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Da Consideração (1149-1152)

Prefácio

Irrompe em meu interior1, beatíssimo papa Eugênio2, um desejo incontido de ditar algo que te edifique, te deleite, te console. Mas vacilo entre fazê-lo ou não, pois duvido que possa sair de mim uma exortação livre e ao mesmo tempo moderada, já que me encontro como que envolto em uma luta entre duas forças contrárias: o impulso de meu amor e a contenção por tua majestade. Esta me inibe, aquele me urge.

Mas intervêm tua dignidade e tu não me ordenas simplesmente, mas te rebaixas para pedir-me quando deverias ordenar-me. Como meus pudores poderão ainda resistir, se tua própria majestade é tão deferente comigo? Não me coage o fato de ter ascendido à cátedra pontifícia, pois ainda que avance com grandes asas ao vento, não te faltará meu afeto, pois o amor desconhece o domínio3 e reconhece o filho, mesmo sob a tiara; o amor é submisso por natureza, obedece espontaneamente, concorda desinteressadamente, respeita generosamente.

Mas nem todos são assim, nem todos. Muitos se deixam levar pela cobiça ou pelo temor. Esses são os móveis que aparentemente te louvam, mas em seus corações lateja a maldade. Adulam-te com tuas blandícias, mas te abandonam na necessidade. E a caridade, essa, nunca desaparecerá.

Eu, para te dizer a verdade, estou liberado dos meus ofícios maternais contigo, mas eles não me privaram o afeto, pois há muito te carrego em minhas vísceras, já que não é tão fácil me arrancarem um afeto tão íntimo. Tu podes ascender aos céus ou descer aos abismos, que nunca te separarás de mim: seguir-te-ei onde quer que vás. Amei o que era pobre em seu espírito, amarei o que é pai dos pobres e dos ricos. Conheci-te bem, e sei que não deixou de ser pobre no espírito, embora te tenham feito pai dos pobres.

Confio que em ti se tenha realizado essa mudança, [394] não à tua custa, pois tua promoção não conseguiu mudar tua condição anterior, mas somente sobrepor-se a ela. Assim, te admoestarei não como um mestre, mas como uma mãe, como quem ama. Talvez pareça loucura, mas será somente para aquele que não ama, nem sente a força do amor.

Livro I
Minhas condolências por tuas imensas ocupações

I.1. Por onde principio? Decido-me fazê-lo por tuas ocupações, pois são elas que maximamente me movem a condoer-me contigo. Digo condoer-me no caso de a ti também te doerem. Se não é assim, te diria que me doem, pois não posso falar de condolência quando o outro não sente a mesma dor. Portanto, se te doem, me condôo, se não, sinto maior pena ainda, porque um membro insensibilizado dificilmente poderá se recuperar, já que não há enfermidade mais perigosa que aquela que não se sente enfermo. Mas não sei se me ocorre suspeitar isso de ti.

Bem sei com que gosto até bem pouco tempo tu saboreavas as delícias de tua doce quietude. Não podes prescindir tão rapidamente delas; é impossível que não lamentes tua tão recente perda. Uma ferida recente dói muitíssimo, e não é possível que tenha criado um calo tão rápido, nem te creio capaz de ter ficado insensível em tão pouco tempo. Pelo contrário, se não dissimulas, te sobram razões para sofrer justificadamente as fadigas que te reservam quotidianamente. Não me engano se te digo que te arrancaram violentamente dos braços de tua querida Raquel4, e necessariamente tens que renovar essa dor quantas vezes tiver que suportá-la.

E quando te acontece isso? Sempre que tentas algo inutilmente sem poder terminar. Quantos esforços sem sucesso! Quantas dores de parto sem parir! Quantos afãs frustrados! Quantas coisas tu tens que abandonar mal iniciadas! Quantos planos caem por terra depois de concebidos! “Chegaram os filhos até o colo do útero”, disse o profeta5, [395] “e não há força suficiente para fazê-los nascer”. Já não o experimentastes? Ninguém sabe melhor que tu. Tuas faculdades mentais deveriam ter-se debilitado, ou deverias ser como a novilha de Efraim, que trilhava com gosto6, se é que te acomodastes à tua situação sem qualquer preocupação.

Desejo-te sinceramente a paz, mas não uma paz que nasça de teu conformismo. Seria muito alarmante para mim que tu gozasses dessa paz. Estranhar-te-ia chegar a esse extremo? Asseguro-te que é possível; ordinariamente, a força do costume leva à despreocupação.

Os perigos das ocupações excessivas

II.2. Não confie demasiadamente no desgosto que agora sentes. Não há nada tão arraigado no ânimo que não perca sua força com a negligência e o tempo. A calosidade termina encobrindo uma velha ferida já esquecida. Por isso, o insanável é o insensível, a dor mais aguda e contínua cede de intensidade e, mesmo que os remédios não a amorteçam, ela cede por si, desaparece com as medicinas, ou adormece por sua própria agudeza. Há algo que a assiduidade não mude? A rotina nos relaxa, pois nada resiste à contínua repetição. Quantos, devido à inércia do hábito, conseguiram encontrar doçura no que antes parecia amargo?

Assim confessava o justo, que lamentava: “O que minha alma se negava a tocar, veio a ser o alimento em minha enfermidade”.7 No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis. Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão. Dessa maneira, como te dizia, a dor mais grave e contínua extinguir-se-á, recobrando-se a saúde ou tornando-se insensível.

II.3. [396] Em outras palavras, isso é o que sempre temi de ti e o temo agora: que por ter diferido o remédio ao não poder suportar mais a dor, chegues a te abandonar irrevogável e desesperadamente ao perigo. Tenho medo, te confesso, que, em meio às tuas ocupações, que são tantas, por não poder esperar que nunca cheguem ao fim, tu acabes por endurecer a ti mesmo e, lentamente, percas a sensibilidade por uma dor tão justificada e saudável.

É muito prudente que pelo menos um tempo tu te subtraias das ocupações. Faça qualquer coisa, menos permitir que te arrastem e te levem para onde não queiras. Queres saber para onde? Para a dureza do coração – e não me perguntes o que é essa dureza de coração: se já não estremecestes, é porque já chegastes nela. Coração duro é aquele que não se espanta mais consigo mesmo, porque nem o adverte. Quem me interroga? Interroga o faraó.8 Nunca um coração duro se salvou, a não ser que Deus, em Sua misericórdia, como disse o profeta, o converta em um coração de carne.

E quando é duro um coração? Quando não se rompe pela compunção, nem se abranda com a compaixão, nem se comove na oração; não cede ante as ameaças, nem se encrespa com os flagelos; é ingrato com os bens que recebe, desconfiado com os conselhos, cruel nos julgamentos, cínico diante do indecoroso, impávido ante os perigos, desumano com os homens, e temerário com o divino; dá as costas a tudo, o presente não lhe importa, não teme o futuro. É de coração duro o homem que, do passado, só recorda as injúrias que lhe fizeram; não se aproveita do presente e, do futuro, só imagina a maquinação da vingança. Em outras palavras: é de coração duro aquele que nem teme a Deus, nem respeita o homem.

Essas malditas ocupações podem te levar até esse extremo se, tal como iniciastes, continuarem absorvendo-te totalmente sem reservar-te nada para ti mesmo. Perdes o tempo e, se me permites ser para ti outro Jetro9, te diria que te consomes em um trabalho estulto [397], com ocupações que são aflição para o espírito, enervamento da mente e perda da graça. O fruto de tantos afãs não se reduzirá a teias de aranha?

