vivos, só poderia ser a que abrangesse todas as formas existentes.
Por isso, ele torneou o mundo em forma de esfera, por estarem todas
as suas extremidades a igual distância do centro, a mais perfeita
das formas e mais semelhante a si mesma, por acreditar que o semelhante
é mil vezes mais belo do que o dessemelhante. Ademais, por vários
motivos, deixou lisa sua superfície exterior.”; e VI, 34a:
“...por todas essas razões, a divindade eterna, tendo em
mente a divindade que viria algum dia a existir, deixou-a lisa e uniforme,
com todas as partes eqüidistantes do centro, completa e perfeita
e composta só de corpos perfeitos. No centro colocou a alma,
fazendo que se difundisse por todo o corpo e completasse seu envoltório,
depois do que formou o céu circular com movimento também
circular, céu único e solitário, porém capaz,
em virtude de sua própria excelência, de fazer companhia
a si mesmo, sem necessitar de ninguém nem de conhecimentos nem
de amigos, mas bastando-se a si mesmo. Com todas essas qualidades, engendrou
uma vida feliz.” – PLATÃO. Diálogos
(trad. de Carlos Alberto Nunes). Belém: EDUFPA, 2001, p. 69-70.
O tema do círculo como figura geométrica perfeita remonta,
no mínimo, a Santo Agostinho. Em sua obra Sobre a potencialidade
da alma (Petrópolis, RJ: Vozes, 2005), Agostinho dialoga
com Evódio sobre as figuras geométricas, discutindo as
propriedades destas, entre elas a igualdade, até chegarem ao
círculo, a figura geométrica mais perfeita. Agostinho
diz (cap. 11, p. 58): “Quanto a figura mais excelente, não
duvidará que seja aquela cujo perímetro está eqüidistante
do centro de tal maneira que qualquer ponto da superfície dista
igualmente do centro, sem ângulos que impeçam a igualdade,
de cujos centros podemos traçar linhas iguais para qualquer dos
limites da figura”.
(21) “La jerarquía
eclesiástica”. In: Obras completas del Pseudo
Dionisio Areopagita. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC),
MCMXCV, p. 192.
(22) “La jerarquía
eclesiástica”, op. cit., p. 195 e 236-237.
(23) El Abad Suger.
Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos
(ed. de Erwin Panofsky). Madrid: Ediciones Cátedra, 2004, p.
57.
(24) El Abad Suger.
Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos,
op. cit., p. 65.
(25) Juntamente com Agostinho
e o próprio Pseudo Dionísio Areopagita.
(26) FLASCH, Kurt. El
pensament filosòfic a l’Edat Mitjana, op. cit., p.
89.
(27) DUBY, Georges. “Arte
e Sociedade”. In: DUBY, Georges e LACLOTTE, Michel. História
Artística da Europa I. A Idade Média. São
Paulo: Editora Paz e Terra, 1997, p. 60.
(28) WILLIAMSON, Paul.
Escultura Gótica (1140-1300), op. cit., p. 12.
(29) JAQUES PI, Jéssica.
La Estética del Románico y el Gótico, op. cit.,
p. 257.
(30) DUBY, Georges. “Arte
e Sociedade”, op. cit., p. 60.
(31) “Assim diz
o Senhor Iahweh: Tu eras um modelo de perfeição, cheio
de sabedoria, de uma beleza perfeita. Estavas no Éden, jardim
de Deus. Engalanavas-te com toda sorte de pedras preciosas: rubi, topázio,
diamante, crisólito, cornalina, jaspe, lazulita, turquesa, berilo;
de ouro eram feitos os teus pingentes e as tuas lantejoulas. Todas essas
coisas foram preparadas nos dias em que foste criado”, Ez XXVIII,
12-13.
(32) No original, decorus
(acatamento das normas morais, decência). Segundo Suger, esse
conceito, associado ao de convenientia (concórdia),
determina a utilização das pedras preciosas na missa,
pois elas fazem com que o espectador concentre seu olhar nelas e assim
sua mente seja captada para o centro do sacrifício de Cristo
no altar. JAQUES PI, Jéssica. La Estética del Románico
y el Gótico, op. cit., p. 269, nota 314.
(33) El Abad Suger.
Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos,
op. cit., p. 79-81, confrontado com JAQUES PI, Jéssica.
La Estética del Románico y el Gótico, op. cit.,
p. 269-270.
(34) Por exemplo, Afonso
X, o Sábio, entre 1252 e 1284, mandou traduzir um Lapidário
árabe para o castelhano. Nele, “apresentam-se 360 pedras,
cujas propriedades estão relacionadas aos 360 graus do Zodíaco,
trinta pedras para cada um dos 12 signos. Cada uma recebe suas propriedades
físicas e suas virtudes operativas das estrelas que formam as
constelações. A maior parte das descrições
das pedras traz a indicação de uso para o tratamento de
doenças, mas também seu emprego nas mais diversas circunstâncias
da vida cotidiana. As receitas combinam, freqüentemente, o uso
de partes de animais, e um bom número delas emprega também
as plantas. Pedras, plantas, animais, seres sutis e astros intervêm
continuamente na vida humana.” – MATTOS,
Carlinda Maria Fischer. A classificação dos seres
no “Lapidário” de Alfonso X, O Sábio.
Tese de doutorado, UFRGS, 2008.
(35) SAN ISIDORO DE SEVILLA.
Etimologías II. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos
(BAC), MCMXCIV, p. 279. “Nos casos em que se interessavam por
explicações naturalistas, recorria-se à Naturalis
historia de Plínio, o Velho, morto no ano de 79 d. C.”
– FLASCH, Kurt. El pensament filosòfic a l’Edat
Mitjana, op. cit., p. 110.
(36) Rm 14, 5.
(37) Hb 9, 13-14.
(38) Mt 25, 33.
(39) Tb 9, 2; Ap 1, 18;
5, 14; 11, 15; 15, 7.
(40) El Abad Suger.
Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos,
op. cit., p. 80-83, confrontado com JAQUES PI, Jéssica.
La Estética del Románico y el Gótico, op. cit.,
p. 270-271.
(41) Parafraseio –
e assim homenageio – Erwin Panofsky que, em sua magistral obra
intitulada Arquitetura Gótica e Escolástica (Martins
Fontes, 2001) assim se referiu a Pierre de Montereau: “...parece
que em 1267 o próprio arquiteto foi considerado uma espécie
de escolástico (p. 17).
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