A infinitude e indignidade de tuas ocupações

III.4. O que é estar desde a manhã até a véspera10 presidindo litígios e escutando litigantes? Que cada dia lhe baste sua malícia!11 Mas não te restam nem as noites livres. Apenas descansastes um pouco para que teu pobre corpo logo se recupere, e já tens que te levantar de novo para acudir a juízos. Um dia passa a outro seus pleitos e a noite traz à noite sua maldade.12 Assim te falta tempo para respirar a bondade ou mesclar o trabalho com o descanso, e menos ainda um intervalo de ócio, mesmo que seja curto. Sei que tu também o deploras, mas inutilmente, se não fazes todo o possível para remediá-lo. Quisera que pelo menos o lamentasses, para que tão absorvente ocupação não te endureça. “Os feri e não sentiram dor”, diz Deus.13 Que tu não sejas como eles! Identifique bem o que diz o justo e suas afeições: “Que forças me restam para resistir? Que destino eu espero para ter paciência? Sou tão resistente como a pedra? Por acaso minha carne é de bronze?”.14

A paciência é uma magna virtude. Mas, neste caso, eu não gostaria que tu a tivesses. Há ocasiões em que é preferível saber impacientar-se. Não creio que aproves a paciência que Paulo se referia: “Com gosto suportai os insensatos, vós que sois sensatos”.15 Se não me equivoco, há aqui uma claríssima ironia, não louvor, mas uma repreensão mordaz da mansuetude de alguns que, entregando-se aos pseudo-apóstolos e seduzidos por eles, toleram com falsa paciência que lhes arrastem a seus estranhos e depravados dogmas. Por isso acrescenta: “Suportais que vos escravizem”.16

A boa paciência não consiste [398] em consentir que te degradem até a escravidão, quando podes manter-te livre. Eu não gostaria que dissimulasses essa servidão que dia-a-dia te está oprimindo. Não sentir a própria e contínua vexação é um sintoma de um coração que se encontra embotado. “Os açoites te servirão de lição”, diz a Escritura17, o que é verdade, mas somente se não são excessivos. Quando o são, nada ensinam, porque provocam repugnância.18 Quando o ímpio chega ao fundo do mal, tudo despreza.19 Desperta e fica alerta: que te horrorize o jugo que te cai por cima e te oprime com sua odiosa escravidão.20

Por acaso crês que, por servir a todos e não a um só, não és escravo? Não existe mais torpe nem mais grave servidão que a escravidão dos judeus, pois aonde vão eles a levam consigo, e em todas as partes ofendem seus senhores. Confessa também tu, por favor: onde te sentes livre? Onde te vês seguro? Onde és tu mesmo? Por todas as partes a confusão te segue, o tumulto te invade e o jugo de tua escravidão te oprime.21

IV.5. Não me respondas agora com as palavras do Apóstolo, que diz: “Sendo eu livre de todos, a todos me escravizei”22, pois não podes aplicá-las a ti mesmo. Ele não servia aos homens como escravo para conseguir torpes aquisições.23 Por acaso confluíam a ele de toda a orbe os ambiciosos, os avaros, os simoníacos, os sacrílegos, os concubinários, os incestuosos e outros monstros do gênero humano para conseguir ou conservar mediante sua autoridade apostólica honras eclesiásticas?

Fez-se servo de todos aquele homem cuja vida era Cristo, e para quem morrer era um lucro.24 Assim, ele queria ganhar muitos para Cristo, mas não pretendia amontoar tesouros com sua avareza. Portanto, não podes tomar como modelo de tua servil conduta a Paulo pela sagacidade de seu zelo, nem por sua caridade tão livre quanto generosa. Seria muito mais digno para teu apostolado, mais saudável para a tua consciência, e mais frutuoso para a Igreja de Deus, se escutasses o mesmo Paulo quando diz: “Haveis sido resgatado por um preço muito elevado; não vos façais agora escravos dos homens”.25

Pode haver algo mais servil ou indigno de um sumo pontífice que [399] morrer por esses negócios e pessoas, e nem digo a cada dia, mas a toda hora? Assim, qual tempo nos resta para orar? Quantas horas reservamos para doutrinar os povos?26 Como edificamos a Igreja?27 O quanto meditamos a Lei?28 É justo que trates diariamente no palácio as leis de Justiniano e não as do Senhor? Veja tu. A Lei do Senhor é imaculada e converte as almas.29 Essas outras não são propriamente leis, mas pleitos e cavilações que subvertem o juízo.30 E tu, pastor e bispo das almas, com qual mente podes tolerar que a lei seja sufocada pelo bulício dos litígios?

Estou certo que os escrúpulos te mordem por tanta perversidade. Até imagino que mais de uma vez serás obrigado a clamar ao Senhor, como o profeta: “Os iníquos me narraram suas fabulações, e não seguem a tua lei”.31 E vens agora a atreve-te a dizer-me que gozas de liberdade sob deformante volume de tantos iniludíveis inconvenientes que não podes evitar. Porque se podes e não queres, estarias muito mais escravizado, por ser servo de uma vontade tão perversa como a tua. Ou será que não é escravo aquele dominado pela iniqüidade? É o maior de todos, mesmo que seja para ti uma indignidade maior ser dominado por outro homem que ser escravo de um vício. E o que é que mais importa: ser escravo por tua vontade ou forçosamente?

A escravidão coagida é miserável, mas ainda mais miserável é a escravidão desejada. E tu me perguntas: “O que posso fazer?”.32 Abster-te dessas ocupações. Tu responderás que é impossível, que mais fácil seria renunciar à posse da catedral. Isso seria o mais acertado se eu te exortasse a romper com elas, não a interrompê-las.33

Uma exortação bastante meticulosa

V.6. Escuta minha repreensão e meus conselhos. Se tu dedicas toda a tua vida e todo o teu saber às ações e não reservas nada à consideração, poderia eu felicitar-te? É por isso que não te felicito.34 E ninguém que tenha escutado o que Salomão disse – “Aquele que modera sua atividade [400] se tornará sábio”35 – pode fazê-lo, pois até as mesmas ocupações sairão ganhando se forem acompanhadas por um tempo dedicado à consideração.

E se tens a ilusão de ser tudo para todos, imitando aquele que se fez tudo para todos36, louvo tua humanidade, se é plena. Mas como pode ser plena se te excluis dela? Tu és homem.37 Assim, para que tua humanidade seja plena e integral, seu seio, que abarca a todos os homens, também deve acolher-te. Do contrário, de que serve – conforme a palavra do Senhor – ganhar a todos se te perdes a ti mesmo?38 Então, já que todos te possuem, seja um dos que dispõem de ti.

Por que tens de ser o único que não se beneficia de teu próprio ofício? Até quando tu serás um alento fugaz que não retorna?39 Quando darás audiência a ti mesmo entre tantos a quem acolhes? Tu deves a sábios e néscios40 e só rechaças a ti? O estulto e o sábio41, o escravo e o liberto42, o rico e o pobre43, o homem e a mulher44, o velho e o jovem45, o clérigo e o laico, o justo e o ímpio46, todos dispõem de ti igualmente, todos bebem em teu coração como uma fonte pública, e só tu ficas com sede?

Se é maldito aquele que dilapida sua herança, que será daquele que fica sem ele próprio? Rega as ruas com teu manancial47, para que bebam nele homens, jumentos e animais48, sem sequer excluir os camelos do criado de Abraão49, mas que tu também bebas com eles do caudal de tua fonte.50 E não a dividas com estranhos.51 Ou será que tu és um estranho?

Para quem não és um estranho se o és para ti mesmo? Para quem é bom aquele que é cruel consigo mesmo?52 Não te digo para que sejas sempre, nem te digo para que sejas pouco, mas pelo menos alguma vez que tu te voltes para ti mesmo. Mesmo que sejais como os demais, ou depois dos demais, sirva-te a ti mesmo. Qual indulgência é maior? Digo isso mais por exigência da indulgência53 que da justiça, e acredito que sou mais indulgente contigo que o próprio Apóstolo. “É mais que conveniente”54, tu dirás.

Mas isso não me preocupa; o que mais dá se assim convém? Confio que tu não te conformarás com a minha meticulosa exortação, mas [401] a superarás. Melhor seria que tua generosidade superasse a minha audácia. Eu prefiro equivocar-me por timidez diante de tua majestade que por temeridade, e creio que é preferível admoestar o sábio, como o fiz, conforme o que está escrito: “ofereça ocasião ao sábio e serás ainda mais sábio”.55

O que parece perfeito

VI.7. Além disso, ouça o que o Apóstolo pensa a respeito: “Não há entre vós sábios alguém para poder julgar irmão e irmão?”.56 E conclui: “Digo isso para ignonímia vossa.57 Nos pleitos, tomai por juízes a essa gente que na Igreja é desprezada”.58 Portanto, segundo o Apóstolo, usurpas indignamente para ti, Apostólico, um ofício vil, grau dos mais desprezíveis. E por isso, um bispo, instruindo a outro bispo, lhe dizia: “Ninguém que milita por Deus trata de negócios seculares”.59 Mas eu sou mais condescendente contigo60; não te exijo tanto; unicamente o que na realidade está ao teu alcance.

Creio que, nesses tempos, os homens que litigam pelos bens materiais e que pedem justiça, não tolerariam que tu respondesses com uma reação parecida à do Senhor: “Oh, homem, quem me constituiu juiz entre vós?”61 O que julgariam imediatamente de ti? Diriam: “Fala como se fosse um rústico e um imperito, ignorante que se esquece do que é o primado; desonra a suma e excelsa Sede, e detrata a dignidade apostólica.” Sim, o diriam, mas jamais poderiam demonstrar que algum apóstolo se havia constituído em juiz dos homens, especializado em pleitos sobre fronteiras ou divisão de heranças. [402]

O que li é que os apóstolos compareceram para serem julgados62, mas nunca pude comprovar que se sentaram para atuar como juízes.63 Isso eles farão um dia, que ainda não chegou. Ou por acaso o servo não se rebaixa em sua dignidade quando tenta ser maior que seu senhor?64 Ou o discípulo, se deseja ser superior ao seu mestre? Ou mesmo o filho, se deseja transgredir os termos que lhe impuseram seus pais?65 Quem me constituiu juiz?66 Isso o disse Ele, Senhor e Mestre.67 E pode agora sentir-se ofendido o servo ou o discípulo que não se erige em juiz universal?

Tampouco creio que possua um bom critério quem pensa que é indigno dos apóstolos e de seus sucessores carecer de competência para serem juízes em todo tipo de causas, quando somente receberam poder para as mais transcendentais. Por que não podem depreciar os juízos sobre míseras posses terrenas humanas aqueles que um dia julgarão os próprios anjos celestes?68 Tu tens jurisdição sobre os crimes, não sobre as possessões; tu recebeste as chaves do reino dos céus69 para excluir os prevaricadores, não aos possuidores de terras, para que saibais – afirma – que o Filho do Homem tem poder na terra para perdoar os pecados.70

Qual poder e dignidade te parecem maior: perdoar os pecados71 ou dividir as terras? Não há comparação. Já há juízes para esses assuntos ínfimos e terrenos, os reis e príncipes terrestres. Por que invades competências alheias? Como te atreves a colocar tua foice no trigo que não é teu? Não é porque tu sejas indigno, mas porque és indigno de ingerir-te em causas semelhantes, quando deves ocupar-te de realidades superiores. E se alguma vez assim o requerer um caso especial, convém que ouças não a mim, mas ao Apóstolo: “Se vós julgareis o mundo, sereis indigno das mínimas causas?”.72

VII.8. Mas uma coisa é cair acidentalmente nessas causas urgentes quando lhe premiam com razões, e outra é entregar-se totalmente a elas, como se tratasse dos assuntos mais importantes e que requerem toda a nossa dedicação. Eu deveria recordar-te muitas outras razões, se expusesse todos os argumentos mais convincentes com os conselhos mais retos [403] e sinceros. Mas para que? Correm os dias maus73 e nesse ínterim eu já o admoestei para que não te dês todo à ação, mas reserves algo de ti para a consideração, de teu coração e de teu tempo. E te digo isso pensando mais na necessidade que na eqüidade, embora não seja contra a eqüidade ceder ao que é necessário.

Da necessidade da consideração

Se é lícito fazer para si o que cremos mais conveniente, sempre e maximamente se deve preferir a piedade como um valor máximo74, porque ela é útil para tudo; assim irrefragavelmente mostra nossa razão. Perguntais-me o que é a piedade? Entregar-se à consideração. Talvez repliques que aqui discordo de quem define a piedade como o culto que se tributa a Deus.75 Não rechaço essa posição. Se considerares bem, meu sentido, em parte, coincide com essa expressão verbal. Porque o mais pertinente ao culto de Deus é aquilo que nos pede o Salmo: “Cessai de trabalhar e vejais que eu sou Deus.”76 E por acaso não é nisso que precisamente consiste a consideração?

Além disso, será que há algo mais útil para tudo, que saber de certo modo antecipar-se à própria ação benigna, ordenando de antemão o que se deve fazer mediante uma eficaz previsão?77 Isso é necessário. Do contrário, coisas que poderiam ter sido previstas e premeditadas com vantajosa antecipação, são levadas a cabo com muito risco por serem feitas com precipitação. E eu não duvido que isso tenha ocorrido com freqüência contigo; recordais, caso negativo, os processos dos pleitos, os assuntos mais importantes e as decisões mais comprometidas.

O que primeiro purifica a consideração é sua própria fonte, isto é, a mente, da qual se origina. Além disso, ela rege os afetos, dirige os atos, corrige os excessos, modera a conduta, ordena e torna honesta a vida, além de dar ciência do conhecimento humano e dos mistérios divinos.

É a consideração quem põe ordem no que está confuso, concilia o incompatível, reúne o disperso, penetra no secreto, encontra a verdade, examina a similitude de verdade e explora o fingimento dissimulado. A consideração prevê o que deve ser feito, e reflete sobre o que foi feito. Assim, não fica na mente nenhum resíduo de incorreção, nem nada que deva ser corrigido. Pela consideração se pressente a adversidade na prosperidade, tal como dita a prudência, e, graças à fortaleza, quase não são sentidos os infortúnios.

VIII.9. Deveis também observar a suavíssima harmonia, a conexão que existe entre as virtudes e sua mútua interdependência. Agora mesmo acabas de contemplar a prudência como mãe da fortaleza. E o que não nasce da prudência será uma ousadia da temeridade, não um impulso da fortaleza. É também a prudência quem, fazendo-se de mediadora entre a voluptuosidade e a necessidade, as arbitra dentro de seus próprios limites, porque determina e proporciona o que basta para satisfazer à necessidade, e corta todo o excesso ao deleite. Assim, nasce uma terceira virtude, que chamamos temperança.

E é precisamente a consideração quem nos permite descobrir a destemperança, tanto se nos empenhamos em nos privarmos do necessário, quanto se nos indulgenciamos com a superfluidade. Pois a temperança não consiste unicamente em nos abstermos do supérfluo, mas também em admitirmos o necessário. O Apóstolo, além de secundar essa idéia, é seu próprio autor, quando sentencia a não andarmos solícitos para que a carne cumpra seus desejos. Ao pedir-nos para que “não andemos solícitos pela carne”78, nos proíbe apetecer o supérfluo, e, ao acrescentar, “ao cumprir seus desejos”, não exclui o necessário. Por isso, penso que não será absurdo definir a temperança como a virtude que não fica aquém nem além da necessidade, conforme o filósofo: sem excessos.79

VIII.10. Passando para a virtude da justiça, uma das quatro cardeais, sabemos que antes de a mente formar-se nela, a consideração previamente a possuiu. Porque é necessário que primeiro se reúna em si para extrair de seu interior essa norma da justiça que consiste em não fazer ao outro o que não se deseja para si80, e não negar aos demais o que um quer que lhe dêem. Sobre estes dois pólos gira toda a virtude da justiça. Mas ela nunca vai só.

A conveniência das quatro virtudes

Examina agora comigo a bela conexão e coerência da justiça com a temperança, e o que ambas têm com as outras duas virtudes superiores já mencionadas, a prudência e a fortaleza. Porque se a justiça é não fazer aos demais aquilo que não gostaríamos que nos fizessem, sua perfeição culmina no que nos diz o Senhor: “Tudo o que quereis que os outros façam por vós, fazei vós por eles”.81 Mas não praticaremos nem um nem o outro se a própria vontade, onde se forja sua forma, não se dispor a rechaçar o supérfluo e a separá-lo do necessário com verdadeiro escrúpulo.

Essa disposição é precisamente o que é específico da temperança. Inclusive a própria justiça, caso não queira deixar de ser justa, deverá ser regulada pela moderação dessa virtude. “Não exageres tua honradez”, diz o sábio82, para indicar-nos que nunca devemos dar por bom o sentido do justo se ele não for moderado pelo freio da temperança. Nem a própria sabedoria desdenha este controle, pois não diz Paulo com o saber que Deus lhe deu “Não saber de si mais elevadamente do que convém saber, mas um saber com sobriedade”?83

Pelo contrário, a temperança igualmente necessita da justiça. O Senhor nos ensina isso no Evangelho [406], ao condenar a temperança dos que só jejuavam para ostentar diante das gentes seu jejum.84 Observavam temperança no comer, mas não eram justos em sua alma, porque não tentavam ser prazerosos a Deus, mas aos homens.85

E como possuir essa virtude ou a outra sem a fortaleza? Necessita-se de fortaleza, mas não de uma medíocre, para pretender coibir e rechaçar rigidamente a si mesmo, sem ficar aquém ou além, e assim coibir sua angústia interna, para que a vontade se mantenha no preciso termo médio, puro, só, constante, no próprio centro precisamente circunscrito. Não é nisso que consiste a fortaleza?

VIII.11. Diga-me, se podes, qual dessas três potentíssimas virtudes marcarias como esse termo médio. Não crês que é tão singular das três que parece ser exclusivo de cada uma? Não dirias que nesse termo médio, e nada mais, consiste toda a virtude? Mas então não haveria multiplicidade de virtudes, pois todas seriam uma. Mas não. O que ocorre é que não pode dar-se uma virtude que careça desse termo médio, que é o íntimo dinamismo e a medula de todas. Para ela todas revertem tão estreitamente que é como se parecessem uma singular virtude. Não porque a compartam repartindo-a, mas porque cada uma, prescindindo das demais, a possui inteiramente.

Darei um exemplo: não é a moderação o que é mais típico da justiça? Se algo escapa de seu controle, ela seria incapaz de atribuir a cada um tudo o que lhe corresponde, tal como o exige sua própria natureza. E, por sua vez, não se chama assim a temperança por não admitir o imoderado? O mesmo ocorre com a fortaleza. E é precisamente a propriedade dessa virtude salvar a temperança dos vícios que lhe assaltam por todas as partes para sufocá-la, defendendo-a com todas as suas forças até fortificá-la, como estável fundamento do bem e assento de todas as virtudes. Portanto, justiça, fortaleza e temperança têm esse meio justo.

Mas nem por isso elas carecem de diferenças: a justiça tem afeto, a fortaleza eficácia, a temperança modera a posse. Resta demonstrar como a prudência não se exclui dessa comunhão. [407] Ela é a primeira que descobre e reconhece esse justo meio, durante tanto tempo proposto por negligência da alma, recluso no mais recôndito pela inveja dos vícios, e encoberto pelas trevas do esquecimento. Por isso, te advirto que são pouquíssimos os que descobrem a prudência, pois poucos a possuem.

Portanto, a justiça busca o justo meio. A prudência o encontra, a fortaleza o defende, e a temperança o possui. Mas não era meu propósito tratar das virtudes. Se nisso me estendi, foi para exortar-te a te entregar à consideração, pois assim nos beneficiaremos com essas coisas, além de outras semelhantes. Pois não perderia a vida aquele que nunca se ocupasse desse santo ofício, tão religioso quanto benéfico?

A malícia de nossos dias

IX.12. Que sucederia se repentinamente te rendesses totalmente a essa filosofia? Teus predecessores não o fizeram. Para muitos lhe seria uma moléstia; seria como se, subitamente, te desviasses dos vestígios de teus pais e insultasses sua recordação. Aplicar-te-iam aquele vulgar provérbio: “Faz o que ninguém faz e todos te mirarão”, como se cobiçasses a admiração dos outros. Naturalmente não poderias subitamente corrigir todos os erros, nem moderar todos os excessos. Contudo, com o tempo86 e a sabedoria que Deus te concedeu87, conseguirás paulatinamente, se buscares as oportunidades. Sempre te será factível tirar partido de um mal alheio.

Se tomarmos o exemplo dos bons, não os mais recentes, encontraremos sumos exemplos de pontífices romanos que foram capazes de descobrir espaço para o ócio santo, embora estivessem imersos nos assuntos mais delicados. Era iminente o assédio da urbe, e a espada dos bárbaros caía sobre o pescoço de seus habitantes quando o beato papa Gregório não interrompeu seu ócio para redigir seus sábios comentários.88 E foi justamente nessa obscura circunstância, como se deduz do Prefácio, [408] que ele diligente e elegantemente redigiu a última parte de seu tratado sobre Ezequiel.

X.13. De acordo. É certo que outras formas de vida fincaram raízes, e os tempos e os homens mudaram radicalmente. Não que novos perigos nos ameacem, pois já são uma realidade presente. A fraude, o engano e a violência se apoderaram da terra. Multiplicam-se os caluniadores, rareiam os defensores, e por todas as partes os poderosos oprimem os pobres. Não podemos desentender-nos com os oprimidos, nem negar-lhes o juízo da injúria pacientemente sofrida.89 Mas como é possível fazer-lhes justiça se não se tramitam as causas e não se ouvem as partes litigantes?

Os advogados

Sim, as causas devem tramitar, mas como é devido, pois é execrável como os litígios são freqüentemente conduzidos, e nem digo dos fóruns eclesiais, e sim dos civis. Pasmo como teus religiosos ouvidos podem escutar as pugnas verbais e as disputas dos advogados, que mais servem para subverter a verdade que para descobri-la.90

Corrige a depravação, corta a língua vã e fecha os lábios dolosos91, porque apuram sua eloqüência para servir ao engano92, dissertar contra a justiça, e usar a erudição em favor da falsidade. São sábios em fazer o mal e eloqüentes em impugnar a verdade; instruem a quem deveria instruir-lhes, e não se baseiam na evidência, mas em suas invenções; caluniam o inocente, destroem a simplicidade da verdade, e obstruem o caminho da justiça.

Nada pode manifestar tão facilmente a verdade como uma narrativa breve e clara. Eu quero que tu te habitues a decidir com brevidade e diligência todas as causas que devem ser vistas por ti, que não precisam ser todas. E finda toda dilação fraudulenta e venal. Conduz tu pessoalmente as causas das viúvas93 [409], do pobre e do insolvente. Muitas outras tu poderias passar para outros, e outras, não deves sequer considerá-las dignas de audiência. Pois para que perder tempo em escutar pessoas cujos pecados já se conhecem antes do juízo?

Os ambiciosos

Tamanho é o despudor de alguns, que conduzem aos tribunais suas ânsias de ambição, e manifestam seus pleitos com todas as luzes. Ousam apelar à consciência pública, quando bastava a sua própria para confundirem seus juízos. Não houve quem humilhasse suas frontes altivas94 e, por isso, se multiplicaram, e se fizeram ainda mais soberbos. O que não sei é como estes homens de consciência corrompida não temem ser descobertos pelos que são tão depravados como eles. É que onde todos fedem, ninguém percebe seu fedor. Por exemplo: sente algum rubor o avaro diante do avaro, o imundo diante do imundo, o luxurioso diante do luxurioso? A Igreja está cheia de ambiciosos. Por isso, tu não podes nem mais horrorizar-te com as intrigas e os apetites dos ambiciosos, pois estás como em uma espelunca de ladrões95, onde se contempla os espólios dos viajantes.

XI.14. Se és discípulo de Cristo, deveria consumir-te em zelo, e levantar-te com toda a tua autoridade contra semelhante impudência e peste geral. Contempla o Mestre e escuta-o: “Se alguém quer servir-me, siga-me”.96 Ele não predispôs Seus ouvidos para escutá-los, mas fez um flagelo para golpeá-los; não deixou pronunciarem discursos, nem os admitiu; não se sentou no tribunal97, mas os puniu. E não ocultou o motivo: converteram a casa de oração em uma de negociação.98 Faz tu semelhante.99 Que enrubesçam esses negociantes se for possível; caso contrário [410], que te temam, pois tu também tens o flagelo. Que temam os numerários, e que, ao invés de confiarem no dinheiro, que percam sua confiança; que escondam seu dinheiro de tua vista, cientes que preferes tirá-lo que recebê-lo.

Caso obres assim, com constância e dedicação, terás muitos lucros100, conseguirás que vivam de ofícios mais honestos, e muitos não se atreverão a conceber negócios semelhantes.

Acrescento que tu ainda poderás dispor melhor desses tempos de férias que te aconselho. Encontrarás muitos momentos livres101 para dedicá-los à consideração, se fores capaz de não conceder audiências para certos pleitos, remeter outros a outras pessoas, e resolver os que tu julgas dignos de tua intervenção com um informe breve, fiel, e apropriado à causa.

Sobre essa consideração penso estender-me mais, embora o faça em outro livro, para já concluir esse e não te resultar duplamente pesado por sua excessiva extensão e pela aspereza de meu estilo.

 

Livro II
Apologia dos desastres hierosolimitanos

I.1. Não esqueci a promessa que te fiz, boníssimo papa Eugenio.102 Já faz tempo que me sinto teu devedor, e desejo satisfazer-te, ainda que seja tarde. Pois me envergonharia desta dilação se minha consciência incorresse em incúria ou desconsideração, mas não é assim. Como bem sabes, aconteceram recentemente tais desastres que cheguei a pensar que podiam cessar todas as minhas afeições, e até minha vida, como se o Senhor, provocado por nossos pecados e esquecendo-Se de Sua misericórdia, tivesse determinado julgar com inteira eqüidade todo o orbe terrestre antes do tempo.103

Ele não perdoou Seu povo [411]104, nem Seu nome. Por que os gentios não dizem agora “Onde está teu Deus”?105 Não é de estranhar se disserem. Pois os filhos da Igreja, os que se gloriavam de serem cristãos, estão prostrados no deserto106, abatidos pelo gládio107, ou consumidos pela fome.108

Ele lançou o desprezo sobre os príncipes, os fez errar em descaminhos, não no caminho.109 Contrição e infelicidade encontraram sua via.110 Pavor, aflição e confusão penetraram até no aposento real.111 Quanta confusão para os que anunciam a paz e para os que anunciam a boa nova!112 Dizemos “paz”, mas não há paz113; prometemos o bem, mas há turvação.114 Como se em nossos projetos tenhamos sido temerariamente levianos.115 Contudo, dei-me plenamente, não incertamente116, e porque me ordenaste, ou melhor, Deus, por meio de ti.

Por que jejuamos e Ele não nos olhou, humilhamos nossas almas e Ele nos ignorou?117 E, apesar disso, Ele não aplaca Seu furor, e Sua mão continua estendida.118 Com paciência, Ele escuta as vozes sacrílegas e blasfemas dos egípcios, que ainda dizem “com má intenção os tirou para fazê-los morrer no deserto”.119 Contudo, quem pode ignorar que a Justiça do Senhor é verdadeira?120 Essa justiça é um abismo tão profundo121 que posso ter como um beato a quem não fique escandalizado com o Senhor.122

2. Além disso, não seria uma grande temeridade humana atrever-se a repreender o que escapa inteiramente à nossa compreensão? Recordemos Seus antigos juízos,123 que são seculares124, para nos consolarmos fortemente.125 Na verdade, assim alguém disse: “Relembrando teus juízos seculares, Senhor, fiquei consolado”.

Vou recordar coisas que ninguém ignora, mas que parece que todos esquecem. Pois assim é o coração dos mortais: o que sabemos quando não necessitamos sabê-lo, esquecemos quando necessitamos. Quando Moisés retirou seu povo da terra egípcia, prometeu uma terra melhor.126 Caso contrário, será que seu povo, tão apegado àquela terra, o teria seguido?

Sim, ele os retirou [412], mas não os introduziu na terra que prometeu.127 Contudo, ninguém poderá imputar à temeridade daquele guia um desenlace tão triste e inesperado, pois tudo ele fazia por ordem do Senhor, com a cooperação direta do Senhor, que confirmava com sinais que o acompanhavam.128

Mas tu dirás: “Aquele povo era teimoso e contencioso129, sempre contra o Senhor130 e contra seu servo Moisés”. De acordo: eram uns incrédulos e rebeldes. E nós?131 Pergunte a eles.132 Porque eu devo dizer isso se eles mesmos o estão confessando? Digo a mim mesmo: como podiam seguir adiante os que sempre se voltavam em seu deambulatório?133 Ao longo de sua peregrinação não houve um momento em que seu coração não se voltasse para o Egito.134 Se caíram e pereceram por sua iniqüidade135, podemos estranhar agora que sofram o mesmo desastre quem lhes imitou em seus passos? Será que as adversidades que eles padeceram põem em juízo as promessas de Deus?136 Não, tampouco agora, pois as promessas de Deus nunca criam conflito com Sua justiça. E escuta outra coisa.

3. Pecou a tribo de Benjamim, e as demais tribos se dispuseram a castigá-la137 com a anuência de Deus. Inclusive, Ele mesmo designou o líder que devia dirigir a batalha.138 Trava-se o combate, confiantes que estão em mãos valorosas, que sua causa é mais poderosa e que maior é o favor divino. Mas que terrível é Deus em seus desígnios com os homens!139 Fugiram dos malvados os que se vingariam da maldade e, muito mais numerosos, cederam diante de um inimigo muito menor. Recorrem ao Senhor e o Senhor lhes diz: “Voltai”.140 Vão outra vez, e de novo são desbaratados e sucumbidos. Primeiro contaram com o favor de Deus, segundo com Sua ordem expressa. Enfrentam-se em um certame e sucumbem.141 Foram inferiores no certame e superiores na fé.

Nas atuais circunstâncias tu imaginas o que fariam comigo se, por minha pregação, os nossos voltassem à guerra e sucumbissem? Crês que me escutariam se os exortasse a, pela terceira vez, repetir a viagem e acometer em uma façanha na qual já fracassaram duas vezes? Pois aí tens os israelitas que, sem ter em conta suas repetidas frustrações, pela terceira vez obedecem e se superam.142 Mas os nossos homens diriam: “Como saberemos [413] que este sermão veio do Senhor? Que sinal tu fazes para que creiamos?143 Não ficaria bem se eu mesmo respondesse: minha vergonha não me permite. Em meu lugar responde tu e por ti mesmo, segundo o que ouvistes e vistes144, ou melhor, segundo o que Deus te inspira.

4. Possivelmente te perguntes por que me entretenho a falar de tudo isso quando me propus outra questão. Contudo, não o faço porque tenha me esquecido, mas porque tudo isso não é alheio ao meu propósito. Recordo muito bem que me propus desenvolver ante tua dignidade o tema da consideração, tema magno e digno de profunda reflexão. Pois os grandes personagens devem considerar coisas grandes. Então, quem como tu poderás estudá-lo com o maior interesse se não há sobre a terra outro semelhante a ti? Sê tu, portanto, a fazê-lo, segundo a sapiência e o poder dados a ti145 do alto.146

Devido à minha pequenez, sinto-me incapaz de te ditar como deves fazer as coisas. É suficiente ter insinuado que deves atuar de alguma forma para trazer algum consolo à Igreja, obstruindo os loquazes iníquos.147 Faço estas brevíssimas considerações em forma de apologia. Espero ter depositado em tua consciência as razões que me deixam plenamente escusado perante a minha responsabilidade e a tua148, embora sejam insuficientes para esses que costumam estimar os eventos alheios somente por seu êxito, pois a justificação perfeita e absoluta de cada um é o testemunho da própria consciência.149 Importa-me minimamente o que julgam de mim150 aqueles que chamam mal ao bem e bem ao mal, trevas à luz e luz às trevas.151 Se é preciso escolher, prefiro que os homens murmurem de mim, não de Deus. Para mim é bom servir-Lhe de escudo. Acolho com boa vontade as detratoras línguas152 maledicentes e os venenosos dardos blasfemos de meus detratores, contanto que não cheguem até Ele. Suporto qualquer inglória para que a glória de Deus não sofra menosprezo. Sentir-me-ia glorificado se pudesse dizer: “Por ti suportei opróbrios, a confusão cobriu meu rosto”.153 Para mim é uma glória compartilhar a sorte de Cristo, que disse: “Os opróbrios com que te insultam caem sobre mim”.154 Bem, já é hora de voltar ao nosso tema e avançar ordenadamente em nossa exposição.

[414] As quatro coisas que devem ser consideradas e a tríplice consideração de si mesmo

II.V. Primeiramente, considera o que eu entendo por consideração. Não desejo identificá-la totalmente com a contemplação, pois esta radica na visão ou certeza do conhecido, e a consideração é uma inquisição do desconhecido. A contemplação pode ser definida como uma intuição verdadeira e segura da alma ou uma apreensão da verdade sem qualquer dúvida, enquanto que a consideração é uma cogitação da investigação ou uma aplicação intensa da alma para investigar a verdade. Ambos os termos costumam ser usados indistintamente.

II.VI. Sobre o que pode versar tua consideração? Penso que tu deves considerar quatro coisas: tu, o que está debaixo de ti, ao redor de ti e acima de ti. Comece tua consideração por ti, para que não te frustres te estendendo em outra coisas e te negligencies. Pois de que serve ganhar o mundo inteiro se te perdes?155 Por mais sábio que sejas156, não possuis toda a sabedoria se não fores sábio para contigo mesmo. E quanto te faltaria? No meu modo de ver, tudo. Ainda que conheças todos os mistérios157, a largura da terra, a altura do céu, as profundezas do mar158, se és um néscio, és semelhante àquele que edifica sem fundamento159 e levanta uma ruína, não um edifício. Tudo o que construíres fora de ti será como pó amontoado exposto ao vento.

Não é sábio quem não o é para si. O sábio é sábio por si160, e bebe primeiro de sua fonte.161 Principies tua consideração por ti e a findes em ti. Vá aonde vás, retornes a ti e serás de grande proveito para a tua salvação.162 Sê o primeiro e o último para ti. Toma o sumo exemplo do sumo Pai que enviou o seu Verbo e O reteve.163 Teu verbo é a tua consideração que, se sai de ti, não deve se afastar. Que progridas sem afastar-se; que vás sem abandonar-te. [415]

Na aquisição de tua salvação164 ninguém será mais teu irmão que o filho único de tua mãe.165 Nunca cogites nada contra a tua salvação. Mas eu disse mal a palavra “contra”; deveria ter dito “fora”. Devemos rechaçar tudo o que se oferece à consideração se, de alguma maneira, não nos conduz à própria salvação.

IV.7. Esta consideração de ti se divide em três perguntas: se consideras o que és, quem és e como és. O que és por natureza, quem és como pessoa, e como és por teus costumes; que és, por exemplo, homem; quem és, o papa, ou o Sumo Pontífice; como és, benigno, manso, etc. Embora seja mais próprio dos filósofos que dos homens apostólicos refletir sobre a primeira pergunta, sabemos que ela se contesta com a definição do homem como animal racional e mortal.166

Quem goste, pode aprofundá-la com maior precisão. Não encontrarás nada contra a tua profissão e dignidade se te entregares a esta reflexão, pelo contrário, seria benéfico para a tua salvação. Ao considerares simultaneamente estas duas realidades, a racionalidade e a mortalidade, perceberás dois tipos de frutos: tua mortalidade humilhará tua racionabilidade e tua racionabilidade confortará tua mortalidade, pois o homem circunspecto apreciará estas duas coisas. Se esse fruto requer outra consideração, logo a exporemos e, se por acaso é devido à relação de uma matéria à outra.

Que tu recordes tua primeira profissão

V.8. Passemos a advertir quem és e de que fostes feito. Embora tenha dito “de que”, penso passá-lo por alto, para deixá-lo à tua reflexão. Limito-me a recordar que seria indigno de ti ficar abaixo da perfeição, após teres sido escolhido para tão assunta perfeição. Não te enrubescerias de ver o mais baixo obtendo um posto magno, quando eras um dos maiores dentre os menores? Não te esqueças de tua primeira profissão, nem a destruas de tua mente e de teu afeto, apesar de terem-na arrancado das mãos. Não será inútil que a tenhas sempre em tua vista quando deres uma ordem, corroborares uma sentença, ou tomares uma decisão. Assim, a consideração te facilitará desprezar as honras no seio da honra [416], o que é magno.

Que tampouco se ausente de teu peito; que sejas como um escudo no qual ricocheteie aquela seta: “O homem, por estar rodeado de honras, não compreendeu”.167 Por isso, repita em teu interior: “Sou o mais abjeto na casa de meu Deus”.168 Será possível que um pobre e abjeto se estabeleça sobre as gentes e os reis?169 Quem sou eu e quem é o dono de minha pátria170 para me sentar no mais excelso e sublime? Sem dúvida, quem disse “Amigo, ascenda ao superior”171, seria sempre seu amigo. Se não o sou, me virá uma grande desgraça172, pois quem me elevou pode abater-me. Seria como o lamento: “Depois que me elevaste, me arruinaste”.173 Pois é absurdo se auto-bajular nas alturas, onde a solicitude é maior: aquela busca a grandeza, esta é a prova do amigo. Devo ater-me a isso se, ao final de tudo, não quero ocupar o último lugar.

Por que te fizeram superior

VI.9. Não podemos dissimular que te fizeram superior, mas temos que meditar para que és superior. Opino que não é para comportar-te como um senhor. De fato, como a ti, o Profeta foi elevado, e escutou: “Para arrancar e destruir, dispersar e demolir, edificar e plantar”.174 Estes verbos soam faustosos? São figuras que se referem ao suor do rústico, e, de certa maneira, expressam o trabalho do espírito.

Portanto, por mais elevado que seja o conceito que temos de nós mesmos, temos que nos convencer que não nos foi entregue um domínio, mas uma função servil. “Eu não sou o maior Profeta.175 E embora possa igualar-me em poder, pelo mérito não há comparação”. Diga isso interiormente e ensina a ti mesmo, tu, que doutrinará os demais.176 Considera-te um profeta qualquer.177 Ou te parece muito pouco para ti? É demasiado. Mas pela graça de Deus és o que és.178 O que? Um Profeta. Ou pensas que és mais que um Profeta?179 Se fores sábio, contentar-te-ás com a medida [417] que Deus te deu.180 Tudo o que for além disso, é mau.181

Aprende com os Profetas a presidir, mas fazendo o que requerem os tempos, não simplesmente ordenando. Deves saber que tu necessitas mais de uma enxada do que um cetro para cumprir o trabalho de um Profeta. A ascensão profética não é para reinar, mas para extirpar. Não crês que tu também poderás encontrar algum trabalho no campo de teu Senhor? Sim, e muito. Porque os verdadeiros Profetas não o limparam totalmente. Deixaram algo para seus filhos, os apóstolos, como teus predecessores deixaram a ti algo por fazer. Tampouco tu poderás fazer tudo. Certamente deixarás algo para teu sucessor, e este para o seu, os outros ao seguinte, e assim sucessivamente até o fim.

Por volta da décima-primeira hora, o Senhor repreende o ócio dos operários e eles são enviados à vinha.182 Esse mesmo Senhor disse aos apóstolos que o cereal é abundante e poucos os operários.183 Reinvidica tua herança paterna, porque se és filho, és herdeiro.184 Para provar que o és, põe mãos à obra. Não te entorpeças no ócio, nem seja como aquele que dizem: “O que fazes aqui, todo o dia ocioso?”.185

10. Muito pior seria te estragares nas delícias, ou te enfatuares na pompa. Quem fez teu testamento não te legou nada disso. E por quê? Se te ativeres à letra do testamento, herdarás mais preocupação e trabalho do que glórias e riquezas.186 Te encantarás com a cátedra? Ela é um espelho, como uma torre de sentinelas. Dela tu deverás vigiar tudo; esse é o dever que te impõe tua condição de epíscopo, pois ela não é um domínio, mas um ofício. Por acaso não estás em um lugar eminente para observar tudo, e não te constituíram como observador de tudo?187 Pois esta vigilância te obrigarás a viver sempre tenso, não no ócio. Podes tu  apetecer à glória onde não há ócio? É impossível permanecer ocioso quando urge a solicitude por todas as igrejas.188 Ou recebestes outra herança do santo Apóstolo? O que tenho, isto te dou.189 O que ele te deu? Eu só sei que não te deu ouro nem prata, porque disse expressamente: “não tenho ouro nem prata”.190

Se o tens tu, usa-o, mas não caprichosamente, e sim de acordo com os tempos atuais. Assim o possuirás como se não o possuísse.191 As riquezas não são boas nem más para a alma. Usá-las é bom, abusá-las é mau, cobiçá-las é pior, procurá-las é torpe [418]. Poderás justificar-te com as razões que queiras, mas não com o direito apostólico. Ele não pode dar-te o que não tem, pois te deu tudo o que tinha, isto é, a solicitude por todas as igrejas.192 Para dominá-las? Escuta: não dominando aos que confiaram, mas tornando-os modelos do rebanho.193 Eu digo isso convencido de que deve ser assim como a voz do Senhor no Evangelho: “Os reis das gentes as dominam, e os que exercem o poder se fazem chamar benfeitores”.194 E acrescenta: “Mas vós, nada disso”.195 Está claro: aos apóstolos está interdita a dominação.

11. Agora, veja, e se te atreves, usurpe o ministério apostólico como senhor ou, como apóstolo, o senhorio. Ambas te foram inteiramente proibidas. Caso pretendas ter as duas, ficarás sem nenhuma. Então, não penses estar livre daqueles de quem o Senhor se lamenta: “Eles nomearam reis sem contar comigo, nomearam príncipes sem o meu conhecimento”.196 Será muito agradável reinar sem o Senhor, tereis glória, mas não a de Deus.197

Já sabemos o que está interditado, ouçamos agora o Edito: “O maior dentre vós iguale-se ao menor, e o superior, ao que serve”.198 Esta é a norma apostólica: se interdita o domínio, se intima o serviço, carece imitar o exemplo do Legislador, acrescentando: “Eu estou entre vós como quem serve”.199 Será que podemos considerar inglório um título com o qual o Senhor quis distinguir-se na glória?200 Com mérito, Paulo se gloriou disso, e disse: “São ministros de Cristo, eu também”.201 E acrescentou: “Direi uma mediocridade: mais eu. Muito mais nos sofrimentos, abundantemente nos cárceres, na quantidade dos espancamentos, na freqüência dos perigos de morte”.202

Oh, preclaro ministério! Não é glorioso esse principado? Se for preciso me gloriar203, olha os santos e considera a glória proposta pelos apóstolos.204 Parece-lhe pequena essa recompensa? Que meu tributo seja similar à glória dos santos.205 [419] Clama o profeta: “Os amigos de teu Deus são honrados excessivamente, teu principado é confortado excessivamente”.206 Clama o apóstolo: “Quanto a mim, Deus me livre de gloriar-me mais que na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.”207

12. Eu desejo para ti que esta seja sempre a tua maior glória, a que os apóstolos e os profetas elegeram e te transmitiram. Descubra tua herança no sofrimento maior da cruz de Cristo.208 Feliz quem pode dizer: trabalhei mais que todos.209 Glória é, mas não vazia, nem fraca, nem orgulhosa. O trabalho que repugna necessita de estímulo. “Cada um receberá seu próprio salário segundo seu trabalho”.210 Embora tenha trabalhado mais que todos211, não acabou a tarefa: ainda há lugar.212

 

 

Notas

  • 1. Tradução a partir da edição Obras completas de San Bernardo II. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXCIV, p. 52-185. Em latim, consideratio é a ação de observar, refletir; considerare, o agir com reflexão; consideratus, ser prudente, atento, circunspecto, ter bom senso.
  • 2. Trata-se de Eugênio III, papa (1145-1153), ex-discípulo de Bernardo de Claraval (1090-1153). Pier Bernardo Pignatelli nasceu em Montemagno, próximo a Pisa, de rica e nobre família cristã. Em 1135 ingressou na Ordem de Cister e, mais tarde, foi designado para abrir um mosteiro em Farfa (diocese de Viterbo). Como papa, enfrentou a difícil situação política italiana, em parte provocada por Arnaldo de Bréscia (c. 1105-1155), conhecido opositor papal. Após tomar conhecimento da queda de Edessa (1145), Eugênio III escreveu uma carta a Luís VII da França (1120-1180), convidando-o a tomar a cruz. Na Dieta de Speyer (1146), o imperador Conrado III (1093-1152), além de muitos nobres, também foi convencido à peregrinação armada. Eugênio III governou a Igreja somente oito anos e cinco meses, e foi beatificado em 1872.
  • 3. Bernardo faz uma alusão aqui ao senhorio, centro territorial do poder feudal.
  • 4. Gn 29, 6ss.
  • 5. 4Reis (Vulgata), 19, 3.
  • 6. Os 10, 11.
  • 7. Jó 6, 7.
  • 8. Ex 7, 13.
  • 9. Ex 18, 18. Trata-se do sogro de Moisés.
  • 10. Isto é, seis da tarde.
  • 11. Mt 6, 34.
  • 12. Sl 19 (18), 3.
  • 13. Jr 5, 3.
  • 14. Jo 6, 11-12.
  • 15. 2Cor 11, 19.
  • 16. 2Cor 11, 20.
  • 17. Is 28, 19.
  • 18. Sl 118, 130.
  • 19. Pr 18, 3.
  • 20. Gl 5, 1.
  • 21. Gl 5, 1.
  • 22. 1Cor 9, 19.
  • 23. Tt 1, 7.
  • 24. Fl 1, 21.
  • 25. 1Cor 7, 23 (“Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate; não vos torneis escravos dos homens”).
  • 26. Lc 20, 1.
  • 27. 1Cor 14, 4.
  • 28. Sl 1, 2.
  • 29. Sl 18, 8.
  • 30. Jo 34, 5.
  • 31. Sl 118, 85.
  • 32. At 9, 6.
  • 33. “Eugênio é exortado a não suportar que o escravizem. O papa deve resistir à maldade destas estultas ocupações através do clamor sincero a Deus. Bernardo o impele a reagir, pois a força do costume leva à despreocupação, e conseqüentemente à dureza de coração, ao pecado. Deve-se querer rechaçar o mal, fazê-lo retroceder, opondo-lhe tenazmente força contrária. Em ambiente tão nefasto, destaca-se a exortação de Bernardo à resistência. Nesse cenário, compreendemos o significado para o abade de Claraval do livre-arbítrio: ser coagido pela iniqüidade é menos miserável do que deixar-se dominar por ela. O permitir pressupõe escolha. E, mais do que isso, escolha consciente. Isso porque a decisão da vontade deve ser precedida de uma reflexão sobre se algo deve ser feito ou não, na ponderação dos motivos; a decisão final procede de um ato livre da vontade. Assim, o livre-arbítrio não é meramente autodeterminação, mas também auto-julgamento.”, SEPULCRI, Nayhara, e COSTA, Ricardo da. “Querer o bem para nós é próprio de Deus. Querer o mal só depende de nosso querer. Não querer o bem é totalmente diabólico: São Bernardo de Claraval (1090-1153) e o mal na Idade Média”. In: Anais do II Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião (ISSN 1981-285x - cd-rom), Belo Horizonte, ISTA/PUC Minas, 2007.
  • 34. 1Cor 11, 22.
  • 35. Ecl 38, 25.
  • 36. 1Cor 9, 22.
  • 37. Jo 10, 33.
  • 38. Mt 16, 26.
  • 39. Sl 77, 39.
  • 40. Rm 1, 14.
  • 41. Ecl 6, 8.
  • 42. Ef 6, 8.
  • 43. Pr 22, 2.
  • 44. Gn 1, 27.
  • 45. Ier 31, 13.
  • 46. Gn 18, 25.
  • 47. Pr 5, 16.
  • 48. Ion 3, 7.
  • 49. Gn 24, 14.
  • 50. Pr 5, 15.
  • 51. Pr 5, 17.
  • 52. Ecl 14, 5.
  • 53. 1Cor 7, 6.
  • 54. Rm 12, 3.
  • 55. Pr 9, 9.
  • 56. 1Cor 6, 5.
  • 57. 1Cor 6, 5.
  • 58. 1Cor 6, 4.
  • 59. 2Tm 2, 4.
  • 60. 1Cor 7, 28.
  • 61. Lc 12, 14.
  • 62. At 5, 27.
  • 63. Mt 19, 28.
  • 64. Jo 13, 16.
  • 65. Prov 22, 28.
  • 66. Lc 12, 14.
  • 67. Jo 13, 14.
  • 68. 1Cor 6, 3.
  • 69. Mt 16, 19.
  • 70. Mt 9, 6.
  • 71. Mt 9, 6.
  • 72. 1Cor 6, 2.
  • 73. Ef 5, 16.
  • 74. 1Tm 4, 8.
  • 75. Jo 28, 28.
  • 76. Sl 45, 11 (“Traqüilizai-vos e reconhecei: Eu sou Deus, mais alto que os povos, mais alto que a terra!”).
  • 77. 1Tm 4, 8 (“A pouco serve o exercício corporal, ao passo que a piedade é proveitosa a tudo, pois contém a promessa da vida presente e futura”).
  • 78. Rm 13, 14.
  • 79. ARISTÓTELES, Retórica, II, 12, 1389b. Nessa passagem, Aristóteles trata do caráter do jovem, e diz: “Em tudo pecam por excesso, e violência, contrariamente à máxima de Quílon: tudo fazem em excesso; amam em excesso, odeiam em excesso e em todo o resto são excessivos; acham que sabem tudo e são obstinados (isto é a causa do seu excesso em tudo)”. O Estagirita cita Quílon (ou Quilão), o Lacedemônio, lendário personagem da história grega, um dos Sete Sábios, talvez vivido no século VI a.C. A máxima “nada em demasia”, atribuída a Quílon, segundo a tradição, figurava no Santuário de Delfos. Naturalmente, Bernardo a cita como um bom exemplo de Aristóteles (chamado por ele e por todos os medievais de “O Filósofo”) a respeito da virtude da temperança. Outro aspecto interessante dessa citação de Bernardo é o fato de a Retórica de Aristóteles só ter sido traduzida no ocidente medieval no século XIII; primeiro por Bartolomeu de Messina (da corte de Manfredo da Sicília), depois por Guilherme de Moerbeke (1215-1286), arcebispo de Corinto e membro da ordem dos pregadores, e, por fim, por Herman, o Alemão (1266-1272), tradutor da Escola de Toledo, o que significa que muito provavelmente Bernardo fez sua citação a partir da leitura de outro autor que, por sua vez, citou a passagem de Aristóteles (talvez Cícero).
  • 80. Mt 7, 12 (“A regra de ouro – Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas”). Na verdade, a passagem bíblica é positiva, pois Jesus inverte essa máxima de comportamento conhecida desde a Antigüidade, especialmente no Judaísmo (Tb, 4, 14-15 “Sê vigilante, meu filho, em todas as tuas ações e mostra-te educado em todo o teu comportamento. Não faças a ninguém o que não queres que te façam”), e a torna uma regra positiva, bem mais exigente que a máxima judaica. Por isso, Bernardo faz aqui, para sermos mais exatos, a citação da tradição vetero-testamentária, e só a seguir, e diz que a perfeição culmina com a sentença do Senhor. Portanto, a tradição judaico-cristã está de acordo com a tradição platônica – Platão coloca a justiça como uma condição sine qua non para a boa convivência entre os homens (Protágoras, 322 b-c) – ao contrário de Aristóteles, que a circunscreve na adequação à Lei, e como aquela que propicia e mantêm a felicidade (Ética a Nicômano V, 1, 1129).
  • 81. Mt 7, 12.
  • 82. Ecl 7, 17.
  • 83. Rm 12, 3 (“Eu peço a cada um de vós que não tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que convém, mas uma justa estima, ditada pela sabedoria, de acordo com a medida da fé que Deus dispensou a cada um.”).
  • 84. Mt 6, 16.
  • 85. Gl 1, 10.
  • 86. “No momento que eu tiver decidido, eu próprio vou julgar com retidão.”, Sl 74, 3.
  • 87. 2Pet 3, 15.
  • 88. Ecl 38, 25.
  • 89. Sl 102, 6; 145, 7.
  • 90. 1Tm 6, 4.
  • 91. Sl 11, 4.
  • 92. Jr 9, 5; Is 59, 3.
  • 93. Is 1, 23; Jr 5, 28.
  • 94. Hebr 7, 23.
  • 95. “Então Jesus entrou no Templo e expulsou todos os vendedores e compradores que lá estavam. Virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: ‘Está escrito: Minha casa será chamada casa de oração. Vós, porém, fazeis dela um covil de ladrões!’”, Mt 21, 12-13.
  • 96. Jo 12, 26.
  • 97. Is 16, 5.
  • 98. Mt 21, 13.
  • 99. Lc 10, 37.
  • 100. 1Cor 9, 19.
  • 101. Ef 5, 16; Col 4, 5.
  • 102. O leitor observará que, neste capítulo dedicado ao fracasso na cruzada, Bernardo aprofunda suas citações bíblicas, como se justificasse a tragédia como uma espécie de predestinação divina, castigo por causa dos pecados dos cristãos.
  • 103. Sl 9, 9; 95, 13.
  • 104. Jl 2, 18.
  • 105. Sl 113, 10.
  • 106. 1Cor 10, 5.
  • 107. Ez 32, 21; 35, 8.
  • 108. Thren 4, 9.
  • 109. Sl 106, 40.
  • 110. “Estão todos desviados e obstinados também: não há um que faça o bem, não há um, sequer”, Sl 13, 3.
  • 111. “Sua terra pululou de rãs, até nos aposentos reais”, Sl 104, 30.
  • 112. Rom 10, 15.
  • 113. Ez 13, 10.
  • 114. Is 17, 14.
  • 115. 2Cor 1, 17.
  • 116. “Quanto a mim, é assim que corro, não ao incerto”, 1Cor 9, 26.
  • 117. Is 58, 3.
  • 118. Is 5, 25.
  • 119. Ex 32, 12.
  • 120. Sl 18, 10.
  • 121. Sl 35, 7.
  • 122. Mt 11, 6.
  • 123. Sl 118, 52.
  • 124. Sl 24, 6.
  • 125. Sl 118, 52.
  • 126. Ex 3, 8.
  • 127. Nm 20, 12.
  • 128. Mc 16, 20.
  • 129. Dt 31, 27.
  • 130. Nm 20, 10.
  • 131. Jo 21, 21.
  • 132. Jo 9, 21.
  • 133. Ez 1, 17; 10, 11.
  • 134. Ex 16, 3.
  • 135. Sl 72, 19.
  • 136. Gl 3, 21.
  • 137. Jz 20, 2.
  • 138. Jz 20, 18.
  • 139. Sl 65, 5.
  • 140. Jz 20, 23.
  • 141. Jz 20, 25.
  • 142. Jz 20, 30.
  • 143. Jo 6, 30.
  • 144. Mt 11, 4.
  • 145. “Considerai a longanimidade de nosso Senhor como a nossa salvação, conforme também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada.”, 2Pd 3, 15.
  • 146. “Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto; por isso, quem a ti me entregou tem maior pecado”, Jo 19, 11.
  • 147. “...a boca dos mentirosos será fechada”, Sl 62, 12.
  • 148. Lc 14, 18-19.
  • 149. “O nosso motivo de ufania é este testemunho da nossa consciência...”, 2Cor 1, 12.
  • 150. “Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por um tribunal humano. Eu também não julgo a mim mesmo. Verdade é que a minha consciência de nada me acusa, mas nem por isto estou justificado; meu juiz é o Senhor”, 1Cor 4, 3.
  • 151. “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem mal, / dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas, / dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo...”, Is 5, 20.
  • 152. “O vento do norte gera a chuva, / e a língua dissimuladora, uma face irritada”, Pr 25, 23.
  • 153. “É por tua causa que eu suporto insultos, / que a confusão me cobre o rosto, / que me tornei um estrangeiro aos meus irmãos, / um estranho para os filhos de minha mãe”, Sl 68, 8.
  • 154. “...pois o zelo por tua casa me devora, / e os insultos dos que te insultam recaem sobre mim.”, Sl 68, 10.
  • 155. Mt 16, 26.
  • 156. Pr 9, 12.
  • 157. 1Cor 13, 2.
  • 158. Jó 38, 16.
  • 159. Lc 6, 49.
  • 160. Pv 9, 12.
  • 161. Pv 5, 15.
  • 162. Eclo 1, 23.
  • 163. Sl 147, 18.
  • 164. I Ts 5, 9.
  • 165. Lc 7, 12.
  • 166. Na Política, Aristóteles define o homem como um animal que tem logos (razão). Os medievais acrescentaram a mortalidade para distinguir o homem do anjo, já que este é um animal racional (isto é, um ser animado), mas imortal. Ver FIDORA, Alexander. “From “Manifying” to “Pegasizing”: Ramon Llull’s Theory of Definition Between Arabic and Modern Logic”. In: PÉREZ MOLINA, Miguel (coord.). Mirabilia 7 – La Tradición Filosófica en el Mundo Antiguo y Medieval, Diciembre 2007, Internet, www.revistamirabilia.com.
  • 167. Sl 49, 13.
  • 168. Sl 83, 11.
  • 169. Jr 1, 10.
  • 170. Gn 41, 51.
  • 171. Lc, 14, 10 (“Pelo contrário, quando fores convidado, ocupa o último lugar, de modo eu, ao chegar quem te convidou, te diga: ‘Amigo, vem mais para cima’”).
  • 172. 2Cor 12, 1.
  • 173. Sl 102, 11.
  • 174. Jr 1, 10.
  • 175. Am 7, 14.
  • 176. “Ora, tu, que ensinas aos outros, não ensinas a ti mesmo!”, Rm 2, 21.
  • 177. Mt 16, 14.
  • 178. “Pois sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril”, 1Cor 15, 10. Nesta passagem, Bernardo recorda ao papa o dever do cristão de buscar a humildade e, para isso, cita Paulo, que afirma que sua conversão apareceu em último lugar, “como a um abortivo”.
  • 179. Mt 11, 9.
  • 180. “Não temos a ousadia de nos igualar ou de nos comparar a alguns que recomendam a si mesmos. Medindo-se a si mesmos segundo a sua medida e comparando-se a si mesmos, tornam-se insensatos. Quanto a nós, não nos gloriaremos além da justa medida, mas nos serviremos, como medida, da regra mesma que Deus nos assinalou: a de termos chegado até vós”, 2Cor 10, 12-13.
  • 181. O Cristo disse: “Seja o vosso ‘sim’, sim, e o vosso ‘não’, não. O que passa disso vem do Maligno”, Mt 5, 37.
  • 182. Mt 20, 6-7.
  • 183. Mt 9, 37.
  • 184. Gl 4, 7.
  • 185. Mt 20,6.
  • 186. Sl 112, 3.
  • 187. Ez 33, 2.
  • 188. 2Cor 11, 28.
  • 189. At 3, 6.
  • 190. At 3, 6.
  • 191. “Eis o que vos digo irmãos: o tempo se fez curto, resta, pois, que aqueles que têm esposas sejam como aqueles que não tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se regozijam, como se não se regozijassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; aqueles que usam desse mundo, como se não usassem plenamente”, 1Cor 7, 29-31.
  • 192. 2Cor 1, 28.
  • 193. 1Pd 5, 2-3.
  • 194. Lc 22, 25.
  • 195. Lc 22, 26.
  • 196. Os 8, 4.
  • 197. Rm 4, 2.
  • 198. Lc 22, 26.
  • 199. Lc 22, 27.
  • 200. 1Cor 2, 8.
  • 201. 2Cor 11, 23.
  • 202. 2Cor 11, 23.
  • 203. 2Cor 11, 23.
  • 204. 2Cor  11, 30.
  • 205. Ecl  45, 2.
  • 206. Sl 138, 17.
  • 207. Gl 6, 14.
  • 208. 2Cor 11, 23.
  • 209. 1Cor 15, 10.
  • 210. 1Cor 3, 8.
  • 211. 1Cor 15, 10.
  • 212. Lc 14, 22.
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